Dona Clara, a babá que me criou como uma segunda mãe, entrou no meu quarto com o sorriso de sempre e um copo de leite morno, prometendo energia para o vestibular.
Mas o brilho em seus olhos denunciava algo mais: ganância.
Eu já havia vivido essa cena. Lembrei-me de beber o leite, sentir um sono estranho e acordar presa no corpo de Bruna, a filha dela, enquanto a "minha" Bruna, em meu corpo, destruía meu futuro no vestibular.
Fui desqualificada, humilhada publicamente, e meus pais, convencidos por elas, me abandonaram, acreditando na farsa da minha própria loucura.
Voltei, desacreditada, sozinha, enlouquecendo dentro de um corpo que não era o meu, até não suportar mais e morrer.
Mas, para minha surpresa, acordei de volta no meu quarto, no dia da tragédia, com Dona Clara, novamente, oferecendo o leite envenenado.
Desta vez, a raiva fervia mais forte que o medo. Eu não seria a vítima. Eu sabia o que elas queriam, e usaria isso contra elas.
Precisava entender por que tanto ódio.
Com um sorriso doce e falso, peguei o copo. Desta vez, quem sorriria por último seria eu.
Dona Clara entrou no meu quarto com um copo de leite morno na mão, o mesmo sorriso de sempre no rosto.
"Sofia, querida, beba isso. Vai te dar energia para a prova. Fiz com mel, do jeito que você gosta."
Eu olhei para o copo, depois para ela. A luz do abajur refletia em seus olhos, e por um segundo, vi um brilho que não era de bondade. Era outra coisa. Ganância.
Meu coração começou a bater mais rápido.
Não de medo. De raiva.
Porque eu já tinha vivido essa cena antes.
Eu me lembrava de tudo. Lembro de ter bebido o leite, de ter sentido um sono estranho e de ter agradecido a ela, a babá que cuidou de mim a vida inteira, a mulher que eu considerava uma segunda mãe.
Lembro do que aconteceu depois.
Essa não era uma premonição. Não era um sonho ruim.
Eu morri. E voltei.
Voltei para o dia que destruiu minha vida. O dia do vestibular mais importante do país, a prova para a qual estudei por anos, a prova que era meu passaporte para a faculdade de medicina.
Na primeira vez, eu bebi o leite. E quando acordei, não estava mais no meu corpo.
Eu estava presa no corpo de Bruna, a filha dela. Um corpo que eu mal conhecia, pesado, lento. E do outro lado do quarto, eu me vi. Meu próprio corpo, com os olhos de Bruna, me olhando com um sorriso vitorioso e cruel.
A troca de corpos. Uma magia absurda, que eu nunca acreditaria ser possível se não tivesse acontecido comigo. Dona Clara e Bruna planejaram tudo. Bruna, preguiçosa e invejosa, que nunca passou um dia estudando, queria a minha vaga. E a mãe dela, a minha babá de confiança, tornou isso possível.
Naquela outra vida, eu, presa no corpo de Bruna, fui forçada a assistir ao meu próprio desastre. Bruna, usando meu rosto e meu nome, foi para a prova. Mas ela não foi para passar.
Ela foi para me destruir.
Eu vi as notícias mais tarde. "Aluna exemplar surta durante vestibular, vandaliza sala e ataca fiscais." Meu nome estava em todos os jornais. Minha foto. Minha reputação, construída com tanto esforço, virou pó em poucas horas. Ela rasgou a prova, pichou a carteira, gritou insultos.
Fui desqualificada. Humilhada publicamente.
Minha família, meus pais, que sempre tiveram tanto orgulho de mim, não acreditaram em uma palavra do que eu tentei dizer, presa na voz de Bruna. Para eles, eu era Bruna, uma garota problemática, e a filha deles, a verdadeira Sofia, tinha tido um colapso nervoso inexplicável. Eles se voltaram contra a "Sofia" que viam, mas também contra mim, a "Bruna" que tentava desesperadamente contar a verdade. A vergonha os consumiu. Eles me abandonaram, a verdadeira Sofia, pensando que eu era a fonte da inveja que levou a filha deles à loucura.
