Eu renasci.
Com as memórias completas de uma vida passada, acordei no corpo de uma Maria Silva de dezoito anos, cheia de esperança.
Pedro Costa, meu marido por trinta anos, prometeu me encontrar na próxima vida.
Eu o encontrei, mas ele não era o mesmo.
Obcecado por sucesso e uma garota chamada Gabi, ele estava determinado a construir uma vida melhor, mas não para nós.
Pensei que ele se lembrava, que tudo era para o nosso futuro.
Hoje, ele finalmente se formaria e o reencontraria.
Meu coração disparava.
Minha mãe fez o assado que ele tanto amava.
Eu revivi nossa última conversa, sua promessa: "Na próxima vida... eu vou te compensar por tudo."
O carro dele parou na rua.
Meu peito apertou de amor ao vê-lo, tão lindo.
Ele estava vindo na minha direção!
Eu saí da cortina, trêmula.
Mas ele passou direto por mim, como se eu não existisse.
Meu sorriso congelou.
Ele pegou um microfone.
"Hoje é um dia muito especial para mim", disse ele.
Uma parte de mim ainda esperava uma surpresa.
Seus olhos encontraram Gabi Santos, a influenciadora.
"Gabi", ele declarou, "desde o primeiro dia em que te vi, eu soube que tudo que eu fizesse nesta vida seria para um dia ser digno de você. Eu te amo."
O mundo silenciou.
O cheiro do assado me deu náuseas.
Ele a beijou na frente de todos.
Meu universo se despedaçou em um milhão de cacos de vidro.
Corri para o quarto e desabei, as peças do quebra-cabeça da nossa vida passada se encaixando de forma horrível.
Todas as suas ambições, os "comentários inocentes" sobre a família rica dela, o bairro perto da mansão dos Santos... tudo era para ela.
Ele não renasceu para me encontrar.
Ele renasceu para ter a chance com ela.
Eu nunca fui o amor da vida dele.
Eu era o prêmio de consolação.
A dor e a fúria me consumiram.
Eu chorei até secar, uma garota tola que amou um homem que não a amava.
Mas minha mãe estava lá, seu amor incondicional.
Por ela, eu me levantei.
Pedro não era ruim em romance; ele apenas não queria ser romântico comigo.
Ele não era pão-duro; ele apenas não queria gastar comigo.
Sua gentileza era uma farsa para manter o casamento perfeito.
A última faísca de esperança se apagou.
Aquele confronto me libertou.
Peguei todo o meu dinheiro, comprei latas de spray.
Ele me convenceu a desistir da arte na vida passada.
Nesta vida, ninguém me pararia.
Eu seria a grafiteira que sempre sonhei, em São Paulo.
Eu renasci.
Com as memórias completas de uma vida passada, eu acordei neste mundo, no corpo de uma Maria Silva de dezoito anos.
No início, eu estava em pânico, mas a esperança rapidamente tomou conta de mim. Porque se eu renasci, ele também poderia ter renascido.
Pedro Costa.
Meu marido por trinta anos na vida passada. O homem que, no seu leito de morte, segurou minha mão e prometeu com seu último suspiro:
"Mari, se houver uma próxima vida, eu vou te encontrar. Eu juro."
Essa promessa se tornou a única razão da minha existência nesta nova vida.
E eu o encontrei. Ou melhor, eu confirmei que ele também estava aqui. Na nossa vida passada, Pedro era um funcionário público comum, com uma vida estável, mas sem grandes ambições. Nesta vida, o Pedro que eu observei de longe era completamente diferente. Ele era o melhor aluno do seu curso, obcecado por uma área que mal existia na nossa época anterior: Tecnologia da Informação.
Ele estava determinado a entrar na melhor universidade, a conseguir o melhor emprego, a ganhar rios de dinheiro. Era uma ambição que eu nunca tinha visto nele. Essa mudança drástica só podia significar uma coisa: ele também se lembrava. Ele estava construindo uma vida melhor para nós dois.
Hoje, ele finalmente se formaria na faculdade. Hoje, ele voltaria para casa.
Eu olhava para o relógio na parede da cozinha a cada cinco minutos. Meu coração batia descontrolado no peito, uma mistura de ansiedade e uma felicidade que mal cabia em mim.
"Calma, minha filha. Ele já vai chegar," disse minha mãe, Dona Lúcia, enquanto mexia uma panela no fogão. O cheiro do assado que ele tanto amava na vida passada enchia a casa.
Minha mãe nesta vida era a mesma da anterior. Sempre amorosa, sempre me apoiando incondicionalmente, mesmo quando eu estava cega. Na vida passada, ela o adorava, chamando-o de o genro perfeito. Todos os nossos amigos e familiares nos viam como o casal ideal, um amor de conto de fadas que durou décadas.
