Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Jovem Adulto > Bonecas - Dark Romance Parte 1
Bonecas - Dark Romance Parte 1

Bonecas - Dark Romance Parte 1

Autor:: A.Fagundes
Gênero: Jovem Adulto
SINOPSE Uma das "bonecas" de Benny consegue escapar do cativeiro. Entre culpa e desespero, ela luta para sobreviver enquanto o homem que a aprisionava enlouquece com a perda de sua favorita. Um jogo mortal entre amor doentio e liberdade começa.

Capítulo 1 1

SINOPSE

Uma das "bonecas" de Benny consegue escapar do cativeiro. Entre culpa e desespero, ela luta para sobreviver enquanto o homem que a aprisionava enlouquece com a perda de sua favorita. Um jogo mortal entre amor doentio e liberdade começa.

JADE

Dezoito anos de idade...

Papai sempre nos disse para ter cuidado. Para não falar com estranhos, não importa o quão amigável as pessoas pareçam. Para questionar todos. Com duas meninas ingênuas crescendo em um mundo iníquo, ele queria nos educar e explicar o mal que corria desenfreadamente nos canais de notícias. Ele nos obrigou a assistir aos acontecimentos de um mundo longe que parecia ser o nosso, nos educou sobre os animais que andam na terra com rostos como os nossos, como o dele - mesmo no meio da América. Nós vivemos em uma rua tranquila, em um bairro tranquilo, em uma cidade tranquila, mas isso não significa que os monstros do mundo não estavam à espreita.

Eles estão em toda parte, segundo ele, não apenas nas sombras.

Ele queria que nós percebêssemos o mundo com os olhos apertados e os corações fechados.

E assim eu fiz. Eu sou completamente a menininha do papai, - cética por natureza. Suspeita. Distante. Desconfiada. Eu atendi suas instruções ao pé da letra e mantive minha irmã e eu seguras.

Até que eu não consegui mais. Até o dia que meu mundo girou, girou sobre seu eixo, e tudo foi roubado de nós.

Ou devo dizer, até que fomos roubadas do mundo.

Quatro anos atrás, eu abaixei a guarda por um homem. Eu permiti que a menina curiosa dentro de mim esquecesse a mensagem mais importante que o nosso pai nos ensinou: nem todos os monstros caçam no escuro. Baixei a guarda constante pela atenção dos olhos castanhos e dourados e um sorriso torto. As paredes que eu segurava firme, se enfraqueceram, roubando meu equilíbrio e levando meus hormônios ao caos. Aos quatorze anos de idade, eu estava apaixonada por um homem muito mais velho do que eu.

Benny.

Pelo menos esse é o nome que ele me disse. Ele mentiu sobre isso... ele mentiu sobre tudo.

Pequenas lindas bonitas de Benny.

Eu revivi aquele dia mais e mais, fantasiando um resultado diferente, mas eu sempre acabo aqui. Meu coração ainda gagueja na memória da primeira vez que eu o vi. Eu nunca vou esquecer esse dia.

* * *

Meus pés estão doloridos. Eu devia ter usado minhas outras sandálias como Macy. Ela pula através dos estreitos corredores lotados do mercado, parando para admirar qualquer coisa remotamente brilhante ao longo do caminho. Como ela pode estar tão enérgica com este calor, me surpreende, mas essa é a nossa Macy, cheia de vida e aberta para o mundo. O suor escorre pelo meu lábio e a explosão de sal agita sobre a minha língua, me lembrando da minha sede. Meu vestido adere à minha carne úmida como uma camada extra de pele. De algum modo está mais quente sob o abrigo das tendas do que sob o sol escaldante. Eu limpo o suor no meu lábio superior com a palma da minha mão e vejo um brilho desagradável no olhar de um dos homens com uma barriga saliente, sobre a minha irmã mais nova, enquanto lambe os lábios gordos e ajusta suas calças. Porco.

Precisamos ir.

Eu estou preocupada com o que papai me ensinou. Meu coração troveja em meu peito com a necessidade de arrastar a minha irmã de volta para casa, onde mamãe está nos esperando para jantar daqui meia hora.

Claro, Macy não será dissuadida facilmente.

Sempre curiosa, sorrindo, e ansiosa para conhecer o mundo.

O mercado é o destaque da sua semana e a única liberdade fora do perímetro da nossa rua que papai nos permite ter. Todos os sábados, ela pega o dólar que ganhou por ajudar com as tarefas da casa e passa pelos itens que não pode pagar antes de escolher um brinquedo simples dentro de sua faixa de preço, que ela vai quebrar ou perder e eu vou ter que substituir com alguma coisa minha para ela parar de chorar.

Quanto a mim, eu sou econômica.

Poupo cada dólar.

Assim como papai me ensinou.

Um dia, eu quero ir para uma dessas grandes cidades que sempre vemos na TV, que mamãe assiste, e encontrar esses monstros à espreita. Eu vou ser uma policial e proteger mais do que apenas minha irmã.

Eu não sou impulsiva ou precipitada.

Eu posso esperar.

Infelizmente, minha irmã não pode.

- Oh meu Deus, Jade, - diz ela com um guincho, dando um sorriso brilhante na minha direção e acabo sorrindo em sua excitação. - Olha como eles são lindos.

Eu cerro meus dentes para o homem barrigudo de sorriso lascivo que está andando na mesma direção que nós durante os últimos dez minutos. Ele observa a minha irmã quando ela se inclina para pegar uma boneca da mesa. Quando ele percebe meu olhar mortal, ele dá um olhar envergonhado e se afasta.

- Vinte e oito dólares, - ela murmura com uma pontada de tristeza em sua voz.

Sacudindo a minha atenção para minha irmã, eu sorrio quando vejo a boneca. É uma boneca de porcelana de trinta centímetros com cabelos sedosos na altura do queixo e amplos olhos castanhos, uma réplica exata de Macy.

- Oh, - eu lamento, - ela é linda, mas muito cara. Escolha outra coisa, Macy.

Macy faz uma cara de tristeza antes de colocar a boneca de volta no balcão. Estamos prestes a ir embora quando uma voz nos interrompe.

- Boneca bonita para uma boneca bonita, - um homem afirma em tom suave.

Macy e eu levantamos nossos olhares para o proprietário do estande. As bonecas são esquecidas enquanto nós duas olhamos o rosto bonito sobre nós com um sorriso torto e travesso. Um tufo de cachos castanhos pendem sobre as sobrancelhas em seus olhos cor de âmbar. Com apenas a menor camada de pelos faciais, posso dizer que ele é mais velho, talvez vinte e poucos anos, mas carrega uma inocência nele que o faz parecer mais jovem.

- Ela não pode pagar a boneca, - digo a ele com um ligeiro tremor na minha voz. Ele é bonito como os caras das revistas para adolescentes que mamãe, as vezes, nos permite comprar no supermercado quando não estamos muito apertados.

Seu olhar se fixa entre nós e ele sorri. - Talvez possamos chegar a um acordo. Eu não acho que eu gosto tanto dela quando deixa meninas tão bonitas quanto vocês duas tristes. Eu as prefiro... - ele faz uma pausa, os dentes superiores perfurando seu lábio inferior grosso, quando ele olha para mim enquanto pensa. Prendo a respiração, quase hipnotizada enquanto espero sua resposta. - Sorrindo. - ele sorri e vem em direção a mim. - Quanto você tem?

Eu não tento me concentrar no fato de que ele tem músculos, ao contrário de Bo, da casa ao lado. Ele está no último ano da escola e ainda não tem músculos, não gosto disso. Esse cara é melhor do que Bo, melhor do que esses caras das revistas. Ele é um sonho. Meu estômago se aperta.

Mamãe chama isso de hormônios. Diz que eu vou ser uma mulher em breve. Aiai.

- Eu tenho um dólar, - Macy lhe diz orgulhosamente, levantando o queixo, ganhando sua atenção de volta, e eu lamento a perda do contato. Suas bochechas rosadas viram e eu suspeito que ela esteja envergonhada de ter a atenção desse cara bonito. Eu quero a atenção dele de volta em mim...

Com isso, ele ri. Não parece rude ou como se ele estivesse tirando sarro dela, mais como se ele estivesse entretido pelas palavras dela, como se ele a achasse bonita também.

Uma pontada de ciúme pica através de mim. Eu rapidamente a esmago e me lembro que eu devia estar cuidando da minha irmã, protegendo-a do olhar lascivo de homens e de se meter em encrencas. O ar começa a ficar um pouco mais frio e a multidão começa a diminuir, me alertando de quanto tempo passou.

- Vamos, Macy, - eu assobio, segurando seu cotovelo. - Precisamos ir pra casa. Estas bonecas são muito caras. E você sabe que papai não quer que a gente fale com estranhos.

