Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Jovem Adulto > A Vida Secreta de Nora Lane
A Vida Secreta de Nora Lane

A Vida Secreta de Nora Lane

Autor: schaanafockink
Gênero: Jovem Adulto
Quem somos sem nossas raízes? E se encontrar a si mesma significar abrir mão do que você conhecia como lar? Entre segredos guardados e verdades reveladas, Nora descobre que sua maior força é reescrever a própria história. A Vida Secreta de Nora Lane é uma história sobre raízes invisíveis, sobre laços que resistem ao silêncio e sobre a coragem de recomeçar. Entre perdas, descobertas e encontros inesperados, Nora precisa decidir qual legado carregar consigo - e que vida escolher, agora que a verdade finalmente encontrou sua voz.
Ler Agora

Capítulo 1

A chuva batia contra a janela como se quisesse entrar. Grossas gotas escorriam pelo vidro, distorcendo a vista da rua e transformando os faróis dos carros em manchas borradas de luz. Boston parecia mais silenciosa nessas noites, e o silêncio era o que eu mais temia desde que Margaret se foi.

Dois anos, e ainda havia momentos em que eu me virava para chamar por ela. O apartamento estava exatamente como no dia em que a deixei no hospital pela última vez - livros organizados por cor na estante, plantas na beira da janela que agora sobreviviam mais por teimosia do que por cuidados. Eu não conseguia mudar nada. Como se, ao mover um quadro ou doar uma das suas canecas, eu apagasse um pouco mais dela.

A caixa estava no alto do armário do quarto, escondida atrás de um cobertor que nunca usei. Eu não tinha coragem de mexer nela até hoje. Mas, naquela noite, alguma coisa - talvez o tédio, talvez a solidão, talvez um impulso de autossabotagem - me fez arrastar a cadeira e subir.

Era de papelão grosso, amarrada com um barbante que já se desfazia nas pontas. A tampa soltou um cheiro de papel antigo misturado com perfume. Não o perfume barato que Margaret usava nos últimos anos, mas o que ela colocava quando eu era criança, antes das contas atrasadas, antes dos silêncios mais longos que as conversas.

Comecei a tirar o conteúdo devagar, como quem folheia um livro sagrado: uma echarpe azul-marinho com um fio puxado na ponta, um porta-retratos sem foto, um bracelete de prata com as iniciais M.L., algumas cartas antigas em envelopes amassados.

E então, no fundo, encontrei um caderno de capa dura, marrom, sem nada escrito por fora. Folheei. Não eram páginas cheias, mas pedaços de frases, listas de compras, receitas rabiscadas ao lado de datas aleatórias. Até que, no meio, caiu uma folha dobrada.

O papel estava amarelado e áspero, com a tinta um pouco borrada. As palavras eram ilegíveis para mim, mas o idioma me soou familiar de alguma forma - como se já o tivesse ouvido uma vez, há muito tempo, em um lugar que não lembro de ter visitado.

Era sueco.

Senti um arrepio subir pela coluna.

Não havia remetente, apenas uma assinatura no final: Áine. Um nome que eu nunca tinha visto, mas que me pareceu antigo, quase melódico. Li uma frase em voz alta, sem entender nada. A entonação estranha na minha boca me deixou inquieta.

Guardei o papel de volta, mas não consegui fechar o caderno. O que uma carta em sueco estava fazendo no diário de Margaret?

Ela nunca me falou sobre ter amigos suecos. Nunca mencionou viagens à Europa. A única vez que tocamos no assunto foi quando eu tinha dez anos e perguntei de onde eu tinha vindo. "De longe", ela respondeu, como se a distância fosse uma parede que eu não deveria tentar escalar.

O som do aquecedor ligando me arrancou do transe. Meus dedos estavam gelados, mesmo dentro de casa. Olhei para a carta outra vez, como se ela fosse capaz de responder sozinha às perguntas que disparavam na minha cabeça.

