PARTE 1 – DAMAS E SENHORES
Com passos suaves e silenciosos, a mulher saiu por entre as pedras que formavam a entrada de uma caverna e desceu alguns metros em direção à um lago de águas cristalinas. A luz do sol que acabara de nascer refletia nas águas completamente imóveis, lançando milhares de reflexos.
Os pés descalços da mulher apontavam por debaixo da barra do grande vestido longo e branco, pisando com firmeza pelo terreno irregular como se conhecesse cada detalhe do solo incerto.
Às margens do lago, ela se abaixou, revelando um pequeno embrulho de tecidos preso aos braços finos e compridos. Seus olhos vasculharam o rostinho adormecido ali no meio. A expressão da bebê era de profunda paz, ignorando tudo que acontecia ao seu redor.
- Morgana. – uma voz a suas costas fez com que se virasse, prendendo o bebê ao peito novamente, num instinto protetor.
- Você me assustou. – respondeu Morgana, deixando que seu corpo tocasse o chão, sentando-se na margem do rio. Seu coração batia acelerado com o susto, mas a dona da voz não representava perigo para nenhuma das duas. Voltou-se para a frente novamente e passou a embalar o bebê, que agora estava com os olhinhos bem abertos.
A outra mulher desceu até o seu lado com igual silêncio e também se sentou:
- O que faz aqui fora? – Morgana lançou seu olhar a ela demonstrando reprovação.
- Vi você sair. – respondeu prontamente – Por que trouxe a bebê para o lago?
- Pretendo lhe dar o banho. – a resposta saiu fácil, sem hesitação, o que causou um arquejo de surpresa na outra – O que foi, Matilda? Ela é uma de nós. – agora a voz de Morgana trazia uma nota de irritação.
- Você não sabe. – a outra replicou rapidamente - Madalena é quem deveria... – mas Matilda não conseguiu completar a frase, baixando o tom de voz gradualmente.
- Madalena não está aqui. – Morgana disse tristemente – E na falta dela, sou eu quem devo fazer isso. – apesar de triste, sua voz soava firme e cheia de certeza.
As duas mulheres se olharam com tristeza por um instante, depois Matilda apenas assentiu enquanto os dedos habilidosos de Morgana desembrulhavam a bebê e depois a mergulhavam nas águas do lago sem hesitação.
A pequena bebê abriu muito os olhos, rapidamente atenta ao contato novo em sua pele, mas não chorou, e pareceu que estava até mesmo gostando de estar dentro da água após poucos instantes.
- Viu? – Morgana disse enquanto jogava um punhado de água sobre sua cabecinha – Ela é uma de nós, sim.
Matilda não soube como protestar, a bebê quase sorria para as duas sem aparentar qualquer incomodo por estar sem roupa nas águas frescas ao raiar do sol. Suas mãozinhas pequenas se agitavam e pareciam querer reconhecer o novo ambiente onde estava. Não havia como não sorrir para essa cena.
As duas tornaram a enrolá-la nos panos juntas e então Matilda olhou para a outra com suavidade na voz perguntou:
- O que faremos agora?
Morgana olhou a bebê, que já dormia novamente, totalmente alheia a tudo que estava acontecendo. Não sabia o que responder. Ou melhor, sabia, mas preferia não ter que dizer em voz alta.
- Acho que você sabe, Matilda. – ela embalava a bebê adormecida – Vamos ter que deixá-la no orfanato. – preferia ter feito isso sem ter que ter uma conversa com a outra.
- No orfanato? – os olhos de Matilda ficaram tristes – Não acha que uma de nós poderia... – deixou a sugestão no ar, cheia de expectativa.
- Creio que não nos será permitido. – Morgana suspirou.
Diante disso, não havia mais nada a ser dito, e duas mulheres se levantaram lentamente e voltaram pelo caminho por onde vieram, sumindo pela entrada da caverna.
Logo haveria uma grande viagem a ser feita.
Quatorze anos depois...
Cristal acordou com o som de alguém pulando e, abrindo os olhos, constatou que era uma das crianças menores que estava em cima de uma outra cama perto dali. A menininha sorria para ela. A garota gemeu e virou para o outro lado, torcendo para dormir mais no único dia que podia.
- Ei... – Cristal quis ignorar aquela voz – Ei, Cristal. – mas seria impossível. Como sempre.
- O que foi? – ela sentou-se na cama olhando para o garoto na porta.
