PONTO DE VISTA DE JULIETA OLIVEIRA
"Julieta, Julieta!
A mesa 4 precisa ser atendida! Os cafés da mesa 7 também estão prontos", Lisa gritou.
"Estou indo!", Eu gritei em resposta.
Lisa era minha melhor amiga, e sua mãe era dona de uma pequena cafeteria. A mãe de Lisa sempre foi como a segunda mãe para mim, e fazia um ano que eu estava trabalhando na cafeteria, como um emprego de meio período.
Lisa me dava uma ajuda enquanto isso. Eu estava economizando dinheiro para pagar as mensalidades da universidade na qual eu irei estudar, a Universidade de São Jorge.
Sempre foi meu sonho estudar lá. Eu ouvi dizer que aquela era uma das melhores universidades do mundo, mas seria difícil para minha família suportar os custos das mensalidades de lá.
A situação financeira da minha família era muito complicada. Eu não estou reclamando... mas mamãe e eu éramos dependentes demais do meu pai. Nós o considerávamos nosso único provedor e dependíamos dele financeiramente.
Ele era funcionário de uma fábrica de aço, trabalhou duro diariamente para que eu pudesse ter um bom futuro. Eu odiava sobrecarregá-lo.
O salário dele não era suficiente para levar uma vida luxuosa, mas nós éramos uma família feliz, independente da nossa condição financeira. Sempre agradecemos a Deus por isso e nunca fomos de reclamar da nossa vida.
Eu amava muito meu pai. Ele era um bom homem sem vícios e temente a Deus, além de uma pessoa alegre, um marido muito amoroso e um pai atencioso também. Eu tinha muito amor pela minha família.
Minha mãe tinha doença cardíaca e precisou fazer uma cirurgia. Nós batalhamos pela vida dela. Abrimos mão das nossas economias e do nosso chalé só para poder arcar com as despesas dos medicamentos e, claro, da cirurgia.
Graças a Deus, ela sobreviveu. Ela tinha dores leves, mesmo após a cirurgia. Ela foi orientada pelo seu médico a não fazer tarefas árduas, e nós nunca permitimos que ela trabalhasse fora. Então, eu tinha que trabalhar meio período para ajudar com as despesas da minha família.
A mãe de Lisa me pagava bem, não era um grande salário, mas era o suficiente para cobrir minhas despesas diárias e economizar para a faculdade.
Lisa e eu estudávamos na mesma escola e terminamos o ensino médio juntas. Completamos 18 anos este ano, o que significava que estávamos prontas para ir para a faculdade. Uhuuul!
Nós fizemos vestibular juntas, na esperança de sermos ambas aprovadas para receber uma bolsa de estudos.
Eu tenho que admitir... eu era meio nerd. Bem, eu não podia evitar, tinha que estudar muito para ser aprovada naquela faculdade e receber uma bolsa de estudos. Aquilo era muito difícil, já que a concorrência para entrar na famosa Universidade de São Jorge era muito acirrada.
Se eu me formar naquela universidade, as condições financeiras da minha família vão melhorar e eu vou ser capaz de ajudar mais a minha família conseguindo um emprego decente. Aquele era o principal motivo para eu querer entrar naquela universidade.
Eu estava recolhendo alguns pratos e a gorjeta que o cliente deixou, quando de repente, Lisa se meteu na minha frente. Ela estava linda usando aquele vestido.
"Espera, por que você está de vestido?" Eu arqueei as sobrancelhas.
"Ah... desculpa não ter te contado... bem, é meio que culpa sua, você estava tão ocupada aqui que me ignorou completamente", ela fez beicinho.
"Tudo bem, me conte agora."
"Mamãe e eu vamos a uma festa. O irmão da minha mãe que nos convidou, então..."
"E então...?"
"Então nós vamos ter de sair mais cedo. Desculpa, desculpa, você já tem tanto trabalho a fazer...", ela disse rapidamente, fechando os olhos.