Peguei o celular e escrevi no Google: tradutor sueco Boston. Os resultados apareceram rápido, mas hesitei. Parte de mim não queria saber. Porque saber significaria abrir portas que Margaret manteve fechadas a vida inteira.

O ponteiro do relógio passou das nove. Lá fora, a chuva engrossou. Peguei o caderno, a echarpe e o bracelete e coloquei tudo de volta na caixa. Mas a carta... a carta ficou na minha mão.

Sentei no sofá, com ela no colo, e fiquei olhando as linhas escritas com caligrafia inclinada, como se cada letra tivesse sido feita às pressas, ou com medo. Eu conseguia sentir a urgência na forma como a caneta pressionou o papel.

E, pela primeira vez em muito tempo, senti algo que não fosse apenas saudade ou apatia: curiosidade. Uma curiosidade que ardia, que puxava o ar do meu peito.

No corredor, a madeira estalou com o aquecimento. De repente, o apartamento pareceu menor. Peguei o celular outra vez e comecei a digitar uma mensagem para Harper.

Encontrei algo que você precisa ver.

Mas antes de enviar, imaginei sua reação: ela ia me encher de perguntas, me forçar a marcar um horário com alguém para traduzir, e eu não sabia se estava pronta para isso.

Dobrei a carta com cuidado e a coloquei dentro da gaveta da mesa de cabeceira. Mas, no instante em que a gaveta fechou, me arrependi.

Levantei, tirei de novo e a coloquei sobre a mesa da cozinha. A luz amarelada da luminária formava um círculo perfeito sobre o papel, como se me dissesse: olhe para mim.

Suspirei. Eu sabia que aquela noite não terminaria até eu tomar uma decisão.

Margaret passara anos evitando falar sobre meu passado. E, de repente, uma folha de papel ameaçava desmontar todas as paredes que ela construiu ao nosso redor.

Não sei se foi a chuva, a solidão ou a forma como o nome Áine parecia me chamar, mas ali, encostada na mesa da cozinha, eu tomei minha primeira decisão em muito tempo.

Eu ia descobrir o que estava escrito.

O relógio na parede marcava quase dez e meia quando fui até a cozinha preparar um chá, mais para ocupar as mãos do que por sede. O barulho da chaleira enchendo quebrava o silêncio pesado do apartamento, mas não diminuía o peso no meu peito.

A carta estava ali, no centro da mesa, iluminada pela luz amarelada, como se fosse a única coisa viva naquele espaço. Passei os dedos sobre as palavras, tentando sentir a intenção por trás de cada traço. Por um momento, imaginei a cena: alguém sentado, talvez à noite, escrevendo às pressas, sabendo que aquelas frases precisavam chegar a Margaret. Ou a mim.

Mas por quê?

Quando a água começou a ferver, desliguei o fogo e esqueci completamente do chá. Encostei na bancada, abraçando os braços para me aquecer, enquanto o cheiro de papel antigo parecia se espalhar pela cozinha.

Peguei meu celular e abri as fotos. Tirei três imagens da carta, cada uma de um ângulo diferente, com medo de que a luz refletisse demais e apagasse algum detalhe. Então, sem pensar muito, enviei para mim mesma por e-mail. Se alguma coisa acontecesse com o original, eu queria ter uma cópia.

Depois me sentei de novo, as pernas cruzadas na cadeira, e tentei decifrar algo sozinha. Nenhuma palavra fazia sentido - exceto "Uppsala". Eu já tinha ouvido esse nome antes, em alguma aula de geografia ou em um artigo que revisei na editora. Uma cidade na Suécia.

Meu coração acelerou.

Se essa carta tinha saído de lá... então talvez minha história também tivesse.

A ideia me deixou sem ar por alguns segundos. Sempre soube que havia um vazio entre o que eu sabia sobre minha vida e o que realmente aconteceu, mas ver a possibilidade materializada ali, em letras pretas sobre papel amarelado, era diferente. Assustador.