- Levanta daí, vamos. – o garoto insistiu parado na porta. Seus cabelos pretos estavam penteados e ele já estava trocado.
- Está bem. – Cristal concordou, irritada, levantando. Como sempre, também.
Ela atravessou entre as camas vazias e entrou no banheiro, que também estava vazio àquela hora porque todas as meninas já tinham levantado há bastante tempo. Cristal se trocou e depois olhou no espelho, tentando arrumar seu espesso cabelo enrolado que sempre acabava cheio de nós depois de dormir. Ela se mexia muito a noite toda, mudando de posição, e a quantidade de nós formados no dia seguinte indicavam o quanto a noite havia sido agitada.
Saiu do banheiro e encontrou o garoto ainda no mesmo lugar, mas a menininha que pulava na cama já tinha ido embora.
- Só um instante. – ela disse, arrumando a cama antes de sair.
- Você precisa dormir tanto no único dia que temos livre? – o garoto disse, irritado, quando finalmente os dois saíram para longe do dormitório feminino. Quando é que ele iria se acostumar com essa tradição?
- Mas é bem por isso, Simas. – Cristal sorriu para ele.
Os dois andaram lado a lado pela escadaria até o andar inferior, em direção ao refeitório. As velhas mesas de madeira estavam quase todas vazias, e as poucas ocupadas eram por funcionários do orfanato que sempre comiam depois das crianças.
- Cristal. – a voz da Srta. Olive, a responsável pelo refeitório, era dura, mas ao mesmo tempo aconchegante. – Outra vez dormindo até tarde?
- Dia livre! – Cristal ergueu as mãos em sinal de paz – Mas espero que ainda tenha café da manhã. – seus olhos eram suplicantes.
- Creio que sim. – Srta. Olive sorriu e apontou uma mesa – Vou ver o que posso arranjar.
Cristal se sentou com Simas bem na sua frente e bocejou. Gostava de dormir até tarde no único dia livre que possuíam, e dormiria mais se o amigo deixasse, mas ele nunca deixava.
- Olha o que eu fiz para você. – Simas passou uma folha com um desenho perfeito do rosto de Cristal.
- Nossa! – ela exclamou – Você está ficando cada vez melhor nisso. – Simas sorriu, corando ligeiramente.
Nesse momento srta. Olive trouxe o café da manhã: leite, café preto e pães. Depois de colocá-los na mesa, voltou a afastar-se. Cristal começou a comer em silêncio, estava completamente faminta.
- Em breve vou poder sair do orfanato sem supervisão. – Simas disse alegremente.
Em breve, ele completaria dezesseis anos e teria o direito de sair sozinho depois de todas as suas tarefas estarem realizadas, e precisaria retornar até as dezenove horas.
- Gostaria de poder ir também. – resmungou Cristal – Mas isso está longe de acontecer.
- Um pouco. – lamentou-se Simas.
Cristal havia completado quatorze anos há pouco tempo, o que significava que levaria praticamente mais dois anos para que também tivesse liberdade de circular sem acompanhante. O grande desejo das crianças do orfanato costumava ser esse, explorar coisas sem adultos em cima o tempo todo.
Depois do café, eles saíram pelas portas que levava para o grande jardim dos fundos. A maioria das crianças menores estava brincando ali em pequenos grupos. As maiores, que podiam sair, aproveitavam o dia de folga fora.
Cristal e Simas circularam o orfanato, andando lentamente, até que chegaram ao imenso portão da frente. Pararam ali, entre as grossas grades de ferro, e ficaram olhando para a rua. As pessoas passavam do lado de fora sem olhar muito para o casarão que era o orfanato, e isso não espantava nem Cristal e nem Simas, que haviam crescido ali e estavam habituados a serem meio invisíveis.
- Olha. – sussurrou Simas como se falasse um segredo – São elas.
Cristal olhou através das grades para onde ele apontava e viu uma mulher com uma menina mais nova.
Ambas vestiam um comprido vestido que ia até os pés, o da mulher era branco e o da menina, que devia ter pelo menos uns cinco anos a mais que Cristal, era amarelo.
- O que tem elas? – perguntou, sem entender.
- São duas Damas. – explicou Simas – Elas moram nos limites do povoado, não sei bem o que fazem, mas protegem eu acho.
- O que isso quer dizer? – Cristal estudou com os olhos as duas silhuetas que se moviam em silêncio pela rua. As pessoas acenavam com a cabeça em sinal de respeito quando passavam, mas mantinham certo distanciamento.
