EVAN.
SEIS MESES ATRÁS.
A noite do Bacanal sempre foi uma noite de excessos. Muito sexo, bebidas e muitas drogas.
É noite de iniciação para os membros seniores da fraternidade, consolidando-os como irmãos após a formatura. Eles desfrutarão dos benefícios da associação por toda a vida. É como um clube, só que mais restrito e privilegiado do que qualquer outro.
Mas sejamos honestos: esta noite é apenas uma desculpa para dar a maior festa do ano. E no ano que vem, será a minha vez. Estou tão perto de terminar com toda essa merda que posso praticamente sentir o gosto.
Garotas seminuas gritam de medo e excitação, enquanto correm pelas árvores. Caras sem camisa com máscaras de caveira os perseguem na escuridão. Esta noite é sobre cumprir todos os nossos desejos mais sombrios. Os caras mandam, elas obedecem, simples assim. É o que todas elas querem. De líderes de torcidas as mais doces e reservadas. Todas elas querem alguma chance de estar com os caras da Phi Omega. É assim desde sempre.
Enquanto abro passagem pelas árvores do lugar, uma grande forma no chão chama minha atenção.
A forma de uma garota.
A princípio, acho que ela pode estar desmaiada. A menina está de bruços no chão. Tudo o que posso ver são cabelos loiros emaranhados cheios de folhas e pedaços de galho. Por um momento, tento me convencer de que é apenas uma brincadeira. Isso tem que ser uma boneca em tamanho real ou algum tipo de manequim realista disposto a assustar quem tiver a sorte de passar.
Eu ajoelho na grama e o orvalho frio penetra no tecido do meu jeans. Assim como os outros, eu não estou vestindo uma camisa. O vento frio soprando sobre meu peito nu me faz estremecer. Mas não tanto quanto meu próximo gesto.
Então eu a viro.
A garota ainda não se mexe e não dá qualquer sinal de que fará, e isso por uma fração de segundo, me assusta. Ouço um grito atrás de mim e assim que me viro, Annie Dupont sai correndo das sombras, seus saltos muito altos afundando na grama, então ela tropeça ao me alcançar.
- Oh meu Deus. O que aconteceu aqui?
Eu não desvio o olhar do rosto da garota no chão. - Não faço a menor ideia.
- Ela está morta? - Annie sussurra ofegante.
- Eu pareço um médico?
- Precisamos pedir ajuda.
Palavras que ouvi repetidas vezes sussurrar na minha cabeça.
O que acontece na fraternidade fica na fraternidade.
Se eu chamar a polícia, essa festa acabou. Pode não haver nenhuma outra nunca mais. A administração do campus faz vista grossa para nossas atividades na maioria das vezes, assim como a polícia local. A Alpha Phi Omega sempre teve rédea solta no campus. Mas isso vai mudar se as autoridades descobrirem que deixamos uma garota se machucar aqui.
As coisas já deram errado em nossas festas antes, é claro. Algumas coisas são inevitáveis quando tanto álcool e tensão sexual estão envolvidos. Na pior das hipóteses, alguma garota é deixada na porta da sala de emergência para que ela possa se livrar da quantidade excessiva de álcool e drogas em seu organismo. Nós somos responsáveis pelo que acontece aqui, mas há uma longa história de adultos sensatos olhando para o outro lado quando os membros da Alpha Phi Omega se metem em problemas.
Mas isso?
Isso é algo diferente.
Essa garota vai além de qualquer merda que já aconteceu na fraternidade e a julgar pela sua aparência e falta de roupas, eu não quero pensar que algo pior tenha acontecido.
- Precisamos fazer alguma coisa - murmuro, embora não tenha ideia do que deveria ser. Estamos a pelo menos um quilômetro e meio na floresta que cerca o campus e vou precisar de ajuda para carregá-la.
- Vá encontrar Brady ou qualquer um dos caras. Agora.
Em vez de fazer o que eu disse, Annie coloca a mão no meu ombro, que eu resisto à vontade em me livrar. - Você está bem?
Não consigo parar uma gargalhada sombria, com a pergunta idiota da garota irritante, mesmo que nada disso seja engraçado. Annie olha para mim com os olhos arregalados e a reação dela não é uma surpresa. Ninguém vai se importar com a garota anônima esparramada aos meus pés. Todos sabem como funciona o Bacanal, a festa anual de iniciação da Phi Omega. Esta é uma noite onde vale tudo.
Mas não isso.
Quando olho para ela, Annie dá um passo involuntário para trás.
- Vai logo - eu rosno. - Você não vai gostar do que vai acontecer se eu tiver que te mandar de novo.
A expressão indiferente em seu rosto muda, os olhos se arregalando. Eu sei como eu pareço, especialmente esta noite.
Minha máscara cobre a maior parte do meu rosto. Chifres de carneiro retorcidos se projetam do topo de um rosto demoníaco e esquelético. Tudo o que é visível são meus olhos e os lábios que eu torço em uma carranca de raiva. Feita de porcelana pesada e pintada à mão com preto metálico, a máscara poderia ser uma obra de arte.
Flores de lótus e crânios.
