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Coração rendido ao mafioso

Coração rendido ao mafioso

Autor:: kel.rasinhas.alexandrino
Gênero: Jovem Adulto
Lilian Reed é uma jovem determinada, que trabalha no exclusivo clube Shadow of Sophia para sustentar seus sonhos de se tornar enfermeira e deixar para trás a exploração de sua madrasta, Diane, e seu meio-irmão, Liam. Mas sua vida desmorona quando Diane a vende por uma fortuna ao temido Cassian Moore, um mafioso cuja presença exala poder e perigo. O primeiro encontro entre eles é marcado por um resgate brutal e um olhar que queima como fogo, plantando as sementes de uma tensão sexual irresistível. Presa em um acordo sombrio, Lilian é arrastada para o submundo de Cassian, onde cada toque dele, firme em seu queixo, quente contra sua pele, ameaça dissolver suas defesas. Cada sussurro carregado de promessas a puxam para um abismo de desejo. Entre o medo de ser consumida e uma atração avassaladora, ela se propõe a trabalhar para pagar sua dívida e ganhar sua liberdade. Mas Cassian tem outros planos. "Entenda de uma vez por todas, Lilian Reed. Você pertence a mim agora. Você trabalhará para mim e responderá apenas às minhas ordens", ele declara, selando o acordo com um beijo brutal que deixa seu corpo tremendo e sua mente em chamas. À medida que os segredos de um passado doloroso ressurgem e o perigo se aproxima, Lilian luta para resistir ao domínio do mafioso, mas será que seu coração se renderá a ele antes que ela escape desse inferno?

Capítulo 1 Olhar que queima nas sombras

O clube Shadow of Sophia estava mais cheio naquela noite. A fumaça densa dos charutos da área VIP era sufocante e dificultava ver direito e passar pelas mesas equilibrando aquela porcaria de bandeja, mas também era onde recebíamos as melhores gorjetas.

Mais 30 minutos.

Era tudo o que eu precisava suportar daqueles caras ricos e sem nenhuma noção de educação ou respeito.

Figurões. Empresários. Políticos. Até mesmo a alta cúpula da escória frequentava aquele lugar. Todos pomposos em seus ternos elegantes e caros enquanto riam de como haviam desgraçado a vida de mais um miserável aleatório que se atolou em dívidas.

Shadow of Sophia era o clube mais badalado de Soho, Londres. Conhecido por sua exclusividade e total descrição, não era um lugar onde qualquer pessoa poderia entrar para tomar uma bebida. Até mesmo nós, meros funcionários assalariados, passávamos por uma difícil prova de admissão e treinamento pesado antes de começar a servir nos salões.

A bela e elegante faxada com letreiros neons roxos e portas de veludo preto se destacava até mesmo entre os vários bares e boates da badalada Soho. Mas, para mim, nada daquilo era minimamente atraente. Na verdade..., sempre que precisava cruzar as ruas agitadas até o clube, sentia o peso dos olhares de julgamento que eu recebia daqueles homens e mulheres ricos que se divertiam sem qualquer limite moral ou monetário.

"É como dizem, nem tudo o que reluz é ouro.." sussurrei enquanto voltava para o bar com a bandeja carregada de copos de whisky vazios, me apertando entre mesas e desviando de pessoas.

Era como se ninguém pudesse ver a mulher de 1,67 de altura, usando uma calça preta justa, colete e uma camisa branca passando entre eles com mais de quinze copos perigosamente equilibrados em uma bandeja.

Tentei passar por um grupo de homens mais velhos. Eles estavam imersos em suas conversas e fumando seus charutos fedorentos, então achei que seria mais fácil passar por eles, mesmo que fosse um grande desvio para chegar ao bar.

Meu arrependimento foi quase instantâneo quando um dos homens se levantou de forma abrupta, jogando sua cadeira para trás com tanta violência que atingiu a lateral do meu quadril, fazendo com que eu perdesse o equilíbrio.

