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A relíquia do Oceano

A relíquia do Oceano

Autor:: Flávia Saldanha
Gênero: Fantasia
Dianna é uma mulher que traz consigo muitas marcas, ela cresceu nas ruas, aprendeu a se defender das piores formas e foi traída por amigos. Ela é procurada por um homem misterioso interessado em uma relíquia valiosa que carrega muitas lendas consigo, a relíquia do oceano. A moça deveria se perguntar o que aquele homem queria com algo tão poderoso? Mas tudo o que ela estava interessada era no dinheiro, um bom dinheiro no qual ela não precisaria se preocupar com mais nada pelo resto da sua vida, sairia daquela aldeia imunda e seria livre. Mas em sua jornada ela conhecerá sua origem, sua verdadeira missão no mundo. Surpresas, amores, decepções e amizade a aguardam nesta aventura e ela deverá tomar uma decisão. Diana será capaz de fazer a escolha certa?

Capítulo 1 Prólogo

(Diana)

Estava deitada em meu catre, observando a moeda subir e descer em minha mão.

Subir e descer.

Subir e descer.

Subir e descer.

Assim passavam-se meus dias já havia dois anos, desde que fui pega em uma missão, e pensar que essa missão era para salvar a vida do rei. O cara agora está vivo, enchendo a barriga de cerveja e carne mal passada enquanto eu estou aqui nesse muquifo e ainda faltam 5 anos para que eu seja livre.

Pelo menos estou em uma cela particular, não que seja grande coisa, mas é melhor que estar presa junto de um monte de homens imundos e desesperados por uma mulher. Não ache que estou aqui por gentileza, porque não foi.

Fui jogada na cela junto com esses homens imundos que falei, mas na primeira noite nocauteei um e chutei as bolas do outro até virarem omelete. Na segunda noite quase matei outro enforcado com o que deveria ser um lençol, e na terceira furei os olhos do outro que tentou ser mais esperto e me agarrar enquanto eu dormia.

Diante disto os carcereiros se viram na obrigação de me separar dos homens, não pelo meu bem estar, mas pela vida deles.

Continuo jogando e pegando a moeda, a última lembrança da minha vida lá fora, a moeda que me trouxe até aqui. "Salve a vida do rei" Disse o contratante, e me senti honrada em servir a realeza, fui uma tola eu sei, por isso estou aqui. A única a estar aqui. Porque eu não estava sozinha, não, tinham mais 3 rapazes e uma mulher comigo, mas alguém tinha que ser presa para o resto do bando escapar.

Até pensei que eles teriam a dignidade de virem me resgatar, mas não, não veio ninguém. Não precisa me lembrar, eu fui uma imbecil, é claro que ninguém voltaria. Teria que cumprir meus sete anos de prisão, sairia daqui com 25 anos de idade. Respirei fundo, pois não tinha alternativa se não esperar os próximos 5 anos passarem.

***

"Sentia a barriga roncar pela milionésima vez. A fome já tinha ido e vindo várias vezes, tantas que nem sei contar. Quando se é uma adolescente raquítica, uma fugitiva do orfanato do reino, sem dinheiro, roupas decentes, comida ou alguém para lhe proteger e lhe dar o que comer, deve-se arranjar um jeito de sobreviver. Por isso eu estava escondida embaixo de uma carroça de feno, observando e estudando o movimento da rua.

Pessoas iam e vinham, sacolas de pães cheirosos passavam bem na frente do meu nariz e me lembravam que eu tinha um estômago para alimentar. Mas o meu alvo era a janela da padaria, eu sabia que a mulher idosa colocaria em breve uma cesta cheia pães e bolos, ela sempre fazia isso, era uma encomenda que todos os dias uma criada vinha buscar. Já observava há 3 dias, e todos esses dias no mesmo horário, ela colocava a cesta na janela e poucos minutos depois a criada aparecia para buscar. Eu teria que ser rápida.

O relógio da torre badalou, seis horas da manhã, anunciava para toda a aldeia que a jornada de trabalho começava. Me preparei, observando, atenta. A janela se abriu, senti até uma emoção, um frio na barriga, uma antecipação de que hoje não teria fome. A cesta foi colocada na janela, e como sempre, a idosa virou as costas. Na esquina a criada já se aproximava. Corri.

Saí debaixo da carroça e me lancei sobre a janela, agarrei a cesta como se fosse a minha vida, e de certa forma era, e corri como nunca imaginei que conseguiria, ainda mais tão faminta como estava.