"Ah, deixa disso bebê, eu dou um jeito. Vá curtir a festa." Eu sorri.
"Você tem certe-"
"Sim, Lisa, só vai! Amanhã nós temos o dia de folga."
"Tá bem, só tome cuidado ao voltar pra casa", ela me abraçou com força.
"Tchau Julieta, tome cuidado!" Eu a ouvi gritar já do lado de fora.
Eu observei enquanto ela entrava em seu carro. Eu peguei os pratos e fui em direção à pia. Eram 23h e eu tinha começado a lavar a louça, quando de repente, ouvi o som do sino da porta de entrada, avisando que mais clientes chegaram.
A cafeteria ficou em completo silêncio.
O que fez com que movimentação da cafeteria parasse?
Espera! Os clientes estão entrando ou saindo?
Eu me virei de repente e me engasguei. Havia um homem na minha frente. Ele não era muito velho, parecia ser um universitário.
Ele estava me encarando. Eu senti como se ele estivesse me despindo com os olhos. Quando eu recuei, ele deu um passo à frente.
Meu coração estava batendo forte em meu peito.
"Posso... lhe... ajudar com algo, senhor?" Eu gaguejei, me sentindo muito nervosa.
Eu entrei em pânico ao suas mãos imensas em meus braços desocupados, me puxando para perto do seu corpo.
"Como você pôde fazer isso comigo, Eva?", ele demandou em um tom perigoso.
Sua voz me fez extremecer. Era tão grossa e rouca... meu cérebro parou de funcionar.
"Eu não... sou... Eva", gaguejei. A forma como ele me encarava me deixou arrepiada. Seus olhos estavam vermelhos e inchados, como se ele tivesse chorado bastante antes.
Será que ele era um psicopata?!
"Por que você sempre mente para mim...? Você me odeia tanto assim? Você esqueceu tudo que nós tivemos?!" Ele bradou, ainda me prendendo contra o seu peito.
"Me desculpe senhor, mas eu não faço ideia de quem você seja! Por favor, me deixe ir", eu tentei me soltar do seu abraço.
"Você me traiu, porra. Ele era melhor do que eu?! Me responde, Eva!", ele estava ainda mais bravo agora.
"Eu nunca traí ninguém! Na verdade, eu estive solteira a minha vida inteira... Eu nunca tive um namorado antes", eu berrei.
"Você continua mentindo, merda!", ele me empurrou para longe e, com uma força desumana, me deu um tapa tão forte na bochecha que eu tropecei e caí no chão. Eu estava me sentindo tonta depois daquilo.
Eu nunca tinha levado um tapa assim antes. Eu olhei para ele, em choque com tudo que ele tinha feito. Eu queria chorar, mas não podia demonstrar fraqueza na sua frente. Ele não podia saber que eu estava indefesa.
Eu podia ver a raiva em seu olhar... a frieza.... o ódio... tudo aquilo direcionado a mim? Mas que culpa eu tinha? Eu nem o conheço!
As lágrimas começavam a cair, mas eu respirei fundo e segurei o choro. Ele dava passos largos em minha direção, parecendo completamente maluco.
Comecei a recuar, mas ainda estava caída no chão. Eu estava me afastando dele com ajuda das minhas mãos.
"Por favor... não se aproxime... de mim! Quem é você?", Eu gaguejei.
De repente, ele me agarrou e me pressionou contra a parede com força.
Aquele comportamento me deixou bastante assustada.
"Me solte... por favor, senhor, eu não faço ideia de quem você seja." Eu gritei de dor, me sentindo muito assustada.
"Por onde você esteve?! Você não sentiu a minha falta?" Ele estava muito colado em mim, eu podia sentir sua respiração no meu pescoço. Tentei afastá-lo, mas ele nem sequer se mexeu.
"Não é da sua conta. Esse é seu último aviso: se você não me soltar, eu vou ter que abrir um boletim de ocorrência contra você na delegacia."
"O quê?", ele disse em um tom espantado.
