Depois
O relógio tem tantos números.... Quer estejam ocultos ou visíveis aos nossos olhos. Além da contagem óbvia do um ao doze, temos a contagem das horas que ultrapassa e vai das treze as vinte e quatro horas. E ainda cabem todos aqueles segundos, que ficam pulando de um em um a cada minuto. É tanta coisa dentro de um pequeno objeto, andei pensando.
Tenho um exemplar bem ao lado da cama. Analógico. Ultimamente ando encarando-o muito, pensando nas pequenas coisas que cabem dentro de seu mundo de números.
Ando tendo muito tempo para pensar, e ao mesmo tempo que acho que devo muito fazer isso, tem sido uma grande tortura – assim como ficar observando o relógio.
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Antes
Meu pai morreu muito cedo, quase não consigo me lembrar de como ele era. Sei que era rigoroso e sério, e não tenho na memória nenhum gesto de carinho dele – nem comigo, nem com minha mãe ou irmã. Na verdade, ele parecia um homem meio distante de todos nós, embora sempre estivesse em casa.
Minha mãe, Anna, fala muito sobre ele, mas sempre numa forma de nos repreender de alguma coisa – "seu pai não ficaria feliz com isso" ou "não consigo nem pensar no quanto seu pai ficaria decepcionado com seu comportamento". Não dá para saber quais emoções passam por sua cabeça quando ela fala sobre ele.
Minha irmã, Fátima, é quatorze anos mais velha que eu – o que torna óbvio que fui um acidente no percurso dos meus pais, por mais que minha mãe se negue a falar no assunto. Tudo que ela sabe falar é em como filhos são maravilhosos, a razão de nossas vidas e outras coisas irritantes.
Quando chego da faculdade – onde passo a maior parte das horas do dia -, quase sempre encontro o namorado da minha irmã, Antônio – um sujeito arrogante e metido a sabe tudo -, saindo de casa. Regularmente o clima é estranho, pois ela quer se casar, e o que parece é que ele só está enrolando.
Não sei se os dois conversam, se brigam ou debatem sobre o assunto. Às vezes acho que minha irmã é completamente submissa e espera que ele tome atitude em todos os aspectos da vida deles – o que não vai dar certo porque ele é a pessoa mais egoísta que já conheci.
- Está com fome? – minha mãe pergunta do quarto.
Posso escutar o som de um programa ridículo na televisão – ela só assiste esse tipo de coisa - e ver as luzes projetadas pelo aparelho no quarto escuro.
- Estou. – falo, me sentindo exausto.
Escuto a cama ranger e ela vem andando meio mancando pelo corredor. Parte minha pensa em dizer para ela não se preocupar, que já tenho vinte anos e posso me virar, mas a parte restante ganha dessa mais racional e, como de costume, não penso mais nisso.
Instantes depois já estou comendo em frente ao computador, andando por páginas dos perfis sociais do pessoal da faculdade, observando as fotos da última festa – que eu não fui.
Não sou muito popular porque passo a maior parte dos meus dias estudando. Quase nunca vou a nenhum evento social, não bebo nada com álcool, e não tenho uma aparência atraente. Nunca tive uma namorada, por exemplo, e nenhuma garota parece prestar muita atenção em mim se não for para pedir favores nos estudos.
Essas coisas não são importantes, na realidade. Realmente estou ali para estudar, para conseguir um bom emprego logo e ter dinheiro. Não quero uma mulher me atrapalhando nos meus objetivos.
Me acomodo na cama e olho para o relógio, calculando quantas horas terei para dormir.
Depois
A luz caminhou pelo quarto, então o dia já deve estar no fim. Acabei virando o relógio. Não aguentava mais pensar no tempo preso dentro dos números do relógio - o tempo que geralmente não vemos quando está acontecendo e que se perde junto com tantos outros tempos perdidos, mas que nos perguntamos onde foi parar depois.
Meus dedos buscam o celular. E por mais que eu saiba que ela não quer falar comigo, ainda abro seu contato e olho a sua foto. Eu me lembro dessa foto.
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Antes
- Olhe para mim. – eu digo, sentado no sofá da minha sala, totalmente relaxado.
- O quê? – ela me encara. Seus olhos estão sérios.
É por causa de um assunto que estou empurrando o quanto posso. Quanto drama pode haver numa mulher só?
- Sorria! – exclamo – Você fica mais bonita sorrindo. – incentivo, sorrindo para demonstrar.
Ela sorri. É um sorriso seco e sem graça que não chega aos seus olhos. Eu ignoro e tiro a foto mesmo assim. Coloco como perfil de seu contato no meu celular.
- Viu? – mostro a foto, em sinal da minha razão. Ela mal move os olhos em direção ao aparelho. Eu o guardo, já impaciente. – Pare de ser tão chata, você acaba com o clima de tudo.