O som do vidro quebrando fez todo o salão cair em um pesado silêncio. Eu estava estatelada no chão, minha mão sobre um dos cacos de vidro enquanto todos apenas me observavam, como se eu fosse um animal exótico que havia acabado de fugir da gaiola.

"Lilian, você está bem?" Chloe, minha amiga e mixologista do Shadow of Sophia, correu até onde eu estava. Seus olhos caíram sobre a minha mão, que tentei esconder da melhor forma possível.

Quando Chloe fez menção de perguntar sobre o corte, eu neguei com a cabeça com um movimento discreto, mas claro.

Não podíamos chamar mais atenção ainda. Eramos pagas para agir como sombras, não chamar a atenção e sermos discretas com relação à identidade dos clientes do clube.

Com cuidado, pequei o pano que carregamos para limpas as mesas e o enrolei no corte, para estancar o sangramento e logo me coloquei a recolher os cacos de vidro. Atrás de mim, as vozes dos homens parecia divertida enquanto riam.

"Vejo o que fez Jorge. Pobrezinha..." o tom claro de deboche e escárnio me fez hesitar por um momento, mas eu apertei os punhos, engolindo a humilhação em silêncio, e continuei recolhendo os cacos de vidro.

"Ela que deveria prestar atenção por onde anda. Esse lugar parece contratar qualquer mulher burra, contanto que seja gostosa, para trabalhar aqui." Todos riram com divertimento.

Tudo o que eu podia fazer naquela situação de merda, era respirar fundo e sair dali o mais rápido possível. Peguei a bandeja, agora cheia de copos quebrados, já calculando quanto seria descontado do meu salário, quando senti meu cotovelo sengo brutalmente agarrado.

"Espere um momento. Onde estão as suas desculpas?" O homem que bateu em mim disse. Seu rosto estava vermelho e suado, pupilas dilatadas, respiração ofegante e movimentos descoordenados - sinais claros de intoxicação alcoólica que notei como estudante de enfermagem.

Mesmo que eu fosse uma aluna do curso de enfermagem, não tinha nenhuma intensão de gastar meus conhecimentos com aquele tipo de pessoa. Tudo o que eu queria era seguir o meu caminho para finalmente ir embora daquele lugar.

"Ei!" o homem gritou, apertando meu braço com mais força, me fazendo trincar os dentes com a dor aguda que irradia pelo meu braço. "Mandei me pedir desculpas, garota insolente."

"Parece que essa menina não te conhece, Jorge." um dos homens provocou, o que pareceu irritar ainda mais o tal Jorge que me segurava.

"Sinto muito pelo transtorno, senhor." disse em um tom monótono e baixo.

Não queria confusão, eu apenas queria sair de lá e ver a gravidade do corte na minha mão. Mas, ao que parecia, meu pedido de desculpas não foi muito bem aceito pelo homem e seu grupo de amigos, que ria e debocharam sem qualquer filtro.

Encorajado pelos amigos, o homem chamado Jorge ergueu sua mão, o rosto contorcido de raiva. Tentei puxar meu braço e me afastar daquele homem, mas seu aperto era muito forte e tudo o que eu poderia fazer era esperar o impacto.

Fechei meus olhos com força e tentei defender meu rosto com o outro braço. Porém, o golpe nunca veio.

Os sons de vozes havia desaparecido, tudo estava em um completo e assustador silêncio. Afastei o braço e ergui meus olhos apenas para ver um homem muito alto entre mim e meu agressor. O homem segurava com força descomunal o pulso do tal de Jorge, que me soltou de imediato e deu vários paços para trás.

O grupo de "amigos" havia desaparecido, se espalhando pela multidão que desviava o olhar de onde estávamos. Jorge estava pálido, como se todo o álcool que ele havia consumido tivesse desaparecido de sua corrente sanguínea.