- Benny, - ele sorri para mim. Uma sobrancelha escura desaparece sob seus cachos e uma pequena covinha se forma ao lado do rosto. - Eu sou estranho, mas eu não sou um estranho. Meu nome é Benny.

Minhas bochechas ruborizam e eu engulo seco. - Não podemos pagar a boneca.

Ele dá de ombros, seus olhos se movendo como se estivesse assistindo a um jogo de pingue-pongue entre eu e minha irmã. - Como quiser. - seus ombros se encolhem de forma indiferente e ele reorganiza a boneca até que ela está de volta no lugar.

Macy se vira e olha para mim. Minha irmã é doce e despreocupada; quase nunca vejo seus olhos castanhos brilhando com raiva. - Você tem dinheiro guardado. Talvez possa emprestar pra mim. Eu nunca tive uma boneca como esta antes. - suas sobrancelhas se juntam e seu lábio inferior se projeta.

Culpa escorre através de mim da mesma forma que o suor pinga nas minhas costas: lento e tortuoso.

- Eu não tenho vinte e oito dólares, - digo a ele com a voz rouca.

O sorriso dele é quente e não faz nada para refrescar minha pele aquecida ou nervos. O tempo está passando e é uma longa caminhada para casa. - Eu poderia vender a boneca para você por vinte dólares. - ele inclina a cabeça, me estudando e eu me viro sob seu olhar.

Macy me dá um olhar esperançoso. Sua raiva desaparece e seus olhos brilham com prazer.

- Quinze. Tudo o que tenho são quinze dólares, - eu digo em derrota, minha respiração saindo num acesso de raiva.

Benny passa a mão na nuca e depois em sua mandíbula enquanto ele contempla o negócio. Há um vislumbre de vitória em seus lábios. - Quinze. Ok.

Soltando um grito, Macy pega a boneca de porcelana em seu braço e gira em um círculo enquanto a abraça contra o peito. Pirralha.

- Obrigada! Eu juro que vou pagá-la em breve! - ela grita.

Engolindo em seco, eu dou a má notícia para os dois. - O dinheiro está em casa. Não tenho certeza se tenho tempo suficiente para ir até lá e voltar antes de o mercado fechar. - ou se o pai vai me permitir voltar uma vez que eu chegar em casa.

Ele franze a testa, os olhos se arrastando entre nós dois. - Acho que posso esperar.

As mãos de Macy tremem quando ela coloca a boneca de volta em cima da mesa, claramente derrotada.

- Ou, - diz ele com um sorriso fácil, - vocês duas podem me ajudar a arrumar aqui. Vou abater mais cinco dólares por seus serviços e então eu posso levar vocês em casa depois de terminarmos aqui. Posso até encontrar seus pais. Quem sabe, talvez nós pudéssemos convencer o seu pai a comprar uma para você também. - seus olhos voltam para mim e minha carne aquece novamente.

- Eu não brinco de bonecas mais, - digo a ele em um tom seco. Por alguma razão, eu quero que ele pense em mim como uma menina mais perto da sua idade, em vez de alguém que brinca com bonecas como minha irmã.

Decepção é gravada em seu rosto e suas sobrancelhas se unem como se eu o tivesse ferido fisicamente. Eu imediatamente me sinto horrível e fico com medo de que ele volte atrás no negócio, deixando Macy irritada e chateada.

- Quero dizer, uh... papai não quer que nós peguemos carona com ninguém.

Os olhos dele se arregalam com compreensão. - Eu não sou ninguém. Sou Benny.

- A menininha quer uma boneca? - uma voz profunda canta atrás de mim. Uma friagem, apesar do calor de agosto, se arrasta até minha espinha. O cheiro de álcool e tabaco me sufoca. - Talvez eu devesse comprar uma para as duas. Mas o que eu recebo em troca? - o homem de antes volta, e desta vez, não há nenhuma vergonha em seu rosto ou na sua sugestão.

Benny foca a sua atenção no homem atrás de mim. Eu fico momentaneamente atordoada por sua súbita ferocidade e me aproximo de Macy. - Fique bem longe, pervertido, antes que eu chame a polícia, seu pedófilo.

- Sim, vá se foder, viado, - o homem grunhe antes de se afastar.

Momentos antes, eu me preocupava que Benny fosse uma ameaça. Agora, eu percebo que ele é simplesmente um cara legal, que quer que uma garota tenha sua boneca e espanta os predadores. Papai iria querer conhecer o homem que assustou um monstro.

- Na verdade, - eu digo a ele com a minha voz brava, - Nós vamos te ajudar. Talvez papai me compre aquela. - eu aponto para uma boneca de porcelana com olhos cor de mel, como Benny e cabelo castanho bagunçado.

Benny sorri. - Você tem um acordo, bonequinha.

* * *

- Última caixa, - Benny diz com um grunhido quando ele a solta na parte traseira de sua van velha. Deve ser daí que todos os músculos tensos em seus braços vieram. Estas caixas são pesadas. Macy e eu não conseguimos levantar nenhuma, mas demos uma boa ajuda embalando as mercadorias.

- Agora podemos ir até o pai de vocês e eu posso tentar convencêlo a comprar duas bonecas. A sua mãe gosta de bonecas?

Macy ri quando fecha as portas de trás da van. - Ela brinca de Barbie comigo às vezes.

Benny dá a ela um sorriso antes de abrir a porta lateral. Ele balança as dobradiças. - Eu já gosto da sua mãe. - sua mão se movimenta para o interior do veículo.

- Eu posso sentar na frente, - digo a ele.

Um lampejo de emoção passa pelo seu rosto antes dele endurecer o seu olhar. - Na verdade, as dobradiças da porta do lado do passageiro estão enferrujadas. A maldita porta pode cair se nós a abrirmos. Você disse que vive aqui perto. Vou aumentar o ar condicionado. Você vai ficar bem na parte de trás e nós não queremos que esta boneca volte sozinha. - ele afaga o cabelo de Macy e ela sorri para ele.

Eu olho nervosamente para minha irmã, mas ela já está subindo na parte de trás da van.

- Eu não sei. Talvez devêssemos ligar para os nossos pais do telefone público. Eu realmente não acho que papai gostaria que fôssemos com você.

Quando ele começa a rir de mim, eu viro uma beterraba vermelha. - V-você acha que eu faria algo assim? Como aquele homem antes? Quantos anos você tem? Doze? - com isso, ele bufa. - Eu não gosto de criancinhas. Acredite em mim.

Raiva toma conta de mim. - Eu tenho catorze anos, e eu não sou uma criança! - exclamo, cruzando os braços em desafio.

- Catorze? - ele sussurra, e algo semelhante à decepção cruza seu rosto. Antes que eu possa ter esperança de que ele possivelmente queira que eu fosse mais velha, ele ri e encolhe os ombros.

Talvez eu estivesse errada sobre a decepção.

Finalmente sua risada diminui, ele segura as mãos para cima em defesa. - Ok, ok, eu entendo. Você não é uma criança. Mas criança ou não, eu não estou interessado em você. Eu normalmente gosto de meninas com peitos.

Agora eu estou irritada e humilhada. Eu o admirei todo esse tempo e ele me vê apenas como uma criança. Não que eu quisesse mais alguma coisa, mas ainda dói um pouco. Com um acesso de raiva, eu subo no banco de trás e cruzo os braços sobre o peito liso. - Só nos leve para casa.

No momento em que ele sobe e sai para a estrada principal, seu humor desapareceu. Ele mexe com uma caixa de gelo no banco da frente ao lado dele e pega uma garrafa de água.

- Com sede?

Deus, sim.

Macy agarra a garrafa da mão dele e avidamente engole mais de metade da garrafa antes de eu roubar dela. A umidade fria que escoa da garrafa é incrível na palma da minha mão quente. Eu engulo o resto em segundos e esfrego o plástico frio sobre o meu pescoço para sentir o frescor da garrafa.

- Você não vai perguntar onde vivemos? - eu pergunto após vários minutos. Ele não tem falado muito e aquele sorriso fácil que enfeitou uma vez os seus lábios, agora sumiu. Seus olhos me rastreiam no espelho acima. Está quente e abafado na parte de trás da van, apesar de sua promessa de ligar o ar condicionado, e me sinto tonta. Meus olhos turvam e minha mente está tonta, eu chego até o puxador da porta para me estabilizar e respirar... onde está a alavanca? Quando eu olho para Macy, a cabeça dela está caída para o lado e ela está enrolada no estofamento confortável.

- Você já me disse, - diz ele, a voz distante.

Minhas pálpebras estão pesadas e eu me esforço para mantê-las abertas. Este calor está realmente começando a me afetar. - Eu não te disse... - cada músculo do meu corpo parece enfraquecido. Meu coração troveja no meu peito, mas eu me sinto impotente para fazer qualquer coisa sobre isso. - Nos leve para casa, - eu exijo em um insulto.

