Era para ser um dia como qualquer outro na vida de Ana Lúcia, uma esposa e mãe feliz, às vésperas de receber uma fortuna.
Mas a notícia de que sua filha, Sofia, havia caído do 28º andar do prédio, transforma seu mundo em um inferno.
No caminho para casa, correndo contra o tempo para o hospital, um acidente tira sua própria vida e a de sua mãe.
Flutuando sobre a cena de sua morte, ela vê o marido, Pedro, chorando, uma máscara de dor desfigurando seu rosto.
Porém, por um segundo, quando ele pensa que ninguém está olhando, a máscara cai e um sorriso cruel se abre em seus lábios.
Nesse instante, a verdade a atinge de forma brutal: a queda de Sofia, o acidente, tudo foi planejado por Pedro e sua mãe para roubar os 50 milhões de reais da herança que ela receberia naquele mesmo dia.
A raiva é tão intensa que a puxa de volta, um turbilhão de fúria e dor.
E então, Ana Lúcia abre os olhos.
Está viva, de volta ao dia do inferno, com a notificação do depósito bancário em seu celular confirmando o início de sua segunda chance.
Sua filha Sofia está ao seu lado, viva e segura.
Armada com a verdade, Ana Lúcia jura que esta vez será diferente.
Ela fará essa família de escroques pagar por cada lágrima.
Sua sogra, Dona Clara, a confronta com seu desprezo habitual, mal sabendo que os joguinhos dela acabaram.
Pedro, em sua rotina matinal, pergunta sobre o dinheiro, a ganância brilhando em seus olhos.
Ana Lúcia sorri, um sorriso gélido.
Este é o primeiro teste.
O contra-ataque começou.
A morte foi rápida e brutal, um clarão de metal se contorcendo e o som ensurdecedor de vidro se quebrando, depois o silêncio. Na minha vida passada, a dor foi a última coisa que senti antes que a escuridão me engolisse. Eu estava no carro com minha mãe, correndo desesperadamente para casa. A notícia tinha chegado como um raio: Sofia, minha filha de três anos, havia caído do 28º andar do nosso prédio. O desespero era uma coisa física, uma garra apertando meu peito, me sufocando.
Então, o acidente de carro.
Quando minha alma deixou meu corpo, a dor se foi. Eu flutuei sobre a cena, vendo os destroços, meu corpo e o de minha mãe imóveis. E então eu vi Pedro, meu marido. Ele estava no local, chorando, com o rosto contorcido em uma máscara de dor. Meu coração etéreo se partiu por ele, por nossa perda mútua.
Mas então, por um breve segundo, quando ele pensou que ninguém estava olhando, a máscara escorregou. Um sorriso de desprezo, rápido e cruel, brilhou em seus lábios.
Naquele instante, tudo se encaixou. A queda de Sofia. O nosso acidente. O dinheiro.
Naquele mesmo dia, a indenização de 50 milhões de reais pela desapropriação das terras de café do meu pai havia sido depositada. O dinheiro que deveria garantir o futuro da nossa família. O dinheiro pelo qual Pedro estava disposto a matar. Ele e sua mãe, Dona Clara, tinham planejado tudo. Ele queria o dinheiro para fugir com sua amante, Patrícia, que estava grávida de um menino. A família perfeita que ele construiria sobre os túmulos da minha.
A raiva foi tão intensa que me puxou de volta, um redemoinho de fúria e dor que me arrastou para a escuridão.
E então, eu abri os olhos.
A luz do sol entrava pela janela do meu quarto, o mesmo quarto de onde minha filha havia caído. Meu coração martelava no peito, uma batida selvagem de pânico e confusão. Eu estava viva. Eu estava de volta.
Meu celular vibrou na mesa de cabeceira. Com as mãos trêmulas, eu o peguei. Era uma notificação do banco.
"Depósito recebido. Valor: R$ 50.000.000,00."