"Erguendo a mão para uma mulher..." a voz profunda do homem de costas para mim fez um arrepio percorrer todo o meu corpo. A sensação de perigo se arrastando como uma serpente fria pela minha pele. "Esperava mais de um empresário com uma história de sucesso tão inspiradora quanto a sua, senhor Jorge Taylor."

Tudo pareceu acontecer em questão de segundos, mas, pelos meus olhos, todos se moviam em câmera lenta.

O som da arma engatilhando, o cheiro da pólvora, o estouro do disparo e o calor do sangue.

O homem que havia acabado de me ameaçar estava estendido no chão, completamente imóvel, com um buraco na testa de onde o sangue jorrava. Algumas mulheres gritaram, mas logo foram contidas e retiradas do local.

Alguns homens, que reconheci como os seguranças do clube, se aproximaram e assumiram a situação, levando o corpo para outro lugar.

Estava tremendo.

O cheiro do sangue me lembrava ferro enferrujado. Passei a mão no rosto, vendo as pontas dos meus dedos trêmulos tingidas de vermelho brilhante. Olhei para os lados, achando que alguém diria algo, ou que estivessem ligando para a polícia ou bombeiros, mas todos estavam parados, vendo aquela situação absurda

"Deveria ter mais cuidado, esquilinha. Este mundo não perdoa distrações," O homem a minha frente se virou, seu rosto cheio de respingos de sangue, assim como sua camisa escura.

Seu sorriso era tão sedutor quanto assustador. Ele se aproximou, agachando na minha frente e segurando meu queixo com força. Fechei meus olhos e prendi a respiração, com medo de vomitar em cima dele por conta do forte cheiro do sangue.

Ele soltou meu queixo e se afastou. Eu estava grata que ele havia perdido o interesse em mim. Meu corpo tremia violentamente e precisei me segurar muito para não cair em lágrimas, sentada naquele chão ainda coberto de sangue.

Olhei para as costas dele, largas e fortes, e tentei adivinhar quem ele poderia ser. Como se estivesse sendo chamado, ele se virou, puxando um lenço do bolso e se limpando de forma desleixada.

Um homem capaz de algo como aquilo e todos fecham os seus olhos só poderia ter muita influência, ou ser alguém muito importante dentro do submundo.

Seus lábios se moveram lentamente, em uma mensagem destinada apenas a mim "Nos veremos de novo, senhorita Reed. Talvez, mais cedo do que você pensa," todo o meu corpo ficou arrepiado, aumentando meu desconforto e curiosidade.

Capítulo 2 Fantasmas do Passado

Finalmente, eu estava a caminho de casa.

Minhas mãos ainda tremiam ao lembrar do que havia acontecido no clube, mas eu as apertava juntas para tentar conter um pouco o medo que ainda sentia.

Olhei para o meu relógio, o último objeto que minha mãe havia deixado, o único que consegui recuperar antes que minha madrasta, Diane, o destruísse, e busquei conforto nele.

Durante todo o caminho, fiquei pensando naquele homem louco e assustador.

Eu não me lembrava de tê-lo visto no clube antes. Um homem bonito como aquele seria impossível de ser esquecido. Porém, nem toda a sua beleza faria desaparecer o gosto ruim que ele me deixou.

"Aquele homem era completamente louco. Quem era ele?" pensei irritada ao lembrar da maneira como ele me comparou a um esquilo, como se me conhecesse.

Mas também, havia aquela promessa estranha que ainda me causava arrepios por todo o corpo. Aquele homem definitivamente era perigoso. Seu rosto sujo de sangue estava gravado na minha mente, como um lembrete medonho de como o mundo era assustador.

Por mais que aquele homem tivesse me assustado e mexido comigo, a probabilidade de encontrá-lo novamente era muito baixa. Bem diferente do pesadelo que me esperava.

A casa, que um dia eu chamei de lar, parecia um monumento sombrio a toda a desgraça que havia se instalado na minha vida.