Seu tom é sombrio, nada como o Benny simpático que me fez esquecer todas as lições do nosso pai. - Você vai estar em casa.

O mundo gira e uma onda de náusea passa por cima de mim. - O que há de errado comigo? - minha voz é um mero sussurro.

- Nada. Você está perfeita. Vocês duas são perfeitas. Exatamente o que eu estava procurando. Duas pequenas lindas bonecas preciosas.

Eu mal tenho força para levantar a garrafa de água. É então que eu noto o resíduo branco no fundo do plástico.

Ele nos drogou. Ele é um monstro, um monstro escondido à vista, assim como papai avisou.

- Socorro, - o suave murmúrio da minha súplica não pode ser ouvido sobre o zumbido de Benny. Eu logo reconheço quando ele começa a cantar uma canção de ninar que mamãe costumava cantar para nós quando estávamos doentes.

Senhorita Polly tinha uma boneca que estava doente, doente, doente.

Então, ela telefonou para o médico para vir rápido, rápido, rápido.

O médico veio com sua bolsa e chapéu,

E ele bateu à porta com um rat-a-tat-tat.

Ele olhou para a boneca e balançou a cabeça,

E ele disse: - Senhorita Polly, volte direto para a cama!

Ele escreveu em um papel uma pílula, pílula, pílula,

- Eu vou estar de volta na parte da manhã, sim eu vou, vou, vou .

- Pare, - eu sufoco, mas ele ignora o que eu disse. Depois que ele termina o verso final, ele para de cantar, embora, em seu aparelho de som esteja tocando um rock pesado, que faz o seu caminho em minha cabeça quando tudo escurece.

Socorro.

* * *

Um gemido suave a partir da cela ao meu lado me traz de volta ao presente. O sangue marca minha pele onde estou presa em meus braços. Durante quatro anos, somos mantidas presas por Benny. Suas bonecas. Exceto agora que eu sei que seu nome não é Benny - ou pelo menos, não é assim que estamos autorizadas a chamá-lo.

Benjamin.

Ele nos faz chamá-lo de Benjamin.

Benny com os olhos castanhos e sorriso fácil, não subiu na van naquele dia. Nunca houve Benny.

Em vez disso, nós voluntariamente entramos no veículo de um monstro. Um monstro que passou quatro anos angustiantes nos fazendo de suas bonecas pessoais, que ele gosta de brincar e muitas vezes, ele não é gentil com seus brinquedos.

Passei muito tempo chorando; e com as lágrimas se foi a minha inocência.

Ocasionalmente, Macy chora quando ele está sendo especialmente bruto, ou quando ele sai da cela dela e ela diz a ele que ela pode ser melhor. Ela sabe que se ela não tentar ser a melhor boneca que pode ser, ela não vai ser alimentada por um dia ou dois.

Eu prefiro morrer de fome a ser sua boa boneca.

Devido a este monstro e sua mente distorcida, eu sou insensível. Em vez de pedir e implorar para ele nos deixar ir - o que sempre entra em um ouvido e sai pelo outro, e deixa Benjamin maníaco, cantando sua canção de ninar e depois fica lá pintando os rostos de suas bonecas - eu planejo nossa fuga. Eu planejo sua morte. Eu me certifico de continuar respirando para que minha irmã e eu possamos ter um futuro.

A porta da cela ao lado da minha bate com um som alto. O que quer que seja que ele estava fazendo com Macy, acabou agora, e seus gemidos entalham outra marca no meu coração.

Minha vez.

Sou sempre forçada a ouvi-lo com ela. É a seu jeito especial de tortura, me obrigando a ouvir os gritos dela, então na hora que ele vem para mim, eu estou com raiva. Ele adora quando eu luto e rasgo sua carne com qualquer chance que eu tenho. O psicopata fica fora de si quando eu fico na ofensiva. Ele sempre leva vestidos e maquiagem para a cela dela. Ouço-o decorando-a até que ela vire a boneca perfeita, mas eu não. Ele me deixa nua e indomável.

Em um destes dias, ele vai deslizar e eu vou estar pronta.

Seu corpo musculoso vem à vista sob a única lâmpada de halogéneo na frente da minha cela. Ele está vestindo apenas um par de jeans que pendem em seus quadris. O suor rola pelo seu peito sólido e seu cabelo está encharcado pelo esforço. Sentindo o cheiro acobreado de sangue da minha irmã sobre este homem é algo que ficará para sempre gravado em meus sentidos. Nunca conseguirei apagar, a menos que seja com o aroma de seu próprio sangue quando ele murmurar seu último suspiro.

O homem que faz bonecas artesanais longe de nossas celas em uma estação de trabalho é além de louco. Ele é mais monstro do que qualquer outro homem, mais brutal e desequilibrado do que papai jamais poderia ter imaginado que estivesse à espreita lá fora, esperando.

Um psicopata mentalmente perturbado, e quando ele não está lá fora, trabalhando, esperando, provocando Macy constantemente, eu me pergunto quando ele voltará, se ele voltará. Ele sempre volta e eu não posso salvá-la dele.

Quando ele está surtado, seus olhos cor de mel normalmente escurecem mais. Eu assisto a todos os seus movimentos, escuto cada palavra sua, estudo todas as suas manias.

Eu o conheço melhor do que ele conhece a si mesmo.

Eu conheço seus padrões.

Suas falas.

Suas fraquezas.

E um dia, eu vou atacar. Eu vou acabar com isso e nos salvar, salvá-la, como eu deveria ter feito.

- Aqui está a minha bonequinha suja. Tão selvagem e assustada, mas ainda tão linda. - seus olhos estreitam enquanto seu olhar percorre meu corpo. Está facilmente cem graus, mas eu não posso evitar, eu o desafio. Não estou nua e encolhida. Já arranquei os lençóis do colchão e amarrei ao redor do meu corpo como um vestido. Ele vai levar o lençol com ele, e quando ele sair e a noite cair nas paredes da minha cela fria, eu vou estar exposta e desejando o lençol, mas desafiálo é muito mais atraente, é a única gota de controle que possuo.

Estou prestes a dar uma de esperta, quando reparo. É leve e quase imperceptível, mas eu vejo. Ele está bêbado. Ele nunca está bêbado. Bêbado é bom. Bêbado significa fraco.

Apertando minhas mãos ao meu lado, eu espero. Uma oportunidade como esta é boa grande para não agir. Quando ele entrar, eu vou atacá-lo. Certamente eu posso ser mais rápida. Há um ar de superioridade em seus movimentos e tudo que eu preciso é que ele abaixe a guarda uma vez.

- Seu mestre quer jogar. Que jogo você vai jogar comigo hoje, bonequinha suja? - ele pergunta, um sorriso em seus lábios enquanto ele se atrapalha com suas chaves.

- Nós poderíamos jogar Eye Spy, mas seu pau é tão pequeno, que ninguém pode realmente achá-lo, - eu estalo, incitando-o.

Um rosnado baixo vem de sua garganta. - Ou eu poderia brincar com suas entranhas, quando eu te estripar por ser uma boneca má.

Eu estou acostumada com suas ameaças. Elas são sempre mortais e cruéis, mas ele nunca realmente as cumpre. Eu acho que ele gosta da minha insolência; o que deixa o jogo mais divertido para ele.

O clique da porta destrancando faz com que minha pele suada entre em erupção com arrepios. Em breve, ele vai estar dentro desta cela levando o que ele quiser, exatamente como todas as noites.

Não essa noite.

O pensamento tão repentinamente e feroz me domina com adrenalina. E quando ele deixa as chaves caírem, o som ao redor da minha cela é como uma pistola, me pedindo para ir e eu faço a minha jogada. Atirando a porta com força para a direita, eu a abro com um grito cheio de raiva. Ele mal tem chance de registrar que eu saí da minha cela antes de eu bater meus punhos em seu peito e empurrá-lo forte. Seu corpo instável bate no chão com um baque.

- PARE! - ele ruge enquanto tenta ficar de pé.

Mas eu não paro.

Eu corro pela minha vida. Eu corro por ambas as nossas vidas. Se eu conseguir correr para fora deste inferno, eu posso encontrar ajuda. Eu posso salvar a minha irmã. Eu chego às escadas, e surpreendentemente pulo de dois em dois degraus.

A casa dele é um borrão quando eu entro com pressa em direção a uma porta à direita de uma cozinha. Eu estava em um sótão que virou um calabouço para suas bonecas. Como se meu mundo não fosse ruim o suficiente, é claro que a casa sairia diretamente de um filme de terror. Eu não paro para inspecionar a cozinha ao longo do caminho, para procurar um telefone, ou até mesmo para olhar por cima do ombro para ver se ele está vindo no momento em que passo pela porta da frente.

Eu.

Não.

Paro.

