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A Dor de um Pai Enganado

A Dor de um Pai Enganado

Autor:: Natacha Lania
Gênero: Fantasia
A cabeça de João Carlos latejava, com o gosto amargo da noite anterior. Ele acordou em sua cama, o sol da manhã invadindo o quarto. Foi quando percebeu: seu filho Lucas havia desaparecido do berço. No lugar, uma menina que ele nunca tinha visto, com um macacão rosa. Sua esposa, Ana Paula, e seus pais, Regina e Roberto, agiam como se nada estivesse errado. Eles insistiam que a menina, Isabella, era sua filha e que Lucas nunca existiu. Seu mundo virou um pesadelo de acusações e mentiras, pintando-o como um louco obcecado. Em seu desespero para provar a verdade, ele se aproximou da bebê, e na confusão, ela parou de respirar em seus braços. A cena causou horror, com sua família o apontando como assassino, as câmeras registrando cada grito. Ele foi condenado, e a eletricidade da cadeira ceifou sua vida. A dor e a injustiça foram a última coisa que sentiu antes da escuridão. Mas a vida lhe deu uma segunda chance. Ele acordou novamente na mesma cama, no mesmo dia, com a mesma dor de cabeça. A menina estava lá, no berço, e a farsa de sua família se desenrolava outra vez. Ele não seria mais uma vítima. Desta vez, equiparado com o conhecimento do futuro, ele iria desmascarar cada um deles e lutar pela verdade. A vingança começou, e ele não aceitaria ser o bode expiatório novamente.

Introdução

A cabeça de João Carlos latejava, com o gosto amargo da noite anterior.

Ele acordou em sua cama, o sol da manhã invadindo o quarto.

Foi quando percebeu: seu filho Lucas havia desaparecido do berço.

No lugar, uma menina que ele nunca tinha visto, com um macacão rosa.

Sua esposa, Ana Paula, e seus pais, Regina e Roberto, agiam como se nada estivesse errado.

Eles insistiam que a menina, Isabella, era sua filha e que Lucas nunca existiu.

Seu mundo virou um pesadelo de acusações e mentiras, pintando-o como um louco obcecado.

Em seu desespero para provar a verdade, ele se aproximou da bebê, e na confusão, ela parou de respirar em seus braços.

A cena causou horror, com sua família o apontando como assassino, as câmeras registrando cada grito.

Ele foi condenado, e a eletricidade da cadeira ceifou sua vida.

A dor e a injustiça foram a última coisa que sentiu antes da escuridão.

Mas a vida lhe deu uma segunda chance.

Ele acordou novamente na mesma cama, no mesmo dia, com a mesma dor de cabeça.

A menina estava lá, no berço, e a farsa de sua família se desenrolava outra vez.

Ele não seria mais uma vítima.

Desta vez, equiparado com o conhecimento do futuro, ele iria desmascarar cada um deles e lutar pela verdade.

A vingança começou, e ele não aceitaria ser o bode expiatório novamente.

Capítulo 1

A cabeça de João Carlos latejava, um tambor incessante batendo contra seu crânio. O gosto amargo de álcool e arrependimento cobria sua língua. Ele abriu os olhos lentamente, a luz do sol da manhã invadindo o quarto e agredindo suas pupilas. A festa de um mês do seu filho tinha sido pesada. Pesada demais. Ele se lembrava de brindes, de risadas altas, de seu pai, Roberto, dando tapinhas em suas costas, e de sua mãe, Regina, circulando entre os convidados com um sorriso satisfeito. Ana Paula, sua esposa, estava radiante, o centro das atenções com o pequeno Lucas no colo.

Lucas. Seu filho. Um menino.

João Carlos se sentou na cama, o mundo girando por um segundo. Ele olhou para o lado. Ana Paula não estava ali. Um barulho suave veio do canto do quarto, do berço de madeira branca que seu avô, Seu Fernando, lhes dera de presente. Um presente relutante, ele se lembrava. Seu avô nunca aprovou o casamento.

Ele se levantou, os pés descalços no chão frio de mármore, e caminhou até o berço, um sorriso cansado se formando em seu rosto. Ele queria ver seu campeão.

