Rose
Meu olhar estava fixo na série de peças de xadrez apoiadas em um aparador ao lado do meu cavalete de desenho enquanto minha mão se movia instintivamente com o lápis sobre o papel.
Eu tentava comandar minha mão a replicar cada detalhe daquela cena, mesmo sabendo que quando finalmente olhasse para a folha ao fim do exercício de desenho cego, seria impossível reconhecer o pequeno peão.
- Com licença, senhorita... - a voz de Philip Black, nosso professor de desenho artístico fez com que eu desviasse minha atenção do peão.
Ele estava parado a alguns metros de distância, chamando atenção de uma outra garota.
- Ramirez, Susan Ramirez- Ela se apresentou.
- Senhorita Ramirez, o seu desenho está perfeito - ele elogiou.
- Obrigada - um sorriso brotou em seu rosto.
- Não é um elogio, qual foi a parte do exercício de desenho cego você não entendeu? - ele cruzou os braços, a encarando com uma carranca.
- O que? - ela balbuciou, voltando a olhar para sua folha.
- Eu pedi um desenho cego e não um desenho de observação, apaga e começa outra vez - ele murmurou, vindo em minha direção.
Eu voltei a desenhar, tentando não manter contato visual com o homem, mas isso não impediu que ele parasse ao meu lado, observando a folha.
- Isso sim é um desenho cego. Uma pena que parece estar sendo feito por uma lesma - ele murmurou - Você não terminou nem um peão, seus colegas já fizeram três vezes mais que você.
Aquele era nosso primeiro dia de aula, e o nosso professor de desenho artístico pensou que seria bom passar um pequeno exercício para nos avaliar melhor.
Eu engoli todas as respostas que surgiram em minha mente, tentando não arrumar confusão logo no primeiro dia.
- Sinto muito, Senhor Black. Eu só estava tentando...
- Então pare de tentar e faça - ele murmurou, não permitindo que eu concluísse meu pensamento.
Ele se afastou, fazendo com que eu respirasse fundo, já elegendo o professor que eu odiaria pelo restante de minha vida acadêmica.
Na verdade, eu me sentia exausta, ao contrário da maioria dos outros calouros que chegaram ao campus na última sexta, eu vim apenas no fim da tarde de ontem, já que estava "aproveitando" os últimos dias com meus pais em Rochester, uma cidade no norte do estado de New York.
Então eu sabia que no fim, eu teria que sair da aula e voltar para arrumar o meu lado do quarto, que ainda estava uma bagunça de malas e caixas.
Com um suspiro eu voltei a desenhar, dando uma breve olhada nos traços desconexos que representavam o peão que eu tentava ilustrar.
Algum tempo depois, eu estava caminhando pelos corredores do prédio de departamento artístico, onde eu tinha a maior parte de minhas aulas, quando meu celular vibrou.
"Me encontre no segundo refeitório, quero te apresentar algumas pessoas"
Minha colega de quarto mandou.
Ela era uma das que tiveram sorte de chegar ao campus com antecedência, então o seu lado do quarto estava perfeitamente organizado, contrastando com o caos que dominava o meu lado.
"Estou a caminho"
Eu respondi antes de guardar o celular. Caminhando de maneira despretensiosa pelos corredores agitados do prédio.
Alicia Waldorf era a típica garota que conquistava a todos com seu sorriso doce e modos gentis. Nós duas estudamos na mesma escola desde o primário, mas nunca fomos próximas, muito pelo contrário. Pelo menos, até descobrirmos que fomos aceitas pela mesma faculdade.
Aquilo acabou nos inspirando para ignorar nossas diferenças e tentar uma aproximação, assim, não estaríamos sozinhas nessa nova fase de nossas vidas.
Nós éramos completos opostos, Allie era considerada a garota mais popular do colégio, fazia parte de todas as equipes importantes, namorava o capitão do time e tinha um grupo de amigas inseparáveis.
Quanto a mim... não posso dizer que eu era a garota excluída e que não tinha amigos. Eu era rodeada de pessoas, e adorava festas. Creio que no fim, nós apenas pertencíamos a um núcleo social diferente que nos impossibilitava de sermos amigas.
Mas, deixamos todas aquelas diferenças em Rochester e assumimos que nos aproximar em Grayfox Mills, a pequena cidade no interior do estado de New York, onde ficava o campus da Dalton University, seria o mais acertado a se fazer.
Eu caminhei depressa e alguns minutos depois estava chegando ao lugar onde combinei de encontrá-la.
Não demorei a avistar os longos fios rubros de Allie em meio aos calouros que iam em direção ao refeitório, ela estava parada próximo a porta conversando com um rapaz de cabelos negros e olhos azuis.