A vida deles foi arruinada. E a minha, acabou. Desacreditada, sozinha, enlouquecendo dentro de um corpo que não era meu, eu não aguentei.
Mas agora, eu estava aqui. De volta. No meu quarto, no meu corpo. E na minha frente, Dona Clara me oferecia o mesmo copo de leite. O começo do fim.
Ou talvez, desta vez, o começo da minha vingança.
Eu não ia deixar acontecer de novo. Eu não ia ser a vítima. Desta vez, eu sabia o que elas queriam. Eu sabia como elas iam agir. E eu ia usar isso contra elas.
Uma pergunta, porém, ainda martelava na minha cabeça, algo que na outra vida eu nunca entendi. Por que Bruna não tentou simplesmente fazer a prova e roubar a minha vaga? Por que o plano dela foi tão destrutivo? Não era só sobre roubar meu futuro. Era sobre aniquilar minha reputação, sobre me fazer sofrer. Havia um ódio ali que ia além da simples inveja.
Eu precisava descobrir o porquê. Mas primeiro, eu precisava sobreviver a este dia. E garantir que o inferno que elas prepararam para mim encontrasse um novo dono.
"Obrigada, Dona Clara", eu disse, pegando o copo. Meu sorriso era o mais doce que eu conseguia fazer. "A senhora é um anjo."
Ela sorriu de volta, satisfeita. O mesmo sorriso que me assombrou até o meu último dia na outra vida.
Desta vez, quem ia sorrir por último seria eu.
Eu segurei o copo de leite morno, sentindo o calor em minhas mãos. O cheiro de mel era doce, enjoativo. Era o cheiro da traição.
"Beba tudo, querida. Precisa estar forte", disse Dona Clara, seus olhos fixos em mim, esperando.
Eu sorri para ela, um sorriso calmo, ensaiado. Por dentro, meu estômago se revirava. A raiva era como uma brasa quente, mas meu rosto era uma máscara de tranquilidade. Eu sabia que qualquer hesitação, qualquer sinal de desconfiança, colocaria o plano delas em risco e elas poderiam mudar de tática. Eu precisava que elas acreditassem que eu era a mesma Sofia ingênua de sempre.
"Claro", eu disse, levando o copo aos lábios.
Dona Clara relaxou visivelmente, um pequeno suspiro de alívio escapando dela. Ela achou que tinha conseguido.
Mas eu não bebi. Apenas fingi dar um gole, inclinando o copo e fazendo o som de quem engole.
"Hum, está uma delícia", falei, afastando o copo.
Os olhos dela se estreitaram um pouco. A confiança vacilou.
"Só um gole? Beba tudo, Sofia. Não pode desperdiçar."
Ela estava sendo insistente demais. Na primeira vez, eu não percebi. Agora, era óbvio. Era um teste.
"É que está um pouco quente ainda, Dona Clara", eu disse, a desculpa mais simples que me veio à mente. "Vou deixar esfriar um minutinho enquanto pego meu amuleto da sorte."
Foi a deixa perfeita. Um barulho na porta do meu guarda-roupa me salvou. Miau, meu gato preto de olhos verdes, saiu de dentro dele, bocejando e se espreguiçando. Ele sempre dormia entre meus casacos.
"Ah, Miau! Você me assustou!", eu disse, rindo. Era a distração de que eu precisava.
Dona Clara olhou para o gato com desdém. Ela nunca gostou dele.
Eu me levantei, deixando o copo de leite na minha escrivaninha, e fui até Miau. Me ajoelhei e o peguei no colo. Ele ronronou imediatamente, esfregando a cabeça no meu queixo. Ele era meu único confidente na vida passada, o único que, mesmo sem entender, pareceu saber que a "Bruna" que vivia na casa dele era, na verdade, sua dona. Naquela outra vida, ele foi a única criatura que não me tratou com desprezo. Ele também foi afetado pela troca, preso comigo na casa de Bruna, confuso e assustado.
