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Dreamworld: Corações em Conflito

Dreamworld: Corações em Conflito

Autor:: Roseanautora
Gênero: Jovem Adulto
Jamais passou pela cabeça de Ariane um dia ter que escolher entre o amor da sua vida ou seu chefe lindo e gentil, que começava a mexer com seus sentimentos. Mas foi o que aconteceu quando ela beijava Luciano, pela primeira vez, percebendo que poderia estar completamente apaixonada por ele e Jonathan chegou, com suas malas, disposto a ficar definitivamente com ela. Ela fugiu de Jonathan e abriu mão de toda sua vida no Dreamworld quando foi morar com os pais no interior. Mal ela sabia que que aquela não era sua fuga e sim o lugar onde ela se encontraria. Dois homens perfeitos, um que ela deixou por consideração a sua melhor amiga, que era apaixonada por ele e o outro que ela encontrou em sua fuga e de certa forma a resgatou de todos os seus medos e inseguranças. Mas seu coração não podia mais continuar em conflito. Ele merecia ficar em paz e a escolha só dependia dela.

Capítulo 1 1

O Dreamworld não era o que se podia dizer "o melhor lugar do mundo" para morar. Mas ele era o meu lugar favorito no mundo todo. Se eu pudesse escolher qualquer lugar, eu escolheria lá. Tínhamos coisas que dinheiro nenhum poderia comprar: amizade, cumplicidade, empatia. Todos nos conhecíamos muito bem, ou pelo menos achávamos assim, e nos ajudávamos sempre, dentro do possível. Claro, alguns mais solícitos, outros menos.

O lugar era composto por 6 apartamentos exatamente nas mesmas proporções de tamanho: 2 quartos não muito grandes, sala, cozinha pequena e um bom banheiro. Embora eu achasse pequeno, atendia bem minhas necessidades. Talvez fosse melhor se eu não tivesse que dividi-lo com duas amigas. Mas eu sequer conseguia imaginar minha vida sem elas por perto todos os dias. O Dreamworld tinha 3 blocos, cada um com 2 apartamentos, um em cima, outro embaixo. No centro havia uma enorme piscina, sempre muito limpa e convidativa. Os muros eram muito altos, sendo o portão de ferro imitando uma grade de castelo antigo a única forma de entrar. Só os moradores tinham acesso e cada um com uma única chave. O pequeno salão de festas era usado regularmente, onde a proprietária fazia belas festas, regadas a muita bebida, música alta, comida boa e diversão. O bom é que no final, tradicionalmente, a pizza significava que estava perto da hora de cada um voltar para sua casa e seguir sua vida, até, claro, a próxima reunião. Tinha também o espaço gourmet, onde era preparada a melhor carne assada do mundo, que geralmente era degustada à beira da piscina. E verde, muito verde por todos os lados, com as mais diversas e belas folhagens, cuidadas por todos nós.

O nome Dreamworld, embora deixasse muita gente confusa e ao mesmo tempo curiosa, foi dado pela proprietária, Gisa, que na adolescência ficou órfã e investiu sua herança na construção do prédio. Dizem por aí que ela ganhou mais muito dinheiro, mas perdeu nas badaladas festas que ela tanto gostava, bebidas caras e coisas deste tipo. Então atualmente o que restava era os aluguéis dos 5 apartamentos, pois em um ela residia. Ela era uma pessoa excelente, com um coração enorme, inclusive a ponto de ter dó de algumas pessoas que às vezes não pagavam o aluguel. Em minha opinião ela era a pessoa mais divertida do mundo. Só não se preocupava muito com o dia depois de amanhã. Mas isso em nada interferia na mulher forte que ela era. Gisa estudava inglês há muitos anos e falava fluentemente o idioma. Seu sonho era conhecer o mundo, mas sua atual situação financeira não deixava. Então lhe restava ficar ali, continuar estudando, no Dreamworld, o Mundo dos Sonho que ela criou. Ela sempre dizia orgulhosa que o condomínio fora desenhado por um arquiteto americano, com base em alguns espaços criados nos Estados Unidos.

