O médico disse que a minha perna teria de ser amputada.
Em segundos, o meu mundo desabou, e com ele, a promessa de um futuro perfeito.
A cirurgia de emergência tinha acabado, mas o cheiro a antissético e a traição pairava no ar.
Liguei ao meu noivo, o Diogo, para lhe dar a notícia.
Ele atendeu com impaciência, falando sobre o "caos da cidade" quando eu precisava dele ao meu lado.
Enquanto o ouvia, percebi vozes familiares ao fundo – a da minha melhor amiga, Sofia, a choramingar por ter perdido o seu gato, o Mimo, e a do pai do Diogo a consolá-la.
O Diogo, o homem que ia casar comigo, disse-me: "Não vês o caos que está na cidade? Nem tive tempo para almoçar!"
A minha mãe, ao meu lado, tinha os olhos inchados de chorar, mas o choque estava só a começar.
Quando revelei que ia terminar o noivado, a raiva dele explodiu.
"Não podes querer acabar tudo só por causa disto, pois não? Não tens um pingo de compaixão? Sabes como a vida da Sofia tem sido difícil, ela sente-se tão sozinha!"
Ele continuou a gritar, perguntando quem me iria querer agora, amputada, e se eu queria passar o resto da vida sozinha.
Depois, desligou-me na cara.
Eu tinha acabado de perder uma perna.
O meu noivo, o homem com quem ia casar em três meses, tinha-me abandonado ensanguentada na estrada para ir procurar um gato de outra mulher.
Não era só a perna que eu tinha perdido; era a minha dignidade, o meu futuro, a minha fé.
Será que ele não pensou em mim? Ou o nosso amor valia menos do que um gato?
Nesse abismo de dor e desespero, recebi uma ligação do meu padrinho.
Ele revelou uma verdade chocante: o pai do Diogo, o Senhor Alves, tinha arruinado o meu próprio pai anos atrás, usando táticas de traição semelhantes.
Aquele casamento não era amor, era uma vingança familiar.
A minha vingança estava apenas a começar.
Quando o médico me disse que a minha perna teria de ser amputada, o meu mundo desabou.
A cirurgia de emergência tinha acabado, mas o cheiro a antissético ainda pairava no ar.
Lá fora, o sol de Lisboa brilhava, mas o meu quarto de hospital parecia uma tumba fria.
O noticiário na pequena televisão do quarto falava do terrível acidente de carro na Ponte 25 de Abril, um engavetamento em cadeia que tinha paralisado a cidade.
"Dezassete feridos, três em estado crítico", dizia o repórter.
Eu era um dos críticos.
Apesar da dor lancinante e do nevoeiro da anestesia, peguei no meu telemóvel.
Precisava de ligar ao meu noivo, o Diogo.
A minha mãe, sentada numa cadeira ao lado da minha cama, tinha os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.
Eu sabia que o nosso noivado tinha acabado.
O som da chamada era frio, longo. Mesmo antes de desligar, o Diogo atendeu. A sua voz estava carregada de irritação.
"O que foi agora? Estou super ocupado, não vês o caos que está na cidade? Nem tive tempo para almoçar!"
"A Sofia está em pânico, o gato dela, o Mimo, fugiu durante a confusão e ela não o encontra. O pai dela acabou de a levar para casa. Estamos todos a tentar acalmá-la."
"Oh, Diogo, obrigada por estares aqui. E tu também, Senhor Alves. Sem vocês, eu não sei o que faria. Estou tão assustada, o Mimo é tudo para mim."
A voz trémula da Sofia, a minha melhor amiga, chegou claramente através do telefone, seguida pela voz grave do pai dela, o meu futuro sogro.
Um sorriso amargo formou-se nos meus lábios.
Então, o meu futuro sogro, sempre tão sério e distante, tinha este lado atencioso. Era claro que havia uma grande diferença na forma como ele tratava as pessoas de quem gostava e as que não lhe interessavam.
"Diogo," disse eu, a minha voz a falhar, "vamos acabar com isto. Eu... não aguento mais."
Houve um silêncio de dois segundos, depois a sua raiva explodiu.
"Já acabaste com o drama? Eu sei que tiveste um acidente, mas eu também não estou aqui a ajudar? A Sofia também estava no engavetamento, qual é o problema de eu a ter ajudado a ela e procurado o gato dela? Foi tudo no mesmo sítio!"
"Não podes querer acabar tudo só por causa disto, pois não? Não tens um pingo de compaixão? Sabes como a vida da Sofia tem sido difícil, ela sente-se tão sozinha!"
A vida da Sofia era difícil? E a minha?
Eu tinha acabado de perder uma perna. Estava noiva dele. E isso não se comparava a uma amiga em pânico ou ao seu maldito gato?
As lágrimas ameaçavam cair, mas eu olhei para o teto e forcei-as a recuar.
O Diogo continuava a gritar ao telefone. "Acabar com tudo? Tu perdeste uma perna, achas que alguém te vai querer agora? Queres passar o resto da vida sozinha? Pára de ser egoísta! A Sofia precisa de nós. Devias pensar bem no que estás a fazer!"
Com isso, ele desligou-me o telefone na cara.
Tentei ligar de volta. O número estava bloqueado.
Olhei para o lençol que cobria o espaço vazio onde a minha perna direita costumava estar.