O ar frio me bate na cara, cobrindo todo o meu corpo como um manto. Estamos cercados por bosques. Árvores verdes e vibrantes, enquanto corro tão rápido quanto minhas pernas podem me levar. Eu ignoro a picada de espinhos em cada passo que dou. Eu ignoro o coçar dos ramos, quando eles chicoteiam meu corpo. Nada mais importa, só encontrar ajuda. Atrás de mim, eu ouço a trituração das folhas e grunhidos. Ele está no meu rastro, mas não perto o suficiente.

Ele está fraco.

Bêbado.

Um jogo indigno.

Com cada grande salto através do bosque, eu me distancio mais longe dele. Entorpecida pelo zumbido de dor por todo meu corpo, eu corro até meu peito doer e meus pulmões queimarem pedindo por ar. Estou tonta, com fome, e não acostumada a tais explosões de exercício, mas eu não paro ou diminuo a velocidade até que eu tenho certeza que o despistei. A morte vai me levar antes de eu permitir que ele me leve novamente.

Eu escapo.

Eu escapei, porra. Minha mente grita para mim em histeria, mas nenhum som sai de meus lábios.

E eu vou trazê-la de volta.

Disposta a continuar, eu começo a correr novamente, mais rápido desta vez.

Um soluço alto sai da minha garganta quando eu entendo a situação. Nós estamos finalmente livres. Assim que eu encontrar ajuda, eles vão colocar o psicótico na prisão e vamos voltar para casa com mamãe e papai. Eu ainda estou me segurando nas imagens escuras, o desaparecimento dos meus pais em minha mente quando eu passo pela floresta. Poucos metros à frente há uma estrada. Faróis a cerca de meia milha de distância estão bem na minha direção. Uma euforia ecoa através dos meus ossos quando eu me estico para sinalizar para o carro vindo.

- Socorro! - eu tento gritar.

O veículo parece estar indo devagar o suficiente, com certeza eu posso fazer com que ele pare e me resgate.

- Socorro! - minha voz é rouca, mas minhas pernas se mantêm em movimento.

Quando o veículo começa a desacelerar, eu começo a chorar forte, eu estou cega. Ele não para, apesar de tudo. Eu corro, agitando os braços freneticamente, até que meus pés ensanguentados param na calçada quente.

- Socorro!

O barulho de pneus significa que o motorista me viu. Eles vão parar para mim e me salvar. Eles vão me ajudar e...

Baque.

Metal bate na minha lateral com a força de um trem em alta velocidade. Ossos se quebram em meu corpo como uma sinfonia de tambores ocos. Eu não sei o que está acontecendo até que minha cabeça bate dolorosamente contra o pavimento com um baque que ressoa dentro do meu crânio.

Então, eu estou olhando para cima.

Estrelas brilhantes no céu quando algo quente pulsa do lado da minha cabeça, absorvendo o pavimento debaixo de mim. Eu não vi o céu em quatro anos. É fascinante, bonito, e esparso.

Eu tento falar quando uma mulher mais velha com cabelos grisalhos grita para mim.

Mas eu não posso desistir.

As estrelas diminuem, o céu escurece e preenchem o vazio em torno de mim.

Seus traços desaparecem.

E a escuridão me rouba esse tempo.

Aguente, Macy. Eu estou voltando para você.

Capítulo 2 2

Red

Oito anos mais tarde...

- Jade, está tudo bem? Parece que você não está comendo.

Levantando meus olhos até os olhos preocupados da minha mãe, eu sorrio e coloco uma colher na boca cheia de bolo de red velvet que ela comprou com os nossos cafés. Nós estamos em um pequeno restaurante na cidade. Os assentos de couro vermelho luminosos estão descascando pelas costuras, mas a comida é boa e o café é ainda melhor.

- Estou bem, mamãe, e mais gorda do que nunca.

É verdade. Eu tive que forçar o botão e esticá-lo para conseguir entrar em meus jeans favorito nesta manhã.

- Você deveria voltar para casa para uma refeição caseira. Seu pai gostaria de te ver. - o sorriso que ela oferece enruga seus olhos.

Pegando a caneca de café e deixando o calor mergulhar em minhas mãos através do copo, eu inalo o vapor que ondula na borda da caneca. - Eu irei em breve. Eu prometo. As coisas estão realmente muito complicadas no trabalho.

Ela mexe com uma colher ao redor de seu copo distraidamente. - Você trabalhou tão duro para ser detetive e, então eles te atiram direto no fundo do poço e não te deixam nem mesmo tomar um fôlego.

É estranho que ela ainda queira falar sobre isso. Ela sabe o quanto eu queria este trabalho e quão duro eu trabalhei para conseguilo. Eu perdi quatro anos de ensino por estar longe do mundo. Eu tive que fazer aulas à noite, curso de verão, e estudava duas vezes mais que todos os outros. - Eu gosto de trabalhar, - eu digo a ela, minha voz aumentando. - Se eu não me mantiver ocupada, eu volto para lá em minha mente e...

Seu rosto empalidece, tal como acontece cada vez que eu menciono o que aconteceu. Foi há anos, mas isso ainda está comigo, como um fantasma me assombrando. Mamãe e papai não gostam de falar sobre isso. Eles tentaram continuar de onde paramos quando eu era uma menina de quatorze anos de idade, ingênua e crédula. Essa menina morreu naquela cela na primeira vez que Benny pôs as mãos sobre ela.

O perfume floral me invade quando uma mulher se aproxima com uma criança. Ela está usando muito perfume e sua sombra azul combina com a bolsa azul brilhante que ela está carregando. Um item cai no chão, rolando para o meu pé. Eu me inclino, chegando para ele e paro. É uma boneca. Apenas uma boneca simples, mas que faz com que todos os pelos de meu corpo se arrepiem e minha mente gire descontroladamente.

É um sinal?

Ele está de volta?

Ele pediu para que ela a deixasse cair?

Ele está aqui, me olhando?

Eu pego a boneca do chão e chamo a mulher: - Com licença. - eu levanto e caminho para frente da lanchonete. - Você deixou cair isso.

Os olhos da mulher se arregalam e sua boca se abre. - Oh meu Deus, obrigada. Ela não dorme sem ela. - ela suspira, pegando a boneca e enfiando mais fundo em sua bolsa neste momento. Eu aceno meus dedos para baixo, para a menina, cujos olhos azuis estão fixos em mim. Ela se encolhe na coxa de sua mãe e sorri para mim.

- Jade, - minha mãe chama quando eu ainda estou de pé com minhas mãos enfiadas no bolso de trás da minha calça jeans, olhando da porta para a mulher e a criança que saíram a uns bons vinte segundos atrás.

Eu odeio perder tempo, perder muito tempo pensando e lembrando. É raro para mim, na verdade, ter um dia de folga, mas eu prometi à mamãe que eu a encontraria para um café e compras. Eu não quero fazer compras. O trabalho é onde eu devo estar, à espera de uma chamada para me ajudar a pegar Benny. Ele está adormecido por tanto tempo, mas eu sei no fundo da minha alma que ele irá ressurgir. Cada caso que assumo ser Benny; cada vitória é um dedo do meio para Benny.

Eu consegui fugir.

Eu consegui fugir e eu vou te pegar, seu bastardo.

- Então, que loja primeiro?

- Eu realmente sinto uma dor de cabeça chegando, - eu digo com um gemido, esperando que ela não possa ver através das minhas mentiras. - Você se importa se nós reagendarmos? - eu esfrego minha testa com as pontas dos dois dedos. Ela está acostumada às minhas saídas até agora e como uma boa mãe, ela me deixa ir.

- Está tudo bem, querida, - ela diz quando linhas de preocupação aparecem em sua testa. - Vá para casa e descanse um pouco.

- Eu vou, - eu digo, embora nenhuma de nós acredite na mentira.

* * *

Em vez de ir para casa, eu me encontro de volta na papelada na delegacia. Meu celular avisa que tenho uma mensagem de texto.

Detetive Idiota: $100 que você está trabalhando...

Meu parceiro gosta de me insultar nos fins de semana quando eu devia estar em casa, mas ao invés disso, trabalho em casos antigos e passo por uma papelada velha para ter certeza de que nada foi perdido na primeira vez. Ele é um idiota. Digito de volta com um sorriso se formando em meus lábios.

Eu: Eu poderia estar precisando de uma nova bolsa.

Eu estou largando o meu telefone de volta na mesa quando ele se acende novamente.

Detetive Idiota: HA! Você carrega dinheiro no sutiã. Eu nunca vi você com uma bolsa.

Idiota.

Eu: É por isso que eu preciso de uma.

Ding.

Detetive Idiota: Eu vou recolher o meu dinheiro na segunda de manhã, Phillips.

Duplo pé no saco.

- Phillips, - Chefe Stanton late, me assustando. Puxando meu telefone e colocando-o na minha mesa, eu lhe dou atenção. Está tarde; eu não tinha percebido o quão tarde era até eu olhar para cima do computador. Está escuro lá fora e meu estômago resmunga.