O lótus representa nossa busca sem fim pelo prazer. Um crânio humano carrega um simbolismo óbvio, além de ser geralmente ameaçador.
Alpha Phi Omega é para a vida e a morte.
O broche da fraternidade, o crânio com uma flor de lótus esculpida sobre um olho, que usamos na gola das camisas, pode muito bem estar preso em nossa pele. Mesmo quando você não está usando, a marca que deixa nunca desaparece.
Eu me inclino sobre a garota novamente. Ela tem um rosto angelical bonito, mas não consigo identificá-la. Eu me aproximo ainda mais, enquanto tento verificar se ainda está respirando, o pulso em seu pescoço está fraco, mas está lá. Eu tenho que assistir por quase um minuto inteiro, mas eventualmente seu peito sobe com uma respiração superficial.
Ela está viva, pelo menos por enquanto.
Seu vestido, ou o que sobrou dele, está rasgado em pedaços, revelando um sutiã rosa estampado com flores. Sem tocá-la, tomei coragem para olhar além de suas coxas machucadas, e a calcinha parece estar faltando.
Eu gostaria de pensar que nenhum dos caras da Alpha Phi Omega poderia ser responsável por isso.
Mas de qualquer forma, esta é a nossa noite, então é claro que todo mundo vai pensar que foi um de nós.
O som de alguém atravessando as árvores me deixa tenso. Uma máscara de caveira aparece e mesmo que a coisa cubra completamente seu rosto, eu sei quem é.
- O que aconteceu aqui? - Brady pergunta, diminuindo a velocidade ao me ver.
- Temos um problema.- Eu saio do caminho para que ele possa ver a garota esparramada no chão na minha frente.
Brady dá mais alguns passos na clareira. Ele para de repente quando avista a garota. - Jesus Cristo. O que você fez?
- Não seja um idiota. Eu a encontrei assim.
- Quem é ela?
- Você vai precisar perguntar a quem fez isso com ela.
- Talvez ninguém tenha feito - Ele se ajoelha ao seu lado e desdenha. - Tá na cara que essa garota deve ter enchido a cara e fumado todas. - Ele ri e me encara, parando assim que olha minha carranca séria. - Relaxa, talvez ela só esteja desmaiada.
- Não. O pulso está fraco.
Essa é a maior festa do ano. Todo o nosso corpo estudantil provavelmente está aqui, bêbado e se divertindo como nunca.
O que gera dezenas de suspeitos em potencial, incluindo os outros caras da Phi Omega.
A fraternidade é composta por alguns dos filhos mais privilegiados da costa leste. A maioria dos nossos pais eram membros enquanto estiveram aqui e até hoje ainda são. A associação à fraternidade é vitalícia, incluindo todos os benefícios e responsabilidades. Mesmo depois de formados, honramos a promessa que assumimos de proteger uns aos outros.
O autocontrole não é um atributo que tende a florescer aqui. Tudo sobre isso me deixa doente, já que é óbvio que existe sinais de agressão sexual. Suas roupas estão rasgadas, seus braços e coxas estão machucados e ela está sem calcinha.
Inferno! Que maldito filho da puta doente faria isso?
- Preciso da sua ajuda para carregá-la.
- E deixar minhas impressões digitais sobre todo seu corpo? De jeito nenhum!- Brady olha enojado para a forma imóvel da garota, seu desgosto óbvio. - Não vou chegar nem perto dessa bagunça.
Eu bufo e aperto meus dentes. - Tudo bem, vou chamar uma ambulância, então.
Quando pego meu telefone para fazer a ligação, ele o tira da minha mão. - Que diabos está fazendo, cara?
Ele me olha como se eu fosse uma idiota. - Você realmente quer a polícia e os paramédicos fervilhando aqui?
Sempre houve rumores na cidade local sobre o que fazemos aqui durante a festa de iniciação. Pessoas correndo nuas pelas árvores. Ritos e rituais emprestados de religiões pagãs.
Orgias consentidas.
Ou não?
A maioria dos rumores são exagerados, mas nem todos. Então a última coisa que queremos aqui são homens com distintivos ou moradores curiosos apontando suas câmeras de celular
Pego o telefone puxando com violência da sua mão. - Você está dizendo que devemos deixá-la aqui para morrer?
Brady dá de ombros. - Podemos deixá-la na porta do pronto-socorro de manhã. É o que sempre fazemos quando as coisas saem do controle.
- A garota mal está respirando. Ela pode estar morta pela manhã.
Os lábios de Brady se curvam e ele fica sério novamente. - Você está exagerando.
- Estou exagerando? - repito incrédulo. - Sobre a garota inconsciente, com as roupas rasgadas e que mal está respirando?
- Quer saber, chame a polícia.- Ele ergue as mãos em rendição e uma expressão zombeteira. - Se você quer ser o responsável por um de nós ser levado para a cadeia, então eu acho que isso é com você. E quando a universidade ameaçar fechar a Phi Omega, a menos que denunciemos um de nossos irmãos, vá em frente e jogue duzentos anos de tradição pelo ralo.
Brady é um idiota, mas todos os outros caras provavelmente diriam a mesma coisa. A maioria de nossos pais eram Phi Omega's, assim como seus pais antes deles. Isso costumava ser um pré-requisito para a adesão, mas as regras foram afrouxadas na última geração. Lealdade à fraternidade foi incutida em nós dois desde antes de pisarmos no campus.
