PERSONAGENS:
ALQUIMISTA
PROFETISA
PROSTITUTA
RAINHA
PRÍNCIPE
PRINCESA ISABEL
TROVADOR
CAVALEIRO
ESCUDEIRO
PADRE
SACERDOTE
VOZ DESCONHECIDA
CIGANA
BOBO
PRIMEIRA PARTE
PRÓLOGO
ISABEL: Ainda que eu esteja onde não possa bem enxergar, sinto de maneira esperançosa que algo acontecerá para uma outra vida. Uma das mais belíssimas paisagens que uma criatura mortal já viu é o majestoso mover das águas profundas em azul escuro em torno dos mistérios da Ilha francesa de St. Michel, que quase a engole com a braveza do mar.... As vejo tão cheias de energia, como a força que um cavaleiro precisa ter para se levantar das próprias quedas que a existência lhe traz...
O vento soprado passando por nós quase nos transforma em petrificados e dançantes por um instante. O pé na água se enterra sozinho na beira da praia e a neblina trazida com o vento sussurra um som sereno. Passa-me pela mente que não posso tornar uma espada magnífica em preces de violência, nem em instrumento de guerra, que fazem inocentes sangrarem. É então que nada mais gratificante seria fazer o diabo desapossar suas tentações terrenas e voltar ao inferno nevoento. Veja, por favor, minha face lacrimejando e pelo sufoco lhe peço: abençoe-me até o fim dos tempos, sem você eu pereço como um cadáver.
Uma vez quando eu era pequenina vi em torno da Ilha vários cavalos brancos correndo na água à beira do mar e naquele dia soube que herdaria um deles para viver por mim no palácio. Meus pais são falecidos, seus túmulos estão dentro da catedral. [...] Algumas vezes eu pareço ter loucuras que parecem bênçãos: Lembram do passado e só revejo cavalos selvagens correndo nas águas de forma linda até eu ouvir uma lenda: "há muito tempo, após eles terem sido utilizados como instrumentos de guerra e terem caído pela visão quase cega, pereceram na areia e de repente a neve surgiu com uma flor vermelha sangrenta que se esparramou por cima de seus corpos como símbolo de paixão e fúria".
CENA I: A PRINCESA ISABEL
[A princesa Isabel está no castelo Neuschwanstein fazendo teatro com máscaras junto com o bobo-da-corte].
ISABEL: Olhai para seu o reflexo que jamais se funde com o dos outros [...].
BOBO:
O homem precisa descobrir a si mesmo perante a luz divina, mesmo em tempos difíceis...
E são nestes momentos que até o ímpio começa a duvidar de si próprio, considerando que a loucura seja a resposta para aqueles que procuram desvendar certos mistérios...
A magia sempre existira para aqueles que soubessem usá-la com as forças sobrenaturais que a natureza invoca.
O homem assim pode desacreditar em tudo, pode permanecer no caminho do óbvio ou meditar, cada vez mais profundamente, para enxergar além do que os seus olhos podem ver.
Mas a magia só terá significado se o sacrifício do homem não for em vão, se ela servir para encantar ao invés de amaldiçoar.
Há aqueles que enfrentam os males e que, mesmo tristes, são fortes e valentes,
Mas há aqueles que se submergem na melancolia e preferem se tornar uma lenda.
Quem és tu?
ISABEL: Eu sou apenas mais um dos cristais do castelo. Neste lugar sombrio, onde minha pele gela, sinta as lágrimas de angústia escorrerem pela sua face, pois seu único fim é singelo, quando as cordas forem desatadas... O vazio não nos libertou da dor que nos aprisiona.... Deixe a alma voar e respire fundo.... Vou quebrar a porta desta cela, pois aqui as fadas merecem se libertar. Meu rosto desprendido do fúnebre momento deixa meu corpo carregado de tremores até vir a dança da música da morte...
BOBO: Tu vestirás uma série de máscaras e te perguntarás: "onde encontrar a magia para nos envolvermos com a roda das criaturas sobrenaturais?" Pois os algozes brincam de se esconder da própria vergonha...
ISABEL: É possível acreditar na própria imagem? Ou ela está longe demais para ser encarada face-a-face como uma estrela no céu? Foi neste prelúdio e por debaixo da minha pele, que encontrei uma sombra deste mundo real onde não sinto mais o sono dormente que deixa meu corpo lutando um pouco mais pelas danças folclóricas. Vivi diante desta nuvem, e vivo o celestial: o bastante para me curvar pela inocência de uma criança que me espera ao aspirar por um novo céu...