"Você vai me dar sorte hoje, né, bolinha de pelos?", sussurrei em sua orelha.
Uma ideia maluca, desesperada e absolutamente perfeita surgiu na minha mente. Era arriscado. Era cruel com Miau. Mas era a única maneira. Era ele ou eu. E eu não podia passar por tudo aquilo de novo.
Com Miau no colo, escondendo minhas mãos da vista de Dona Clara, eu agi rápido. Despejei o conteúdo do copo de leite na pequena samambaia que ficava na minha mesa. A terra escura absorveu o líquido leitoso rapidamente. Deixei apenas um restinho no fundo, para o caso dela verificar.
Então, peguei o verdadeiro gatilho. Não era o leite. O leite era apenas para me dopar, para me deixar confusa e fraca. O verdadeiro catalisador da troca era o "amuleto da sorte" que ela me deu na primeira vez. Um pequeno colar com um pingente de quartzo. Ela me daria em alguns minutos, insistindo que eu o usasse.
Mas eu já sabia onde ele estava. Na noite anterior, nesta nova vida, eu a vi escondendo-o em sua bolsa. E enquanto ela preparava o leite, eu o peguei.
Agora, com o coração na boca, eu tirei o pequeno colar do meu bolso.
"O que você está fazendo?", perguntou Dona Clara, desconfiada, tentando ver o que eu tinha nas mãos.
"Colocando a coleira nova dele. Para dar sorte", menti, e com os dedos trêmulos, prendi o pequeno colar de quartzo no pescoço de Miau, escondido sob seus pelos negros e espessos.
Miau não gostou muito, tentou tirar com a pata, mas eu o acalmei, fazendo carinho atrás de suas orelhas.
"Pronto", eu disse, me levantando e colocando-o no chão.
Nesse exato momento, Bruna entrou no meu quarto sem bater, com a cara emburrada de sempre.
"Mãe, vamos logo! Não aguento mais esperar essa nerd."
Dona Clara olhou de mim para Bruna, depois para o copo de leite quase vazio na mesa. Ela parecia satisfeita.
"Já estamos indo, filha. Sofia já tomou o leite para dar energia." Ela se virou para mim. "Tenho um presente para te dar sorte, querida."
Ela abriu a bolsa para pegar o colar que não estava mais lá. Eu a observei, meu rosto uma tela em branco. Quando ela não o encontrou, um pânico rápido passou por seus olhos, mas ela o disfarçou. Talvez tenha pensado que o deixou em outro lugar.
"Bem, não importa. O importante é que você está pronta", ela disse, forçando um sorriso. "Bruna, deseje boa sorte para a Sofia."
Bruna me olhou de cima a baixo com puro desprezo.
"Tanto faz. Só espero que você passe logo para parar de encher o saco de todo mundo com esse seu estudo."
O feitiço, ou seja lá o que fosse aquilo, precisava de proximidade e de um gatilho emocional. Na primeira vez, foi o toque de Bruna no meu ombro enquanto eu usava o colar, logo após beber o leite.
Agora, o colar estava em Miau.
E Bruna, com sua raiva e inveja transbordando, se aproximou. Mas não de mim. Ela olhou para Miau, que estava se enrolando em suas pernas.
"Sai daqui, bicho nojento!", ela gritou, e deu um chute fraco no gato.
No instante em que seu pé tocou o pelo de Miau, uma luz fraca e quase imperceptível brilhou no pingente de quartzo.
Bruna congelou. Seus olhos ficaram vidrados. Ela balançou, como se estivesse tonta.
Miau, por sua vez, caiu de lado no chão, como se tivesse desmaiado.
Dona Clara olhou confusa. "Bruna? O que foi?"
Bruna, ou o que quer que estivesse em seu corpo agora, piscou lentamente. Olhou para as próprias mãos, depois para os pés. Uma confusão genuína em seu rosto. Então, ela olhou para Dona Clara e abriu a boca para falar.
Mas o que saiu não foi uma palavra.
Foi um miado.
Um miado alto, assustado e inconfundivelmente felino.