PRÓLOGO
O ano é 1820.
Um casal de lobos deixa sua única filha, uma bebê de seis meses, na roda dos enjeitados do Convento Santo Antônio, no Rio Grande do Norte.
Com o coração sangrando, a mãe retira do pescoço um colar de ouro com um pingente de um lobo uivando para a lua e, ao se despedir, coloca-o na filha.
- Vamos, Frieda, precisamos deixar nossa filha aqui em segurança. Você sabe que podemos ser descobertos neste país. Lembre-se de que fugimos de nossa terra natal, no Reino da Saxônia, forjando a nossa morte - diz Karl, com a voz baixa e tensa.
- Tenho tanta pena de deixá-la, Karl... Não há outra saída? - pergunta Frieda, com lágrimas nos olhos.
Karl compreendia os sentimentos da companheira, mas sabia que não havia alternativa.
- Infelizmente, minha querida, não há outra saída. Precisamos deixar nosso bem mais precioso aqui, e tem que ser agora.
- Malvado seja seu irmão, Ritler! Ele e sua ardilosa companheira eram nossos betas na hierarquia da alcateia e nos traíram!
- Não adianta pensar nisso agora, Frieda. Precisamos proteger nossa filha. Lembre-se do que os anciãos disseram: ela será uma mulher poderosa, a mãe de todos os lobisomens.
Com as mãos trêmulas, Frieda se despede da filha e puxa a alavanca da roda dos enjeitados. Está feito. Sua filha agora pertence ao convento, e ela teme nunca mais vê-la.
- Aqueles lobos velhos... o que eles sabem, afinal? - Frieda murmura. - Eles não previram a traição de Hitler e de sua companheira.
- Sei como se sente - responde Karl. - Desde pequeno, meu irmão gêmeo sempre quis ser alfa. Ficou furioso quando nossos pais nos escolheram para liderar a alcateia da Saxônia. Jamais imaginei que ele nos trairia dessa forma. Ser beta é uma honra, e ainda assim ele se aproveitou disso.
Karl faz uma pausa, olhando para o convento.
- Nossa única esperança é Lira. Quando ela desenvolver seus poderes, poderá salvar o Reino da Saxônia. Até lá, devemos permanecer escondidos, longe de nossa filha.
Frieda concorda com a cabeça. Em seguida, transforma-se em fera, acompanhada por Karl. Ambos deixam o convento, certos de que ali a filha estará segura.
- O que faremos agora? - pergunta Frieda. - Não conhecemos nada neste país, nem falamos a língua.
- Vamos nos ajustar - responde Karl. - Antes de forjar nossa morte, comprei uma pequena terra próxima ao convento, por alguns mil-réis.
Karl sempre acreditou que um alfa sábio deveria ter negócios em várias partes do mundo. Seus contatos com o rei Dom João VI facilitaram a fuga para o Reino Unido de Portugal. Ele escolheu o Rio Grande do Norte como local de exílio para si, sua esposa e, indiretamente, sua filha.
- Assim poderemos ficar próximos de Lira e a salvo da fúria do meu irmão.
Frieda concorda, ainda sentindo o coração apertado. Apesar disso, decide confiar em Karl.
Darei um jeito de ficar perto da minha filha, nem que seja trabalhando como voluntária no convento, pensa.
Vinte anos se passam.
Karl recebe notícias da filha apenas por meio de Frieda, que consegue trabalho voluntário ajudando a cuidar das crianças do convento. Descobre que Lira se se tornou noviça e lhe deram o nome de Candida.
- Será que tornar-se freira a manterá segura? - pergunta-se Karl.
Ambos sentem que os poderes da filha logo se manifestarão. Para Karl, a segurança dela é prioridade absoluta. Contudo, se Lira se tornar freira, jamais poderá salvar o Reino da Saxônia.
CÂNDIDA
Cândida cresceu entre crianças que, como ela, foram enjeitadas e deixadas anonimamente na roda do convento.
Foi encontrada por Lúcia, a madre superiora, que se encantou com a beleza da menina alemã de apenas seis meses, de olhos azuis como o céu.
Lúcia a definiu como um anjo do Senhor e, ao segurá-la nos braços, sentiu que aquela criança seria uma mulher especial.
Embora conhecesse histórias sobre lupinos e lobisomens, Lúcia as considerava apenas folclore, histórias para assustar crianças das famílias riograndenses.
Ainda assim, algo naquela menina era diferente.
Decidida, criou Cândida com carinho, acompanhando de perto sua educação, e jamais a separou do colar com o pingente de lobo que a criança trazia ao ser encontrada. Intuía que aquele objeto era um elo importante com suas origens.
Sem saber seu nome, Lúcia a batizou de Cândida e emocionou-se profundamente durante o batismo.
A jovem cresceu rodeada de amor, chamava a madre superiora de madrinha e nutria um carinho especial por Frieda, a mulher que trabalhava voluntariamente no convento. Todas as crianças gostavam de Frieda, mas Cândida era inseparável dela, sentindo um afeto quase selvagem por sua presença.
Com o passar dos anos, Cândida percebeu que era diferente. Foi Frieda quem a guiou, contando-lhe fábulas sobre alcateias e sobre as peeiras, mulheres poderosas conhecidas como as mães de todos os lobos. Ensinou-a a confiar em seus instintos e no dom especial que habitava dentro dela.
Essas histórias eram contadas em segredo.
Se Lúcia desconfiasse, Frieda poderia ser expulsa do convento e jamais teria contato com a filha.
