"De todas as aberrações sexuais, a mais singular talvez seja a castidade".
Rémy de Gourmont
– Até pouquíssimo tempo atrás, eu era o ser humano mais medíocre da face da Terra. Tímida,
insegura, presa em um empreguinho que me impedia de mostrar meu potencial, vítima de um severo
transtorno obsessivo-compulsivo e completamente insatisfeita sexualmente. Então uma coisa
aconteceu: ele apareceu.
Sorri.
– Sim – balancei a cabeça afirmativamente. – Homens podem fazer isso com a gente. Onde vocês
se conheceram?
Agora era ela quem sorria.
– Em um sonho.
Questionei sua afirmação com o olhar, afinal ela não me parecia uma romântica sem fundamentos.
– Sim, doutora. Em um sonho. É exatamente isso que a senhora ouviu. Não sei se foi uma
alucinação, um desejo do inconsciente ou obra do sobrenatural. Não sei o que aconteceu. Mas ele
perturbou meu sono por semanas – ela fechou os olhos como se estivesse revivendo uma memória
particularmente deliciosa. – Eu ainda me lembro da primeira vez que ele veio na minha cama.
***
Meus dias eram sempre iguais. Levantava, ia trabalhar, voltava, dormia... Nunca fazia nada
diferente ou especial. Nunca. Pelo contrário, a rotina era a única coisa que me agradava. Por meio
dela eu tinha uma falsa sensação de controle que achava muito confortável. Assim que qualquer coisa
saísse da minha normalidade, por mais ínfima que fosse, eu entrava em desespero. Não sabia lidar
com o inesperado e fazia o possível e o impossível para evitá-lo.
A primeira vez que ele apareceu em meus sonhos foi após um dia particularmente infernal.
Lembro-me de ter entrado em casa batendo a porta atrás de mim. As palavras agressivas de um
colega de trabalho continuavam girando em minha mente... "ela é só uma malcomida". Odiei aquela
expressão. Odiei o homem que a pronunciou. O que eu iria fazer? Gritar com alguém não era do feitio
de uma pessoa com o meu nível de passividade. Mas eu estou me adiantando nos fatos.
Trabalho como assistente editorial para uma editora tradicional, a Manuscrito Editorial. Nunca
tive talento para escrita, mas sempre fui viciada em literatura. Assim que saí da faculdade, tinha o
sonho de descobrir a próxima Amélie Nothomb. Nos meus devaneios diários, eu nunca ousei sonhar
que conquistaria algo, tamanha era a minha baixa autoestima, mas sonhava que encontraria pessoas
que seriam autoras de gigantescas realizações. E eu, por tê-las descoberto, teria sua gratidão eterna e
uma incondicional amizade.
Era uma quinta-feira e as sinopses de obras recém-recebidas estavam me esperando em cima da
minha mesa. Meu trabalho sempre era conduzido com o máximo de presteza e perfeccionismo, mas
isso nunca me garantiu qualquer promoção ou posição privilegiada dentro da empresa. Eu ressentia
meus superiores por isso... mas o que eu poderia fazer?
Passei os dedos pelas folhas de papel.
– Com licença – não sei por que Vicent insistia em pedir licença quando se aproximava da minha
mesa. Ele aparecia do nada e começava a falar como se eu não tivesse qualquer outra ocupação na
vida a não ser ouvi-lo. – Meu relatório sobre o manuscrito do Igor. Revise e repasse pro pessoal da
diagramação, sim?
E, sem nem ao menos um "bom dia" ou "até logo", ele se foi. A educação de Vicent se reduzia ao
seu "com licença" inexpressivo. Vicent era um dos membros da nossa equipe de edição. Ele lia e
relia manuscritos várias vezes para encontrar falhas e para passar sugestões tanto ao pessoal de
revisão quanto ao pessoal de diagramação sobre como tornar o texto mais encantador aos leitores. Eu
esperava profundamente que dessa vez seus relatórios fossem inteligíveis, ao contrário das
coletâneas de informações genéricas que ele geralmente jogava em uma folha de papel A4 semana
após semana. O Caminho atrás da casa, de Igor Bolt, era o nosso manuscrito estrela do semestre,
mas as correções que Vice fazia eram sem nexo. E por "sem nexo" eu quero dizer idiotas.
Era a terceira vez que ele tinha que refazer o relatório em um período de cinco dias; todas as
vezes, por um pedido meu. Esperava que dessa vez estivesse bom o suficiente para ser repassado, já
que eu não teria coragem de pedir mais uma vez.
O dia se passou sem horas suficientes para que eu terminasse tudo o que precisava ser feito, e
papéis e mais papéis não paravam de se acumular em cima da minha mesa.
– Bom dia, linda – Colin tocou em meu ombro e eu senti um arrepio passar pelo meu corpo. Abri
um largo sorriso, mas ele já tinha saído. Ele sim era um homem educado e encantador. A linha de
chegada para a qual todas as mulheres corriam.
Ele seguiu direto para a copa distribuindo cumprimentos e sorrisos. Espreguicei-me na cadeira
tentando estalar a coluna e pensei que esse poderia ser um bom momento para uma pausa para um
café.
Passei os dedos pelos cabelos em uma tentativa inútil de arrumá-los. Respirei fundo e me dirigi
para a copa. Era agradável ter esses pequenos encontros sociais com o Colin, pois ele tinha um jeito
charmoso de soltar comentários simples que faziam com que eu me sentisse especial.
Mal coloquei a mão na porta vaivém e escutei a voz rasgada de Vicent sorrindo lá dentro:
– ... umas seis horas. Vamos, Colin! Vai ser divertido.
– Talvez. Pode ser que eu chegue um pouco atrasado, tenho muito trabalho hoje. E você? Já
terminou tudo?
– Já. A não ser que aquela mulherzinha irritante me faça ter que começar tudo de novo.
A grande quantidade de risadas que ecoaram lá dentro deixou claro que Vicent tinha uma plateia
considerável.
– Do jeito que você escreve, eu fico impressionada que não te façam revisar tudo! – brincou uma
voz feminina.
– Muito engraçado – Vicent devolvia a brincadeira. – Confesso que a caneta não é minha
ferramenta preferida – insinuou.
– E qual seria sua ferramenta preferida? – a mulher pronunciava as palavras como se elas
derretessem na sua boca.
– Ah, meu bem – era quase um sussurro. – Se você tiver um tempinho será um prazer te mostrar.
Mais risos.
– Acho que você devia focar seus agrados na Nahia, Vicent. Ela definitivamente não gosta de
você, hein?
As risadas imperavam no pequeno ambiente enquanto Vicent concluía:
– E aquela ali não precisa de muito, não. Malcomida do jeito que é... Só preciso dar um sorrisinho
e ela vai se derreter com a atenção.
Voltei pra minha mesa sem sequer anunciar minha presença. Tive vontade de mandá-lo refazer
tudo, só de birra. Mas, infelizmente, dessa vez o relatório estava bom o suficiente. Terminei o que
tinha que fazer e voltei para casa. Esperar o elevador estupidamente lento do escritório tinha sido
quase impossível. Tive que engolir minha covardia junto com as lágrimas todo o caminho até o meu
lar, doce lar. Descarreguei minha frustração na porta. Coloquei a bolsa em cima da poltrona verde
que ficava do lado da entrada e depois alinhei o celular, as chaves e minha caneta favorita no
aparador de madeira ao lado da poltrona.
Tomei banho como se estivesse tentando exorcizar algum demônio que tinha entrado no meu corpo
através da minha pele. Malcomida, malcomida, malcomida. Tentei ler, tentei assistir televisão, tentei
jantar, tentei alinhar e realinhar os itens em cima da minha penteadeira. Mas nada tirava a voz
irritante de Vicent dos meus ouvidos. Duas pequenas palavras e eu tinha perdido o controle.
Lavei as mãos e o rosto, sentei na cama, limpei os pés, coloquei primeiro o pé direito em baixo
das cobertas. Tive vontade de levantar da cama e fazer tudo de novo, mas fiquei deitada com o
edredom em cima da cabeça e os olhos apertados.
Demorei muito para conseguir pegar no sono, mas quando finalmente consegui, o sonho começou
sem que eu percebesse.
Eu estava na copa de frente para Vicent.
