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Corrrentes De Cristal

Corrrentes De Cristal

Autor:: fernandez98
Gênero: Jovem Adulto
Elena Sandoval jamais imaginou que a noite em que seu pai a vestiu com um elegante vestido não seria para seu aniversário... mas sim para vendê-la. Profundamente endividado com um dos homens mais perigosos do país, seu pai a entrega como pagamento ao líder da máfia italiana da cidade: Dante Moretti, conhecido por sua frieza, sua elegância letal e sua reputação de ser impiedoso. Dante não busca amor. Ele busca obediência. Mas o olhar desafiador de Elena desperta algo que nem seus inimigos nem seus capangas jamais viram: fraqueza. Ela não está disposta a ser sua boneca, e ele não sabe se quer quebrá-la... ou se render a ela. Em meio ao luxo, sangue e segredos, ambos descobrirão que o amor pode ser mais perigoso que a morte.

Capítulo 1 O valor de uma divida

Dizem que as dívidas se pagam com dinheiro, mas na minha casa, elas sempre foram pagas com silêncio.

E o silêncio... tem um preço alto.

Meu nome é Elena Sandoval, tenho vinte e dois anos e cresci aprendendo a ler rostos antes de livros contábeis. Suponho que era inevitável: quando se vive com um pai que promete o mundo e mal consegue se sustentar sozinho, aprende-se a antecipar a ruína.

Toda manhã começa igual: uma xícara de café frio, uma pilha de contas e um pai que jura que "desta vez" tudo ficará bem. Eu o encaro com a pouca paciência que me resta, a mesma paciência que herdei da minha mãe antes de ela partir. Meu pai já foi um empresário respeitável: tinha uma pequena importadora, um negócio familiar que prosperava enquanto ele não misturava uísque com suas decisões. Mas a ambição pode ser um veneno lento... e a dele já o havia paralisado.

Primeiro vieram os empréstimos bancários, depois os informais e, por fim, os assinados não com tinta, mas com sangue. Descobri isso por acaso. Ao revisar os livros contábeis, encontrei números que não batiam, pagamentos ocultos, juros impossíveis. Havia um nome repetido, escrito no canto de um pedaço de papel manchado:

Dante Moretti.

Eu não sabia quem ele era na época, mas só o nome me arrepiou até os ossos. Os boatos no porto diziam que ele era um homem que não perdoava erros. Controlava as rotas, os portos, os negócios de luxo e as sombras. Tinha o poder de um rei, mas o olhar de um predador.

Meu pai começou a mudar depois de conhecê-lo. Dormia pouco, bebia mais. Tentei salvar o que restava da empresa, negociar com os clientes, manter à tona uma companhia que já estava afundando. Ganhei no mercado a reputação de ser fria, rápida e lógica. Me chamavam de a garota dos cálculos impossíveis, aquela que transformava prejuízo em lucro. Mas não havia fórmula que pudesse salvar alguém que havia apostado a própria alma.

Naquela noite, encontrei-o em frente à lareira, o copo meio vazio, o olhar perdido nas chamas.

"Quanto você deve a ele, pai?", perguntei sem rodeios.

Ele levou alguns segundos para responder.

"Você não entenderia."

Eu entendi mais do que imaginava. Homens que acabam devendo a Dante Moretti não ficam apenas arruinados financeiramente. Eles ficam arruinados em dignidade.

Os dias seguintes foram uma coreografia de ansiedade. Recebi ligações, mensagens sem remetente, ameaças veladas. Continuei trabalhando, tentando renegociar contratos, vendendo bens, buscando uma saída racional. Mas todos os meus cálculos terminavam da mesma forma: no vermelho.

Certa tarde, enquanto eu revisava as contas no pequeno escritório, ouvi a porta da frente se abrir com um estrondo. Meu pai entrou, pálido, os lábios trêmulos. Na mão, ele segurava uma carta lacrada com cera preta.

"Ele quer te ver", disse, evitando meu olhar.

"Quem?" "Dante."

O silêncio que se seguiu pesou mais do que qualquer palavra.

Fiquei imóvel, olhando para ele, tentando decifrar se havia medo ou alívio em sua voz.

"Por que ele iria querer me ver?", perguntei lentamente.

Ele engoliu em seco, afundando na poltrona como se o peso do mundo o estivesse esmagando.

"Porque... não tenho nada para te pagar."

"O que você fez, pai?"

Ele não respondeu. Apenas fechou os olhos com força, envergonhado, e murmurou algo que jamais esquecerei:

"Você é a única coisa de valor que me resta."

O ar se tornou uma adaga em meu peito. Não chorei, não gritei. Apenas o encarei.

Naquele instante, compreendi que meu destino havia sido vendido antes mesmo que eu tivesse a chance de lutar por ele.

"Por que ele queria me ver?" Mas se há uma coisa que aprendi na vida, é que não se perde um negócio sem negociar primeiro.