Quando se discutia o nome entre os moradores, tínhamos a mesma opinião: Dreamworld tinha tudo a ver conosco. Éramos sonhadores, em busca de nossas vidas perfeitas. Muitas vezes eu achava a realidade tão distante de nós, que embora não mais na idade, agíamos como eternos adolescentes. E eu não sei se isso mudaria algum dia. Crescer não era fácil.

Nossas vidas se cruzavam o tempo todo e eu até cheguei a cogitar que Gisa escolheu um a um cada morador, com suas diferentes personalidades para que vivêssemos como se fosse num filme ou numa novela. Só não sei se seria um romance, um drama ou um filme de terror... Ou talvez tudo junto e misturado.

Mari era a moradora que eu menos interagia. Não que eu não gostasse dela, mas era a mais reservada. Ela morava sozinha. Não era linda, mas era bonita. Tinha um bom emprego e estava sempre bem vestida e perfumada. Era um pouco misteriosa, mas tinha uma coisa que não escondia: seu interesse por Jonathan, ex-namorado de Samantha.

Samantha, minha colega de apartamento e amiga, era o oposto de mim e Helena. Não se importava com nada... Só queria viver intensamente cada dia. Morar sozinha aflorou um lado dela que não conhecíamos: o da insegurança e sentimentalismo. Ela ainda era apaixonada por Jonathan. Trabalhava como corretora de imóveis. Samantha era uma das mulheres mais lindas que eu conheci: morena, alta, magra, cabelos longos encaracolados escuros e olhos castanho-esverdeados. Era extremamente cuidadosa com sua aparência e isso lhe rendia elogios por parte dos homens e mulheres. Poderia

ter tudo na vida, se não fosse tão impulsiva e imprevisível. Ah... Não escutava nossos conselhos também, embora pedisse.

Jonathan... O que falar dele? Acho que ele é o tipo de homem que não há como não admirar ou ficar suspirando quando ele passa. Conforme Gisa, ele está perdendo tempo, pois poderia ser um modelo, ator ou algo do tipo. Não sei muito bem o que ele sente por Samantha, mas tenho certeza que ela sofre muito por ele. Não nos falávamos muito, mas ele sempre foi muito gentil comigo. No tempo que namorou com Samantha ele não costumava ir muito ao nosso apartamento, então não tive tanto contato com ele. Helena costumava dizer que ele era muito simpático e carismático, mas não era homem de se envolver sentimentalmente com mulher nenhuma. Eu o culpava pelo sofrimento da minha amiga, mesmo sabendo que no fundo ele não tinha culpa.

Helena... Ah, não havia melhor pessoa no mundo que ela. O ombro amigo de todas as horas, a melhor conselheira e sem dúvida a melhor amiga que alguém poderia ter. Eu nem lembrava há quantos anos a conhecia. Sei que dividíamos o lanche no colegial e brigávamos pelos garotos. E crescemos dizendo que moraríamos juntas quando pudéssemos. E assim fizemos. Inseparáveis: era como nos chamavam. Ela estava noiva de Daniel, companheiro de apartamento de Jonathan. Os dois haviam se conhecido no Dreamworld.

Daniel era um homem enorme, com seus 1,90 m de altura muito bem distribuídos. Era de origem alemã e sua fisionomia não dizia o contrário. Os olhos azuis da cor do céu eram tão bonitos quanto ele e sua gentileza frequente. Um homem responsável, honesto e que só tinha olhos para minha amiga Helena. Eu nunca duvidei que eles haviam sido feitos um para o outro.

Carlos também era um homem incrível. Morava sozinho, estava fazendo residência em Medicina no Hospital da cidade. Era o morador mais recente do Dreamworld, mas parecia que já o conhecíamos há anos. Ele era bem ocupado, sempre trabalhando, mas quando tinha oportunidade se juntava à nós, mesmo que por algumas poucas horas. Não escondia de ninguém sua admiração pela beleza de Samantha. Ela, por sua vez, não tinha olhos para ele, infelizmente, pois era um cara incrível.

