Enrico Ferrari
- Isso é loucura, ele tem apenas onze anos - ouço
mamãe falando na porta ao lado de onde estou.
O sussurro dela é tão alto que sou capaz de ouvir tudo
pelo outro lado da parede.
Aperto minhas mãos em punhos cerrados ao lado do
corpo.
- Delfina - posso ouvir titio puxar o ar com força - é o
que o garoto quer, pode tirar isso dele agora, o que, na pior das
hipóteses, é a escolha mais errada a se fazer. Com onze anos ele
pode entrar para os treinamentos e conhecer tudo sobre a Cosa
Nostra. Prefere que ele vá sozinho fazer isso, quando for mais
velho?
Um momento de silêncio se instala na casa.
- Del, sabíamos que isso poderia acontecer... - meu pai
tenta falar algo.
- Frank, ele é nosso único filho, como posso entregá-lo a
esse mundo obscuro? Tanto tentei fugir, e agora o meu garotinho
segue o caminho da minha família.
Não sei muito sobre como mamãe veio parar aqui, em uma
área mais afastada da Sicília e casada com um homem comum,
mas a verdade é que eu quero estar no centro, no meio da máfia,
sinto que lá é o meu lugar. Titio Filippo Vacchiano, irmão da minha
mãe, sempre fez questão de falar sobre a Cosa Nostra e me fez ter
ainda mais vontade de estar presente nessa loucura.
- Irmã, o garoto nasceu para fazer parte da Cosa Nostra!
Você sabe que ainda é leal à Cosa Nostra, certo? E entende que o
seu relacionamento foi aprovado com alguém fora da máfia, mas
que sempre seria leal aos nossos? Agora chegou a hora de provar a
sua lealdade.
- Entregar meu menino para a morte? - Posso perceber
que o timbre da voz da minha mãe muda.
Se a intenção deles era me fazer ficar por fora dessa
conversa, estavam redondamente enganados, posso ouvir
tudo. Nem preciso fazer esforço, sentei-me no chão com minhas
costas na parede da casa.
- Não sejamos dramáticos, estou com 38 anos e continuo
vivo... - mamãe corta a frase do meu tio.
- Até quando? Perdemos papai, mamãe definhou,
morrendo aos poucos, e seus dias são uma incógnita. Quando me
apaixonei por Frank, pensei que meus dias nessa maldita máfia
estavam acabados, agora mais essa? Meu filho?
Apenas queria ter controle das minhas próprias ações, mas
como fazer isso com onze anos? Droga!
- Tudo bem, tem razão, vamos adiar então, mas saiba
que está apenas adiando o inevitável, ele virá atrás disso ainda, e,
quando vier, talvez possa ser tarde demais...
Nesse momento me levanto, não posso permitir que
mamãe me prive outra vez de ir junto com meu tio Filippo e, sem
pensar, com passos decididos, empurro a porta que me separa
deles. Dessa forma, minha presença é notada.
- Não, vocês não podem me negar isso, é o que eu quero
- falei sem pestanejar.
- Filho - os olhos vermelhos das lágrimas da minha mãe
se encontram com os meus.
- Eu quero, mãe.
- Como pode saber o que quer? Tem só onze anos - ela
volta a falar.
- Eu sei, quero isso, me deixa ir junto com o titio.
Olho de um para o outro, os três me olham, o silêncio se
faz presente.
Meu tio Filippo é Capo da Cosa Nostra, uma posição
mediana, porém não inferior.
Em uma das minhas visitas ao centro do clã, conheci o
garoto Tommaso. Ele é poucos anos mais velho que eu e me
mostrou como é o seu treinamento. Até me deixou presenciar
alguma das suas ações! Ali eu percebi que era aquilo que
queria. Tommaso tem só quinze anos e já faz tudo isso, eu quero
também.
Sei que tenho algum laço familiar distante com o Don da
Cosa Nostra, o que me faz ter vínculo familiar com o futuro Don,
Tommaso Vacchiano. São gerações de Vacchianos, todos
pertencentes à Cosa Nostra. Meu sobrenome Ferrari não interferirá
em nada disso. Quero ter controle de todas as minhas ações, quero
estar ali, podendo ter o poder da máfia.
- Enrico, querido... - mamãe tenta falar em um último fio
de voz.
- Me deixa ir agora, não quero ir mais tarde.
- Sempre tão decidido. Quando você era menor, eu
amava esse seu lado direto, mas agora vejo que se tornou um
grande empecilho. - Delfina solta o ar com força dos seus
pulmões.