Olhei para a estante, onde uma das fotos de infância com Margaret ainda estava no mesmo porta-retrato torto. Eu tinha uns quatro anos, cabelos claros cortados curtos, um sorriso tímido. Ela estava ao meu lado, sorrindo para a câmera, mas com os olhos ligeiramente voltados para outra coisa. Como se estivesse atenta a algo fora do quadro.

Fiquei olhando para aquela foto até o ar da sala parecer mais denso. Por fim, voltei para a carta e, como se assinasse um contrato silencioso comigo mesma, sussurrei:

- Eu vou descobrir o que você está escondendo.

Não importava quantos anos tivesse demorado para chegar até aqui. Aquela seria a primeira noite de uma busca que, de algum jeito, já me pertencia antes mesmo de começar.

Capítulo 2

O sino na porta do café tilintou assim que empurrei a porta da entrada, trazendo junto uma rajada de vento frio que fez alguns clientes se encolherem. O lugar estava lotado, como sempre. Mesas pequenas, cadeiras de madeira gastas e o cheiro de café recém-moído misturado ao cheiro doce da canela. Harper estava encostada no balcão, mexendo o celular com uma expressão concentrada demais para alguém que dizia não se importar com nada.

- Está atrasada. - Ela não levantou os olhos, mas o canto da boca se curvou num sorriso. - Achei que tinha desistido da vida social.

- Quase - respondi, puxando um banquinho ao lado dela. - Mas aí percebi que não posso recusar quando minha única amiga me ameace de abandono.

- Única e melhor - ela corrigiu, finalmente me encarando. Os cabelos curtos, tingidos de um vermelho que só existia em quadrinhos, caíam para um lado, e o delineador preto nos olhos estava impecável, como se tivesse acordado assim. - E você sabe que eu não ameaço, eu cumpro.

Harper Whitman tinha essa habilidade irritante de entrar em qualquer ambiente e se tornar a pessoa mais interessante dali. Não era apenas pela aparência marcante, mas pela forma como falava, como se cada frase fosse parte de uma piada interna à qual você queria pertencer.

O barista colocou dois cappuccinos à nossa frente. Harper pegou o dela, deu um gole e fez uma careta dramática.

- Está horrível. - Ela empurrou a xícara para longe. - Mas vou beber mesmo assim porque café ruim ainda é café.

- Você é uma mártir - falei, mexendo o meu.

- E você está diferente - ela disse, inclinando a cabeça para me observar. - O que foi? Mudou de shampoo? Encontrou um amor secreto?

Suspirei. Harper era péssima em deixar um silêncio passar sem preenchê-lo.

- Achei algo ontem.

- Algo tipo... uma promoção na Amazon?

- No diário da Margaret.

O efeito foi imediato. Harper apoiou os cotovelos no balcão, inclinando-se para mais perto.

- Vai me dizer que finalmente temos fofoca do além?

- Uma carta. - Tirei o celular do bolso e procurei as fotos que tirei na noite anterior. - Está em sueco.

Mostrei a imagem. Ela pegou o telefone das minhas mãos, ampliou a foto e franziu a testa.

- Isso é... bonito. Não entendo nada, mas a caligrafia parece de filme antigo.

- Não sei por que ela tinha isso.

Harper olhou para mim como se eu tivesse acabado de confessar um crime.

- Nora, você sabe que não tem como eu não ficar obcecada com isso, certo?

- Eu sei.

- E você sabe que vai ter que descobrir o que está escrito.

- Eu pensei...

- Não pense. - Ela interrompeu, levantando o dedo. - Você sempre quis saber de onde veio. Sempre. Só que fingia que não porque tinha medo de machucar a Margaret.

Baixei os olhos para a xícara. Ela tinha razão. Margaret sempre foi meu porto seguro, mas também o portão trancado para qualquer coisa antes dela.

- Eu conheço um cara na universidade que pode traduzir - Harper continuou. - É sueco. Trabalha no setor de idiomas e vive reclamando que ninguém nunca pede ajuda para nada útil.

- Harper...

- Sem "Harper". Eu vou mandar mensagem para ele agora.