Não posso esquecer-me de Fábio, namorado de Gisa. Se eu gostava dele... Não. Tentava disfarçar, mas nem sempre conseguia. Não era implicância, mas algo nele não me agradava. Não me passava sinceridade em momento algum. Dizia ser de família rica, no entanto morava com Gisa sem auxiliar em nada financeiramente. Vez ou outra aparecia com alguns carrões ostentando a fortuna que nem sei se era real. Eu me preocupava com o bem estar de Gisa e não queria que ela sofresse. Fábio era imaturo, aproveitador e eu tenho quase certeza de que mentiroso. Ainda assim, eu não podia intervir sem provas... E acho que nem deveria. Ele era o mais novo em idade entre nós: 20 anos.

E por fim, Therry, meu namorado. Lindo, não posso negar. Dedicava parte do seu tempo a tornear os músculos na academia, como se precisasse mais. Moreno, forte, atlético... Nem sei ao certo como nos envolvemos e chegamos ao passo de oficializar como namoro nosso relacionamento. Eu sabia que as mulheres viviam atrás dele, mas não dava muita importância. Como dar importância para elas se eu não dava importância nem ao que tínhamos um com o outro? Eu achava que ele gostava de mim e pensei que seria legal não estar sozinha, para variar. Tínhamos problemas, como qualquer outro casal, mas não terminávamos nem sei ao certo o motivo. Da minha parte não havia envolvimento emocional, embora eu tentasse muito. Gostava de estar com ele, mas não me via com Therry no futuro.

Bem, eu sou Ariane e tudo que vocês souberam até agora é sob o meu ponto de vista. Sou uma mulher normal. Tenho 22 anos, sou Psicóloga e trabalho numa empresa. Gosto do meu emprego, mas não amo. Gosto do meu namorado, mas não amo. Gosto da minha vida, mas não amo. Fui das primeiras moradoras do Dreamworld. E neste lugar eu jamais imaginaria viver os melhores anos da minha vida... E também os piores dias. Lá eu conheci o verdadeiro amor... E tive que renunciar a ele. Quero levar na minha mente as melhores lembranças que puder de lá e tentar esquecer as ruins. O certo é que sempre vou sentir saudade daquele lugar, daquelas pessoas e da vida que eu levava lá.

Capítulo 2 2

- Eu gosto muito de você, Ari.

- Por que será que não acredito tanto assim nas suas palavras? – eu disse rindo.

Realmente eu não conseguia identificar muito bem os sentimentos de Therry. Por vezes eu achava que ele gostava de mim com sinceridade, outras que ele simplesmente estava me usando para não ficar sozinho, assim como eu estava fazendo com ele. Não, eu não me sentia culpada por isso, afinal, nós dois nos beneficiávamos neste relacionamento de alguma forma. E eu não queria me apaixonar por ele... Acho que nem que tentasse, conseguiria, pois eu via muitos defeitos em Therry, que acredito que não veria se gostasse dele. Eu o achava convencido, embora lindo. Detestava que ele fumava o tempo todo, embora vivesse na academia e pregava uma vida saudável que ele não levava. Ele não tinha muito compromisso com nada. Eu não gostava muito das mudanças de humor dele, mas sempre acabava perdoando e nem sei o porquê.

- Therry, eu acho melhor você ir embora. Daqui há pouco Helena e Samantha chegam e...

- E o que tem? Somos namorados. Então qual o problema de elas chegarem e me verem aqui? Você não paga por este apartamento tanto quanto elas? – falou ele bravo.

- Na verdade eu estou cansada. – Menti. – Tive um dia cheio e quero dormir.

- Então prometa que esta semana reservará um horário na sua agenda só para mim... Quem sabe podemos almoçar ou jantar juntos, só nos dois?

- Combinado. – falei contrariada, para ele ir embora mesmo.

Ele levantou do sofá, me deu um beijo rápido e saiu.

Quando ele saiu eu deitei no sofá e respirei aliviada. Cada vez menos eu gostava da presença dele na minha casa. Acho que estava na hora de terminar definitivamente aquele namoro ruim, que não contribuía em nada na minha vida. Ele estava me deixando sem espaço e eu não gostava disso.

Helena abriu a porta, com cara de cansada.

- Como foi seu dia, amiga? – perguntei.

- Bom, dentro do possível. E o seu?

- Tentando fazer com que melhore. – admiti.