- Chefe, - eu aceno.

Ele para na minha mesa e se inclina. - Hoje não é seu dia de folga?

Suas sobrancelhas grossas e brancas se juntam e ele cruza os braços sobre o peito, enfatizando a barriga de cerveja que ele cultiva.

- Eu só queria fazer alguns ajustes em uns relatórios, - eu minto. Sempre minto.

Ele já sabe quanto tempo eu passo aqui, então ele deve estar aborrecido se ele está de pé aqui quebrando minhas bolas inexistentes.

- Aqui, - diz ele, cavando em sua calça e tirando uma nota de vinte. Ele para um par de segundos antes de me oferecer. - Eu posso ouvir a sua fome daqui. Vá pegar para nós alguns sanduíches de Benny.

Benny.

Baque.

- O quê? - eu suspiro, um tremor choca meu corpo.

- Jenny's Subs, do outro lado da rua, - ele resmunga e depois franze a testa. - Por que você está tão pálida? Ela passou na última inspeção sanitária. Foi apenas boatos sobre o rato. - ele balança a cabeça e acena a mão para me dispensar.

É Jenny, não Benny. Porra. Eu odeio como ele ainda me afeta.

- Na verdade, Chefe, um homicídio acabou de chegar. Eu poderia precisar dela, se isso estiver bem pra você, - Detetive Marcus diz, passando por minha mesa.

Se aproximando, Stanton pega de volta a nota de vinte e acena com a cabeça, gesticulando para eu ir com Marcus.

Encantador. Folgado.

* * *

- Por que você precisa de mim? - pergunto quando nós paramos em um bloco residencial. Nenhum dos detetives do departamento gosta tanto assim de mim, então ele me pedir para vir é incomum, para dizer o mínimo.

- Você vai ver, - ele sorri.

Minhas sobrancelhas se levantam e eu mordo o interior da minha bochecha, quando eu o sigo atrás do zumbido de outros moradores do edifício.

- Nós avisamos à vocês, policiais, que ele a mataria no final e vocês não ouviram, porra, - uma mulher grita, agitando as mãos em volta da cabeça como se estivesse espantando uma vespa.

Apontando para a porta aberta atrás dela, Marcus late, - Entre.

Ela bufa para ele e permanece parada onde pode ver o que estamos fazendo.

Policiais uniformizados estão na entrada da cena do crime.

- Faça essas pessoas entrarem em suas casas e diga a elas que estarei por perto para tomar declarações no devido tempo, - digo ao policial que parece querer vomitar sobre seus sapatos pretos brilhantes. Novato.

Entrando, há ruído e movimento à minha esquerda, onde uma cozinha está situada.

Dois caras de uniformes estão sentados com um homem forte em algemas. Ele está sem camisa e com respingos de sangue por todo o peito e rosto, exigindo ser solto e gritando que foi um acidente. Seus olhos se chocam com os meus e eu imagino vapor saindo de suas narinas quando ele respira pesado e profundo. Nele, eu vejo a mesma escuridão que Benny sempre teve em seus olhos, sem remorso, sem empatia.

Meus pés me levam para a sala de estar, onde uma mulher nua está de costas. Eu roço sobre sua carne exposta, registrando tudo que se destaca. Contusões nos pulsos de cor azul. Ela foi amarrada recentemente. Novos e antigos hematomas no interior de suas coxas. Sinais de sexo violento ou estupro. Hematomas em torno da garganta mostram sinais de estrangulamento. Coloração sugere que foi antes da morte e é mais do que provável que seja a causa da morte. Há uma lesão na cabeça de um objeto contundente, supostamente da lareira, mas o respingo sobre o suspeito na outra sala, o sangue e a falta de inflamação me diz que isso foi causado depois da morte.

Rolando minha cabeça nos meus ombros, eu puxo um par de luvas de látex do bolso do casaco e as encaixo no lugar antes de fazer o caminho de volta através do pequeno apartamento para a cozinha. O suspeito olha pra mim e levanta a cabeça.

- Foi um acidente. Ela caiu, - ele rosna.

- E as contusões? - eu questiono, lançando os olhos sobre ele para estudar a agitação em seu peito.

- Gostamos de foder, - ele diz com um encolher de ombros. - Áspero. Ela adora. Eu aposto que você também. - ele lambe os lábios e suspira para mim antes de enrugar o nariz. - A menos que você seja sapatão.

Porque eu sou uma detetive e não ando por aí no universo feminino? Isso é novo. Idiota.

- O que você usou? - eu pergunto, e seus olhos disparam em mim. - Para esmagar a cabeça. - eu esclareço.

- Ela caiu sobre a lareira, - ele late com um tom defensivo.

Um riso amargo me escapa quando eu movo meu dedo no ar para o sangue no peito dele e no rosto.

- Eu a segurei depois, - ele tenta.

- Você é um idiota.

Seu corpo fica tenso ao meu insulto.

- Você é o tipo que espanca uma mulher, estupra. Um pedaço de merda que estrangulou a namorada até a morte e, depois entrou em pânico. Você esperava que seu cérebro do tamanho de amendoim pudesse bolar um plano, então encontrou algo que pudesse usar para bater na cabeça dela e depois a deixou à beira da lareira.

Eu cutuco seu peito e ele rosna.

- A autópsia irá mostrar a causa da morte, idiota. Mas, enquanto isso, me deixe te ensinar uma coisa. O sangue não coagula após a morte, ele pulveriza de forma diferente, e sem o corpo para bombear o sangue nas veias, ele fica lá dentro, em vez de bombear para fora. - eu chego na parte de trás da sua cabeça e uso todo o meu peso para bater a sua cabeça na mesa, saboreando o estalo quando seu nariz se quebra.

- Filha da puta, eu vou te matar! - ele grita quando o sangue jorra de seu nariz.

- Você tropeçou, e você vai sangrar mais do que ela. - eu sorrio, e me viro para Marcus.

- Ela me atacou. Ela me atacou, - ele grita.

- Você tropeçou, - ambos os caras de uniformes dizem em uníssono.

- Haverá um objeto escondido em algum lugar que ele usou após a morte, - eu aviso. - Talvez um ornamento pesado ou o fundo de um troféu. O estrangulamento causou a morte dela. Eu vou pegar carona para casa.

* * *

Marcus sabia que eu ia ser dura com o suspeito, é por isso que ele queria que eu fosse. Ele sabe que eu odeio violência contra as mulheres mais do que qualquer outra coisa, mas eu não sou o seu entretenimento. Eu posso ter feito o trabalho por ele; eu não ia ficar para a limpeza.

Subindo na cama, eu afago meu namorado, Bo.

Bo Adams, o rapaz literalmente da casa ao lado. Quando eu fui resgatada e, finalmente, encontrei os meus pais, foi Bo que veio em meu auxílio emocional. Meus pais não sabiam nada sobre como lidar com a minha raiva. Fiquei furiosa que eu não conseguia encontrá-la. Furiosa comigo mesma. Furiosa com a polícia. Furiosa com os meus pais.

Foi Bo que me mostrou como canalizar essa agressividade.

Ele me levou para a minha primeira aula de autodefesa apenas três meses depois que eu voltei para casa. Minha cabeça ainda estava fodida e eu estava fraca, mas, eventualmente, eu me tornei obcecada. Não só eu aprendi a me defender, mas aprendi como me livrar de alguém que poderia me atacar e depois fiz outras aulas como kickboxing.

Ele me ensinou a atirar. Primeiro apenas em latas de refrigerante na parte de trás da casa, na mesa antiga de seu pai, mas, em seguida, ele me ensinou a caçar e a cada morte era Benny nos meus olhos. Cada aperto do gatilho, a resistência, e então a recompensa era gratificante. Cada vez eu fantasiava sobre isso penetrando na sua pele, sangue, ossos.

Bo me ajudou a canalizar essa agressividade, o ódio, e o que começou como uma amizade entre ele e eu, evoluiu para algo mais. Uma vez que me mudei para a cidade, Bo me seguiu, conseguindo uma vaga aqui na universidade local, e nós temos vivido juntos desde então. Ele odeia quando eu trabalho até tarde e nos fins de semana, porque este é o tempo que podemos ficar juntos e isso nem sequer é intencional para ele.

Eu sou uma namorada terrível, mas ele simplesmente não pode ver isso.

Rolando sobre minhas costas, eu olho para o teto e rezo para conseguir dormir, assim como todas as noites, para Benny fodido me deixar em paz.

Claro, minhas orações não são ouvidas.

Ele está comigo no momento que fecho meus olhos.

Capítulo 3 3

Rosas americanas

- Pessoa desaparecida. Mulher branca. Catorze anos de idade. Vista pela última vez em Woodland Hills Mall às três e meia, ontem à tarde. Phillips? Você está pronta para ir?