- Irmã, lhe dou a minha palavra, vou cuidar do nosso
garoto... - Filippo volta a argumentar.
- Promete?
- Sim, prometo.
Foi aquele o dia em que meu destino com a Cosa Nostra
foi traçado.
Olho para o meu reflexo no espelho por longos segundos.
Meus olhos arderam diante do meu devaneio, esqueci até mesmo
de piscá-los.
Solto um longo suspiro amarrando as duas cordinhas da
minha camisa, disfarçando o decote. A calça jeans em cintura baixa
marca a minha barriga.
Viro minhas costas para checar como está minha
aparência.
Estou prestes a ouvir uma longa palestra do meu pai, tudo
porque resolvi largar a faculdade.
Meus saltos ecoaram no chão, saindo do quarto.
Passei pelo corredor, revirando os olhos para os milhões
de quadros dos ancestrais da minha família: os intocáveis
Vacchiano.
Seguro no corrimão da escada e desço um degrau por vez,
sentindo o cheiro do café da manhã impregnado no ar. O calor do
café acalenta meus instintos.
Viro o corredor e entro na sala de café da manhã, onde
vou logo encontrando com os olhos do meu pai. Ele, que segura
uma xícara, arqueia uma sobrancelha na minha direção como se
estivesse esperando um parecer meu, um bom motivo para ter
largado os estudos.
- Bom dia, família - e isso é tudo que eu falo.
- Sente-se aqui, Pietra - papai fala, esticando-se um
pouco e puxando a cadeira ao seu lado.
Contive-me para não revirar os olhos, pois sei que
ninguém vai contra uma ordem de Tommaso Vacchiano, a não ser
minha mãe.
Sentei-me na cadeira de frente para minha mãe, Verena,
dona de lindos cabelos loiros, que são a perdição do Don da Cosa
Nostra.
- Quais são seus planos, filha? - papai deixa a xícara
que estava na sua mão sobre a mesa, me concentro na fumaça que
sai do líquido fumegante.
- Não sei, papai, preciso de planos? - pendo a cabeça
um pouco para o lado e solto meu sorriso que sempre funciona para
deixar Tommaso comovido.
- Planos servem para nos manter focado - Tommaso
segue.
- Posso pesquisar alguns cursos que me interessem...
- Qual era o problema com Design de Moda? - Mamãe
pergunta com sua voz doce.
- Não sei, nunca vou poder atuar nisso - dei um breve
chacoalhar de ombros.
- Quem lhe disse tal atrocidade? É minha filha, pode tudo!
- Papai ergue sua mão, colocando o meu cabelo atrás da orelha.
- Eu sei, eu sei, o problema é que eu quero fazer algo
que seja útil ao nosso clã, não somente ser a esposa de um homem
- murmuro sentindo repulsa disso pelo simples motivo que o único
homem que eu quero nem me vê como mulher.
Papai rosna, minha mãe sorri.
- Por mim, nenhum homem poderia encostar em você. Se
quiser, pode até mesmo envelhecer solteira - ele sempre repete
isso.
Tommaso não pode nem sonhar que não sou mais virgem,
na mente dele sou a imaculada Pietra. Bem, eu fiz dois anos de
faculdade. Foram dois anos podendo dar minhas escapadas e ir a
festas clandestinas. Não me manteria pura para um homem que sei
que não vou amar.
Sou boba? Se algum dia terei que me casar com alguém
que nem ao menos amo, por que vou manter minha virgindade para
ele?
Mamãe sempre me ajudou a esconder minhas escapadas
do meu pai, ela sempre deixou claro que não queria que eu
repetisse os seus passos, em se manter intacta ao meu pai e ser
tratada igual verme quando chegou à casa dele. Foram longos
meses até papai aceitar que ele era somente mais um homem
apaixonado.
- Pai... - bufo erguendo a minha mão para pegar o bule
de café.
- E estou mentindo? Filhas não deveriam se casar -
Tommaso em seu modo protetor chega a ser assustador.
- Lembre-se que tem dois filhos e eles vão precisar se
casar - zombo, lembrando meu pai dos meus irmãos gêmeos.
- Posso abrir exceção para as amadas dele - papai
responde.
- Amadas? - bem nesse momento Valentino entra na
sala.
- Papai deve ter batido a cabeça ao acordar - Santino
entra ao lado.
Ambos vão logo puxando cadeiras para se sentar. Franzo
meu rosto diante do barulho que eles fizeram, já que são típicos
bagunceiros.
- Garotos, por favor, ergam as cadeiras - Verena os
repreende.