Mas o bebê no berço não era Lucas.

O cabelo era mais ralo, a pele um tom mais claro. E, inconfundivelmente, o bebê usava um macacãozinho rosa. Era uma menina.

João Carlos piscou, balançando a cabeça para clarear a névoa da ressaca. Ele devia estar sonhando. Ou ainda bêbado. Ele se inclinou, olhando mais de perto. Não, não era um sonho. Era uma menina. Uma bebê que ele nunca tinha visto na vida.

O pânico começou a subir por sua garganta, gelado e rápido.

"Ana Paula?" Ele chamou, a voz rouca.

Nenhuma resposta.

Ele saiu do quarto, quase correndo pelo corredor luxuoso da mansão. Encontrou sua mãe na cozinha, supervisionando o café da manhã.

"Mãe, onde está a Ana Paula? E onde está o Lucas?"

Dona Regina se virou, uma expressão de estranha confusão no rosto.

"Do que você está falando, meu filho? Ana Paula saiu para tomar um ar. E a Isabella está dormindo no berço, como sempre. Você bebeu tanto assim ontem?"

"Isabella? Quem é Isabella?" O coração de João Carlos começou a acelerar. "Mãe, o nosso filho se chama Lucas. É um menino. Onde ele está?"

Dona Regina franziu a testa, uma pitada de irritação em sua voz.

"João Carlos, pare com essa brincadeira. Sua filha se chama Isabella. Nós celebramos o primeiro mês dela ontem. Você está bem? Talvez precise de um médico."

Ela o tratava como se ele fosse louco. Um calafrio percorreu a espinha de João Carlos. Ele olhou ao redor da cozinha. Sobre a geladeira, presas com um ímã, havia fotos da festa. Ele se aproximou. Era ele, Ana Paula, e o bebê. A menina. A mesma menina que estava no berço. Em todas as fotos.

Não. Impossível.

Ele se virou e correu de volta para o quarto. A bebê ainda estava lá, dormindo pacificamente. Ele pegou seu celular na mesa de cabeceira, as mãos tremendo. Abriu a galeria de fotos. Centenas de fotos. Todas da menina. Isabella. Nenhuma foto de Lucas. Era como se seu filho, o menino que ele segurou nos braços por um mês, nunca tivesse existido.

"Isso é loucura," ele sussurrou. "Isso é um pesadelo."

Seu pai, Seu Roberto, entrou no quarto, parecendo preocupado.

"Filho, sua mãe me disse que você não está se sentindo bem. Aconteceu alguma coisa?"

"Pai, me diga a verdade. Onde está o Lucas? O que vocês fizeram com o meu filho?" A voz de João Carlos era um fio de desespero.

Seu Roberto olhou para ele com pena, como se estivesse olhando para um doente mental.

"João Carlos, você sempre quis ter um menino, nós sabemos disso. Mas Deus nos deu a pequena Isabella. E ela é uma bênção. Você precisa aceitar isso."

"Não! Não!" João Carlos gritou, o controle se esvaindo. "Eu não estou louco! Eu tenho um filho! O nome dele é Lucas!"

A bebê no berço acordou com o grito e começou a chorar. Um choro fraco, agudo.

"Veja o que você fez," disse Ana Paula, entrando no quarto. Seu rosto, normalmente doce, estava contraído em uma máscara de desaprovação. "Você assustou a nossa filha."

Ela foi até o berço e pegou a criança, embalando-a suavemente.

"Nossa filha," ela repetiu, olhando diretamente para João Carlos. "Isabella. Pare com isso, você está me assustando."

Eles estavam todos contra ele. Todos mentindo. Uma conspiração. Mas por quê?

João Carlos sentiu uma onda de raiva e confusão. Ele precisava de uma prova. Algo que eles não pudessem negar.

"Eu vou provar," ele disse, a voz baixa e ameaçadora. "Eu vou provar que não estou louco."

Ele avançou em direção a Ana Paula.

"Me dê a bebê," ele ordenou.

"João Carlos, não chegue perto dela. Você não está bem."