Peckham, um bairro ao sul de Londres muito conhecido pela sua grande diversidade. Durante o dia, o bairro é cheio de vida, com mercados multiculturais, crianças correndo e brincando, e vendedores gritando das calçadas. Um grande contraste com a vida noturna daquele lugar.

O silêncio pesado, becos escuros, prédios antigos com suas fachadas desgastadas que parecem esconder segredos sinistros. À noite, o som de sirenes distantes e latidos de cachorros ecoam, enquanto postes de luz piscam, deixando trechos da rua na penumbra.

Minha casa ficava em uma das ruas laterais. Um estilo vitoriano que já teve seus dias de glória.

Suspirei olhando a casa. A pintura descascando, sinais de apodrecimento na madeira da varanda e janelas imundas. Qualquer um diria que aquela era uma das muitas construções abandonadas, mas era onde eu vivia com Diane, minha madrasta, e o filho dela, Liam.

Depois da morte do meu pai, Diane dividiu a casa para alugar, mas estava cada vez mais difícil encontrar inquilinos, o que nos deixava em uma situação cada vez pior.

Diane e Liam não trabalhavam, eu era a única provendo na casa e lidando com as contas. Nem mesmo os trabalhos domésticos básicos eles faziam, estavam mais preocupados em aparecer diante das pessoas como se fossem ricos, gastando o dinheiro que não tínhamos com roupas, maquiagens e acessórios caros.

Não fazia ideia de onde eles estavam tirando aquele dinheiro e, sinceramente, contanto que eles não me envolvessem, eu não ligava. Minha preocupação era me formar na faculdade de enfermagem e sair daquela casa, mas com o salário do Shadow of Sophia, seria impossível.

Eu tinha um plano, mas as pedras no meu caminho dificultavam cada dia mais que eu o concretizasse.

Assim que abri a porta, o alto rangido das dobradiças ecoou como um aviso sombrio. Diane apareceu em um vestido que não condizia com sua idade de 47 anos. Seus saltos estalavam na madeira do assoalho quando ela andava. Seus olhos azuis e frios me olharam dos pés à cabeça enquanto ela arrumava seu cabelo loiro, preso em um coque Chanel.

"Minha querida," ela disse com seu sorriso manipulador levemente de lado. "Como foi o trabalho? Recebeu boas gorjetas?"

Eu conhecia bem aquela conversa e aquele sorriso. Sempre que Diane queria algo ou mentia, seu sorriso falso entortava levemente para a esquerda, algo que eu rapidamente aprendi a notar.

Coloquei minha bolsa sobre a cadeira de estofado verde, uma das peças de decoração duvidosa que Diane adorava, e fui para a cozinha pegar um copo de água. O corte na minha mão, do incidente no clube, latejava enquanto eu segurava o copo. Eu podia ouvir o som daqueles terríveis saltos me seguindo como uma maldita sombra.

"O movimento hoje não foi bem, por isso não recebi muito, mas vai dar para juntar com o da semana passada e pagar uma das contas em atraso," falei, tentando manter a voz firme. Ela bufou atrás de mim.

"Isso é ridículo!" a voz de Diane subiu, furiosa. "Apenas me dê a droga do dinheiro e vê se trabalha mais. Não podemos viver assim."

Respirei fundo, sabendo exatamente para que aquela mulher queria o dinheiro. Ela o gastaria com roupas ou se divertindo com algum menino com menos da metade da sua idade, assim como fez com a herança que meu pai havia nos deixado.

Olhei sobre o ombro e ela estava acendendo um cigarro, sua expressão furiosa enquanto resmungava algo sobre ser boa demais para aquela vida.

Apenas passei por ela, ignorando suas reclamações. Eu só queria ir para o meu quarto e dormir um pouco, mas assim que me virei em direção à escada, dei de cara com Liam descendo.