Nada deveria ser mais importante do que isso.
Nem mesmo a vida de uma garota.
A voz do meu pai ecoa pelo meu crânio, fazendo minha cabeça doer.
Alpha Phi Omega significa irmandade sobre o sangue.
Alpha Phi Omega significa nunca ter que se desculpar.
Alpha Phi Omega é para toda vida.
O homem se casou três vezes nos últimos dez anos e não falou mais com minha mãe, exceto por meio de advogados. Mas ele nunca perdeu uma noite no clube com seus irmãos da fraternidade, mesmo que tenha passado mais de um quarto de século desde que eles se formaram.
Alpha Phi Omega é para toda vida.
Eu posso sentir seu olhar perfurando minhas costas, mesmo que ele esteja a 800 quilômetros de distância.
- Não podemos deixá-la aqui.
- A garota ainda está respirando. Ela provavelmente vai acordar em algumas horas com uma ressaca terrível.- A voz de Brady é fria, mas seu olhar permanece no rosto dela por um breve momento antes de se virar. - Estou saindo, e sugiro que você faça o mesmo.
Ele se levanta e limpa as calças, parecendo mais irritado com a sujeira em seus joelhos do que qualquer outra coisa. Enfiando as mãos nos bolsos, ele se afasta, desaparecendo na escuridão.
Eu olho para o rosto da garota, mas meus olhos são arrastados para sua pele em torno das roupas rasgadas. Há arranhões e alguns hematomas escuros em seus braços, e sua perna está dobrada.
Alguém a jogou aqui. A descartou como se não fosse nada. É como se alguém quisesse que ela morresse aqui. Mas porque? Poderia ser uma transa consentida que saiu do controle? Ou algum animal a feriu de propósito e tentou matá-la?
A tela do meu telefone se acende e eu a encaro por um breve momento. Eu sei que se fizer essa chamada, não haverá como voltar atrás. Ligar para a emergência do meu telefone pessoal, pode implicar em muita dor de cabeça depois. Se eu fizer essa ligação, eventualmente ela voltará para mim.
Eu olho para o meu telefone novamente e tomo minha decisão.
Alpha Phi Omega é para toda vida.
HAILEY.
O campus da St. Bartholomew University cheira a perfume caro e pecado.
Provavelmente está na minha cabeça. Mas ainda engasgo com o odor fantasma enquanto desço do carro que não pode passar pelos portões principais impressionantemente altos. Esse lugar pode muito bem ser uma fortaleza, considerando o quão difícil é entrar.
Já que uma vez dentro, não há como sair.
Um dos guardas do portão parece se desculpar quando diz ao taxista que vai ter que me deixar sair e dar meia-volta, já que apenas carros de propriedade da escola e veículos pessoais com passes especiais são permitidos dentro da grossa cerca de ferro forjado, que circunda milhares de hectares de propriedade do campus.
Eu dispenso o protesto do taxista e empurro um punhado de notas amassadas para ele. O guarda do portão tenta se desculpar mas eu apenas passo por ele. Haverá luta suficiente por vir. Não vai adiantar nada entrar em uma agora.
O que é uma caminhada de 800 metros, considerando tudo o que já aconteceu?
Faz sentido que entrar em St. Bart 's é como passar pelos portões do inferno.
Mas lembro a mim mesma, que qualquer coisa que vale a pena fazer, é digna de sofrimento, já que seria meio inocente pensar que tudo isso vai ser fácil.
Colocando minha mochila surrada no ombro, subo a colina que leva ao campus. Os saltos das minhas botas escorregam e deslizam no cascalho, as solas lisas, são feitas para moda, não para caminhadas. Tenho que ter cuidado onde piso se não quiser quebrar o tornozelo.
O que significa que levará o dobro do tempo necessário para chegar ao topo da colina.
O sol bate na minha nuca. Gotas de suor se formam na minha pele, e cada pedaço da minha carne exposta provavelmente ficará vermelha em poucos minutos. Caminhadas nunca foi meu forte, principalmente quando estou usando um vestido curto e botas Over que roubei de uma loja cara.
Não há calçada, porque ninguém anda por esta estrada. Mas é dia de chegada para o novo ano letivo, então eu não sou a única a começar aqui hoje.
Uma fila de carros pretos sólidos passa lentamente. As janelas são escuras, mas sei que rostos curiosos pressionam contra o vidro. Queixos vão cair quando eles perceberem quem eles acabaram de ver. Sorrio com o pensamento e ergo meu queixo, e enquanto a fila de carros faz uma curva na estrada, eu desapareço de vista.
Já se passaram seis meses desde que alguém aqui pôs os olhos em Hailey Spencer. Aposto que nenhum deles pensou que veria esse rosto novamente.
Os boatos já estarão girando quando eu chegar ao aglomerado de prédios do campus. A notícia terá se espalhado por toda parte, via mensagem de texto ou atualizações nas mídias sociais, de que Hailey está de volta.
Famosa ou infame. Às vezes, um é indistinguível do outro.