Isso! Eu acho que ele tem medo da polícia!
"Isso mesmo! Por favor, me deixe em paz... Não me faça ter que chamar a polícia", eu falei, mordendo meus lábios.
Por que ele estava irritado? E por que ele estava rangendo os dentes? E se ele estava rangendo os dentes, por que eu estava sentindo dor... nos meus braços?
Eu olhei para meu braço e a força como aquele maníaco estava o apertando com força. Ele estava apertando minha mão com muita força, "Você não pode fugir de mim, garota, não importa o que... e o quanto você tentar", ele sussurrou em meu ouvido, mordendo o lóbulo da minha orelha. Aquilo me deixou completamente arrepiada. Meus olhos se arregalaram de medo.
"Ahhhh... por favor, tá doendo", eu chiei quando a mão dele apertou meu maxilar.
"Não se preocupe... eu não vou te machucar, querida", ele soava como um psicopata.
'Esse é meu fim! Socorro! Por favor, alguém me ajude!'
Eu queria gritar, mas minha voz não saía. Meu corpo inteiro congelou. Meu cérebro estava girando.
Ele inclinou a cabeça para me beijar...
Não... não... meu primeiro beijo estava prestes a acontecer!
Eu estava perdendo a força devido à forma como ele estava me apertando, quando de repente, alguém o agarrou por trás e o puxou. Eu senti seu aperto afrouxar. Aquilo me deixou respirando de maneira ofegante.
"Que merda, me solta", o maníaco gritou enquanto dois rapazes que pareciam ser da sua idade o agarravam.
"Cara, ela não é Eva... pelo amor de deus, você está exagerando." Um dos rapazes falou com um olhar de preocupação em seu rosto.
Minha cabeça começou a girar. Eu estava tendo uma crise de pânico. Eu notei uma moça se aproximando de mim...
"Não... não toque em mim. Por favor, vá embora... não me toque... saia...", eu gritava, segurando minha cabeça com as mãos. Eles estavam segurando aquele maluco com as duas mãos, enquanto ele gritava e se debatia contra o aperto deles.
"VOCÊ É MINHA E EU VOU TE TER PRA MIM EM BREVE!"
Uma jovem estava me encarando com preocupação, mas eu sinalizei para que ela me deixasse em paz. Eles saíram, levando aquele maníaco para fora da cafeteria. Eles o fizeram entrar em uma SUV e deixaram o local.
Minhas pernas não conseguiram mais me sustentar e eu caí no chão. Na mesma hora, eu comecei a chorar bastante. Eu estava esgotada, machucada.
Eu não podia ficar mais nem um instante ali- quer dizer, já pensou se ele voltar?!
Peguei minhas coisas no armário e saí pela porta, me tremendo inteira. De alguma forma, eu consegui trancar a loja e desci a rua correndo.
PONTO DE VISTA DE JULIETA OLIVEIRA
Tirando as minhas roupas, eu observei meu reflexo no espelho. Havia várias lesões e hematomas na minha mandíbula e no meu pescoço.
Minhas mãos foram até lá na mesma hora, enquanto eu relembrava o incidente que ocorrera na noite passada. Um soluço escapou da minha boca quando passei os dedos pelas marcas.
Quem era aquele homem?! Por que ele estava me chamando de Eva? E me acusando de ter traído ele? O que ele queria comigo?!
Ele era um mistério para mim. Eu nunca tinha passado por algo assim antes. Eu era praticamente invisível para o mundo, vivia uma vida desinteressante e nunca fui popular na escola. Na verdade, eu sempre era tachada como nerd.
Bem, a verdade era que não podia me dar ao luxo de me divertir como os demais graças à minha situação familiar. Meu objetivo sempre foi estudar bastante, conseguir um emprego decente e viver feliz com meus pais.
Eu fiz um bico ao olhar para os hematomas... Eu não posso sair desse jeito!
Minha mãe vai definitivamente querer saber o que aconteceu, e Lisa vai me encher de perguntas também.
