Por dez anos, eu amei secretamente meu tutor, Heitor Alves. Depois que minha família desmoronou, ele me acolheu e me criou. Ele era o meu mundo inteiro.
No meu aniversário de dezoito anos, juntei toda a minha coragem para confessar meu amor por ele.
Mas a reação dele foi uma fúria que eu nunca tinha visto. Ele jogou meu bolo de aniversário no chão e rugiu: "Você enlouqueceu? Eu sou seu TUTOR!"
Em seguida, ele rasgou impiedosamente em pedaços a pintura que levei um ano para fazer - minha confissão.
Poucos dias depois, ele trouxe para casa sua noiva, Clara.
O homem que havia prometido esperar que eu crescesse, que me chamava de sua estrela mais brilhante, havia desaparecido. Minha década de amor desesperado e ardente só conseguiu queimar a mim mesma.
A pessoa que deveria me proteger se tornou a que mais me machucou.
Olhei para a carta de aprovação da USP em minha mão. Eu tinha que ir embora. Tinha que arrancá-lo do meu coração, não importava o quanto doesse.
Peguei o telefone e disquei o número do meu pai.
"Pai", eu disse, com a voz rouca, "eu decidi. Quero ir ficar com você em São Paulo."
O décimo oitavo dia de desistir de Heitor Alves começou com Alice apagando a foto da tela de bloqueio do seu celular.
Era uma foto espontânea que ela havia tirado secretamente.
Heitor estava sentado no sofá, banhado pelo sol da tarde, com uma revista de finanças sobre os joelhos. Ele olhava para ela, um sorriso fraco, quase imperceptível, nos lábios.
Por dez anos inteiros, dos oito aos dezoito, este homem tinha sido o sol em seu mundo.
Sua alegria, sua raiva, sua tristeza, seu mundo inteiro girava em torno dele.
Mas agora, ela queria apagar aquele sol com as próprias mãos.
A tela ficou preta.
Um preto limpo e absoluto, sem deixar nada para trás.
Os dedos de Alice tremeram levemente enquanto ela pousava o celular e pegava o copo de leite na mesa. Já estava frio.
Ela bebeu de um gole só, o líquido gelado descendo por sua garganta, mas não conseguiu suprimir a queimação em seu peito.
Ela pegou o celular novamente e discou um número que não contatava há muito tempo.
A chamada conectou rapidamente. A voz gentil de um homem soou.
"Alice?"
"Pai", ela chamou, a voz um pouco rouca. "Recebi minha carta de aprovação. USP."
Seu pai ficou em silêncio por um momento, depois sua voz se encheu de uma alegria incontida. "Isso é maravilhoso! Alice, parabéns. História da Arte, certo? O curso que você sempre sonhou."
"Sim."
"Então, você decidiu? Você vem para São Paulo?"
"Eu decidi", disse Alice, apertando o celular com mais força. "Quero ir ficar com você."
Ela queria fugir daquele lugar. Queria fugir de Heitor Alves.
Seu pai pareceu sentir a emoção em sua voz. Ele suspirou suavemente. "É por causa do Heitor? Ele te tratou mal de novo?"
"Não", mentiu Alice, forçando um tom relaxado. "Ele vai ficar noivo. Não posso continuar morando na casa dele como sua tutelada, não agora. Parece errado. Além disso, já sou adulta. É hora de aprender a ser independente."
Um silêncio pesado se seguiu.
Depois de um longo tempo, a voz de seu pai, cheia de dor, veio pelo telefone. "Minha pobre Alice. Foi duro pra você todos esses anos, morando naquela casa porque eu não podia... Que bom que você está vindo. O papai vai cuidar de você de agora em diante."
Ele acrescentou: "Os negócios da nossa família estão de volta aos eixos. Você não precisa mais depender de ninguém. O papai pode te sustentar."
O calor de suas palavras fez os olhos de Alice arderem.
Ela fungou, segurando as lágrimas. "Ok."
Depois de desligar, ela se olhou no espelho. Seus olhos estavam vermelhos e inchados.
Dez anos. Ela havia passado dez anos inteiros amando um homem que nunca pertenceria a ela.
Ela tinha que ir embora.
Tinha que arrancar Heitor Alves de seu coração, pedaço por pedaço, não importava o quanto doesse.