- Ladra! Peguem a ladra!

Pessoas gritavam atrás de mim, mas eu já estava longe, fora do alcance de todos eles. Todos pesados demais para acompanhar uma menina franzina de onze anos. Me joguei sob as tábuas de uma antiga casa, em cima de mim as pessoas viviam alheias de que havia uma adolescente vivendo sob seus pés. Foi uma benção encontrar essa fenda entre o piso de madeira e o chão de terra. Aqui eu me escondia, ninguém me encontraria nesse buraco.

Olhei para a cesta repleta de pães e bolos, os cheirei antes de dar uma mordida e eu tive que me estender no chão, olhos fechados e braços abertos, saboreando essa delícia. Meu primeiro roubo!

A sacerdotisa do orfanato nos ensinava as ordens dos deuses:

1- Não matar

2- Não roubar

3- Não mentir

4- Rezar todas as manhãs ao nascer do sol

5- Amar todas as criaturas sob o manto sagrado celeste, o céu.

6- Alimentar os pobres

7- Obedecer os deuses

Engraçado como essas ordens não servem para todos. No orfanato era maltratada, ficava de castigo por qualquer motivo e o castigo era ficar sem jantar, que se unia a outro castigo que era ficar sem café da manhã e que às vezes se unia a mais um: ficar sem almoço. E ainda tinha que rezar e ajudar as sacerdotisas e sacerdotes do reino. Pra passar fome, prefiro passar fome na rua onde ninguém manda em mim. Por isso fugi. Agora só havia uma ordem que não descumpri: não matar. O resto, já descumpri todas.

Aos quinze anos descumpri a última ordem. Matei um homem, mas foi para me defender. Aprendi a me defender com os moleques de rua, eu não era muito diferente deles, a única diferença era o formato do meu corpo: feminino até demais, para meu azar.

Os seios grandes, quadril largo e cintura fina, fazia os homens me olharem de maneira estranha. Eu cresci na rua, por isso não era nenhuma idiota. Sabia muito bem o que uma mulher e um homem fazem, sei que alguns homens não se importam se elas querem ou não, se vão gostar ou gritar de pavor, na verdade alguns parecem gostar de causar sofrimento a algumas mulheres. Por isso, quando notei o tipo de horror que poderia passar, principalmente por viver nas ruas, tratei de aprender a me defender e foi assim que conheci Adam.

Ele também cresceu na rua, foi abandonado após um acidente onde seus pais morreram e nenhum familiar quis ficar com ele. O garoto tinha apenas oito anos de idade quando isto ocorreu.

Vi Adam bater em três garotos, todos maiores do que ele e eu me aproximei, quando terminou. Pedi que me ensinasse e ele disse que não tinha o que ensinar. Mas eu não desisti, fiquei atrás dele, roubei pão e lhe dei, me aproximei, insisti e por fim o garoto cedeu. Ficamos amigos, eu tinha doze anos nessa época e ele quatorze. Passamos a ser uma dupla, não estava mais sozinha na rua e nem ele.

Então, já tinha completado quinze anos, Adam desapareceu. Já estava escuro e ele não voltou para nosso esconderijo em baixo da casa, fui atrás dele. Antes que eu o encontrasse, um homem me encontrou. Seu bafo alcoolizado me dava nojo, o cheiro de seu corpo me deu vontade de vomitar e ele me lambeu... arg... que nojo!

Fui prensada na parede de uma casa abandonada, ele se esfregou em mim e eu comecei a gritar.

- Cala a boca, pirralha! – Ele tinha dito, mas não parei. Eu não facilitaria para ele. Esperneei, chutei, gritei, bati... até que ele me deu um soco, me deixando tonta, e apertou uma lâmina na minha garganta.

O covarde ria e se esfregava em mim. Mas ele estava tão focado em se esfregar que se descuidou com a lâmina, e Adam já tinha me ensinado algumas coisinhas com elas. Desarmei o homem e sem pensar duas vezes passei a faca em sua garganta. Ele nem conseguiu gritar, o sangue subiu por sua boca e ela se abriu em um "O", os olhos ficaram arregalados, não acreditando que uma pirralha tinha lhe ferido de forma tão grave. Ele caiu a meus pés, e eu vi a grande merda que tinha feito e corri. Com todos esses anos vivendo na rua, eu conhecia todos os becos e saídas, então sumi da vista de qualquer um que pudesse ver o que eu havia feito. Eu matei um homem."