– Com licença, Nahia – ele sorriu. – Você quer que eu te mostre minha ferramenta favorita? – ele
se aproximou e eu senti nojo. Coloquei meus braços estendidos diante de mim como um escudo
contra seu toque. Virei-me de costas e pensei em correr.
– Calma! Não vá ainda! – era outra voz que falava agora. Era uma voz suave e encantadora. Olhei
de volta. Vicent tinha sumido, o homem atrás de mim era alto e atlético, usava uma camisa de time de
basquete e um cabelo loiro curto penteado com um topete discreto. Seus olhos eram verdes e
profundos e ele tinha um cheiro delicioso.
Olhei ao redor. Estava incrivelmente ciente de mim e do meu corpo. Sim, eu sabia que estava
sonhando. Mas não era como qualquer outro sonho que já tive em minha vida. Eu estava no controle
das minhas ações. Mas aquele homem na minha frente... ele estava completamente fora do meu
controle. Seja lá quem fosse, não era minha mente quem o tinha criado.
– Eu precisava testar você, primeiro – ele sorriu e eu tive vontade de devolver o sorriso. –
Precisava saber se você aceitava realmente qualquer tipo de atenção ou se tinha limites. Mas você
vê? O idiota estava errado. Você não se derrete por qualquer atenção. Você sabe dizer "não".
Eu o observei e abri a boca. Queria falar algo, mas não sabia o quê. Então decidi fechar a boca e
deixar que ele continuasse.
– É importante dizer "não", Nahia. Saber dizer "não" é o primeiro passo para saber dizer "sim".
Entende? Porque se você não consegue recusar algo, como saber se o que você aceitou foi por opção
ou por falta de capacidade de negar?
Certo, já era demais.
– O que é isso? Quem é você? E qual é a da aula de autoajuda?
Ele se aproximou e pegou minha mão.
– Eu sou um amigo. E eu vim pra te ajudar a se descobrir – ele estava muito perto agora e sua boca
estava quase no meu ouvido. – E se você decidir me ouvir, nós vamos partir para uma deliciosa
aventura juntos.
Sua voz era sedutora e penetrante, mas havia um som ensurdecedor envolvendo minha mente,
gritando "malcomida" nas mais variadas entonações. Meu amigo segurou meu rosto nas mãos,
observou meus olhos com uma delicadeza infinita e sorriu.
– Você só é malcomida se escolher maus homens para te comer. E nós já vimos que você sabe
dizer não para maus homens, não é?
Eu não sabia se ficava ou não ofendida. Ele estava sendo grosseiro com as palavras, mas seu tom
era tão delicado que beirava a mais absoluta das contradições. E além do mais... ele era um sonho.
Como ficar ofendida com um sonho?
– Agora só precisamos te ensinar a dizer sim para um bom homem.
Baixei meus olhos e encarei o chão.
– O problema é que bons homens não dizem "sim" pra mim.
Ele levantou meu queixo e alisou minha boca com o polegar.
– Dizem sim. Não é culpa deles se você não está escutando – ele desceu o polegar da minha boca
traçando uma linha ao longo do meu pescoço até chegar aos meus seios. Ele tinha um sorriso que
fazia minhas pernas tremerem e um cheiro... por Deus! Aquele cheiro... Ele cheirava a perfume, suor
e sexo. Se todos os homens do mundo tivessem aquele cheiro, as mulheres gozariam no meio da rua.
Eu me deixei abraçar e percebi que estava nua. Meus braços correram para tentar cobrir minha
nudez, mas ele me tinha segura em um abraço envolvente e não permitiu que eu me escondesse.
Respirei fundo e lembrei que era só um sonho. Não precisava ter vergonha de um sonho.
– Agora é a parte que você diz que eu sou a mulher mais linda que você já viu? – perguntei
descrente.
– Você não é a mulher mais linda que eu já vi.
Engoli em seco. Se ele estava tentando me seduzir, aquele comentário não tinha sido muito
apropriado.
– Oh – foi tudo que consegui dizer.
– Se você não se acha bonita, Nahia... Por que eu deveria achar?
Não importava se ele era um sonho. Eu estava ofendida. Tentei me livrar do seu abraço, mas agora
ele também estava sem camisa e aquele odor divino que ele exalava parecia estar ainda mais forte.
Seu tórax era definido e rígido, suas mãos largas tocavam cada centímetro do meu corpo como se
já conhecessem perfeitamente cada uma de minhas curvas. Passei os dedos em seu peito e senti a fina
cicatriz vertical na altura do seu coração. Eu queria que ele se afastasse para que eu pudesse
observar seu corpo, mas ele segurou meus cabelos e puxou meu rosto para si. Sua boca era ao mesmo
tempo gentil e possessiva. Eu me apoiei em seus ombros e me entreguei.
Ele provocava um de meus mamilos com o polegar e o indicador enquanto, com o outro braço, me
mantinha presa pela cintura. Sua boca encontrou meu pescoço e seus lábios traçaram uma trilha suave
até meus seios. Eu sentia a umidade entre minhas coxas, uma manifestação do meu corpo que gritava
de desejo. Meu mamilo rígido como uma rocha estava dentro de sua boca, entre seus dentes.
Fechei os olhos.
Meu corpo não tinha mais forma ou controle. Era só desejo e sensação. O desejo de que aquela
boca continuasse a me sugar e chupar, a sensação daquela língua, daqueles lábios. Senti uma de suas
mãos abandonando meus seios, seu toque descendo pelo meu estômago, e então seus dedos estavam
lá. Macios, ágeis e delicados, tocando-me e estimulando em um local particularmente íntimo e
maravilhoso.
Senti cada centímetro da minha pele se preparar para a explosão de orgasmo que inevitavelmente
viria.
E então, ele parou. Suas mãos voltaram para minha cintura. Sua boca voltou para o meu ouvido.
– Você precisa aprender a dizer sim.
– Sim – eu murmurei, exasperada de indignação e desejo. Por que ele tinha parado?
– Só isso? – ele disse, rindo.
Minha respiração trêmula não parecia ser capaz de me obedecer.
– Por favor... – enfiei minhas mãos em seus cabelos e encarei seus olhos verdes. Por favor, não
faz isso comigo, pensava.
Ele fez que não com a cabeça. Segurou meu queixo com violência e eu senti minhas coxas
encharcarem.
– E por que eu iria querer uma mulher que precisa pedir?
Suas mãos me abandonaram e ele estava indo embora.
Malcomida, malcomida, malcomida.
Senti vontade de chorar, de gritar, de acordar... Eu era ignorada durante o dia mais do que podia
suportar, o sexo que eu tinha experimentado até aqui tinha sido pífio.
Malcomida do jeito que ela é...
Já bastava a insatisfação que eu tolerava durante o dia.
Só preciso dar um sorrisinho...
Era isso que os homens pensavam? Que eu me derretia para qualquer um? Que eu aceitava um
homem que se deita e goza em cima de mim sem se preocupar em me satisfazer? E que estava tudo
bem?
Chega.
As lágrimas de raiva estavam chegando. Mesmo que fosse só um sonho, eu me recusei a acordar
insatisfeita. Dessa vez não.
Andei até ele o mais rápido que pude, antes que minha coragem me abandonasse.
– Não! – segurei seu braço e o forcei a se virar de volta. – Você não vai fazer o que quiser e ir
embora – eu falava sem respirar. – Você vai fazer o que eu quiser – minha boca estava a centímetros
da dele, meu tom de voz beirava o sussurro. Eram todas as forças que me restavam. – Você vai
terminar o que começou e só vai parar depois que eu tiver gozado muito, muito gostoso.
Ele arregalou os olhos e me ofereceu um sorriso de satisfação.
– Agora sim – ele me pegou pela cintura e me forçou contra o chão. Nem sequer tive tempo para
pensar e ele tinha a boca, mais uma vez, furiosamente em meus seios. Suas mãos se arrastavam pela
minha pele cobrindo toda a extensão do meu estômago. E tão subitamente quanto começou, ele parou,
invertendo a posição. Agora ele tinha meus mamilos entre os dedos e estava chupando e lambendo
um ponto delicioso entre as minhas coxas onde antes os seus dedos brincavam.
– Isso... Bem aí...
Ele me beijava como se fosse minha boca e não outra parte do meu corpo que ele estivesse
explorando com a língua. Segurei seus cabelos para mantê-lo bem ali.