A data era a mesma. O dia do inferno. O dia em que tudo começou e terminou. Mas desta vez, seria diferente. Desta vez, eu estava armada com a verdade. Eu faria aquela família de canalhas pagar por cada lágrima, cada gota de sangue.
Um som suave me tirou do meu transe vingativo. Eu me virei, o coração na boca. Na cama, aninhada sob o cobertor rosa, estava Sofia. Seus cabelos cacheados espalhados pelo travesseiro, sua respiração suave e regular. Ela estava viva. Ela estava segura.
Corri para a cama, meu corpo tremendo. Toquei seu rosto, sua pele macia e quente sob meus dedos. Era real. Ela estava aqui. Eu a abracei, inalando seu cheiro de bebê, as lágrimas que eu não tinha chorado na minha morte agora escorrendo livremente pelo meu rosto. Eram lágrimas de terror, de alívio, de uma alegria tão avassaladora que doía.
"Mamãe está aqui, meu amor," eu sussurrei em seu cabelo. "Mamãe nunca mais vai te deixar."
Eu a segurei com força, sentindo o calor do seu corpinho contra o meu. Ela era a única coisa que importava. Proteger Sofia era a minha única missão. O dinheiro era apenas a ferramenta para a minha vingança.
A porta do quarto se abriu sem aviso. Dona Clara, minha sogra, estava parada ali, seus olhos pequenos e duros me inspecionando. Seu rosto estava impassível, mas eu podia ver o desprezo mal disfarçado em sua postura, a forma como seu lábio se curvava levemente para baixo. Ela me odiava, sempre odiou. Me via como uma caipira que teve a sorte de se casar com seu filho precioso. Na vida passada, eu tentei agradá-la, tentei ganhar seu afeto. Que tola eu fui.
"O café está na mesa," ela disse, sua voz fria como gelo. "Pedro já vai sair para trabalhar."
Ela olhou para Sofia em meus braços e seu rosto se contorceu em uma careta de impaciência.
"Você vai mimar essa menina até estragá-la. Deixe-a dormir."
Eu a ignorei, levantando-me com Sofia ainda em meus braços. A menina resmungou sonolenta, aninhando a cabeça no meu ombro.
"Nós vamos sair," eu anunciei, minha voz firme, sem espaço para discussão.
Dona Clara ergueu uma sobrancelha.
"Sair? Para onde? Pedro disse que vocês iam resolver as coisas do dinheiro hoje."
"Mudança de planos," respondi, passando por ela sem lhe dar outra olhada.
Eu precisava sair daquele apartamento. Aquele lugar não era um lar, era uma armadilha mortal. Cada canto me lembrava do horror que estava por vir. A janela do quarto de Sofia, o corredor onde ela correu pela última vez.
Peguei minha bolsa e a bolsa de fraldas de Sofia, colocando apenas o essencial. Meu celular, minha carteira. Eu não precisava de mais nada daquela vida.
Quando cheguei à sala, Pedro estava lá, arrumando a gravata no espelho. Ele se virou com um sorriso. Um sorriso que, para mim, era a personificação do mal.
"Bom dia, meu amor. Dormiu bem?"
"Como uma pedra," menti, forçando um sorriso de volta.
Seus olhos foram direto para a notificação brilhando na tela do meu celular, que eu segurava na mão. A ganância brilhou em seu olhar por um instante, tão rápido que na vida passada eu nunca teria notado.
"O dinheiro caiu?" ele perguntou, tentando soar casual.
O destino nos colocou frente a frente no elevador. Eu, segurando minha filha como se minha vida dependesse disso, e ele, o monstro disfarçado de marido. O espaço confinado do elevador parecia pequeno demais, o ar pesado com a tensão que só eu sentia.
"Então?" ele insistiu, seu sorriso se tornando um pouco mais forçado. "A indenização do seu pai. Já está na conta?"