BOBO: Tu precisavas de um cristal puro e asas de borboletas inocentes, para não deixá-las quebradiças ao cair no abismo de um horror agonizante.... Mais vale suspirar por um bosque enfeitiçado por todas as flores do que se deixar desfalecer nos túmulos pelos quais os fungos adormecem cinzentos, sendo coberto por folhas frágeis no outono...
ISABEL: Vamos deitar em algum deles e fingirmos ter corpos fantasmagóricos?
BOBO: Nunca! Jamais! Prefiro revoltar-me em nome do silêncio das montanhas!
ISABEL: Que me rasguem pela insanidade deste quarto úmido, pois mente para mim! [...]. [Pausa]. Oh, perdoe-me pelo drama. Nunca mais usei máscaras... Quero os raios de sol e a chuva sejam libertadores de todos os males.
BOBO: Os pensamentos de deturpação da realidade não condizem com aquilo que eu sou.
ISABEL: Eu sinto muito... Não entendo o motivo dessa dor dentro de mim...
BOBO: Olhe-se bem no seu reflexo... Conhece-te mais... Aqui há um espelho, partido em pedaços com cinzas que, retiram até o brilho dos olhos refletido na superfície... Merecíamos ver paredes descascadas e queimadas [...]. Cada lugar envolve um mistério para descansarmos em paz em meio ao cheiro de rosas...
ISABEL: Acho que o terror desta enfermidade veio recair sobre mim... Esta sala úmida, fria, um quarto cujas paredes destruídas onde as ranhuras do chão estão cobertas por musgos, como em um castelo abandonado: esta se parece com a minha pior doença...
BOBO: Vamos, anima-te! Quero ouvir o teu canto... Poderia teu corpo rodear? As fadas precisam se libertar das correntes para os voos da imaginação, para encontrar dentro do peito, uma ala sublime, onde os humildes quebrantados dançam em uma roda de criaturas mágicas para encontrar os seus nomes perdidos que lhes revelem o Conto de Fadas Gótico.
ISABEL: [Rodeia dançando]. Com passos para mergulhar nos oceanos dos cantos líricos, como uma invocação divina, eis o espírito da natureza!
RAINHA: [Interrompe a encenação]. Seus tolos! Parem já com essas distrações inúteis! Há inimigos espionando o reino lá fora! Em breve poderá surgir uma guerra contra o castelo!
CENA II: A TRISTEZA DE ISABEL
ISABEL: Como pode uma criatura ser tão mundana e se voltar à avareza, à vaidade, à soberba? Como pode considerar arte uma tolice? Uma inutilidade? Fico triste ao presenciar isso, mas vou em frente... As flores murcham um dia, mas outras sementes são jogadas nos campos...
CENA III: AS VISÕES DA PROFETISA
[Diálogo entre profetisa e alquimista]:
PROFETISA: Eu enxergo o destino como visões místicas dos dias brilhantes e nublados: A batalha de Issus. Lá sobre a rocha há um querubim de Deus, só nos observando. Ele tem corpo parecendo com uma escultura de cera, diante da luz do sol. O monte está repleto de cavaleiros e soldados com bandeiras... Parecem em conflito... Então são dias de angústia... [...]. Ó, como é belo o horizonte onde reinam as nuvens do céu! Como são belos o frescor e a brisa do vento, quando ressoam musicalmente para nós! Como a vastidão do universo é infinita e como a vida traz a verdade de um olhar! Sem mais erros, sem mais absurdos, sem mais negligências: esta é a conduta que tanto almejo - a de um ser livre, cheio de inteligência, dotado de genialidade e ao mesmo tempo frenético e astuto. O que podeis dizer sobre a bem-aventurança? A de um coração puro e honesto. A que infere como aquela que traz alegria e a benevolência de uma alma que, às vezes, fere sem razão. Aquela que suplica por piedade, como se nunca antes precisasse... Voz celeste, queira me sussurrar o canto dos profetas! Anjos, queiram orar por mim! Ó, magnitude, quero a grandeza da luz dos astros me guiando.... Por favor, eu suplico por graça!
ALQUIMISTA: A bem-aventurança traz a benção ao homem.... Eu também suplico pela misericórdia divina. Minh 'alma sempre diz: "Ignosce mihi, domine" . Creio que as impurezas deste mundo têm me afetado, mas ao invés de sucumbir ao pecado, cuido para me afastar da tentação maléfica que abomina este reino. Peço ajuda vinda dos céus para descobrir meu destino diante dos corpos supremos, diante de um teto estrelado. O que será que eu posso ler a respeito de sua estrela? Pode descobrir o futuro para mim, cara profetisa?
