O telefone tocou no exato momento em que Sofia ajustava a postura no palco. A luz dos refletores iluminava a cena, destacando a silhueta dela contra o fundo escuro. O ensaio estava correndo bem até então, e o diretor já havia feito dois elogios discretos - o que, para ele, era quase um aplauso de pé. Mas o toque do celular, abafado pela bolsa no canto do teatro, interrompeu a cena como um trovão em dia de céu claro. - Pausa de cinco minutos! - gritou o diretor, impaciente. Sofia correu até a bolsa, pegou o celular e viu o número desconhecido.
Sentiu um arrepio na espinha, um presságio que não soube explicar. Hesitou por um momento antes de atender. - Alô? - Sofia? - A voz do outro lado era rouca, familiar e desconhecida ao mesmo tempo. - Aqui é seu tio... irmão do seu pai. A palavra "pai" fez o estômago de Sofia se revirar. Sentiu um frio nas mãos, como se todos os anos de distância fossem apenas uma ilusão. O passado, que ela tanto se esforçara para enterrar, parecia agora bater à porta com força. - Acho que você ligou errado - respondeu, seca, prestes a desligar. - Espere! Seu pai... Marcelo... ele está doente. Muito doente. Ele só quer te ver uma última vez. Sofia fechou os olhos. Era um truque, só podia ser. Mas o homem continuou: - Eu sei por que você e sua mãe fugiram. Sei o que ele fez. Mas ele mudou. E ele quer pedir perdão. - Você não sabe de nada - sussurrou ela, mas a voz tremia. - Sei o suficiente. Sei que vocês foram embora naquela noite, que Ana dirigiu até o Rio sem olhar para trás. Sei que você tinha nove anos e ficou em silêncio o caminho inteiro. Sei que, mesmo assim, você ainda guarda a foto daquela casa velha no fundo da sua gaveta. O mundo de Sofia girou. Ninguém, além de sua mãe, sabia dessas coisas. Cada detalhe era uma ferida que nunca cicatrizou, agora reaberta de forma cruel. Ela desligou o telefone sem dizer mais nada. Tentou voltar ao ensaio, mas cada palavra, cada movimento parecia distante. O teatro, seu refúgio, agora parecia sufocante. As paredes pareciam se fechar, e o som dos diálogos ecoava, como se estivessem muito longe. - Está tudo bem, Sofia? - perguntou Mariana, uma das colegas de elenco. Sofia tentou sorrir, mas falhou. - Só... preciso de um tempo. Saiu do teatro com passos rápidos, o coração batendo descompassado. O caminho até o apartamento que dividia com a mãe pareceu mais longo do que nunca. Cada esquina, cada rosto desconhecido, parecia um lembrete do passado que ela tentava esquecer. Chegou em casa, abriu a porta devagar. O cheiro familiar de café recém-passado a envolveu, mas não trouxe conforto. Encontrou Ana na cozinha, mexendo uma panela no fogão. A mãe sempre parecia distante, como se estivesse em dois lugares ao mesmo tempo: no presente, com Sofia, e em algum ponto do passado que nunca quis compartilhar. - Mãe... - Sofia começou, hesitante. - Ele está doente. Meu pai. Ana parou de mexer a panela. A colher de pau ficou suspensa no ar por um momento que pareceu uma eternidade. - Quem te disse isso? - A voz dela era quase um sussurro. - Um homem ligou. Disse que era meu tio. Ana respirou fundo, os olhos fixos em um ponto distante. - Você não devia ter ouvido. - O que ele fez, mãe? - Sofia perguntou, a voz carregada de frustração. - Por que fugimos daquela forma? Sempre me disse que era para nos proteger, mas nunca me contou do quê. Ana baixou a cabeça. Um silêncio denso se instalou entre elas. Finalmente, Ana tirou de dentro do colar que sempre usava uma pequena chave prateada, antiga e gasta. - Pegue. Você vai precisar dela. Sofia segurou a