Ela foi para o quarto e voltou de pijamas e pantufa e sentou comigo no sofá.

- Um café para acompanhar as mágoas? – perguntou ela rindo.

- Por que não? – eu disse rindo também. Eu que deveria fazer um café para ela que estava chegando depois de mim, mas sabia que elas não gostavam da minha presença na cozinha para nada, nem mesmo para o preparo de um simples café. Talvez isso se deva ao meu péssimo dom para cozinhar.

Logo senti o cheiro de café passado por toda a casa e como louca saí do sofá e fechei a janela para o aroma não ir embora. Sentei de novo no sofá e Helena voltou com duas xícaras de pretos sem açúcar, como gostávamos.

- Estou pronta para você se confessar.

- Ah, amiga e como eu preciso. – eu disse deitando a cabeça no ombro dela depois de saborear aquele café perfeito.

- Como você consegue ter tantos problemas e ainda resolver os das outras pessoas?

Eu ri:

- Eu já disse que não é assim, Helena. Psicólogos não resolvem os problemas dos outros... Bom seria se fosse tão simples resolver o problema das pessoas, em especial aquelas que nem conhecemos.

- Mas você poderia pelo menos prever os problemas antes de entrar neles, não é mesmo? Você sempre foi muito correta e centrada. Tem coisas que dá para perceber antes, Ari.

- Sim, parece que eu procuro os problemas às vezes...

- Pois então... Ainda bem que você tem a mim, uma amiga fiel, leal e maravilhosa. – disse ela rindo. – E Samantha, que é bem legal também, mas não tanto quanto eu.

Eu ri alto:

- Concordo com você. Em tudo.

- Pois bem, o que está acontecendo entre você e Therry?

- Você já sabia do que eu ia falar, não é mesmo?

- Claro... Nem precisa ser sua melhor amiga para saber que isso é um problema.

- Eu não suporto mais ficar com ele. – confessei.

- Dá para perceber quando vocês estão juntos, Ari. Mas parece que ele gosta de você. Vejo sinceridade no olhar dele quando diz que você é importante e coisas deste tipo. Você sabe que eu não gosto muito dele, mas vou sentir pena dele quando você acabar.

- Eu não queria que tudo ficasse tão sério... Não era para ser assim. Nem sei como chegamos a este namoro, sendo que eu nunca quis. Na verdade, não tenho intenção de me relacionar seriamente com ninguém neste momento, principalmente com alguém que não mexe com meu coração de forma alguma. E ele tem forçado demais a presença dele na minha vida nos últimos dias. Estou me sentindo sufocada.

- Precisa dizer isso a ele... Não com todas estas palavras, óbvio.

- Eu sei... Já passou da hora de acabar o que nem deveria ter começado. Mas me falta coragem... Não quero magoar ele.

- Acho que ele vai sentir muito... Não há como evitar.

- Preciso ter coragem e dizer para ele a verdade o mais rápido possível. Não dá para levar isso por muito tempo, pois ele pode criar ainda mais expectativas.

- Concordo.

- Mas agora vamos deixar minha vida de lado e falar do nosso eterno problema, nossa amiga Samantha.

- Hum... – disse Helena tomando todo o café de uma vez e fazendo uma careta.

- Onde ela está? Já deveria estar em casa.

- Ela está no bar da quadra acima.

- Fazendo o que no bar?

- Olhando para Jonathan.

- Samantha não pode fazer isso. – falei furiosa.

- Não temos o que fazer, Ari. Ela é adulta.

- Mas eles não estão mais juntos, ela mesma acabou tudo.

- Pois bem, está arrependida e decidiu que ama Jonathan.

- Como ela pode fazer isso? Sabia que ele tinha outra, viu ele com ela e ainda assim se rebaixa desta forma?

- Ela fez o que deveria ter feito na época... Terminou o namoro.

- Sim, ela fez bem terminar com ele. Jonathan foi um ordinário, um... Nem tenho palavras para o que ele fez. Mas não sei se odeio mais ele por ter traído ela ou ela por correr atrás dele como se nada tivesse acontecido.

- Como eu disse, ela é adulta. Não há nada que possamos fazer, afinal, ela não ouve nossos conselhos.

