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A perdição do Mafioso

A perdição do Mafioso

Autor:: Gabriela.B
Gênero: Jovem Adulto
Enrico Ferrari é o subchefe da Cosa Nostra. Um homem que traçou o seu destino optando pela vida solitária com mulheres em sua cama sem precisar assumir um compromisso. Pietra Vacchiano, a princesinha da máfia, filha do chefe da Cosa Nostra, sempre nutriu um amor platônico, que ela escondia de todos, pelo subchefe. Enrico viu Pietra crescer e a tem como uma sobrinha, mas ela o ama, ama de todas as formas. O destino acaba fazendo os dois precisarem dividir a mesma casa. A garota, que sempre escondeu os seus desejos pelo subchefe, acaba fazendo eles aflorarem ao provocá-lo. Um romance proibido: ele não pode desejá-la por ser filha do seu chefe e melhor amigo. Ela quer que ele a deseje. Enrico fará de tudo para a garota não o ver como um príncipe, mas parece que a garota ama o errado, o anti-herói. Pietra se tornará a perdição do subchefe da máfia, e, quando ele menos esperar, não conseguirá escapar das teias de sedução em que a garota o colocou. Um dark romance em que o príncipe não existe, e o anti-herói é quem conquista a cena.

Capítulo 1 PRÓLOGO

Enrico Ferrari

- Isso é loucura, ele tem apenas onze anos - ouço

mamãe falando na porta ao lado de onde estou.

O sussurro dela é tão alto que sou capaz de ouvir tudo

pelo outro lado da parede.

Aperto minhas mãos em punhos cerrados ao lado do

corpo.

- Delfina - posso ouvir titio puxar o ar com força - é o

que o garoto quer, pode tirar isso dele agora, o que, na pior das

hipóteses, é a escolha mais errada a se fazer. Com onze anos ele

pode entrar para os treinamentos e conhecer tudo sobre a Cosa

Nostra. Prefere que ele vá sozinho fazer isso, quando for mais

velho?

Um momento de silêncio se instala na casa.

- Del, sabíamos que isso poderia acontecer... - meu pai

tenta falar algo.

- Frank, ele é nosso único filho, como posso entregá-lo a

esse mundo obscuro? Tanto tentei fugir, e agora o meu garotinho

segue o caminho da minha família.

Não sei muito sobre como mamãe veio parar aqui, em uma

área mais afastada da Sicília e casada com um homem comum,

mas a verdade é que eu quero estar no centro, no meio da máfia,

sinto que lá é o meu lugar. Titio Filippo Vacchiano, irmão da minha

mãe, sempre fez questão de falar sobre a Cosa Nostra e me fez ter

ainda mais vontade de estar presente nessa loucura.

- Irmã, o garoto nasceu para fazer parte da Cosa Nostra!

Você sabe que ainda é leal à Cosa Nostra, certo? E entende que o

seu relacionamento foi aprovado com alguém fora da máfia, mas

que sempre seria leal aos nossos? Agora chegou a hora de provar a

sua lealdade.

- Entregar meu menino para a morte? - Posso perceber

que o timbre da voz da minha mãe muda.

Se a intenção deles era me fazer ficar por fora dessa

conversa, estavam redondamente enganados, posso ouvir

tudo. Nem preciso fazer esforço, sentei-me no chão com minhas

costas na parede da casa.

- Não sejamos dramáticos, estou com 38 anos e continuo

vivo... - mamãe corta a frase do meu tio.

- Até quando? Perdemos papai, mamãe definhou,

morrendo aos poucos, e seus dias são uma incógnita. Quando me

apaixonei por Frank, pensei que meus dias nessa maldita máfia

estavam acabados, agora mais essa? Meu filho?

Apenas queria ter controle das minhas próprias ações, mas

como fazer isso com onze anos? Droga!

- Tudo bem, tem razão, vamos adiar então, mas saiba

que está apenas adiando o inevitável, ele virá atrás disso ainda, e,

quando vier, talvez possa ser tarde demais...