Por mais que sua personalidade fosse idêntica à de sua mãe, a aparência dele era completamente diferente. Com cabelos castanhos claros e olhos castanhos, ele encantava as jovens inocentes e ricas para que lhe dessem presentes e até mesadas. E o que elas mais gostavam era uma cicatriz que ele tinha no canto da boca.

A história que Liam contava era que ele havia entrado em uma briga com um membro de gangue, mas a verdade era que ele havia caído da bicicleta quando tinha onze anos e aberto o lábio.

Tentei passar por ele, me espremendo entre seu corpo musculoso e alto e a parede, mas ele agarrou meu cotovelo, me impedindo de prosseguir.

"Por que a pressa, irmãzinha?"

Aquele sorriso até poderia conquistar quem não o conhecia, mas a mim causava apenas nojo e repulsa. Seu aperto aumentou, me machucando. Ele aproximou o rosto, seu olhar me causava tremores por conta das sombras que dançavam nele.

"Estou cansada, Liam. Amanhã preciso acordar cedo para o trabalho." Ele estalou a língua, me soltando de forma brusca, quase me fazendo cair da escada.

"Aquele lugar paga uma miséria. Como espera que vivamos com as esmolas que você ganha?" Seu sorriso aumentou. Ele se inclinou, aproximando o rosto do meu. "Você tem muito potencial para ganhar muito dinheiro, irmãzinha. Posso te apresenta para alguns amigos."

A risada de Diana ecoou pela casa. Trazendo um arrepio de medo por todo o meu corpo. Minhas pernas tremeram enquanto Liam apertava mais sua mão, me puxando para ele. O cheiro de cigarro me atingiu, a fumaça densa nos rodeava. Mãos translúcidas com longos dedos que tentavam alcançar minha garganta.

"Não diga tolices, Liam. Nossa Liliam não pode se sujar."

Puxei meu braço com força, escapando de Liam. Apertei o relógio no meu pulso, tentando acalmar a minha mente enquanto subia rapidamente as escadas.

Enquanto eu subia as escadas, o rangido do assoalho ecoando como um lamento, ouvi-os discutir. Diane queria parte do dinheiro que Liam havia ganho de uma de suas namoradas, mas ele se recusava a dar e dizia estar atrasado para um encontro.

Com a mão na maçaneta do meu quarto, o cheiro de cigarro de Diane invadindo o corredor, ouvi-a gritar no andar de baixo. "É tudo culpa do infeliz do James. Se não tivesse deixado aquela miséria, estaríamos vivendo como a realeza." O tom de desdém, o completo desrespeito que Diane tinha pela memória do meu pai, fazia o meu sangue ferver.

Toquei o relógio no meu pulso, sentindo a dor da perda, e me virei, disposta a jogar tudo para o alto e confrontá-la, mas minhas pernas congelaram quando ela continuou falando. "Pelo menos aquela putinha vai ser útil para alguma coisa. Aquele cara pagou um bom preço por ela, e nós vamos poder aproveitar mais a vida, como merecemos."

Meu sangue pareceu congelar em minhas veias.

Cobri minha boca com a mão e dei alguns passos para trás, batendo com as costas na parede do corredor. Escorreguei, sentando no chão de carpete sujo, tomado pela poeira. Uma lágrima rolou pelo meu rosto, o pânico crescendo no meu peito.

Eu tinha um péssimo pressentimento.

Algo estava prestes a acontecer comigo e eu não poderia imaginar o quanto minha vida ainda podia mudar.

Capítulo 3 Memórias quebradas

Não podia ficar ali, logo alguém subiria e, se me vissem naquela situação, poderia ser pior. Minha mão latejava, o corte havia aberto e o sangue corria quente pela ferida.

Voltei para o meu quarto, trancando a porta e passando a tranca que eu havia instalado após uma noite em que Liam chegou bêbado e tentou arrombar a minha porta.

