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A Aposta do Tigre - A ômega oculta do Alfa

A Aposta do Tigre - A ômega oculta do Alfa

Autor: LLovenista
Gênero: Fantasia
O jaleco branco era o meu escudo. O laboratório de biologia, o meu santuário. Eu, Bia, passei a vida inteira tentando ser invisível. Diagnosticada com uma sensibilidade alérgica extrema, sou obrigada a usar um spray bloqueador de odores todos os dias apenas para conseguir caminhar pelo campus sem sufocar. Eu achava que era apenas uma estudante comum, focada nos meus experimentos e na minha ciência. Até a porta do meu laboratório ser invadida pela presença mais perigosa da universidade. Lucas é o capitão do time de basquete. Lindo, arrogante, implacável e dono de olhos dourados que parecem enxergar através da minha alma. Para o campus, ele é apenas o astro intocável. Para o submundo sobrenatural, ele é o herdeiro do clã alfa dos metamorfos de tigre. Tudo começa com uma brincadeira estúpida. Desafiado pelos amigos do time, Lucas aceita uma aposta: ele tem um mês para seduzir a garota esquisita do laboratório. Mas o jogo muda no primeiro esbarrão. Quando o calor do corpo dele colide com o meu, o meu bloqueador falha por um milésimo de segundo. E o predador nele fareja o impossível. Por trás da química e do meu disfarce, meu sangue esconde um segredo que nem eu mesma conheço: o aroma da Ômega mais pura e compatível que a fera dele já encontrou em séculos. Agora, preso na sua própria mentira, Lucas usará a aposta como o pretexto perfeito para me cercar, me caçar e me manter sob o seu domínio. O tigre dele quer morder, marcar e me reivindicar a qualquer custo. Mas o que acontecerá quando eu descobrir que o homem que faz meu corpo queimar de desejo me transformou em um mero peão de um jogo de vestiário? Ela achava que era apenas uma humana comum escondendo uma alergia. Ele vai provar que ninguém escapa das garras do predador.
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Capítulo 1 O Cheiro do Perigo

POV BIA

O zumbido mecânico e contínuo do ar-condicionado era o único som que preenchia o laboratório de biologia do bloco C. Para qualquer outra pessoa, aquele ambiente com cheiro de álcool 70%, formol e superfícies de aço escovado seria frio e deprimente.

Para mim, era o paraíso.

Apoiando os cotovelos na bancada de granito, ajustei o foco do microscópio óptico com precisão cirúrgica. Uma nova linhagem de cultura celular estava se dividindo na lâmina de vidro, e comecei a anotar cada pequena mutação no meu caderno de capa dura.

Ali dentro, as coisas faziam sentido. A ciência tinha regras claras, dados palpáveis e, acima de tudo, não falava, não cobrava e não fazia barulho. O laboratório era o meu santuário particular contra o caos barulhento do campus. Eu me orgulhava de ser invisível para o resto da universidade.

De repente, parei a caneta no ar e franzi o nariz, sentindo um desconforto imediato. Uma pontada de dor de cabeça começou a latejar atrás dos meus olhos, ditando um ritmo chato e compassado que ameaçava estragar todo o meu foco.

Ajustei o foco do microscópio com precisão cirúrgica, observando uma linhagem de cultura celular em plena mitose. No visor, o mundo era perfeito: cromossomos se alinhando com uma obediência matemática, seguindo as regras claras e previsíveis da biologia molecular.

Eu me sentia segura ali; enquanto os dados fossem palpáveis, o caos barulhento da universidade não poderia me alcançar. Mas, conforme eu anotava as mutações no caderno, uma pontada de dor de cabeça latejou atrás dos meus olhos, uma desordem biológica que nenhum dos meus livros conseguia explicar.

​Nas últimas semanas, o campus parecia ter se tornado um lugar sufocante. O ar parecia mais denso, saturado com um odor pesado, almiscarado e quente que eu não conseguia identificar de jeito nenhum, mas que fazia minha pele pinicar de uma forma irritante.

