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A Neta Perdida: Vingança

A Neta Perdida: Vingança

Autor:: Poppy
Gênero: Jovem Adulto
Joana, minha melhor amiga, sempre sorridente e doce, me ofereceu uma bala antes da longa viagem. Eu a comi, e em minutos, a paisagem se transformou em borrões enquanto minha cabeça pesava, um sono incontrolável me dominando. Acordei em um quarto sujo e escuro, amarrada e com uma dor lancinante, confrontada por uma mulher velha de olhos maldosos e um homem com cara de poucos amigos. "A Joana? Aquela sua amiguinha te vendeu pra nós. Agora você é a noiva do meu filho, Zé." A risada rascante da velha ecoava nas minhas orelhas, enquanto o mundo girava: vendida? Noiva? Não podia ser. Joana, minha melhor amiga, havia me entregue por dinheiro, dizendo que eu era órfã, sem ter para onde ir. A humilhação de ser tratada como um pedaço de carne, de ser espancada e silenciada, era insuportável, e minha verdade parecia a maior das mentiras, ignorada e ridicularizada por todos. O desespero me consumia, mas um cheiro familiar de manga, o som de um rio e o contorno de uma montanha distante me atingiram como um raio: eu estava na vila dos meus avós, Sebastião e Clara. Eu não era uma órfã qualquer, uma "putinha da cidade". Eu era a neta deles, e eles haviam me vendido para o único lugar no mundo onde eu não seria uma vítima. A raiva me incendiou: o jogo havia virado, e eles ainda não sabiam com quem realmente haviam se metido.

Introdução

Joana, minha melhor amiga, sempre sorridente e doce, me ofereceu uma bala antes da longa viagem.

Eu a comi, e em minutos, a paisagem se transformou em borrões enquanto minha cabeça pesava, um sono incontrolável me dominando.

Acordei em um quarto sujo e escuro, amarrada e com uma dor lancinante, confrontada por uma mulher velha de olhos maldosos e um homem com cara de poucos amigos.

"A Joana? Aquela sua amiguinha te vendeu pra nós. Agora você é a noiva do meu filho, Zé."

A risada rascante da velha ecoava nas minhas orelhas, enquanto o mundo girava: vendida? Noiva? Não podia ser. Joana, minha melhor amiga, havia me entregue por dinheiro, dizendo que eu era órfã, sem ter para onde ir.

A humilhação de ser tratada como um pedaço de carne, de ser espancada e silenciada, era insuportável, e minha verdade parecia a maior das mentiras, ignorada e ridicularizada por todos.

O desespero me consumia, mas um cheiro familiar de manga, o som de um rio e o contorno de uma montanha distante me atingiram como um raio: eu estava na vila dos meus avós, Sebastião e Clara.

Eu não era uma órfã qualquer, uma "putinha da cidade". Eu era a neta deles, e eles haviam me vendido para o único lugar no mundo onde eu não seria uma vítima.

A raiva me incendiou: o jogo havia virado, e eles ainda não sabiam com quem realmente haviam se metido.

Capítulo 1

Joana me ofereceu outra bala de leite, sorrindo com aquele jeito doce que eu conhecia tão bem.

"Toma, Mariinha, come mais uma, a viagem é longa."

Eu peguei a bala, o papel branco com o coelhinho simpático me parecia familiar e seguro. Era a minha bala preferida desde criança. O carro balançava suavemente na estrada de terra, e eu olhava a paisagem verde passando pela janela, ansiosa. Um casamento no interior, Joana tinha dito, de uma prima dela. Seria uma aventura, uma folga dos estudos intensos para o vestibular.

"Tem certeza que seus pais não vão se preocupar?", Joana perguntou, enquanto desembrulhava uma bala para si.

"Eu avisei que ia passar o fim de semana com você, eles confiam em você mais do que em mim", respondi rindo.

Que ironia.

Comi a bala. O gosto era o mesmo, doce, leitoso. Mas depois de alguns minutos, minha cabeça começou a pesar. As árvores do lado de fora começaram a se misturar em um borrão verde e marrom. Minhas pálpebras ficaram pesadas, pesadas demais.