Puxei o celular dela para longe. - Não é tão simples.

- É. Você só está complicando porque tem medo do que vai encontrar.

Ela acertou de novo.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, o barulho do café enchendo o espaço entre nós. Um grupo atrás ria alto, e alguém deixou cair uma colher. Eu pensava na carta, na palavra "Uppsala" que tinha reconhecido, e o som à minha volta começou a se dissolver.

- Você está pensando nela, não está? - Harper quebrou o silêncio.

- Sempre pensei. Mesmo sem querer.

Ela esticou a mão e cobriu a minha. - Então está na hora.

Não respondi. Olhei para a espuma do café, girando em círculos lentos, como se o movimento pudesse me dar respostas.

Harper suspirou e pegou de volta o celular. - Amanhã, você vem comigo na universidade. Eu falei com o Henrik - esse é o sueco - e a gente vê o que ele diz.

- E se eu não quiser saber?

Ela sorriu de lado. - Mentira. Você quer.

Fiquei olhando para ela, tentando encontrar uma brecha, algum argumento que me deixasse no controle. Mas era Harper. E Harper sempre ganhava.

Peguei minha xícara e bebi um gole. Estava morno e amargo, mas, de repente, parecia exatamente o que eu precisava.

Harper terminou o café com um gole decidido, como se quisesse provar algo para si mesma.

- Pronto. Agora não posso mais dizer que não tomo café ruim. É parte do meu currículo de sofrimentos.

Revirei os olhos, mas não consegui esconder um sorriso. Ela sempre tinha essa habilidade irritante de me arrancar uma reação quando eu menos queria.

- Você acha mesmo que esse Henrik vai querer ajudar? - perguntei, só para sentir se havia uma chance de escapar dessa missão.

- Henrik é obcecado por dois tipos de coisa: pão artesanal e traduções. Você não está me dando pão, então... - Ela deu de ombros. - É claro que ele vai querer.

A naturalidade dela me deixava inquieta. Para Harper, a vida era um conjunto de portas sempre abertas; para mim, era uma sequência de fechaduras para as quais eu nunca tive as chaves.

- E se for algo... ruim? - murmurei.

- Então a gente lida. - Ela apoiou o queixo na mão e me encarou. - Mas, pelo amor de Deus, para de viver como se sua vida fosse uma sala de espera.

A frase ficou ecoando em mim. Eu não queria admitir, mas ela tinha razão. Era exatamente assim que me sentia nos últimos anos: parada, observando os outros entrarem e saírem de lugares aos quais eu nunca pertenceria.

O barista passou por nós recolhendo as xícaras, e Harper aproveitou para roubar o biscoito que veio no meu pires.

- Você não ia comer mesmo - disse, antes que eu protestasse.

- Eu ia.

- Não ia.

Suspirei, e ela sorriu vitoriosa.

A sineta na porta tocou de novo, trazendo um sopro de ar gelado. Lá fora, a rua estava coberta por uma fina camada de neve, e eu me perguntei se Uppsala se parecia com aquilo. Talvez mais branca, mais silenciosa. Talvez tivesse o mesmo tipo de frio que entra pela roupa e se instala nos ossos.

- Então é isso. - Harper se levantou, ajeitando o casaco. - Amanhã, às dez. Não inventa desculpa.

- Não prometo nada.

- Promete sim.

E, como sempre, ela saiu primeiro, deixando-me com a sensação de que uma parte da decisão já estava tomada por mim. Olhei para o lugar vazio ao meu lado, depois para a porta, e senti que a carta estava ainda mais pesada no bolso do meu casaco.

O café agora cheirava a canela e café queimado, mas eu mal percebia. Tudo que conseguia pensar era na caligrafia inclinada de Áine e no nome daquela cidade.

Uppsala.

Soava como uma chave que ainda não cabia em nenhuma fechadura - mas que, de algum jeito, já estava queimando na minha mão.

