No meu aniversário de dezoito anos, o cheiro de bolo barato e uma vela solitária marcavam mais um ano de repetição.
Mas esta noite, a indiferença dos meus pais me atingiu mais forte do que nunca.
Eu sabia o meu lugar: culpada pela morte do meu irmão Pedro, oito anos atrás.
Lembro-me de ligar para minha mãe, Lúcia, de um beco escuro, com medo.
"Mãe... socorro...", sussurrei, a voz embargada pelo pavor, uma faca na minha garganta.
"Não tenho tempo para suas crises. Se você não voltar em dez minutos, vou trancar a porta!"
E ela desligou, me abandonando à mercê de um monstro.
Eu deveria ter morrido no lugar dele, sempre me diziam.
Mas a verdade era um buraco negro prestes a engolir a todos nós.
No necrotério, meu pai, Carlos, o perito forense, estava prestes a descobrir a verdade mais cruel.
Aquele corpo mutilado na mesa, a vítima anônima do "Carniceiro da Chuva", lentamente tomava forma sob suas mãos.
Uma cicatriz acima da sobrancelha, um sinal de nascença sutil.
Era eu.
Sua própria filha.
A garota que ele e minha mãe trancaram para fora de suas vidas, a garota que eles culparam e torturaram por anos.
E assim, minha morte abriu as portas de um inferno particular para a minha família, um inferno construído sobre mentiras e negligência.
O cheiro de bolo barato e a chama solitária de uma vela no topo marcavam meu aniversário de dezoito anos. Eu estava sentada à mesa de jantar, um lugar que não me pertencia há muito tempo.
Meus pais, Carlos e Lúcia, sentaram-se à minha frente, seus rostos eram máscaras de indiferença. Ao lado deles, um lugar vazio, com um prato e talheres arrumados de forma impecável.
Era o lugar de Pedro, meu irmão mais velho.
Ele morreu há oito anos. E a culpa foi minha.
"Faça um pedido", disse minha mãe, Lúcia, com a voz vazia de qualquer emoção.
Fechei os olhos. Meu pedido era o mesmo todos os anos: que eles me perdoassem. Que eles me amassem de novo.
Soprei a vela. A pequena fumaça subiu e se dissipou, assim como minhas esperanças.
Ninguém aplaudiu. Ninguém cantou. O silêncio na sala era pesado, quebrado apenas pelo tique-taque de um relógio na parede.
"Já pode ir para o seu quarto, Sofia", disse meu pai, Carlos. Sua voz era grave e fria, como sempre. Ele não olhou para mim. Seus olhos estavam fixos no lugar vazio de Pedro.
Levantei-me sem dizer uma palavra. O bolo permaneceu intocado.
Subi as escadas para o meu quarto, que mais parecia uma cela. As paredes estavam nuas, exceto por uma pequena foto nossa, uma família feliz, tirada antes do acidente. Antes de tudo desmoronar.
Oito anos. Oito anos de penitência. Todos os dias, eu era forçada a me ajoelhar no quarto de Pedro, em frente ao seu retrato, e pedir perdão.
"A culpa é sua que ele se foi", minha mãe repetia, como um mantra cruel. "Você deveria ter morrido no lugar dele."
Eu acreditava nela. Por muito tempo, eu acreditei.
Naquela noite, a noite do meu aniversário, a sensação de desespero era mais forte do que nunca. Eu precisava de ar.
Vesti um casaco e saí para a rua escura e silenciosa. A cidade estava adormecida, mas minha mente estava em um turbilhão.
Eu andava sem rumo pelas ruas vazias, quando um arrepio percorreu minha espinha. A sensação de estar sendo observada.
Virei-me. Não havia ninguém.
Apressei o passo, o coração batendo forte no peito. O medo era uma coisa física, gelada, que se espalhava pelas minhas veias.
De repente, uma mão forte agarrou meu braço, me puxando para um beco escuro e fedorento.
Eu gritei.