Mulher branca. Catorze anos de idade. Suas palavras ecoam na minha mente, fazendo com que os cabelos arrepiem no meu pescoço.

- Quantos anos você tem? Doze?

- Eu tenho catorze anos, e eu não sou uma criança!

- Sim, - eu respondo, apertando os olhos, - Se acalme, Scott. - a idade da vítima me faz estremecer. É um lembrete de como eu também fui levada nessa idade. Forçando a memória de volta para o fundo da minha mente, eu levanto uma sobrancelha e aceno com um dedo.

Ele resmunga enquanto sai. No momento em que o Chefe Stanton nos designou para trabalharmos juntos, Dillon ficou agitado. Temos sido parceiros por oito meses e ele ainda me trata como se eu fosse um espinho na sua pele. Pode ser por causa da minha idade, mas eu não tenho certeza. Eu sou jovem para ser detetive, mas eu não sou incapaz. Eu trabalhei pra caramba para chegar a uma posição onde eu poderia realmente fazer algo sobre os monstros do mundo.

Benny.

E talvez eu seja um espinho para Dillon, mas eu não serei tratada como se eu não importasse. Ele não tem autoridade sobre mim como ele acredita. Eu deixei isso claro; ele nem mesmo trabalha nos fins de semana.

Eu sou a detetive dos sonhos de Stanton quando se trata de resolver casos difíceis e encontrar os pequenos detalhes que possam incriminar a pessoa. Quando eu estou debruçada sobre os arquivos e provas, estou no meu universo. As pistas não me iludem. Eu faço sentido na loucura. Porque eu vivi dentro dela.

São as pessoas que têm problema.

Pessoas como Dillon Scott.

A fábrica de fofocas na estação é forte. Eu escuto os sussurros e vejo os olhares quando as pessoas passam por mim. Todas elas sabem. Todo mundo sabe que eu fui sequestrada com a minha irmã quando eu tinha catorze anos e que de alguma forma consegui escapar quando eu tinha dezoito, deixando minha irmã com então treze anos de idade para trás. Todo mundo sabe que eu quase morri no dia em que escapei quando fui atingida por uma caminhonete Ford. Inferno, está no sistema, eles só têm de procurar a informação em seu computador e está tudo lá para eles verem. Para fazer suposições sobre mim e falar em voz baixa sobre bebidas no bar... eles são tão sutis como quando seu namorado vai para cima de você usando uma máscara de gás.

Depois do acidente, eu passei três semanas em coma induzido devido à hemorragias internas e inchaço no meu cérebro, e quando eu acordei, eu não me lembrava de nada.

Me lembrava de Benny, ou Benjamin... ou quem diabos ele realmente é, e ele nos levando. Me lembrava da forma como a sua pele lisa era na minha enquanto ele pegava o que não lhe pertencia até tarde da noite. Me lembrava no início o jeito que ela chorava todas as noites até que adormecesse. A pior parte de recordar certos momentos é que ainda afeta a minha vida cotidiana. Eu posso atirar em um homem que puxa uma arma em mim, mas eu não posso ir ao banheiro no meio da noite sem que uma luz esteja acesa. As sombras me afrontam; elas veem me esconder dos monstros que podem estar à espreita. Me lembro do silêncio ensurdecedor do meu estado de sonho. Ele roubou tudo de mim até mesmo meus sonhos. Me lembro do seu cheiro, gosto, altura, quão pesado ele era quando ele me prendia à pequena cama.

Eu simplesmente não conseguia me lembrar de qualquer outra coisa.

As coisas importantes. De onde eu fugi. Quanto tempo eu estava correndo antes do caminhão bater em mim. Quanto tempo nós andamos a partir do mercado no dia que ele nos levou. A marca e o modelo de sua van. Reconhecer qualquer alimento que ele nos deu. Qualquer tipo de detalhe que pudesse ajudar. A polícia me fez estas perguntas, e são as mesmas perguntas que eu faço às outras vítimas.

E nunca leva à nada.

A polícia sondou a área do acidente. Nenhuma casa foi vista. Era como se eu estivesse fora do ar.

E eu estive procurando por ela desde então.

Até eu encontrá-la, eu faço o que posso para encontrar outras garotas desaparecidas. Eles me chamam de rastreadora, em tom de brincadeira.

Eu sou cruel e burlo as regras quando preciso, a fim de resolver casos de pessoas desaparecidas.

Chefe Stanton e tenente Wallis estão sempre na minha cola. Eu tenho feito isso mais vezes do que posso contar enquanto eu caço coelhos sem direito a uma cobertura na cova do leão. Até agora, eu tenho sorte, e eu vou levar toda a sorte eu posso. Eu preciso dela para encontrá-la. Eu nunca vou desistir dela.

Mas minha personalidade determinada é o que me faz passar por parceiros como a maioria das pessoas mudam suas roupas íntimas. Ninguém gosta de trabalhar comigo. Dillon durou mais tempo, eu vou dar isso a ele. Mas ele é um canalha e ninguém gosta de fazer parceria com ele também. Nós somos um par improvável.

Durante todo o percurso para o shopping, eu me pergunto se esta menina desaparecida pode ser a ligação para encontrar a minha irmã. É como eu trato cada caso de pessoa desaparecida. Com um pente fino, eu junto os detalhes até que eu encontre evidências e pistas. Nossa delegacia leva o status de casos resolvidos, e por isso somos muito elogiados. Isso mantém os meninos felizes.

Eu não me importo com isso, apesar de tudo. Ou com os prêmios.

Eu não me importo se eu for elogiada milhares de vezes.

Tudo o que importa é encontrá-las.

Encontrá-la.

Eu sempre quis ser da força policial, mas depois dele, depois de deixar ela, eu tinha que ser. Eu precisava da melhor posição e recursos à minha disposição para ajudar a caçá-lo.

- Este lugar realmente se tornou uma merda desde os anos noventa. Na minha época, este shopping era um lugar respeitável. Éramos bons filhos e não entrávamos em qualquer merda. Agora, ele está cheio de gangsters. Olha, - Dillon aponta quando ele circula um grupo de adolescentes em sua maioria de pele escura - entendi.

Eu rolo meus olhos quando ele para o carro. - Você é um caipira racista, Scott. Essas crianças se parecem com adolescentes normais para mim. Vá para dentro e faça perguntas às pessoas respeitáveis. Vou falar com os 'gangsters'. - eu sorrio para ele, e recebo um murmuro de volta: - Porra, eu não estava me referindo à cor da pele dele.

- Se eu for 'castrada' enquanto você estiver lá dentro, foi bom te conhecer, - acrescento, trazendo os dedos até os lábios para imitar ter medo. Ele resmunga, mas não me recompensa com uma resposta. Abordo a 'gangue' com um propósito.

Encontrar a menina.

- Detetive Phillips. Eu gostaria de fazer a vocês algumas perguntas, - eu digo, revelando meu distintivo no meu cinto.

Um par de rapazes adolescentes me olham nervosos e assobiam baixinho, mas eu não estou aqui para amedrontar ninguém ou seja lá com que eles estejam preocupados. Eu só me preocupo em encontrar a menina.

Puxando meu telefone do bolso do blazer, eu seguro um retrato da pessoa desaparecida. Alena Stevens. Seus olhos azuis brilhantes me assombram. Ela é doce e inocente. Como eu era.

- Vocês estavam aqui ontem meninos?

- Pfft... meninos. - um dos meninos cruza os braços e olha para mim. - Sim, e daí? Não é um crime.

- Viram esta menina? - pergunto, segurando a foto.

O grupo visivelmente relaxa e uma menina com cabelo preto puxado em um rabo de cavalo se aproxima. Ela mastiga o seu chiclete e estreita os olhos. - Sim, eu acho que a vi no Raze ontem. Ela estava tentando algumas bombas de glittery-ass que se meninas brancas fossem pegas vestindo, estariam mortas. - o grupo ri, todos, exceto uma menina de pequena de pele macia de mãos dadas com um rapaz, a garota não mantém os olhos para cima. Eu levanto uma sobrancelha para ela.

- Você tem uma irmã? - eu questiono, a minha voz suave.

Ela inclina a cabeça para a garota ao lado dela que se parece com ela. - Keisha, sim. Por quê?

- Alena é irmã de alguém. Alguém a tirou de sua família. O mundo está cheio de maldade. Cada segundo é precioso para encontrar esta menina. Se fosse Keisha, você iria querer ajudar também.

Seu olhar amacia e ela olha para Keisha. - Eu a vi conversando com um cara do lado de fora da loja.

Meu interesse e atenção mudam para ela e eu me viro, questionando. - Cara? Descreva o cara.

- Eu não sei. Bonitinho, eu acho, se você gosta de Orlando Bloom. - sua irmã ri e um frio passa na minha espinha.