Ninguém sabia a verdade. Nem mesmo eu, até agora.
Eu sorri para minha mãe, tentando esconder meu nervosismo.
"Eu sei, mãe. Só estou... ansiosa."
Eu me lembrava do nosso último momento juntos. Os bipes da máquina do hospital, o cheiro de antisséptico. Eu segurava sua mão fria, meu rosto molhado de lágrimas.
"Espere por mim, Pedro," eu sussurrei.
"Sempre," ele respondeu, seus olhos já perdendo o brilho. "Na próxima vida... eu vou te compensar por tudo."
E agora, a próxima vida estava aqui. O momento da nossa reunião estava a apenas alguns minutos de distância. Eu imaginei a cena mil vezes. Ele chegaria, seus olhos me encontrariam no meio da pequena festa de boas-vindas que a vizinhança organizou, e ele caminharia diretamente para mim. Todos os anos de espera teriam valido a pena.
O som de um carro parando na rua me fez pular.
"Ele chegou!" alguém gritou do lado de fora.
Meu coração parou. Corri para a janela, espiando pela cortina.
Lá estava ele. Pedro Costa.
Ele saiu do carro do pai, mais alto e mais confiante do que eu jamais me lembrava. O terno da formatura caía perfeitamente em seus ombros largos. Ele não era mais o homem de meia-idade cansado que eu enterrei, mas um jovem no auge de sua força e ambição. Ele estava lindo. Meu peito se apertou com um amor que atravessou a morte.
Vizinhos e amigos o cercaram, dando-lhe tapinhas nas costas, parabenizando-o. Ele sorria, um sorriso largo e carismático que encantava a todos. Seus olhos varreram a multidão, e por um segundo, eu prendi a respiração.
Ele está me procurando.
Ele começou a caminhar, abrindo passagem entre as pessoas. Ele estava vindo na minha direção. Era isso. O momento.
Eu saí de trás da cortina, meu corpo inteiro tremendo. Nossos olhos quase se encontraram.
Mas ele não parou.
Ele passou direto por mim, como se eu fosse uma estranha, como se eu não existisse.
Meu sorriso congelou. A confusão tomou conta de mim.
Ele pegou um pequeno microfone que alguém havia preparado para os discursos. Sua expressão era de pura felicidade.
"Obrigado, obrigado a todos por virem!" sua voz ressoou pela rua. "Hoje é um dia muito especial para mim. Não apenas pela minha formatura, mas porque hoje eu finalmente tenho a coragem de fazer algo que eu deveria ter feito há muito tempo."
Meu coração voltou a bater, forte e esperançoso. Talvez fosse um plano. Uma surpresa.
Seus olhos encontraram alguém na multidão. Mas não eram os meus.
Ele sorriu para uma garota que eu reconheci instantaneamente dos blogs e das primeiras redes sociais. Gabriela Santos, a influenciadora digital mais popular da cidade, filha de uma família rica e influente.
Pedro ergueu o microfone, seu olhar fixo nela.
"Gabi," ele disse, sua voz cheia de uma emoção que eu nunca, em trinta anos de casamento, tinha ouvido. "Desde o primeiro dia em que te vi, eu soube que tudo o que eu fizesse nesta vida seria para um dia ser digno de você. Eu te amo."
O mundo ao meu redor ficou em silêncio. O cheiro do assado vindo da cozinha de repente me deu náuseas.
O som da multidão explodindo em aplausos e assobios foi como um ruído branco, distante e sem sentido.
Eu vi Gabi cobrir a boca, com os olhos cheios de lágrimas de felicidade, enquanto Pedro caminhava até ela e a beijava na frente de todos.
Naquele instante, o universo que eu construí em torno de sua promessa se despedaçou em um milhão de cacos de vidro.
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O som dos aplausos e dos gritos de "Beija! Beija!" era ensurdecedor. Cada grito era uma onda de choque que me atingia em cheio, me paralisando no lugar. Eu via Pedro e Gabi, o casal perfeito sob os holofotes improvisados da festa de rua, e o ar simplesmente não entrava nos meus pulmões.
Minha mente estava em branco. Não havia pensamentos, apenas uma dor surda e oca no centro do meu peito.
Então, a dor se tornou aguda.
Eu me virei, sem fazer barulho, e corri. Corri para dentro de casa, passando pela minha mãe que me olhava com preocupação na porta da cozinha. Eu não consegui dizer uma palavra. Subi as escadas correndo, entrei no meu quarto e bati a porta, girando a tranca.
O som do clique da fechadura foi o som mais alto do mundo.
Eu me joguei na cama, enterrando o rosto no travesseiro para abafar o som do meu próprio soluço, um som que parecia vir de outra pessoa.