Era um cheiro que parecia grudar na garganta, como ozônio antes de uma tempestade violenta misturada a algo selvagem, predatório. Sempre que eu passava perto da quadra de basquete ou dos corredores principais do Centro Acadêmico, aquela névoa invisível me sufocava, fazendo meu coração acelerar sem motivo.

​O médico da faculdade tinha me dito, com aquele sorrisinho condescendente de quem atende alunos estressados em fim de período, que era apenas uma "hipersensibilidade alérgica sazonal". Receitou um anti-histamínico genérico e me mandou evitar os jardins na primavera.

​Bufei, largando a caneta sobre a bancada de formica. Um diagnóstico ridículo. Alergias sazonais não faziam você sentir que estava sendo vigiada por olhos invisíveis no meio da biblioteca. Antialérgicos não explicavam por que o meu olfato, de repente, conseguia distinguir o perfume de três marcas diferentes de sabonete nas pessoas que passavam a dois metros da minha mesa de estudos.

​Enquanto a colônia de células no microscópio mantinha sua dança perfeitamente previsível, meu próprio corpo parecia uma equação cheia de incógnitas, prestes a quebrar todas as leis da biologia que eu passei a vida inteira estudando.

O ar do laboratório, antes esterilizado e neutro, de repente pareceu ganhar peso. Não era apenas um odor; era uma presença densa, almiscarada e quente que saturava o ambiente, fazendo minha pele pinicar como se milhares de partículas estivessem tentando me invadir.

O diagnóstico do médico sobre 'alergia sazonal' parecia uma piada de mau gosto diante daquela intensidade visceral.

Seja o que fosse, era a coisa mais irritante do mundo!

Largando a caneta, abri o zíper da minha mochila e puxei o spray bloqueador.

Aquilo era forte o suficiente para neutralizar qualquer partícula orgânica no ar, um verdadeiro escudo químico.

Inclinei a cabeça para o lado e borrifei o líquido generosamente nas laterais do meu pescoço, bem em cima da jugular. O líquido gelado tocou minha pele, e suspirei aliviada quando o perfume estéril e neutro tentou aplacar o cheiro sufocante que parecia vir de lugar nenhum.

Mas a sensação era de que eu estava apenas colocando um véu fino diante de um incêndio florestal que se recusava a apagar.

O bloqueador agiu na superfície, mas aquele odor pesado e magnético não estava apenas no ar; ele parecia ter dentes. Ele invadiu as minhas narinas de forma quase agressiva, uma presença física, quente e predatória, que se alojou direto na base do meu cérebro.

Minha pele não apenas pinicou; ela ardeu, como se estivesse respondendo a um chamado silencioso que tentava rasgar a minha compostura de cientista de dentro para fora. Meu coração deu um baque violento contra as costelas.

Mal guardei o frasco, com os dedos ligeiramente trêmulos, quando o silêncio do meu santuário foi brutalmente destruído.

A porta dupla do laboratório foi empurrada com tanta força que o impacto ecoou nas paredes de azulejo. O ar-condicionado pareceu falhar por um milésimo de segundo, engolido por uma lufada de vento repentina e quente que invadiu a sala, trazendo consigo aquele exato odor que eu estava tentando evitar - mas multiplicado por mil.

Ergui os olhos, a irritação faiscando no meu olhar, pronta para dar um esporro em quem quer que fosse. Mas as palavras morreram na minha garganta.

Não era um estudante comum entrando ali. Era uma presença que eu conhecia bem.

O choque térmico foi quase violento. O laboratório, que sempre mantinha a temperatura gélida e controlada para a preservação das lâminas e reagentes, virou um forno em questão de segundos. A lufada de vento que entrou com ele trouxe um calor absurdo, denso, que bateu contra o meu rosto e derreteu instantaneamente a barreira de gelo que eu passei a vida inteira construindo ao meu redor.

