O farfalhar das folhas das arvores era inebriante. Deitar-se na grama entre as arvores e olhar fixamente para o céu faz com que todos os problemas desapareceram. A Sra. Wood sempre dizia a sua filha que uma dama não deveria ser vista rolando no chão como uma camponesa, mas Lucy não se importava. Passava horas deitada na grama, sob a sombras das arvores.
- E se eu fosse uma árvore?
Criava conjecturas em seus pensamentos sobre como seria tudo mais fácil em apenas existir para ser linda e admirada por todos. Todos esses pensamentos esmoreciam com o tilintar dos sinos da Casa Grande chamando todos para o jantar.
Levantou-se rapidamente, deu uma batidinha no vestido e correu para a casa, segurando os calçados nas mãos.
Mal adentrara pela porta de serviço dos criados, já ouviu sua mãe gritar:
- Menina ingrata. É uma desajuizada igual o seu pai. Sabes que um pretendente chegará para conhecer você e suas irmãs a qualquer momento e estás imunda e mal vestida como uma desmiolada sem futuro!
-Sra. Louis, pegue essa menina e resolva isso o mais rápido possível. Quero ela impecável para a chegada do rapaz.
A empregada aquiesceu e agarrando Lucy pelo braço, a guiou para seu quarto, com outras duas jovens em seu encalço.
Fechou a porta atrás de si e enquanto preparava o banho da menina começou a dizer:
-Minha menina, porque não fizestes o que a senhora sua mãe pediu? Sabes como o humor dela fica quando é contrariada. Torna a vida de todos calamitosa.
O jovem rapaz que estava sendo esperado pela família se atrasou devido a um incidente na estrada, o que garantiu tempo suficiente para que Lucy fosse limpa e arrumada como sua mãe determinara.
Sophia e Helena já estavam a mais de uma hora sentadas no sofá na sala de estar, com seus leques a se abanar, enquanto esperavam ansiosamente seu pretendente.
-Será que ele é rico como dizem? E se ele for feio? afirma Sophia baixinho para a irmã.
-Mamãe morre de medo que os nossos filhos sejam feios. Ela jamais aceitaria um genro abaixo das expectativas; corrigiu Helena
-Vamos esperar pra ver.
Quando Lucy desce os degraus da escadaria para a sala de estar, todos ficam admirados com seu vestido azul com detalhes rosas. Vestido de renda com mangas bufantes, diversas rosas costuradas no colo e uma coroa de flores sobre a cabeça, o que acentuava ainda mais seus cabelos que foram delicadamente encaracolados.
- Minhas lindas filhas. Espero que ao menos uma de vocês encontre um esposo essa noite. O desajuizado do pai de vocês só se preocupa com empreendimentos e esquece que o bem mais valioso de uma família, é um casamento bem sucedido.
As meninas começaram a ajeitar os decotes e apertar as bochechas, enquanto inspecionavam se estava tudo ajeitados em suas vestimentas.
Nesse exato momento foi anunciada a entrada do Sr. Thomas.
- Senhoras, anuncio a entrada do Sr. Henry Thomas, filho de Sr. Joseph Thomas; informou polidamente o mordomo.
De maneira galante Henry cumprimentou todos na sala e aceitou o convite da Sra. Wood para se sentar, enquanto aguardavam o jantar.
O Sr. Wood, homem dado aos negócios sempre se atrasava para os eventos tão ansiosamente aguardados pela esposa. Considerava incomodo todo tipo de artimanha da mesma para fazer com que o mesmo chegasse em casa no horário. Tantas vezes, sua estimada esposa já mentira sobre Lucy, Sophia ou Helena, com um pretexto para que ele chegasse no horário e no fim as meninas estavam em perfeita saúde.
Nesse dia ele chegou tão logo o jovem cavalheiro entrara, o que permitiu que os dois fossem ao escritório privado do Sr. Wood para falar de seus negócios, enquanto os preparativos finais do jantar eram acertados por sua estimada esposa.
- Meninas, ajudem a Sra. Louis a por a mesa enquanto seu pai acerta os detalhes do casamento com o Sr. Thomas. Deem o melhor de si e garantam um casamento digno para uma de vocês.