Acordei suando, esses pensamentos e lembranças ocupam minha mente há anos, principalmente depois que vim parar nessa pocilga. As minhas primeiras vezes.

Mentir, não há como lembrar quando foi a primeira vez, pois tive que mentir desde muito pequena naquele orfanato. Mas o primeiro roubo, o primeiro assassinato, o primeiro amigo e primeiro amor... a primeira decepção.

Adam foi meu amigo desde quando nos tornamos uma dupla. Quando eu estava com dezessete anos e ele com dezenove, nossa amizade ganhou um novo significado. Não éramos mais uma dupla, mas sim um casal, e isso me lembra minha primeira vez. Não muito depois, surgiu o nosso primeiro trabalho: resgatar as joias de uma família rica, cuja guarda não havia sido capaz de recuperar. Éramos bons, trabalhávamos bem em dupla e conseguimos "resgatar" as joias, mas na verdade, nós a roubamos para eles. Pois é, eles mentiram para nós, mas nãos nos importamos com isso, gostamos de ganhar o dinheiro, era a primeira vez que ganhávamos dinheiro por qualquer coisa. Depois deste, vieram vários serviços. Nunca nos importamos com o tipo de trabalho, só queríamos o dinheiro. Nos tornamos mercenários.

Então tivemos nossa primeira casa. Uma casa de verdade, não um buraco pra se esconder do frio. Um ano depois, veio o trabalho que nos tiraria da miséria definitivamente, mas que me trouxe a ruína.

"- É muito dinheiro, Dy! – Disse Adam andando de um lado a outro.

- Mas sempre trabalhamos sozinhos. O contratante quer que trabalhemos em conjunto com outros três caras. – Eu estava sentada em uma poltrona aconchegante, os cabelos úmidos do banho recente.

- Dois caras e uma garota.

- Não faz diferença, Adam, são três estranhos.

- Mas é a vida do rei que está em jogo. Ele será morto durante a viagem, ninguém sabe quem são essas pessoas e quantos são. O contratante só quer garantir que o rei seja salvo, por isso contratou reforços.

- Trabalhar pra família real... – Divaguei. Ele se ajoelhou a minha frente, apoiando-se em meus joelhos.

- O dinheiro vai ser tão bom, que poderemos sair daqui. Nunca mais precisaremos roubar ou fazer serviços questionáveis pra ganhar a vida.

- Tudo bem. – Ele conseguiu me convencer."

Mas quando tudo foi para o inferno, ele não veio me buscar. Não veio me resgatar. Então veio a minha primeira decepção, meu primeiro coração partido, a primeira desilusão. Quatro anos dentro dessa cela, e minha única companhia é a moeda que se tornou um lembrete de como tudo pode ruir, como todo sonho pode ter seu fim e de como não posso confiar em ninguém.

E ainda faltam três anos pra sair daqui.

Capítulo 2 Parte I - A Relíquia da Terra - Capítulo 1

(Diana)

Dois anos, ainda faltam dois anos para que eu seja livre novamente. Mas "livre" é uma palavra estranha para mim, pois não há liberdade quando você não possui determinadas coisas, e quando eu comecei a adquirir essas "coisas' avida me deu uma rasteira, e me derrubou de cara com a lama.

Eu já tinha uma casa, que agora, há essa altura dos acontecimentos, já deve ter sido vendida por aquele idiota que um dia confiei a minha vida e felicidade. Sem dinheiro e lugar onde dormir, não há liberdade. Mas no momento, que queria estar longe daqui. Se um dia consegui viver sem nada nas ruas, quando ainda era uma pirralha, agora aos vinte e três anos de idade, não será difícil.

Um guarda se aproxima da minha cela, o que eu acho muito estranho, pois eles quase nunca vêm aqui.

- Visita pra você, Diana! – Ele anuncia com a voz sem emoção e sai, dando lugar a uma figura muito estranha.

Aproximei-me da das grades, segurei em duas delas de forma paralela e me encostei nelas, curiosa. Os olhos piscavam, era a primeira vez que via alguém além doa guardas em anos...

- Quem é você? – Questionei

O homem se aproximou mais. Decidi que era um homem pela altura e jeito de andar, era masculino, um andar masculino, postura masculina e...

