/0/18996/coverbig.jpg?v=60ce861af6f210fe156f1019dfd5bc26)
Ximena Griffin não sabia quantas vezes havia discado o número de Ramon Mitchell na última hora, mas todas as tentativas foram em vão.
Ela acabara de dar à luz o filho dele. Como ele podia ser tão insensível?
O cobertor branco do hospital se amassava em suas mãos, a visão embaçada. Ela mordeu o lábio inferior com tanta força, de tanta exasperação, que a pele se rompeu e o sangue apareceu. Lá fora, ouvia-se fracamente alguém exigindo que o médico mantivesse o bebê vivo. Naquele momento, lembrou-se: hoje era o casamento dele com outra mulher.
Sabia que Ramon só queria ficar com a criança, não com ela.
Ele já tinha até um nome para o recém-nascido e uma nova mãe para substituí-la.
Que absurdo!
Segurando as lágrimas e suportando a dor excruciante que tomava conta do corpo, Ximena apertou o bebê contra o peito.
De repente, a porta da sala de parto se abriu pelo lado de fora. Um grupo de pessoas invadiu o ambiente, entre elas, Melanie Griffin.
A cor desapareceu do rosto de Ximena. Ela puxou o filho para mais perto e lançou um olhar de fúria para as pessoas à sua frente.
Melanie a encarou com desdém e falou, pontualmente: "Me dê o bebê, Ximena. É o que você deve à minha irmã. Se algo acontecer com essa criança, Ramon vai matar você."
"Eu não fiz nada contra a Lyla!" Ximena retrucou, a voz carregada de força.
Impávida, Melanie zombou: "Isso não importa mais. Se Ramon acredita que a culpa é sua, então a culpa é sua! Me entregue o bebê. Ele vai ajudar Lyla a entrar para a família Mitchell e se tornar a esposa dele. Minha família vai comemorar. Quanto a você... vai apodrecer na cadeia pelo que fez com ela!"
"Não! Não tenho nada a ver com o que aconteceu com sua irmã! Você não pode levar meu filho!" Ximena se recusou, veemente.
Ela era inocente! Por que Ramon acreditaria naquela bobagem e a castigaria assim?
Era uma injustiça! Carregara a criança em seu ventre por nove meses e a amava de todo o coração. Nunca permitiria que a levassem.
Com as mãos trêmulas, Ximena pegou o celular e discou o número de Ramon repetidamente, sem sucesso. Por fim, a linha dele foi desligada.
Melanie escarneceu: "Acha mesmo que Ramon vai atender? Pare de sonhar. Você nunca passou de uma ferramenta para ele. Agora que cumpriu seu papel e teve o bebê, ficou inútil. Ramon se divorciou de você porque sentia nojo, e prefere se casar com Lyla, mesmo ela vegetando, a ficar com você. Acorde, Ximena. Ramon nunca a amou."
As palavras de Melanie fizeram o coração de Ximena se estilhaçar. Não conseguia acreditar que Ramon fosse capaz de tanta crueldade. Os dois anos de casamento não significaram nada para ele, e ela não passara de um degrau para Lyla ascender à família Mitchell!
Subitamente, uma dor aguda se espalhou pela parte inferior do abdômen. Ximena gemeu, entre o horror e o choque. Parecia que seu corpo todo estava sendo rasgado. Então, sentiu o sangue escorrer pelas coxas, descendo pelas pernas até manchar o piso branco. A respiração ficou ofegante, como se fosse desmaiar a qualquer instante.
A enfermeira deu um suspiro ofegante e gritou, em pânico: "Ela está tendo uma hemorragia!"
Melanie apenas observou Ximena desfalecer lentamente no chão e ordenou: "O que estão fazendo aí paradas? Peguem o bebê! Rápido, ou todos vão se arrepender!"
A criança nos braços de Ximena foi arrancada às pressas.
Ximena desmaiou e caiu no chão, o sangue formando uma poça ao seu redor, mas ninguém do grupo que invadira a sala pareceu importar-se.