Era como se a própria presença dele distorcesse a física do ambiente, irradiando uma energia termodinâmica que meu cérebro puramente racional não conseguia processar.

Era o Lucas.

Ele parou bem no vão da porta, a respiração ligeiramente pesada, vestindo a regata do time de basquete da faculdade que deixava os braços fortes e os ombros largos totalmente expostos. Gotas de suor brilhavam na sua pele morena, e o cheiro que emanava dele - aquele ozônio predatório misturado a uma testosterona puramente selvagem - chicoteou o meu sistema com a força de um soco.

Meu corpo inteiro reagiu. Minhas mãos, que antes seguravam o frasco de alumínio, começaram a queimar, e uma linha invisível de eletricidade pareceu esticar-se entre nós, puxando-me na direção dele.

A Bia cientista queria correr para trás da bancada e analisar aquela anomalia sob uma lente segura; mas a Bia que estava presa dentro daquela carcaça humana só conseguia encarar os olhos dele, que pareciam faiscar em um tom de castanho perigosamente dourado ao me encontrarem no fundo do laboratório.

Lucas entrou digitando algo no celular, rindo baixo de alguma piada interna. Ele vestia a jaqueta preta e dourada do time de basquete da universidade - os Tigres -, com as mangas empurradas até os cotovelos, revelando antebraços grossos, marcados por veias salientes e uma fina camada de suor que brilhava sob a luz fluorescente.

Ele era alto, de ombros absurdamente largos, e se movia com uma leveza que contrastava drasticamente com o seu tamanho. Passos felinos, silenciosos, quase predatórios. O cabelo escuro estava bagunçado, e quando ele finalmente ergueu o rosto, pisquei, desconcertada. Os olhos dele, sob a iluminação direta do teto, reluziam em um tom de dourado âmbar que parecia perigoso demais para ser real.

Ele estava ali por algo mundano, é claro. Caminhou direto para a mesa central de inox, onde o professor de anatomia costumava deixar as revisões de prova para os atletas que precisavam de nota para não serem cortados do campeonato. Ele sequer parecia notar a minha presença no canto da sala.

Incomodada com a forma como o ar de repente tinha ficado escasso e quente, tentei me levantar rápido demais da banqueta alta de metal. Eu só queria pegar minhas coisas e sair dali antes que aquele magnetismo estranho me sufocasse.

Mas o tecido do meu jaleco prendeu em um dos ganchos da mesa.

- Droga - praguejei, sentindo meu corpo se desequilibrar para o lado.

Ao tentar me segurar, meu cotovelo bateu com força na bandeja de inox que sustentava dezenas de lâminas de vidro de minhas pesquisas. A bandeja escorregou da bancada, indo direto para o chão.

O vidro sequer teve tempo de quebrar.

Em uma fração de segundo que desafiou completamente todas as leis da física que eu conhecia, Lucas largou o celular na mesa e se moveu como um borrão escuro. Antes que a bandeja atingisse o azulejo, a mão enorme e calejada dele a aparou no ar. Ao mesmo tempo, o outro braço do atleta envolveu a minha cintura com força, puxando o meu corpo para cima e colando-o contra o dele antes que eu desabasse no chão.

O impacto foi um choque térmico.

Arfei.

Minhas mãos batendo contra o peito de Lucas por puro instinto de defesa. O peito dele era largo, duro como uma parede de pedra, e a temperatura que emanava da pele dele através do tecido do meu jaleco era absurda. Ele parecia estar queimando em febre, exalando um calor visceral.

O coração do atleta bateu em um ritmo pesado, violento, que eu conseguia sentir nitidamente contra a palma de minhas mãos. A pegada dele na minha cintura era possessiva, os dedos cravando-se no tecido com uma força desnecessária, me mantendo presa, erguida do chão.

Lucas travou. O sorriso arrogante que ele exibia segundos atrás sumiu por completo.