Não fico desapontada quando chego ao prédio da administração e empurro as pesadas portas de carvalho. Uma dúzia de rostos se voltam em minha direção, expressões variando de surpresa, choque a desdém total.
Todos respiram coletivamente e todas as conversas param. O silêncio é alto e a tensão é pesada o suficiente para sufocar.
Quando o barulho finalmente recomeça, sei que sou o tema da conversa.
O frio do ar-condicionado passa por mim como chuva de primavera, secando o suor da minha pele. Meus saltos estalam no chão de mármore brilhante, enquanto eu ando para frente como se estivesse em uma passarela em vez deste corredor bem iluminado cheio de estranhos intimidadores.
Passei mais tempo do que gostaria em torno de cadelas ricas. Elas podem usar roupas de grife e cortes de cabelo caros, como armaduras e pinturas de guerra, mas desmoronam ao primeiro sinal de perigo. Mesmo que essas pessoas olhem para mim como se eu fosse o chiclete grudado em seus sapatos, eu sou a única verdadeira sobrevivente aqui.
E planejo fazer muito mais enquanto estiver aqui do que apenas sobreviver.
Meu cabelo enrolado está puxado para cima em um rabo de cavalo alto que cai em cascata sobre meu ombro. Os destaques de platina e mel foram extremamente difíceis de conseguir, mas filhinhas de papais ricos podem farejar tintura de cabelo de farmácia a quilômetros. Elas são como tubarões farejando sangue.
Seus olhares permanecem em meus saltos altos e vestido curto. Minhas costas queimam quando sua atenção permanece nas palavras que pintei com spray rosa na minha jaqueta de couro preta.
"Bem vindo ao Inferno."
É uma promessa.
Não preciso ouvir seus sussurros para saber o que estão dizendo.
Hailey Spencer?!
Eles podem sussurrar e apontar. Podem me observar o quanto quiserem para ver as fraquezas que podem ser exploradas. Até este momento, eu era apenas uma pedra no sapato caro de alguém. É o que acontece quando você acaba em um lugar ao qual não pertence. Mesmo que o ataque não fosse minha culpa, eu deveria saber disso.
- Hailey Spencer é a cadela que só estava querendo chamar a atenção. - elas dizem. - E agora ela tem a coragem de voltar, como se nada tivesse acontecido.
Isso mesmo, vadias. Estou de volta e não vou a lugar nenhum.
A multidão se separa enquanto caminho até a secretaria, como se ninguém quisesse chegar muito perto. Eu continuo caminhando, mantendo meus olhos olhando para frente. Eu não sei o que eles podem ver se prestarem bem atenção, então mantenho minha atenção fixa, como se nenhum deles existisse.
Meus dedos brincam com o rosário em forma de caveira no meu bolso. Eu nunca fui religiosa ou esse tipo de coisa, mas o objeto tem um valor sentimental pra mim.
Se já existiu tal coisa como um Deus justo, então eu sei que o tenho ao meu lado. Estou aqui em uma missão, e moverei céus e infernos para que isso seja feito.
Uma mulher agradavelmente rechonchuda com cabelos tingidos de vermelhos e óculos gatinho pisca em óbvia confusão quando me aproximo da mesa. - Hailey Spencer?
Ela diz o nome depois de um momento de hesitação, como se não pudesse acreditar na garota que a encara com frieza.
- Estou fazendo o check-in. - sorrio amigavelmente.
- Ah sim, recebemos a ligação de que você estava se reinscrevendo na semana passada. Ficamos um pouco surpresos. - Ela remexe alguns papéis, esperando um instante pela minha explicação, que obviamente não virá. - Aqui estão suas chaves e os horários das aulas. Bem vinda de volta.
Eu me permito outro sorriso, porque ela quase soa como se o que me desejasse fosse real. - Obrigada.
Seu olhar me segue até a porta do escritório se fechar atrás de mim, com olhos que sei que estão arregalados e fixos. Mesmo a equipe aqui não poderia ter pensado que Hailey voltaria, não depois do constrangimento causado à universidade. Esta é a garota responsável por trazer a polícia para St. Bart's porque ela não conseguiu se controlar.
A menina que usou tantas drogas quanto pode e entrou em coma alcoólico depois de se divertir no Bacanal, e que desapareceu depois disso sem sequer terminar o semestre. Ela nem foi corajosa o suficiente para enfrentar todo mundo depois do que aconteceu e nunca se preocupou em fornecer respostas para todas as perguntas.
Então os fofoqueiros do campus fizeram isso por ela.
Eu vi as postagens nas mídias sociais, todas levianas e grotescas: "Se Hailey Spencer é uma verdadeira vítima ou apenas uma garota envergonhada, parece ser uma incógnita."
Ninguém parece realmente saber toda a verdade já que todos os detalhes sórdidos não poderiam ter sido filtrados para o corpo docente, mas tenho certeza de que a administração do campus ouviu o suficiente.
O suficiente para saber que Hailey teria que ser uma idiota para mostrar seu rosto aqui novamente. Mas eles não têm ideia dos pensamentos sombrios que passam pela minha doce cabecinha.
Lá fora, o sol está brilhando forte. É um bom contraponto com a escuridão em minha alma.