- Relaxa, mãe - San fala do seu modo despreocupado.
Pelo menos, com eles ali, papai esquece de me pressionar.
- Tio Enrico já apareceu por aqui? - Valentino pergunta.
- Ainda não - papai responde sem olhar nos olhos do
filho, mantendo a sua atenção em algo no seu celular.
- Deve estar traçando alguma gostosa - Valen murmura
com um sorriso um tanto estranho nos seus lábios, o que me faz
revirar os olhos.
- Valentino Vacchiano, tenha modos! - Mamãe olha de
cara feia para ele.
Até mesmo quando Verena tenta fazer uma das suas
caretas não se torna assustadora. Valentino não falou nada, apenas
se calou. Ele sabe que, se falar, papai dará uma dura nele.
Se tem uma mulher que todos respeitam na Cosa Nostra é
a minha mãe, e, claro, de mim, ninguém chega perto. Sabem o
quanto Tommaso é extremamente possessivo com a única filha
mulher dele, e eu, em muitos momentos, me aproveito dessa
situação.
- Não terminamos a nossa conversa - papai volta a
chamar a minha atenção.
- Prometo que vou pesquisar outros cursos - pisco
algumas vezes e ouço meus irmãos bufarem, pois sabem que eu
tenho muitas táticas para convencer Tommaso.
- Tudo bem - papai finalmente fala em meio ao seu
suspiro - mas enquanto isso não acontece, eu a quero sob os
meus olhos.
Assinto sabendo que os olhos dele se estendem aos da
minha e sabendo que ela sempre encoberta.
Levo minha xícara de café à boca, dando um pequeno
gole. Ao devolvê-la para a mesa, sinto aquele cheiro masculino que
já me fez até mesmo comprar o mesmo perfume e não surtir o
mesmo resultado.
Ao virar o rosto, avisto Enrico Ferrari, o motivo dos meus
sonhos mais impuros. Ah, como eu já me imaginei nos braços dele
de diversas maneiras...
Seu caminhar é decidido e tem olhos esverdeados com
aquele brilho ladino de quem acabou de acordar com uma mulher
em sua cama.
Maldição! Odeio o simples fato de saber que ele
compartilha a cama com diversas mulheres.
- Fala, tio, é hoje que vamos treinar? - San vai logo
falando.
- Sim, seu pai deixou? - Enrico coloca a mão no seu
bolso da calça social.
- Ainda acho isso uma idiotice - Verena bufou - não
podem ter hobbies normais igual a qualquer garoto de 17 anos?
- Isso não tem graça, mãe - Valen responde um tanto
alterado, levantando-se da sua cadeira sem terminar de comer -
imagino que já tenha comido, Enrico. Podemos ir?
- Ele sempre come bem - Santino leva a frase para o
duplo sentido, fazendo mamãe olhar para ele de cara feia.
- Sim, eu já me alimentei. De comida. - ele frisa a última
parte de sua resposta, piscando um olho para Verena, que é como
uma amiga para ele.
Enrico nem ao menos olhou na minha direção desde que
chegou. Estava com a sua atenção em meus irmãos. Os três vão
para a pista de pilotagem, Enrico está ensinando os dois a pilotarem
motos. Porque lidar com armas não é perigo o suficiente, agora
querem viver sobre duas rodas.
Enrico é o subchefe do meu pai, seu braço direito, ambos
são como irmãos, e papai confia nele cegamente. Sabe que o
subchefe nos vê como sobrinhos. O problema é que eu não o vejo
assim. Desde que completei quinze anos, os garotos da minha
idade já eram sem graça para mim, como se não tivessem o brilho
necessário.
Em muitos momentos me vi analisando Enrico, sua
desenvoltura, os primeiros botões da camisa que, às vezes, ele
usava abertos, os cabelos dourados às vezes bagunçados. Ah,
como eu queria ser a pessoa que bagunça o cabelo dele!
Mas a nossa idade sempre será o muro que nos divide, e o
fato dele me ver como uma sobrinha torna o muro maior ainda.
Solto um longo suspiro e viro meus olhos para frente
encontrando os olhos da minha mãe na minha direção, recebendo
um chute de baixo da mesa que me fez morder o lábio com força.
Arregalo meus olhos para ela, e Verena deixa explícito no
seu olhar que eu precisava disfarçar mais, ou, então, papai
perceberia.
- Pai? - Valentino chama.
- Sim, já estou indo - ele se levanta da sua cadeira -
mas, lembrem-se, é apenas no período da manhã. Enrico e eu
temos muito para resolver à tarde, e vocês dois vão participar.