Nesse momento me levanto, não posso permitir que

mamãe me prive outra vez de ir junto com meu tio Filippo e, sem

pensar, com passos decididos, empurro a porta que me separa

deles. Dessa forma, minha presença é notada.

- Não, vocês não podem me negar isso, é o que eu quero

- falei sem pestanejar.

- Filho - os olhos vermelhos das lágrimas da minha mãe

se encontram com os meus.

- Eu quero, mãe.

- Como pode saber o que quer? Tem só onze anos - ela

volta a falar.

- Eu sei, quero isso, me deixa ir junto com o titio.

Olho de um para o outro, os três me olham, o silêncio se

faz presente.

Meu tio Filippo é Capo da Cosa Nostra, uma posição

mediana, porém não inferior.

Em uma das minhas visitas ao centro do clã, conheci o

garoto Tommaso. Ele é poucos anos mais velho que eu e me

mostrou como é o seu treinamento. Até me deixou presenciar

alguma das suas ações! Ali eu percebi que era aquilo que

queria. Tommaso tem só quinze anos e já faz tudo isso, eu quero

também.

Sei que tenho algum laço familiar distante com o Don da

Cosa Nostra, o que me faz ter vínculo familiar com o futuro Don,

Tommaso Vacchiano. São gerações de Vacchianos, todos

pertencentes à Cosa Nostra. Meu sobrenome Ferrari não interferirá

em nada disso. Quero ter controle de todas as minhas ações, quero

estar ali, podendo ter o poder da máfia.

- Enrico, querido... - mamãe tenta falar em um último fio

de voz.

- Me deixa ir agora, não quero ir mais tarde.

- Sempre tão decidido. Quando você era menor, eu

amava esse seu lado direto, mas agora vejo que se tornou um

grande empecilho. - Delfina solta o ar com força dos seus

pulmões.

- Irmã, lhe dou a minha palavra, vou cuidar do nosso

garoto... - Filippo volta a argumentar.

- Promete?

- Sim, prometo.

Foi aquele o dia em que meu destino com a Cosa Nostra

foi traçado.

Capítulo 2 Pietra Vacchiano

Olho para o meu reflexo no espelho por longos segundos.

Meus olhos arderam diante do meu devaneio, esqueci até mesmo

de piscá-los.

Solto um longo suspiro amarrando as duas cordinhas da

minha camisa, disfarçando o decote. A calça jeans em cintura baixa

marca a minha barriga.

Viro minhas costas para checar como está minha

aparência.

Estou prestes a ouvir uma longa palestra do meu pai, tudo

porque resolvi largar a faculdade.

Meus saltos ecoaram no chão, saindo do quarto.

Passei pelo corredor, revirando os olhos para os milhões

de quadros dos ancestrais da minha família: os intocáveis

Vacchiano.

Seguro no corrimão da escada e desço um degrau por vez,

sentindo o cheiro do café da manhã impregnado no ar. O calor do

café acalenta meus instintos.

Viro o corredor e entro na sala de café da manhã, onde

vou logo encontrando com os olhos do meu pai. Ele, que segura

uma xícara, arqueia uma sobrancelha na minha direção como se

estivesse esperando um parecer meu, um bom motivo para ter

largado os estudos.

- Bom dia, família - e isso é tudo que eu falo.

- Sente-se aqui, Pietra - papai fala, esticando-se um

pouco e puxando a cadeira ao seu lado.

Contive-me para não revirar os olhos, pois sei que

ninguém vai contra uma ordem de Tommaso Vacchiano, a não ser

minha mãe.

Sentei-me na cadeira de frente para minha mãe, Verena,

dona de lindos cabelos loiros, que são a perdição do Don da Cosa

Nostra.

- Quais são seus planos, filha? - papai deixa a xícara

que estava na sua mão sobre a mesa, me concentro na fumaça que

sai do líquido fumegante.

- Não sei, papai, preciso de planos? - pendo a cabeça

um pouco para o lado e solto meu sorriso que sempre funciona para

deixar Tommaso comovido.

