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Ele a Abandonou, Ela se Tornou Deusa

Ele a Abandonou, Ela se Tornou Deusa

Autor:: Miles Frost
Gênero: Fantasia
O terreiro de Candomblé, com seu cheiro de incenso e ervas, era meu último refúgio. Minhas pernas doíam, um lembrete físico da traição que me trouxe aqui: Luana, minha própria irmã, roubou meu lugar na Marquês de Sapucaí e orquestrou o "acidente" que destruiu meu corpo e meu sonho. Thiago, o diretor de bateria, o homem que eu amava e que jurava me proteger, não só me abandonou como se aliou a ela, exibindo o relacionamento deles para toda a escola. Meu coração estava em pedaços, minha alma, humilhada. Por que a vida me tirava tudo, justo quando eu estava prestes a brilhar? Desesperada, aceitei um novo caminho: o caminho dos Orixás. A Mãe de Santo foi clara: "Aceite o seu destino. Deixe a dor vir. Ela vai te purificar." Mas a dor ainda me seguia. Luana, a "nova rainha", veio me humilhar novamente, cuspindo verdades dolorosas. "Você era o bichinho de estimação talentoso dele, Isabela. E bichinhos de estimação podem ser substituídos." Então, a Mãe de Santo me deu a última prova: para renascer, eu precisava de um funeral simbólico, uma "morte" completa para minha antiga vida. Mas, antes que eu pudesse me despedir, Luana roubou o broche de beija-flor, a última lembrança da minha mãe, e o quebrou na minha frente. A dor se transformou em fúria. Luana, com seu chicote, me transformou em um boneco de carne e osso. Ela queria minha morte, mas mal sabia que estava despertando um poder ancestral. Agora, livre das amarras do passado e com um poder recém-despertado, Isabela está pronta para honrar seu destino. Mas o que acontecerá quando Thiago, consumido pela culpa e dor, a encontrar novamente?

Introdução

O terreiro de Candomblé, com seu cheiro de incenso e ervas, era meu último refúgio.

Minhas pernas doíam, um lembrete físico da traição que me trouxe aqui: Luana, minha própria irmã, roubou meu lugar na Marquês de Sapucaí e orquestrou o "acidente" que destruiu meu corpo e meu sonho.

Thiago, o diretor de bateria, o homem que eu amava e que jurava me proteger, não só me abandonou como se aliou a ela, exibindo o relacionamento deles para toda a escola.

Meu coração estava em pedaços, minha alma, humilhada. Por que a vida me tirava tudo, justo quando eu estava prestes a brilhar?

Desesperada, aceitei um novo caminho: o caminho dos Orixás. A Mãe de Santo foi clara: "Aceite o seu destino. Deixe a dor vir. Ela vai te purificar."

Mas a dor ainda me seguia. Luana, a "nova rainha", veio me humilhar novamente, cuspindo verdades dolorosas.

"Você era o bichinho de estimação talentoso dele, Isabela. E bichinhos de estimação podem ser substituídos."

Então, a Mãe de Santo me deu a última prova: para renascer, eu precisava de um funeral simbólico, uma "morte" completa para minha antiga vida.

Mas, antes que eu pudesse me despedir, Luana roubou o broche de beija-flor, a última lembrança da minha mãe, e o quebrou na minha frente.

A dor se transformou em fúria. Luana, com seu chicote, me transformou em um boneco de carne e osso. Ela queria minha morte, mas mal sabia que estava despertando um poder ancestral.

Agora, livre das amarras do passado e com um poder recém-despertado, Isabela está pronta para honrar seu destino. Mas o que acontecerá quando Thiago, consumido pela culpa e dor, a encontrar novamente?

Capítulo 1

O terreiro de Candomblé cheirava a incenso e ervas frescas, um cheiro que se agarrava às roupas e acalmava a alma. Eu estava ajoelhada no chão de terra batida, diante da Mãe de Santo, uma mulher cujos olhos pareciam conter a sabedoria de gerações. O som dos atabaques do lado de fora era baixo, um pulsar constante que imitava o bater do meu próprio coração. Minhas pernas doíam, uma dor aguda que subia dos tornozelos machucados, um lembrete físico da traição que me trouxera até ali.