Embora a mãe das meninas só se preocupasse em arranjar casamentos vantajosos, ela não pensou assim a vida toda. O Sr. John Wood que era um jovem destemido na sua mocidade, conheceu a Sra. Louisa Smith, jovem de refinada elegância, em uma viagem a sua cidade natal e logo se encantou com a beleza da moça. Os dois tiveram um romance livre e selvagem, até a família da moça obrigar que os dois casassem, alegando que estavam em pecado por estarem sempre as escondidas pelos cantos da cidade. Com medo de ficar mal falada, o casamento aconteceu as pressas.
Mal casara e a família de John cobrara um filho a jovem moça, que não teve escolha a não ser se empenhar na empreitada. E com isso vieram Lucy, Sophia e Helena.
Após a pressão para ter filhos, Louisa começou a ser pressionada para conseguir bons casamentos para suas filhas, visto que não tem nenhum herdeiro na família. E com isso Louisa se mancomunou com a alta sociedade e acabou fazendo de tudo para conseguir contatos suficientes ate suas filhas terem a idade adequada para o casamento e esse momento enfim chegou.
Mal afastou os pensamentos desse tempo que a muito havia passado, os homens saíram do escritório e se dirigiram a sala de jantar. Após a dança das cadeiras, onde cada um devia se sentar no lugar designado pelo seu mordomo pessoal, Sr. Thomas acabou sentado ao lado de Lucy a esquerda e sua mãe a direita.
-Eu gostaria de agradecer pelo gentil convite para este jantar e pela honra de conhecer tão belíssimas jovens.
O jantar transcorreu de maneira agradável, com conversas polidas e risos discretos. Sr. Henry Thomas, o pretendente, era um jovem charmoso e eloquente, o que agradou muito à Sra. Wood. Durante a refeição, ele fez questão de elogiar o vestido de Lucy e elogiou as filhas do Sr. Wood por sua beleza e encanto.
Enquanto Sophia e Helena tentavam conquistar a atenção do jovem, Lucy parecia um pouco distante, perdida em pensamentos. Ela não compartilhava o mesmo entusiasmo por um casamento vantajoso que sua mãe e irmãs tinham. Em seu mundo, ela ansiava por momentos de paz na natureza, longe das formalidades da alta sociedade.
Após o jantar, a família se retirou para a sala de estar, onde continuaram a conversa. Henry Thomas estava cada vez mais encantado com Lucy, que, embora não demonstrasse muito interesse, tinha um ar de misteriosa sinceridade que o intrigava.
Enquanto a noite avançava, a família estava se divertindo com a presença do ilustre convidado, e assim chegava a hora de Henry tomar uma decisão de qual das jovens havia chamado mais sua atenção.
- Gostaria de mais uma vez agradecer pela estima e gentileza com a qual fui recebido em vossa residência. Me senti muito afeiçoado ao convívio familiar e gostaria de estreitar esse laço com vocês.
As irmãs de Lucy se sobressaíram de tanta comoção e isso dava um ar infantil as elas, exaltando ainda mais os dotes de Lucy que estava em tão grande estima pelo jovem rapaz.
Após limpar a garganta, Henry enfim declarou:
- Gostaria de com a sua permissão, sair para passear nos jardins da cidade amanhã, juntamente com a jovem Lucy.
A Sra. Wood apesar do espanto pela escolha de Lucy, resolveu ceder sua filha para o passeio, se as suas irmãs pudessem acompanhar, afinal não é de bom tom uma jovem passeando sozinha com um rapaz.
Os arranjos foram realizados e o passeio foi agendado para a manhã seguinte.
Lucy naquela noite sentia seu coração disparar de ansiedade. Mesmo que não fosse dada a romances heroicos, grandes paixões e almejasse nada mais que uma vida tranquila, ela ainda era uma jovem moça e se encontrar pela primeira vez com um rapaz fugia da vida ao qual estava acostumada.
Sentou na varanda de seu quarto e passou um quarto de hora apreciando a lua, a leve brisa batendo em seu rosto, as folhas das arvores balançando ao longe junto com o vento e o frio em seus pés descalços.
Perto da residência da família havia uma floresta completamente fechada. O Sr. Wood conseguiu que a prefeitura criasse uma estrada que cruza toda a floresta e chega à cidade, mas todos que moravam nessa floresta jamais chegaram a ser incomodados ou removidos, afinal não causavam nenhum incomodo a ninguém.