Capítulo 3

A neve da manhã seguinte parecia mais branca do que de costume, refletindo uma luz que me obrigou a apertar os olhos assim que saí do metrô. Harper andava ao meu lado, falando sem parar sobre uma instalação artística que ela queria fazer com cabides, luzes de Natal e um manequim que, segundo ela, "ia mudar a forma como as pessoas viam o corpo humano".

- Você não está ouvindo nada do que eu digo, né? - perguntou, depois de alguns segundos de silêncio da minha parte.

- Estou. Cabides, luzes e um manequim.

- Viu? Eu sabia que você me amava.

Atravessamos a rua e entramos no campus da universidade. Os prédios antigos misturavam tijolos vermelhos e janelas de vidro modernas, como se a história e o presente tivessem feito um acordo frágil para coexistir. A neve acumulada nos degraus rangia sob nossas botas.

- O escritório do Henrik é no segundo andar da biblioteca central - disse Harper, consultando o celular. - Mas aviso: ele tem zero paciência para enrolação.

- Ótimo, então somos almas opostas.

Ela me deu um sorriso cúmplice e empurrou a porta dupla. O calor lá dentro me envolveu como um cobertor repentino, e o cheiro de livros antigos misturado ao de café vindo de uma máquina no canto me fez sentir em casa por um instante.

O escritório de Henrik ficava no final de um corredor estreito, com paredes cheias de avisos sobre horários de atendimento e eventos culturais. Harper bateu na porta duas vezes antes que uma voz grave dissesse:

- Entre.

Henrik era alto, magro, com cabelos grisalhos penteados para trás e óculos retangulares que escorregavam constantemente pelo nariz. Ele parecia o tipo de homem que nunca errou uma gramática na vida.

- Harper - ele cumprimentou, com um aceno seco. - E...?

- Minha amiga Nora - ela disse, entrando sem cerimônia. - Ela tem algo que você precisa ver.

Sentei-me diante da mesa dele, sentindo minhas mãos suarem dentro das luvas. Tirei o celular e mostrei a foto da carta. Henrik pegou o aparelho, ajustou os óculos e inclinou a cabeça, como se a caligrafia estivesse tentando lhe contar um segredo.

- É sueco, sim - disse, após alguns segundos. - Mas com uma grafia antiga, talvez de vinte, trinta anos atrás.

Meu estômago se contraiu. Ele começou a ler em voz baixa, primeiro para si mesmo, depois para nós.

- "Para a criança que não deveria ter partido..." - fez uma pausa e levantou os olhos para mim. - "Uppsala não é mais segura. Há pessoas que fariam qualquer coisa para manter o passado enterrado."

A temperatura da sala pareceu cair alguns graus. Harper e eu trocamos um olhar rápido.

- Tem mais? - perguntei, tentando manter a voz firme.

Henrik olhou de novo para o celular, leu algumas linhas e franziu a testa.

- Fala de um nome... Bergström. - Ele pronunciou devagar, como se testasse o som. - E de um encontro que deveria acontecer no final do mês.

- Mas... encontro com quem? - Harper se adiantou.

Ele fechou os olhos por um segundo, como se estivesse decidindo algo. Então empurrou o celular de volta para mim.

- Não posso continuar.

- Como assim, não pode? - Harper perguntou, incrédula. - Você começou.

- Não quero me envolver. - Ele tirou os óculos e os colocou sobre a mesa. - Esse tipo de coisa... atrai problemas.

- É só uma carta antiga - retruquei, mas minha voz soou mais fraca do que eu queria.

Henrik me olhou de um jeito que não deixava espaço para dúvidas. - Cartas antigas às vezes são mais perigosas do que notícias de amanhã.

Por um instante, a única coisa que ouvi foi o som distante de páginas sendo viradas na biblioteca. Harper estava prestes a dizer algo, mas eu a interrompi.

- Tudo bem - falei, guardando o celular no bolso. - Obrigada pelo seu tempo.

Levantei-me, e Harper fez o mesmo, embora com relutância. Henrik apenas acenou, já voltando a mexer em alguns papéis como se estivéssemos a quilômetros de distância.