- Espero que tenhamos ação - Valem esfrega uma mão
na outra.
Tommaso se abaixa na direção da minha mãe, segurando
no queixo dela, e dá um selinho de despedida. Ele nunca foi de
disfarçar seu amor por ela, o que me faz revirar os olhos.
Enquanto os homens saem da sala, fico olhando para as
costas do subchefe que estava ao lado do meu pai.
- Precisa disfarçar mais, Pietra - mamãe me chama.
- Papai nunca vai perceber...
- Seus irmãos também nunca iriam perceber e
perceberam. Você sabe que os dois agem sempre no impulso e
podem acabar falando sem querer.
- Nada vai acontecer, afinal, Enrico ainda me olha como
se eu tivesse dois anos - murmurei desanimada.
- Precisa entender que ele tem idade para ser seu pai.
Ali estava o maior empecilho.
- Relaxa, mãe...
- Só vou relaxar quando vê-la de vestido branco se
casando, assim terei completa certeza de que seu pai nunca vai
descobrir o seu amor pelo subchefe.
- Prefiro morrer solteira a me casar com um homem que,
com certeza, babará o ovo do meu pai. Enquanto isso, sigo
enrolando.
- O que me faz lembrar que precisamos decidir sobre a
sua faculdade - Verena volta a focar no assunto.
- Podemos dar uma volta no shopping enquanto
conversamos sobre isso, o que acha?
- Pietra, Pietra, é uma bela trapaceira - mamãe sorri.
Nossa relação sempre foi muito maleável, além de mãe e
filha, somos ótimas amigas.
Pendo minha cabeça para o lado e torço minha boca ao
ver a curva desajeitada que Valentino fez.
- Ah, garoto... - murmuro para mim mesmo.
- Nem todo mundo tem a sua praticidade para andar
sobre duas rodas - Tommaso declara ao meu lado, ouvindo o meu
suspiro.
- Se ele não se deitar mais na curva, nunca vai fazer com
precisão.
Estamos em uma via pouco movimentada, a pista de moto
estava muito longe e não queríamos perder uma hora de treino no
caminho até lá.
Chegando aqui cada um passou o comando da moto para
os garotos. Tommaso deu a dele ao filho, enquanto eu dei a minha
para o outro menino. As motos já são deles, mas Tommaso ainda
não tem confiança em deixar os filhos pilotarem sozinhos.
As árvores se movem ao nosso redor, denunciando que
em breve poderíamos ter uma das poucas chuvas que temos no
verão: a maldita chuva vinda do mar Mediterrâneo.
- Temos que ir logo - Tommaso olha para o céu e
imagina o mesmo que eu.
- Ainda vai demorar para chover - murmuro, com a mão
em meu bolso da calça.
- E por um acaso virou meteorologista agora? - meu
amigo zomba.
Descendo um pouco o morro, estavam dois carros. Eram
soldados que protegiam o Don da Cosa Nostra, seus filhos e a mim.
Um Subchefe da máfia nunca fica à frente do perigo, assim
como o Don, somos a peça principal.
O ronco da moto de Santino vai se fazendo mais presente
até ele pará-la na nossa frente.
O moleque tira seu capacete, revelando um dos seus
sorrisos zombeteiros, uma característica herdada de seu pai.
- E aí? Sou melhor que Valentino? Sim ou claro? -
Esses garotos viviam em competição constante.
- Você é convencido, o que tem uma grande diferença -
zombo, caminhando na direção dele, disfarçando ao dar um soco
em seu braço, em meio à brincadeira, vendo-o reclamar de dor.
- Porra, tio Enrico, tem a mão pesada - Por trás da mãe,
eles falam o vocabulário que aprenderam com o pai.
- Muito exercício - deixo um sorriso escapar.
- Sim, imagino os seus exercícios - Santino revira os
olhos, esfregando o ombro - onde está o Valen?
- Voltou a subir a curva - aponto com a cabeça vendo a
moto do outro moleque fazer a curva.
Ele fez a manobra com precisão, mas cometeu o mesmo
erro. Se ele quer adquirir mais estabilidade em uma curva, precisa
deitar mais a moto dele.
- Cometendo o mesmo erro - o pai deles murmura.
- O bunda frouxa ao invés de deitar mais a moto dele -
Santino declara orgulhoso, como se entendesse do assunto.
- O que você entende? Está cometendo o mesmo erro
que o dele - retruco o moleque - vocês dois estão tendo a
impressão de que estão fazendo certo, mas não estão.