Ele não deu ouvidos. Ele precisava ver. Precisava ter certeza. Ele agarrou a criança dos braços de Ana Paula. A bebê, assustada, começou a chorar mais alto. João Carlos a segurou, o corpo pequeno e frágil em seus braços. Ele olhou para o rosto dela, procurando por qualquer traço de seu filho, Lucas.

E então, algo terrível aconteceu.

O choro da bebê parou abruptamente. Seu corpinho ficou mole. Seus olhos pequenos e escuros reviraram. Um fio de espuma apareceu no canto de sua boca.

Ela parou de respirar.

Nos braços dele.

O silêncio no quarto era total, quebrado apenas pela respiração ofegante de João Carlos. Ele olhou para o rosto sem vida da criança, o terror puro e absoluto tomando conta de cada célula de seu corpo.

"Não... não... o que..."

O grito de Ana Paula rasgou o ar. Um grito de horror e acusação.

"ASSASSINO! VOCÊ MATOU A NOSSA FILHA!"

Seu Roberto e Dona Regina correram para o lado dela, os rostos transformados em máscaras de ódio.

"Meu Deus, o que você fez?" gritou sua mãe.

"Eu não fiz nada! Ela... ela simplesmente parou de respirar!" João Carlos gaguejou, o corpo da bebê ainda em seus braços, um peso morto e terrível.

A porta se abriu e vizinhos, atraídos pelos gritos, começaram a se aglomerar. A polícia chegou minutos depois. A cena era caótica. Ana Paula chorando histericamente, seus pais o apontando, acusando-o. E ele ali, parado no meio de tudo, segurando uma criança morta.

Ele foi arrastado para fora de sua própria casa, as algemas frias mordendo seus pulsos. Os flashes das câmeras dos repórteres que já haviam chegado explodiam em seu rosto. As acusações ecoavam em seus ouvidos.

"Monstro!"

"Matou a própria filha!"

O julgamento foi um borrão de humilhação e desespero. As provas eram esmagadoras. A família inteira testemunhou contra ele. O laudo da autópsia indicava asfixia. As marcas de seus dedos, de quando ele a agarrou, foram encontradas no corpo frágil.

Ninguém acreditou em sua história sobre um filho desaparecido chamado Lucas. Foi considerado o delírio de um homem instável que não aceitava ter uma filha. A promotoria pintou o quadro de um pai ressentido e violento.

Ele foi condenado. Sentenciado à morte.

Os dias no corredor da morte foram um inferno silencioso. A imagem da bebê morrendo em seus braços se repetia em sua mente, um loop infinito de horror. Ele não a matou. Ele sabia que não. Mas como? O que realmente aconteceu?

O dia da execução chegou. Ele foi amarrado à cadeira, os eletrodos frios em sua pele. Ele fechou os olhos. A última coisa que viu foi o rosto de Ana Paula, observando-o de trás do vidro, uma lágrima solitária escorrendo por sua bochecha. Uma lágrima de crocodilo.

A eletricidade percorreu seu corpo. Dor. Fogo. Escuridão.

...

E então, luz.

A cabeça de João Carlos latejava. O gosto amargo de álcool. Ele abriu os olhos. Estava em sua cama. O sol da manhã entrava pela janela.

Ele estava vivo.

Um sonho? Tinha sido tudo um pesadelo horrível e vívido?

Ele se sentou, o coração batendo descontroladamente. Um barulho suave veio do canto do quarto. Do berço.

O medo o paralisou. Ele se forçou a levantar, as pernas tremendo. Caminhou até o berço.

Era a mesma menina. No mesmo macacãozinho rosa.

Ele estava de volta. De volta ao dia da festa. De volta ao início do pesadelo.

Ele cambaleou para trás, apoiando-se na parede para não cair. A ressaca era a mesma, mas sua mente estava terrivelmente clara. Não era um sonho. Era real. A execução, a dor, a morte... tudo foi real. E ele tinha renascido.

Ele olhou para a data no relógio digital. Era o dia seguinte à festa de um mês. O dia em que tudo aconteceu.

Desta vez, ele não entrou em pânico. Um frio calculista tomou conta dele. Se ele estava de volta, tinha uma segunda chance. Uma chance de descobrir a verdade. Uma chance de sobreviver.

Ele ouviu passos no corredor. Sua mãe.