Respirando fundo, ela saiu de seu quarto. A luz do escritório no final do corredor estava acesa.
Heitor ainda estava trabalhando.
Ela hesitou por um momento, depois caminhou até lá, segurando a carta de aprovação da USP. Ela precisava contar a ele.
Ela parou na porta entreaberta. Pela fresta, podia ver o homem lá dentro.
Ele usava uma camisa cinza simples, sua postura ereta e sua expressão focada. A luz da luminária lançava um brilho suave em seu perfil afiado, delineando um rosto tão bonito que parecia irreal. Um par de óculos de aro dourado repousava em seu nariz alto, dando à sua aparência fria um toque de elegância refinada.
Este era Heitor Alves. O antigo protegido de seu pai, o jovem brilhante que permaneceu leal quando os negócios de sua família ruíram. Quando seus pais se divorciaram e sua mãe deixou o país, foi seu pai, em seu ponto mais baixo, que pediu a Heitor para se tornar seu tutor legal. Ele era o homem que a havia criado.
Seu tutor, sem laços de sangue.
E o homem que ela amou secretamente por dez anos.
"Heitor", ela chamou suavemente, sua voz mal um sussurro.
Heitor ergueu os olhos, a testa franzida levemente ao vê-la. "O que foi?"
Sua voz era tão fria e distante como sempre.
O coração de Alice se apertou. Ela estava prestes a falar quando o celular dele na mesa tocou, um tom nítido e agradável.
Sua expressão fria derreteu no momento em que ele viu o identificador de chamadas. Uma gentileza que ela nunca tinha visto antes floresceu em seus olhos.
"Clara", ele disse, sua voz baixa e suave.
Era sua noiva, Clara Vasconcelos.
"O local? Você decide, por mim tudo bem. Não se preocupe com o custo." Ele ouvia a pessoa do outro lado, o canto de sua boca se curvando em um sorriso carinhoso. "Desde que você goste, nada mais importa."
Alice ficou paralisada na porta, suas mãos e pés gelados.
A carta de aprovação em sua mão parecia pesar uma tonelada.
De repente, ela se lembrou de seu aniversário de dezoito anos, apenas dois meses atrás. Ela havia reunido toda a sua coragem para lhe dar uma pintura na qual trabalhou por um ano, intitulada *Segredo*.
Na pintura, uma jovem seguia as costas de um homem, seus olhos cheios de amor.
Era sua confissão.
A reação de Heitor foi uma fúria que ela nunca tinha visto antes.
Ele varreu todos os presentes da mesa, o bolo caindo no chão.
"Alice Miller!", ele havia rugido, seus olhos vermelhos de raiva. "Você enlouqueceu? Eu sou seu TUTOR!"
Ela havia argumentado teimosamente, lágrimas escorrendo pelo rosto. "Mas não somos parentes de sangue! Meu pai confiou em você! E a maneira como você sempre me mimou... não é assim que um tutor deve tratar sua tutelada!"
Ele havia zombado, seu rosto bonito contorcido pela crueldade. "Você não sabe diferenciar carinho de família de amor? Sua educação foi um desperdício."
Com isso, ele havia rasgado impiedosamente sua pintura, seu *Segredo*, em pedaços.
Ele se virou e saiu sem olhar para trás, deixando-a sozinha nos destroços de seu aniversário.
Ela chorou e juntou os pedaços, colando-os cuidadosamente. Mas a pintura, como seu coração, estava coberta de cicatrizes.
Mesmo assim, ela não havia desistido.
Ela pensou que, se fosse boa o suficiente, se entrasse na universidade dele, ele a notaria.
Mas logo após sua formatura, ele trouxe Clara Vasconcelos para casa.
Ele a apresentou com um sorriso. "Alice, esta é Clara, minha noiva."
Foi nesse momento que ela soube.
Tinha realmente acabado.
Todo o seu amor desesperado e ardente dos últimos dez anos só havia queimado a si mesma.
Agora, ela tinha que ser a única a apagar o fogo.
Ela tinha que tirá-lo de seu coração.
Heitor ainda estava ao telefone, sua voz gentil e paciente enquanto discutia os detalhes da festa de noivado com Clara.
Alice permaneceu em silêncio na porta, ouvindo a voz que um dia fora seu mundo inteiro.