- Tudo bem com você, Diana?

... a voz era masculina também, mas estava abafada com algo.

O homem vestia um capuz escuro de boa qualidade, o tecido era grosso e bem trançado. Dava para ver que não estava gasto, ele não era alguém pobre.

- Melhor agora em te ver... – Falei de modo debochado. – Por que não mostra esse lindo rosto?

- Não há um belo rosto a se mostrar. – Ele se aproximou mais, mas manteve uma postura ereta.

- Não me importo com essas coisas, mas me diz o que veio fazer aqui?

- Curiosa!

- Você não sabe o quanto! – Apoiei meu quadril na grade.

- Eu tenho uma proposta para fazer a você.

- Vai me mostrar seu belo rosto? – Insisti.

- Isso não será possível, querida. – Observei o estranha à minha frente.

- Então nada feito. Não caio nessa mais.

Afastei-me da grade de braços cruzados, e sentei na beira de meu catre com toda dignidade que me restava.

- Mas você ainda não ouviu minha oferta.

- Você pode me oferecer o que quiser, se no fim o que me restar for isto aqui... – Girei o dedo ao redor, mostrando o local onde eu havia vindo parar por conta de um acordo com estranhos. – De nada sua oferta valiosa me servirá.

Concluo convicta.

- Mas se você for recompensada antes de realizar o feito, não haverá esse tipo de problema. – A fala do estranho me deixa atordoada.

- Como poderei realizar qualquer feito ainda estando atrás destas grades? E se você não sabe, querido, ainda faltam dois anos para que eu saia daqui. E quando isso acontecer, não cairei em furada. – Digo convicta, me levantando de onde estava e andando em sua direção.

As roupas da prisão eram deploráveis, o cabelo mais sujo e seco que capim velho, mas ainda assim me colocava a altivez de uma rainha.

- Sei de tudo isso, querida. – Pela primeira vez ele apoiou-se na grade e eu achei que veria a cor de sua pele, mas ele usava uma luva. – E se como seu primeiro prêmio eu lhe tirasse daqui? Então você faria o serviço que tenho pra você e ainda receberá muito dinheiro... mais do que receberia pelo serviço que te colocou aqui. – Ele girou o dedo ao redor como eu havia feito antes.

- Você vai me tirar daqui? Como? Quando?

Ele riu e aquela risada me soou familiar, eu já havia ouvido, mas quem poderia ser?

- Calma, Diana. Preciso saber se aceita o serviço?

- Que serviço? – Por melhor que seja a oferta, aceitar sem saber o que devo fazer, é loucura.

Ele estalou a língua.

- Pra você é um serviço muito fácil: roubar uma joia.

- Roubar uma joia? – Fiquei intrigada. Girei a cabeça, pendendo-a de lado lentamente. – Vai me tirar daqui, me dar muito dinheiro, por uma joia?

- Exatamente. É o que ela é: uma joia.

Afastou-se novamente, cruzando os braços na frente do corpo. Não dava para ver nada: nenhum pedaço de pele nem de roupas, apenas a túnica com capuz.

- Muito obrigada, mas sem mais detalhes eu não aceito. – Disse olhando onde deveriam ser seus olhos.

- Não se precipite – Alertou, mas eu sei que ele precisa mais de mim que eu dele.

- Eu tenho todo o tempo do mundo, na verdade eu tenho dois anos pra esperar você me contar exatamente o que é essa joia. – Escorei-me despreocupadamente na grade, joguei os cabelos para um lado e os enrolei nos dedos. – Mas acredito que você não tenha todo esse tempo.

- Mas você pode sair daqui hoje mesmo.

- Já fiquei cinco anos, um dia... uma semana... uma mês... não fazem muita diferença para mim. – Ele suspirou pesadamente e eu só esperei.

- Esteja preparada pela manhã – Ele virou as costas para sair, mas antes de deixar a câmara virou-se para falar. – Você vai roubar para mim a relíquia do oceano.

(Arya)

A noite foi cansativa, foi noite de penitência e eu e as outras sacerdotisas precisamos passar horas clamando aos deuses por misericórdia por nós e pelo povo. Os deuses tem mandado sinais de que algo grande vai acontecer, mas ainda não sabemos o que é. O mundo está em desequilíbrio, uma das joias está mal guardada.