Eu coloquei um moletom que cobria toda a parte superior do meu corpo.
'Não se preocupe... Eu não vou te machucar, querida...
VOCÊ É MINHA E VOU TE TER PRA MIM EM BREVE...'
Aquelas palavras não paravam de ecoar na minha cabeça.
Será que ele iria voltar?!
Eu ainda estava apavorada de ter que voltar para a cafeteria, me sentindo completamente assombrada pelas memórias que eu tinha dele. Ele não parecia ser tão velho, no máximo alguns anos mais velho do que eu, e parecia provavelmente ser um universitário.
Por que ele estava me acusando de tantas coisas que eu não fiz? Ele aparentava estar tão magoado que não parara de chorar, parecendo estar sendo torturado.
Meus dedos se agarraram à mesa de madeira, minhas unhas cravando na superfície inflexível, ainda em choque com aquela situação.
"Com licença, eu gostaria de pedir um cappuccino", alguém interrompeu minha reflexão, me tirando dos meus pensamentos.
"Desculpa, vai estar pronto em um momentinho, senhor." Eu pedi licença e entrei na cozinha. O que estava acontecendo comigo? Eu não conseguia me concentrar no meu trabalho desde aquele incidente!
Logo escureceu, e eu cuidadosamente examinei a cafeteria, conferindo se havia alguém ali ou não. Meu coração batia forte em meu peito sem que eu percebesse. Eu estava esperando encontrar alguém?
Eu comecei a limpar a mesa, ainda incapaz de controlar minha respiração enquanto aqueles novos sentimentos de confusão, angústia e melancolia tomavam conta do meu ser.
Eu estava prestes a ir até o balcão quando alguém agarrou meu braço com força, me fazendo gritar de medo.
"Ei Julieta! Sou eu, Lisa! Por que você ficou assustada desse jeito?", Lisa disse dando uma risada.
"Não me assuste assim!" Eu reclamei, respirando pesadamente enquanto soltava meus braços do aperto dela.
Lisa começou a rir da minha cara de novo. Ela passou os braços ao redor do meu pescoço e me abraçou. "Ouvi dizer que, ao que tudo indica, nós vamos receber os resultados da prova de admissão em 2 ou 3 dias. Eu tô tão nervosa. Não faço ideia do que vai acontecer com a gente!"
O quê?! Os resultados da prova da Universidade de São Jorge vão ser anunciados em 2 ou 3 dias?!
A Universidade de São Jorge era a universidade dos meus sonhos, eu vim estudando para ser aprovada nela desde o primeiro ano do ensino médio.
Eu queria tanto ser aprovada naquela universidade e faria qualquer coisa para conseguir uma vaga, já que o futuro da minha família dependia daquilo. Eu queria dar todo o conforto possível aos meus pais. Já que a Universidade de São Jorge era uma das melhores do mundo, ser formado por esta universidade tem um grande impacto na carreira de alguém.
Eu e Lisa terminamos nossos afazeres e eu acenei dando tchau para ela, já que a casa dela ficava na rua da frente.
Ah, droga! Esqueci de comprar o veneno de rato que minha mãe havia pedido.
Como de costume, estávamos tendo problemas com ratos em casa. Nós morávamos em um apartamento barato, que era o que nós podíamos bancar.
Comecei a caminhar na direção contrária da minha casa para comprar o veneno. A loja ficava um pouco longe de casa, sendo muito mais fácil ter parado para comprar quando estivesse saindo da cafeteria, mas eu andava muito distraída ultimamente.
Enquanto eu ia fazer a compra, a rua na qual eu estava foi ficando cada vez mais deserta, provavelmente porque estava ficando tarde. Comprei rapidamente o que precisava e acelerei o passo, tentando chegar em casa com segurança.
Escutei passos vindo em minha direção e meu coração começou a bater loucamente em meu peito, eu nunca tive medo de andar sozinha à noite, mas depois daquele incidente, eu estava apavorada.