- Planos servem para nos manter focado - Tommaso

segue.

- Posso pesquisar alguns cursos que me interessem...

- Qual era o problema com Design de Moda? - Mamãe

pergunta com sua voz doce.

- Não sei, nunca vou poder atuar nisso - dei um breve

chacoalhar de ombros.

- Quem lhe disse tal atrocidade? É minha filha, pode tudo!

- Papai ergue sua mão, colocando o meu cabelo atrás da orelha.

- Eu sei, eu sei, o problema é que eu quero fazer algo

que seja útil ao nosso clã, não somente ser a esposa de um homem

- murmuro sentindo repulsa disso pelo simples motivo que o único

homem que eu quero nem me vê como mulher.

Papai rosna, minha mãe sorri.

- Por mim, nenhum homem poderia encostar em você. Se

quiser, pode até mesmo envelhecer solteira - ele sempre repete

isso.

Tommaso não pode nem sonhar que não sou mais virgem,

na mente dele sou a imaculada Pietra. Bem, eu fiz dois anos de

faculdade. Foram dois anos podendo dar minhas escapadas e ir a

festas clandestinas. Não me manteria pura para um homem que sei

que não vou amar.

Sou boba? Se algum dia terei que me casar com alguém

que nem ao menos amo, por que vou manter minha virgindade para

ele?

Mamãe sempre me ajudou a esconder minhas escapadas

do meu pai, ela sempre deixou claro que não queria que eu

repetisse os seus passos, em se manter intacta ao meu pai e ser

tratada igual verme quando chegou à casa dele. Foram longos

meses até papai aceitar que ele era somente mais um homem

apaixonado.

- Pai... - bufo erguendo a minha mão para pegar o bule

de café.

- E estou mentindo? Filhas não deveriam se casar -

Tommaso em seu modo protetor chega a ser assustador.

- Lembre-se que tem dois filhos e eles vão precisar se

casar - zombo, lembrando meu pai dos meus irmãos gêmeos.

- Posso abrir exceção para as amadas dele - papai

responde.

- Amadas? - bem nesse momento Valentino entra na

sala.

- Papai deve ter batido a cabeça ao acordar - Santino

entra ao lado.

Ambos vão logo puxando cadeiras para se sentar. Franzo

meu rosto diante do barulho que eles fizeram, já que são típicos

bagunceiros.

- Garotos, por favor, ergam as cadeiras - Verena os

repreende.

- Relaxa, mãe - San fala do seu modo despreocupado.

Pelo menos, com eles ali, papai esquece de me pressionar.

- Tio Enrico já apareceu por aqui? - Valentino pergunta.

- Ainda não - papai responde sem olhar nos olhos do

filho, mantendo a sua atenção em algo no seu celular.

- Deve estar traçando alguma gostosa - Valen murmura

com um sorriso um tanto estranho nos seus lábios, o que me faz

revirar os olhos.

- Valentino Vacchiano, tenha modos! - Mamãe olha de

cara feia para ele.

Até mesmo quando Verena tenta fazer uma das suas

caretas não se torna assustadora. Valentino não falou nada, apenas

se calou. Ele sabe que, se falar, papai dará uma dura nele.

Se tem uma mulher que todos respeitam na Cosa Nostra é

a minha mãe, e, claro, de mim, ninguém chega perto. Sabem o

quanto Tommaso é extremamente possessivo com a única filha

mulher dele, e eu, em muitos momentos, me aproveito dessa

situação.

- Não terminamos a nossa conversa - papai volta a

chamar a minha atenção.

- Prometo que vou pesquisar outros cursos - pisco

algumas vezes e ouço meus irmãos bufarem, pois sabem que eu

tenho muitas táticas para convencer Tommaso.

- Tudo bem - papai finalmente fala em meio ao seu

suspiro - mas enquanto isso não acontece, eu a quero sob os

meus olhos.

Assinto sabendo que os olhos dele se estendem aos da

minha e sabendo que ela sempre encoberta.