- Você não conhece? – Simas parecia perplexo – Damas são uma espécie de protetoras, dizem que elas tomam uma aprendiz para si. – especulou enquanto as duas figuras estavam entrando em uma loja – Eu soube que elas costumavam viver misturadas com a gente, mas então houveram muitas pessoas que quiseram fazer parte.
- O que aconteceu? – Cristal olhou para Simas, mas o garoto ainda tentava espiar.
- Elas se exilaram para os limites do povoado e passaram a aceitar apenas herdeiras. – ele concluiu.
- São só mulheres? – Cristal perguntou franzindo a testa. Como teriam herdeiras?
- Claro que não. – Simas riu, aparentemente pensando a mesma coisa – Os homens são chamados de Senhores. E antes que me pergunte, eu não sei o papel de cada um deles. – na verdade tudo que ele sabia era obtido através de pedaços de conversas que ouvia dos garotos mais velhos, antes que o percebessem por perto e mandassem sair.
Cristal suspirou e então observou, novamente, as duas figuras que agora saiam da loja. Elas carregavam uma sacola e andavam em absoluto silêncio do outro lado da rua. Foi então que a mulher mais velha ergueu o olhar e pareceu avistar Cristal. Cristal deu um passo para trás, saindo de perto das grades de ferro, surpresa.
- Ela me olhou? – perguntou perplexa.
- Pareceu. – Simas respondeu, igualmente espantado.
Os dois andaram para longe do portão e sentaram num banco gasto de madeira.
- Mas para onde elas se exilaram? – Cristal perguntou pensando nos vestidos longos das duas mulheres.
- Acho que ninguém sabe. – Simas respondeu olhando para o rosto de Cristal, mas ela não percebeu. Estava pensando sobre as coisas que ele acabara de falar e se perguntando o motivo de nunca ter ouvido falar disso.
O resto do dia foi se passando da forma como costumavam se passar os dias livres no orfanato, mas dessa vez Cristal parecia mais distante do que o de costume. Muitas vezes Simas percebeu que ela não estava ouvindo o que ele falava, mas não teve coragem de reclamar com a amiga.
Quando começou a escurecer, os moradores mais velhos começaram a voltar e se reunir no refeitório para o jantar. Cristal e Simas se sentaram juntos numa mesa no canto, como faziam há anos.
Enquanto a comida era servida, a diretora Adeline andava por entre as mesas conferindo se todos estavam presentes. Seu olhar era sempre sério e penetrante. Cristal se perguntou, como sempre fazia quando a via conferir, o que aconteceria se algum deles algum dia não respeitasse o toque de recolher.
- Não vejo a hora de poder passar algumas horas fora. – comentou Simas, ainda animado com a ideia.
- Eu também não veria. – suspirou Cristal, pensando nos dois anos que ainda faltavam.
Depois do jantar, as crianças começaram a se retirar para os dormitórios aos poucos. Quase os últimos a sair, Cristal e Simas andaram lentamente pelas escadas.
- Então vejo você amanhã. – disse Cristal indo para seu lado dos dormitórios.
- Até amanhã. – Simas respondeu, hesitando parado no topo da escada, observando enquanto ela se afastava.
- Cristal. – Cristal se moveu levemente. Tinha certeza que era muito cedo para ir para a escola. – Cristal, acorde. – insistiu a voz, sussurrando firme. Ela abriu os olhos e percebeu que o quarto ainda estava um pouco escuro, mas tentou focar os olhos embaçados no rosto sério da diretora Adeline.
- Diretora? – perguntou, confusa.
- Fale baixo. – a diretora pediu, olhando as outras camas – Preciso que você se levante e venha comigo.
Era uma ordem e Cristal não hesitou. Saiu da cama meio cambaleante e seguiu a diretora para fora do dormitório silencioso, desceram as escadas e entraram na sala da diretoria. Lá dentro, a claridade das luzes acesas ofuscou seus olhos por um momento.
- Cristal, você tem uma visita. – Adeline anunciou apontando uma distinta figura sentada na cadeira de frente da escrivaninha da diretora.
Cristal não conseguiu falar nada diante da mulher vestida com um imenso vestido branco. Tinha longos cabelos lisos e escuros, de um brilho intenso, caindo pelas costas, e um meio sorriso nos lábios. Era como a mulher que tinha visto com Simas no dia anterior, uma das Damas que ela nunca tinha ouvido falar até então.
