A lua pairava alta no céu, um disco pálido que banhava a densa floresta com um brilho
prateado. O vento sussurrava entre as árvores, trazendo consigo o cheiro de terra
molhada e folhas antigas. Eu, Damian Vólkov corria, meus pés descalços quase não
tocavam o solo enquanto eu me movia com a graça de um predador noturno. Eu não era
um homem comum. Nunca fora. Mas naquela noite, seu destino mudaria para sempre.
O ar carregava o perfume denso da magia, um cheiro doce e intoxicante que se
misturava com o ferro do sangue derramado. Meu peito arfava, e eu parei abruptamente
diante da clareira iluminada por velas negras. No centro, um círculo de runas ancestrais
brilhava com uma luz pulsante, alimentado pelo feitiço que estava prestes a ser
concluído.
- Você demorou, Damian - uma voz feminina cortou o silêncio como um punhal
afiado.
Ergui o olhar, encontrando a figura encapuzada que já esperava por mim. Meu coração
bateu forte - não por medo, mas por uma estranha antecipação. Havia buscado por
anos aquela resposta, aquela solução para um problema que me atormentava desde que
nascera: a maldição de ser um lobo, condenado a caçar sob a luz da lua, a perder o
controle, a temer o próprio instinto.
A mulher retirou o capuz, revelando olhos de um dourado espectral e cabelos escuros
como a noite.
- A imortalidade tem um preço, lobo - ela murmurou, com um sorriso que não
alcançava os olhos. - Você está pronto para pagá-lo?
Não hesitei. Eu sabia que não poderia continuar vivendo na beira do abismo, temendo a
minha própria natureza. Se existia uma maneira de controlar meu destino, eu a tomaria,
independentemente do que fosse exigido em troca.
- Sim - minha voz saiu firme, sem vestígio de hesitação.
A bruxa se aproximou, os pés descalços deslizando sobre o solo coberto de folhas. Com
um gesto sutil, ela ergueu uma adaga ornamentada e cortou a palma da mão, deixando o
sangue escorrer para dentro do círculo de runas. O chão tremeu sob os meus pés , e eu
senti a magia se enredar ao seu redor como correntes invisíveis.
A dor veio primeiro. Queimando minhas veias, incendiando seu corpo de dentro para
fora. Eu cai de joelhos, engasgando com o ar que parecia se solidificar em seus
pulmões. A floresta girou, e ele ouviu a voz da bruxa ecoar ao longe, entoando palavras
em uma língua esquecida pelo tempo.
"Sanguis aeternum ligat, umbrae devorant, vita sine finedamnata est."
Meu mundo se dissolveu em escuridão.
Quando abri os olhos novamente, tudo estava diferente. O vento cheirava mais intenso,
o mundo parecia mais nítido. Eu me ergui, sentindo uma força que jamais
experimentara pulsando em cada fibra de seu ser. Mas algo estava errado. A bruxa me
observava com um olhar de triunfo, como se soubesse algo que eu ainda não
compreendia.
- Parabéns, Damian. Você nunca mais morrerá.
E então ela desapareceu na noite, levando consigo os segredos do feitiço que mudaria
sua vida para sempre.
O tempo não perdoa. Ele devora tudo, reduz homens a memórias esquecidas e impérios
a ruínas. Mas não a mim. Eu permaneci. Não por escolha, mas por uma maldição. Uma
condenação sussurrada sob a luz pálida da lua, quando uma bruxa de olhos negros e voz
de veneno selou meu destino. Desde então, a eternidade tem sido minha carcereira.
A imortalidade é um peso, uma prisão sem grades. Quando fui amaldiçoado naquela
noite, eu não compreendia o que significava existir além do tempo. Agora, séculos
depois, entendo o que a bruxa quis dizer quando sorriu antes de desaparecer na
escuridão. Eu nunca morreria. Mas também nunca viveria de verdade. Cada batida do
coração se tornou um eco distante de um homem que já fui. A paixão, o medo, a alegria,
a dor... tudo se tornou um murmúrio apagado na tempestade incessante dos anos.