- Você me ignorou a semana toda. Você visualizou as mensagens e não respondeu. – diz lentamente.
- Já falei que estudo muito, que fico ocupado. – argumento, minha voz já levantando o tom.
- Tempo para ver você tem, mas não tem para responder?
Levanto, com um suspiro, e saio, deixando-a sozinha com seus pensamentos.
Minha mãe e Fátima estão fazendo uma bagunça na mesa quando entro na cozinha. Todo sábado minha irmã quer fazer algo especial para o "maravilhoso" namorado – eu me pergunto se ela está tentando fisga-lo com isso, porque não vai funcionar, mas decido nem entrar no assunto.
- A princesa não quer nos ajudar? – minha mãe diz como brincadeira, erguendo uma sobrancelha, mas sei que é sério.
- Ela está ocupada. – dou de ombros.
- Ela sempre tem...
- Passa o trigo. – Fátima corta o assunto, estendendo a mão sem paciência.
Posso ver a preocupação em seus olhos, a testa franzida e o rosto vermelho. Minha irmã está usando todas as armas que conhece, mas provavelmente sabe que não vai funcionar outra vez.
- Acho que você está colocando demais. – minha mãe alerta, observando a forma como Fátima joga o trigo com força dentro de uma tigela.
Afasto a fumaça que sobe em nossos olhos enquanto minha irmã solta um gemido de frustração.
- Outra catástrofe! – ela reclama, colocando as mãos nos cabelos, depois se afasta em direção ao seu quarto.
No mesmo momento, minha mãe olha para mim de novo.
- Está vendo o esforço de sua irmã? É assim que se faz.
Reviro os olhos, sem dizer nenhuma palavra, e volto para a sala. Prefiro o silêncio carrancudo de minha namorada do que todas as indiretas que sei que minha mãe é capaz de fazer.
Depois
Escureceu completamente. Eu abri as janelas para deixar o ar entrar – o ar frio de inverno – e bater em meu peito nu. Ou o ar que eu deveria achar frio porque não sinto nada.
Observo a movimentação nas casas vizinhas, as pessoas seguindo suas vidas, suas histórias. Me pergunto se todas elas vivem "a história", se sabem quando ela começou, ou se a deixaram passar sem notar. Ou pior, se notaram apenas quando já havia passado.
É muito fácil se perder em sua rotina e simplesmente deixar "a história" rolar sem se dar conta. Eu sei muito bem disso, o relógio tem me mostrado isso insistentemente, e não importa quanto arrependimento haja – o que foi perdido, já se foi e muitas vezes não há nada para fazer para recuperá-lo.
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Antes
Eu atravesso o pátio da faculdade a passos largos quando esbarro com uma garota que parece meio perdida. Estranhamente, ela olha diretamente na minha direção e dá um sorriso que deve parecer tímido, mas que mais parece um pouco nervoso.
- Oi! – ela diz timidamente.
- Desculpa por isso. – peço, querendo continuar meu caminho.
Ela usa uma calça marrom e uma blusa branca. É bonita, muito bonita, e de um jeito único, mas eu jamais lhe diria isso. Tem um ar jovem, cheio de esperança, e olhos expressivos demais. Nunca a vi por aqui, então deve ser nova na faculdade.
- Não tem problema. – ela balança a cabeça para enfatizar – Oi. – repete, como se estivesse voltando para o roteiro que havia imaginado.
- Oi. – respondo já calculando o tempo que ela vai me tomar, porque preciso ir até a biblioteca estudar o quanto antes.
- Você poderia me indicar para que lado fica a biblioteca?
- Na verdade, estou indo para lá. – fico cheio de alívio, apontando a direção. Imensamente grato pelo meu tempo poupado.
Nós andamos lado a lado, em completo silêncio. Percebo que ela olha tudo com interesse, como se tentasse guardar onde são as coisas, e não se preocupa em conversar. Quando passamos pela porta da biblioteca, ela me agradece e se afasta.
Eu sento na minha mesa de costume e pego minhas coisas, mas minha concentração se foi. Fico vendo o rosto dela na minha mente, os olhos atentos – quase que ingênuos – e o sorriso tímido.
Meus olhos buscam encontrá-la repetidamente e só muito tempo depois percebo que não me apresentei. Não vai fazer mal algum pelo menos dizer o meu nome, não que eu esteja interessado em mais do que isso. Minhas prioridades já estão bem estabelecidas até o final dos estudos, talvez até um pouco depois, e não há espaço para distrações – por mais atraentes que pareçam ser.
- Desculpe. – quando percebo, já estou ao seu lado na mesa – É que eu não havia me apresentado. O meu nome é Felipe. – estendo a mão.
Ela ergue os olhos do livro e sorri.
- O meu é Samela.