Mas seja lá que tipo de sonho fosse esse, eu, definitivamente, não estava no controle. O controle
era dele. Era todo dele. E com um último beijo delicado e superficial, ele se desvencilhou do meu
toque e se afastou.
– Mas... mas... – meu raciocínio me abandonou. Que tipo de pesadelo sádico e sacal era esse?
Ele passou o polegar no meu lábio inferior e me beijou. Senti meu gosto na boca dele. Queria
ordenar para que ele voltasse e não parasse até eu mandar. Mas eu já tinha usado minha pouca
determinação até a última gota. Agora era a hora de aceitar minha frustração. Não consegui esconder
uma careta de indignação.
– Não fique frustrada, querida – ele falava em um sussurro, sem nunca abandonar a iminência de
um beijo, seus lábios raspavam nos meus. – Nós ainda vamos nos divertir muito, eu e você – ele
sorriu com aquela boca maravilhosa. – Isso é só o começo.
"Os mais belos vestidos servem para ser retirados."
Jean Cocteau
Fiquei batendo a ponta da minha caneta favorita no teclado em movimentos rítmicos e fingindo que
estava lendo o longo texto na tela do computador. Se alguém estivesse me observando com cuidado,
notaria que eu não descia a barra de rolagem há algum tempo. Mas ninguém estava me observando.
Ninguém nunca me observava.
Tirar aquele homem da cabeça tinha sido uma tarefa particularmente impossível. Eu sabia que era
só um sonho, mas não era um daqueles que vira uma névoa confusa e transparente assim que você
acorda e que, antes da hora do almoço, já desapareceu completamente sem deixar quaisquer
vestígios. Não... Não ia conseguir esquecê-lo tão cedo, de modo que acabei resolvendo aceitar que o
dia não seria produtivo.
Mirella veio até minha mesa pela terceira vez no dia pedir a mesma coisa. Não consegui evitar o
pensamento: Que inferno! Quando eu sou a pessoa mais trabalhadora dessa droga, ninguém nota.
Nenhum parabéns para Nahia. Mas é só eu ter um dia ruim e todo mundo está lá para apontar o dedo.
– Espero não estar incomodando, mas é porque realmente preciso disso pra ontem – ela sorriu
com falsidade.
– Não, de modo algum. Acho que não estou muito bem hoje.
Colin passou nos cumprimentando. Eu ia devolver o olá, mas algo no jeito que ele e Mirella
sorriram um para o outro e o modo como ele deu um beliscão carinhoso em seu braço e lhe ofereceu
uma piscadela pouco inocente me disseram que o cumprimento tinha sido muito mais para ela do que
para mim.
Mirella se virou e se foi. Se ela tinha estado preocupada com o meu bem-estar, ela certamente
escondeu a preocupação muito bem.
Joguei meu queixo na palma da mão e contei os segundos pra sexta-feira acabar. Os minutos
ficavam cada vez mais longos. Agora, não só a imagem do meu irreal visitante noturno dançava na
minha mente, afastando minha concentração, mas também sempre que Colin se aproximava da mesa
de Mirella (que, para a minha infelicidade, era estrategicamente posicionada alguns metros à minha
esquerda), eu parecia incapaz de fazer qualquer outra coisa fora observá-los. Em uma ocasião, ela
me olhou de volta e eu fingi estar particularmente interessada na primeira coisa que vi: um cinzeiro
de vidro que nunca tinha sido utilizado. Devo ter ficado instantaneamente vermelha, como era do
feitio das minhas bochechas traidoras, porque quando arrisquei uma olhada para cima, Mirella estava
me encarando com um sorriso arrogante e satisfeito, que só aparece em lábios de mulheres que sabemque têm o que outras apenas desejam.
O ponteiro dos minutos se aproximava do 12, indicando que o turno estava acabando. Como a
funcionária exemplar dentro de mim que só ia embora quando o trabalho estivesse concluído estava
dormindo profundamente, resolvi sair assim que o grande relógio azul na parede marcasse 18h.
Estando o trabalho concluído ou não.
Fechei minhas gavetas, desliguei o computador, desejei um bom fim de semana para a faxineira
Ana Maria e seu aspirador barulhento. A porta do elevador estava fechando e eu corri para alcançálo. De jeito nenhum eu ia passar meia hora esperando aquela porcaria subir de volta. Enfiei o braço
na abertura que se fechava preguiçosamente e, assim que tocaram minha pele, as portas de metal se
abriram mais uma vez.
Três colegas estavam lá dentro e me cumprimentaram com a cabeça ou com os olhos. Matt era um
garoto de estatura mediana e olhos cinza, o novato para quem todos sempre empurravam as tarefas
menos agradáveis. Todos menos eu. Mirella estava lá, em toda a imponência de seus longos cabelos
de cachos dourados e seus olhos verdes. Pendurada no ombro de Colin, ela dizia algo em voz baixa.
Virei de frente para o painel e foquei os olhos no grande T iluminado. "Ignore-os, Nahia", disse
para mim mesma. A voz melodiosa de Mirella atrás de mim tentava ser discreta – ou fingia tentar –,
mas era perfeitamente audível ainda assim.
– Umas oito horas, pode ser?
– Pode. Claro.
– Obrigada pela carona. Eu iria sozinha, mas não tenho certeza se sei o caminho.
– Eu te pego. Não é problema algum. Além do mais, não gosto de chegar nesses lugares sozinho.
Eles riram um para o outro e eu respirei fundo.
Minha porta ia receber minha frustração mais uma vez. Claro, não era culpa dela, então me
segurei. Não era culpa de Mirella ou Colin. Não era culpa de ninguém. Era culpa minha. Todas as
minhas frustrações. A pessoa só pode se frustrar quando tem expectativas e eu tinha expectativas
demais e ações de menos.
Alinhei minhas posses no aparador e me joguei embaixo do chuveiro. A água quente escorreu pelo
meu corpo com delicadeza e eu me lembrei do toque do meu visitante. Meu amigo no sonho. Talvez
eu fosse dormir e sonhasse com ele de novo. Sim... isso seria bom.
Enxuguei meus braços e procurei um pijama confortável. Ia comer bobagens sentada no sofá
assistindo à reprise de algum seriado de comédia e dormiria lá mesmo.
Vesti o pijama e observei a mim mesma no espelho de corpo inteiro no canto do meu quarto e, de
repente, senti uma raiva imensa. Não de Colin, Vicent, Mirella, do elevador ou da minha porta. Senti
raiva de mim. Lá estava eu, vestindo pijamas confortáveis e preparada para mais uma noite de
autocomiseração.
Você tem que aprender a dizer "sim".
Olhei determinada para o meu reflexo e arranquei o pijama. Se meus colegas de trabalho podem se
divertir sexta à noite, eu também posso.
Mordi meu lábio inferior com a excitação do momento. Vesti uma saia colada e uma blusa com um
decote profundo. Usei quase todos os itens do meu estojo de maquiagem e penteei meus longos
cabelos negros. Sorri para mim.
Okay, Nahia... Vamos lá!
***
Sentei em um banco elevado beirando o bar e comecei a me arrepender do que fiz. Não tinha
amigos do tipo que saem pra bares e vir sozinha tinha sido uma péssima ideia. Tentei me lembrar da
coragem que senti quando resolvi arrancar o pijama e do meu reflexo determinado me olhando de
volta. Mas nenhuma das duas lembranças era clara o suficiente e eu fiquei ali sentada, em silêncio,
tentando não ficar no caminho de ninguém.
O lugar estava apinhado de gente. Aparentemente tinha um jogo de basquete acontecendo e um
grupo de torcedores estava reunido ali. A partida terminou e os fãs começaram a esvaziar o local
assim que o comentarista anunciou a derrota do time da casa. Olhei ao redor, a calmaria tornou o
lugar bem mais agradável.
Dei mais um gole na taça de vinho e respirei fundo. Certo... quanto tempo ainda teria que ficar ali
até provar para mim mesma que eu podia fazer isso? Seja lá quanto tempo fosse, eu esperava que não
demorasse muito. Assim, eu poderia correr de volta para minha casa, para o meu chuveiro e a
segurança do meu edredom.
– Longo dia?
A voz não era familiar, e de início não achei que estivesse falando comigo. Levantei os olhos
despretensiosamente e quase congelei onde estava.