Comandei exércitos, assisti a nações nascerem e caírem, vi a humanidade mudar e se
reinventar. Eu me adaptei, tornei-me um homem de negócios, construí um império que
se estende por continentes. Hoje, sou Damian Vólkov, CEO de um conglomerado
bilionário, um nome temido e respeitado no mundo corporativo. Um predador entre
homens. Não por ambição, mas por necessidade. Os fracos desaparecem. Eu permaneço.
A lua cheia brilha através da ampla parede de vidro do meu escritório. A cidade abaixo
é um organismo pulsante, suas luzes piscam como um emaranhado de estrelas
artificiais. Os sons vibram, carros e vidas se movem em um ciclo incessante. Eles
vivem, sonham, amam e morrem. O ciclo se repete, mas eu sou a constante. O whisky
em meu copo desliza enquanto balanço o líquido dourado, mas não bebo. O sabor não
importa. Nada importa.
A eternidade é solitária. Já me afeiçoei a pessoas antes. Homens, mulheres, amigos,
aliados. Eles sempre partem. De um jeito ou de outro, sempre se vão. Eu fico. Eu
observo os sorrisos se apagarem, as promessas se quebrarem, os olhos que um dia me
reconheceram tornarem-se vazios. O tempo os leva. A mim, o tempo ignora.
Nick diz que eu preciso encontrar algo que me prenda a este mundo, algo que me faça
lembrar que ainda estou vivo. Ele é um dos poucos que conhecem minha verdade, um
dos raros que restaram. Meu confidente. Meu amigo, se eu ainda puder chamar alguém
assim. Ele não me teme, e isso é raro.
Respiro fundo, mas o ar é apenas um reflexo de um hábito antigo. O vento traz um
cheiro diferente, algo desconhecido, uma promessa que ainda não sei interpretar. Uma
nota floral, adocicada, diferente do cheiro habitual da cidade. Ignoro. Meus sentidos
estão aguçados demais esta noite.
O telefone toca. Atendo sem pressa.
- Senhor Vólkov, a seleção para sua nova assistente pessoal foi finalizada. Temos uma
candidata promissora.
Minha assistente anterior pediu demissão. Motivos pessoais. Sempre é assim. Humanos
são frágeis, têm seus limites, suas vidas curtas, seus laços que eu não consigo entender
completamente. Para eles, tudo é passageiro. Para mim, tudo é efêmera distração.
- Envie-me o dossiê dela.
A chamada termina. Me recosto na poltrona, sentindo o couro gelado contra minha pele.
Eu deveria me importar? Deveria dar atenção a isso? Provavelmente não. Mas algo,
uma faísca inexplicável, me faz querer ver quem é essa mulher que, sem saber, está
prestes a entrar no meu mundo.
E eu ainda não sei se isso é um erro. Mas se for... talvez seja um erro que eu esteja
disposto a cometer.
O próximo dia amanhece com a previsibilidade de sempre. O sol nasce, os relógios
giram, o mundo continua se movendo. Mas para mim, nada muda. Chego à empresa
antes de todos. O edifício Vólkov Tower é imponente, uma estrutura de vidro e aço que
reflete o céu da cidade. Passo pelas portas automáticas, ignorando os olhares discretos
dos funcionários que se encolhem em minha presença. Eles me respeitam. Ou me
temem. Ambas as coisas são aceitáveis.
O elevador sobe suavemente até o andar mais alto. Meu escritório é uma fortaleza de
silêncio e poder. Papéis já me aguardam na mesa, contratos que valem bilhões, decisões
que moldam economias. Mas antes que eu possa me perder na rotina mecanizada, Nick
entra sem bater.
- Você precisa relaxar, Damian.
Lanço-lhe um olhar impassível.
- Relaxar é perda de tempo.
Ele sorri, jogando-se na poltrona à minha frente.
- Alguma novidade sobre sua nova assistente?
Cruzo os braços.
- Ainda não a conheci. Mas algo nela chamou minha atenção. Algo que não consigo
explicar.
Nick arqueia uma sobrancelha, divertindo-se com minha expressão.
- Isso é interessante. Alguém finalmente capturou seu interesse?
Não respondo. Apenas observo o horizonte pela janela, sentindo que algo está prestes a
mudar. E eu nunca gostei de surpresas.