Balanço minha cabeça. Tommaso sempre me deu total
liberdade com seus filhos, e, como sou padrinho dos gêmeos, tenho
abertura para lhes puxar a orelha quando é conveniente.
Talvez os filhos de Tommaso sejam o que terei mais
próximo de filho.
Eu vi os três crescerem e daria minha vida por cada um
deles. Até mesmo por Pietra, que, desde que se tornara mocinha,
passou a se manter mais distante de mim.
Agora ela já é uma mulher, não a mesma menininha que
eu pegava em meu colo e que adorava que eu brincasse de avião
com ela. Seus gostos mudaram, e os assuntos também. Tenho uma
boa relação com Pietra ainda, mas em nada se compara com os
irmãos dela. A liberdade que tenho com os gêmeos é mais forte.
Pela garota eu sinto um carinho, talvez algo entre pai e
filha? Sei lá, eu nunca tive uma filha para saber o que é isso. E
nunca vou ter.
Meu destino é morrer sozinho, assim como meu tio Fillipo.
Uma morte rápida e solitária e um longo legado de histórias na Cosa
Nostra.
O ronco da moto de Valentino vai se tornando mais lento
conforme ele se aproxima, balançando a cabeça. Ele para ao lado
do irmão, tirando o seu capacete.
- Mas que caralho, não estou conseguindo fazer essa
maldita curva - ele praguejou mil palavrões. Se Verena estivesse
aqui nesse momento, mandaria o filho morder a língua.
A forma como Valentino não desiste dos seus objetivos
deixa claro que ele será um bom Don caso ele herde a Cosa Nostra
em algum momento da sua vida.
- Estou percebendo que os dois estão fraquejando -
olho de um para o outro.
- Qual a dica tio? - Santino pergunta.
- Não tem dica, apenas prática.
Tommaso não é muito fã de motos, está apenas nos
acompanhando. A verdade é que dificilmente o Don pilota motos.
Essa sempre foi a minha praia, o meu passatempo depois que o
chefe da máfia se casou e tornou a sua esposa o seu passatempo.
Posso ter a mulher que quero todas as noites em minha
cama, mas isso é apenas algo corporal, não existe ligação. Durante
o dia não gosto de ninguém rondando a minha casa, muito menos
pernas femininas caminhando em meu assoalho.
Não gosto de precisar conversar com mulheres, muitas
vezes suas vozes me irritam, aquele timbre feminino me deixa
inquieto, por isso apenas as uso, meu prazer em troca dos dela, e,
assim, todos saem felizes.
- Vem, Valentino, vou pilotar a sua moto, fique na minha
garupa e verá o que é fazer uma curva - pego o meu capacete no
chão.
- Podemos deixar isso para outro momento? - Tommaso
pede, coçando a barba, sabendo que gostaria de estar em seu
escritório fechando outro negócio ilícito.
- Só mais essa tentativa e podemos ir, pai - Valen pede
animado.
O pai suspira confirmando. O garoto pula para o banco de
trás conforme me sento à sua frente.
Dou a partida na BMW M1000 RR, das duas, essa é a
mais potente. Pode deixar apenas o rastro de pó na rua.
Acelero subindo o morro fazendo a curva fechada,
praticamente encostando o meu joelho no asfalto da rua. No banco
traseiro Valentino dá um grito de satisfação.
- Porra, tio! - ele gritou admirado.
Vamos até o topo, dou a volta e refaço o percurso
descendo o morro. A curva é fechada e não podemos ver o que vem
no sentido oposto.
Tomo uma velocidade alta para fazer o ponteiro lamber o
último número do painel.
Um sorriso se faz presente em meus lábios. Essa
adrenalina aquece a minha alma e revigora meus instintos.
Faço a curva pronto para fazer tudo certo e ensinar ao
garoto que está atrás da moto sentado. Isso até ver um caminhão
vindo na nossa direção. Estou rápido demais para parar, ou até
mesmo frear.
Mas que porra!!! É tudo o que eu penso até agir e jogar a
moto contra o gramado, fazendo ela perder o rumo e descer o morro
curto.
Valentino não grita, não emite som algum, e, nesse
momento, só penso em salvar a vida dele.
Vendo que a moto em breve se chocará em alguma árvore,
aviso:
- Se agarre a mim! - berro e sinto os braços dele em
minha cintura, o que é o suficiente para me jogar e fazer do meu
corpo um escudo para proteger a vida do moleque.
Tudo parece acontecer em câmera lenta, e, de todas as
mortes que planejei para mim, de longe essa nem se passou na
minha cabeça.