Ele estava ali. O homem que eu tinha visto no meu sonho. O mesmo rosto, os mesmos olhos verdes,
o mesmo cabelo loiro, o mesmo topete. Maldição. Até a camisa de basquete era a mesma.
As palavras fugiram e eu fiquei ali prendendo a respiração. Ele sorriu confuso.
– Ah...Você tá legal?
Acho que devo ter balbuciado algumas coisas sem sentindo antes de finalmente conseguir dizer:
– Não. Não. É só que... – olhei ao redor para me certificar de que ele estava realmente falando
comigo e não com alguém atrás de mim. – A gente se conhece de algum lugar? Você é muito familiar.
Ele se virou no banco elevado na minha direção.
– Isso foi uma cantada? – sorriu.
– Não! Não! – abanei as mãos na minha frente em rendição. Esperava profundamente que ele não
tivesse entendido errado. Mas uma voz lá no fundo da minha mente, uma voz que definitivamente não
era minha, recitou "E qual o problema se fosse uma cantada?".
– Certo – ele acenou em compreensão. – Não foi uma cantada – brincou com minha negativa
enfática, antes de voltar para sua cerveja. – Uma pena.
Bebi um longo gole de vinho. Será que ouvi direito? Por acaso ele teria dito que era uma pena eu
não estar dando em cima dele?
Você tem que dizer "sim" para o homem certo.
Respirei fundo. Passei as mãos nos cabelos. Vire-se para ele, Nahia. Sorria. Puxe algum assunto
interessante. Eu repetia as informações para mim mesma como um mantra. Mais um pouco de vinho e
me virei. Não conseguia pensar em nada interessante para dizer, mas estava plenamente consciente
do sorriso estúpido que deveria estar plantado na minha cara. O sorriso estúpido que ele sequer
chegou a ver, porque acabou sua cerveja e se levantou. Vi suas costas enquanto ele caminhava em
direção ao banheiro.
Minha mente começou a argumentar comigo em uma tentativa desesperada de quebrar minha
inércia. Certo, Nahia. Ele vai voltar. E quando ele voltar você vai fazer algo louco. Vai dar em cima
dele e vai dizer sim. É! Vai fazer isso, sim. E ou vai dar certo, ou vai dar errado. E se der errado, o
que é o pior que pode acontecer?
Bem, ele pode ser um estuprador psicopata.
Ótimo! Então, ele vai te comer bem gostoso. Hã? Essa não era minha voz. Não era minha mente.
Minha consciência nunca me dizia coisas desse tipo.
O loiro na camisa de basquete estava de volta. Ia estar ao meu lado mais uma vez em poucos
segundos. Olhei para frente e tentei me recompor. Os segundos passaram e ele não chegou. Arrisquei
olhar para trás. E lá estava ele. Tinha encontrado uma mesa com duas garotas, estava sentado,
conversando e sorrindo.
A frustração tomou conta de mim mais uma vez. O que eu podia fazer agora? Passei a mão nos
cabelos e terminei minha taça de vinho. Levantei e coloquei o dinheiro em cima do balcão. Uma boa
gorjeta para o garçom e um "boa noite" atravessado.
Olhei uma última vez para a mesa com as duas mulheres. Mas elas estavam sozinhas, o homem
loiro estava de pé mais uma vez. Estava voltando para o balcão.
Eu estava de pé. Nahia! Ou você sai do bar, ou senta de volta na cadeira! Só não fique aí em pé
com essa cara de pastel e com essas bochechas explodindo. Eu queria obedecer minha consciência,
juro que queria. Mas estava parada. Meu corpo queria fugir dali, a começar pelas minhas bochechas
vermelhas e desesperadas. Mas tinha algo dentro de mim que me segurava de pé. Talvez eu pudesse
explicar para ele o meu problema.
Vai dizer o quê? A voz dele estava de volta em meus ouvidos. Sussurrando instruções e sugestões.
Estou insatisfeita e malcomida. Será que o senhor pode me ajudar? Eu queria que ele parasse de
falar, tudo aquilo não estava fazendo bem para as minhas bochechas, nem para as minhas pernas
frouxas que não paravam de tremer.
A voz voltou para mim mais como uma lembrança. E por que ele iria querer uma mulher que
precisa pedir?
Eu podia fingir que era um sonho. Na noite passada, consegui ir até ele e dizer o que eu queria, não
consegui? E por que agora não?
Não sei de onde minhas pernas tiraram coragem para se mexer, mas eu as agradeci eternamente por
isso. Dei dois passos em direção a ele, e senti minha boca tremendo. Mas havia algo novo dentro de
mim, algo forte que não ia me deixar desistir.
– Olá – ele me cumprimentou. Sua expressão era confusa mais uma vez.
– É o seguinte – eu tinha que dizer de uma vez ou não ia dizer nada. – As pessoas têm necessidades
físicas. É super comum, mas todo mundo trata como se fosse algo secreto, digno de muita discrição.
Eu inclusive. Mas e se as pessoas simplesmente dissessem exatamente o que querem dizer?
– Bem – ele se virou para mim. Estava intrigado. Minha pausa tinha sido para respirar, não para
que ele respondesse. Mas ele estava falando e eu resolvi escutar. – Quando você é um homem e é
claro com uma mulher, corre o risco de levar um tapa na cara.
Eu concordei. Fazia sentido.
– Você vai me dar um tapa? – perguntei.
– Claro que não – a surpresa da minha pergunta fez com que ele entalasse com a cerveja.
– Eu achei você um gato e estou com tesão – pronto, falei. Os quatros segundos que ele levou para
processar o que eu tinha dito foram, provavelmente, os mais longos que eu já tinha vivido até então.
– Certo... – ele tinha um sorriso de descrença estampado no rosto e balbuciou a palavra como se
estivesse reaprendendo a falar. Será que ele não tinha entendido?
– Quero dizer que se você não for comprometido e não tiver nada pra fazer agora, gostaria de ir
pra cama com você.
Se ele estivesse bebendo cerveja naquele segundo, provavelmente teria cuspido fora.
Eu não parei para pensar sobre como era louco o que eu estava fazendo. Sinceramente? Se eu
parasse para pensar, ia sair correndo e chorando de vergonha. Então, fiquei ali. Parada, esperando o
veredicto.
Ele limpou a garganta e sorriu para mim.
– Na minha casa ou na sua?
***
Ele morava a dois quarteirões do bar. Guiou o caminho com a mão na minha cintura e perguntou
meu nome. Mas como eu já estava na chuva, resolvi me molhar e falei que preferia não dizer. Ele
então abriu a porta do prédio, e disse que por ele tudo bem.
Aquilo era tão novo e estranho. A sensação de controle. Estava ali porque eu queria. Eu tinha
decidido, feito o convite e estava ali. O controle era meu e, por Deus, era gostoso. A sensação de
poder era mais orgásmica que qualquer coisa que eu já tinha experimentado, e eu me deliciei por
todo o breve percurso de elevador até o quarto andar, onde ele morava.
Ele fechou a porta atrás de nós e eu notei, pela primeira vez, como sua bunda era gostosa por baixo
do jeans surrado. Escorreguei minha mão pelo bolso traseiro dele e o puxei para mim. Entre um
sorriso e uma exclamação, ele deve ter pedido calma. Mas, ah... eu estava na casa dele, não estava?
Para ir pra cama com ele, não era? Chega de calma. Essa versão inconsequente de mim tinha
assumido a direção e ela queria aquela bundinha deliciosa em suas mãos.
– O quarto fica ali atrás – ele tinha se virado e eu tinha minha boca sobre a dele.
– Aqui já está bom.
É isso aí, meu bem. Sou eu que vou resolver onde você vai me comer. É assim que funciona agora.
Não, eu não sabia se isso ia durar. Mas eu ia aproveitar enquanto durasse. A embriagante sensação
de controle.
Ele deu de ombros e não conseguia parar de sorrir. O que passava pela cabeça dele eu podia
apenas imaginar.
Ele tirou minha roupa com pressa e eu o imitei. Estávamos nus e abraçados na sala de estar.
Minhas bochechas queriam ficar com vergonha, mas minha cabeça mandou-as calarem a boca e gritou
um sonoro "Que se dane!". Hoje eu ia só curtir.
– Camisinha – eu instruí.
Ele se virou obediente e correu pela sala. Observei aquela bunda maravilhosa a meio caminho de
onde o quarto deveria ser; ele voltou com um monte de pacotes na mão e eu pude observar seu corpo.