A cabeça dele pendeu ligeiramente para o lado, o rosto ficando a poucos centímetros do meu pescoço. As pupilas douradas dele se dilataram de forma assustadora, engolindo quase todo o âmbar dos seus olhos, transformando-os em duas fendas escuras e selvagens. Ele puxou o ar pelo nariz com força, me farejando exatamente onde o spray bloqueador lutava uma batalha perdida para esconder o que estava por baixo.

Um som baixo, gutural e vibrante ecoou do fundo do tórax de Lucas. Não foi um som humano. Foi um rosnado legítimo, pesado, que fez o peito dele vibrar diretamente contra as minhas mãos.

Meu coração disparou em uma velocidade inédita, uma onda de calor desconhecida e assustadora subindo por minha espinha, fazendo minhas pernas amolecerem. Meu corpo inteiro parecia querer se inclinar na direção dele, mas a minha mente racional entrou em pânico.

Assustada com a intensidade animalesca e o perigo que emanava daqueles olhos dourados, reuni todas as forças que tinha e empurrei o peito dele.

- Me solta! - exigi, a minha voz saindo um pouco mais trêmula do que eu pretendia.

Lucas piscou, como se estivesse acordando de um transe profundo, e afrouxou o braço, deixando que meus pés tocassem o chão. Dei dois passos rápidos para trás, ajeitando o jaleco com as mãos trêmulas, tentando desesperadamente recuperar a pose sarcástica que sempre usei como escudo.

- Dá para o astro do basquete me soltar ou você também tem problemas com a gravidade? - disparei, erguendo o queixo, embora meu pulso ainda estivesse martelando na garganta. - E que som esquisito foi esse? Se estiver tendo um ataque de asma, a enfermaria fica no bloco B, não aqui.

Lucas deu um passo atrás, mas não recuou de verdade. Ele estava olhando para a própria palma da mão, a mão que tinha moldado a minha cintura, como se estivesse processando um milagre. Quando ele ergueu os olhos para mim novamente, a postura de garoto popular e brincalhão tinha evaporado. Havia uma seriedade tensa nele, uma imponência predatória que fez o laboratório parecer pequeno demais para o tamanho dele.

Um sorriso de lado, lento, afiado e carregado de uma promessa perigosa surgiu nos lábios de Lucas. Ele pegou o relatório de anatomia da mesa sem desviar os olhos de mim por um segundo sequer.

​- Eu não preciso de enfermaria, Bia. - Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre nós, e inclinou o corpo na minha direção até que eu sentisse o hálito quente dele tocar minha orelha. - Mas você deveria começar a se acostumar com a minha presença. Porque eu vou frequentar esse laboratório muito mais do que você imagina.

Sem esperar uma resposta, ele se virou e caminhou em direção à saída. Após a porta bater e o silêncio retornar, desabei na banqueta com as pernas trêmulas. Meu santuário, que antes era o meu paraíso, agora parecia frio demais, vazio demais e estranhamente insuficiente.

O cheiro de álcool e formol, que sempre me trouxe paz, havia perdido a batalha para o rastro de tempestade e floresta que Lucas deixou impregnado nas minhas roupas e na minha pele. O laboratório ainda era o mesmo, mas a invisibilidade que eu tanto prezava agora parecia uma gaiola quebrada.

Levei a mão trêmula ao pescoço, onde o spray bloqueador já não fazia efeito nenhum. O laboratório podia até tentar voltar à sua temperatura gélida, mas por dentro, o calor que Lucas tinha trazido continuava queimando, deixando claro que nenhuma barreira científica seria capaz de apagar a marca que ele tinha acabado de deixar em mim.

Capítulo 2 Aposta de Sangue

POV LUCAS

A porta dupla do laboratório mal bateu atrás de mim e meu corpo inteiro tencionou. Eu não conseguia respirar direito.

Manter a fachada de capitão do time enquanto caminhava pelo corredor exigia um esforço físico real; minha visão ameaçava mudar para o dourado a cada passo e meus músculos pediam o peso da transformação, tornando meus passos pesados e instintivos. Minhas mãos, ainda segurando as folhas amassadas do relatório de anatomia, estavam tremendo de leve, e a pele sob as mangas da minha jaqueta ardia.