"João Carlos? Já acordou, querido?"

A voz dela, que antes lhe trazia conforto, agora soava como o silvo de uma serpente. Ele olhou para a mulher que entrou no quarto, seu rosto sorridente e maternal. Uma mentirosa. Uma traidora.

"Bom dia, mãe," ele disse, a voz calma, surpreendendo a si mesmo.

"Ana Paula saiu para tomar um ar. A pequena Isabella dormiu como um anjo," ela disse, caminhando até o berço e ajeitando o cobertor.

Isabella. Eles insistiam nesse nome. Nessa mentira.

"Certo," ele respondeu.

Ele precisava de provas. Ele pegou seu celular. O mesmo celular. Abriu a galeria. As mesmas fotos da menina. Nenhuma de Lucas. Ele foi até o armário. As roupas de bebê. Todas para menina. Vestidos, laços, sapatinhos cor-de-rosa.

Era uma armação. Uma armação incrivelmente elaborada. Eles haviam trocado tudo. As fotos, as roupas, talvez até os documentos. Eles o estavam preparando para a queda, apagando qualquer vestígio de seu verdadeiro filho.

A raiva ferveu dentro dele, mas ele a empurrou para o fundo. Raiva não o ajudaria. Ele precisava ser inteligente. Perspicaz.

Ele se lembrou da primeira vez. A bebê morrendo em seus braços. Tinha que haver uma razão. Não foi ele. Teria sido veneno? Uma doença súbita?

Desta vez, ele não chegaria perto dela.

Ele precisava sobreviver a este dia. E então, ele iria desmascarar todos eles. Um por um.

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Capítulo 2

O plano de João Carlos era simples: evitar a criança a todo custo. Se ele não tocasse nela, não poderiam culpá-lo. Ele passaria o dia trancado no escritório de casa, fingindo trabalhar, longe do berço, longe daquela armadilha mortal.

Ele tomou um banho rápido, a água quente ajudando a clarear um pouco a dor de cabeça da ressaca. Enquanto se vestia, ouvia os sons da casa. A voz de sua mãe cantarolando na cozinha. Os passos de Ana Paula, que já havia retornado de sua "caminhada" . A normalidade da cena era doentia. Eles agiam como uma família feliz, enquanto orquestravam sua destruição.

"João, você não vem tomar café?" Ana Paula chamou da porta.

Ele se virou. Ela estava ali, com seu sorriso doce e seus olhos preocupados. Uma atriz talentosa.

"Estou com muita dor de cabeça. E tenho uma chamada importante de trabalho. Vou ficar no escritório," ele respondeu, a voz neutra.

"Mas e a Isabella? Você nem deu um beijo de bom dia nela."

"Eu a vejo mais tarde."

Ele passou por ela, evitando seu toque, e se trancou no escritório. Sentou-se em sua cadeira de couro, mas não conseguiu se concentrar em nada. Sua mente repassava os eventos da "primeira vida" . A morte da bebê, a acusação, a execução. A imagem de sua família o traindo. Cada detalhe era uma faca afiada em sua memória.

Ele tentou se acalmar. Pensar logicamente. O que eles queriam? Dinheiro, obviamente. A fortuna do seu avô. Para conseguir, precisavam tirá-lo do caminho. E a melhor maneira de fazer isso era transformá-lo em um monstro, um assassino de crianças. E o que aconteceu com Lucas? Onde estava seu verdadeiro filho? Essa pergunta o torturava mais do que qualquer outra coisa.

As horas se arrastaram. Ele ouvia os sons da casa através da porta fechada. O riso de Ana Paula, o balbuciar da bebê, as conversas de sua mãe e seu pai. Parecia tão normal. Tão terrivelmente normal.

Por volta do meio-dia, o cansaço e a tensão o venceram. Ele reclinou a cadeira e fechou os olhos, apenas por um momento. A exaustão era imensa, um peso sobre seus ombros. Ele adormeceu, um sono agitado e cheio de sombras.

Foi acordado por um som que gelou seu sangue.

Um grito.

O mesmo grito agudo e desesperado de Ana Paula.