- Mas somos amigas dela, precisamos intervir, não acha?

- Não. Não acho. No momento ela não aceita opiniões e só vamos ficar brigadas se insistirmos. Vamos segurar ela quando for preciso, mais adiante. – disse Helena calmamente.

- Helena, não podemos deixá-la cair. – contestei. Eu não suportava a forma como Samantha se humilhava para Jonathan.

- Não vou fazer nada, Ari. Samantha não nos ouve. Na verdade, ela não ouve ninguém.

- Eu... Vou falar com Jonathan.

- Talvez fosse uma boa ideia... Mas o que ele vai dizer? Que não gosta dela. E o que você pode fazer a respeito? Nada. Não há como obrigar ele a gostar de Samantha.

- E se ele gosta dela? Talvez faz bem para o ego dele vê-la correndo atrás desta forma. – cogitei.

- Estou quase convencida que Jonathan nunca sentiu nada por Samantha.

- Idiota... É isso que ele é. – falei com raiva quando pensei naquele par de olhos verdes.

- Não diga isso... Jonathan é um cara legal. Merece nossa consideração.

- Helena, não acredito no que estou ouvindo. – realmente, eu não conseguia acreditar que minha amiga estava defendendo Jonathan e não Samantha.

- Ari, Samantha sabia desde o início que não havia futuro. Ela praticamente obrigou Jonathan a ficar com ela. Insistiu tanto que ele não teve saída. Bem sabemos que ele nunca ficou tanto tempo com alguém como ficou com ela. Seis meses... Longos, na minha opinião. Nunca vi ele se envolver tanto tempo. E ela foi feliz, mesmo sabendo que não era como ela sempre sonhou. Ele nunca mentiu sobre quem e como ele era.

- Que discurso horrível, Helena. Está dizendo que ela deveria aproveitar enquanto durou e era isso?

- Eu sou a única que consigo ver os dois lados, não é mesmo? Já pensou em Jonathan nesta história? Não, você só pensa na Samantha, porque ela é nossa amiga. E não somos culpadas pelas atitudes dela, Ari. Avisamos ela tudo que poderia acontecer antes de ela começar o relacionamento com ele, de forma quase forçada. Eu conheço Jonathan e você sabe disso. Ele e Daniel são amigos há muito tempo. Ele não é um cara ruim. Ele nunca prometeu nada para ela. Foi errado sim ao traí-la e ela fez correto em terminar com ele. O que eu não vejo sentido é em agora ela ficar arrependida e viver atrás dele.

- Eu entendo... – falei mesmo não entendendo muito. Na minha opinião Helena ainda defendia Jonathan e eu não via defesa para ele.

- Além do mais, eu tenho minhas desconfianças nesta história toda...

- Desconfianças? Quais seriam? – perguntei curiosa.

- Talvez eu esteja enganada... Já tentei falar com Daniel sobre este assunto, mas ele não fez muita questão.

- Fale logo, Helena.

- Eu acho que ele olha para você com segundas intenções.

- Quem, Jonathan? – perguntei me segurando para não rir.

- Sim.

Comecei a rir com vontade. Helena só podia estar louca.

- Estou falando sério. – disse ela sem rir.

- Isso nunca aconteceu... Não há possibilidade...

- Nunca aconteceu de você ver ele olhando-a? Ou acha que não há possibilidade de ele ser interessado em você? E você, teria interesse nele?

- Helena... Você não pode estar falando sério. – eu disse sem rir desta vez. Não sabia a intenção de Helena ao falar todas aquelas besteiras.

- Bem, vou torcer para meus olhos e minha intuição estarem enganados. – disse ela levantando do sofá. – Porque se eu estiver certa, teremos problemas por aí.

Ela foi para a cozinha e eu tomei todo meu café de uma só vez, sentindo depois o gosto amargo mas gostoso na boca. Peguei minha xícara e fui atrás dela, que estava na pia.

- Quando você viu isso? – perguntei.

- Algumas vezes...

- Por que nunca me falou?

- Porque nunca havíamos falado sobre isso... Além do mais, Samantha sempre está conosco, então não tinha como dividir isso com você.