Por dentro, o tigre arranhava a minha consciência, rugindo, desesperado para dar a volta e estraçalhar aquela porta de madeira. Volta. Reivindica. Minha.

- Fica quieto - rosnei baixinho, apertando os dentes enquanto caminhava a passos rápidos pelo corredor deserto do bloco C.

Eu olhei para a minha palma direita. A sensação da cintura fina daquela garota, a Bia, parecia gravada a fogo na minha pele. Mas não era o toque que estava enlouquecendo a minha fera. Era o cheiro.

Puxei o ar com força e o aroma dela ainda estava impregnado nos meus dedos. Flores silvestres, chuva fresca e algo profundamente doce, visceral. Ômega.

Era mais do que um perfume de Ômega legítima; era uma assinatura genética que agia como uma âncora para o meu tigre, reconhecendo instantaneamente a peça que faltava na minha própria natureza e fazendo meu sangue de Alfa ferver de uma forma que eu nunca havia sentido antes.

Há séculos o meu clã procurava por uma linhagem assim, e eu a encontrei em uma garota magricela de jaleco que achava que eu estava tendo um "ataque de asma". Ela estava usando algum tipo de bloqueador químico no pescoço, mas bastou um segundo de contato elétrico entre os nossos corpos para o disfarce dela desmoronar para o meu olfato.

Eu precisava me acalmar. Se eu agisse como um animal selvagem e a atacasse ali, quebraria o sigilo do clã na universidade e a assustaria para sempre. Eu precisava de uma estratégia.

Quando entrei no vestiário masculino do ginásio, o calor e o barulho me atingiram. O som de bolas quicando, risadas altas e chuveiros ligados costumava ser o meu ambiente de conforto, mas hoje tudo parecia irritante.

- Olha quem voltou do reino dos mortos - gritou Gustavo, o ala-armador do time e meu segundo em comando no bando, jogando uma toalha no banco de madeira. - Conseguiu o papel com o velho ou vamos ter que jogar a semifinal sem o nosso capitão?

- Consegui - joguei o relatório em cima do armário de metal com mais força do que pretendia. O estrondo fez o vestiário silenciar por um segundo.

Murilo, outro metamorfo do nosso clã que estava calçando os tênis, semcerrou os olhos e farejou o ar discretamente. O maxilar dele travou.

- Cara... que porra de cheiro é esse em você? - Murilo deu um passo atrás, as pupilas dele ameaçando dilatar. - É... território? Você cruzou com algum maldito lobo no bloco de biologia?

Instintivamente, meu peito estufou. Um rosnado territorial e abafado vibrou na minha garganta, tão denso que a minha aura de Alfa se expandiu pelo vestiário. Gustavo e Murilo baixaram levemente a cabeça, um reflexo automático de submissão dos metamorfos mais jovens perante o líder do clã.

Eles não conseguiram decifrar o cheiro de Ômega em mim porque eu tinha engolido quase todo o aroma no laboratório, mas eles sentiram a minha possessividade explodindo.

- Não era um lobo - cortei, limpando o suor da testa com as costas da mão, tentando baixar a guarda antes que os humanos do time percebessem a tensão. - Só um esbarrão estúpido no corredor.

Gustavo relaxou a postura e soltou uma risada debochada, sentando-se no banco.

- Esbarrão? Sei. Do jeito que você é, deve ter sido mais uma das suas conquistas. O Lucas não perde tempo. O campus inteiro cai de joelhos para o capitão, até as patricinhas do bloco de artes.

- Menos uma - Murilo provocou, recuperando a audácia e pegando a bola de basquete no chão. - Tem uma fortaleza ali no bloco C que nem o nosso Alfa consegue derrubar. A esquisita da ecologia, aquela Bia. Ela olha para o time como se fôssemos um bando de neandertais. Duvido que você consiga arrancar um sorriso daquela nerd nem se tentasse por um ano inteiro.