Eu diminuí meus passos, estranhando aquela interação. Não que ele fosse algum esquisitão, ou algo assim, na verdade ele era bem bonito, muito bonito mesmo, mas era bem diferente dos caras que ela costumava namorar no High School.
Realmente era bem fácil ver a diferença entre os dois, enquanto Allie vestia um conjunto de saia xadrez e camisa branca perfeitamente alinhados, com um par de sapatos que certamente custaram mais do que qualquer peça que eu tenha no meu closet, ele vestia uma camiseta azul marinho, jeans de lavagem escura e carregava o que parecia ser uma jaqueta de couro, o que era estranho, já que o dia estava ensolarado.
Mas, aquilo estava longe de ser da minha conta, eu decidi entrar no refeitório e esperá-la lá dentro, mas Allie percebeu minha aproximação, se despedindo do rapaz.
- Hey, você chegou rápido - ela envolveu meu braço com entusiasmo.
- Se eu soubesse que você tinha companhia, teria demorado mais - eu a provoquei.
Eu olhei para trás e meu olhar cruzou com o do rapaz que nos observava enquanto nós nos afastavamos.
- Ahhh é o Chris. Ele vive na mesma moradia que a gente e me ajudou com as minhas caixas na sexta - ela explicou, acompanhando meu olhar, acenando para o rapaz - Já é a terceira vez que nós nos vemos e ele sempre pára para conversar.
Eu olhei para trás uma última vez, vendo o rapaz se afastar, antes de entrar no refeitório que já estava cheio.
- Você disse que queria me apresentar alguém e eu duvido que seja ele - eu comentei, entrando na fila de um dos quiosques espalhados pelo lugar que parecia uma praça de alimentação de shopping.
- É o meu primo, ele é veterano aqui e prometeu para meus pais que apresentaria tudo para nós - ela explicou.
Por um lado, ela tinha sorte de ter alguém para guiá-la, mas por outro, não sei se gostaria de ter alguém da minha família me controlando em todos os passos.
Não demorou até que estivéssemos carregando bandejas com nossas comidas entre as mesas lotadas.
Allie se acomodou em uma mesa onde um pequeno grupo estava, um dos rapazes, que tinha olhos esmeralda e um cabelo castanho cuidadosamente bagunçados soltou um suspiro assim que nos viu, demonstrando todo o seu descontentamento por ter que cuidar da prima caloura.
Ao seu lado, uma garota loira que parecia ter a nossa idade, nos observava com diversão. Seus traços eram delicados e seus olhos quase dourados lhe davam um charme quase único, ela colocou uma mecha de cabelos atrás da orelha, revelando um belo lírio vermelho tatuado ali.
- Achei que você tinha desistido do almoço, prima - ele ironizou antes de seu olhar se focar em mim, me oferecendo um sorriso galante - e você, é nossa nova amiga?
- Rosemarie Miller-Campbell, mas eu prefiro apenas Rose Campbell - eu tomei a dianteira, me apresentando ao rapaz.
A garota foi mais rápida em se apresentar, tirando o foco dele.
- Skyller Baker. É um prazer conhecê-la, Rose. Você também é uma caloura do pré med? - ela citou a futura formação de Allie.
- Medicina? De jeito nenhum eu detesto sangue. Eu sou caloura em Artes Visuais - eu expliquei.
- Theo Peterson. Estamos praticamente na mesma área, Rose. Sky e eu estamos no segundo ano de arquitetura - o outro rapaz sorriu.
Eu me senti bem em conhecer outras pessoas da minha área. No fundo, eu pensava que Allie tentaria me colocar com seu grupo de pré med, mas ao olhar para ela, soube que minha mais nova amiga é quem se sentia deslocada ali.
- Liam Van Der Waal. Estou no terceiro ano de Artes Visuais - ele estendeu a mão para mim, levando a minha até os lábios quando eu retribui o gesto.
- Por que eu não recebi uma recepção como essa? - Allie reclamou ao meu lado.
- Porque nós já nos conhecemos, e apesar de ser uma garota bonita, eu acho que seria muito inadequado flertar com uma prima que eu já troquei as fraldas - Ele garantiu.
Eu olhei para Allie, achando graça da interação dos dois.
- Eu não quero que você flerte comigo, que nojo, e você nunca trocou minhas fraldas, é apenas três anos mais velho que eu.
- Bom, eu estive presente enquanto trocavam, então é a mesma coisa - ele garantiu
Eu decidi intervir naquele embate enquanto os outros dois membros do grupo os observavam com diversão.