Nick me estuda por um instante antes de se levantar, servindo-se de um copo de whisky
sem pedir permissão. Ele conhece minhas regras, mas também sabe que é um dos
poucos que podem quebrá-las sem consequências reais. Ele se senta novamente, girando
o copo nos dedos.
- Você não pode passar a eternidade só acumulando riqueza e assinando contratos,
Damian. Precisa de algo mais.
- E o que você sugere? - pergunto, sem desviar os olhos da cidade abaixo.
- Talvez... deixar alguém entrar. Nem que seja por um tempo.
Meu olhar se estreita. Eu já tentei isso antes. O tempo sempre leva tudo embora. Mas,
por algum motivo, a imagem daquela candidata desconhecida paira em minha mente.
Algo nela despertou uma inquietação que há muito tempo eu não sentia. E isso, por si
só, já era perigoso.
Eu nunca acreditei em bruxas. Nem em magia, nem em destinos escritos nas estrelas.
Para mim, o mundo sempre foi aquilo que se podia ver, tocar, medir. Uma sequência de
eventos caóticos, sem propósito, sem explicação além da lógica e da ciência. Mas agora,
com um livro de couro envelhecido sobre minha mesa e palavras escritas em um idioma
esquecido, sinto que toda a minha realidade está prestes a desmoronar.
Foi Sienna quem encontrou o livro, é claro. Ela sempre teve um dom para encontrar
problemas. Seu entusiasmo desenfreado contrastava com minha constante necessidade
de manter os pés no chão. Quando entrou em meu apartamento, naquela noite, os olhos
brilhando como os de uma criança que acaba de descobrir um tesouro, eu deveria ter
sabido que minha vida estava prestes a mudar.
- Celeste, você não vai acreditar no que eu encontrei! - Ela jogou a mochila no sofá e
puxou um volume grosso e empoeirado, colocando-o na minha frente como se fosse a
chave para um segredo ancestral.
Revirei os olhos, pegando o livro com ceticismo. A capa era de couro desgastado, com
símbolos dourados entalhados, alguns familiares, outros completamente desconhecidos.
O cheiro de papel antigo e umidade se misturava ao perfume floral de Sienna, criando
um aroma peculiar que me envolveu de imediato. Abri a primeira página, e meu
estômago revirou ao ver meu próprio sobrenome ali, em letras floreadas.
Moreau.
- O que é isso? - minha voz saiu hesitante, quase inaudível.
Sienna sorriu como quem sabe mais do que deveria. Seus olhos faiscavam, cheios de
expectativa.
- Um diário. Ou talvez um grimório. Estava entre as coisas da minha avó. Você sabia
que sua família é descendente de uma das bruxas mais poderosas da história?
Ri, tentando ignorar o arrepio na nuca. O apartamento pequeno parecia ainda menor,
como se as paredes estivessem se fechando ao meu redor.
- Não seja ridícula.
- Não sou eu quem está dizendo! - Ela puxou o livro de volta e folheou as páginas
amareladas. O som do papel seco rasgando o silêncio era quase ensurdecedor. - Olha
isso. Está tudo aqui. Sua linhagem, seus ancestrais. Essa mulher, Vivienne Moreau, era
uma bruxa lendária. E você... bem, você é sua descendente direta.
Cruzei os braços, tentando manter a compostura, mas meu corpo inteiro estava rígido.
Um nó apertava minha garganta.
- E daí? Mesmo que fosse verdade, o que isso significa? Que eu posso lançar feitiços e
voar em uma vassoura?
Sienna revirou os olhos, impaciente.
- Não estou dizendo que você precisa sair por aí lançando maldições, mas... e se
houver algo nisso? Você nunca sentiu que havia algo diferente em você?
E foi aí que meu coração parou por um segundo.
Porque eu já sonhava com isso. Desde que me entendia por gente, imagens surgiam na
minha mente à noite, como se fossem memórias de outra pessoa. Uma mulher com
longos cabelos escuros, murmurando palavras antigas sob a luz da lua. Símbolos
desenhados na terra, velas queimando em um altar de pedra. E um feitiço. Um
encantamento que eu repetia nos meus sonhos desde criança, sem nunca entender o
significado.