Um homem alto, todo de preto, com o rosto coberto por um capuz, pressionou uma faca contra minha garganta. O metal frio fez minha pele se arrepiar.
"Não grite", ele sussurrou, a voz abafada e sinistra.
O pânico tomou conta de mim. Com as mãos trêmulas, tentei pegar meu celular no bolso. Consegui discar o número da minha mãe, a única pessoa que eu conseguia pensar em chamar.
O telefone tocou uma, duas, três vezes.
"Alô?", a voz de Lúcia soou irritada do outro lado da linha.
"Mãe... socorro...", consegui sussurrar, minha voz embargada pelo choro e pelo medo.
Houve uma pausa. Eu podia ouvir a respiração dela.
"Sofia? Onde você está? Está tentando chamar atenção de novo? É seu aniversário, não o fim do mundo. Pare de drama e volte para casa. Você sabe que seu pai odeia quando você sai tarde."
"Não... mãe, por favor... tem um homem..."
"Chega, Sofia!", ela me cortou, a voz dura como aço. "Não tenho tempo para suas crises. Se você não voltar em dez minutos, vou trancar a porta."
E ela desligou.
O som da chamada encerrada ecoou no beco escuro, mais alto e mais aterrorizante do que o som da minha própria respiração ofegante.
Ele me abandonou. Minha própria mãe me abandonou para morrer.
As lágrimas que eu segurava rolaram pelo meu rosto, misturando-se com o suor frio. O homem riu, um som baixo e gutural que fez meu estômago revirar.
"Parece que ninguém se importa com você, gracinha."
Naquele momento, algo dentro de mim se quebrou. A pequena chama de esperança que eu mantive acesa por oito anos finalmente se apagou.
Eu desisti.
Deixei de lutar. Deixei de pedir ajuda.
Se minha própria família não me queria, por que eu deveria querer viver? Qual era o sentido da minha existência?
Lembrei-me dos dias felizes. Dos sorrisos do meu pai, dos abraços da minha mãe, das brincadeiras com Pedro. Uma família perfeita, destruída por um único momento.
Um acidente de avião. Pedro estava nele. E eu, por um capricho do destino, não estava. Eu deveria estar naquele voo com ele, mas peguei um resfriado e meus pais decidiram que era melhor eu ficar.
Eles nunca me perdoaram por ter sobrevivido.
O homem me arrastou mais para o fundo do beco. A dor veio em seguida. Aguda, lancinante. Ele era cruel, metódico.
Lembrei-me do spray de pimenta que meu pai me deu uma vez. "Para sua proteção", ele disse, sem sequer olhar para mim. Estava no meu bolso. Com um último esforço, tentei alcançá-lo.
Minhas mãos encontraram o pequeno cilindro. Apertei o botão.
Nada aconteceu. Estava vazio. Ou quebrado. Não funcionou.
O homem riu de novo. Uma risada de puro sadismo.
A dor se intensificou. Senti meu corpo ficar frio. Minha visão escureceu. A última coisa que vi foi o brilho maligno nos olhos do meu assassino. A última coisa que senti foi a solidão avassaladora de uma vida inteira de rejeição.
Meu nome é Sofia. E esta é a história da minha morte.
Uma sensação estranha. Eu não sentia dor. Não sentia frio. Eu apenas... flutuava.
Abri os olhos. Meu corpo estava lá embaixo, estendido no chão sujo do beco. Quebrado e sem vida. Mas eu estava aqui em cima, olhando para tudo como se fosse um filme.
Eu era um espírito.
Vi os paramédicos chegarem, as luzes piscando em vermelho e azul na escuridão. Vi os policiais isolando a área com fita amarela.
Vi quando eles colocaram meu corpo em um saco preto e o levaram em uma van.
Eu os segui. Eu não sabia para onde mais ir.
A van parou em frente a um prédio grande e cinzento. O Instituto Médico Legal. O lugar onde meu pai trabalhava.
A ironia era doentia.