- Eu não vejo possibilidade de isso acontecer.

Helena me olhou nos olhos e perguntou:

- Por quê? Você é uma mulher linda, Ari... Por que ele não poderia estar interessado em você?

- Helena, pode ser só um olhar... Não quer dizer que seja de desejo ou sei lá o que.

- Ari, eu não nasci ontem. Eu não sou burra.

- Ok... Vou ficar atenta a isso. Ou será que não devo? – perguntou confusa.

- Acho que deve ficar mais esperta sim. Só não corresponda aos olhares dele, por Deus. – falou ela. – Não agora.

- Claro que eu não faria isso. – falei mais que depressa. – Só de pensar eu fico até me sentindo mal.

Helena guardou a xícara limpa e eu comecei a lavar a minha. Ela me deu um beijo e disse:

- Vou tomar um banho e vou dormir. Estou cansada mesmo.

- E o noivado?

- Otimamente ótimo. Maravilhosamente maravilhoso. – disse ela rindo.

Eu ri. Adorava quando ela falava assim. E perguntar sobre o noivado sempre trazia alegria para ela.

- Nunca vi ninguém tão apaixonada pelo futuro marido. – falei fazendo uma careta.

- Torcendo para o tempo passar logo e nos casarmos. – disse ela.

Abracei ela com força e disse:

- Você e Daniel merecem toda a felicidade do mundo... Vocês são muito especiais. E eu sou tão feliz por você...

Ela retribuiu o abraço:

- Ari, eu torço para que você também sinta o que eu sinto algum dia. E tenho certeza de que quando menos você esperar, aparecerá o homem que vai tirá-la do seu centro.

- Eu não quero me descentralizar. – eu disse convicta.

Ela riu:

- Boa noite, Ari.

- Boa noite.

Capítulo 3 3

Helena dormia sozinha num quarto e eu dividia o outro com Samantha. Helena tinha o privilégio de ficar com um dos quartos pela sua privacidade com Daniel. Eu e Samantha nos revezávamos quando precisávamos do quarto, sendo assim a outra dormia na sala. Óbvio que eu mais dormia na sala do que no quarto, pois Samantha tinha companhias frequentemente. Eu já tinha 22 anos, era uma mulher decidida, segura de mim, com uma boa profissão na qual eu me realizava. Mas era um pouco conservadora com relação a sexo. Para mim tinha que ter sentimento.

Não precisava ser amor, pois no auge da minha idade eu ainda não conhecia este sentimento. E também não tinha pressa. Vendo que nem sempre era um mar de rosas, preferia ficar na defensiva, feliz sem sofrer por alguém. Por este motivo, havia feito amor algumas poucas vezes.

Fui tomar um banho gelado, pois estava suada e depois deitei na minha cama. O quarto que eu dividia com Samantha era pequeno, pois tinha duas camas de casal. Um pequeno armário que dividíamos e o restante de nossas coisas deixávamos no quarto de Helena, que era mais espaçoso. Ainda assim eu gostava da forma como vivíamos. Apaguei a luz e fiquei pensando que depois de amanhã seria domingo, o dia que eu mais gostava da semana. Todos nos reuniríamos na piscina para comer carne assada. Aquele era meu programa preferido do Dreamworld, até mais que as festas. Nos divertíamos, falamos sobre a nossa semana e fazíamos planos.

Pensei em Jonathan. Estava um pouco angustiada com o que Helena havia falado. Nunca reparei os olhares dele para mim, muito menos qualquer tipo de intenção sem ser de amizade. Não poderia negar que eu achava ele lindo. Quem não achava? Eu ficava às vezes admirando as tatuagens dele, que me chamavam a atenção: dragões, pirâmides do Egito e esfinges. Quem tatuava aquilo? Claro que eu também olhava para o corpo dele. Quem não olharia? Ele era forte e não como Therry, que vivia na academia. Parecia que o corpo dele era naturalmente perfeito daquela maneira. Desde que o conheci ele nunca deixou o cabelo crescer, sempre cortando muito curto, quase raspado. Algumas vezes usava barba e outras não. Atualmente estava usando uma barba curta e bem aparada, que lhe dava um ar mais maduro. Nunca conversamos sozinhos ou sobre algo que envolvesse assuntos muito pessoais. Eu sabia quase tudo sobre ele por causa de Samantha e Helena, que era noiva do melhor amigo dele. Ainda assim nunca fui muito interessada em saber mais sobre aquele homem, exceto agora que ele fazia minha amiga sofrer. De alguma forma eu estava abalada com o que Helena me falou sobre ele estar possivelmente interessado em mim. Ela deixara bem claro que era uma desconfiança dela, mas isso me deixava com um sentimento estranho por dentro... E não era bom.