Informados sobre o estado de Ximena, a equipe cirúrgica do hospital correu para preparar um termo de consentimento para operá-la, mas ninguém se dispôs a assinar.
Todos sabiam que Ramon não amava Ximena. Ela e o filho eram apenas peões para ajudar a amada de Ramon, Lyla Griffin, a casar-se com um Mitchell.
Ninguém se importava com a segurança dela, pois Ramon já a tinha descartado. Para aquelas pessoas, sua morte seria um desfecho muito mais conveniente.
Pouco depois de Ximena ser levada à sala de emergência, o médico saiu e anunciou, com desânimo, que ela não tinha mais sinais vitais. Melanie não pareceu surpresa e saiu imediatamente com o bebê.
As luzes fortes do corredor acentuavam o vermelho do sangue de Ximena no chão.
Ao lado, jazia o termo de consentimento negligenciado, manchado de sangue.
Contudo, mal Melanie e os outros se foram, o atendente médico saiu correndo da sala de emergência e disse ao doutor: "Temos um problema, doutor! A paciente... ainda há mais dois bebês no útero dela..."
Quatro anos após aquele dia fatídico, um menino adorável estava sentado em silêncio em seu quarto, na mansão da família Griffin.
O garoto tinha olhos profundos e uma expressão fria, o que lhe dava um ar de maturidade além da idade. Tudo em seu rosto parecia perfeito, exceto pela marca tênue de um tapa na bochecha.
A porta subitamente se abriu, revelando Melanie com um vestido vermelho de alta-costura e saltos finos.
A maquiagem impecável não escondia a irritação ao ver o menino ainda sem trocar de roupa para o evento. "Os convidados estão aqui, Neil. Vista sua roupa social agora e venha comigo."
"Não vou sair", respondeu Neil Mitchell, com frieza.
Melanie franziu a testa, aproximando-se do garoto com passos zangados. "Eu disse para você vestir a roupa agora!"
"Não quero!" Neil encarou-a, a face inchada bem visível.
Melanie ferveu de raiva. Seu olhar ardente caiu sobre o castelo de Lego que Neil construíra, e ela o derrubou com a mão, provocando um estrondo.
Neil observou, incrédulo, enquanto o brinquedo se esfacelava no chão. Lágrimas brotaram instantaneamente em seus olhos. Enxugando-as, ele gritou: "Tia Melanie! Passei a noite toda montando isso. Por que você derrubou?"
Ouvir a palavra "tia" deixou Melanie ainda mais furiosa. Era um lembrete constante de que tudo o que conseguira até ali devia-se a Neil.
Com os olhos gelados, ela disse: "É o que você merece por ser teimoso. Agora, desça."
"Eu odeio você!" Neil sibilou, pegando as roupas sociais do chão e arremessando-as na direção de Melanie.
Imediatamente, ela agarrou seu pulso e encarou-o nos olhos. "Ouça bem, Neil. Você estaria num orfanato se não fosse por mim. Então, não me importo se você me odeia, mas vai ter que aguentar até o fim da festa e até o último convidado ir embora. Caso contrário, vou mandá-lo direto para o orfanato!"
Era a primeira vez, em quatro anos, que Ramon organizava uma grande festa de aniversário para Neil.
Mas, para Melanie, aquela era uma oportunidade preciosa de se aproximar dele depois de tanto tempo. Jamais permitiria que aquele garoto teimoso estragasse seu futuro.
"Se não quer descer, então fique aí para sempre e não apareça mais!" Melanie saiu do quarto em um rompante e trancou a porta por fora.
Imediatamente, o medo tomou conta do rosto de Neil. Da última vez que fora trancado, ficara apavorado porque tudo era escuro e assustador, e só tinha ratos como companhia. O trauma foi tão grande que ele desenvolveu fobia de ficar sozinho e no escuro.
O pobrezinho correu até a porta fechada e começou a bater nela com as mãozinhas, chorando e suplicando: "Tia Melanie, me desculpe! Por favor, abra a porta! Não quero ficar sozinho! Estou com medo! Eu prometo me comportar! Tia, por favor!"