- Espera, isso é você flertando comigo?
Aquele comentário fez Theo gargalhar enquanto Liam me dava mais um de seus sorrisos preguiçosos, mantendo o cenho franzido.
- Se você ficou com dúvidas sobre isso, eu preciso me esforçar mais - ele zombou, fazendo Skyller revirar os olhos ao seu lado.
- Ai Liam, apenas deixe-a em paz - ela suspirou.
Um sorriso surgiu em meus lábios enquanto eu encarava o rapaz, eu sabia muito bem lidar com aquele tipo, e sabia que ele não me daria paz se eu não entrasse em seu jogo.
- E qual é a sua proposta, Liam Van Der Waal? - eu o encarei.
Allie arregalou os olhos diante de minha frase, enquanto Liam continuou olhando em meus olhos, não se importando com a presença dos outros.
- Eu te ofereço o melhor sexo casual da sua vida, e se você for tão boa quanto eu imagino que seja, nós podemos repetir - ele piscou um olho para mim.
- Liam! - Allie exclamou horrorizada.
- Cara essa foi a coisa mais idiota que eu já ouvi, Rose, não ligue.. - Theo murmurou, parecendo incomodado com os modos do amigo.
Mas eu não permiti que ele terminasse sua frase.
- Em primeiro lugar, eu sou muito melhor do que a sua imaginação pode alcançar, só não tenho certeza se você pode entregar o que promete - eu não desviei o olhar dele enquanto falava.
Seu sorriso apenas se alargou com minha resposta, me incentivando a continuar.
- E em segundo lugar?
- A sua oferta é realmente irrecusável, mas eu terei que recusar. Talvez você tenha sorte quando eu estiver bêbada, ou extremamente desesperada - eu pisquei para ele, fazendo o rapaz gargalhar.
- Sinto muito te decepcionar, mas eu não sou o tipo de cara que se envolve com garotas bêbadas, e em todo caso vou te passar meu número de telefone e o do meu quarto - Ele pegou um guardanapo, rabiscando algo nele antes de me estender - se um dia você estiver entediada sem nada para assistir na TV, ou deprimida depois de levar um fora...
Não pude evitar rir enquanto aceitava o guardanapo. Eu poderia me ofender com sua maneira direta, mas algo em sua sinceridade acabou me divertindo.
- Depois de levar um fora? - eu ergui ambas as sobrancelhas, tentando me fazer de ofendida.
- Acontece até mesmo com as mais bonitas, e saiba que eu sou especialista no assunto, sou uma ótima fonte de consolo - ele piscou para mim.
Eu guardei o guardanapo no bolso da calça jeans que eu vestia, ainda rindo do jeito direto e incomum do rapaz, mas ao me virar, Allie estava me encarando com ambas as sobrancelhas erguidas em uma expressão questionadora.
- O que foi? Foi uma proposta válida - eu dei de ombros, colocando uma batata frita na boca.
- Mesmo? Porque eu posso te passar meu número, eu também sou uma ótima fonte de consolo - Theo me encarou.
- Sinto muito, ele chegou primeiro - eu fiz um beicinho, recebendo uma risada em troca.
Allie parecia incomodada com a interação, mas antes que pudesse esboçar alguma reação, Skyller se levantou.
- Não se incomode com isso, você vai se acostumar com esse tipo de coisa acontecendo quando se está perto dele - ela avisou Allie, apontando para Liam - eu preciso ir, tenho que passar na biblioteca. Rose, nós almoçamos aqui todos os dias esse horário, e nos encontramos às sete no refeitório principal para o jantar.
- Obrigada - eu franzi o cenho ao notar o prato de batatas fritas quase intocado que ela deixou para trás sem a menor cerimônia.
Ela deu um pequeno tapinha no ombro de Theo antes de bagunçar os cabelos de Liam, que inclinou a cabeça para trás, a observando se afastar.
- Eu te levo um café mais tarde, Baker - ele avisou para a garota que apenas acenou discretamente em resposta.
Liam ficou com os olhos grudados nela por alguns segundos antes de retornar sua atenção para nós, fazendo com que eu suspeitasse que talvez seu coração já estivesse comprometido.
- Onde estávamos?
- Você devia falar com ela de uma vez - Theo murmurou, confirmando minhas suspeitas.
- Então, prima... quais são os seus planos? Já se instalou bem em seu quarto? - ele ignorou a provocação do amigo, dedicando sua atenção à prima pela primeira vez desde que chegamos.
Allie finalmente parece ter relaxado, decidindo se abrir com o primo sobre todo o progresso feito em tão pouco tempo, um grande contraste com a bagunça que ainda estava todas as minhas coisas em minha nova vida acadêmica, mas eu sabia que conseguiria arrumar tudo com calma, não precisaria me desesperar.