- Por favor, seja mais descritiva. Qual o seu nome?

- Kiki.

- Como era o homem, Kiki? Ele era jovem? Velho? Ele tinha pelo no rosto? O que ele estava vestindo?

Ela brinca com o brinco de argola na orelha dela ao olhar sobre o meu rosto. - Talvez da sua idade. Você sabe, mais velho. Ele tinha cabelos castanhos encaracolados. Eu acho que ele era bonito. Uma menina branca acharia isso. O rosto dele era brilhante e a menina estava sorrindo tanto que eu pensei que ela estava planejando seu casamento em sua cabeça ou algo assim.

Um tremor ondula através de mim. Me lembro do jeito que ele fez Macy e eu sorrir. Como ele nos cortejou para sua van. É ele. Tem que ser ele. Um senso de urgência surge e, em seguida, sinto o sangue gelar que corre pelas minhas veias e se instala no meu coração. Um baque, um baque, um baque. E se for ele e ele estiver procurando uma nova boneca, e se ele tiver acabado com Macy?

- Pode me dizer mais alguma coisa? Você conseguia ouvir o que eles estavam conversando? Ele a forçou a ir com ele? - eu lato e meu olhar é raivoso sobre ela, fazendo-a perder o atrevimento que ela parecia ter momentos antes. Sua mão cai de seu quadril e a embala em torno de seu estômago.

Ela encolhe os ombros, mas sua voz prende um ligeiro tremor. - Ele não estava forçando-a a fazer nada. Ela apenas balançou a cabeça, concordando com as coisas que ele disse e o seguiu.

Com um suspiro, eu forço um sorriso apesar de querer vomitar. - Obrigada. Qualquer outra pessoa viu alguma coisa que possa nos ajudar em nossa investigação? - eu ainda não tenho nada que eu possa realmente trabalhar - nenhum rastro para seguir. Apenas uma descrição que pode ser ele, mas também milhares de outros homens.

Todos eles abanam a cabeça e eu tento não deixar que o esmagamento da derrota me engula.

Esta não é uma derrota; ainda pode ser uma vantagem. O criminoso soa estranhamente como ele, e o comportamento coincide com o modo que ele opera.

Eu vou encontrar esse imbecil, eventualmente.

* * *

- Não. - eu aponto para a imagem no monitor a partir das imagens de segurança do shopping. É Alena saindo da loja sozinha e um homem que corresponde à descrição de Kiki a seguindo a menos de um minuto mais tarde. A cabeça dele está para baixo e ele usa na cabeça um boné de beisebol para esconder o rosto. - Você pode alterar o ângulo? - exijo.

- Não, este é o único nessa parte do shopping, - o cara da tecnologia diz, brincando com botões e trazendo a iluminação mais clara na tela para iluminar melhor a imagem. Esta sala é pequena e abafada como o inferno. É claustrofóbico para um shopping grande e tem que haver uma centena de monitores aqui. A grande estrutura de Dillon e a minha própria nesse pequeno espaço me sufoca cada vez que eu inalo, é com se eu estivesse enchendo os pulmões de ar com o seu exalar. Ele já tem cheiro doce e está comendo algo doce. Meu estômago ronca e eu rolo os olhos para o próprio pensamento de doce e Dillon no mesmo espaço.

- E sobre as saídas? - Dillon pergunta, se inclinando sobre o ombro do rapaz e escovando meu braço. Um arrepio gelado me atravessa, apesar do calor da sala. Eu não fico bem em espaços apertados.

Ele mexe em seu computador e clica em um arquivo. - Quando vocês ligaram esta manhã, eu pesquisei aqui e encontrei a menina, - diz ele, apontando o dedo para a tela. - Aqui está ela saindo do shopping.

Ele nos mostra a menina em uma câmera diferente. Ela está saindo através do estacionamento ao sudoeste e rapidamente sai de vista. O cara da segurança levanta a mão para cortar as filmagens e eu agarro seu pulso, parando-o. - Espere. - momentos depois, o homem do boné sai.

Minha frequência cardíaca aumenta à medida que eu vejo o homem na tela. Ele não parece grande o suficiente para ser Benny, mas faz oito anos desde que eu o vi pela última vez. Ele pode ter perdido peso e massa.

É ele. Tem que ser ele.

- Ele vai numa direção diferente, - Dillon anuncia, deixando cair seu olhar para o meu peito e, em seguida, olhando para longe. É sutil, mas eu pego isso imediatamente. Me sinto inundada de calor, o que não ajuda a minha situação nesta sala apertada.

- Não significa que ele não tenha voltado. - eu argumento, me abanando, - ou a levou para uma direção diferente.

Sua cabeça gira de volta para mim, as sobrancelhas escuras se juntam enquanto ele me examina. - Ou ele é apenas um cara que saiu do shopping para ir para casa.

Aí está novamente. Seu olhar cai para meu peito e eu olho para o local enquanto ele continua de boca aberta. Minha abre e, em seguida, fecha, a minha pele queima com essa humilhação. Um botão está aberto e suor brilha no meu decote e tudo está lá fora para todo mundo ver. Pego meu casaco, e o fecho sobre minha camisa e queimo de vergonha.

Um sorriso aparece no canto de seus lábios e ele dá um ligeiro aceno de cabeça antes de falar sério novamente. - Ele não volta. Ele é apenas um cara, - Dillon conclui, trazendo os olhos para meu rosto.

Apenas um cara minha bunda. Benny não é apenas um cara, ele é um monstro.

Eu bufo, derrotada. Dillon está certo. Vamos precisar de mais do que a evidência sobre a filmagem. Batendo no ombro do cara que está em frente ao computador, eu aponto um dedo para a tela, e digo a ele, - Envie isso para a delegacia. É evidência.

Deixo Dillon e o homem sozinhos, escapando ansiosamente da sala sufocante que me faz lembrar muito a prisão que eu vivia.

Eu vou pegar você, Benny.

* * *

- Como foi seu dia, babe?

Eu largo minha arma e distintivo na mesa ao lado da minha bolsa e sigo o aroma na cozinha, onde Bo está em pé na frente do fogão.

- Bem, - eu digo com um suspiro, passando a mão em suas costas enquanto eu espio a frigideira. - Bife de hambúrguer, hmmm. - se ele não cozinhasse para mim, eu teria morrido de fome há muito tempo.

Ele ri e beija o topo da minha cabeça. - Você se parece com o inferno hoje. Que bom que voltou para casa. Tem certeza que está tudo bem? - suas sobrancelhas levantam em questão.

- Só o que quero é ouvir as novidades do homem que afirma me amar, - eu brinco, roubando um pedaço de aipo da tigela de salada que ele está preparando.

- Eu não apenas afirmo, babe. Eu vou te mostrar isso também, mais tarde. - ele pisca e eu suspiro internamente. Ele realmente é um bom homem.

Meus olhos se arrastam sobre o seu rosto bonito, olhando suas feições doces. Ele não tem muito pelo no rosto, mas o que ele tem combina com o cabelo loiro escuro, naturalmente desgrenhado, que ele agora mantém curto por minha causa. A primeira noite que dormimos juntos, quando ele se aninhou em mim no quarto escuro e seus fios fizeram cócegas sobre a minha pele, me virei refém de um terror noturno com ele – só que eu não estava dormindo. Eu lutei contra ele, joguei Bo no chão, deixando uma cicatriz acima do seu olho direito quando dei um soco com o anel que ele havia me presenteado mais cedo naquele dia. Eu era uma bagunça naquela época, ainda sou agora, mas ele me adora. Eu sinto em seu toque, quando ele olha para mim com aqueles olhos azuis cristalinos e a forma como o seu sorriso ilumina cada quarto que eu escureço. Nós realmente fazemos essa brincadeira.

O universo fez com que as coisas se equilibrassem.

- Na verdade, - eu digo a ele, bufando, enquanto pego os pratos - Foi terrível. Pessoa desaparecida. Alena Stevens. Catorze anos.

Sequestrada do shopping por ele.

Ele desliga o fogão, mas não diz nada, e eu sinto a mudança no seu humor. Bo odeia a minha obsessão de encontrar Macy. Ele sabe que eu trato cada caso como uma pista para encontrá-la, e este não é diferente. Dizer alguma coisa sobre o caso é inviável, mas se eu não puder desabafar agora, eu silenciosamente vou enlouquecer.

- Tente não ser sugada para dentro, babe. Você tende a perder muito peso e não dormir o suficiente. Eu gosto da minha menina cheia de curvas, - diz ele com um sorriso forçado. Ele sempre tenta trazer a luz à minha obsessão.

- Bem, eu estou morrendo de fome, então a sua menina curvilínea não vai emagrecer tão cedo.

Desta vez, eu ganho um sorriso genuíno do homem que me ama.

- Ótimo. Eu gosto de você do jeito que você é.