"Você tem certeza, minha filha?", a voz da Mãe de Santo era grave, mas gentil. "O caminho dos Orixás exige tudo. Exige o seu passado, o seu presente e o seu futuro. Não há espaço para metades."

Eu olhei para as minhas mãos, calejadas de anos segurando o estandarte da escola de samba, de ajudar a costurar fantasias. Tudo o que eu sempre quis foi brilhar na Marquês de Sapucaí, seguir os passos da minha mãe, ser a passista que todos aplaudiriam. Mas esse sonho virou cinzas. Luana, minha própria irmã, o roubou de mim. Ela não apenas pegou meu lugar de destaque, minha fantasia, mas também orquestrou o "acidente" que feriu minhas pernas e me humilhou na frente de toda a comunidade.

"Eu tenho certeza, Mãe", minha voz saiu firme, mais firme do que eu me sentia. "O samba me deixou. Meu sonho me deixou. Não tenho mais nada para me agarrar."

"Você não está se agarrando a algo novo, Isabela", ela me corrigiu suavemente. "Você está respondendo a um chamado que sempre esteve aí. Os Orixás a protegeram da morte, mas a proteção deles tem um preço. Sua vida, a partir de agora, será para eles e para a comunidade que eles guardam."

Ela me entregou um colar de contas brancas, o fio de Oxalá. Eram frias ao toque. "Para aceitar este caminho," ela continuou, "você precisa cortar os laços que a prendem ao mundo que a feriu. Todos eles. Sem exceção."

O nome dele surgiu na minha mente sem ser convidado. Thiago. O diretor de bateria, o homem cujo ritmo guiava meus pés e meu coração. O homem que Luana também seduziu e roubou. A Mãe de Santo me olhou como se pudesse ler meus pensamentos.

"Principalmente ele", ela disse, sua voz não deixando espaço para dúvidas. "O amor que você sente é uma âncora que a impede de subir. Você deve soltá-lo. Completamente."

Um frio percorreu minha espinha. Soltar Thiago? Era como pedir para eu parar de respirar. Cada batida da bateria dele era uma declaração de amor para mim, ou assim eu pensava. Como eu poderia simplesmente apagar isso?

"Como?", sussurrei, sentindo as lágrimas que eu segurava ameaçarem cair.

"Aceite o seu destino. Deixe a dor vir. Ela vai te purificar", ela disse, e seus olhos se fixaram nos meus. "O poder que você busca para proteger os outros só virá quando você não tiver mais nada seu para proteger."

Eu fechei os olhos e assenti. "Eu aceito."

No instante em que as palavras saíram da minha boca, uma dor diferente da dos meus tornozelos me atingiu. Era uma dor interna, fria e aguda. Eu senti algo dentro de mim se partindo, se rasgando. Era como se fios invisíveis que me conectavam a Thiago, ao meu sonho, à minha antiga vida, estivessem sendo arrancados à força. Eu me curvei, ofegando, com a mão no peito. A Mãe de Santo apenas observou, seu rosto uma máscara de serenidade. A dor era parte do processo.

Levei dias para me recuperar, trancada no pequeno quarto que me deram nos fundos do terreiro. Minhas pernas saravam lentamente com as compressas de ervas, mas a dor no meu peito era constante. Então, uma tarde, ele apareceu.

Thiago parou na porta, seu rosto expressando uma preocupação que, por um momento, pareceu genuína. Ele trazia um pequeno cacho de flores do campo, as mesmas que ele me dava depois de cada ensaio cansativo.

"Isa... Como você está? Fiquei tão preocupado", ele disse, sua voz cheia daquele charme fácil que sempre me derretia.

Ele se aproximou, tentando me abraçar como sempre fazia, seu cheiro familiar de suor e perfume amadeirado me envolvendo. Mas algo estava diferente. Eu não senti o conforto de antes. Em vez disso, senti uma barreira, uma frieza que emanava de mim mesma. Eu me afastei um pouco.