"Joana, eu tô com sono...", murmurei, minha voz saindo arrastada.

"Pode dormir, amiga", ela disse, a voz dela parecendo vir de muito longe. "Quando a gente chegar, eu te acordo."

Foi a última coisa que ouvi.

...

Acordei com um cheiro forte de mofo e poeira. Minha cabeça latejava e minha boca estava seca como o deserto. Tentei me sentar, mas meu corpo todo doía, como se eu tivesse sido espancada. Não estava no carro. Estava em um quarto pequeno, escuro, com uma única lâmpada amarela pendurada no teto, iluminando as paredes sujas e o chão de cimento batido.

Uma mulher velha, de rosto enrugado e olhos pequenos e maldosos, estava parada na minha frente, de braços cruzados. Ao lado dela, um homem mais novo, com cara de poucos amigos, me olhava de cima a baixo como se eu fosse um pedaço de carne.

"Onde eu estou? O que aconteceu? Cadê a Joana?", perguntei, a voz fraca e rouca.

A mulher soltou uma risada rascante, que fez meu estômago revirar.

"A Joana? Aquela sua amiguinha te vendeu pra nós. Agora você é a noiva do meu filho, Zé."

Ela apontou com o queixo para o homem ao lado dela. O tal do Zé sorriu, um sorriso banguela e nojento. O mundo girou. Vendeu? Noiva? Isso não podia ser real. Era um pesadelo.

"Não... não pode ser. Isso é um engano. A Joana é minha melhor amiga!"

"Melhor amiga?", a velha cuspiu no chão. "Ela pegou um bom dinheiro por você. Disse que você era órfã e não tinha pra onde ir. Uma boca a menos pra alimentar e um dinheirinho no bolso. Bom negócio pra ela."

O choque me paralisou por um segundo, mas logo o pânico tomou conta. Eu precisava sair dali. Com toda a força que consegui reunir, me joguei para fora da cama e corri em direção à porta.

Meu corpo estava fraco, minhas pernas tremiam. O Zé foi mais rápido. Ele me agarrou pelo braço com uma força brutal, me jogando de volta na cama como se eu fosse um saco de batatas. Minha cabeça bateu na parede de madeira e a dor explodiu na minha nuca.

"Fica quieta, sua vagabunda!", ele rosnou no meu ouvido, o hálito dele cheirava a cachaça e cigarro.

As lágrimas escorriam pelo meu rosto, misturando-se com a sujeira. Desespero. Era tudo o que eu sentia. Um desespero frio e profundo. A mulher velha se aproximou, o rosto dela a centímetros do meu.

"É melhor você se comportar", ela sibilou. "Aqui não é a cidade grande. Aqui, quem manda sou eu. Se você não for uma boa esposa pro meu Zé, eu mesma te ensino a ser."

Ela levantou a mão e me deu um tapa no rosto. A ardência me fez gritar mais de surpresa do que de dor. Ela me bateu de novo, e de novo.

"Cala a boca! Ninguém vai te ouvir!"

Eu me encolhi na cama, tentando proteger meu rosto. O Zé apenas observava, com aquele sorriso estúpido no rosto.

"Parem, por favor...", solucei. "Meus pais... eles pagam o que vocês quiserem. Eles têm dinheiro. O dobro do que a Joana pegou. O triplo!"

A velha parou, me olhando com desprezo.

"Dinheiro?", ela riu de novo, aquela risada horrível. "A gente não quer seu dinheiro. A gente comprou uma mulher pro Zé, e é isso que você vai ser. Uma mulher pra cozinhar, lavar e dar filho pra ele. Não tem dinheiro no mundo que pague isso."

Ela me agarrou pelos cabelos, forçando-me a olhar para ela.

"Entendeu agora, sua putinha da cidade? Você não tem mais nome, não tem mais família. Você é nossa agora."

Eles saíram do quarto, trancando a porta por fora. O som da chave girando na fechadura foi o som mais aterrorizante que eu já tinha ouvido. Fiquei ali, chorando em silêncio, o corpo dolorido, o coração em pedaços pela traição. Joana. Minha melhor amiga. Como ela pôde?