Talvez ele tivesse razão. Se a minha perna ainda estivesse aqui, eu lutaria por nós. Não quereria ficar sozinha, por isso provavelmente acabaria por perdoá-lo.
Mas agora, eu estava diferente. A pessoa que eu era tinha desaparecido naquele acidente. A ligação que nos unia, a imagem de um futuro perfeito, tinha-se quebrado. Então, era melhor acabar agora. Para quê esperar? Só sentiria mais desprezo por mim mesma se continuasse.
E ajudar a Sofia foi mesmo "no mesmo sítio"? O carro dela estava várias filas atrás do meu. Ele teria de ter passado por mim para chegar até ela.
Será que ele pensou em mim quando me viu preso nas ferragens? Será que pensou no nosso futuro juntos?
Provavelmente não se importou. Senão, não teria ignorado as minhas 18 chamadas perdidas nem me teria dito para esperar pela ambulância quando finalmente atendeu, antes da cirurgia.
Eu era a noiva dele. Íamos casar em três meses.
Tínhamos passado o último ano a planear cada detalhe.
Ainda me lembrava da dor insuportável do metal a esmagar-me. Lembro-me do desespero e do medo enquanto esperava pelos paramédicos. A minha perna estava a ser perdida, e não havia nada que eu pudesse fazer.
Enquanto estava perdida nos meus pensamentos, o telemóvel da minha mãe tocou. Era o Senhor Alves, o pai do Diogo.
Pensei que a minha mãe estava demasiado abalada para falar, por isso fiz menção de atender por ela.
Mas ela levantou-se de repente e atendeu a chamada.
Imediatamente, a voz irritada do Senhor Alves encheu o quarto. "Clara! Não consegues controlar a tua filha? Que tipo de educação lhe deste? Será que ela herdou a teimosia do pai dela?"
"Porque é que ela quer acabar um noivado por uma coisa tão pequena? Isto não é uma brincadeira de crianças!"
A minha mãe, que até então estava em silêncio e a chorar, explodiu.
"Coisa pequena? O senhor chama a isto uma coisa pequena? A minha filha acabou de perder uma perna! Uma perna, está a ouvir?"
A sua voz tremia de raiva. "O seu filho, o meu futuro genro, deixou-a a sangrar na estrada para ir consolar outra mulher por causa de um gato perdido! E o senhor acha que ela é que está errada?"
O Senhor Alves ficou sem palavras por um momento. Depois, a sua voz tornou-se fria e cortante.
"Clara, não sejas dramática. O Diogo fez o que qualquer bom amigo faria. A Sofia estava em choque. A Lia já estava a ser socorrida pelos paramédicos. O que querias que ele fizesse? Que ficasse ali a olhar?"
"Eu queria que ele se comportasse como um noivo! Que ficasse ao lado dela! Que segurasse a mão dela! Que lhe dissesse que tudo ia ficar bem!"
"Ele é um homem, não uma ama. Ele lida com as coisas de forma prática. Além disso, a Lia é forte, ela supera isto. A Sofia é mais frágil."
A minha mãe riu, um som desprovido de qualquer alegria.
"Frágil? A Sofia? Ela sempre conseguiu tudo o que quis, manipulando todos à sua volta com essa falsa fragilidade. E vocês caem sempre."
"Chega, Clara. Diz à Lia para parar com estas infantilidades. Um casamento não se desfaz por um capricho. Ela precisa do Diogo agora mais do que nunca."
"Ela não precisa de ninguém que a coloque em segundo lugar, atrás de um gato. Acabou, Senhor Alves. O noivado acabou."
A minha mãe desligou o telefone com uma força que fez o aparelho tremer na sua mão.
Ela olhou para mim, os seus olhos cheios de uma determinação feroz que eu não via há anos.
"Filha," disse ela, a sua voz agora calma mas firme, "nós não precisamos deles. Nunca precisámos."
Eu assenti, uma lágrima solitária finalmente a escorrer pela minha face.
Naquele momento, senti um alívio imenso. A decisão estava tomada.
A porta do quarto abriu-se de repente.
Eram o Diogo e a Sofia.
A Sofia tinha os olhos vermelhos, como se tivesse chorado durante horas. Ela correu para a minha cama.
"Lia! Oh, meu Deus, Lia, eu sinto tanto! Eu só soube da gravidade disto agora! O Diogo disse que estavas bem, apenas com uns arranhões!"
Ela agarrou a minha mão, as suas unhas perfeitamente pintadas a contrastar com a minha pele pálida.
O Diogo ficou à porta, com uma expressão culpada, mas também desafiadora.
"Eu não queria preocupar-te," disse ele, a sua voz baixa. "Pensei que era melhor manter a calma."
Manter a calma? Ele mentiu.
Olhei para a Sofia, depois para ele. A peça de teatro deles era quase convincente.
"O teu gato," disse eu, a minha voz rouca. "Encontraste o Mimo?"
A Sofia fungou. "Ainda não. Estou tão preocupada."
"Claro que estás," respondi, retirando a minha mão da dela. "Deve ser terrível. Perder algo que se ama."
O sarcasmo na minha voz era palpável. O Diogo franziu a testa.
"Lia, não sejas assim."
"Assim como, Diogo? Amputada? Ou apenas cansada das tuas mentiras?"