João Carlos saltou da cadeira, o coração disparado contra as costelas. Ele abriu a porta do escritório e correu em direção ao som, que vinha do quarto principal.

A cena era quase idêntica à de sua primeira vida. Ana Paula estava ao lado do berço, o rosto contorcido em pânico.

"Ela não está respirando! João, ela não está respirando!"

O pânico o atingiu como um soco no estômago. Como? Ele nem tinha chegado perto. Ele se aproximou do berço, o medo o dominando. A bebê estava imóvel, o mesmo tom azulado começando a tomar conta de seus lábios.

Seu cérebro gritava para ele fugir, para não tocar nela. Mas o instinto, a visão de uma criança morrendo, foi mais forte.

"Chame uma ambulância!" ele gritou, pegando a bebê nos braços.

O corpinho estava mole, sem vida. Ele a virou, deu tapinhas nas costas, tentou alguma manobra primitiva de primeiros socorros que tinha visto em filmes. Nada.

E então, o horror se repetiu.

No momento em que ele a segurava, tentando desesperadamente reanimá-la, ela deu um último, pequeno suspiro, e seu corpo ficou completamente inerte. Ela morreu. De novo. Em seus braços.

"Não, não, não..." ele murmurou, o desespero o engolindo.

Era uma armadilha. Não importava o que ele fizesse. O destino estava selado. Ele estava destinado a ser o assassino.

Ana Paula não gritou "assassino" desta vez. Em vez disso, ela olhou para ele com uma frieza calculada, e então seu rosto se desfez em uma máscara de dor.

"O que você fez?" ela sussurrou, a voz carregada de uma acusação silenciosa e mortal.

Seus pais entraram correndo no quarto, atraídos pelo barulho. Vendo a cena – João Carlos com a bebê morta nos braços, Ana Paula em choque – eles reagiram instantaneamente.

"Meu Deus, de novo não!" gritou sua mãe, mas havia um tom de triunfo em sua voz que o enojou.

Desta vez, João Carlos não ficou parado. O terror da primeira vez foi substituído por uma fúria selvagem e um instinto de sobrevivência. Ele não seria o bode expiatório novamente.

Ele olhou para o pequeno corpo em seus braços. A prova de sua culpa. A arma do crime. Num impulso de pânico e repulsa, ele a jogou para longe, como se estivesse segurando algo venenoso.

O corpo da bebê voou pelo ar e aterrissou com um baque surdo no tapete felpudo, a poucos metros de distância.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

Todos olharam para o corpo no chão, e depois para ele. Os rostos de seus pais e de Ana Paula se contorceram em expressões de horror genuíno – ou talvez, de horror ensaiado.

"Você... você a jogou?" gaguejou seu pai, Roberto, o rosto pálido.

"Ele é um monstro!" gritou Ana Paula, desta vez para a plateia que começava a se formar na porta. O vizinho, Sr. Antunes, estava lá, o celular na mão, gravando tudo. Exatamente como da primeira vez.

Mas desta vez, algo dentro de João Carlos mudou. A repetição do evento não o quebrou, mas o forjou. A visão do corpo no chão, a acusação em seus rostos, a câmera gravando... tudo se encaixou.

Isso não era destino. Era um roteiro. E eles estavam todos atuando.

A adrenalina da fúria substituiu o medo. Ele olhou para seus acusadores, um por um. Ana Paula, a viúva de luto. Sua mãe, a avó em choque. Seu pai, o homem fraco e horrorizado. Mentira. Tudo mentira.

"Chamem a polícia," disse João Carlos, a voz surpreendentemente firme e fria. "Chamem todo mundo. Eu quero que todos vejam isso."

Ele não iria para a cadeira elétrica desta vez. Ele iria lutar. E ele iria destruir cada um deles.

A multidão na porta murmurava, os celulares apontados para ele. O ódio e o medo nos olhos deles eram palpáveis. Ele era o vilão da história, o pai que matou sua filha e profanou seu corpo. Para eles, a imagem era clara.

Mas para João Carlos, a imagem era outra. Era a imagem de sua própria inocência, e ele estava determinado a prová-la, não importasse o quão impossível parecesse. A segunda morte não foi uma repetição de sua tragédia. Foi o início de sua vingança.

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