Eu me virei para olhar para trás, mas não havia ninguém. No entanto, quando voltei a olhar para frente seguindo meu caminho, repentinamente dei de encontro com alguém. Aquilo me fez sentir como se tivesse subitamente dado de encontro com uma parede dura ou com uma pedra. Eu olhei para cima, sentindo as minhas bochechas queimando, e então engoli em seco. Minha pele estava formigando.
O homem estava usando máscara e boné pretos. Na verdade, tudo que ele estava vestindo era preto: ele usava um moletom preto, jeans e sapatos pretos, luvas pretas... sua roupa inteira era preta, mas tudo parecia ser também muito caro.
No momento seguinte, meus olhos foram atraídos em direção aos olhos daquela pessoa e meu coração parou quando eu vi a forma intensa como ele me encarava. Uma dor incomoda e latejante se espalhou pelo meu peito enquanto nós olhávamos um para o outro. Eu não conseguia ver seu rosto com clareza, já que ele estava de máscara e o boné também ajudava a disfarçá-lo, mas era claro que ele estava me encarando.
"Então... me desculpe... eu... eu... não estava prestando atenção, foi culpa minha", eu gaguejei, ruborizando sob o escrutínio dele. Será que ele estava irritado comigo porque eu esbarrei nele? Ele me encarava intensamente, como se eu fosse de uma espécie alienígena.
Como ele não tinha reagido nem se afastado, eu perdi o interesse e decidi ir embora, já que ele estava me assuntando um pouco, além de ser um completo estranho.
Eu me mexi desajeitadamente, decidindo ir embora, mas ele bloqueou meu caminho. O movimento dele me pegou de surpresa, me fazendo congelar. Tudo que eu pude fazer foi retribuir seu olhar intenso.
"Com licença! Você está bloqueando meu caminho, por favor, saia da frente." Eu falei, tentando soar séria, mas minha voz meio estridente e trêmula denunciou como eu me sentia.
Ele analisou meu rosto por vários segundos, seu coração batendo freneticamente contra meu peito, e eu mal conseguia respirar.
O olhar dele agora estava fixo em um ponto à sua frente. Ele tinha aquele olhar distante no rosto, que dava a impressão de que ele estava ali apenas de corpo presente, sua mente perdida em outro lugar.
"Li... licença. Você... você... está... na minha.. na minha frente, senhor. Eu preciso... ir... embora." Eu continuei a gaguejar, sentindo vontade de chorar.
Ele inclinou a cabeça para o lado como um psicopata, fazendo com que eu me tremesse inteirinha de medo. Era como se ele estivesse tentando processar minhas palavras.
Ele continuou me observando de uma forma perturbadora, como se estivesse tentando descobrir todos meus segredos mais profundos. Eu recuei instintivamente quando ele agarrou minha mão, virando a palma para cima.
Eu fiquei completamente paralisada. Meu peito se inflou com o calor e aspereza da mão dele sob a minha.
Ele colocou algo na palma da minha mão e então a soltou completamente. Eu olhei para minha mão e era minha pulseira.
Minha pulseira tinha caído?
Eu encarei boquiaberta a pulseira em minha mão, ainda em choque, e percebi o quão errada eu estava por ter achado que aquele homem era um maluco. Talvez aquele cara estivesse me seguindo para me entregar isso. Eu sou uma tonta.
"Obri-", as palavras morreram em minha boca quando o estranho abruptamente começou a andar na direção oposta, se afastando de mim. Ele nem sequer me deu uma última olhada ao ir embora.
Que estranho...
No dia seguinte...
Eu não conseguia parar de pensar na noite passada enquanto olhava para minha pulseira. Aquele homem era esquisito, mas eu nunca tinha o visto pela rua antes... será que ele é novo por aqui?
Foi quando, de repente, eu ouvi Lisa gritar.
Ela vinha correndo em direção... ao meu quarto.
"Julieta! Julietaaaaaaaaa..."
"O que houve, Lisa? Você está bem? Por que você parece tão assustada?", eu questionei, a preocupação clara em meu tom.