Assim que saio do prédio, ouço o rugido alto de um motor. Há apenas uma fração de segundo de aviso antes que uma Ducati Superlegerra vermelha flamejante com pintura personalizada venha rugindo pela estrada.
Ele para a alguns metros de distância, ao lado de uma multidão de caras que estão rindo e acenando. Nenhum deles parece preocupado com o quão perto eles chegaram de testemunhar um homicídio.
O idiota da moto, tira o capacete e balança uma perna longa sobre o quadro. Sua jaqueta de couro se ajusta impecavelmente sobre os ombros largos e o físico impecável, provavelmente pelas dezenas de horas na academia. Ele passa a mão nos cabelos pretos curtos e levemente bagunçados e meus olhos pousam na pele naturalmente bronzeada que praticamente brilha sob o sol. A boa aparência de modelo com um toque pesado de algo mais exótico do que a maioria deles possui, deixa claro de longe quem é.
Sua boca se curva em um sorriso sensual enquanto algumas garotas correm para recebê-lo de volta.
Evan Van Prescott.
Ele está muito longe para que eu possa vê-los, mas sei que seus olhos são de um azul-gelo penetrante, que se destaca em contraste com as barras escuras de suas sobrancelhas e o dourado vibrante de sua pele. Este é um cara que ganhou na loteria genética, tornando-o tão bonito por fora quanto feio por dentro.
Eu reconheço os outros caras com ele também.
Cole, Nolan e Lennox.
Garotos Alpha Phi Omega.
Passei horas com os anuários, estudando os rostos de todos eles, em todas as formas e situações que pude encontrar. Tentei imaginar qual deles poderia ter feito isso. Qual desses sorrisos esconde a alma de um psicopata.
Aquelas mãos, as mesmas que eles erguem em triunfo após uma vitória no rugby, machucaram a pele e quebraram a alma de uma garota inocente. Um deles deixou uma menina inconsciente para morrer sozinha na floresta.
Um deles vai pagar.
Evan não se preocupa em encontrar uma vaga para estacionar sua moto. Ele apenas a encosta em um lugar qualquer, balançando as teclas em seu dedo indicador enquanto todos se afastam. Ninguém vai rebocar sua Ducati ou ameaçá-lo com multas se ele não levar para outro lugar. E a regra sobre veículos pessoais não serem permitidos no campus obviamente não se aplica a ele.
Mas eu já sabia que as regras normais não se aplicam aos caras Alpha Phi Omega.
Eu os observo ir, desejando desesperadamente que um relâmpago os atinja apesar do céu claro acima. Quando eu descobrir qual deles é o responsável pelo que aconteceu, nada me impedirá de destruí-lo.
Vou destruir todos se for preciso.
Um a um.
Eu vou pegar vocês, seus lindos.
E seu pequeno clube também.
EVAN.
- Hailey Spencer está de volta.
As palavras sussurradas mal são registradas pelo meu cérebro quando Lennox desliza para a cadeira ao meu lado na nossa mesa do refeitório.
O almoço é a minha refeição favorita do dia. Não é frenético como o café da manhã, mas também não se transforma em uma produção ridícula como o jantar. O almoço é discreto e tranquilo, o melhor remédio para a ressaca que só começa a passar a essa hora do dia.
É por isso que não estou esperando as palavras que caem como pedras na boca do meu estômago ainda vazio. Todo mundo sabe que não deve trazer merda pra mim enquanto estou comendo. Lennox pode ser meu melhor amigo, mas ele precisa aprender rápido que as coisas mudaram.
Somos veteranos na fraternidade, o que significa que agora sou o presidente da Alpha Phi Omega.
Eu faço as regras.
A votação só foi aprovada na semana passada, mas já estou aproveitando as vantagens do meu cargo. Então hoje é o dia em que o livro de regras é incendiado e jogado pela janela porque as regras antigas não se aplicam mais.
Quando o que ele disse finalmente filtra em meus ouvidos, eu congelo com meu sanduíche a meio caminho da minha boca.
- Você está falando sério?
- Muito, cara. - o sorriso de Lennox é sombrio. - Um passarinho me disse que ela pegou as chaves do quarto na recepção esta manhã. Eu acho que nenhum dos caras viu ela ainda.
Eu instintivamente me inclino para frente, colocando menos espaço entre nós para não perder nenhuma palavra.
- E daí?- Levando o sanduíche à boca, dou uma mordida gigantesca. Mastigar vai me dar tempo para pensar.
- O que vamos fazer sobre isso?
No papel, St. Bart 's é tecnicamente uma faculdade católica particular. Na realidade, é muito mais do que isso. As famílias mais elitistas do mundo levam seus filhos para este lugar há séculos. Quando você quer uma experiência mais pessoal, você vem ao St. Bart 's. As conexões que formamos aqui são o que nos manterá um passo à frente de todos os outros. Quase todo mundo aqui é rico, e os que não são, são extremamente bem relacionados.
E é um fato indiscutível que os Ômegas estão no topo. As pessoas querem ser como nós e mesmo quando não podem, se contentam em estar o mais próximo possível.
St. Bart 's é uma preparação para a dinâmica social que continuará pelo resto de nossas vidas.