Levo minha xícara de café à boca, dando um pequeno

gole. Ao devolvê-la para a mesa, sinto aquele cheiro masculino que

já me fez até mesmo comprar o mesmo perfume e não surtir o

mesmo resultado.

Ao virar o rosto, avisto Enrico Ferrari, o motivo dos meus

sonhos mais impuros. Ah, como eu já me imaginei nos braços dele

de diversas maneiras...

Seu caminhar é decidido e tem olhos esverdeados com

aquele brilho ladino de quem acabou de acordar com uma mulher

em sua cama.

Maldição! Odeio o simples fato de saber que ele

compartilha a cama com diversas mulheres.

- Fala, tio, é hoje que vamos treinar? - San vai logo

falando.

- Sim, seu pai deixou? - Enrico coloca a mão no seu

bolso da calça social.

- Ainda acho isso uma idiotice - Verena bufou - não

podem ter hobbies normais igual a qualquer garoto de 17 anos?

- Isso não tem graça, mãe - Valen responde um tanto

alterado, levantando-se da sua cadeira sem terminar de comer -

imagino que já tenha comido, Enrico. Podemos ir?

- Ele sempre come bem - Santino leva a frase para o

duplo sentido, fazendo mamãe olhar para ele de cara feia.

- Sim, eu já me alimentei. De comida. - ele frisa a última

parte de sua resposta, piscando um olho para Verena, que é como

uma amiga para ele.

Enrico nem ao menos olhou na minha direção desde que

chegou. Estava com a sua atenção em meus irmãos. Os três vão

para a pista de pilotagem, Enrico está ensinando os dois a pilotarem

motos. Porque lidar com armas não é perigo o suficiente, agora

querem viver sobre duas rodas.

Enrico é o subchefe do meu pai, seu braço direito, ambos

são como irmãos, e papai confia nele cegamente. Sabe que o

subchefe nos vê como sobrinhos. O problema é que eu não o vejo

assim. Desde que completei quinze anos, os garotos da minha

idade já eram sem graça para mim, como se não tivessem o brilho

necessário.

Em muitos momentos me vi analisando Enrico, sua

desenvoltura, os primeiros botões da camisa que, às vezes, ele

usava abertos, os cabelos dourados às vezes bagunçados. Ah,

como eu queria ser a pessoa que bagunça o cabelo dele!

Mas a nossa idade sempre será o muro que nos divide, e o

fato dele me ver como uma sobrinha torna o muro maior ainda.

Solto um longo suspiro e viro meus olhos para frente

encontrando os olhos da minha mãe na minha direção, recebendo

um chute de baixo da mesa que me fez morder o lábio com força.

Arregalo meus olhos para ela, e Verena deixa explícito no

seu olhar que eu precisava disfarçar mais, ou, então, papai

perceberia.

- Pai? - Valentino chama.

- Sim, já estou indo - ele se levanta da sua cadeira -

mas, lembrem-se, é apenas no período da manhã. Enrico e eu

temos muito para resolver à tarde, e vocês dois vão participar.

- Espero que tenhamos ação - Valem esfrega uma mão

na outra.

Tommaso se abaixa na direção da minha mãe, segurando

no queixo dela, e dá um selinho de despedida. Ele nunca foi de

disfarçar seu amor por ela, o que me faz revirar os olhos.

Enquanto os homens saem da sala, fico olhando para as

costas do subchefe que estava ao lado do meu pai.

- Precisa disfarçar mais, Pietra - mamãe me chama.

- Papai nunca vai perceber...

- Seus irmãos também nunca iriam perceber e

perceberam. Você sabe que os dois agem sempre no impulso e

podem acabar falando sem querer.

- Nada vai acontecer, afinal, Enrico ainda me olha como

se eu tivesse dois anos - murmurei desanimada.

- Precisa entender que ele tem idade para ser seu pai.

Ali estava o maior empecilho.

- Relaxa, mãe...

- Só vou relaxar quando vê-la de vestido branco se

casando, assim terei completa certeza de que seu pai nunca vai

descobrir o seu amor pelo subchefe.

