Eu flutuo no ar, uma alma penada, observando Arthur, o homem que amei, segurando um bebê ao lado de Isabella, a mulher que tomou meu lugar.
Para eles, sou apenas o Leo que "sumiu", o "possessivo", o "peso morto" que Arthur finalmente se livrou.
Cada palavra deles é uma facada gelada, esmagando a essência do que restou de mim.
Eles não fazem ideia dos sacrifícios, das noites em claro, do meu corpo definhando para que Arthur pudesse ter uma chance de vida.
Arthur, com a aliança em seu peito, diz a todos que Isabella o salvou, que sua fortuna pagou, que o amor dela o curou - uma mentira perfeitamente construída sobre minha morte.
A origem da minha desgraça não foi minha doença, mas sim o amor doentio que senti por ele.
Uma semana se passou, e a notícia da ossada encontrada na ilha despencou na vida de Arthur como um raio – a mesma ilha para onde ele me baniu.
Ele tenta reprimir a verdade perturbadora, enquanto Ricardo, a mando de Isabella, fabrica mentiras após mentiras para o manter na cegueira.
Max, meu golden retriever, o único que ainda me busca, é envenenado, e Isabella, pouco a pouco, apaga cada vestígio meu daquela casa.
O amor que um dia foi meu agora tem uma nova dona, e eu fui completamente esquecido, substituído, como um objeto velho que não serve mais.
Mas a mentira está prestes a ruir, e a verdade sobre o meu sacrifício - e o assassinato orquestrado por Isabella - virá à tona.
Eu flutuo no ar, uma alma penada, observando a cena que se desenrola na minha própria casa.
Arthur, o homem que eu amei, segura um bebê nos braços. Ao seu lado, Isabella, a mulher que tomou o meu lugar, sorri com uma felicidade que me revira o estômago.
Eles estão radiantes.
Amigos e familiares que um dia foram meus também, agora os cercam. Eles riem, parabenizam o novo casal, celebram a nova vida.
"Arthur, você parece outra pessoa! Tão mais feliz!" , diz uma mulher que já foi minha amiga.
"É a Isabella, ela é um anjo. Trouxe luz para a vida dele" , responde outro, e todos concordam.
Ninguém se lembra de mim. Ou melhor, se lembram, mas da forma errada.
"Ainda bem que o Leo sumiu. Era tão possessivo, só sufocava o Arthur."
"Verdade. Vivia doente, sempre se fazendo de vítima. Um peso morto."
Cada palavra deles é uma facada, mesmo que eu não tenha mais um corpo para sentir a dor física. Sinto aqui, na essência do que sobrou de mim. Uma dor fria, vazia.
Eles não sabem de nada. Não sabem dos sacrifícios, das noites em claro, do meu corpo se definhando para que ele, Arthur, pudesse viver.
Arthur olha para o bebê em seus braços, e um sorriso genuíno, algo que eu não via há muito tempo, ilumina seu rosto. Ele parece completo.
Ele se vira para um amigo que pergunta de mim.
"Alguma notícia do Leo?"
Arthur suspira, um ar de enfado.
"Nenhuma. Deve estar por aí, fazendo birra. Aquele garoto nunca soube lidar com a realidade."
Ele continua, a voz baixa, mas eu escuto cada sílaba.
"Ele pode voltar quando quiser, desde que peça desculpas e entenda que agora as coisas são diferentes. Ele precisa aceitar a Isabella e o nosso filho."
Aceitar? Eles acham que eu simplesmente fui embora? Que abandonei tudo por um capricho?
A ironia queima.
Lembro-me das noites em que rezei em frente a todos os santos que conhecia, pedindo pela saúde de Arthur. Lembro-me do dia em que os médicos disseram que não havia mais esperança, a não ser por um transplante experimental, um coração artificial caríssimo e de altíssimo risco.
Lembro-me de assinar os papéis.
Lembro-me da cirurgia.
Lembro-me de dar a ele meu futuro para que ele pudesse ter um presente.
E ele não sabe.
Ou talvez, ele saiba e escolheu esquecer.
Isabella, astuta, se aproxima dele e toca seu peito, exatamente onde o coração artificial pulsa debaixo da pele.
"Meu amor, não pense mais nisso. O que importa é que estamos juntos. Eu daria minha vida por você, você sabe disso."
Arthur a abraça, grato.
"Eu sei, meu amor. Você me salvou. Você é minha heroína."
Minha heroína.
Ele acredita que foi ela. Acredita que a fortuna dela pagou pela cirurgia. Acredita que o amor dela o curou.
Uma mentira perfeitamente construída.
Um amigo, um pouco bêbado, se aproxima de Arthur.
"Mas e o Leo? Ele não tinha aquela doença rara no coração? O médico não disse que só um milagre o salvaria?"
Arthur franze a testa, a memória parecendo uma inconveniência.
"Sim, ele tinha. Mas a Isabella... ela encontrou uma cura, um tratamento novo. Ela cuidou de tudo."
Ele olha para Isabella, os olhos cheios de uma admiração cega.
"O sacrifício que ela fez por mim... foi imenso. Já o Leo, só sabia reclamar."
A cegueira dele é absoluta. Ele reescreveu nossa história, me apagou das partes importantes e me transformou no vilão.
Um sacrifício em vão. O meu sacrifício.