Pelo menos era o que eu esperava.
Rose
Os dias passaram depressa naquela primeira semana, quando menos esperei, já era sexta feira e eu finalmente tinha conseguido esvaziar a última caixa com meus pertences. Ao terminar a organização eu observei o contraste entre o lado de Alicia do quarto e o meu. Todos os pertences da minha colega eram organizados por cores, inclusive suas roupas, as paredes brancas estavam completamente limpas sem nenhum pôster sequer, sua cama parecia feita para um comercial, cheia de almofadas e com uma grande colcha florida em tons de rosa. A sua escrivaninha seguia o mesmo padrão de organização, em um canto posicionado em um ângulo exato de 45 graus, estava um porta retrato com uma foto completa da família Waldorf, ao centro, o livro que ela usou para estudar na noite anterior estava fechado com um pequeno bloco de notas personalizado com seu nome em cima. Ao lado do livro, uma caneta, uma lapiseira e um marca texto estavam alinhados por ordem de tamanho.
- Ela deve passar mais tempo organizando essa mesa de estudo do que estudando - eu pensei em voz alta, não ousando tocar em nada.
Eu dei de ombros, voltando a observar o meu pequeno caos do outro lado, quero dizer, eu sempre pensei que fosse organizada até me comparar com Alie. Todos os meus objetos estavam guardados no armário, minha cama estava com os lençóis esticados e eu tinha separado uma boa parte da parede para pendurar os desenhos que fizesse ao longo da minha graduação. Em minha escrivaninha, eu espalhei todas as minhas tintas e lápis e pincéis mais utilizados, deixando-os expostos com orgulho.
Checando o horário, percebi que estava na hora que tinha marcado de me encontrar com Liam, Theo e Sky na área comum da moradia. Deixando meu quarto para trás, percorri os corredores movimentados, me esquivando de um grupo ou outro de alunos até alcançar as escadarias.
Eu tinha me adaptado bem ao meu novo grupo de amigos, cada um deles era inteligente, engraçado e ótimos no que faziam. Eles eram o tipo de pessoa que seriam aceitos facilmente em qualquer grupo, e ainda assim, escolhiam viver a vida fora de um bando. Quem não estava nem um pouco acostumada com essa ideia, era Allie.
Mesmo que não fossemos próximas durante o colégio, eu sabia que ela era o tipo que sempre se juntava aos melhores grupos. Ela era destaque na equipe de debate, chefe das líderes de torcida, ainda arrumava tempo para o coral e grupo de estudos. Allie era o sinônimo da palavra perfeição, e o jeito leve e espontâneo de nosso grupo era um grande desafio para ela.
Eu os avistei assim que cheguei a sala de estar, eles estavam acomodados no canto de sempre onde um grande sofá e uma poltrona se tornaram o ponto de encontro favorito do grupo. Liam estava deitado no sofá, apoiando a cabeça nas pernas de Sky enquanto Theo se estirou na poltrona, apoiando os pés em uma mesa de centro.
- Nem precisa se preocupar - eu avisei o rapaz assim que me aproximei e ele fez menção de se levantar.
Eu tirei as sandálias que usava e me sentei no tapete, entre o sofá e a mesa, apoiando as costas na mesa e colocando os pés na barriga de Liam que pareceu não se incomodar com aquilo.
- Rose, me diz uma coisa, você sabe quem é aquele cara com a minha prima? - Liam indicou com a cabeça um lugar onde Allie conversava com Christian.
Os dois vinham se encontrando cada vez mais nos últimos dias, e eu começava a desconfiar que o coração de minha amiga estava comprometido.
- Aquele cara? Christian alguma coisa - eu apoiei a cabeça na mesa, observando o teto branco logo acima - ele vem seguindo ela pelo campus desde que chegamos aqui.
Aquela frase fez com que Liam erguesse a cabeça, olhando para a prima com uma sobrancelha erguida.
- Ela parece estar gostando da perseguição - Theo deu de ombros.
- Ele não está perseguindo ela, provavelmente está apaixonado - Sky ralhou conosco.
- Eu aposto que ele quer transar - Theo tombou a cabeça para trás, apoiando no encosto da poltrona.
- Theo! - Sky arregalou os olhos.
- Ele tem razão, minha experiência diz que um cara não vai te oferecer para carregar caixas pesadas para você a não ser que queira transar - eu avisei.
- Meu Deus, vocês são horríveis - Ela deu um tapa na cabeça de Liam, que até então estava de olhos fechados em seu colo.