chave, sentindo o metal frio contra a pele. - O que ela abre? - Respostas. A resposta vaga só aumentou a sensação de que algo muito maior estava sendo escondido dela. Sofia subiu para o quarto, a chave ainda apertada na mão. Sentou-se na cama, tentando organizar os pensamentos. Sentia que estava à beira de algo importante, mas não sabia o quê. Decidiu arrumar uma mochila. Se fosse voltar àquela cidade, precisava estar preparada. Enquanto colocava algumas roupas na mala, notou uma bolsa antiga no fundo do armário. Era a bolsa que sua mãe usava quando fugiram, anos atrás. Algo a fez puxar a bolsa e abri-la. No fundo, quase escondido no forro, encontrou um envelope amarelado. Com as mãos trêmulas, abriu a carta. As palavras escritas à mão eram quase ilegíveis, como se o autor tivesse escrito com pressa. "Ana, você precisa saber a verdade sobre aquela noite. Não foi o que você pensa." As palavras pareciam gritar no silêncio do quarto. O coração de Sofia disparou. Quem havia escrito aquilo? Por que sua mãe guardara aquela carta todos esses anos? Virou a última página e viu a assinatura no fim. As letras eram claras, e o nome saltou da página como um soco no estômago: Romulo Lyhr. Romulo. O nome não lhe era estranho, mas ela não conseguia lembrar de onde o conhecia. Tentou buscar na memória, mas tudo parecia embaçado. Ouviu passos no corredor. Ana estava parada na porta, com uma expressão que Sofia nunca tinha visto antes - uma mistura de medo e resignação. - Você encontrou a carta... - murmurou Ana. - Quem é Romulo, mãe? Ana fechou os olhos, como se estivesse prestes a dizer algo que a consumia há muito tempo. - O homem que... eu nunca quis que você soubesse. - O que ele tem a ver com meu pai? - Sofia perguntou, a voz quase quebrando. Ana não respondeu. Apenas se afastou, deixando Sofia sozinha com as perguntas que ecoavam no quarto. O passado, finalmente, estava voltando para cobrar seu preço. E Sofia sentia que aquela era apenas a primeira camada de um segredo muito mais profundo.
A noite estava densa, e o silêncio do apartamento só amplificava o turbilhão de pensamentos na mente de Sofia. Ela ficou sentada na cama por um longo tempo, a carta ainda aberta em suas mãos, os olhos fixos naquela assinatura que parecia gritar em letras maiúsculas: Romulo Lyher. O nome ecoava em sua cabeça, como um enigma que insistia em permanecer oculto. Quem era Romulo? Por que sua mãe, Ana, guardara aquela carta por tanto tempo, sem nunca mencionar o nome? E, o mais inquietante, o que ele tinha a ver com Marcelo, seu pai? Sofia sentiu o peso daquela chave prateada na palma da mão.
O metal frio parecia carregar um segredo que, até então, ela nem sabia que existia. Respirou fundo e decidiu enfrentar a única pessoa que poderia ter respostas: sua mãe. Desceu as escadas devagar, cada degrau rangendo sob seus pés. Encontrou Ana na sala, sentada no sofá, as mãos entrelaçadas no colo. Ela olhava para o nada, perdida em algum ponto distante do passado. - Quem é Romulo? - Sofia quebrou o silêncio, a voz firme, mas carregada de incerteza. Ana demorou a responder. Quando finalmente o fez, a voz saiu baixa, quase um sussurro. - Alguém que eu quis esquecer. - Não é suficiente, mãe. - Sofia se aproximou, sentando-se de frente para ela. - Você sempre me disse que fugimos por causa do meu pai. Que ele era perigoso. Violento. Agora aparece essa carta, e você não me diz nada? Ana fechou os olhos, como se estivesse reunindo forças. Quando os abriu novamente, havia uma tristeza profunda neles. - Seu pai, Marcelo, sempre teve um lado obscuro. Ele... não