É fácil deixar essa merda subir à cabeça.
- O que vamos fazer sobre o quê? - Cole joga uma bandeja cheia de sacos de batatas fritas e salgadinhos na mesa. O cara já é grande e tem o apetite de quem treina como um lutador de sumô. - De quem estamos falando?
- Ha-i-ley Spencer.- ele soletra o primeiro nome. Nolan pega um saco de batatas fritas da bandeja de Cole e o abre antes de se acomodar em seu próprio lugar. - Pelo menos, suponho que estamos, já que é sobre ela que todo mundo está falando.
- Vocês idiotas podem falar mais baixo? - Lennox sibila. Ele se inclina para frente em seu assento como se estivéssemos prestes a trocar segredos de estado. - Precisamos descobrir o que vamos fazer com ela.
Eu não sabia o nome dela quando me deparei com ela inconsciente na floresta.
Mas agora eu sei.
Todo mundo sabe.
Esse nome está na boca de todos há meses, desde a noite da festa de iniciação. A polícia apareceu para nos fechar pela primeira vez na história da fraternidade. O jornal local publicou histórias sobre uma garota de St. Bart 's que acabou no hospital. Não é preciso ser um gênio para juntar dois mais dois. Ela nunca voltou para o campus depois disso, e os boatos tem se espalhado sem parar, enquanto todos especulam sobre o que aconteceu com ela.
Ninguém disse abertamente que ela se machucou durante a festa da Phi Omega, embora a maioria das pessoas tenha adivinhado. Aquilo aconteceu na maior festa do ano. Todos no campus estavam lá ou sentados em seus dormitórios desejando que estivessem.
- Ela nunca deu uma declaração à polícia. Ela nem falou sobre qualquer merda que tenha acontecido aqui. - aponto. - Talvez só voltou em uma tentativa lamentável de juntar os pedaços. Não vejo por que isso é algum tipo de problema.
Lennox me encara como se eu tivesse chutado suas bolas.
- Não importa por que ela voltou.- o olhar que ele dirige a todos nós é pesado com coisas que é melhor não dizer. - Nós quase fomos fechados por causa de uma trepada dela que deu errado. Ela deveria ter ido embora.
Eu sei o que ele está pensando. Todos nós desejamos que isso seja verdade. Hailey encheu a cara e se drogou o quanto pôde antes de desmaiar na floresta. Talvez foi a forma que encontramos de seguir em frente e parar de pensar sobre ela. Se um de nós foi responsável pelo que aconteceu, todos nós sofreremos as consequências.
Eu gostaria de pensar que nenhum dos caras a machucou.
Talvez algum estudante aleatório tenha se infiltrado na nossa festa e aproveitado o caos para se divertir ou talvez Hailey realmente se drogou até o limite. Pelo menos foi essa a conclusão que todos chegaram, já que ela ter sumido por um semestre inteiro e nunca ter falado sobre o assunto, deixou claro que nada daquilo foi de fato um ataque, embora nada explicasse os hematomas em seu corpo e os sinais de abuso.
Sinto uma pontada de desconforto com o pensamento. Lembrar do seu corpo frágil naquela floresta me atormenta, e a lembrança gravada em minha mente me assombra, embora minha lealdade deve permanecer com a fraternidade.
Mas isso não significa que eu não tenha sido afetado de alguma forma com isso.
- O que faz você pensar que ela não vai manter a boca fechada?
- Sobre o que? Ter enchido a cara na nossa festa? Todo mundo sabe que a noite de iniciação é uma noite de excessos.
- Ela trouxe a polícia até aqui, cara. - Nolan cruza os braços sobre o peito e se inclina para trás o suficiente para que as pernas da frente de sua cadeira saiam do chão. A cadeira está perigosamente perto de tombar, mas ele consegue ficar perfeitamente equilibrado nela. - Enquanto ela estiver aqui, ela é uma ameaça e há apenas uma maneira de responder a uma ameaça como essa.
Cole concorda com a cabeça, falando com a boca cheia. - Precisamos ter certeza de que ela saiba que voltar aqui foi uma má ideia. Se ela não for embora sozinha, então teremos que forçá-la.
No ano passado, subornamos uma enfermeira do hospital por uma cópia do prontuário de Hailey, assim que deu entrada na sala de emergência. Eles utilizaram um kit de estupro, mas os resultados foram inconclusivos. Depois disso, as coisas na fraternidade se acalmaram um pouco, já que todos chegaram à conclusão de que a garota apenas bebeu demais e se drogou. O que acabou gerando uma certa revolta, já que quase fomos fechados porque alguém não conseguiu se controlar.
- Porque ela voltaria aqui? - eu não percebo que disse isso em voz alta até que Nolan responde.
- A única razão pela qual essa garota voltaria é porque ela quer causar problemas. Não sei se é dinheiro ou status que ela procura, mas não importa. Ela quase nos arruinou uma vez, então ela tem que ir embora.
A cadeira cai no chão com um estrondo. Algumas pessoas olham em nossa direção, mas ele as ignora.