Era exatamente como eu tinha visto em meu sonho. Exatamente. Menos pela cicatriz. Seu membro
masculino estava imenso e rígido.
– Está gostando da vista? – perguntou, mostrando o monte de preservativos que tinha nas mãos.
– Está muito distante – reclamei com um sorriso.
Ele se aproximou rapidamente e jogou os pacotes no chão, menos um. Eu o puxei pelos ombros e
enfiei minha língua em seus lábios e meus dedos em seus cabelos. Ele apertava minha cintura e eu
sentia a pressão contra o meu quadril.
Senti sua mão descendo pela minha barriga até atingir uma região delicada entre minhas pernas e
acariciar meus pelos. Seus dedos começaram a cavar um caminho para dentro de mim. Eu soltei sua
boca e gemi. Ele respirava apressadamente em meu ouvido e eu me arrepiava ao sentir o calor em
meu pescoço.
Larguei minhas mãos pelas suas costas até sua bunda. Apertei e acariciei até me dar por satisfeita.
Ele se afastou apenas o suficiente para cobrir seu membro com o preservativo. Eu o guiei até o sofá e
o forcei a se sentar.
Parte de mim quis deitar de costas e abrir as pernas. Muitas mulheres acham sensual ficar em cima.
Eu, particularmente, sempre preferi ficar em baixo. Deixar o homem fazer todo o trabalho, deixá-lo
imprimir seu ritmo.
Mas ali, no calor daquele momento de controle, decisões e poder... eu queria ficar por cima.
Queria marcar o meu ritmo. Queria que ele me seguisse e gozasse sob minha direção.
Ele se sentou obediente e segurou minhas coxas enquanto eu me sentava por cima dele. Senti
quando ele entrou em mim. Fui devagar, queria sentir tudo, centímetro por centímetro. Levantei o
rosto para o teto e gemi baixinho. Senti suas mãos apertando minhas coxas. Ele estava gemendo
também.
Impulsionei-me com os joelhos contra o sofá. Subindo e descendo. E subindo e descendo mais umavez. Devagar e gentilmente. E então, ele tinha as mãos na minha bunda e me puxava forçando a
velocidade. Eu aceitei de bom grado. Ele parecia saber muito bem o que estava fazendo e movia seu
quadril, enfiando-se mais fundo em meu corpo. Mais fundo. Mais fundo. Minhas pernas abertas. Suas
mãos me apertando. Sua respiração rasa. Meus gemidos cada vez mais altos. Meus seios em sua
boca. Um movimento cada vez mais rápido, cada vez mais gostoso. Um breve segundo e uma grande
explosão. Senti meu corpo tremer e falhar. Silêncio antes de um gemido alto. E eu percebi que ele
estava gozando também.
Fiquei jogada contra seu peito recuperando o ar. Respirei fundo e me desvencilhei de seu abraço.
Levantei-me sorrindo e busquei minhas roupas.
– O que está fazendo? – ele quis saber.
Eu não entendi.
– Você não vai ficar?
Dormir com um estranho nunca tinha passado pela minha cabeça. Sorri para ele e lhe ofereci uma
piscadela. Meu problema era aprender a dizer "sim". Nunca tive problemas em dizer "não".
Cheguei em casa destruída, mas com um sorriso nos lábios. O banho foi rápido e cansado. Acho
que dormi antes que minha cabeça batesse no travesseiro. Meus olhos estavam fechados. Minha
mente estava aberta. Em poucos minutos, meus sonhos chegariam e, com eles, meu amigo.
"O prazer é a energia que une e agrega. Quanto vale uma noite de prazer absoluto?"
Jane Austen
Assim que fechei os olhos, ele já estava lá, esperando-me. Estava diferente mais uma vez, mas eu
sabia que era ele. Era aquele cheiro delicioso de homem. Isso e a longa cicatriz vertical que ele tinha
no meio do tórax rígido e delineado.
Hoje, ele era alto e musculoso. Loiro com os olhos cor de mel e um sorriso de garoto levado.
Usava uma calça social e um cinto. Estava sem camisa e os contornos dos seus músculos me
deixavam louca só de olhar.
– Você pode tocar se quiser – convidou. – Sabe que sou todo seu.
Sorri constrangida. Era estranho ouvir um homem falar assim. Ele me devolveu um sorriso largo e
descarado.
– Quem é você? – perguntei com um sussurro, sem tirar os olhos do corpo dele.
– Eu sou desejo, Nahia. Mas pode me chamar de Amadeo, se preferir. Diga-me: como foi sua
noite, ontem?
Aproximei-me com cuidado e levantei uma das mãos em sua direção. Amadeo segurou minha mão
com delicadeza e a repousou sobre seu peito. Sua pele era macia e quente. Deslizei meus dedos até
suas costelas e fechei os olhos.
– Sim – ele murmurou em meu ouvido. – Você se divertiu muito ontem à noite, não foi? – ele
passava as mãos pela minha cintura enfiando os dedos por baixo da minha blusa, sua boca nunca
abandonava minha orelha. – E não se preocupe: nós ainda vamos nos divertir muito mais.
Ele passou a ponta da língua no meu queixo, subindo a linha da minha mandíbula até chegar na
minha orelha, que mordiscou com suavidade. Suas mãos estavam dentro da minha blusa e geravam
eletricidade onde quer que tocassem. Eu mantinha os olhos fechados, apreciando as sensações.
Era possível que ele conseguisse me fazer gozar apenas com seu toque. Mas eu não queria esperar
para ver. Queria que ele me tomasse e me possuísse como ele não tinha feito na noite anterior.
Queria ouvi-lo gemer e gozar.
E então um pensamento tomou conta de minha mente: e se eu não conseguisse? Não tinha muita
experiência, e a pouca que tinha não era muito boa. Fora, é claro, a da noite anterior. Abri os olhos e
levei minhas mãos até os seus ombros, hesitando por alguns segundos, sem saber se o afastava ou se
o trazia para ainda mais perto de mim.
– Não precisa temer sua falta de experiência – sussurrou, como se ouvisse meus pensamentos. E
algo no seu tom de voz me fez ter certeza de que ele ouvia. – Todo mundo tem que começar de algum
lugar, não é?
Eu quis sorrir. Sim... todo mundo tinha que começar de algum lugar. Mas eu não era um pouco
velha demais para começar?
– Você ainda está na metade dos vinte, Nahia – ele sorriu.
– Pare de fazer isso! – recriminei, sem conseguir esconder um sorriso. – É constrangedor.
– Eu estou aqui para te ajudar, querida. Não posso ajudar se você não for honesta. E não há nada
em você mais honesto que seus pensamentos – ele deu de ombros. – Tenho que ficar atento a eles. É
meu trabalho.
– Você fala como se fosse uma entidade independente e não apenas fruto da minha imaginação... –
não era exatamente uma pergunta. Mas também não era exatamente uma afirmação. Se ele era só um
sonho, por que parecia que era ele e não eu quem estava no controle? E se não era só um sonho, o que
seria?
Ele sorriu, misterioso, e colocou o indicador sobre os lábios, pedindo silêncio.
– Você precisa praticar – falou, ainda escondido atrás de seu indicador.
Ele fazia parecer fácil. Eu, definitivamente, não tinha em mim forças para ir até aquele bar mais
uma vez. Para dar em cima de um homem mais uma vez. Precisava experimentar outras coisas.
– Existem homens que podem te ajudar.
Demorei mais do que deveria para entender o que ele queria dizer e forcei minha personificação
no sonho a fechar a boca.
– Você quer dizer um acompanhante?
– Quero dizer um gigolô, Nahia. É uma profissão sabe?
– É ilegal! Eu poderia ser presa.
– Você ainda está morando em sua velha cidade, Nahia? Isso aqui é Amsterdã. Não é proibido
aqui. Nada é proibido aqui. Ou melhor... quase nada.
– Então, eu faço o quê? Eu vou até o Blue Light District e peço um homem?
– Você é muito tímida. Acho que buscar um gigolô no meio da rua não seria adequado. Quem sabe
um dia. Mas por hoje, eu recomendaria que você ligasse para algum serviço. Eles atendem em casa,
sabia?