era o homem que você lembra. Havia segredos. Coisas que ele fazia... coisas que me fizeram fugir. Mas Romulo... - Ela parou, engolindo em seco. - Ele foi a razão de tudo começar a desmoronar. - O que você quer dizer com isso? - Sofia sentiu o coração acelerar. Ana olhou para a chave na mão da filha. - Aquela chave... abre um cofre no velho banco da cidade. O que está lá pode responder suas perguntas. - Por que você nunca me contou isso? - Porque eu queria te proteger. Mas agora... talvez seja a hora. Sofia assentiu, sem saber o que esperar. A decisão estava tomada: ela precisava voltar à cidade onde tudo começou. Na manhã seguinte, a viagem parecia um mergulho no desconhecido. A estrada sinuosa que levava de volta à cidade natal era familiar e ao mesmo tempo estranha. Cada quilômetro percorrido parecia aproximá-la de algo inevitável. Quando finalmente chegou, o peso da cidade antiga caiu sobre ela. As ruas de paralelepípedos, as casas com fachadas envelhecidas, tudo parecia congelado no tempo. A memória das noites de infância voltou com força, trazendo uma mistura de nostalgia e medo. O banco ficava no centro, uma construção antiga de paredes desgastadas. Sofia estacionou o carro e entrou, sentindo o frio do lugar se misturar com a ansiedade que queimava em seu peito. Um atendente a conduziu até uma sala nos fundos, onde o cofre estava localizado. Sofia tremia quando inseriu a chave na fechadura. Um clique metálico ecoou, e a porta pesada se abriu. Dentro do cofre, havia uma caixa de madeira. Sofia a pegou, sentindo o coração bater descompassado. Com as mãos trêmulas, abriu a tampa. O que viu a fez prender a respiração: fotografias antigas, cartas manuscritas e, no fundo, um diário de capa escura. Pegou uma das fotos. Era de sua mãe, jovem, ao lado de um homem que não era Marcelo. Um homem de olhar intenso, sorriso enigmático. Romulo. Sofia folheou o diário. As primeiras páginas eram cartas de amor, escritas por sua mãe, destinadas a Romulo. Mas, conforme avançava, o tom das páginas mudava. O amor dava lugar a um medo crescente. "Romulo está diferente. Obsessivo. Ele fala sobre coisas que não entendo. Marcelo tentou alertar, mas agora não sei mais em quem confiar." As peças começaram a se encaixar. Romulo não era apenas uma sombra do passado. Ele fora uma ameaça real, algo que mudou o destino de sua família. Mas havia algo mais. Algo que ainda escapava. No fundo do diário, uma última anotação: "Se algo acontecer comigo, não acredite em tudo que ouvir. A verdade está entrelaçada com mentiras. Romulo e Marcelo... eles sabiam. Só espero que Sofia nunca precise descobrir." As palavras queimaram na mente de Sofia. O que sua mãe nunca quis que ela descobrisse? O que havia entre Romulo e Marcelo? De repente, o som de passos a fez virar. Um homem estava parado na entrada da sala. Alto, com traços familiares. - Sofia. - A voz era rouca, quase um eco do passado. - Quem é você? - perguntou, o coração disparado. - Eu sou Romulo. A verdade estava mais perto do que ela jamais imaginou.
O silêncio entre Sofia e o homem à porta era sufocante. Romulo - aquele nome que até pouco tempo era apenas um eco desconhecido - estava ali, na sua frente. Ele parecia mais velho do que nas fotos, o rosto marcado pelo tempo, mas os olhos tinham a mesma intensidade, a mesma sombra. Sofia sentiu a respiração acelerar. O diário ainda estava em suas mãos, aberto na última página. As palavras de sua mãe, Ana, ressoavam em sua mente: "Romulo e Marcelo... eles sabiam." - Você... é Romulo? - A voz dela saiu mais fraca do que gostaria.