- Hey, eu não disse nada!
- Mas eu sei que você vai concordar com eles.
Liam voltou a se erguer, observando os dois, que ainda conversavam de maneira animada por alguns segundos antes de se deitar.
- Não vou, eles estão errados.
- Ahh qual é, o cara é aluno de química e sempre dá um jeito de cruzar com ela pelo campus, você não acha estranho? - Eu cutuquei sua barriga com o pé, fazendo ele voltar a abrir os olhos.
- Rose, às vezes as pessoas se aproximam uma das outras sem segundas intenções. Eu não acredito que tenho que falar isso para você, pensei que com outra garota se juntando ao grupo, eu não me sentiria mais perdida no meio desses dois - Sky reclamou me fazendo rir.
Ela é tão ingênua!
- Eu não disse que não tem segundas intenções ali, está na cara que ela quer transar com ele - Liam comentou ainda de olhos fechados.
Todos olhamos juntos para onde Allie e Christian estavam conversando, ela sempre encontrava uma maneira de tocá-lo, apesar do rapaz manter as mãos no bolso da jaqueta jeans surrada que vestia.
- Ela está flertando com ele, grande coisa. Talvez esteja mesmo interessada - Sky defendeu.
- A questão é que ela não vai apresentar aquele cara para os meus tios, e ela não consegue namorar sem apresentar o pretendente perfeito para os pais, então obviamente ela está só em busca de uma oportunidade de experimentar algo diferente dos atletas e líderes de grupo de estudo que ela está acostumada a sair, antes de levar o quarterback do time ou um veterano destaque em medicina para casa na ação de graças - ele explicou, ainda de olhos fechados.
- Ela realmente tem um tipo - eu concordei com o rapaz.
- Do que vocês estão falando? - A voz de Allie atraiu nossa atenção.
Nós poderíamos disfarçar e ficar sem graça por ela ter nos pegado no flagra, mas o maior defeito que nosso novo grupo vinha mostrando até agora, era uma sinceridade quase brutal.
- Você - Nós respondemos juntos.
- O que? O que estavam falando sobre mim? - ela arregalou os olhos, batendo nas pernas de Liam para que ele desse espaço para ela no sofá, mas o rapaz apenas encolheu as pernas para que ela se sentasse, voltando a esticá-las sobre a prima em seguida.
- Estamos discutindo se você vai ou não transar com aquele cara - Theo explicou com naturalidade.
Alie nos encarou boquiaberta, parecendo ter sido pega de surpresa.
- Theo e eu achamos que ele quer transar com você e Liam pensa que você quer transar com ele - eu comentei despreocupada.
- E eu acho que vocês estão se conhecendo melhor, apesar da Rose e do Liam afirmarem que ele não é seu tipo - Sky complementou.
Allie continuou com a mesma expressão horrorizada, alternando o olhar entre nós.
- Como você pode saber o meu tipo? Nós viramos amigas há algumas semanas - Alie franziu o cenho.
- Nós fizemos o High School juntas, pode até ser que não fossemos próximas, mas era fácil enxergar o padrão nos seus namorados - eu me endireitei, dando de ombros.
- Mas aqui não é mais o High School, estamos na faculdade. Como você se sentiria se eu me baseasse na fama que você tinha? - ela se defendeu.
Eu franzi o cenho diante de sua reação. Por que ela está se ofendendo com algo tão simples? Nenhum dos nossos amigos pareciam compreender aquela questão.
- Você quer começar a me chamar pelo apelido que você e suas amigas colocaram em mim? Vá em frente, eu não me importo - eu zombei, me deitando no tapete, sorrindo diante do olhar chocado estampado em meu rosto.
- Que apelido? - Liam finalmente se sentou, parecendo ansioso por detalhes daquela história.
- No último ano eu fiquei com um garoto que uma das amigas dela estava interessada, e de repente eu me tornei a vadia da sala seis - eu expliquei - eu sempre as ouvia cantarolando uma música sempre que eu passava.
- Ah meu Deus, isso é horrível - Sky fez uma careta.
- Eu sinto muito, não sabia que você ouvia - Allie parecia mortificada.
- Isso é passado, eu não me importo, nunca me importei, na verdade - Eu me sentei, me espreguiçando em seguida.
Em um movimento gracioso eu me coloquei em pé voltando a me espreguiçar, me despedindo dos meus amigos ao ver uma mensagem do meu pai.
- Você já vai? - Allie arregalou os olhos - Me desculpa, de verdade, eu não quis...