E agora, eu entendo. A origem da minha desgraça não foi minha doença. Foi o amor doentio que eu sentia por ele.
Foi a decisão dele de ter um filho com outra mulher, enquanto eu estava sendo deixado para morrer, sozinho, em uma ilha deserta.
Ele precisava de um herdeiro. E precisava se livrar de mim.
A festa continua, a música alta, as risadas ecoando pela casa que um dia foi meu lar. E eu, invisível, sou apenas uma testemunha silenciosa da minha própria inexistência.
Uma alma penada, presa à dor da traição.
Uma semana se passou.
A televisão da sala está ligada em um canal de notícias. Arthur está sentado no sofá, lendo alguns papéis da empresa, a testa franzida em concentração.
De repente, uma reportagem chama sua atenção.
"URGENTE: Ossada humana é encontrada por pescadores em uma ilha particular remota na costa. A polícia está investigando a identidade e a causa da morte."
A imagem na tela mostra uma praia desolada. A mesma praia. A minha última visão do mundo dos vivos.
Arthur congela. O corpo dele fica tenso, os papéis em sua mão tremem levemente. Uma sombra de pânico passa por seus olhos.
Ele sabe que ilha é aquela. É a ilha para onde ele me mandou. Para onde ele me baniu.
Mas a negação é mais forte.
Ele desliga a TV com o controle remoto, o gesto brusco, violento.
"Bobagem" , ele murmura para si mesmo.
Ele pega o telefone e liga para seu assistente, Ricardo.
"Ricardo, você viu o noticiário?" , a voz dele é dura.
"Vi, senhor."
"É ele, não é? Aquele moleque está aprontando de novo. Fingindo a própria morte para chamar atenção. Que patético."
Arthur não espera uma resposta.
"Eu quero que você resolva isso. Dê um sumiço nessa história. E encontre o Leo. Quando o encontrar, diga que a brincadeira acabou."
Ele desliga o telefone na cara de Ricardo.
A raiva dele é um mecanismo de defesa. Uma forma de não encarar a verdade terrível que tenta borbulhar para a superfície da sua consciência.
Minha mente volta para aquele dia. O último dia.
Arthur me levou para a ilha sob o pretexto de um retiro, um lugar para eu "melhorar da minha doença" . Sozinho.
Ricardo ficou para trás, com instruções. Ele trazia suprimentos uma vez por semana.
Na última visita, eu já estava fraco, mal conseguia ficar de pé. Meus remédios, os que me mantinham vivo depois de doar parte do meu sistema para a cirurgia de Arthur, estavam acabando.
Eu implorei a Ricardo.
"Por favor, Ricardo, eu preciso dos meus remédios. Eu vou morrer sem eles."
Ele me olhou com um desprezo que eu nunca vou esquecer.
"Morrer? Ah, para de drama, Leo. O chefe já se cansou do seu teatrinho."
O frasco com as últimas pílulas caiu da minha mão trêmula. Ricardo, com a ponta do seu sapato caro, chutou o frasco para longe, para dentro do mato.
"Você é um ator, Leo. Sempre foi. Agora aproveite o seu palco."
Ele se virou e foi embora no barco, me deixando ali, com a certeza da morte.
Minha última respiração foi um suspiro de dor e solidão, olhando para o mar, esperando por um resgate que nunca viria.
No presente, a porta se abre. É Isabella.
Ela entra sorrateiramente, como uma serpente. Ela o vê perturbado e usa isso a seu favor.
"Arthur, meu amor? O que foi? Você parece tenso."
Ela o abraça por trás, suas mãos deslizando pelo peito dele.
"Não é nada. Só trabalho" , ele mente.
De repente, um latido.
Max, meu golden retriever, corre para a sala. Ele me amava. Ele ainda me procura pela casa.
Ao ver Isabella perto de Arthur, Max começa a rosnar baixo. Ele nunca gostou dela. Animais sentem a maldade.
"Que cachorro estúpido!" , Isabella diz, com um falso sorriso. "Ele ainda não se acostumou comigo."
Ela se abaixa e, quando Arthur não está olhando, dá um beliscão forte na orelha de Max. O cachorro solta um ganido de dor e recua, o rabo entre as pernas.
Arthur se vira.
"O que foi, Max? Para com isso. Isabella só quer ser sua amiga."
Ele não vê a crueldade dela. Ele só vê a imagem que ela projeta.
Ela se senta ao lado dele, aninhando-se em seu ombro.
"Sabe, eu estava pensando... poderíamos redecorar o quarto de hóspedes. Deixá-lo mais com a minha cara. O que você acha?"
Ela está, pouco a pouco, apagando cada vestígio meu daquela casa.
Arthur, distraído por seus próprios demônios, apenas concorda com a cabeça.
"Faça o que quiser, meu bem."
Mais tarde, naquela noite, eu o observo na cozinha. Ele prepara um copo de leite morno para Isabella. Ele sabe exatamente como ela gosta: com uma pitada de canela e uma colher de mel.
Ele nunca soube como eu gostava do meu café.
O cuidado que ele dedica a ela, os pequenos gestos, a atenção aos detalhes... tudo isso era o que eu sempre sonhei em receber dele.
E agora, ele entrega tudo a ela, de bandeja.
O amor que um dia foi meu agora tem uma nova dona. E eu fui completamente esquecido, substituído, como um objeto velho que não serve mais.