Aproximo-me mais da joia que é a minha responsabilidade: a Relíquia da Terra. O templo no qual ela está guardada pertence ao deus Arcos, o que controla o solo desde terremotos até a colheita. A relíquia possui o poder de controle de seu elemento, e ela deve ser protegida. Dentro do templo, cercada de guardas e com sua guardiã a todo momento a observando, ela está em segurança, mas nem todas estão.

Observo a pedra cercada por sua redoma, ela parece uma diamante bruto de cor âmbar. Ao receber luz do Sol, um brilho dourado é projetado e há quem diga que pode curar até a mais mortal das doenças e das feridas, desde que ainda haja um fôlego de vida. Com sua aparência rústica, ela possui sua beleza. A toco, pois gosto da sua sensação em meus dedos.

Afasto-me deixando a câmara na qual ela está guardada. Subo o capuz do meu manto, cobrindo meus cabelos loiros. O manto sem adornos de cor creme com uma faixa marrom na cintura é tudo o que uso desde que tinha 12 anos de idade. Eu era a escolhida, todos sabiam desde o meu nascimento e com orgulho meus pais me traziam ao templo para ser ensinada. Quando atingi a idade exigida, fui entregue ao templo para substituir a antiga guardiã da relíquia, mas é claro que antes que ela deixasse a responsabilidade para mim, fui treinada por três anos e os ensinamentos tornaram mais intensos, aos quinze anos assumi definitivamente a responsabilidade pela joia.

Exausta pela noite sem dormir, mas com a obrigação de ir em busca de materiais para o ritual da lua cheia que aconteceria em dois dias, eu deixo as muralhas do templo.

Depois de andar por algumas horas sob o Sol quente e ainda mais cansada do que estava quando saí do templo, retorno com os itens de que precisava, mas antes de atingir as muralhas do templo sou surpreendida por um sujeito.

- Posso falar com você?

Observei o indivíduo de alto a baixo. Ele era moreno, olhos castanhos dourados, cabelos castanhos bagunçados. Magro, parecia alguém que não como nem toma um banho há dias.

- Quer comida? – Questiono. – Há um alojamento onde poderá tomar um banho, comer e descansar antes de tomar seu caminho novamente.

Ele parece surpreso, seus olhos arregalados estavam fixos aos meus.

- Não era o que ia pedir, mas eu aceito. – Sua voz é cautelosa, agora é ele que me observa.

- O que iria pedir?

Seu sorriso é tímido e ele passa a mão nos cabelos alisando-os.

- Para te conhecer, você é muito bonita.

Fiquei sem saber o que responder, nunca um homem demonstrou interesse por mim, até porque nossas trajes escondem muito.

- Enquanto estiver na posição de guardiã, este é meu principal dever. – Respondi simplesmente. – Vou pedir que um guarda o guie até o alojamento dos homens.

Tratei de acelerar o passo e não ouvi mais o que o rapaz falava.

Fui até o guarda, indiquei o rapaz a espera e pedi que lhe desse um lugar para descansar, que desse a ele comida e lhe indicasse o local dos banhos. Sem olhar para trás subi as escadas, adentrando o templo e segui para minhas obrigações. Mas aquele rosto, olhar e sorriso ficaram em minha mente.

Capítulo 3 Parte I - Capítulo 2

(Adam)

Culpo-me até hoje pelo o que aconteceu com Diana. Eu a incentivei, ela tinha medo de trabalhar com pessoas estranhas e eu a induzi, para que no fim a única pessoa detida tenha sido ela.

Salvamos a vida do rei quando ele estava à caminho de outro reino, foi nos dito que alguém queria mata-lo para tomar seu lugar como rei e ele é um homem bom, dentro das possibilidades, reis anteriores eram loucos, viciados em jogos humanos, amantes da guerra entre pessoas famintas e este não, não faz muito para ajudar o povo, mas também não torna sua vida pior. Considerando as possibilidades que nos aguardava, acreditei que deveria salvar a vida do rei, e assim fizemos, mas tudo deu errado.

Assim que a flecha atravessou a garganta do assassino, ou quem seria o assassino, alguém entre a comitiva real viu um de nós e gritou apontando para nossa direção. Tentamos correr, corremos na verdade, menos Diana, ela ficou para trás, não sei o motivo, mas alguém a agarrou. Paralisei ao ver, o arco e flecha não estava em sua mão, não podiam acusa-la de assassinato, não tinham como provar que ela o mataria ou que havia matado alguém, por isso alguém me puxou dizendo que ela ficaria bem. Eu, um tolo, acreditei.