- Wow, Se acalma princesinha, eu vou conseguir uma pizza de pepperoni e ligar para o meu pai - eu ergui o celular, achando graça de sua reação - parece que a relação dele com a minha mãe está em crise desde que eu saí de casa.
- Mas só faz uma semana - Sky franziu o cenho.
- Ele pode ser bem dramático - eu segurei o riso, me afastando.
Eu caminhei em direção ao refeitório principal, ligando para meu pai, já me preparando para todo o drama que ele derramaria em mim assim que atendesse o telefone.
- Rose, eu estou prestes a pedir o divórcio, sua mãe está me enlouquecendo - sua voz soou carregada de pesar, me fazendo revirar os olhos em meio a um sorriso enquanto caminhava.
- Pai, em primeiro lugar, para você se divorciar, você teria que ser casado com ela, e para ser casado com ela, vocês teriam que ter transado mais que uma vez na vida - eu avisei.
Muitas vezes o jeito leve e brincalhão dos meus pais me faz esquecer que estava lidando com dois adultos de quase quarenta anos.
- Eu vou pedi-la em casamento então - ele comentou pensativo.
- Pai, você não pode pedir alguém em casamento apenas para poder se divorciar depois.
A tarefa de me manter séria diante daquele diálogo estava cada vez mais complicada, eu apressei meus passos em direção ao refeitório principal, que era o mais próximo a nossa moradia, enquanto o sol começava a se por, banhando as torres de estilo gótico dos prédios do campus com sua luz dourada, transformando o cenário em algo digno de uma obra de arte.
- Ela está acabando com a minha vida, eu tenho o direito de retribuir - a voz de Jack me trouxe de volta à realidade.
- Como exatamente sua adorável vizinha está acabando com a sua vida dessa vez?
- Eu fiz planos, Rose! Por anos eu sonhei com o dia em que não seríamos mais responsáveis por nenhum outro ser humano que não fossemos nós mesmos, ansioso por ter minha liberdade e minha juventude de volta - ele discursou, me fazendo rir.
- Ah meu Deus, me desculpe por estragar a sua vida!
Eu exclamei ao avistar a entrada do refeitório principal a alguns metros a minha frente, espero que não esteja tão cheio.
- Garotinha, eu amo você, e é por causa desse amor que te aconselho a não ter filhos antes de se formar - ele avisou.
- Sem bebês para mim, pai. Mas você ainda não me falou porque minha mãe estragou sua vida.
- Eu marquei um encontro duplo, uma mulher que eu conheci na biblioteca há quinze dias, ela só aceitou ir se eu arrumasse uma companhia para a amiga dela que saiu de um relacionamento há pouco tempo, e... - ele prosseguiu.
- Pai, faz apenas algumas semanas que a Angela foi embora, não acha que é muito cedo? - eu o interrompi.
Minha mãe tinha passado os últimos meses em um relacionamento com a gerente de um supermercado da região, mas no fim, Ângela não estava pronta para lidar com toda a relação envolvendo meu pai.
- Ela escolheu sair da nossa vida, então sua mãe deve seguir em frente - Ele avisou.
- Pai, você não fazia parte do relacionamento das duas - eu o lembrei, entrando no refeitório.
Grande parte das brigas de Ângela com minha mãe era porque ela não aceitava que os dois não se viam de forma romântica, apesar de terem uma filha juntos. Os ciúmes dela chegaram ao ponto de impor o afastamento dos dois, exigindo que minha mãe o tratasse apenas como parte de seu passado, algo que ela prontamente recusou.
- Rose, qualquer pessoa que for namorar comigo ou com a sua mãe terá que aceitar que somos parte da vida um do outro. Evie é a minha família e eu faço qualquer coisa pela felicidade dela - aquela frase me fez sorrir, porque minha família podia ser um pouco diferente do tradicional, e meus pais sequer viviam na mesma casa, mas ainda assim, eram muito unidos como uma família deve ser.
- Você está fazendo isso pela felicidade dela então? - Eu perguntei esperando na fila para conseguir a pizza que seria o meu jantar.
- Não, estou fazendo pela minha felicidade, mas não significa que ela não possa se divertir, a amiga da Cristal é muito bonita - Ele não teve problema nenhum em admitir.
Eu consegui o último pedaço de pizza de pepperoni disponível e uma coca cola para viagem antes de sair do refeitório, decidida a comer no quarto.
- Eu não vou me envolver nisso - eu neguei.
- Eu pago aquela tatuagem que você queria fazer - ele retrucou.
Levou apenas um segundo para que eu considerasse aquela proposta, fazia semanas que eu estava pedindo dinheiro aos dois para poder fazer uma tatuagem e eles não estavam dispostos a pagar, claro, eu sempre podia usar o cartão de crédito que eles me deram, mas então eu corria o risco de acabar sem limite para comprar coisas mais importantes para minha sobrevivência ali, como gasolina, comida e meus materiais de estudo.