"O..... cof, cof, cof...", ela começou a tossir.
"O que aconteceu? Aqui, beba um pouco de água", eu lhe entreguei um copo da água, percebendo que ela estava em pânico. Vê-la daquele jeito me deixou tensa.
PONTO DE VISTA DA JULIETA OLIVEIRA
"Me explique devagar o que aconteceu", eu disse.
Ao ouvir isso, ela bebeu a água de uma vez só.
"Os... resultados da... Universidade de São Jorge saírammm!", ela gritou.
"O quê? Quando? Onde?", eu perguntei pulando.
"Eles colocaram no site da universidade, nós precisamos checar AGORA!", ela disse dando um gritinho.
Nós começamos a dar pulinhos, levemente receosas do que estava por vir. Pegamos nossos celulares do bolso, desbloqueamos e começamos a procurar.
"Ok, aqui está o site... você vai primeiro!", Lisa disse.
"Não, coloca sua identificação primeiro!"
"Não, você primeiro!"
"Você primeiro!"
"Tá bom... vamos logar juntas nos nossos respectivos celulares, combinado?", Lisa disse praticamente cantarolando.
"Está bem, combinado!", eu disse com uma expressão animada em meu rosto.
"Eu vou contar até três.
1, 1. 2, 1. 3, 1. 4."
"Ah, vamos lá Lisa, pare com isso!", eu disse dando um tapinha no ombro dela.
"O quêêêêê, eu estou com muito medo! ESTÁ BEM! Quando eu disser três", ela gritou.
"1.
2.
3, VAI, VAI!"
"Aaaahhhhh." Nós duas gritamos juntas e clicamos no botão para acessar a página.
Eu fiquei extremamente surpresa quando vi meus resultados. Na página mostrava as minhas notas e no final, estava escrito: 'Parabéns, você foi SELECIONADA!'
Yeaaaaahhhhh! Eu fui selecionada! Uauauauauauau!
Eu pulei de empolgação.
"Lisaaaaa, eu fui selecionada! Ahhhh, eu nem acredito!!" Minha felicidade desapareceu no mesmo instante em que eu olhei para Lisa.
Ela estava extremamente pálida, tristeza percorria por todo o rosto dela, enquanto seus olhos ficaram marejados. Ah, não! O que.... aconteceu, será que ela não... mas não é possível que isso tenha acontecido, ela é uma ótima estudante, ela deu duro para conseguir isso. Naquele instante, meu coração estava acelerado igual ao de um cavalo numa pista de corrida.
"Li...Lisa!? O que aconteceu? E seu resultado?", eu disse entrando em pânico. Mas ela não disse nada, e manteve a cabeça abaixada.
"Lisaaaa, diga alguma coisa, não me assuste dessa forma... me mostre o resultado!", eu disse balançando ela. Ela escondeu o celular e se afastou de mim.
"Não, por favor, me deixe em paz...", ela disse choramingando.
"Lisa, me dê seu maldito celular!", eu gritei. Ela balançou a cabeça e me entregou o celular dela.
Eu li o que estava escrito.
"Parabéns, você foi selecionada."
Ao ler aquilo, meus olhos arregalaram. Essa... menina... Lisa riu como uma psicopata.
"Eu te peguei! Você é muito burra... você caiu na minha armadilha... toma essa... ai", ela disse e começou a dançar.
"Caramba! Eu vou te matar!", eu disse com raiva.
"A minha atuação foi digna de um Oscar de melhor atriz do mundo!" Ela balançou o cabelo e piscou várias vezes, fazendo charme.
"Sua idiotinha! Venha aqui!", eu disse e joguei um travesseiro na direção dela.
"Nae... nana, nana." Ela cantarolou brincando, enquanto corria de mim e eu a perseguia. Ela correu em direção ao corredor e eu a alcancei facilmente pois minha casa era pequena. Eu abaixei a cabeça dela forçando-a para baixo e para cima múltiplas vezes.