- Vou deixa-las a sós. – a diretora se retirou, fechando a porta ruidosamente. Cristal desejou que ela tivesse ficado ali dentro, como uma espécie de segurança.
A estranha se levantou e andou até estar diante de Cristal, que permanecia estática no lugar. A mulher tinha os olhos marejados, mas ainda sustentava aquele sorriso suave.
- Cristal, como você cresceu! – ela pousou as duas mãos em seus ombros.
- Eu conheço você? – perguntou, confusa.
- Claro que você não se lembra. – as mãos soltaram seus ombros – Meu nome é Morgana.
- Você é uma Dama? – perguntou Cristal, ainda pensando na história que Simas tinha contado.
- Já ouviu falar sobre nós? – Morgana parecia espantada.
- Meu amigo Simas me contou algumas coisas. – Cristal finalmente se moveu, um tanto desconfortável pela presença da estranha – Mas ele não sabe de nada. – acrescentou, preocupada que pensassem que Simas soubesse coisas demais – Apenas boatos.
- Entendo. – disse a outra apenas, sem dar muita atenção – Sente-se, Cristal. – Morgana ofereceu a cadeira que estivera antes e se sentou do outro lado da escrivaninha, no lugar da diretora Adeline. Era estranho ver outra pessoa ocupando aquele lugar.
- O que está fazendo aqui, senhora? – perguntou, se sentindo ainda mais desconfortável.
Morgana suspirou profundamente.
- Uma pergunta por vez. – ela se recostou na cadeira. – Sim, sou uma Dama. – Cristal não se lembrava mais de ter perguntado isso. – E você está aqui porque completou recentemente quatorze anos. – as duas se olharam. Cristal não entendeu o que isso tinha de relevante.
- Não compreendo. – murmurou.
- Ora, pensei que fosse concluir sozinha. – Morgana sorriu – Você é uma de nós, Cristal. É uma Dama.
- Eu o quê? – seus olhos se arregalaram – Não é possível, senhora. Eu cresci aqui no orfanato.
- E eu mesma te trouxe para cá. – a outra disse rapidamente – Além de uma Dama, também sou sua tia.
- Tia? – a voz de Cristal saiu aguda. Seu coração batia acelerado.
- Há inúmeras coisas que você precisa saber. – Morgana levantou da cadeira – Mas preciso que venha comigo.
Cristal se levantou lentamente, a ideia de ter uma família, fosse qual fosse, era absurda e difícil de acreditar. E era um pouco assustador se afastar do orfanato, que era tudo que conhecia.
- Por que agora? – perguntou – Por que não me quis antes?
O sorriso de Morgana se fechou numa expressão triste.
- Não foi assim que aconteceu. – sua voz era carregada de tristeza – Não pudemos ficar com você, e vou explicar tudo.
- O que quer dizer com "nós"? – Cristal se afastou da escrivaninha enquanto Morgana dava a volta.
- Você tem outra tia. – esclareceu – O nome dela é Matilda. – Morgana tentou segurar as mãos de Cristal, mas ela cruzou os braços. – Nós queríamos muito ficar com você, mas não era permitido. Por favor, venha comigo e vamos esclarecer tudo.
Nesse momento, a porta da diretoria se abriu e Adeline entrou:
- Está tudo bem? – olhou as duas rapidamente - As crianças já estão levantando, então seria bom Cristal pegar suas coisas.
As duas mulheres olharam para ela. Pela expressão da diretora, Cristal soube que ela já aguardava esse momento, sempre soube que viriam buscá-la, isso era certeza. Será que ela também sabia que tinha uma família em outro lugar?
Saiu, e rapidamente foi até o dormitório reunir seus poucos pertences na mala. Erguendo o colchão, pegou os desenhos que Simas lhe fazia e os embalou junto, sem conseguir olhá-los. Algumas crianças a olhavam com curiosidade, mas ninguém perguntou nada enquanto ela fechava a mala e se afastava do quarto.
- Vamos. – disse a diretora ao pé da escada – Ela está te esperando lá fora. – apontou a porta pela qual Cristal deveria sair.
Cristal seguiu sem acreditar que estava indo embora do orfanato sem poder se despedir de ninguém. Quando estava atravessando os portões da frente, lançou um último olhar ao único lar que conhecia.
A visão lhe partiu o coração. Em uma das janelas, Simas a observava com a expressão mais desolada que ela já vira. A mão do garoto tocou o vidro e ficou parada lá, como se tentasse tocá-la.