- Eu preciso de trezentos dólares.
- Trezentos? Você enlouqueceu?
- Quando eu ligar pra ela, ela vai me perguntar porque eu estou fazendo isso, vocês me ensinaram a nunca mentir, então eu vou contar e ela vai pedir metade do dinheiro para aceitar ir, então eu acho que é um valor justo - eu devolvi com tranquilidade.
- Se você conseguir, eu transfiro o dinheiro ainda hoje - ele avisou antes de desligar.
Rose
Eu digitei uma mensagem rápida para minha mãe, avisando que ela deveria ir ao encontro duplo com meu pai, guardando o celular em seguida, desviando de um aglomerado de alunos que pareciam entusiasmados com alguma coisa quando um corpo se chocou contra o meu. Em um segundo eu senti o impacto da grama com a lateral do meu corpo, fazendo uma dor aguda surgir.
Eu me sentei, olhando a lateral do meu braço esfolada e o meu jantar todo no chão. Hoje com certeza não é meu dia!
- Cuidado aí, gatinha. Você quase fez eu perder uma recepção - O rapaz que me atropelou gracejou, se afastando sem sequer me ajudar a me levantar.
- Gatinha? Qual é o seu problema, seu imbecil - eu me levantei, gritando em resposta.
O babaca que já tinha se afastado alguns passos parou, se virando para mim com um sorriso no rosto antes de me medir descaradamente, voltando a se aproximar.
- Docinho, eu realmente não tenho tempo para te dar atenção agora, mas eu posso te passar meu número, então nós marcamos alguma coisa em outro momento - ele passou o braço por meu ombro, fazendo com que eu lançasse um olhar questionador para ele.
Aquela interação estava chamando atenção das pessoas que antes estavam assistindo a partida improvisada de football, e estava claro que ele estava tentando impressionar o grupo de veteranos com quem ele estava jogando. Mas para azar do rapaz, eu não dava a mínima.
- Docinho, você está treinando para entrar no time? - eu fingi um tom deslumbrado, fazendo seu sorriso se alargar antes que minha expressão ficasse séria - nesse caso, é melhor você parar de me tocar antes que eu arranque a sua mão.
Sua expressão se tornou um pouco sem graça, tirando o braço que estava ao meu redor.
- Melhor assim - Eu murmurei, prestes a começar a me afastar.
- Me passa seu número - ele chamou.
- Nem em um milhão de anos - eu neguei.
Ele não parecia disposto a desistir, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, uma voz masculina soou atrás de mim.
- Hey O'Donnel , agora você vai começar a nocautear as garotas para tentar se aproximar? Está tão desesperado assim?
Eu me virei, encontrando o amigo de Allie parado ali com postura quase arrogante, com uma das mãos no bolso de sua jaqueta jeans enquanto a outra mão segurava um aparelho celular.
- Cai fora, Davis - o rapaz murmurou, finalmente se afastando.
- Você deixou cair - Ele estendeu o celular pra mim - Christian Davis.
Eu peguei o aparelho de sua mão, me sentindo aliviada ao ver que não tinha sofrido nenhum dano na queda.
- Obrigada, Rosemarie Miller-Campbell, ou só Rose Campbell - eu suspirei me abaixando recolhendo o que restou do meu jantar, o jogando no lixo em seguida.
- Eu tenho uma fatia extra de pizza se você quiser - ele ofereceu, indicando uma árvore há alguns metros onde um saco de papel e um copo tinha sido abandonados, provavelmente quando o idiota me acertou.
Por um segundo eu considerei aquele convite, ele com certeza estava me usando para se aproximar da minha amiga, mas eu iria ganhar uma pizza grátis, então por que não?
- Claro - eu dei de ombros.
- Jax O'Donnel , ele tem o cérebro do tamanho de uma ervilha, nós estudamos juntos no High School - Ele apontou o babaca que tinha me atropelado antes - Sinto muito te informar, mas ele provavelmente não vai te deixar em paz.
- Que notícia encorajadora - eu murmurei, me sentando embaixo da árvore ao seu lado, abrindo uma mensagem da minha mãe.
"O que você vai ganhar com isso?"
"Ele me prometeu trezentos dólares se você aceitar"
Eu guardei o celular após enviar a mensagem, decidindo prestar atenção em Christian.
- Então, você é a amiga da Allie - ele comentou me oferecendo o copo.
- E você é o cara que está querendo transar com ela - eu devolvi pegando o copo de sua mão.