"Você tem idéia do quão assustada eu fiquei... foda-se!", eu disse rispidamente.
Ela riu e chorou ao mesmo tempo. "Me larga... por acaso você está planejando me esmagar até a morte? Eu sou a única filha preciosa da minha mãe!"
"Você deveria ter pensado nisso antes, rainha do drama..." Eu voltei a esmagá-la e dei alguns pulinhos em cima dela. De repente, ela me abraçou e começou a acariciar minhas costas.
"Eu estou tão feliz que você foi selecionada!", ela disse continuando a fazer carinho em mim.
Eu soltei ela e nos olhamos dentro dos olhos uma da outra. Nós sorrimos, e pulamos tal qual duas crianças. "Simmmmm!!"
"Aqui vamos nós, UNIVERSIDADE DE SÃO JORGE!" Nós gritamos juntas.
Depois de nos acalmarmos e dançarmos por quase uma hora, ligamos para nossos pais, e todos nos parabenizaram. Depois de todo o drama nós fomos até o parque para que pudéssemos nos acalmar mentalmente.
"Nosso problema foi resolvido... nossos sonhos finalmente vão se tornar realidade...", eu disse sorrindo.
"Eu estou tão animada para ir para essa Universidade. Eu ouvi falar que tem muitos meninos bonitos lá, hein!", Lisa disse balançando as sobrancelhas.
Eu olhei para ela com uma expressão como se eu estivesse questionando se ela estava doida.
"Ah o que foi? Você realmente espera que eu seja uma nerd lá? É a Universidade de São Jorge... as pessoas se divertem enquanto estudam lá!"
"Sim, lógico! Você e sua teoria", eu disse sarcasticamente enquanto revirava os olhos. Nós conversamos e rimos por horas.
*Depois de uma semana*
Eu conseguia ouvir a melodia dos passáros cantando no fundo, e sentia o calor do sol.
De repente, eu olhei para o relógio e percebi a hora, droga! São oito da manhã!
Hoje eu preciso ir fazer a admissão na Universidade de São Jorge. E demora três horas para ir até lá! Eu liguei para Lisa e rapidamente ela atendeu.
"Alô, Lisa! Você está aí?! Nós temos que ir agora, onde você está?! O que você está fazendo?", eu disse sem pausar para respirar.
"O que... me deixe dormir! Eu não vou a festa nenhuma agora...", ela murmurou. Essa menina, se eu sou descuidada, então ela provavelmente é a mãe do descuido.
"Sua idiota, nós temos que ir para a Universidade de São Jorge para sermos ADMITIDAS, sua boba!"
"Ah merda, eu me esqueci! Fique pronta, Julieta! Eu vou te pegar em 15 minutos!", ela gritou e desligou a ligação.
Eu rapidamente me levantei da cama, tomei um banho rápido e vesti uma camiseta e jeans preto. Eu me olhei no espelho, e percebi que as marcas de mão que estavam na minha pele haviam sumido, mas o chupão no meu pescoço ainda estava visível.
Já havia se passado uma semana desde que o incidente ocorreu. Eu acho que ele me esqueceu! Onde será que ele está agora? Por qual motivo você se importa, Juli... deixe isso para lá, para o seu próprio bem!
Naquele instante, eu ouvi um carro buzinando. Eu prendi meu cabelo em um rabo de cavalo e peguei a minha bolsa, que tinha alguns documentos importantes para a inscrição e dinheiro para pagar as taxas.
Eu corri em direção ao corredor e abracei meu pai e minha mãe.
"Pai, mãe... tchau. Eu não tenho tempo agora, mas eu vou voltar assim que acabar o processo de inscrição e admissão. Amo vocês!", eu disse pegando uma torrada que estava pronta na mesa.
"Tchau querida, cuide-se! E me conte mais tarde como foi", o pai disse alegremente.
"Entre perdedora, nós vamos para a Universidade de São Jorge!", Lisa disse sarcasticamente.