Ela engoliu silenciosamente as palavras que estava prestes a dizer.
Qual era o sentido de contar a ele?
Ela era apenas sua tutelada, sua responsabilidade. Para qual universidade ela ia, para onde ela ia... ele não se importaria.
Ela se virou e se afastou, seus passos leves, como se tivesse medo de perturbar a cena doce lá dentro.
De volta ao seu quarto, ela olhou ao redor do espaço em que viveu por dez anos.
Faltavam quinze dias.
Em quinze dias, ela deixaria este lugar completamente.
Seu olhar caiu sobre a pequena luminária em sua mesa de cabeceira. Tinha a forma de uma chinchila, um presente de Heitor em seu décimo aniversário. A luz que emitia era um amarelo quente e suave.
Ele lhe dissera então: "Alice, de agora em diante, serei como esta chinchila, protegendo você sempre."
Ele tinha sido seu protetor.
Mas isso tudo estava no passado.
Ela estendeu a mão e desligou a luminária. O quarto mergulhou na escuridão.
Era hora de fazer as malas.
Ela puxou uma mala velha e empoeirada do fundo do armário e abriu a vitrine.
Dentro estavam todos os presentes que Heitor lhe dera ao longo dos anos.
Um amuleto da sorte pelo qual ele ficou na fila por horas para conseguir em uma pequena e renomada loja de artesanato. Um perfume personalizado que ele mesmo havia criado para ela.
Um por um, ela os colocou na mala.
A cada item, seu coração se sentia um pouco mais vazio, como se um buraco estivesse sendo aberto dentro dela.
Ela reprimiu a sensação de desolação e abriu a gaveta de baixo do armário.
Lá dentro, havia um caderno desbotado e amarelado.
Era o seu diário.
As primeiras páginas estavam cheias de rabiscos infantis, registrando sua infância turbulenta após o divórcio de seus pais e o bullying que sofria dos colegas de classe.
Heitor o vira acidentalmente uma vez.
Ele não disse nada na hora, mas mais tarde naquela noite, ele foi ao seu quarto e sentou-se ao lado de sua cama.
Ele acariciou suavemente seu cabelo e disse: "Alice, você é a estrela mais brilhante aos meus olhos."
Mais tarde, ela descobriu que ele havia ido à sua escola e avisado os valentões. A partir de então, ninguém mais ousou incomodá-la.
Ele havia protegido secretamente sua infância.
À medida que ela crescia, sua caligrafia no diário se tornava mais nítida, e as entradas eram todas sobre ele.
Sobre a vez em que ele ganhou um prêmio importante e lhe disse: "Você é minha medalha de honra."
Sobre a vez em que ele lhe deu uma rosa e disse: "Vou esperar você crescer."
Ela virou para a última página. Era uma mensagem que ele havia escrito para ela quando estava no segundo ano do ensino médio.
"Estude muito e entre na FGV. Depois de se formar, você pode vir trabalhar na minha empresa. Continuarei cuidando de você."
Uma lágrima caiu silenciosamente, borrando a tinta na página.
Ela rapidamente enxugou os olhos, sua expressão endurecendo.
Ela começou a rasgar o diário, página por página.
A cada página rasgada, um pedaço de seu passado com ele era apagado.
Quando a última página foi rasgada, ela jogou todos os fragmentos na mala e a fechou.
Nesse momento, ela ouviu um barulho vindo do andar de baixo.
Ela saiu de seu quarto e viu Clara Vasconcelos na sala de estar, puxando uma mala atrás de si. Heitor a abraçava por trás.
"Você está aqui", disse Heitor, com a voz suave.
Clara viu Alice na escada e sorriu, aproximando-se. "Alice, eu trouxe um presente para você."
Ela abriu a mala e tirou uma caixa delicada. Dentro havia um lindo bolinho, uma mousse de manga coberta com frutas frescas.
O sorriso de Alice se contraiu.
Ela tinha uma alergia gravíssima a manga.
Ela se lembrou de uma vez em que uma nova governanta serviu uma sobremesa com purê de manga, e ela teve uma reação alérgica terrível, acabando na emergência.
Heitor demitiu a governanta na hora e tornou a cozinha uma zona estritamente livre de manga desde então.