Ele franziu o cenho, me lançando uma expressão questionadora.
- Ela te falou isso?
- Não - eu tomei um gole do conteúdo, fazendo uma careta ao devolver para ele.
Christian pegou o saco, abrindo antes de tirar duas embalagens de pizza de dentro, me estendendo uma em seguida.
- Você deveria chamá-la para sair de uma vez, ela está esperando, e...- eu abri a embalagem, fazendo uma careta em seguida - Pizza de brócolis, sério? Você está aqui tomando chá verde e comendo pizza de Brócolis?
- Qual o problema? - ele mordeu um pedaço da própria pizza, parecendo gostar daquilo.
Aquilo só podia ser uma piada! Esse definitivamente não é o meu dia.
- Deixa eu adivinhar, você é uma daquelas pessoas com paladar infantil que acham que brócolis é ruim - ele ironizou.
- Eu não tenho paladar infantil por não gostar de um vegetal - eu murmurei.
- Sim, você tem. E isso é um pouco irônico para alguém que sonha em se tornar médica - ele me provocou.
O meu celular vibrou em meu bolso, mas eu ignorei, me virando para ele, erguendo ambas as sobrancelhas.
- Eu não vou me tornar médica, estudo artes visuais.
A informação parece tê-lo surpreendido de alguma maneira, Christian terminou de comer, colocando a embalagem vazia dentro do saco mais uma vez.
- Você veio para a universidade para brincar de colorir? Sério?
Eu senti uma onda de raiva começar a tomar conta de mim ao constatar que no fim, ele é apenas mais um babaca. E pensar que eu até estava achando ele um cara legal.
- E você no mínimo escolheu química depois de assistir muito Breaking Bad, não é? - Eu devolvi irritada.
Ele estreitou os olhos, me encarando com uma expressão desconfiada.
- Você não é nada parecida com sua amiga, sabia? - ele se esticou, pegando a pizza da minha mão, começando a comê-la antes de se levantar.
- Hey, você tinha me dado isso - eu ergui a voz ao vê-lo começar a caminhar em direção a entrada da moradia.
- E você agiu como uma criança mimada, então eu peguei de volta - ele devolveu parecendo não se intimidar por minha irritação.
Algumas pessoas que estavam ali pararam para observar nosso pequeno embate, e se ele pensa que vai ficar assim, está muito enganado!
Eu me levantei, pegando o saco de papel e o copo de chá verde que ele deixou para trás, caminhando depressa, o alcançando quando ele estava quase na porta da moradia.
Sem pensar duas vezes eu arremessei o copo em direção à sua cabeça, sorrindo ao ver seu corpo reagir quando o líquido gelado atingiu sua nuca. Christian se encolheu, se virando em minha direção com uma expressão irritada, enquanto todos paravam para ver o que estava acontecendo.
- Você esqueceu a droga do seu chá, seu babaca!
- Qual é o seu problema, sua maluca? - ele rosnou.
- O meu problema é o tanto de idiotas que estão cruzando o meu caminho hoje - eu devolvi antes de passar por ele, entrando no prédio ouvindo algumas risadas abafadas.
Eu caminhei até meu quarto, me jogando em minha cama em seguida. Ótimo, aqui estou eu, com fome e irritada. Como tudo pode piorar?
Eu me lembrei da mensagem de minha mãe, a abrindo, sentindo meu mau humor melhorar um pouco.
" Eu quero cem dólares. Aproveite o fim de semana e não beba demais"
Um pequeno sorriso surgiu em meu rosto ao ler sua mensagem, pelo menos os dois se divertiriam juntos. Decidida a dormir um pouco, eu fechei os olhos, mas meu momento de paz não durou muito, Allie entrou no quarto alguns minutos depois, parecendo prestes a levantar voo de tanta animação.
- Rose, você não vai adivinhar, eu estava conversando com o Liam sobre meu interesse em me juntar a Sigma Sigma Kapa, uma das irmandades mais exclusivas aqui do campus e ele conhece a presidente - ela esperou alguma reação positiva antes de prosseguir.
- Ele parece conhecer todo mundo - Eu bocejei.
- Ele prometeu me apresentar para ela em uma festa que vai acontecer hoje, então se arruma que a gente precisa ir - Ela estava extasiada.
Aquilo poderia ser interessante, eu ainda não tinha ido em nenhuma festa e não dispensaria a chance de me divertir, mesmo que não tivesse interesse nenhum em me juntar a nenhuma irmandade.
- Certo, mas eu quero comer alguma coisa antes - Eu me levantei, percebendo que talvez minha noite tivesse salvação.