"Você precisa parar de assistir a filmes!", eu disse revirando os olhos.
"Nunca...", Lisa disse mostrando a língua.
O motorista dela nos levou até a Universidade de São Jorge.
*Após 3 horas*
"Chegamos!", Lisa disse dando gritinhos enquanto o carro entrava pelo portão de pedras e adentrava o campus da faculdade.
O campus era ainda mais bonito do que nas fotos que estavam no site, eu de fato fiquei impressionada. Era uma faculdade chique, em que cada cantinho gritava riqueza. Além disso, o campus era muito vasto.
Eu fiquei chocada observando a vista. E então, fomos até o departamento de inscrições e admissão, e pegamos nossos arquivos para preencher. Como nós fomos selecionadas através de uma bolsa de estudos, só precisávamos pagar metade das nossas taxas. Nós fizemos todo o procedimento que era necessário e finalmente fomos admitidas na UNIVERSIDADE DE SÃO JORGE!!!
A atendente nos entregou um cartão de admissão e disse: "As aulas começarão em uma semana, obrigada!" E sorriu alegremente.
Nós agradecemos ela e saímos do prédio. Quando saímos, ficamos um tempo admirando o campus, enquanto muitos estudantes estavam vagando entre uma aula e outra. A maioria deles, claramente ricos, e bem vestidos.
Eu estava observando a estrutura do prédio do lado de fora, e fiquei maravilhada.
De repente, ouvimos alguém nos chamando.
"Lisa..." Eu estava ocupada encarando os prédios, então não me importei em olhar para trás.
"Lisa, você está aqui! Você foi admitida aqui!? "Rosa!!!"
"Ai meu Deus, Julieta! Você também está aqui... eu nem consigo acreditar, isso que eu chamo de destino!"
"Destino!???" Eu e Lisa dissemos juntas.
"Han... eu... eu quero dizer... veja só, nós todas selecionamos a mesma universidade... eba... haha!", ela disse nervosamente.
"Até mesmo você foi selecionada através da bolsa de estudos?", eu disse entusiasmada.
"O quê... não... eu não sou um gênio como vocês duas! Eu entrei através da cota de gestão, pois meu pai tem um contato aqui", ela disse timidamente.
Rosa era podre de rica, o pai dela era dono de vários negócios, mas apesar disso, ela era muito centrada, e nunca deixou isso subir a cabeça dela e ficar se exibindo. Ela havia sido colega de sala com a gente durante o ensino médio. E era muito gentil e alegre. Nós não costumávamos sair com tanta frequência, mas ela era uma boa amiga nossa.
"Graças a Deus! Pelo menos eu vou ter meus amigos aqui... eu não estou sozinha!", ela disse dando gritinhos.
"Então... onde vocês vão ficar?", ela disse piscando os olhos duas vezes rapidamente. Ela é muito fofa!
"Na nossa casa obviamente", Lisa disse revirando os olhos.
"Ah, pelo amor de Deus! Vai ser extremamente cansativo se vocês ficarem indo e vindo de casa para a faculdade e vice-versa todos os dias, é uma viagem de três horas ida e mais três horas voltando!"
"Mas as taxas do alojamento são muito caras!", eu disse suspirando.
"Bem, vocês podem ficar na minha casa... quer dizer, meu pai comprou uma casa para mim, para que eu possa ficar lá, então vocês duas podem se juntar a mim e morarmos juntas se vocês quiserem!", ela disse animada.
"Você tem certeza? Sem custos?", Lisa questionou levantando as sobrancelhas e eu dei um tapa no ombro dela.
"O quêêêêê? Eu estava só brincando!", Lisa chorou enquanto tocava o ombro que eu havia acabado de bater.
"Sim, mas é claro! Eu sou a dona da casa agora, então, sem aluguel! Eu preciso de uma colega de quarto, eu não quero ficar no apartamento do irmão do meu primo, ele é um psicopata!", ela disse rindo.
Psicopata!! De repente, isso me lembrou de alguém...