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A Confeiteira da Revanche

A Confeiteira da Revanche

Autor:: Ren Ping Sheng
Gênero: Fantasia
O cheiro de antisséptico no hospital se tornou o lembrete constante de uma nova e dolorosa realidade: meu irmão, Lucas, paralisado na cama. Em uma vida passada, este foi o momento exato do meu desespero, quando aceitei qualquer ajuda para curá-lo, inclusive a oferta da poderosa família Silva. Meu dom era único – minhas sobremesas podiam curar – e a filha deles, Clara, que não andava, era a promessa de cura para Lucas. Eu acreditei neles, curei Clara, mas a promessa era uma mentira cruel: eles me descartaram, destruíram minha vida e garantiram que Lucas nunca recebesse o tratamento de que precisava, levando-o à morte e, logo depois, a mim, em um mar de arrependimento. Mas agora, no mesmo hospital, com Lucas ainda pálido, o toque do meu celular e o nome "Beatriz Silva" na tela me trouxeram uma certeza fria: desta vez, eu não seria a garota ingênua; eu recusaria, e o jogo cruel deles não se repetiria.

Introdução

O cheiro de antisséptico no hospital se tornou o lembrete constante de uma nova e dolorosa realidade: meu irmão, Lucas, paralisado na cama.

Em uma vida passada, este foi o momento exato do meu desespero, quando aceitei qualquer ajuda para curá-lo, inclusive a oferta da poderosa família Silva.

Meu dom era único – minhas sobremesas podiam curar – e a filha deles, Clara, que não andava, era a promessa de cura para Lucas.

Eu acreditei neles, curei Clara, mas a promessa era uma mentira cruel: eles me descartaram, destruíram minha vida e garantiram que Lucas nunca recebesse o tratamento de que precisava, levando-o à morte e, logo depois, a mim, em um mar de arrependimento.

Mas agora, no mesmo hospital, com Lucas ainda pálido, o toque do meu celular e o nome "Beatriz Silva" na tela me trouxeram uma certeza fria: desta vez, eu não seria a garota ingênua; eu recusaria, e o jogo cruel deles não se repetiria.

Capítulo 1

O cheiro de antisséptico do hospital era a primeira coisa que me atingia, um lembrete constante da minha nova realidade. Meu irmão, Lucas, estava deitado na cama, pálido, a parte inferior do seu corpo imóvel sob o lençol branco. Paraplégico. A palavra do médico ecoava na minha cabeça como uma sentença de morte.

Na minha vida passada, este foi o momento exato em que meu desespero começou. Foi o momento em que eu teria feito qualquer coisa, aceitado qualquer acordo, para encontrar uma cura para ele. E eu fiz. Eu aceitei a oferta da família Silva.

Meu dom era único, minhas sobremesas podiam curar. Elas traziam alegria, aliviavam dores e, em casos raros, revertiam doenças. Era uma habilidade que eu guardava com cuidado, mas a notícia se espalhou nos círculos certos. A família Silva, poderosa e rica, me encontrou. A filha deles, Clara, sofria de uma doença misteriosa que a impedia de andar. Eles me ofereceram uma fortuna, recursos ilimitados, a promessa de que, se eu curasse Clara, eles moveriam o céu e a terra para curar Lucas.

Eu acreditei neles. Dediquei cada minuto da minha vida a Clara, criando sobremesas complexas, usando toda a minha energia. E eu consegui. Clara voltou a andar. Mas a promessa deles era uma mentira. Assim que conseguiram o que queriam, eles me descartaram. Pior, eles viram meu dom como uma ameaça, um segredo que não podiam deixar vazar. Eles destruíram minha confeitaria, arruinaram minha reputação e, no final, garantiram que Lucas nunca recebesse o tratamento de que precisava. Ele morreu, e eu morri logo depois, com o coração partido e cheia de arrependimento.