"Estou melhor, Thiago. Obrigada por vir", eu disse, minha voz soando distante até para mim.

Ele pareceu não notar, ou escolheu não notar. "A escola toda está sentindo sua falta. O desfile não vai ser o mesmo sem você."

Ele continuou falando, sobre os preparativos, sobre a bateria, sobre como Luana estava se esforçando para preencher o meu lugar. Cada palavra era como um grão de sal jogado na minha ferida aberta. E então eu senti. Um cheiro diferente misturado ao dele. Um perfume floral, doce e enjoativo. O perfume de Luana.

Meu olhar desceu para o colarinho da sua camisa. E lá estava. Uma pequena marca vermelha, quase escondida. Uma marca de batom. O mesmo tom vermelho vibrante que Luana usava como sua marca registrada. Meu estômago se revirou. A náusea subiu pela minha garganta, forte e amarga. A traição não era mais uma suspeita, uma sombra. Era uma mancha vermelha e brilhante na pele do homem que eu amava.

"Você precisa ir", eu disse, me virando de costas para ele, para que ele não visse a repulsa no meu rosto.

"Isa, o que foi? Eu disse algo errado?", ele perguntou, confuso.

"Apenas vá, Thiago. Por favor."

Eu o ouvi hesitar, depois seus passos se afastaram. Assim que a porta se fechou, corri para o pequeno banheiro. Abri a torneira e joguei água fria no rosto, de novo e de novo. Depois, entrei no chuveiro com roupa e tudo, e comecei a me esfregar com uma bucha vegetal, com força, como se pudesse arrancar a sensação do cheiro dele, da presença dele, da mentira dele da minha pele. Eu me esfreguei até minha pele ficar vermelha e arranhada, mas a sujeira que eu sentia não era superficial. Estava dentro de mim, uma mancha de desgosto e desespero que a água não podia lavar. Eu chorei ali, sob a água fria, não mais pela perda do meu amor, mas pela nojeira de ter sido tão cega. A dor da promessa que fiz no terreiro voltou, mas desta vez, eu a recebi. Era a única coisa limpa que restava.

Capítulo 2

A memória veio sem aviso, como uma corrente de ar frio em um dia quente. Eu estava no chuveiro, a água ainda escorrendo pelo meu corpo dolorido, e de repente eu não estava mais no terreiro. Eu tinha dezesseis anos de novo, tremendo de frio e medo em um beco escuro perto da quadra da escola de samba. Tinha chovido forte, e a festa que acontecia lá dentro tinha se transformado em uma briga de rua. Eu fui empurrada, caí, e um grupo de rapazes me cercou. Eu pensei que era o fim.

Então, ele apareceu. Thiago. Ele não era muito mais velho que eu, mas já tinha uma autoridade que vinha do seu talento com os tambores. Ele não disse muito. Apenas se colocou na minha frente, alto e firme, e olhou para os outros com uma intensidade que os fez recuar e desaparecer na noite.

Ele se virou para mim, que estava encolhida no chão, com o joelho ralado e a roupa encharcada. Ele tirou a jaqueta da escola de samba que usava e a colocou sobre meus ombros. Era quente e cheirava a ele.

"Você está bem?", ele perguntou, sua voz era grave, mas não assustadora.

Eu apenas consegui assentir, incapaz de falar. Ele me ajudou a levantar, seu toque em meu braço era firme e protetor. Ele me levou para dentro da quadra vazia, me sentou em um dos bancos de madeira e foi buscar o kit de primeiros socorros.

Ele limpou meu joelho com um cuidado que eu nunca tinha recebido de ninguém. Suas mãos, as mesmas que produziam trovões dos surdos, eram incrivelmente gentis. Ele não fez perguntas invasivas, não me fez sentir envergonhada. Ele apenas cuidou de mim.