PROFETISA: Há uma espécie de conflito lá fora. Uma guerra muito pertinente que assola nossas buscas pela verdade. Esta rebelião traz anjos como apologia de seus estudos. O que eu vejo em meu Livro das Revelações, belíssimo em cada página, onde cada ornamento guarda um segredo em silêncio, são as visões místicas de que alguém muito inquieto, cheio de ânsia e angústia, está preocupado com as superstições deste povo que imagina estar por vir o perigo dos cinocéfalos.
ALQUIMISTA: Sim, cinocéfalos. Dizem os guerreiros que se não liberarem as terras para as Cruzadas, serão transformados em seres animalescos, metade cão, metade homem.
PROFETISA: Pois bem, a Terra Santa vos aguarda sem dúvidas. O território o qual tanto aspiram por conquistar é algo que tem deixado o povo constantemente agonizado, com soluços impertinentes, com o coração pesado, com incertezas e dúvidas de que estão prometendo um paraíso em troca de ouro. O povo confunde muitas vezes uma conquista com o céu, a ambição com a desordem, a nobreza com a violência e a indulgência com a chantagem. Isso nos deixa aflitos, como as obscuras tempestades de inverno.
ALQUIMISTA: A conquista da Terra Santa é uma promessa de que tudo ficará bem. E tudo ficará?
PROFETISA: O que prevejo é que muitos morrerão e virão mais pestilências.
ALQUIMISTA: Meu Deus, que horror! Devo continuar meus estudos com fé?
PROFETISA: Acredito a fé ser a razão de existir de muitos...
ALQUIMISTA: Mas e quanto às nossas famílias? O que será de mim? O que eu quero é trabalhar com a química dos metais, de uma forma que traga glória ao corpo celestial. Acredito que todos os meus desenhos de pentagramas, os estudos medicinais sobre as plantas serão um caminho para salvar-nos de qualquer epidemia. Criei antídotos poderosos, são quase como os legendários deuses, que retiram as garras da ignorância e trazem a cura para a sociedade. Eu, talvez, me redimindo à busca incessante pelo novo, daquilo que próprio desconheço, vou desvendando os mistérios possíveis do universo, buscando gravar tudo em folhas de pergaminho, com minhas anotações, guardando o resultado de experiências em vítreos frascos, formando elixires coloridos como os vitrais das catedrais... Uso um pouco de mercúrio e enxofre e faço várias experiências com o ouro e a prata. Quem dera se meus olhos se extasiassem com tanta riqueza!
PROFETISA: Pois eu lhe digo, homem, que as profecias são claras quando o homem é astuto. Cada palavra merece ser bem escolhida antes que lhe tomem a ideia de tamanhas descobertas. Pois bem, o que será deste reino eu mal sei. Só sei que haverá aqueles que de coração justo se salvarão. Meu caro, acredito na sinceridade como a de uma criança, assim como a de uma jovem que me falou que ousar conquistar nova terra para celebrarmos o poder de Cristo é tarefa nobre. Muitos se sentirão injustiçados e carecerão de um pouco de água para saciar sua sede. Muitos perderão suas moradias, pois virão cavaleiros e tirarão todo o pouco arduamente conquistado. Religiões entrarão em conflito, enquanto tudo que procuraste fora uma causa para sacrificar-te pelo sagrado. Creio que devas entrar em jejum durante dias se faltar algo em tua humilde casa, por isso, creio que devas te preparar! Acho também que devas te aprontar para longas jornadas nas quais o sono não vem e é preciso acordar feito gigante das montanhas.
ALQUIMISTA: Se é assim que dizes, acreditarei...
Pelo visto em meu futuro terei que fugir das batalhas sanguinárias deste reino
A crueldade parece vir com toda a sua maldade
Ai de mim!
Ai de mim, pois quero ser salvo ainda!
Ai de mim, pois mal sei o que me aguarda!
Por favor, Cristo, não me deixe perecer antes de cumprir minha missão aqui!
PROFETISA: Com licença, agora vou anunciar a chegada dos anciãos, dos peregrinos. Tenho a visão mística de criaturas magníficas aladas, com asas nas cores ouro e pele negra cintilante carregando o escudo repleto de símbolos de glória da realeza nos céus... Ah, e outra coisa que pode ser útil para dias próximos: é que vejo uma jovem perdida na Floresta Vermelha...