Mas agora, eu estava de volta. O mesmo cheiro de hospital, a mesma cama, o mesmo Lucas pálido. A dor era a mesma, mas algo dentro de mim havia mudado. Eu não era mais a garota ingênua e desesperada. Eu era uma mulher que tinha visto o fim da estrada e recebido uma segunda chance.

Meu celular vibrou no bolso. Eu o peguei. O nome na tela fez um calafrio percorrer minha espinha.

Beatriz Silva.

A mãe de Clara. O começo do meu fim na vida passada.

Respirei fundo, o ar frio enchendo meus pulmões. O som dos monitores cardíacos de Lucas era a única coisa que quebrava o silêncio. Eu atendi.

"Alô?"

A voz de Beatriz Silva era suave, polida, mas carregada de uma urgência que eu conhecia bem.

"Senhorita Luana? Meu nome é Beatriz Silva. Eu sei que este é um momento terrível para você, e sinto muito pelo que aconteceu com seu irmão."

Mentiras. Ela não sentia nada.

"Eu obtive seu número através de uma fonte em comum. Ouvi falar do seu... talento único. Minha filha, Clara, está doente. Ela não consegue andar. Os médicos estão perdidos. Dizem que você pode fazer milagres."

Na minha vida passada, essas palavras foram como uma tábua de salvação. Agora, elas soavam como o veneno que eram.

Eu permaneci em silêncio por um momento, olhando para o rosto adormecido de Lucas. Eu faria tudo certo desta vez.

"Senhorita Luana, você está aí?"

"Estou," eu disse, minha voz firme, desprovida da hesitação que ela esperava. "E a resposta é não."

Houve um silêncio chocado do outro lado da linha.

"Não? O que você quer dizer com não? Nós pagaremos qualquer preço. Qualquer coisa que você pedir."

"Não estou interessada," eu respondi friamente. "Meu irmão precisa de mim. Não tenho tempo para sua filha."

"Como você ousa?", uma nova voz, jovem e arrogante, soou no telefone. Clara. Ela deve ter arrancado o telefone da mão de sua mãe. "Você sabe quem nós somos? Nós podemos te dar tudo! Podemos curar seu irmão!"

Um riso amargo escapou dos meus lábios.

"Você não pode curar ninguém, Clara. E eu sugiro que você procure um médico de verdade. Talvez vários. Você vai precisar."

"Você está me ameaçando?", ela gritou, sua voz esganiçada.

"Estou te dando um conselho. Adeus, Clara."

Eu desliguei.

Pela primeira vez em muito, muito tempo, eu senti uma onda de poder, não do meu dom, mas da minha própria vontade. Eu estava no controle.

A porta do quarto se abriu e Pedro entrou. Meu melhor amigo, com seus olhos gentis e jaleco branco amassado. Ele era um jovem médico, cheio de ideais, e a única pessoa que esteve ao meu lado até o fim na minha vida passada.

"Luana? Eu soube do Lucas. Eu vim assim que pude. Como você está?"

Ele me olhou com preocupação, e pela primeira vez, eu não desmoronei.

"Eu vou ficar bem, Pedro. E o Lucas também vai."

Ele franziu a testa, confuso com minha calma.

"O telefone estava tocando," eu disse, mostrando o aparelho. "Eram os Silva. Eles queriam que eu curasse a Clara."

Os olhos de Pedro se arregalaram. Ele conhecia os rumores sobre meu dom, e também conhecia a reputação dos Silva.

"E o que você disse?"

"Eu disse não."

Um sorriso lento se espalhou pelo rosto de Pedro.

"Bom. Eles são problema. Fique longe deles."

"Eu vou," eu prometi. "Desta vez, eu vou."