Desliguei a luz e tentei dormir, mas não conseguia. Já era mais de meia noite quando Samantha chegou. Ela ligou a luz e mesmo que não ligasse eu sentiria o perfume forte dela no quarto. Olhei-a tirando o sapato de salto tentando não fazer barulho. Ela usava um vestido vermelho curto, decotado e justo. Ficava lindo no corpo perfeito dela, mas eu jamais usaria algo parecido.

- Ari, acordei você?

- Está tudo bem. Eu não estava dormindo ainda.

- Tentei não fazer barulho, eu juro.

Ela tirou o vestido e colocou um pijama. Estava com a maquiagem um pouco borrada, mas não dava para identificar se havia chorado.

- Tudo bem? – perguntei sentando na cama.

- Como sempre. – disse ela suspirando e deitando.

Olhei para ela, tão linda, mesmo com maquiagem borrada e pijama. Pensei em como algum homem poderia recusá-la? O que restava a mim, uma mulher absolutamente normal?

- Como estava o bar? – perguntei, puxando assunto novamente.

- As mesmas pessoas de sempre... Nada muda por lá. Você deveria um dia destes comigo.

- Eu já fui uma vez com Therry. Não gostei muito.

Ela riu:

- Você tem classe, Ari. Não sei se tem mesmo jeito para bar. Você é daquelas mulheres que merece ser levada num restaurante caro, com um carro tilintando de novo, servida de pratos requintados. E tudo isso com um homem lindo e perfeito usando terno e talvez uma gravata.

Eu não pude evitar a risada alta:

- É isso que você pensa de mim? Como eu queria ser fina e requintada... Logo eu, que como de almoço sanduíche de ontem na padaria e refrigerante em lata, com um monte de homens que falam o tempo todo e nunca sequer notaram a minha presença ou me ofereceram uma cadeira para sentar, só para não comer de pé no balcão.

- Você faz isso porque quer. Sabe que tem condições de ter muito mais, inclusive no seu almoço. Você só precisa de uma roupa mais... Atraente. Aposto que todos os lugares na padaria seriam oferecidos para você.

- Quer que eu faça testes psicológicos em pessoas que serão admitidas numa empresa usando um vestido atraente? Não acho que funcionaria.

Nós duas rimos. Eu entendia o que ela queria dizer, mas estava me fazendo de tonta.

- Eu só quis dizer que somos tão diferentes... Ainda assim tão amigas. Eu sou uma mulher impulsiva, admito. Não me importo com o que pensam de mim ou reputação, entende? Sou insegura, chorona e vivo o momento... Não me importo com o que vai acontecer amanhã, porque amanhã pode não chegar.

- Eu sei como você é, Samantha. E eu acho você perfeita deste jeito, embora sejamos diferentes. É isso que é legal nas pessoas, podermos ser uma diferente da outra e ainda assim nos encontramos e dividirmos nossa vida.

- Não sou boa nem com os homens...

- Está falando do Jonathan? Como foi hoje com ele?

- Como sempre. Jonathan está cada vez mais distante de mim e eu não consigo fazer nada para evitar, Ari. Sinto-o escapando por entre os meus dedos.

- Não acha que já chega de correr atrás dele, Samantha?

- Já pensei em desistir, mas não consigo. Eu amo aquele homem.

- Ele não merece o seu amor.

- Também sei disto, Ari. Ele é egoísta, me traiu e ainda assim eu amo ele da mesma forma. Ele é inteligente, ele já viajou por vários lugares, ele fala várias línguas, ele frequentou lugares que eu jamais vou pisar os meus pés algum dia e ele nunca nem me convidou para acompanhá-lo.