A partir daquele dia, ele se tornou meu protetor. Nos ensaios, ele sempre encontrava um jeito de ficar perto, seus olhos me seguindo enquanto eu dançava. Se alguém me olhava de um jeito que ele não gostava, um simples olhar dele era o suficiente para afastar a pessoa. Ele me trazia água, me ajudava a alongar, e celebrava cada novo passo que eu aprendia com um sorriso que iluminava todo o seu rosto.

Ele me tratava como algo precioso, mas nossa relação era de amizade, de um irmão mais velho cuidando da mais nova. Pelo menos, era o que eu pensava. Luana, que tinha ciúmes até da sombra, sempre dizia que ele me olhava diferente. "Ele não te olha como uma irmã, Isabela. Acorda", ela dizia com desdém. Eu nunca acreditei.

Até uma noite, cerca de um ano depois. Estávamos sozinhos na quadra depois de um ensaio particularmente longo. A maioria das pessoas já tinha ido embora. Ele estava me ajudando a guardar umas fantasias.

"Sabe, Isa", ele disse, com um tom de brincadeira, "se você continuar dançando desse jeito, eu vou ter que arrumar um segurança particular pra você."

"E por que isso?", eu ri, jogando um pedaço de tecido brilhante para ele.

"Porque você brilha demais. Vai ofuscar a avenida inteira. E eu não quero dividir sua atenção com mais ninguém", ele respondeu, e seu sorriso vacilou um pouco, se tornando algo mais sério.

Meu coração acelerou. A atmosfera na quadra mudou de repente. O ar ficou mais denso, carregado de algo que eu não conseguia nomear. Ele deu um passo na minha direção, tirando o pedaço de tecido da minha mão e colocando-o de lado. Suas mãos encontraram as minhas.

"Estou falando sério", ele disse, sua voz agora um sussurro.

Eu não sabia o que dizer. Fiquei ali, parada, sentindo o calor das mãos dele, olhando para os seus olhos que agora pareciam mais escuros, mais intensos. Ele se inclinou lentamente, me dando todo o tempo do mundo para recuar. Eu não recuei.

O primeiro beijo foi suave, quase hesitante. Um toque de lábios que enviou uma onda de calor por todo o meu corpo. Depois, ele aprofundou o beijo, e eu me entreguei completamente àquele momento. Seus braços me envolveram, me puxando para perto. Eu me senti segura, desejada e, pela primeira vez na vida, completamente em casa. O som distante de um último tambor sendo guardado foi a trilha sonora do início da nossa história.

A água fria do chuveiro me trouxe de volta à realidade dolorosa. A imagem do beijo se desfez, substituída pela lembrança da marca de batom no pescoço dele. A náusea voltou. Que idiota eu fui. Como pude me afogar em memórias de um tempo que estava morto e enterrado? Aquele Thiago, o protetor, o amante gentil, não existia mais. Ou talvez nunca tivesse existido. Talvez eu só visse o que queria ver.

"Eu me odeio", murmurei para a parede do banheiro. "Eu me odeio por ainda sentir falta dele."

A dor no meu peito era uma prova da minha fraqueza. A promessa que fiz à Mãe de Santo exigia que eu cortasse esses laços, mas eles ainda estavam ali, sangrando. Eu me sentia patética, uma tola que se apegava a um fantasma.

Mas então, outra sensação surgiu por baixo da dor e da raiva. Uma faísca de determinação. Eu não podia deixar a traição deles me destruir. Eu não podia deixar Luana e Thiago vencerem. A Mãe de Santo disse que meu destino era maior que o Carnaval. Ela disse que eu tinha um poder a ser despertado.

Saí do chuveiro, tremendo de frio, mas com uma nova resolução. Se a dor era o preço, eu a pagaria. Se o sacrifício era o caminho, eu o seguiria. Eu não podia mudar o que eles fizeram, mas podia mudar o que eu faria a seguir. Eu precisava me tornar mais forte. Não por vingança, mas por mim mesma. Para honrar a nova vida que me foi oferecida. Eu me vesti com as roupas limpas que o terreiro me deu e fui procurar a Mãe de Santo. Era hora de começar meu verdadeiro treinamento. A dançarina Isabela estava morrendo. Era hora da sacerdotisa nascer.

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