Embora a Sra. Wood insistisse que as filhas não deveriam se aproximar naquela região sem estar na carruagem, Lucy sempre sentiu uma atração por aquela região, e coincidentemente seu quarto dava justamente para a floresta.
Lucy olhava com afinco para as folhas quando viu algo se mover no meio das árvores. Limpou os olhos, piscou algumas vezes e olhou atentamente para o mesmo lugar, mas não havia nada.
- Devo estar tão cansada que estou vendo coisas onde não há; balbuciou sonolenta.
Se espreguiçou e foi para cama, pois o amanhã prometia ser muito agradável.
Mal abriu os olhos, sua mãe já estava escancarando as cortinas rendadas e deixando os primeiros raios da manhã iluminar o quarto, para desgosto de Lucy.
- Vamos minha filha, já está na hora. Precisa se arrumar o quanto antes, seu pretendente logo virá ao seu encontro e deve estar uma beldade para recebe-lo.
- Mãe, ele virá apenas a tarde, me deixe dormir; indagou Lucy cobrindo a cabeça com os cobertores.
- Nada disso, minha querida. Para um dia revigorante, precisará de uma manhã revigorante. A Sra. Louis está preparando um banho para você e a cozinheira um belo café da manhã para seu desjejum.
Sabendo que não conseguiria vencer a mãe pelo cansaço, Lucy se arrasta da cama em direção a banheira.
As ajudantes da Sra. Louis cuidadosamente a ensaboaram e esfregaram dos pés à cabeça, usando sabão perfumado e esponjas macias. A água estava morna, e cada toque era suave e reconfortante. Enquanto a água escorria de seu corpo, ela se sentia mais revigorada a cada segundo.
Após um banho luxuoso, as ajudantes a ajudaram a sair da banheira e a secaram com toalhas felpudas. Sua pele estava rosada e macia, como uma pétala de rosa.
Em seguida, elas começaram a vesti-la, cuidadosamente selecionando um vestido deslumbrante. O vestido era uma verdadeira obra de arte, feito de seda delicada e rendas finamente trabalhadas. Era de um tom de amarelo pálido que destacava a tez de Lucy, e possuía mangas bufantes que caíam elegantemente até os cotovelos. O corpete ajustava-se perfeitamente ao corpo da jovem, realçando sua cintura esbelta, e a saia fluía graciosamente até o chão.
Enquanto a vestiam, suas ajudantes cuidavam de cada detalhe. Colocaram-lhe delicados sapatos de cetim, adornados com laços de seda que combinavam com o vestido. Seus cabelos foram cuidadosamente penteados em cachos suaves que caíam sobre seus ombros, e uma tiara de pérolas foi colocada com maestria em sua cabeça.
Quando finalmente Lucy olhou-se no espelho, mal pôde acreditar na visão que a refletia de volta. Ela estava deslumbrante, como uma personagem de um romance de época. Seus olhos brilhavam de felicidade e antecipação, e ela sabia que estava pronta para receber seu pretendente com toda a graça e elegância que sua mãe havia insistido.
Lucy caminhou graciosamente até a sala de jantar para o café da manhã e se deparou com Sophia e Helena tão graciosamente elegantes como a si mesma. Embora a escolha das cores dos vestidos das suas irmãs não a agradou, ela sempre achou que as irmãs iriam amadurecer e melhorar as cores das vestimentas com o passar dos anos.
Ela que nunca fora dada a romances, decidira se comportar como uma dama durante aquele dia. Nunca tivera um dia em sua vida que sua mãe dedicou um dia todo apenas para o seu trato, pois estava mais preocupada em arrumar um casamento para as suas irmãs mais ajuizadas. E esse dia todo girava apenas em torno de Lucy e seu pretendente e ela iria aproveitar o máximo essa oportunidade.
Na mesa do café, todas sentaram formalmente para o desjejum e sua mãe se deliciou com tamanha educação e requinte das filhas.
-Me deleito dos bons modos e requinte de vocês, minhas filhas. Em especial Lucy, que me surpreendeu sendo boazinha e fazendo as coisas corretamente. Espero que esse rapaz bote um pouco de juízo nessa sua cabecinha de vento.
-Ora mamãe, eu tenho juízo. Só guardo para usá-lo quando me convém.