Fugi com eles, peguei o dinheiro e quando soube que ela estava presa tentei retornar. Briguei com todos eles, não houve um único que me apoiasse, me amarraram para que eu não fugisse, levei socos e chutes pra garantir que eu não tentaria qualquer coisa e fui carregado. Na noite seguinte estávamos em alto-mar. O grupo no qual nos envolvemos era um grupo de piratas, os três que estavam conosco era nem metade deles. Fiquei cercado, não tinha como escapar e o jeito foi me aliar a eles.

Hoje sou um deles, saqueio navios em busca de riquezas, mas as coisas estão mudando novamente. Três noites atrás um homem usando um longo manto escuro que o cobria dos pés da cabeça, não era possível se quer ver um milímetro de sua pele ou ouvir sua voz perfeitamente, pois parecia abafada por algo. O homem misterioso contratou nosso grupo de piratas para uma missão, uma missão estranha, mas como envolvia muito dinheiro, nosso chefe não negou.

Como ele nos encontrou ninguém sabe, ancoramos em um porto para abastecermos, não da forma tradicional é claro, e ele simplesmente apareceu.

Eu fiquei incumbido de roubar a Relíquia da Terra, outros dois homens estavam comigo para apoio, mas a missão era minha e estávamos em outro reino, um bem distante de onde eu e Diana vivíamos. Diana, eu tenho que salva-la.

Eu daria um jeito, não sei qual, não tenho ideia de como me desvencilharei deles e do tal homem misterioso, mas darei um jeito. Mas para isso preciso de dinheiro, vou roubar essa joia, pegar meu dinheiro, dar um jeito de tirar Diana da prisão e fugir.

Os homens comigo só sabiam beber, estávamos estudando o movimento do templo. Ele era muito bem guardado, não seria fácil entrar e roubar a pedra simplesmente, mas é claro que não seria fácil, se fosse o próprio homem faria.

O calor era escaldante, a língua estava seca e os idiotas comigo bebiam e bebiam, mas eu não poderia beber ou não conseguiria nada. Eu precisava entrar naquele lugar, conhecer as pessoas que vivem ali e adquirir confiança, somente assim conseguirei roubar.

Mais cedo vi uma mulher com uma túnica diferente das outras deixar o templo e horas depois observei que ela voltava. O que eu ia dizer? Não faço a menor ideia, mas corri até ela e a chamei.

Os olhos dela me pegaram em cheio. Um azul tão lindo e tão límpido, a pele tão clara, parecia até inimaginável que ela estivesse sob um sol escaldante.

Tive que improvisar, mas o importante é que consegui entrar. Observei a mulher subir as escadas e ela nem olhou para trás.

- Melhor esquecer – ouvi a voz do guarda ao meu lado e me lembrei de que não estava sozinho. Olhei-o.

- Não quero nada com ela – disse firme e repreendi a mim mesmo.

- Melhor assim. Por aqui. – Ele apontou um corredor lateral e o segui.

Entrar no templo já consegui, agora preciso conhecer o lugar e ganhar a confiança do pessoal.

***

(Diana)

Roubar a Relíquia do Oceano

Roubar a Relíquia do Oceano

Roubar a Relíquia do Oceano

...

A moeda subia e descia e eu repetia a frase. O quão louca é essa missão? O quão perigosa? Onde fica o templo de Jared mesmo? Pra que esse homem quer uma relíquia tão poderosa? Se me lembro bem, a mais poderosa dentre todas. Mas o dinheiro... a liberdade...

Dormi na noite passada? Mas é claro que não!

Olhei o teto a cada segundo, processando a informação. A frase final foi desestabilizante. Me segurei nas grades para não cair sentada. Me sentei, deitei e ali fiquei. Eu seria livre na manhã seguinte se aceitasse. Eu deveria aceitar? Receberia muito dinheiro por roubar a joia, é exatamente o que ela era: uma joia.

Não interessa se ela pode sugar toda a água de seu corpo e te matar em segundos. Ou que pode mover todo o mar se a ordem correta for dada. Ela era apenas uma joia. Uma muito poderosa, muito mesmo. E se eu morrer pegando-a? Vale a pena arriscar minha vida?

Que vida? Trancada nessa cela há cinco anos e ainda restando dois!