Estiquei meus braços empurrando-o para longe de mim. Meu novo personal trainer para assuntos
da vida estava me desafiando. Eu sentia em seu olhar. Se alguém pudesse ouvir suas palavras,
entenderia tudo aquilo como uma simples conversa. Mas eu sentia em seu olhar que não era só isso.
Havia um brilho em seus olhos cor de mel que dizia "Vamos lá, Nahia. Jogue a timidez pra longe de
você. Arranque a dúvida do seu corpo como você arrancou aquele pijama. Olhe pra si mesma no
espelho e ouse. Ouse, Nahia".
Eu podia não concordar com o que ele dizia, mas... Nossa! Como era bom sentir aquela segurança.
– Ah, sim! – ele sorriu de uma orelha a outra. – E para evitar constrangimentos futuros... O Blue
Light District é onde ficam os travestis, não os homens.
Meu queixo caiu um pouco.
– Mas eu achei que o Red Light...
– O Red Light é com mulheres, o Blue Light com travestis.
– Você tem certeza?
Ele sacudiu a cabeça afirmativamente de um jeito adorável.
– Bem! – bateu palmas. – Acho que devo ir agora.
Minha boca abriu mais uma vez. Eu realmente tinha que aprender a controlar essa coisa.
– Mas... Mas nós nem...
Amadeo acariciou meu queixo e sorriu para mim de um jeito proibido.
– Tudo a seu tempo, querida. Agora você deve acordar. Tem uma ligação pra fazer, não tem?
– O quê? No meio do dia? Eu não sou um animal! Não vou ligar pra um gigolô vir pra minha casa
no meio do dia!
Amadeo olhou para mim com uma apatia que contrastava enormemente com a minha indignação.
– Você deve algo a alguém? Dinheiro, favores, satisfação... Deve?
– Não, mas...
– Então, se você quiser passar o dia fodendo loucamente com um homem contratado
exclusivamente para lhe dar prazer é da conta de alguém?
– Eu sei que não, mas é que...
– Nahia, você se preocupa mais com desculpas do que com ações. Acorde e decida. Se você
quiser uma companhia durante o dia, o problema é só seu.
***
Não tinha comida na minha despensa ou geladeira que conseguisse tirar minha mente do meu
sonho.
Sim, eu podia ligar para um serviço de acompanhantes.
Sim, era uma ideia interessante, diferente e sensual.
Sim, era permitido nesse país e eu não seria presa.
Mas havia algo dentro de mim que gritava que aquilo era errado. Um tremor passou rapidamente
pelo meu corpo e eu sacudi os ombros tentando espantá-lo. Sentei à mesa da copa encarando a grande
janela que mostrava uma vista perfeita dos apartamentos do prédio vizinho. Passei as mãos nos
cabelos.
Meu apartamento era amplo com ares de flat e uma mobília minimalista. Tudo em seu devido lugar
e propriamente limpo. Sempre. Era como uma lei que mantinha meu mundo girando. Pela milésima
vez, fui até o fogão verificar se todos os botões do gás estavam desligados, e passei um pano na
bancada da pia.
Ia sentar à mesa mais uma vez e voltar a sacudir a perna compulsivamente. Mas, em vez disso, fui
calmamente até a janela. Além dela eu podia ver o apartamento dele.
Você deve estar se perguntando quem é ele. Bem, eu não sei. Ele mora no prédio ao lado. Seu
apartamento fica no mesmo nível que o meu e nossas janelas só não são conjuntas por causa de alguns
poucos metros que nos separam.
Ele parecia livre e feliz. Sempre. Gostava de observá-lo e, em mais de uma ocasião, já o tinha
pegado me observando. Acho que é um artista de algum tipo. Talvez arquiteto. Com frequência, eu o
via sentado em uma mesa daquelas de designers, trabalhando em algo. Mas hoje ele não parecia estar
em casa.
Respirei fundo e sacudi os cabelos mais uma vez. Precisava de um motivo para sair. Dar uma
volta. Certo! O que eu não tenho em casa? Leite, não tenho leite. Abri a geladeira. Droga... Tenho
leite. Mas nunca é demais. Vamos lá, Nahia, vamos comprar leite.
Peguei a bolsa e abri a porta antes que mudasse de ideia. Parado no hall, esperando o elevador,
estava Nathan. Ele tinha alguns vários anos a mais do que eu, mas tinha envelhecido muito bem. Não
sei se ele era professor de alguma coisa ou talvez advogado. De um jeito ou outro, sempre andava
muito alinhado e com muitos papéis.
– Bom dia, Nathan – cumprimentei.
– Olá, Nahia. Está linda como sempre – ofereceu uma piscadela na minha direção. Ele era
simpático. Flertava comigo sempre que nos encontrávamos. Era agradável. A porta se abriu e
entramos no elevador.
– Planos para este belo sábado? – perguntei sem realmente querer saber a resposta.
– Meu filho acabou de chegar de viagem. Ele mora nos Estados Unidos com a mãe. Quero dizer...
ele saiu de casa já faz uns anos, eu acho. Mas ainda mora do outro lado do Atlântico. Estou indo ao
aeroporto buscá-lo.
– Ah! Ótimo, Nathan. Ele já conhece a cidade?
– Veio aqui algumas vezes, mas nunca consigo levá-lo para fazer nada particularmente cultural...
Sorri.
– É o mal dessa cidade!
Disse um "até logo" já a meio caminho da calçada. A imagem do filho jovem de Nathan
procurando atividades não culturais na cidade mais louca do mundo não era uma imagem que eu
precisava no momento. Eu precisava comprar leite. Ou talvez chocolate ou outra coisa qualquer.
Precisava de um filme de Richard Gere e precisava esquecer essa loucura toda sobre gigolôs.
***
O sábado foi se esticando e eu não conseguia me concentrar no filme. Fiquei tamborilando os
dedos nos botões do controle remoto. Qual era o problema comigo?
Eu queria contratar um gigolô, não queria? Esses meus sonhos vívidos estavam me perturbando e
ficavam na minha mente o dia inteiro. Provavelmente era só o jeito que o meu subconsciente achou de
gritar comigo para que eu parasse de ser tão passiva. Mas eu queria ouvi-lo, não queria?
Ah, inferno... Se até o filho americano do Nathan conseguia se divertir nessa cidade, por que eu,
que já era residente há alguns anos, não conseguia abandonar meu preconceito?
Um movimento além da janela chamou minha atenção. Meu vizinho "arquiteto" tinha acabado de
sair do banho. Usava apenas uma toalha branca enrolada na cintura e ainda estava com o corpo
molhado. Meu coração pulou e eu me aproximei da janela, mantendo o corpo contra a parede para
evitar ser vista. Não foi muito correto da minha parte ficar espionando meu vizinho, eu sei disso. Mas
também não foi correto da parte dele sair andando pela sala só de toalha, foi?
Ele era oriental. Japonês, provavelmente. Tinha os olhos puxados e o cabelo negro extremamente
liso e arrepiado. Sei que é clichê dizer que ele devia praticar artes marciais, mas com certeza não se
mantém um corpo daquele sem praticar algum tipo de exercício físico com frequência. E ele tinha três
daquelas espadas samurais presas na parede, logo acima de um armário cheio de bonecos. Ele
também parecia colecionar revistas em quadrinho. Tinha algumas emolduradas espalhadas pela
parede. Era estranho, nunca tinha imaginado que um cara que coleciona bonecos e revistas em
quadrinho pudesse ser tão gostoso. É sério: dava pra contar os gominhos do seu abdômen, e quando
ele usou outra toalha para enxugar o cabelo molhado, dava para ver os músculos do braço se
contraindo deliciosamente. Ele tinha uma boca desenhada, um maxilar quadrado e um nariz afilado.
Ele se aproximou do que deveria ser a porta do seu quarto e tirou a toalha. Infelizmente, ela caiu
bem no segundo que ele atravessou a porta e eu não pude ver mais nada. Joguei as costas contra a
parede e encarei o meu teto. Eu estava começando a ficar molhada só de ver um homem de toalha
andando pela sua sala. Qual era o meu problema?
Certo... Vamos fazer isso! Corri até o meu computador e comecei a digitar algo como
"acompanhantes masculinos Amsterdã" e demorei poucos segundos para descobrir que o mundo é
extremamente masculino, para não dizer machista.
Todos os sites de acompanhantes disponibilizavam mulheres. E os poucos sites que mostravam
algum homem oferecendo o serviço de acompanhante eram voltados para o público gay.