Sua mãe não cedeu a provocação de Lucy e as irmãs cochichavam baixinho uma pra outra e riam do gracejo provocado pela irmã.
O café da manhã transcorreu calmamente e as meninas subiram para retocar a maquiagem.
- Lucy é muito sortuda de ter laçado o primeiro pretendente que apareceu. Esse casamento é muito vantajoso, pois atrairá outros jovens de igual fortuna para nós duas, Sophia.
- Que bobagem, Helena. Ultimamente tenho lido e meus romances me mostraram que devo casar por amor. Seria esplêndido me casar com um objeto de minha afeição.
-Tu que pensas, tola Sophia. Casar com um homem de boa fortuna garante uma boa educação aos filhos, viagens a lugares elegantes e vestidos da mais alta qualidade.
- E quem disse que quero ter filhos? Apenas um amor tranquilo é suficiente para me satisfazer.
- Que disparate! Se mamãe ouvir tal absurdo certeza que te mandaria a um sanatório.
A conversa foi interrompida pela entrada de Lucy no quarto das meninas:
- Me ajudem. O que acham do meu vestido? Não está exagerado? E se ele não gostar de mim como pensa? E se minha companhia não for agradável?
Helena despejava perguntas e mais perguntas sobre as irmãs andando de um lado para o outro do quarto sem parar. Helena a pegou pelos dois braços e a fitou seriamente nos olhos:
-Deixe de bobagens, irmã. Não vejo motivos para ele não cair de amores por você. Guarde sua ansiedade pra si e iremos tornar esse passeio o mais agradável possível para vocês. E pare de andar de um lado a outro. O vestido não ficará mais bonito com você transpirando sem parar.
Foi o suficiente para Lucy sentar na beirada da cama e recuperar o juízo.
Lucy nunca se preocupou com a aparência, mas o jovem rapaz despertava toda sua feminilidade e desejos que antes estavam adormecidos. Decidiu que iria conhece-lo e decidir se gostaria de estender essa relação a algo mais sério.
Algumas horas depois, Sr. Henry chegou numa carruagem luxuosa com mais dois amigos.
Todos desceram da carruagem e se dirigiram a porta da casa da família.
O mordomo anunciou a entrada de todos a sala de descanso:
- Senhoras, temos visitas. Sr. Henry Thomas, Sr. Jeffrey Brown e Sr. Nicholas Gerald.
A Sra. Wood ao ouvir que mais rapazes iriam ao passeio ficou encantada, mas não mais que Helena e Sophia que sentiam que suas preces foram atendidas.
Mal os rapazes entraram na sala, Sophia logo trocou olhares com Nicholas. Os dois ficaram petrificados olhando um pro outro enquanto a Sra. Wood falava sobre qualquer coisa que nenhum dos dois prestaram atenção.
Enquanto isso, a Sra. Wood elogiava as vestes de Henry e passava orientações da hora que as moças deveriam regressar ao lar.
Após alguns minutos, todos se dirigiram para a carruagem em direção a praça central, onde era comum os jovens passearem e conversarem nos dias quentes do verão.
Durante o percurso todos ficaram muito calados. Lucy fitava insistentemente Henry, enquanto os rapazes cochichavam entre si. E as gêmeas trocavam uma palavra ou outra e davam risadinhas.
Sophia não conseguia olhar diretamente para Nicholas sem ficar envergonhada. Então passou boa parte da viagem com o olhar baixo ou apreciando a paisagem. Já Nicholas disfarçadamente olhava a garota sem a deixar constrangida.
O que ninguém notara no passeio foi o olhar malicioso de Jeffrey em Lucy. Ele mediu cada curva do corpo de Lucy com os olhos, que estava distraidamente encarando Henry.
Ele a desejou instantaneamente e queria se aproximar do objeto de desejo do amigo, mesmo que isso significasse a ruina de sua amizade com o rapaz. Com o sacolejar da carruagem, ele conseguia ver o nuance dos seios de Lucy que já estavam bem desenvolvidos para uma garota de dezessete anos. Imaginou todo tipo de obscenidade com a garota naquele curto passeio, mas nada disse, afinal não poderia demonstrar tão verdadeiramente a impureza de seus pensamentos a ninguém, que não a si mesmo.