Girei o pescoço, ouvindo os ossos estalarem. Meus olhos se fixaram em Murilo.

- Você está me desafiando? - perguntei, a voz saindo mais grave e pausada.

- Estou propondo um jogo, capitão - Murilo sorriu de lado, girando a bola na ponta do dedo. - Uma aposta. Um mês. Se você conseguir colocar aquela garota na sua cama antes do final do campeonato, as chaves do meu Camaro novo são suas. Se falhar e levar um fora histórico, você me passa a liderança do ataque no próximo jogo e paga as bebidas do clã até o fim do ano. E aí? O grande tigre aceita a caçada?

Olhei para a parede de azulejos do vestiário, minha mente trabalhando na velocidade de um raio.

Uma aposta. Uma brincadeira idiota de vestiário humano.

Se eu tentasse cercar a Bia do nada, o campus inteiro suspeitaria. Pior: os clãs rivais que vigiavam a nossa universidade perceberiam que o herdeiro dos Tigres estava interessado em uma humana comum e começariam a farejar em volta dela. Mas se eu usasse a fachada de um atleta arrogante cumprindo uma aposta babaca... eu teria o pretexto perfeito. Ninguém desconfiaria de nada. Eu poderia segui-la, cercá-la e mantê-la debaixo das minhas garras sob o pretexto de ser apenas um atleta arrogante, sem levantar nenhuma suspeita sobrenatural.

O tigre dentro de mim rugiu em aprovação. A armadilha estava montada.

Caminhei até Murilo, estendendo a mão com um sorriso cínico e superior bem ensaiado.

- É melhor você começar a andar de ônibus, Murilo - fechei o aperto de mão, selando o acordo de sangue. - Considere o carro meu.

Os caras do vestiário gritaram e comemoraram, achando que era apenas mais um jogo de ego de faculdade. Eles não tinham a menor ideia. Eu não queria o carro, e isso não era uma brincadeira. O jogo tinha começado, mas a presa já pertencia ao predador. Eu ia caçar a minha Ômega, e ninguém ficaria no meu caminho.

Capítulo 3 O Cerco do Predador

POV BIA

Eu não consegui dormir direito. Passei a noite inteira rolando na cama, chutando os lençóis e lutando contra a memória daquela tarde no laboratório. Toda vez que eu fechava os olhos, o calor absurdo do corpo de Lucas parecia queimar a minha pele, e aquele som estranho - aquele rosnado vibrante e grave que ele soltou - ecoava na minha mente, fazendo meu peito palpitar de um jeito que a ciência não conseguia explicar.

Para piorar, acordei sentindo meus sentidos em pane. Enquanto caminhava até a cafeteria do campus, o mundo parecia barulhento demais, brilhante demais. O cheiro de café queimado, os perfumes baratos dos alunos e até o odor da fumaça dos carros na avenida pareciam agredir o meu nariz de uma forma violenta. Puxei o frasco do meu spray bloqueador da bolsa e borrifei três vezes no pescoço, desesperada para aplacar aquela suposta crise alérgica que parecia piorar a cada segundo.

Eu me encolhi em uma mesa de canto na cafeteria, tentando me esconder atrás do meu livro de biologia molecular. Eu só queria sumir.

Mas a paz durou pouco.

O ambiente da cafeteria mudou de repente. O burburinho baixo deu lugar a risadas altas e passos pesados quando as portas duplas se abriram. Eu nem precisei erguer os olhos para saber quem era. Uma onda inexplicável de calor arrepiou os pelos dos meus braços antes mesmo que a voz dele ecoasse.

Lucas entrou cercado pelos outros atletas do time de basquete. Ele exalava aquela arrogância natural de quem sabe que é o dono do lugar, mas havia algo diferente nele hoje. Algo mais tenso. No segundo em que ele pisou no recinto, os olhos dourados dele varreram as mesas com precisão cirúrgica.

E travaram em mim.