Como o meu objetivo era não só aliviar minha tensão como aprender o que um homem gosta que
uma mulher faça, um acompanhante gay não me pareceu uma boa opção. Demorei mais tempo do que
imaginei até achar uma agência razoável. As fotos dos modelos eram incríveis, e um em particular
chamou toda a minha atenção. Dava para contar os gominhos do abdômen dele também e isso me
atraiu quase instantaneamente. O site dizia que ele era bissexual. Eu preferia um cara cem por cento
hétero para essa experiência em particular, mas como não havia muitas opções e eu estava com um
pouco de pressa, acabei optando pelo gominhos.
Tinha um e-mail e telefone.
E-mail era mais impessoal, telefone era mais rápido.
Respirei fundo e olhei pela janela. Meu vizinho usava uma calça comprida cinza de moletom e
estava sem camisa. Bebia algo quente de uma caneca escura. Nossos olhares se cruzaram e ele
levantou a caneca para mim em um brinde. Eu voltei a encarar a tela do computador e fingi que não
tinha visto.
Telefone será.
Disquei o número rapidamente como quem arranca um band-aid. Estava tendo muitos desses
momentos ultimamente: momentos em que, se parar para respirar, desiste do que ia fazer.
A pessoa do outro lado atendeu.
– Hallo – cumprimentou em holandês a voz feminina do outro lado da linha.
– Alô... Eu queria um homem – nahia! Eu queria um homem? Você perdeu o juízo?
Prendi minha respiração e esperei a moça do outro lado parar de rir.
– Uma cliente direta! É bem diferente das que geralmente temos por aqui. Gostei! A senhora se
interessou por alguns de nossos acompanhantes em particular?
– Ah, sim – vai, agora desembucha, sua maluca. "Quero um homem"... ai, meu Deus! – O nome no
site é Nick. Diz aqui que ele tem 27 anos, loiro, olhos claros.
– Ja, ja! O Nick, certo. Qual serviço gostaria de solicitar e quando?
– Ah... quais serviços vocês têm?
– Bem, vários! Temos a companhia para jantar, para festas comuns, festas de gala, fim de semana
de viagens. Temos também a experiência namorado, a experiência ator pornô e a experiência virgem.
Sorri. Parecia que estava pedindo delivery de comida chinesa. Ela ainda estava falando.
– E todos esses serviços podem ser acompanhados por massagem, intimidade ou ambos.
Fiquei em silêncio considerando minhas possibilidades.
– Senhora? Ainda está na linha?
– Sim! Estou! – "intimidade" quer dizer sexo? Eu não sabia. Mas como já estava tão enfiada
naquele negócio todo, achei que mais uma pergunta maluca não ia me destruir. – Quando você diz
intimidade, quer dizer "sexo"?
– Ja! Sim, senhora! Relações íntimas.
– Certo. Eu quero isso, então.
Eu tinha certeza que ela estava sorrindo do outro lado. Mas que se dane. A essa altura, eu também
já estava rindo da minha ousadia.
– Sim, senhora. O Nick para um momento íntimo. Apenas isso? Ou mais algum serviço?
Sim, eu queria arroz chop suey com o meu frango xadrez.
– Ah, coloca uma massagem também.
Dessa vez ela riu alto. Provavelmente estava achando a experiência delivery muito divertida,
também.
– E para quando será?
– Ah... Agora?
– Só um momento, senhora. Preciso ver se o Nick está disponível.
Ela me colocou em espera e eu fiquei tamborilando os dedos em qualquer superfície ao meu
alcance.
– Senhora? Está na linha?
– Sim!
– O Nick está disponível. Onde gostaria de encontrá-lo?
– Na minha casa.
– Certo. Preciso de um endereço.
Eu disse.
– Um telefone para contato pode ser este mesmo que a senhora usou?
– Sim, pode. Você precisa do meu nome?
– Não, senhora. Trabalhamos com total discrição. Não precisa dar qualquer informação que não
seja absolutamente necessária.
Gostei disso. A atendente continuou.
– O valor por hora será de 150 euros.
– Tudo bem.
– Por quantas horas gostaria de reservar o serviço?
– Não sei bem...
– É a primeira vez que usa nossos serviços, eu suponho?
– Sim, acho que já deu pra perceber – sorri e ela riu de volta.
– Posso informar o Nick que a senhora quer ser avisada a cada nova hora. Assim, a senhora
mantém o controle de quanto tempo passou e decide se quer que ele permaneça ou não. E vou deixar
o limite de tempo em aberto. Pode ser?
– Parece ótimo.
– E qual a forma de pagamento? Dinheiro, cartão...?
Minha boca tinha vontade própria e se abriu mais uma vez. Eu não era holandesa e definitivamente
não estava acostumada com essa naturalidade quando se tratava de prostituição. Na França, uma
coisa assim nunca aconteceria. Nunca. Pelo menos não de forma tão aberta e tranquila. Estava só
esperando ela me perguntar se eu queria parcelar o pagamento porque, sinceramente, era só isso que
faltava.
– Posso pagar com cartão? – não era o tipo de transação que eu queria que ficasse registrada,
mas... Eu não devia nada a ninguém. Não estava fazendo nada ilegal. E não tinha tanto dinheiro em
espécie comigo.
– Com certeza. Nick levará a máquina. Posso ajudá-la com mais alguma coisa?
– Não. Não.
– Boa tarde, então, senhora. E obrigada por escolher a Elite Escorts.
E desligou.
Eu nem respirei. Corri direto para tomar banho. Um homem maravilhoso ia bater na minha porta a
qualquer instante, e mesmo que ele estivesse sendo pago, eu ainda queria me preparar o melhor que
pudesse.
Coloquei uma roupa leve e bonita e fiquei logo sem roupa íntima. Ah, não me julgue. Eu estava
pagando por hora, não estava?
Três batidas na porta. Tentei respirar fundo, mas o ar estava passando pela minha traqueia em
etapas. Eu devia ter virado uma dose de alguma coisa para ver se parava de tremer tanto.
Calma, sugeriu uma voz lá no fundo da minha mente. Uma voz que, sem dúvida, não era minha.
Coloquei um pé atrás do outro tentando reaprender a andar e cheguei até a porta. Sabia que ele era
um profissional que trabalhava com isso e tudo o mais. Sabia que ele era gostoso. Tinha visto a foto.
Mas, por Deus... ele era muito gostoso. E, mais uma vez, era igual a figura que Amadeo tinha me
mostrado.
Tinha o cabelo loiro cuidadosamente penteado, os olhos cor de mel, um sorriso safado que
praticamente confessava aos quatro cantos do mundo que ele trabalhava dando prazer. Estava
vestindo uma camisa e uma calça social escura. Dei um sorriso satisfeito e saí do caminho,
convidando-o a entrar com um gesto. Eu ainda não conseguia dizer nada.
– Boa tarde – ele me mediu dos pés à cabeça e me olhou em um misto de surpresa e satisfação, que
fez com que eu me sentisse linda. Parte de mim pensou que talvez o grande público de gigolôs fosse
mulheres mais velhas, então talvez ele estivesse um pouco satisfeito comigo. A outra parte esbofeteou
esse pensamento, classificando-o de ridículo e me lembrando de que ele estava sendo pago para
fazer com que eu me sentisse assim.
Seja como for, foi muito bom.
Fechei a porta e olhei de volta para ele. Engoli em seco.
– É a primeira vez que faço isso – achei melhor tirar isso logo do caminho.
– Oh! Não me avisaram que era a experiência virgem, mas sem problemas – sorriu.
– Não! Não! Você entendeu errado – sorri – Já fiz isso. Nunca fiz isso – expliquei, indicando-o
com a mão.
– Ah! Entendo – Nick esticou a mão para mim e eu a toquei. – Pense em mim como o homem dos
seus sonhos. Sou o homem com quem você sonha durante a noite e que você deseja durante o dia. E
estou aqui para transformar tudo em realidade. O que você quiser, pelo tempo que quiser, eu vou
fazer. Se quiser que eu vá embora, é só pedir. Mas enquanto não pedir, eu vou cuidar de você, como
homem nenhum nunca cuidou.
Era um bom discurso. Ah, diabos, você não estava lá para ouvir. Era um discurso excelente!