Ele costumava se lembrar de todas as suas preferências, todas as suas vulnerabilidades.
"Alice", a voz de Heitor veio de trás de Clara, com um toque de descontentamento. "Clara escolheu para você. Pegue."
Alice olhou para Heitor. Ele tinha uma expressão que dizia que era apenas natural.
Seu coração doeu com uma dor surda.
Ele não apenas havia retirado seu afeto, mas também havia esquecido suas fraquezas.
Ela respirou fundo, pegou a caixa, forçando um sorriso.
"Obrigada, Clara. É lindo."
Mas ela não se importava mais.
Na verdade, ela deveria agradecê-los.
Agradecê-los por tornar sua decisão de partir ainda mais firme.
Clara passou a noite.
Alice deitou-se em sua cama, as paredes finas incapazes de bloquear os sons ambíguos vindos do quarto ao lado.
Dormir era impossível.
Ela se levantou e foi para a varanda, acendendo um cigarro. Ela havia aprendido a fumar secretamente há muito tempo.
O gosto amargo encheu sua boca, assim como a amargura em seu coração.
Na manhã seguinte, ela desceu com olheiras escuras sob os olhos.
Clara, com aparência renovada e radiante, a puxou para o sofá.
"Alice, o aniversário do Heitor está chegando. Que tipo de festa você acha que ele gostaria? Um tema praiano?"
As leves marcas vermelhas no pescoço de Clara eram visíveis logo acima de sua gola. Eram como agulhas, perfurando os olhos de Alice.
Ela se lembrou de caminhar com Heitor em uma praia certa noite. Ela lhe dissera que amava o mar.
Ele havia prometido a ela que, a partir de então, todos os seus aniversários seriam comemorados à beira-mar.
Naquela época, os olhos dele estavam cheios dela.
Agora, ele a evitava como uma praga. Ele havia esquecido tudo o que ela gostava e não gostava.
Assim que Alice estava prestes a falar, Heitor interrompeu da cozinha. "Se você quer saber sobre meus assuntos, deveria me perguntar diretamente."
Clara fez beicinho de brincadeira. "Eu só pensei que a Alice te conheceria melhor."
Alice forçou um sorriso, o coração doendo. "Eu não o conheço tão bem."
Ela se levantou para sair, a amargura em seu coração ameaçando dominá-la.
"Onde você vai tão cedo?" A voz de Heitor, de repente fria, a deteve.
O coração de Alice tremeu. "Tenho um horário para tirar meu visto."
Clara pareceu surpresa. "Um visto? Você vai viajar? Com seu namorado?"
A testa de Heitor se franziu, seu tom afiado com desaprovação. "Alice, não quero que você se envolva com ninguém até estar estabelecida na faculdade."
Sua condenação fria atingiu seu coração. Ela nem teve forças para explicar.
Clara amenizou a situação com um sorriso. "Ah, Heitor, não seja tão rígido. A Alice é uma moça. É normal se apaixonar."
Heitor e Clara saíram juntos, de mãos dadas.
Alice ficou na sala de estar, suas mãos se fechando lentamente em punhos.
Ela só teve um décimo oitavo ano, e o deu todo a ele.
Ela não deixaria sua juventude ser enterrada em um pântano de amor não correspondido.
Ela saiu de casa. Uma garoa fina caía, e o ar estava frio.
Ela se lembrou de como Heitor costumava buscá-la e deixá-la pessoalmente em dias de chuva, segurando um guarda-chuva sobre ela. Ele costumava dizer que ela era seu porto seguro em uma tempestade.
Ela disse a si mesma para se acostumar a andar sozinha.
Ela abriu seu guarda-chuva e caminhou na chuva.
Depois de obter seu visto, ela estava prestes a chamar um táxi quando instintivamente clicou no perfil de Heitor, que ela havia definido como notificação especial.
Ele acabara de postar uma nova atualização.
"Um dia chuvoso é perfeito para um anúncio oficial."
A foto que acompanhava era uma foto de casamento dele e de Clara. Ele estava sorrindo, seus olhos cheios de ternura.
A seção de comentários estava inundada de parabéns.
O lado esquerdo de seu peito não doía mais com aquela pontada familiar. Estava dormente.
Ela calmamente digitou um comentário.
"Um casal perfeito."