Então respirei fundo, enxuguei as lágrimas que ameaçavam me trair e disse com voz firme:

"Então ele mesmo vai descobrir que nem tudo que compra... lhe pertence."

Capítulo 2 Regras de Moretti

Elena

Nunca havia sentido um silêncio tão pesado.

As portas da mansão se fecharam atrás de mim com um eco que pareceu selar meu destino.

O ar cheirava a madeira antiga, couro e algo mais... um perfume caro, dominante, masculino.

Os passos do guarda se dissiparam e fiquei sozinha em uma sala que parecia projetada para intimidar. As paredes estavam cobertas de retratos e sombras, cada detalhe calculado para lembrar que não havia liberdade ali, apenas poder.

Eu precisava parecer calma, ou pelo menos tentei.

O medo não me favorecia.

O medo era uma arma, e ali, as armas eram usadas com rapidez.

"Senhorita Sandoval." Sua voz me penetrou antes mesmo que eu o visse. Profunda, precisa.

Virei-me lentamente.

Lá estava Dante Moretti, o homem que agora detinha o que restava do meu futuro. Terno escuro, gravata perfeitamente ajustada, o olhar de alguém que não precisa levantar a voz para dominar uma sala.

Ele era atraente, sim, mas não da maneira como os homens bonitos costumam ser.

Ele era imponente.

Sua presença era ao mesmo tempo uma promessa e uma ameaça.

"Não esperava que você fosse tão pontual", disse ele, sem se mover do lugar.

"Não tenho motivos para fazê-la esperar", respondi.

Ele inclinou levemente a cabeça, me estudando como se eu fosse um relatório financeiro que ele precisava avaliar antes de decidir se investiria... ou destruiria.

"Seu pai disse que você entende de negócios", continuou ele.

"Depende do tipo de negócio", respondi, mantendo o olhar fixo nele. "Se você vai me tratar como uma transação, espero ao menos conhecer os termos."

Um lampejo brilhou em seus olhos, breve, como um raio.

Ali estava: a faísca do interesse.

Ele deu um passo em minha direção. O assoalho rangeu sob seus pés.

Cada movimento seu parecia ensaiado, calculado para testar o quanto eu resistiria antes de ceder.

"Normalmente não explico minhas decisões", disse ele calmamente. "Então não se surpreenda se eu desobedecer ordens que não entendo."

Um silêncio denso se instalou entre nós.

Eu podia sentir sua respiração, o calor do seu corpo se aproximando, a tensão invisível nos envolvendo como as correntes do nome que eu nunca escolhi.

"Ela tem coragem", sussurrou ela finalmente. "Isso pode salvá-la... ou condená-la."

"Suponho que dependa de quem tem as chaves", respondi.

Seus lábios se curvaram levemente. Ela não sorriu, mas seu olhar sim.

E pela primeira vez, eu soube que ela não era indiferente.

Ela apenas estava escondendo isso com maestria.

Dante

A maioria das pessoas treme ao entrar nesta casa. Não ela.

Ela olhava para cada canto como se estivesse medindo meu império, calculando seu preço.

Ela não era a mulher que eu esperava. Seu pai a descreveu como "obediente, grata".

Uma mentira. O que se apresentava diante de mim era fogo contido por uma fachada de gelo.

Quando ela falou, não foi com medo, mas com uma elegância perigosa.

Sua voz carregava a calma de alguém que sabe que está sob controle, mas ainda não se rendeu.

Aproximei-me um pouco mais, apenas para ver sua reação.

Nada.

Nem um passo para trás.

Aquela insolência... Era exatamente o que eu não podia me permitir desejar.

"A partir de hoje", eu disse, "você viverá aqui. Haverá regras. Você não sairá sem permissão. Não tomará decisões sem me consultar."

"Então não se trata de uma dívida", ela respondeu friamente. "Trata-se de posse."

A palavra me atingiu em cheio.

"Posse."

Era veneno e verdade ao mesmo tempo.

"Chame como quiser, Elena. Mas lembre-se disto: aqui, cada movimento tem um preço."

Ela sustentou meu olhar com uma afronta que nenhum homem neste mundo deveria apreciar.

"E você", disse ela lentamente, "qual é a sua?"

Por um instante, esqueci de responder.

Porque a maneira como ele formulou a pergunta soava mais íntima do que qualquer carícia.

Elena

Quando ele me conduziu ao salão principal, o peso invisível de suas regras já pressionava meu peito.

Mas algo dentro de mim sorriu.

Não com ironia, mas com reconhecimento.

Eu já havia me envolvido com homens perigosos antes, mas nenhum como ele.

Dante Moretti não era um monstro de impulsos.

Ele era um predador de sangue frio.

E se eu quisesse sobreviver, teria que aprender a ser seu reflexo.

Capítulo 3 As paredes também observam

Elena

Dormi pouco.

Ou melhor, fingi dormir enquanto o relógio invisível da mansão tiquetaqueava num ritmo que não era o meu.