Enquanto eu falava, uma senhora idosa que eu não tinha notado antes, sentada num canto do corredor, me olhou. Seus olhos eram escuros e profundos, cheios de uma sabedoria que parecia antiga. Era Dona Rosa, uma curandeira que vendia ervas no mercado local. Na minha vida passada, eu a ignorei. Desta vez, eu encontrei seu olhar e assenti levemente. Ela sorriu, um sorriso pequeno e conhecedor, como se soubesse exatamente o que estava acontecendo. Um novo caminho estava se abrindo, e eu estava pronta para segui-lo.

Capítulo 2

As semanas seguintes foram um borrão de fisioterapia, consultas médicas e noites mal dormidas ao lado da cama de Lucas. Recusei todas as tentativas de contato da família Silva. Eles enviaram flores, mensagens, até um cheque em branco com um bilhete implorando. Joguei tudo no lixo. Minha recusa em ajudar Clara Silva se tornou um pequeno escândalo nos círculos da alta sociedade, mas eu não me importava. Meu foco era um só: Lucas.

Com a minha experiência da vida passada, eu sabia quais tratamentos funcionavam e quais eram perda de tempo. Orientei os médicos, sugeri terapias alternativas que eles nunca considerariam e, acima de tudo, usei meu dom. Todas as noites, eu preparava para Lucas um pequeno manjar, uma mousse de maracujá com um toque de camomila e algo mais, algo que só eu podia adicionar. Lentamente, a sensibilidade começou a voltar para suas pernas. Era um progresso minúsculo, quase imperceptível para os outros, mas para mim, era um universo de esperança.

Um dia, um envelope grosso e elegante chegou pelo correio. Era um convite para o baile de gala anual do Hospital Beneficente, o maior evento social do Rio de Janeiro. Na minha vida passada, eu joguei fora. Desta vez, eu sabia que precisava ir. Era uma oportunidade de estabelecer novas conexões, pessoas que poderiam genuinamente ajudar Lucas e a mim, longe da influência tóxica dos Silva.

"Você tem certeza disso?", Pedro perguntou, segurando o convite. "Aquele lugar vai estar cheio de tubarões. E os Silva com certeza estarão lá."

"É por isso que eu vou," eu disse, escolhendo um vestido simples, mas elegante, do meu armário. "Preciso mostrar a eles que não tenho medo. E que não preciso deles."

A mãe de Clara, Beatriz, me ligou mais uma vez na noite do baile. Sua voz estava tensa.

"Luana, por favor. A condição de Clara está piorando. Ela... ela mal consegue sair da cama agora. O que quer que queiramos, nós pagaremos."

"Eu sinto muito por Clara," eu disse, e uma parte de mim realmente sentia. A Clara desta vida ainda não tinha me traído. "Mas minha decisão está tomada."

Desliguei antes que ela pudesse responder.

O salão de festas estava deslumbrante, um mar de cristais, sedas e joias. Eu me sentia um peixe fora d'água, mas mantive a cabeça erguida. Pedro, desconfortável em seu smoking, permaneceu ao meu lado. Não demorou muito para que eu os visse.

Clara Silva entrou no salão amparada por um homem alto e bronzeado, com um sorriso branco demais para ser real. Seu nome era Ricardo. Na minha vida passada, eu só ouvi falar dele depois que tudo desmoronou. Ele era um "terapeuta holístico", um charlatão que se aproveitava de pessoas desesperadas. E, aparentemente, o novo salvador de Clara.

Clara parecia frágil, mas seus olhos brilhavam com uma febre desafiadora. Ela usava um vestido vermelho berrante, uma tentativa clara de chamar a atenção. Ricardo a guiou até um grupo de pessoas, falando em voz alta o suficiente para que todos ouvissem.

"A medicina tradicional falhou com a Clara," ele disse, com um ar de superioridade. "Eles só sabem cortar e drogar. Mas a energia do corpo é uma força poderosa. Com minhas técnicas, Clara já está sentindo uma melhora tremenda. Em breve, ela estará dançando de novo."

Vários médicos no grupo, incluindo o chefe de neurocirurgia do hospital, olharam para ele com desprezo. Pedro bufou ao meu lado.