Fui até meu armário, pegando o pequeno kit de primeiros socorros que montei depois que Diane "acidentalmente" me empurrou dos últimos degraus da escada. Ainda me faltavam algumas coisas, mas consegui fazer um curativo provisório até conseguir ir a um hospital, ou a farmácia.

Sentada na cama, respirei fundo, secando minhas lágrimas. O que eu esperava? Diane só me via como uma forma de ter dinheiro sem precisar levantar do seu sofá brega. Desde que meu pai a apresentou como sua noiva, eu senti algo estranho nela, mas ainda tentei criar algum tipo de relacionamento.

Claro, ela jamais tomaria o lugar da minha mãe, mas nada impedia que nos dessemos bem, já que ela, na época, era a noiva do meu pai.

Puxei uma foto que eu escondia da minha mãe. Ela tinha de ficar dentro de um livro, na minha mesa de cabeceira, para que Diane jamais a encontrasse.

Toquei o rosto sorridente na foto, sua grande barriga coberta por um vestido amarelo-claro que parecia uma extensão de seus longos cabelos dourados ondulados. Seus olhos de um profundo azul-escuro transmitiam tanta alegria e gentileza. Eu sentia falta deles, de seu toque amoroso.

"Teria sido tão diferente com você aqui, mamãe." sussurrei, sentindo um nó se formando na minha garganta.

As lembranças de nós três, antes da minha mãe ficar doente, brincando no parque. Meu pai empurrando o balanço enquanto minha mãe gritava para ele ter cuidado. As risadas altas pela casa enquanto eu corria, fugindo do banho enquanto minha mãe me perseguia com a toalha nas mãos.

Um soluço baixo me escapou e mordi o lábio, tentando contê-lo.

"Sinto tanto a falta de vocês, papai... mamãe."

Meu peito se apertou. A dor sempre ali, na superfície, arranhando a minha pele, pronta para sair. Abracei meu corpo, me envolvendo como se para manter unido o que restava de mim.

O som de sirenes distantes ecoava em Peckham, um lembrete constante dos perigos que espreitavam lá fora.

Um carro preto estacionou na rua, os faróis apagando lentamente, e meu coração disparou. Rapidamente me afastei da janela, fechando as cortinas, como se aquela barreira de tecido fino fosse o suficiente para me afastar das desgraças que rondavam na noite.

O som de paços no corredor, se aproximando da porta do meu quarto, me deixaram em alerta. Me apoiei contra a madeira marcada pelo tempo. O cheiro forte do cigarro, a fumaça entrando pelas frestas, o som dos saltos afundando no carpete, como uma música sinistra de um preságio ruim.

"Liliam, querida. Você tem visitas." a voz enjoativamente doce de Diana me fez tremer. Olhei para o relógio, vendo que já passada da 01 am. Engoli em seco, pressionando minhas mãos contra a porta com mais força.

"Não estou esperando visitas." respondi mantendo a voz firme.

As palavras de Diane ecoavam na minha mente. Ela havia me vendido e tudo indicava que a tal visita era essa pessoa. Voltei para a janela, meu coração disparado. Olhei para baixo, pensando se seria possível saltar do segundo andar da casa e não ter ferimentos graves na queda.

"Merda..." disse entre os dentes.

Não dava tempo de montar uma corda para escapar e eu não conseguiria fugir se quebrasse minha perna na queda. Diane bateu com mais força na minha porta, me assustando.

"Saia agora, sua putinha de merda!"

A porta balançava com violência, o trinco lutando bravamente para mantê-la no lugar enquanto as dobradiças rangiam. Eu não tinha onde me esconder e nem para onde fugir.

Olhei novamente para a janela, o coração acelerado, a respiração presa na garganta enquanto eu pensava no que eu seria capaz de fazer para escapar daquele inferno.

De repente, as dobradiças se quebraram com um forte impacto. Liam empurrou a madeira para o lado, seus olhos castanhos frios e sorriso de lado me fazendo dar um paço para trás.