Sentei-me decidida. Vou aceitar a missão, roubar a joia, sair viva desse negócio e pegar minha grana. Sair desse lugar imundo, não me refiro apenas a cela, mas a todo o reino que nunca foi bom pra mim, nunca me deu nada, porém retirou muito. Retirou minha liberdade e agora eu ia pega-la de volta.

Vejo um vulto e percebo que é o homem encapuzado. Devo estar um lixo, não preguei os olhos esta noite.

- E então, pensou bem na proposta?

- Um pouco. – Mantive a pose despreocupada. Levantei-me, andei até as grades e apoiei um braço nelas, acima da cabeça. – Quero uma garantia de que não vou me ferrar novamente.

- Que garantia é essa? – Dava nervoso ouvir a voz dele, ela era abafada por sei lá o quê.

- Dinheiro. O suficiente pra comprar qualquer liberdade, independente de qual buraco eu seja esquecida dessa vez.

Uma risada profunda escapou do corpo do homem. Ele alcançou um bolso interno e pegou uma sacola de couro e jogou para mim.

Peguei-a, abri e tinha joias de todos os tipos, eu era uma mercenária e sabia o valor delas. Peguei-as, averiguando se eram verdadeiras e eram, ali dentro possuía uma pequena fortuna, com aquilo eu compraria um bom lugar longe dali.

- Serve. – Amarrei a sacola novamente e a descartei sobre a cama dura como se não tivesse tanta importância, mas tinha e muita.

Eu poderia jurar que ele sorriu.

- Aceita então.

Não era uma pergunta, mas ainda assim respondi.

- Sim. Aceito.

***

A luz do dia era algo estranho para meus olhos. Não o via há tanto tempo. O buraco onde me enfiaram não tinha uma janela decente, apenas um pequeno quadrado no alto da parede por onde entrava um pouco de ar e uma fina luz nas manhãs e isso era o máximo de luz solar que tive todo esse tempo.

Assim que aceitei a missão, os guardas vieram sem falar nada, abriram as grades e eu saí daquele lugar acompanhada pelo homem misterioso. Para onde estávamos indo? não faço a menor ideia.

- Para onde vamos? – questionei, ficar calada não é algo que consigo, principalmente se estiver com algum incômodo em mente, e eu tinha muitos.

- Viajar

Odeio respostas curtas.

- Já estou viajando, já que não ando nas ruas há cinco anos, isto aqui pra mim já é uma viagem.

Ele resmungou somente, mas não parei.

- Quero saber para onde estou indo, acho que sou o quê? Uma idiota que te seguirá sem saber para onde está indo?

Parei no meio da rua e cruzei os braços. Dois passos depois ele parou também. Virou-se lentamente, e eu podia jurar que seus olhos brilharam de ódio.

- Cuidado, garota.

- Está me ameaçando? Te devolvo as joias – quase todas, mas ele não precisava saber disso – e volto para o buraco de onde saí por mais dois anos, sem problemas.

- Faria isso?

Levantei a sacola com as joias em seu interior.

- Para onde estamos indo?

Ele encurtou a distância, agarrou meu pulso estendido e me arrastou.

- A joia deste reino está em meu poder, vamos para o reino vizinho.

- Quer todas as joias? O que pretende com todas elas? Quer morrer?

- Você fala demais, garota. Já sabe para onde estamos indo, agora cala a boca e anda!

Aquela voz abafada tinha um tom grave que eu já tinha escutado antes, mas onde? Quem?

Fui arrastada até o porto onde um navio estava ancorado. As roupas que me foram dadas estavam agarrando em meu corpo devido ao suor, o calor era intenso, mas descobri que ficaria pior, pois estávamos indo até o reino D'Arcos.

Olhei ao redor me despedindo do local onde vivi toda a minha vida, o reino D'Eryn, o reino do deus do ar. No alto da montanha ficava o castelo e templo, não ia pergunta-lo agora, mas como ele havia conseguido a joia era um mistério para mim.

O castelo era no alto da montanha mais alta do reino, guardas reais cercavam o local, além da guarda real havia a guarda do templo, e seja lá quem for que roubou a joia, teria enfrentado o guardião da Relíquia do ar. Mas isso seria um questionamento para depois. Ele disse que estava de posse da mesma e que estava indo ao encontro do mercenário e seus capangas que ficaram incumbidos de roubar a Relíquia da Terra e que em seguida, seguiríamos para o meu destino.

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