E ele gosta. Eu sou bastante atraente, suponho. O espelho me mostra que eu floresci em uma mulher atraente durante esses anos que fiquei trancada sendo usada e abusada por Benny. Meus cabelos escuros contrastavam com minha pele pálida e os olhos cor de avelã que espelhavam Macy são vibrantes, mas cansados. Só agora comecei a ter curvas que mostram que eu sou uma mulher. Demorou anos para Bo colocar carne em meus ossos frágeis e eu gosto dos quadris maiores. Me sentia lisonjeada pelo meu corpo e minha bunda arredondada.

Eu acho que há uma razão para Bo estar apaixonado por mim, e não pode ser minha deliciosa personalidade.

Mas você não o ama.

* * *

Eu acordo com os lábios chupando meu mamilo e meu coração dispara no meu peito. Por uma fração de segundo, eu estou de volta em minha cela. Tenho dezessete anos e ele está me levando pela primeira vez. Não é até que eu passe meus dedos em seu cabelo, percebendo que estou agarrando um cabelo curto, liso, não encaracolado e espesso.

Meu corpo tenso aperta por um motivo diferente quando eu abraço o sentimento de sua língua quente me chupando.

- Sou eu, babe, - ele sussurra. - Sou só eu.

Bo.

O sexo não é algo que eu pensei que eu quisesse depois de Benny. Eu não gosto da maneira como meu corpo me traiu com ele, mas Bo levou as coisas lentas e me ensinou a estar no controle do que faço e com quem eu compartilho minha intimidade. O sexo é bom com Bo. Ele é um amante gentil, mas há esse demônio à espreita dentro de mim, manchado pela tortura de Benny, que quer mais, precisa de mais.

- Eu te amo. Sou só eu, - ele murmura contra a minha carne enquanto trilha beijos do meu peito ao meu abdômen. - Nunca se esqueça disso, babe.

Eu não vou. Eu não posso. Existem muitas razões pelas quais eu me odeio e ele me amar é uma delas.

Eu não o mereço.

Deixo escapar um gemido quando sua língua mergulha no meu umbigo. Ele continua a sua degustação até que eu sinto sua respiração quente contra os lábios sensíveis da minha buceta. Um suspiro sufocado me escapa no momento que sua língua desliza ao longo da minha entrada.

- Eu te amo, - ele respira contra mim, as três palavras quentes com a respiração que queima sobre a minha carne já febril. Sua boca me dá o prazer que eu preciso, mas as palavras escurecem a faísca que deveria ser disparada agora, fazendo com que o meu sangue flua.

Ele também me amava...

Quando cheguei até Bo, eu não estava procurando amor. Eu estava procurando por um amigo. A ideia de estar sozinha me assustava. Além disso, Bo era por quem eu deveria estar interessada anos atrás. Ele estava indo para a faculdade. Em vez disso, eu permiti que meus hormônios estúpidos me conduzissem para uma van que me levou direto para o inferno.

Nunca mais eu vou deixar meu corpo tomar decisões por mim.

De agora em diante, minha mente manda em mim. E o amor é algo trancado em uma cela com minha irmã. Eu a amava mais do que tudo, e eu falhei com ela. O amor não tem lugar na minha vida agora.

- Eu amo você, Jade. Sou eu, Bo, - ele murmura novamente enquanto ele me adora entre as minhas pernas. Ele me lembra cada vez que ele está dentro de mim que é ele. Eu o adoro por querer me fazer sentir segura em nossos momentos de paixão, mas ele não percebe que Benny também sussurrava essas mesmas três palavras.

Falar sacanagem para mim seria melhor.

- Eu te amo. - suas palavras estão em repetição.

Cale a boca... cale a boca... cale a boca...

Às vezes eu quero desistir, dizer a ele que eu o amo também, então ele vai parar de dizer as palavras, é o presente que ele merece, mas eu não posso. Eu não sou mentirosa quando se trata de coisas importantes. O amor é uma mentira.

- Você é meu doce e adorado Bo, - eu sussurro. É o que eu sempre digo a ele, essas são minhas palavras equivalentes às suas.

E ele sabe disso.

Satisfeito com a minha resposta, ele se torna voraz, mas sei que ele ainda está se segurando, e eu odeio isso.

Ele me chupa e me lambe como ele se ele tivesse feito um curso pra isso. E sendo um professor de anatomia na faculdade local, quem sabe? Talvez ele ensine no maldito curso. Mas, às vezes, eu gostaria que ele me mordesse. Me machucasse apenas uma vez.

- Sim, - eu gemo enquanto ele desliza um dedo no meu centro molhado. - Mais...

Ele habilmente encontra o ponto doce dentro e em seguida, estou tremendo de êxtase. Bo sabe como me dar orgasmos.

Assim como Benny.

Meu corpo é uma puta para o prazer, e estar com Bo, é o castigo para mim, tanto quanto é gratificante. Suas palavras me levam de volta para lá, mas seu cheiro e toque me mantém aqui. Eu estou no limbo.

E eu mereço estar por não amá-lo de volta. Como eu poderia amálo quando eu não posso nem estar com a minha mente focada nele durante o sexo?

Pequena bonequinha suja.

Minhas coxas se contraem até que elas enfraquecem e caem para os lados.

- Jade... - sua voz treme com emoção enquanto ele sobe em cima de mim, espalhando as minhas pernas para que ele possa se posicionar entre elas, a ponta de seu pau endurecido provocando minha buceta molhada latejante.

- Mmm?

Lentamente, quase torturante, ele invade o meu corpo necessitado e eu grito quando ele empurra tudo pra dentro.

- Baby...

- Mmm?

Ele empurra mais e, em seguida, chupa meu lábio inferior. - Case-se comigo.

Uma ducha de realidade apaga as chamas quentes do meu desejo. Seus lábios encontram o meu pescoço e ele chupa como se eu fosse a coisa mais preciosa que ele já encontrou. Eu não posso me casar com ele. Eu nem mesmo o amo. Não é culpa dele. Bo é o parceiro que os manuais indicam. Um grande amante. Compreensivo e piedoso.

Em um mundo perfeito, eu poderia amá-lo, eu deveria amar Bo. Meus pais amam Bo, todos amam Bo... menos eu.

Talvez se Benny nunca tivesse roubado sua bonita bonequinha, eu teria me apaixonado por Bo.

Mas este não é um mundo perfeito.

Ele nos roubou.

O mundo é mau e detestável. Eu nunca vou parar de procurar por minha irmã. Eu nunca vou perder o desejo de encontrar todas as meninas desaparecidas neste mundo. Eu nunca vou perder o ódio inflamado por Benny e o desejo de levá-lo à justiça.

Mas não há espaço suficiente dentro do meu coração partido para Bo. Bo é uma boa alma, e meu trabalho, o meu desejo de vingança, é o que estraga tudo.

Os dedos de Bo no meu clitóris entre nós me tiram dos meus pensamentos. Ele traz outro delicioso orgasmo dentro de minutos. Quando meu corpo contrai em torno de seu pau, ele se joga no seu próprio clímax. No momento em que nossos corpos param e nossa respiração se estabiliza, rompe o silêncio do quarto, ele se levanta para olhar para mim.

Luar brilha em suas belas feições, mas eu não vejo o homem brilhante e feliz que eu conheço. Tudo o que eu vejo é tristeza. Ele quer mais do que eu posso dar.

- Isso é um não? - seu pomo de Adão sobressai em sua garganta. Eu odeio ser tão tóxica para ele.

- Bo... - lágrimas brotam em meus olhos, mas nunca caem. Não mais. Depois do que eu passei, nada me faz chorar. Nem mesmo um homem triste, quebrado, cujo único desejo neste mundo é que eu o ame. - Eu seria uma esposa terrível.

- Não para mim, - garante ele, seus lábios encontrando os meus. - Para mim, você é perfeita.

Bonequinha linda.

Ele me beija tão docemente, que eu acho que meu coração sombrio pode palpitar um pouco com a vida. Ele expõe minhas entranhas.

- Ok, - murmuro com um suspiro, sabendo que mais tarde vou me arrepender.

Pequena bonequinha suja.

- Mas eu quero um longo noivado. Talvez um ou dois anos. - mulher egoísta e cruel. Eu me odeio.

Seus olhos azuis brilham ao luar e ele sorri. Ele realmente é uma bela alma. - Eu vou te dar todo o tempo que precisar, babe. Não temos nada, além de tempo.

Eu devolvo o sorriso, mas não alcança os olhos.

Eu e ele podemos ter muito tempo para nós.

Mas temo que Macy não tenha muito tempo.

Se o homem do shopping for Benny, significa que ele está caçando novamente. Se ele está caçando, então ele está ficando entediado com sua pequena boneca.

Ou pior, talvez ele esteja substituindo uma boneca que está muito quebrada para reparar.

Eu tenho que encontrá-la.

Logo.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022