Ele assentiu, os olhos fixos nela, como se estivesse tentando reconhecer algo. - Há muito tempo eu queria te encontrar - disse ele, a voz baixa, quase um sussurro. - Você não sabe o quanto. Sofia deu um passo para trás, o corpo tenso. Cada instinto gritava para que fugisse, mas algo a mantinha ali, presa naquele instante. - O que você quer de mim? - perguntou, tentando manter a firmeza na voz. Romulo sorriu, mas não havia alegria naquele sorriso. Era um gesto vazio, desgastado. - Respostas. As mesmas que você procura. Sofia estreitou os olhos. - Você sabe o que está neste diário, não sabe? Você e minha mãe... - As palavras saíram entrecortadas pela raiva. - O que aconteceu entre vocês? Romulo suspirou, os ombros caindo, como se carregasse um peso imenso. - Não foi o que você pensa. - Então me diga o que foi! - gritou Sofia, a voz ecoando na sala vazia do banco. Ele hesitou, os olhos fixos no chão. Quando voltou a olhar para ela, algo mudou em sua expressão. - Não aqui. Venha comigo. - Eu não vou a lugar nenhum com você. - Se você quiser a verdade, vai precisar confiar em mim. Mesmo que seja só por um momento. Sofia sentiu o coração bater forte. Tudo dentro dela dizia que não devia confiar naquele homem. Mas, ao mesmo tempo, sabia que não poderia voltar para casa sem entender o que estava acontecendo. - Onde? - perguntou, finalmente. Romulo fez um gesto com a cabeça. - Na casa. A casa onde tudo começou. O caminho até a casa antiga foi feito em silêncio. Sofia dirigia, enquanto Romulo seguia no banco do passageiro. O ar entre eles era pesado, cheio de perguntas não feitas e respostas não dadas. Quando finalmente chegaram, Sofia sentiu um arrepio percorrer a espinha. A casa era exatamente como se lembrava: velha, de madeira, com a pintura descascada e as janelas empoeiradas. Era como um fantasma do passado, um lembrete do que tentara esquecer. Romulo desceu do carro primeiro. Sofia seguiu, cada passo uma batalha contra o medo. Ele abriu a porta da frente, que rangeu alto, como se a casa estivesse relutante em recebê-los. O interior estava coberto de poeira, os móveis cobertos com lençóis brancos. Tudo parecia congelado no tempo. - Foi aqui que sua mãe decidiu fugir - disse Romulo, a voz ecoando no silêncio. - Foi aqui que tudo desmoronou. Sofia olhou ao redor, cada canto trazendo flashes de memória. Lembrou-se das noites em que se escondia debaixo da cama, do som dos gritos abafados pela parede. - Minha mãe disse que meu pai era perigoso. Violento. E você... - Ela se virou para ele. - Quem era você para ela? Romulo caminhou até uma estante coberta de poeira. Tocou um livro antigo, como se estivesse revivendo algo. - Eu a amei. Mais do que qualquer coisa. Mas Marcelo... ele era meu irmão. Sofia congelou. - O quê? Romulo assentiu. - Marcelo e eu... crescemos juntos. Ele sempre foi o mais forte, o mais admirado. Mas havia coisas nele que ninguém via. Um lado sombrio. Obsessivo. Quando Ana entrou na vida dele, tudo piorou. Sofia sentiu o chão sumir sob seus pés. - Vocês eram irmãos? Por que minha mãe nunca me contou? - Porque não queria que você soubesse o que aconteceu. - Romulo a encarou. - Marcelo não suportava a ideia de perder Ana. E quando percebeu que ela e eu... - Ele parou, a voz falhando. - Marcelo fez coisas. Coisas que destruíram tudo. - Que coisas? - Sofia perguntou, o coração acelerado. Romulo respirou fundo. - Você precisa ver com seus próprios olhos. Ele a guiou até o porão da casa. A porta estava trancada, mas Romulo tinha a chave. O cheiro de mofo e lembranças enterradas encheu o ar quando desceram. No fundo do porão, havia uma parede com marcas de gesso mais recente do que o resto. Romulo apontou. - Está ali. Sofia se aproximou, as mãos trêmulas. - O que está ali? Romulo não respondeu. Em vez disso, pegou uma barra de ferro e começou a bater na parede. O gesso rachou, pedaços caindo, até que um espaço foi aberto. Atrás da parede, havia uma caixa. Sofia engoliu em seco quando Romulo a abriu. Dentro, fotos antigas e fitas de vídeo. Em uma das fotos, ela viu o rosto do pai, Marcelo, mas algo na expressão dele era diferente. Assustador. Romulo pegou uma das fitas. - Esta... esta é a verdade. Sofia olhou para ele, a respiração presa. - O que tem nela? - O dia em que tudo mudou. O dia em que Marcelo... - Romulo parou, os olhos cheios de dor. - Você precisa ver. Sofia segurou a fita, o coração disparado. A verdade estava ali, a centímetros de distância. Uma verdade que, talvez, fosse pior do que qualquer coisa que ela pudesse imaginar. Ela subiu as escadas, Romulo logo atrás. O porão ficou em silêncio novamente, mas algo tinha sido libertado. Algo que não poderia mais ser escondido. E Sofia sabia que, uma vez que visse aquela fita, não haveria mais volta.