Este era o primeiro teste. O início do meu contra-ataque.
Na minha vida passada, eu teria mostrado a ele o celular com um sorriso radiante, feliz em compartilhar nossa "sorte". Eu me lembrei de como ele me abraçou naquele dia, sussurrando promessas de um futuro maravilhoso. Um futuro que ele estava planejando sem mim e sem nossa filha. A lembrança era amarga, um gosto de fel na minha boca. Eu era tão cega, tão desesperadamente apaixonada por um homem que me via apenas como um obstáculo, um cofrinho a ser quebrado.
"Pedro, sobre o dinheiro..." comecei, minha voz cuidadosamente calibrada para soar desapontada.
Seus olhos se fixaram em mim, a expectativa mal contida. Ele se aproximou um passo, o cheiro de seu perfume caro me enjoando.
"Sim? Caiu? Quanto?"
"Não, ainda não caiu," eu disse, baixando o olhar para parecer triste. "Acho que houve algum problema com a transferência, talvez a burocracia do banco."
A decepção em seu rosto foi instantânea e feia. Ele não conseguiu esconder. Seu sorriso desapareceu, substituído por uma carranca de irritação.
"Como assim, não caiu? O advogado do seu pai não disse que seria hoje sem falta?"
"Eu sei, mas... não está lá. Eu verifiquei."
Ele estendeu a mão.
"Deixa eu ver seu celular."
Meu coração deu um salto, mas eu estava preparada. Era exatamente isso que eu esperava que ele fizesse. Com um suspiro de resignação, entreguei o celular a ele. Antes de sair do quarto, eu tinha aberto um aplicativo de edição de imagens e preparado uma captura de tela falsa do meu extrato bancário, mostrando um saldo baixo, quase insignificante.
Ele pegou o celular, seus dedos ágeis navegando pela tela. Eu o observei, mantendo minha expressão de preocupação. Ele abriu minha galeria de fotos, encontrou a captura de tela que eu deixei convenientemente como a imagem mais recente. Ele olhou para os números irrisórios, seu rosto se fechando em uma máscara de frustração.
"Merda," ele murmurou, devolvendo o celular para mim. "Sempre uma complicação."
Eu peguei o aparelho de volta, minha mão firme apesar do meu coração acelerado. Vitória. O primeiro engano foi um sucesso.
"Eu sei," eu disse, continuando minha atuação. "E eu estava pensando... Sofia precisa tomar a vacina de reforço esta semana. Você poderia me dar um dinheiro? Com essa confusão do banco, eu estou sem nada."
Aproveitei a oportunidade para reforçar minha imagem de esposa dependente e sem recursos. Ele me olhou com impaciência, o pedido o irritando claramente. Para ele, eu e Sofia éramos apenas despesas, sanguessugas.
"Vacina? Ana Lúcia, estamos falando de 50 milhões e você está preocupada com vacina?"
"Mas é importante, Pedro. A saúde dela..."
Ele me interrompeu, passando a mão pelo cabelo em um gesto de exasperação.
"Tudo bem, tudo bem. Depois eu te dou. Eu tenho uma reunião importante agora, não posso me atrasar."
Ele se aproximou para me dar um beijo de despedida. Seu toque me causou um arrepio de repulsa. Eu me forcei a não recuar. Inclinei o rosto, permitindo que seus lábios tocassem minha bochecha. Foi como ser tocada por uma serpente.
"Me ligue assim que o dinheiro cair, ouviu?" ele disse, sua voz autoritária.
"Claro, meu amor," eu respondi, com a voz mais doce que consegui fingir.
As portas do elevador se abriram no térreo. Ele saiu apressado, já pegando o telefone, provavelmente para ligar para a amante e reclamar do atraso em seus planos.
"Tchau, papai," eu disse em nome de Sofia, que ainda dormia em meu ombro.
Ele apenas acenou por cima do ombro, sem se virar. Canalha.