Horas se passaram. A luz amarela da lâmpada era a minha única companhia. A dor, a fome e o medo eram meus únicos sentimentos. Mas em meio ao desespero, algo começou a acontecer. Eu olhava pela pequena fresta na janela do quarto. O contorno de uma montanha ao longe... O som de um rio correndo não muito distante... Aquele cheiro de terra molhada misturado com o perfume de uma árvore específica...

Uma árvore de manga. Uma mangueira enorme, que eu conhecia.

Uma sensação estranha começou a se formar no fundo da minha mente. Uma familiaridade incômoda. Eu já tinha visto aquela montanha. Já tinha ouvido aquele rio. Já tinha sentido aquele cheiro.

Forcei minha mente a trabalhar, a atravessar a névoa da droga e do medo. Imagens da minha infância começaram a surgir. Férias de verão, correndo descalça por um quintal enorme. Meu avô, um homem alto e forte de voz grossa, me ensinando a pescar naquele mesmo rio. Minha avó, uma mulher de temperamento forte mas coração enorme, me dando bronca por sujar a roupa de manga.

A mangueira. O rio. A montanha.

Não podia ser.

Era impossível.

Mas era. Eu estava na vila onde meus avós moravam. A vila que eu não visitava há anos, desde que eles se mudaram para a casa principal e meus pais se concentraram na minha educação na cidade. A vila onde minha família era, basicamente, a lei.

Um arrepio percorreu meu corpo, mas desta vez não era de medo. Era algo diferente. Uma faísca. A mulher velha disse que eu não tinha família. Ela não podia estar mais enganada.

Eu não era uma órfã qualquer.

Eu era a neta de Sebastião e Clara.

Eles iriam pagar. Todos eles. A família do Zé. E principalmente, Joana. A raiva começou a queimar dentro de mim, mais quente e mais forte que o medo. Eles me venderam para o único lugar no mundo onde eu não era uma vítima. Eles me venderam para o meu próprio território.

O choro parou. Eu sequei meu rosto com as costas da mão suja. Respirei fundo. O jogo tinha virado. Eles só não sabiam ainda.

Capítulo 2

No dia seguinte, a porta se abriu com um rangido. Era o Zé, trazendo uma tigela de metal com algo que parecia um caldo ralo e um pedaço de pão duro. Ele colocou no chão, como se eu fosse um cachorro.

"Come", ele ordenou, sem me olhar nos olhos.

Eu me levantei da cama, meu corpo ainda protestando a cada movimento. Fui até ele, mas não para pegar a comida. Parei na frente dele e o encarei.

"Eu sei onde eu estou", eu disse, minha voz firme, surpreendendo a mim mesma.

Ele franziu a testa, confuso.

"Tá doida? Tá no meu quarto."

"Não. Eu estou na Vila da Prata. E eu sei quem eu sou. Você e sua mãe cometeram um erro muito, muito grande."

Um lampejo de incerteza passou pelos olhos dele, mas foi rápido. Ele tentou disfarçar com uma risada forçada.

"E quem você pensa que é? A rainha da Inglaterra?"

"Eu sou Maria. Mariinha. Neta do seu Sebastião e da dona Clara."

O nome dos meus avós saiu da minha boca como uma arma. O efeito foi imediato. O sorriso de Zé desapareceu. Ele deu um passo para trás, o rosto pálido. Lá fora, no quintal, ouvi a mãe dele gritando alguma coisa. Outras vozes se juntaram. A notícia da "noiva comprada" devia ter se espalhado.

Zé me olhou, o medo se misturando com a descrença.

"Você... tá mentindo. Você é louca. A moça que te trouxe disse que você não tinha ninguém."

"A moça que me trouxe é uma traidora e uma criminosa, e ela vai pagar por isso. Assim como vocês", eu disse, avançando um passo. "Vocês não sabem com quem se meteram. Meu avô é Sebastião. Minha avó é Clara. Pensem bem no que vocês fizeram."

Minhas palavras pareciam ecoar no pequeno quarto. Zé estava visivelmente abalado. Ele abriu a boca para falar, mas a mãe dele apareceu na porta, o rosto vermelho de raiva.