- Prefiro morrer solteira a me casar com um homem que,

com certeza, babará o ovo do meu pai. Enquanto isso, sigo

enrolando.

- O que me faz lembrar que precisamos decidir sobre a

sua faculdade - Verena volta a focar no assunto.

- Podemos dar uma volta no shopping enquanto

conversamos sobre isso, o que acha?

- Pietra, Pietra, é uma bela trapaceira - mamãe sorri.

Nossa relação sempre foi muito maleável, além de mãe e

filha, somos ótimas amigas.

Capítulo 3 Enrico Ferrari

Pendo minha cabeça para o lado e torço minha boca ao

ver a curva desajeitada que Valentino fez.

- Ah, garoto... - murmuro para mim mesmo.

- Nem todo mundo tem a sua praticidade para andar

sobre duas rodas - Tommaso declara ao meu lado, ouvindo o meu

suspiro.

- Se ele não se deitar mais na curva, nunca vai fazer com

precisão.

Estamos em uma via pouco movimentada, a pista de moto

estava muito longe e não queríamos perder uma hora de treino no

caminho até lá.

Chegando aqui cada um passou o comando da moto para

os garotos. Tommaso deu a dele ao filho, enquanto eu dei a minha

para o outro menino. As motos já são deles, mas Tommaso ainda

não tem confiança em deixar os filhos pilotarem sozinhos.

As árvores se movem ao nosso redor, denunciando que

em breve poderíamos ter uma das poucas chuvas que temos no

verão: a maldita chuva vinda do mar Mediterrâneo.

- Temos que ir logo - Tommaso olha para o céu e

imagina o mesmo que eu.

- Ainda vai demorar para chover - murmuro, com a mão

em meu bolso da calça.

- E por um acaso virou meteorologista agora? - meu

amigo zomba.

Descendo um pouco o morro, estavam dois carros. Eram

soldados que protegiam o Don da Cosa Nostra, seus filhos e a mim.

Um Subchefe da máfia nunca fica à frente do perigo, assim

como o Don, somos a peça principal.

O ronco da moto de Santino vai se fazendo mais presente

até ele pará-la na nossa frente.

O moleque tira seu capacete, revelando um dos seus

sorrisos zombeteiros, uma característica herdada de seu pai.

- E aí? Sou melhor que Valentino? Sim ou claro? -

Esses garotos viviam em competição constante.

- Você é convencido, o que tem uma grande diferença -

zombo, caminhando na direção dele, disfarçando ao dar um soco

em seu braço, em meio à brincadeira, vendo-o reclamar de dor.

- Porra, tio Enrico, tem a mão pesada - Por trás da mãe,

eles falam o vocabulário que aprenderam com o pai.

- Muito exercício - deixo um sorriso escapar.

- Sim, imagino os seus exercícios - Santino revira os

olhos, esfregando o ombro - onde está o Valen?

- Voltou a subir a curva - aponto com a cabeça vendo a

moto do outro moleque fazer a curva.

Ele fez a manobra com precisão, mas cometeu o mesmo

erro. Se ele quer adquirir mais estabilidade em uma curva, precisa

deitar mais a moto dele.

- Cometendo o mesmo erro - o pai deles murmura.

- O bunda frouxa ao invés de deitar mais a moto dele -

Santino declara orgulhoso, como se entendesse do assunto.

- O que você entende? Está cometendo o mesmo erro

que o dele - retruco o moleque - vocês dois estão tendo a

impressão de que estão fazendo certo, mas não estão.

Balanço minha cabeça. Tommaso sempre me deu total

liberdade com seus filhos, e, como sou padrinho dos gêmeos, tenho

abertura para lhes puxar a orelha quando é conveniente.

Talvez os filhos de Tommaso sejam o que terei mais

próximo de filho.

Eu vi os três crescerem e daria minha vida por cada um

deles. Até mesmo por Pietra, que, desde que se tornara mocinha,

passou a se manter mais distante de mim.