Flutuei através das paredes e segui o saco preto até uma sala fria e estéril, cheia de mesas de metal. A sala de autópsias.
Uma chuva forte começou a cair lá fora, o som dos trovões ecoando pelas paredes.
Dois homens entraram na sala. Um deles usava um uniforme de detetive. O outro, um jaleco branco.
Meu pai.
"Outra?", perguntou meu pai, Carlos, sem olhar para o saco na mesa. Sua voz era cansada, profissional.
"Sim", respondeu o detetive. "Mesmo modus operandi. O Carniceiro da Chuva atacou de novo."
Carniceiro da Chuva. Então era esse o nome dele.
"Jovens mulheres, sempre. Ele é um monstro sádico", continuou o detetive. Seu nome era Ricardo, um velho amigo do meu pai. Eu o conhecia desde pequena.
Meu pai suspirou, vestindo um par de luvas de látex.
"Provavelmente outra garota rebelde que saiu de casa no meio da noite. Elas nunca aprendem."
Meu coração, ou o que quer que eu tivesse agora no lugar dele, se apertou. Ele estava falando de mim. Ele estava me julgando sem nem saber que era eu.
"Seja como for, Carlos, a crueldade deste aqui... é diferente. Pior. Parece pessoal", disse Ricardo, o rosto sombrio. "Ele não apenas a matou. Ele a desmembrou. E parece que ele tentou... limpar o corpo depois."
Carlos parou por um momento, a mão pairando sobre o zíper do saco.
"Limpar?"
"Sim. Com algum tipo de produto químico. Como se quisesse apagar todos os vestígios, mas de uma forma raivosa. É vingança. Tenho certeza."
Meu pai balançou a cabeça, a expressão endurecida.
"Vamos ao trabalho."
Ele abriu o zíper.
Mesmo como um fantasma, eu desviei o olhar. Eu não queria ver. Eu não queria que ele visse.
Mas ele viu. E a reação dele não foi a de um pai. Foi a de um perito forense.
"Meu Deus...", ele murmurou, mas não havia dor em sua voz. Havia choque profissional. Raiva contra o assassino. "Que animal faria uma coisa dessas?"
Ricardo se aproximou, olhando por cima do ombro do meu pai. Ele fez uma careta de repulsa.
"Consegue identificá-la?"
Carlos balançou a cabeça. "O rosto está destruído. As mãos... ele cortou as pontas dos dedos. Sem digitais. Vai ser difícil."
Ele começou seu trabalho. Com uma pinça, ele começou a examinar os restos do meu corpo. Cada pedaço. Ele era meticuloso, focado. Um profissional no auge de sua carreira.
Eu flutuava no canto da sala, observando o homem que me criou tratar meu corpo desmembrado como apenas mais uma peça de um quebra-cabeça macabro.
Havia uma parte dele que parecia sentir pena. Não por mim, a filha que ele não sabia que estava ali, mas pela vítima anônima. Pela brutalidade do ato.
"Ele a torturou por horas", disse Carlos, a voz tensa. "As marcas indicam isso. E depois... ele tentou juntar as partes de volta. De forma errada. Como um insulto."
"Um quebra-cabeça para você, Carlos?", perguntou Ricardo, a voz baixa.
"Talvez", respondeu meu pai, os olhos fixos no que restava de mim. "Ele está me enviando uma mensagem. E eu vou descobrir qual é."
Ele pegou uma pequena agulha e linha, começando o trabalho mais horrível de todos: costurar meus pedaços de volta. Juntar os membros, tentar reconstruir meu rosto.
Eu assisti, em um silêncio fantasmagórico, enquanto meu pai, o homem que se recusou a me atender o telefone, agora costurava minha pele com uma precisão fria e assustadora.
Ele não chorou. Ele não vacilou. Ele era apenas Carlos, o perito forense, fazendo seu trabalho.
E eu era apenas o corpo na mesa. Evidência de um crime. Nada mais.