"O que tá acontecendo aqui? Por que essa vagabunda ainda tá de pé?"

"Mãe...", Zé começou, a voz trêmula. "Ela tá dizendo que é neta do seu Sebastião."

A mulher olhou para mim, os olhos semicerrados. Ela me analisou de cima a baixo, meu cabelo emaranhado, minhas roupas sujas e rasgadas, os hematomas no meu rosto. Então, ela gargalhou. Uma gargalhada alta e debochada.

"Neta do seu Sebastião? Essa aí?", ela zombou, apontando para mim. "Você acha que eu sou idiota? Eu conheço a família do seu Sebastião. Os netos dele são tudo gente fina, da cidade. Não uma coitada suja como você. Ela tá inventando isso pra se salvar, seu burro! Acha que eu não conheço esse tipo de truque?"

"Mas o seu Sebastião teve um filho que foi pra cidade há muito tempo...", Zé argumentou, a dúvida ainda presente. "Pode ser..."

"Pode ser o caralho!", a velha gritou, dando um tapa na cabeça do filho. "A família dele nunca ia deixar uma neta largada por aí. E mesmo que fosse, olhe pra ela! Tá imunda. Isso não é gente da família do homem mais poderoso da região. É uma mentirosa!"

Eu tentei explicar.

"Meu pai se mudou pra capital há mais de quinze anos! Eu não venho aqui desde criança, por isso vocês não me reconhecem! Mas eu sou a filha do Ricardo, filho do seu Sebastião!"

Minha explicação só piorou as coisas. A velha me olhou com ainda mais desprezo.

"Filha do Ricardo? Agora sim que a mentira ficou boa. O filho do homem foi embora daqui e nunca mais olhou pra trás. Virou doutor na cidade grande. Acha mesmo que a filha de um doutor ia andar com uma pé-rapada como a tal da Joana? Acha que ia ser vendida por uns trocados? Conta outra!"

A lógica dela, por mais cruel que fosse, era difícil de contestar para quem não sabia a verdade. Minha situação parecia absurda. A traição de Joana me colocou em uma posição onde a verdade soava como a maior das mentiras.

A frustração e a raiva me sufocaram. Eles não acreditavam em mim. Eles não queriam acreditar. A velha, vendo meu desespero, sorriu com satisfação.

"Viu, Zé? É só uma coitadinha desesperada. Tá tentando se agarrar em qualquer coisa."

Ela veio na minha direção, o olhar endurecido.

"Já que você gosta tanto de inventar histórias, vou te dar um motivo de verdade pra chorar."

Ela me agarrou pelo braço e começou a me arrastar para fora do quarto. Eu me debati, gritei.

"Me solta! Vocês vão se arrepender! Meu avô vai acabar com vocês!"

Minhas ameaças só a deixavam com mais raiva. Ela me jogou no meio do quintal de terra batida. Alguns vizinhos curiosos olhavam por cima de suas cercas. A humilhação queimava meu rosto.

"Essa aqui", a velha gritou para quem quisesse ouvir, "tá se dizendo neta do seu Sebastião! A coitada enlouqueceu de vez!"

Risadas ecoaram pelo quintal. Eu estava sozinha, cercada por rostos hostis e zombeteiros. Em um ato de puro desespero, enchi meus pulmões de ar e gritei o mais alto que pude.

"AVÔ! VÓ CLARA! SOCORRO! SOU EU, A MARIINHA!"

Meu grito foi interrompido por um golpe seco nas minhas costas. Zé tinha pegado um pedaço de pau e me acertado com força. Caí de joelhos, sem ar. A dor era lancinante.

"Eu mandei você calar a boca!", ele gritou, o medo o tornando mais violento.

Ele me ergueu pelos cabelos e me arrastou de volta para o quarto escuro. A última coisa que vi antes da porta bater foi o rosto satisfeito da mãe dele, enquanto os vizinhos se dispersavam, convencidos de que eu era apenas uma noiva louca e problemática. A escuridão me engoliu de novo, e com ela, um sentimento de derrota quase total. Minha única arma, minha identidade, tinha falhado.

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