Eu tentei erguer o livro ainda mais, fingindo demência, mas o magnetismo daquele olhar era quase físico. Lucas ignorou os amigos, que começaram a cochichar e rir entre si, e caminhou em linha reta na minha direção. Cada passo dele parecia fazer o chão vibrar.

Sem pedir licença, ele puxou a cadeira vazia bem na minha frente e se sentou, abrindo as pernas de um jeito folgado e jogando a jaqueta do time sobre o encosto. Ele colocou um copo de café fumegante bem em cima do meu livro aberto.

- O bloco de esportes fica do outro lado do campus, Lucas - falei, abaixando o livro e usando a minha melhor armadura de sarcasmo para disfarçar o fato de que meu coração estava quase quebrando minhas costelas. - Se perdeu no caminho ou esqueceu como se lê as placas?

Lucas deu um sorriso lento, predatório, que fez meu estômago dar um nó.

- Eu sei muito bem onde estou, Bia - a voz dele saiu rouca, mansa, mas carregada de uma intensidade que me fez engolir em seco. - E eu vim garantir que você não esquecesse da nossa conversa de ontem. Como está a sua asma?

- Eu não tenho asma. E você deveria estar na enfermaria cuidando da sua - rebati, tentando manter a voz firme.

Mas enquanto eu falava, o cheiro dele me atingiu. Cruzando a mesa, o aroma de floresta densa e tempestade que emanava do corpo dele invadiu o meu espaço de forma tão violenta que o meu bloqueador de odores simplesmente falhou. Minhas mãos começaram a tremer sob a mesa. Uma onda de calor subiu pelo meu pescoço, e eu tive a sensação absurda de que se ele se aproximasse mais um centímetro, eu perderia o controle das minhas próprias pernas.

Lucas percebeu. Os olhos dele dilataram por um milésimo de segundo, brilhando como ouro puro, e ele se inclinou sobre a mesa pequena, diminuindo a distância entre nós até que eu pudesse ver as listras douradas na íris dele.

- O professor de anatomia me deu os relatórios hoje cedo - ele sussurrou, a voz vibrando tão baixo que só eu podia ouvir. - E adivinha? Ele achou que seria uma excelente ideia nos colocar como dupla no grande projeto do semestre. Parece que vamos passar muitas tardes trancados naquele seu laboratório silencioso.

Meu cérebro entrou em pânico. Trabalhar com ele? No isolamento daquele bloco antigo? Nem pensar. Eu não ia sobreviver a uma semana com aquele homem testando os limites do meu corpo e da minha sanidade.

- Eu vou pedir para mudar de dupla - falei abruptamente, fechando o livro com força e me levantando da cadeira para fugir dali antes que eu desabasse.

Eu mal dei o primeiro passo para trás quando a mão dele se fechou ao redor do meu pulso.

Não foi um aperto doloroso, mas foi firme, implacável como uma algema de ferro quente. No segundo em que a pele dele tocou a minha, um choque elétrico correu pelo meu braço, fazendo meus joelhos fraquejarem. Lucas se levantou devagar, ficando absurdamente alto diante de mim, bloqueando a luz da cafeteria e me mantendo presa sob a sua sombra.

Ele se inclinou, a boca colada na lateral do meu pescoço, exatamente onde a minha pele ardia.

- Não adianta correr, Bia - ele sussurrou, e o hálito quente dele fez meu corpo inteiro estancar. - Eu posso ser péssimo em biologia... mas sou muito bom em caçar o que eu quero. Te vejo à tarde.

Ele soltou meu pulso com a mesma rapidez com que prendeu e se afastou, deixando um sorriso cínico brincar nos lábios enquanto voltava para o grupo de amigos.

Fiquei parada no meio da cafeteria, com o coração parecendo uma bateria desgovernada e o campus inteiro me encarando. Olhei para o meu pulso, que ainda formigava com o calor dele, sentindo uma certeza assustadora no peito: a caça dele tinha começado, e eu tinha acabado de virar a presa.

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