Minhas pernas começaram a tremer de novo.
Vamos, Nahia, fale de uma vez.
– Eu queria aprender... a ser... melhor – escolhi as palavras com cuidado, esperando que ele
entendesse.
– Melhor em quê? – ele estava mais perto agora e começava a pentear meus cabelos para trás da
orelha. Ele tinha um cheiro bom. Não Amadeo bom, mas bom.
– Quero aprender como fazer um homem ir à loucura.
Ele sorriu:
– Com um rosto desses... – ele tocou meus lábios. – E um corpo desses... – tocou minha cintura. –
Querida, eu te garanto: os homens já vão à loucura.
Eu contive um sorriso que quase escapou, e segurei suas duas mãos.
– É sério.
– Tudo bem – Nick assentiu e me abraçou pela cintura, ainda mantendo uma distância entre nós. –
Como você quer fazer isso, então? – seu tom era doce e sensual.
– Quero que você fale comigo. Enquanto estivermos na cama. Quero que diga o que os homens
gostam e o que não gostam e se eu estou fazendo certo ou errado.
– Tudo bem, querida, mas... nem todos os homens são iguais – deu de ombros.
– A sua ficha do site diz que você é bi.
Ele sorriu intrigado.
– Sim, sou. Mas hoje, por você, eu sou completamente hétero.
Não era isso que eu queria dizer.
– Eu sei, eu sei. Mas... quero dizer, você sabe do que um homem gosta.
Ele espremeu os lábios e balançou a cabeça em afirmação.
– Pronto! – concluí. – É isso que quero que me ensine.
– Você não está pensando em virar concorrência, está? – ele sorriu brincalhão, espremendo os
olhos pra mim.
Eu levantei a mão em posição de juramento.
– Prometo que não.
– Tudo bem. Então, vamos começar vendo como você fica nua na cama.
Ele tirou meu vestido com uma agilidade incomparável, e logo eu estava nua diante dele. Nick
permaneceu vestido, observando-me.
– Você não vai tirar a roupa? – perguntei.
– Primeira lição – ele levantou o indicador. – Muitos homens gostam de olhar a mulher
inteiramente despida na sua frente – ele desceu os olhos pelo meu corpo e eu me senti
verdadeiramente nua. – Só para olhar, admirar – ele me segurava pela mão e passava os olhos em
cada centímetro do meu corpo. Eu resistia aos impulsos de me tapar. – Isso os excita – ele me puxou
para perto e me abraçou. – Ter uma mulher bela e nua sob seu controle. Alguns homens se excitam
mais vendo uma mulher nua estando vestidos do que quando se despem junto delas.
Eu mordi meu lábio trêmulo. Controle era bom, mas tinha algo no fato de ter um homem vestido me
vendo nua que era particularmente incrível.
Ele desabotoou os dois primeiros botões de sua calça, abaixou as mãos e olhou para mim
sugestivamente. Entendi o que Nick estava dizendo e imediatamente me pus a despi-lo. Ele tocou
minhas mãos.
– Faça isso devagar. Brinque com o meu corpo enquanto tira minha roupa. Despir uma pessoa não
é uma tarefa que precisa ser concluída antes da brincadeira começar – ele enfiou minhas mãos dentro
de sua camisa por entre os botões e eu comecei a sentir aquele tórax perfeito que eu tinha visto na
foto. – Despir já é parte da brincadeira.
Obedeci, e as peças de roupa dele foram caindo, uma após a outra, com calma, enquanto eu
brincava com cada novo pedaço de pele que encontrava. Passei a língua por seu tórax e os dedos por
seu abdômen. Só aquilo já tinha valido os 150 euros. Senti os braços fortes e experientes de Nick me
envolverem e me jogarem na cama.
Agora ele estava nu, também. Seu membro viril se erguia rígido no meio de suas pernas com uma
imponência avassaladora. Ele ficou de pé alguns segundos, permitindo que eu o observasse,
observando-me de volta.
– Abra as pernas – ele mandou. Meu fôlego foi embora sem deixar recado avisando quando ia
voltar. Eu obedeci, e acho que nunca me senti tão exposta na vida. Ali, em cima da cama, com as
pernas abertas. Toda a minha intimidade à mostra para um completo desconhecido que estava ali, de
pé na beira da minha cama, sem tirar os olhos de mim. Ele passou a língua nos lábios e senti minhas
coxas encharcarem.
Nick se ajoelhou na cama e continuou as instruções.
– Alguns homens preferem ver a mulher no controle. Mas é do instinto masculino buscar o poder.
Eles se sentem mais másculos e mais viris quando estão no controle. É sensual. Se um homem te
mandar fazer algo na cama e você estiver disposta a satisfazer esse homem, obedeça.
Tentei fazer uma anotação mental, mas ele me cobriu com seu corpo e minha mente parou de se
preocupar com o que quer que fosse que não envolvesse aqueles dedos suculentos passeando em
minha vagina.
Ele prendeu meu mamilo entre os dentes e o puxou para um lado e para o outro. Eu arqueei as
costas, enfiando meus seios em sua boca. Nick beijou minha barriga e passou a língua pelo meu
umbigo. Seus dedos permaneciam me bolinando, esfregando aqui, beliscando ali. Sua boca me
abandonou e eu senti seu hálito quente contra meu estômago.
– Na maior parte das vezes, apenas o corpo feminino já basta para excitar um homem. A mulher
não precisa fazer nada, só precisa deixar que o homem a toque onde quiser. Mas quando a mulher
participa mais ativamente... é aí que o homem enlouquece.
– Como? – quis saber.
– Eu quero que você agarre minha bunda, que arranhe minhas costas, que chupe minha língua e
morda meu pescoço. Quero que você brinque com meus mamilos e acaricie meu saco.
Uma coisa de cada vez, fiz tudo que ele mandou, exatamente como ele mandou. Meu corpo gritava
para mim que ia gozar e eu tentava fazê-lo esperar só mais um minuto. Nick me girou e me colocou
por cima dele. Eu estava sentada em seu pênis e ele entrava em mim como se estivéssemos dançando.– Sua vez – disse, entre as estocadas leves que ele começava a impor. – Quero que você monte emmim e rebole – ele tinha suas mãos em minha cintura e me guiava em movimentos circulares ao redor
do seu membro. – Assim... Isso... Devagar...
Segurei seus ombros e coloquei meu queixo contra seu rosto. Abri os olhos por apenas uma fração
de segundo e vi: meu vizinho estava lá. Além da janela, observando por cima de sua mesa de
designer. Ele tinha o queixo apoiado nas mãos entrelaçadas e sorria como se estivesse adorando tudoo que via.
O mais incrível foi que eu não senti qualquer vestígio de vergonha. Eu estava na minha casa, na
minha cama, com um homem que eu tinha escolhido. Se ele estava bisbilhotando, o problema era
dele. Entre não estar com vergonha do vizinho e provocar o vizinho há um abismo muito grande, eu
sei. Por isso, digo que não sei o que deu em mim quando resolvi lhe oferecer uma piscadela
indecente.
Eu vi seu queixo cair exageradamente. Eu sorri e continuei a rebolar em cima do pau de Nick.
Nunca me senti tão gostosa na vida. Nick chupava meus seios e eu mantive os olhos abertos e no meu
vizinho além da janela. Ele me devolveu a piscadela, entendeu o meu olhar como um convite e veio
se sentar mais perto para ter uma vista melhor. Deixei que ele olhasse.
Meu corpo estava gritando "Chega!", não ia esperar mais nem um segundo. Ouvi Nick gemendo e
gemi junto. Caímos um sobre o outro. Suados e satisfeitos. Eu sorri e pedi que ele fechasse as
cortinas. Agora que o sexo tinha acabado, não ia demorar muito para minha vergonha voltar e eu não
queria ter que encarar meu vizinho quando isso acontecesse.
***
Nahia parou de falar abruptamente e eu senti meu coração na garganta. Não queria que ela parasse.
Queria que ela continuasse.
– Parece que nosso tempo acabou, doutora – ela admitiu com simplicidade. – Continuamos na
próxima semana? No mesmo horário?
– S... sim – eu disse, esperando do fundo da minha alma que não tivesse ficado muito óbvio que
estava balbuciando.
Ela pegou a bolsa, levantou-se e saiu. E eu tenho que confessar que contei os segundos para nossa
próxima sessão.