- Ele frequenta o mesmo bar que você. Então ele não é tão diferente assim. Vocês moram no mesmo condomínio também. – observei para que ela não se sentisse tão inferior a ele.

- A forma como você fala parece que eu vou num boteco qualquer. – disse ela rindo e fingindo estar ofendida.

- Eu não quis dizer isso.

- Eu sei, Ari... Eu sei. Mas ele não costuma ir muito lá. Eu sou uma frequentadora mais assídua, por assim dizer. Hoje foi horrível ver ele com a Mari.

- Com a Mari? Nossa vizinha? – perguntei surpresa.

- Não estavam juntos tipo ficando, entende? Só tomavam uma bebida e conversavam. Mas ela não consegue esconder o interesse por ele. Estava lá, toda derretida... Nem notou minha presença eu acho.

- Mari não vence você numa disputa por beleza. – tentei alegrar ela um pouco.

- Como se para Jonathan isso importasse. Ele nunca foi de ligar para a aparência das pessoas. Ele consegue captar o que as pessoas tem por dentro... Ele é tão perfeito. E eu não consegui impressioná-lo nem com o que eu tenho por dentro nem por fora.

- Samantha, se você sente tudo isso por ele, por que terminou o namoro? – perguntei confusa.

- Eu me faço esta pergunta todos os dias.

- Não consigo entender.

- Ele me traiu com outra mulher. Eu vi. Ninguém me contou, então não tinha nem chance de ser uma mentira. Eu fiquei louca de ciúme. E com medo de todos saberem que eu havia sido feita de boba por ele. Meu orgulho falou mais alto.

- Eu não concordo com a traição dele, de forma alguma, Samantha. Mas ao mesmo tempo se você quisesse perdoar, teria que ter feito isso. Não pode se importar com o que os outros pensariam.

- Eu sei disto. Eu tentei consertar as coisas, mas já era tarde. Jonathan não queria mais nada comigo... Eu nem sei se algum dia ele realmente quis. – confessou ela.

- Acho que no fim tudo aconteceu como deveria ser...

- Não... Eu era pra ter aceitado a traição. Eu prefiro um pouco dele do que nada. Ver ele sem ser meu me deixa louca.

- E seu amor próprio? – perguntei perplexa.

- E desde quando eu tive, Ari? Não me importo com isso. Quando eu quero um homem eu consigo, eu vou até o fim. Mas nunca foi tão difícil conquistar alguém como aconteceu com Jonathan. De início ele resistiu ao meu charme. Então eu fiquei ainda mais animada. Parecia uma adolescente. Depois estar com ele era magnífico. Ele é um homem que chama a atenção por onde passa... E ele era meu. Ou ao menos eu pensava que era... Pois acho que ele era de todas as mulheres que quisessem. Com o tempo eu fui me apaixonando de verdade por ele, mesmo sabendo que ele não queria se envolver seriamente.

- Samantha, será que você não está mais obsecada do que apaixonada? – perguntei seriamente.

- Não... É amor. Você não sabe o que são aqueles braços te envolvendo, a boca te beijando... Eu vou conquistá-lo novamente, custe o que custar.

- Espero que consiga. – falei para dar um ponto final na conversa.

- Obrigada por me ouvir, Ari. Boa noite.

- Boa noite, Samantha.

Eu fechei os olhos e fiquei pensando nas palavras dela sobre os braços dele envolvendo e a boca beijando. Pensei nos lábios dele. Não, eu não sabia o que era os braços dele nem a boca... E nem queria. Nem sabia por que estava pensando naquilo. Eu nem podia pensar naquele homem. Acho que eu estava assim porque me abalei com o que ele estava fazendo com a minha amiga. Jamais eu teria coragem de me envolver com um homem como Jonathan. Muito menos aceitar a traição e depois correr atrás, como se nada tivesse acontecido. Mas quem era eu para criticar Samantha ou a relação dela com Jonathan? Eu namorava um homem e não sentia nada por ele e ainda assim tinha um pouco de receio em terminar e deixá-lo magoado. Eu, a amiga conselheira que não sabia resolver sua própria vida.

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