Quando os primeiros raios de luz filtraram-se pelas cortinas, levantei-me.

O chão de mármore estava gelado, e por um instante, aquele frio lembrou-me onde eu estava: numa gaiola luxuosa.

Mesmo assim, algo dentro de mim recusava-se a ceder.

Se ia ficar trancada, aprenderia os caminhos, os sons, os silêncios.

O poder reside sempre em conhecer o terreno.

A mansão era enorme. Corredores intermináveis, retratos de rostos austeros, o aroma constante de incenso e madeira polida. Tudo exalava controlo.

Dele.

Virei uma esquina e dei de cara com uma mulher que carregava uma bandeja de prata.

Cerca de cinquenta anos, com um rosto bondoso, mas olhos cansados.

Ao ver-me, curvou a cabeça com um respeito que soava como uma advertência.

"Senhorita Sandoval", disse ela suavemente. "O Sr. Moretti pediu que a senhora tomasse o café da manhã no jardim sul."

"Ele pediu ou ordenou?", perguntei com um leve sorriso.

Ela me olhou por mais um segundo, como se calculasse se responder poderia lhe custar algo.

"Aqui, ordens sempre soam como pedidos, senhorita", respondeu ela finalmente.

A frase me arrepiou.

Era poética, mas também um aviso.

Continuei caminhando ao lado dela até chegarmos ao jardim.

De lá, eu podia ver os altos muros, o portão de ferro, os guardas discretos.

A liberdade estava a poucos metros de distância, e ainda assim, parecia mais distante do que nunca.

"Há quanto tempo a senhora está aqui?", perguntei enquanto ela me servia café.

"Tempo suficiente para entender que esta casa escuta, mesmo quando parece adormecida."

"E o que a mantém aqui?"

"Prudência", respondeu ela com um sorriso triste.

Eu estava prestes a fazer mais perguntas quando uma voz quebrou o silêncio.

"Ela parece confortável."

Dante estava parado no limiar de pedra, imaculado como na noite anterior, o sol incidindo sobre seu terno preto.

Olhei para ele.

Havia algo nele que não se encaixava na palavra "criminoso".

Ele era meticuloso demais, controlado demais.

E isso o tornava mais perigoso.

"Estou apenas observando", respondi. "Estou tentando entender o lugar onde vou morar... ou sobreviver."

Ele se aproximou lentamente.

Seus passos eram silenciosos, mas sua presença preenchia o ar.

Quando falou, foi naquele tom baixo que parecia deslizar sobre a pele.

"Você não precisa entender. Apenas obedeça."

"Sou péssima em seguir ordens, Sr. Moretti."

"Então você terá que aprender rápido."

"E se eu não quiser?" "Nem todas as lições são aprendidas de bom grado", disse ela, aproximando-se o suficiente para que sua sombra cobrisse a minha. "Algumas são aprendidas por necessidade."

O ar entre nós ficou denso.

Não havia uma ameaça explícita, mas algo mais forte: curiosidade, atração, um perigo compartilhado.

"Posso ao menos perguntar que tipo de dívida estou pagando?", sussurrei.

Seus olhos suavizaram um pouco, como se a pergunta a tivesse magoado mais do que ela admitisse.

"O tipo de dívida que se herda", respondeu ela.

E saiu.

Dante

Ela não deveria me provocar.

Não assim.

Mas ela provoca.

Com cada palavra calculada, com cada desafio envolto em polidez.

Não há medo em seu olhar, apenas cálculo.

É isso que a torna diferente.

Da galeria do segundo andar, observei-a caminhar pelo jardim.

Ela se movia como alguém que pertencia àquele mundo, não como uma prisioneira.

Se eu não soubesse quem ela era, teria pensado que era a dona da mansão.

"Ele parece gostar dela", disse uma voz atrás de mim.

Era Luciano, meu segundo em comando. Sempre direto, sempre um passo atrás.

"Não confundo curiosidade com gostar", respondi.

"Mas ele está observando-a. E isso, em você, Moretti, já é perigoso."

Não o corrigi.

Ele tinha razão.

Luciano continuou:

"A garota tem garra. Ela pode ser útil... ou se tornar um problema."

"Todos os problemas têm solução", eu disse.

"Não se o problema te afetar profundamente."

Virei-me lentamente para ele.

"Cuidado, Luciano. Você fala como se achasse que uma mulher pode me destruir."

"Ela não é uma mulher qualquer. Você sabe disso."

O silêncio voltou, pesado.

E pela primeira vez em muito tempo, eu não sabia se o silêncio estava do meu lado.

Elena

Naquela noite, sentada sozinha no meu quarto, entendi algo que antes tentava negar: Dante Moretti não me trancara como castigo.

Ele fizera isso porque, de alguma forma, me escolhera.

E nesse pensamento, em meio ao medo e à intriga, nasceu algo mais perigoso que o ódio: a curiosidade de saber o que se escondia por trás do seu controle.

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