Estamos em um local público, o que não é exatamente um local apropriado para essa discussão. O refeitório está cheio, mas ninguém ousaria sentar-se em nenhum dos lugares vazios à nossa mesa. Ela fica no meio do refeitório e estamos cercados por todos os lados por outros alunos, embora seguimos ignorando qualquer um deles. Nós existimos em nossa própria bolha, embora eu não precise olhar para saber que olhos furtivos observam cada movimento nosso.
Eu falo com a voz um pouco mais baixa. - E o que você está sugerindo que façamos, exatamente?
Cole e Lennox trocam um olhar enquanto Nolan sorri. Esse sorriso sempre foi mais assustador do que qualquer outra expressão que ele usa. Ele inclina a cadeira para trás novamente e olha para o teto com um sorriso ameaçador.
- Uma campanha de terror absoluto.
A temperatura na sala cai e meus olhos estreitos repousam em seu rosto. Eu resisto ao desejo de piscar mesmo quando meus olhos queimam. - Essa não é sua decisão. Não vamos fazer nada.
Cole apoia os cotovelos na mesa enquanto se inclina entre nós como um árbitro, o almoço a essas alturas foi completamente esquecido. Ele parece um pouco ansioso demais para nos ver em desacordo. Sua atenção volta para mim. - O que vai ser, Prez?
Eu sou o presidente da fraternidade. Não há campanhas de terror sem a minha autorização. Nolan pode falar o quanto quiser, mas os outros não o seguirão, a menos que eu dê o ok. Assim eu abro minha boca para dizer a ele para parar, o movimento do canto do meu olho me distrai.
As portas do refeitório se abrem com um estrondo alto.
Um silêncio momentâneo cai sobre todo o lugar. Por uma fração de segundo, é silencioso o suficiente para ouvir um alfinete caindo.
Hailey desliza como uma princesa há muito perdida voltando para casa, para seus súditos adoráveis. Sua cabeça está erguida e seu olhar parece abranger todos na sala, enquanto na verdade não se concentra em nenhum de nós.
O cabelo loiro está preso no topo de sua cabeça, as pontas descendo pelos ombros. Mechas delicadas emolduram seus grandes olhos cinzentos e lábios carnudos, que ficariam ainda mais rosados em volta do meu pau.
Ela usa uma jaqueta oversized sobre um vestido que é de alguma forma sexy e virginal ao mesmo tempo.
A garota parece incrível.
Limpo a garganta ruidosamente, e a sala volta ao seu nível normal de ruído. As pessoas voltam para suas conversas, mas mais de um olhar permanece em Hailey.
Eu a vejo se virar bruscamente em direção a vitrine, cheias de sanduíches para viagem. De costas, noto as palavras pintadas com spray em rosa brilhante no couro preto de sua jaqueta.
Com o vestido rosa mal saindo por baixo da jaqueta de couro e o meio sorriso sedutor em seus lábios, ela parece inocência envolta em pecado.
A figura da garota frágil e quase morta abandonada na floresta é bruscamente substituída por alguém confiante que desfila pelo campus como se nada tivesse acontecido.
Mas aqui está ela.
Não vai demorar muito para as pessoas começarem a apontar o dedo em sua direção, passando a vê-la de uma vítima inocente, para uma garota desesperada que só queria chamar a atenção. Coma alcoólico seguido por overdose. Pelo menos era o que estava escrito em seu prontuário.
Mesmo que eu não saiba quase nada sobre essa garota, é óbvio que o pequeno pacote contém uma personalidade muito forte. Sua presença é explosiva e eletrizante. Eu mal consigo desviar meus olhos dela.
Uma brasa queima em meu peito, como o começo de algo novo e selvagem.
Eu quero provar cada parte daquele corpinho quente. Eu quero quebrá-la, para que eu possa juntá-la novamente.
Eu quero que ela esqueça que qualquer outro cara já existiu.
Eu quero ela.
Seriamente.
A percepção vem com uma explosão de surpresa indesejável. Antes daquela noite, eu não seria capaz de escolher Hailey Spencer. Mas essa garota, que caminha em direção ao bufê de saladas como se fosse dona do prédio, eu a teria notado a um quilômetro e meio de distância.
Não importa o que ela poderia ter sido antes. Ninguém precisa me dizer que quem quer que Hailey seja agora, ela é muito perigosa.
Quando finalmente me viro, os outros estão olhando para mim.
- Bem-vindo de volta. - Nolan murmura sarcasticamente.
- Cala a boca. - Prendo meu pé nas pernas elevadas da cadeira e puxo. As pernas da cadeira de Nolan batem no chão com força suficiente para que sua barriga atinja a borda redonda da mesa. Ele solta um gemido doloroso, mas esmagar seu estômago na mesa não é suficiente para matar o olhar de zombaria em seu rosto.
- Por mais divertido que seja pra você, me machucar não vai mudar isso.
Procuro em minha memória qualquer indício de Hailey antes daquela noite. - Ela parece diferente...
Na verdade, depois do que aconteceu, eu rasguei uma página de um anuário com sua foto do ano passado na biblioteca. Esta é a mesma garota.
Os olhos de Lennox se estreitam para onde Hailey foi. Parece que desapareceu atrás das geladeiras de bebidas. - Você está certo, cara. Algo está diferente. Eu posso sentir o cheiro de atitude a uma milha de distância, e aquela garota está coberta por isso. Ela não era assim antes.