"Que palhaço. Ele está colocando a vida dela em risco."

Clara me viu do outro lado do salão. Ela sussurrou algo para Ricardo, e os dois vieram em nossa direção, abrindo caminho pela multidão.

"Ora, ora, se não é a famosa confeiteira milagrosa," Clara disse, sua voz pingando sarcasmo. "A que abandona os doentes para morrer."

"Eu não abandono ninguém, Clara," respondi calmamente. "Eu simplesmente escolho quem ajudar."

"E, claramente, você fez a escolha errada," Ricardo interveio, passando o braço possessivamente pela cintura de Clara. "Enquanto você se escondia, eu estava aqui, curando-a. O poder da mente e da energia positiva supera qualquer doce que você possa fazer."

Ele olhou para Pedro.

"E vocês, médicos, com seus métodos ultrapassados. Vocês são dinossauros. O futuro da cura está aqui." Ele apontou para a própria cabeça.

Pedro deu um passo à frente, furioso. "Você é um charlatão perigoso. O que você está dando a ela? Esteroides? Anfetaminas? Algo para mascarar os sintomas enquanto a doença progride?"

"Ciúmes, doutor?", Ricardo riu. "Porque eu posso fazer o que você não pode?"

Foi então que eu decidi intervir.

"É impressionante," eu disse, com um sorriso doce. "Sua confiança é quase tão grande quanto sua ignorância."

O sorriso de Ricardo vacilou.

"O que você disse?"

"Eu disse que é fácil fazer grandes afirmações," continuei, minha voz baixa, mas cortante. "Mas prová-las é outra história. Curar uma condição psicossomática com placebo é uma coisa. Curar uma doença degenerativa real... bem, isso requer mais do que palavras bonitas e energia positiva."

A multidão ao nosso redor ficou em silêncio, sentindo o cheiro de sangue na água.

O rosto de Ricardo endureceu. A raiva brilhou em seus olhos.

"Você está me desafiando?"

"Talvez," eu disse, dando de ombros.

"Então vamos fazer isso ser interessante," ele declarou, sua voz ressoando pelo salão. "Uma aposta. Em público."

Clara sorriu, um sorriso vitorioso e cruel. Era exatamente isso que eles queriam. Humilhar-me publicamente.

"Eu aposto que em um mês, Clara estará andando perfeitamente, curada por mim. E você... você não conseguirá nada com seus métodos inúteis."

"E o que eu ganho se você perder?", perguntei.

"Eu admitirei publicamente que sou uma fraude e nunca mais praticarei minha 'cura'," ele disse com desdém.

Um murmúrio percorreu a multidão. As apostas eram altas.

"Eu aceito," eu disse. "Mas com uma condição."

Todos os olhos se voltaram para mim.

"Eu não vou tentar curar a Clara."

Ricardo e Clara pareceram confusos.

"Eu vou escolher meu próprio paciente," continuei, minha voz clara e firme. "Alguém que seus amigos médicos," eu gesticulei para o grupo de doutores chocados, "já desistiram. Alguém em estado terminal ou em coma profundo. E se eu tiver sucesso e você não, você não apenas admitirá que é uma fraude. Você e a família Silva vão financiar uma ala inteira de cuidados paliativos e reabilitação neste hospital. Com o nome do meu irmão."

O queixo de Pedro caiu. O salão explodiu em sussurros. A aposta tinha acabado de se tornar lendária.

Clara me fuzilou com os olhos.

"Você está louca. Você vai falhar."

Ricardo, preso em sua própria arrogância, não podia recuar.

"Feito," ele rosnou. "Prepare-se para ser humilhada, confeiteira."

"Oh, não se preocupe," eu disse, olhando diretamente nos olhos de Clara. "A humilhação virá. Mas não será minha."

Eu me virei e saí, com Pedro ao meu lado, deixando para trás um salão em polvorosa e um casal cuja queda eu tinha acabado de arquitetar.

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