Agora ela já é uma mulher, não a mesma menininha que

eu pegava em meu colo e que adorava que eu brincasse de avião

com ela. Seus gostos mudaram, e os assuntos também. Tenho uma

boa relação com Pietra ainda, mas em nada se compara com os

irmãos dela. A liberdade que tenho com os gêmeos é mais forte.

Pela garota eu sinto um carinho, talvez algo entre pai e

filha? Sei lá, eu nunca tive uma filha para saber o que é isso. E

nunca vou ter.

Meu destino é morrer sozinho, assim como meu tio Fillipo.

Uma morte rápida e solitária e um longo legado de histórias na Cosa

Nostra.

O ronco da moto de Valentino vai se tornando mais lento

conforme ele se aproxima, balançando a cabeça. Ele para ao lado

do irmão, tirando o seu capacete.

- Mas que caralho, não estou conseguindo fazer essa

maldita curva - ele praguejou mil palavrões. Se Verena estivesse

aqui nesse momento, mandaria o filho morder a língua.

A forma como Valentino não desiste dos seus objetivos

deixa claro que ele será um bom Don caso ele herde a Cosa Nostra

em algum momento da sua vida.

- Estou percebendo que os dois estão fraquejando -

olho de um para o outro.

- Qual a dica tio? - Santino pergunta.

- Não tem dica, apenas prática.

Tommaso não é muito fã de motos, está apenas nos

acompanhando. A verdade é que dificilmente o Don pilota motos.

Essa sempre foi a minha praia, o meu passatempo depois que o

chefe da máfia se casou e tornou a sua esposa o seu passatempo.

Posso ter a mulher que quero todas as noites em minha

cama, mas isso é apenas algo corporal, não existe ligação. Durante

o dia não gosto de ninguém rondando a minha casa, muito menos

pernas femininas caminhando em meu assoalho.

Não gosto de precisar conversar com mulheres, muitas

vezes suas vozes me irritam, aquele timbre feminino me deixa

inquieto, por isso apenas as uso, meu prazer em troca dos dela, e,

assim, todos saem felizes.

- Vem, Valentino, vou pilotar a sua moto, fique na minha

garupa e verá o que é fazer uma curva - pego o meu capacete no

chão.

- Podemos deixar isso para outro momento? - Tommaso

pede, coçando a barba, sabendo que gostaria de estar em seu

escritório fechando outro negócio ilícito.

- Só mais essa tentativa e podemos ir, pai - Valen pede

animado.

O pai suspira confirmando. O garoto pula para o banco de

trás conforme me sento à sua frente.

Dou a partida na BMW M1000 RR, das duas, essa é a

mais potente. Pode deixar apenas o rastro de pó na rua.

Acelero subindo o morro fazendo a curva fechada,

praticamente encostando o meu joelho no asfalto da rua. No banco

traseiro Valentino dá um grito de satisfação.

- Porra, tio! - ele gritou admirado.

Vamos até o topo, dou a volta e refaço o percurso

descendo o morro. A curva é fechada e não podemos ver o que vem

no sentido oposto.

Tomo uma velocidade alta para fazer o ponteiro lamber o

último número do painel.

Um sorriso se faz presente em meus lábios. Essa

adrenalina aquece a minha alma e revigora meus instintos.

Faço a curva pronto para fazer tudo certo e ensinar ao

garoto que está atrás da moto sentado. Isso até ver um caminhão

vindo na nossa direção. Estou rápido demais para parar, ou até

mesmo frear.

Mas que porra!!! É tudo o que eu penso até agir e jogar a

moto contra o gramado, fazendo ela perder o rumo e descer o morro

curto.

Valentino não grita, não emite som algum, e, nesse

momento, só penso em salvar a vida dele.

Vendo que a moto em breve se chocará em alguma árvore,

aviso:

- Se agarre a mim! - berro e sinto os braços dele em

minha cintura, o que é o suficiente para me jogar e fazer do meu

corpo um escudo para proteger a vida do moleque.

Tudo parece acontecer em câmera lenta, e, de todas as

mortes que planejei para mim, de longe essa nem se passou na

minha cabeça.

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