Eu não queria acreditar. Não podia ser real.
"Mari? Filha, o que aconteceu?" A voz da minha mãe do outro lado da porta era suave, cheia de preocupação.
Eu não respondi. Como eu poderia explicar? Como eu poderia dizer a ela que a história de amor que ela tanto admirou por trinta anos era uma mentira? Que o genro perfeito dela tinha acabado de me apunhalar pelas costas, em outra vida?
Eu fiquei ali, deitada no escuro, enquanto as vozes da festa lá fora continuavam. E na escuridão, as peças do quebra-cabeça começaram a se encaixar, formando uma imagem horrível.
Gabi Santos.
O nome ecoava na minha cabeça. E com ele, vieram as memórias. Pedaços de conversas da nossa vida passada que eu tinha ignorado.
"A família Santos inaugurou outra fábrica," Pedro comentava, lendo o jornal. "Eles sabem como ganhar dinheiro."
"Você viu a filha dos Santos na revista? Ela vai ser bonita quando crescer," ele disse uma vez, casualmente.
Na época, pareciam comentários inofensivos. Agora, eles soavam como obsessões.
Todos os momentos importantes da nossa vida passada... de repente, eu os via sob uma nova luz. O dia em que nos casamos. A família Santos tinha sido convidada, um convite de negócios do meu pai. Pedro ficou estranhamente nervoso naquele dia. Eu pensei que era por minha causa. Agora eu sabia que não era.
O dia em que compramos nossa primeira casa. Era em um bairro que ficava coincidentemente perto da antiga mansão da família Santos. Eu achei que era uma boa oportunidade. Agora eu via o brilho nos olhos dele quando fechamos o negócio.
Seu esforço nesta vida... a faculdade de TI, a busca incessante por sucesso e dinheiro... não era para nós. Era para ela.
Ele não renasceu para me encontrar. Ele renasceu para consertar o que ele considerava o erro da sua vida anterior: não ter tido a chance de ficar com ela.
A percepção me atingiu como um soco no estômago, tirando todo o ar que me restava. O choro se transformou em um gemido de pura agonia. Aquele amor que eu achava tão puro, tão eterno, não passava de um prêmio de consolação. Eu era o prêmio de consolação dele.
Eu chorei até não ter mais lágrimas, até meus olhos arderem e minha garganta ficar seca. Chorei pela garota tola que eu fui por trinta anos e pela garota ainda mais tola que eu fui por dezoito anos nesta vida.
Quando a exaustão finalmente chegou, eu ouvi o silêncio do lado de fora da porta do meu quarto. Minha mãe ainda estava lá. Eu podia sentir sua presença. Ela não tinha ido embora. Ela estava montando guarda, sofrendo em silêncio comigo.
O amor dela... esse era real. Incondicional.
Por ela, eu me levantei. Lavei o rosto na pequena pia do meu banheiro, olhando para a garota inchada e de olhos vermelhos no espelho. Eu tinha que continuar.
Nos dias seguintes, a fofoca sobre o novo casal da cidade era o único assunto na vizinhança e no meu trabalho de meio período na lanchonete.
"Você viu o presente que o Pedro deu pra Gabi? Um colar de diamantes!" disse uma colega, mostrando a foto no celular.
"Ele levou ela pra jantar naquele restaurante chique do centro. A conta deve ter sido uma fortuna!" disse outra.
Eu ouvia tudo em silêncio, limpando as mesas. Cada palavra era mais uma prova. Na nossa vida passada, Pedro era incrivelmente pão-duro. Ele reclamava de cada centavo. No nosso aniversário de dez anos, ele me deu um liquidificador. Ele dizia que era prático.
Ele não era romântico. Era o que eu sempre dizia a mim mesma.
Era o que ele sempre me dizia.
Mas ouvindo sobre seus gestos grandiosos para Gabi, uma verdade fria e dura se instalou no meu coração.
Pedro não era ruim em romance. Ele apenas não queria ser romântico comigo. Ele não era pão-duro. Ele apenas não queria gastar seu dinheiro comigo.
Toda a sua gentileza, todo o seu "amor prático" , era apenas o mínimo que ele podia fazer para manter a fachada do casamento perfeito que o beneficiava socialmente.
A última faísca de esperança que teimava em existir dentro de mim se apagou.
Com o tempo, como todas as fofocas, o assunto foi morrendo. As pessoas encontraram novos tópicos para discutir. O nome de Pedro e Gabi parou de ser mencionado a cada cinco minutos.
E no silêncio que se seguiu, eu comecei a me concentrar. Não nele. Não neles.
Em mim. Em uma vida que agora era uma tela em branco, assustadora, mas minha.
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