Ao sair do escritório, o corredor pareceu mais estreito. A luz fria das lâmpadas de teto realçava o peso na boca do meu estômago.

- Ele sabe mais do que disse - Harper murmurou, enquanto descíamos as escadas.

- Eu sei.

Lá fora, a neve caía em flocos pequenos, quase preguiçosos. Apertei o casaco contra o corpo, sentindo o papel da carta como um peso invisível no bolso interno.

O que quer que estivesse escrito no restante daquelas linhas, Henrik não queria ser o mensageiro. E agora, mais do que nunca, eu precisava descobrir o porquê.

Harper empurrou a porta da biblioteca com mais força do que o necessário, fazendo o sino tilintar atrás de nós. O ar gelado me atingiu de imediato, cortando minha pele.

- Ele é um covarde - ela disse, ajustando o cachecol enquanto andávamos pela calçada coberta de neve. - Ficar com medo de uma carta? Por favor.

- Não acho que seja só medo - murmurei.

- Então o quê é?

Olhei para o chão, onde nossas pegadas se misturavam com as marcas antigas de outras pessoas que passaram por ali. - Acho que ele reconheceu alguma coisa.

Harper bufou, mas não respondeu. O som dos carros passando lentamente na rua preenchia o silêncio entre nós.

- E se essa carta não for sobre você? - ela perguntou de repente. - E se for outra pessoa?

- Ela estava no diário da Margaret - respondi, como se isso fosse argumento suficiente.

- Mas você não sabe como foi parar lá.

- Não, mas... - hesitei - a primeira frase fala de uma criança que não deveria ter partido.

Harper me lançou um olhar de lado. - E você acha que é essa criança.

- Eu sei que sou.

Falar aquilo em voz alta fez algo se mover dentro de mim. Não era apenas uma suspeita; era uma certeza que crescia como um nó no estômago.

Paramos na esquina para esperar o semáforo. A neve caía com mais força agora, pousando nos cabelos de Harper e derretendo rápido contra o tecido do meu casaco.

- Então o que a gente faz agora? - ela perguntou.

- Procura outra pessoa para traduzir o resto.

- Conheço gente - ela disse, o tom mais determinado. - Mas antes, você vai me explicar quem é Bergström.

- Eu não sei.

- Pois então vamos descobrir.

O sinal abriu, e seguimos andando. Cada passo parecia mais pesado, como se a rua estivesse inclinada contra nós. Eu sentia a carta no bolso, o celular com as fotos na minha bolsa e, acima de tudo, uma estranha urgência de não deixar que essa história esfriasse.

Quando chegamos à entrada do metrô, Harper segurou meu braço. - Não deixa isso morrer, Nora. Você faz isso às vezes: chega perto e recua.

- Não vou recuar.

Ela me soltou, satisfeita, e desceu as escadas primeiro. Eu fiquei parada por um segundo, observando as luzes vermelhas dos carros se afastando pela rua.

No fundo, sabia que Henrik não era só um obstáculo. Ele era um aviso. E, se ele tinha razão sobre cartas antigas poderem ser perigosas, talvez eu já estivesse atrasada demais para me proteger.

Peguei o metrô para casa, encostando a testa na janela fria. Cada túnel que passávamos deixava meu reflexo mais distorcido. Por um momento, imaginei Margaret sentada à minha frente, com aquele sorriso calmo que escondia tanto.

- O que você fez, Margaret? - murmurei, mas a pergunta se perdeu no barulho metálico do vagão.

Quando cheguei ao apartamento, joguei as chaves sobre a mesa e tirei a carta do bolso. Abri-a novamente, passando o dedo sobre as palavras como se pudesse sentir a voz de quem as escreveu. E, bem no canto inferior, quase apagado pelo tempo, percebi algo que não tinha notado antes: uma pequena marca, como um carimbo borrado.

Era um símbolo circular, com uma letra no centro.

A letra K.

E eu sabia, sem entender por quê, que aquilo era importante.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022