Como uma fênix que ressurge das cinzas, a velha Spencer se foi e algo muito novo chegou em seu lugar.
- Quais são as chances de que ela planeje algo? - Eu pergunto, tendo quase certeza que já sei a resposta.
- Vamos descobrir.- Nolan estica o pescoço para espiar por entre a geladeira de bebidas. Assim que o rabo de cavalo loiro reaparece acima da pilha de copos, ele coloca as mãos em volta da boca e grita alto o suficiente para ser ouvido acima do rugido maçante de conversas. - Está gostosa, Spencer!
O refeitório fica em total silêncio novamente.
Lennox abaixa a cabeça enquanto Cole ri, jogando pedaços mastigados de comida na mesa.
Hailey equilibra sua bandeja em uma mão enquanto pega um copo de chá gelado na outra. Seus movimentos são deliberados e sem pressa, enquanto ela dá a volta na seção de bebidas. Se a atenção de todo o refeitório a incomoda, ela não demonstra.
Uma garota inteligente viraria as costas e iria embora agora, ou no mínimo correria, se ela tiver algum instinto de sobrevivência.
Hailey não. Em vez disso, ela para para pagar no caixa e então caminha em nossa direção.
- Ela está vindo pra cá? Mas que diabos... - Nolan reclama, enquanto os outros olham pra mim. Eu ainda mantenho meus olhos fixos, incapaz de desviar da garota que caminha em nossa direção.
- Este lugar está ocupado? - sem esperar por uma resposta, ela desliza graciosamente na cadeira á minha frente. Meu olhar se concentra no pedaço de pele à mostra no decote do seu vestido.
- Alguém parece ter o hábito de acabar onde não é desejado. - Cole diz. Ele pega um saco de batatas fritas e joga para ela.
Hailey pega no ar, antes que a atinja no rosto. Virando-o, ela lê o rótulo e faz uma careta de desgosto. - Essa coisa está cheia de carboidratos. Espero que você não esteja tentando criar seios.- ela passa os olhos por seu corpo volumoso.
Cole tem o tamanho de um linebacker desde a quinta série. Ele tem muitos músculos e é o mais alto de nós. Suas sobrancelhas se erguem no que quase parece respeito.
- Não se isso significa que eu posso pegar garotas como você e jogá-las por cima do meu ombro sem sequer suar a camisa.
Nolan e eu os encaramos. Eu não gosto do tom de flerte em sua voz quando ela fala com Cole, mas Nolan parece chateado por ela não ter medo de nós.
- Você precisa me dar o nome do cirurgião que te consertou, boneca. Ouvi dizer que quando foi levada daqui, você estava uma bagunça. - Nolan provoca.
O olhar de Hailey esfria quando pousa em Nolan. - Deve ser o mesmo cara que fez a vaginoplastia da sua mãe. A julgar pelo tamanho da sua cabeça, ela deve ter sido aberta.
Eu ouço gargalhadas de alguns idiotas na mesa ao lado. O refeitório inteiro está ouvindo essa batalha verbal. Mas isso não me surpreende tanto quanto o fato de Hailey estar ganhando.
- É um prazer tê-la de volta ao campus, Spencer. - a voz de Nolan está perigosamente baixa. - Embora eu esteja surpreso que você tenha voltado aqui depois do que aconteceu da última vez.
- Vamos dar-lhe uma festa de boas-vindas - Lennox retruca, finalmente recuperando a voz, há uma nota de atrevimento em seu tom. - Venha à Phi Omega nos fazer uma visita.
Todos esperamos que ela quebre, mostre algum indício de fraqueza. Não é sempre que os Ômegas fazem de uma pessoa um alvo comum, afinal, ela estragou tudo quando resolveu dar seu pequeno showzinho em nossa festa.
Em vez de responder à ameaça óbvia, Hailey apenas sorri. - Estou pronta quando você estiver, grandão.
Ela se levanta suavemente da mesa, mas não se preocupa em pegar sua bandeja. Ela não deu uma única mordida na salada que comprou, e tenho a impressão de que foi intencional. Ela entrou neste refeitório apenas com o propósito de ser vista.
Hailey quer nossa atenção, mesmo que não faça ideia do porquê.
A imagem da garota frágil no chão da floresta desapareceu quase inteiramente da minha mente. Não consigo conciliar com o que estou vendo agora. A memória ainda está lá, mas sem qualquer emoção anexada. Parece que aconteceu com outra pessoa.
Ela me pega olhando para ela. O leve sorriso em seu rosto se transforma em uma carranca agressiva. - O que diabos você está olhando?
Sacudindo seu rabo de cavalo, ela se afasta antes que eu possa pensar em uma resposta apropriada. Quando eu olho para Lennox, ele tem um olhar em seu rosto que eu reconheço. É o olhar que ele usa quando quer dizer eu avisei, mas sabe que provavelmente vou dar um soco na cara dele se disser em voz alta.
Hailey Spencer quer jogar?
Então que seja.
Mas espero que ela saiba que há apenas um grupo de vencedores aqui.