Ele ergueu um dedo, o movendo em negativa. "Nem pense nisso. Mesmo quebrada, você ainda vale alguma coisa."

Me joguei no chão, caindo de joelhos diante deles. "Não façam isso comigo, por favor."

Diane entrou no quarto sorrindo de uma orelha a outro. Mas logo sua expressão mudou quando ela percebeu a foto da minha mãe sobre a cama. Seu rosto ficou vermelho, seu peito subindo e descendo com a respiração irregular enquanto ela avançava na minha direção, agarrando meus cabelos e os puxando com força.

Eu gritei, agarrando seu pulso, tentando me libertar enquanto era arrastada para fora do quarto.

"Como você ousa?! Eu te criei, sua ingrata!" Diane gritava enquanto me puxava. Me debati, tentei me segurar no batente da porta, mas Liam chutou minha mão com força.

"Você não pode fazer isso comigo!" tentei segurar no aparador do corredor, que caiu no chão, derrubando tudo o que estava sobre ele. "Me solta!"

Não importava o quanto eu lutasse, o quanto eu implorasse, Diana continuou a me puxar. Minha cabeça doía. Seus dedos apertando meu couro cabeludo, prestes a arrancar meus cabelos.

Os degraus batiam contra as minhas costas com violência, meus dedos escorregando pelas grades do corrimão enquanto as lágrimas corriam pelo meu rosto. Já não suportava mais aquilo.

Quando chegamos ao térreo, alguém bateu na porta. Um sorriso grotesco surgiu no rosto de Diana.

"Como eu disse, você tem visitas e é melhor cooperar sem causar problemas."

No segundo que ela me soltou, tentei correr para a cozinha, mas Liam desferiu um forte soco na minha barriga que me fez vomitar e sair de joelhos, abraçando meu estômago.

"Será que você é tão burra que não consegue seguir uma ordem tão simples?" ele disse, o desdém transbordando de suas palavras. "Seja realmente útil, ao menos uma vez nessa sua vida de merda."

A porta da frente rangeu.

Ergui meus olhos, meu corpo tremendo com espasmos e dor. Fiquei ali, de joelhos, vendo um homem alto e muito forte na soleira da porta. Na escuridão que o cobria, não consegui ver detalhes de seu rosto, mas eu sentia uma pressão esmagadora ao perceber que ele estava me olhando.

Minha voz morreu, prendi a respiração com o medo que me consumia. O homem deu um passo a frente, seu olhar jamais se desviando de mim.

"Como o combinado. Ela resistiu um pouco, então tivemos que discipliná-la, mas no geral está be..." antes que Diane terminasse de falar, o homem lhe deu um forte tapa, que a fez cair no chão.

Liam correu para socorrer a mãe que segurava a boca, o sangue escorrendo por seus dedos.

"Foi dada uma ordem clara que ela não deveria ser tocada." a voz fria e ameaçadora do homem fez parecer que até as paredes tremiam de medo dele.

Diana e Liam ficaram pálidos e mudos. O homem agarrou meu braço, me puxando para que eu ficasse de pé. Segurei sua mão, levando o último fio de esperança que eu tinha até minhas palavras.

"Por favor..." engoli em seco, tentando conter o tremor da minha voz. "Por favor, eu não tenho nada a ver com isso."

"Não é problema meu. Agora ande logo, o Boss está esperando." o homem puxou do bolso um lacre preto, envolvendo meus pulsos com ele.

Ao ouvir o termo "Boss" todo o meu corpo pareceu amolecer. Minhas pernas falharam e tropecei, sendo arrastada pelo homem até o carro preto que eu havia visto da minha janela.

Não havia como fugir quando o chefe da máfia te chama. Diana não só havia me vendido, como me vendeu para o homem mais perigoso de toda a Londres. O corvo de olhos vermelhos.

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