Engoli em seco, minha mente correndo para todos os momentos em que senti algo
diferente, algo inexplicável. Quando objetos caíam sem motivo perto de mim, quando as
luzes piscavam estranhamente, quando eu sabia de coisas antes mesmo que
acontecessem.
- Celeste? - Sienna me chamou, notando meu silêncio.
- Eu... eu sonhei com isso. Com palavras como essas. Desde pequena.
Ela arregalou os olhos.
- Isso não pode ser coincidência.
Olhei para o livro novamente. De repente, parecia muito mais pesado. As palavras
pareciam pulsar na página, como se esperassem para serem lidas, como se exigissem
que eu aceitasse o que sempre recusei.
Lembrei-me de todas as vezes que senti um arrepio inexplicável na espinha, das vezes
em que algo dentro de mim dizia para correr antes que algo acontecesse. De momentos
fugazes em que senti que não estava sozinha, mesmo quando não havia ninguém por
perto.
Talvez eu estivesse errada esse tempo todo. Talvez houvesse mais no mundo do que
apenas o que podemos ver.
Talvez, apenas talvez... eu fosse parte disso.
O mundo tem uma forma engraçada de testar nossas convicções. E, apesar de todas as
evidências que Sienna jogava na minha cara, eu me recusava a acreditar.
Bruxas não existem. Magia não existe. E eu certamente não era descendente de uma
delas.
- Você pode tentar negar o quanto quiser, Celeste, mas os fatos estão aí. - Sienna
cruzou os braços, me observando como se estivesse lidando com uma criança teimosa.
- Esse livro tem seu sobrenome, sua linhagem, sua história.
Bufei, pegando o grimório e folheando as páginas sem realmente absorver nada. Sim,
meu sobrenome estava ali. Mas isso não significava que havia algo sobrenatural
envolvido. Muitas famílias tinham histórias antigas, lendas passadas de geração em
geração. Isso era apenas uma coincidência. Um delírio de pessoas que queriam acreditar
em algo maior do que a realidade.
- Ouça bem, Sienna. - Fechei o livro com um baque e a encarei. - O que é mais
provável? Que eu seja uma descendente de uma bruxa poderosa, ou que alguém da
minha família simplesmente gostava de inventar histórias? A segunda opção me parece
muito mais racional.
Ela revirou os olhos. - E os seus sonhos? Você mesmo disse que sempre sonhou com
palavras que nem sabia que existiam. E as coisas estranhas que acontecem ao seu redor?
Como você explica isso?
Cruzei os braços e respirei fundo, tentando conter minha irritação. - Coincidências. O
cérebro humano preenche lacunas o tempo todo. Talvez eu tenha visto essas palavras em
algum lugar quando era criança e apenas me esqueci. Ou talvez sejam apenas ecos de
algo que minha mente inventou.
- Ah, claro. Tudo tem uma explicação lógica. - Sienna bufou e jogou as mãos para o
alto. - Você é impossível.
- E você é obcecada por essas coisas. - Retruquei, pegando minha bolsa. - Mas eu
não tenho tempo para fantasias, Sienna. Amanhã começo no meu novo emprego, e é
nisso que eu preciso focar. Não em livros velhos e lendas familiares.
- Você acha mesmo que pode simplesmente ignorar isso? Fingir que nada está
acontecendo? - Ela perguntou, me olhando com uma mistura de frustração e
preocupação.
- Exatamente. - Respondi, decidida. - E é isso que eu vou fazer.
Sienna balançou a cabeça, claramente inconformada. Mas não importava. Eu tinha mais
com o que me preocupar. Meu foco agora era o emprego na Vólkov Industries.
Oportunidades como essa não apareciam para pessoas como eu. Eu precisava me
concentrar, ser profissional e fazer isso dar certo.
Enquanto saía do apartamento, tentei empurrar para longe as palavras de Sienna, os
sonhos recorrentes, e todas as estranhas coincidências que pareciam querer me arrastar
para algo que eu não queria acreditar.
Porque se eu começasse a acreditar... o que isso significaria para mim?