Por isso, combinaram guardar segredo.
Cândida dedicava-se aos estudos da Bíblia, e Lúcia passou a acreditar que ela se tornaria uma noviça abençoada, talvez uma futura freira e até madre superiora.
Para não contrariar a madrinha, Cândida aceitou estudar, mas recusou-se a cortar os longos cabelos loiros que desciam até a cintura.
- Não acredito que meus cabelos sejam pecado - disse com firmeza. - Posso prendê-los em um coque.
Sem argumentos, Lúcia aceitou.
Frieda soube dos planos da madre e sentiu-se dividida. Sabia que a filha deveria um dia retornar à Saxônia para enfrentar Hitler, mas, por ora, o convento ainda era um local seguro.
A verdade, porém, permanecia oculta.
Aos quinze anos, Cândida foi orientada a tirar o colar de lobo e usar uma corrente com crucifixo. Contrariada, guardou o colar dentro da Bíblia.
Cinco anos se passaram.
Agora com vinte anos, Cândida não desejava se ordenar freira. Seus poderes haviam se manifestado, mas ela os mantinha em segredo, temendo ser acusada de bruxaria.
Decidida, pediu permissão para passar alguns dias na casa de Frieda.
Espero que dê certo. Preciso dos conselhos dela, pensou.
Ao deixar seus aposentos após a oração da manhã, Cândida caminhou em direção à sala da madre superiora. O coração batia acelerado dentro do peito. Nunca havia deixado o convento. Embora estivesse decidida a passar alguns dias na casa de Frieda, o mundo além dos muros sagrados ainda lhe causava um temor desconhecido - um frio que não vinha do corpo, mas da alma.
Ao entrar, ouviu a voz firme de Lúcia:
- O que quer, pequena criança?
Cândida aproximou-se em silêncio e beijou a mão da madrinha, como fizera durante toda a vida.
- Madrinha... - começou, respirando fundo. - Quero lhe pedir permissão para passar alguns dias na casa de Frieda. Se deseja que eu me torne freira, preciso conhecer o mundo fora daqui. Vivi vinte anos entre estas paredes... e não quero pecar diante de Deus escolhendo uma vocação sem certeza.
Lúcia ergueu o olhar, surpresa. Para ela, o mundo exterior era feito apenas de tentações, sofrimento e perdição. Um lugar onde almas se perdiam com facilidade. Ainda assim, Frieda era uma mulher em quem confiava plenamente. E, no fundo do coração, sabia que só quem conheceu o mundo poderia, de fato, renunciar a ele por vocação - como ela própria fizera.
- É um pedido justo - respondeu após alguns instantes. - Deixarei que vá. Mas, ao voltar, deverá se ordenar. No futuro, desejo que se torne madre superiora e cuide das irmãs em meu lugar.
- E se essa não for a minha vocação, madrinha? - Cândida ousou perguntar.
- É justamente por isso que permito sua ida - disse Lúcia com doçura. - Quando vir o que existe lá fora, voltará desejando a vida religiosa. Tenho certeza.
Cândida, porém, já não tinha essa convicção. Aceitara ser noviça por respeito e amor à mulher que a criara desde os seis meses de vida. Ainda assim, algo dentro dela sussurrava que sua missão era maior - e definitivamente não estava confinada àquelas paredes de pedra.
- Chame Frieda - pediu Lúcia. - Quero conversar com ela. Vocês duas têm grande afinidade... ela ficará feliz.
Cândida agradeceu, beijou-lhe novamente a mão e saiu. Ao vê-la partir, Lúcia sentiu um aperto profundo no peito. Um pressentimento silencioso lhe dizia que talvez aquela menina não retornasse jamais.
Quem ama, deixa ir, pensou.
Assim como chegou pela roda dos enjeitados... talvez saia pelos portões para nunca mais voltar.
Quando encontrou Frieda, a mulher percebeu de imediato a alegria estampada no rosto da jovem.
- Deve ser coisa boa - comentou. - Você parece pronta para cantar.
- Venha comigo até a madre e vai saber - respondeu Cândida, sorrindo. - E sei que vai gostar.
Curiosa e contagiada pela animação da filha, Frieda a acompanhou até a sala da madre superiora.
- Frieda - começou Lúcia -, serei direta. Cândida deseja passar alguns dias em sua casa para conhecer o mundo fora do convento e decidir se seguirá ou não a vida religiosa. Concordei com o pedido. E não há pessoa melhor do que você para cuidar dela.
- Aceito, madre - respondeu Frieda, controlando a emoção. - Será um prazer recebê-la.
Por dentro, o coração de Frieda vibrava. Havia segredos que não podiam ser revelados ali. Verdades que, se viessem à tona, colocariam todas em risco. A monarquia de Pedro II jamais poderia saber quem elas realmente eram.
- Então estamos combinadas - disse Lúcia. - Cândida, quando deseja ir?
- Hoje mesmo, madrinha... se for possível.
O coração de Lúcia apertou. Ainda assim, assentiu.
- Vá Frieda, cuide apenas de Cândida. Quanto às crianças, deixe comigo. E, por favor... mantenha as vestes de noviça.
Frieda concordou com um leve aceno de cabeça.
Enquanto Cândida se afastava para arrumar suas poucas coisas, Lúcia sentiu as lágrimas ameaçarem cair. Algo lhe dizia que aquela despedida era maior do que parecia.
O reino da Saxônia estava a salvo.
Por enquanto.