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Encontros e Desencontros Sob A Lua Vermelha

Encontros e Desencontros Sob A Lua Vermelha

Autor:: Xuanguniang
Gênero: Fantasia
Meng Shan nunca se esqueceu do passado, seja das dores ou das alegrias de ter Gao Lian Fa ao seu lado. Mas ela lembrava-se com mais vigor de todas as vezes que deixou seu Gao Lian Fa morrer, sumir e afastar-se dela. Quando reencarnou, suas lembranças eram um jardim de flores que cresceram em meio ao sangue, carne, vísceras e ódio. Ela pensava que isso era o pior, mas que ela merecia após deixar-se sucumbir para a covardia e abandonar seu amado no abismo. No entanto, Gao Lian Fa reencarnou. Depois do banho de sangue, suas flores estavam sendo diariamente destroçadas por milhares de ramos de ciprestes. E sua alma estava firmemente atada ao remorso.

Capítulo 1 Flores Rosa que Revelam O Amor do Passado | Part. 1

Yan Fu Zhao estava de frente a Gao Lian Fa. Ela olhava o jovem parado na beira do penhasco e ela tinha medo que, se ela olhasse com um pouco mais de atenção, ela pudesse ser capaz de ver todas as espadas do medo, da dor, da perda e do arrependimento firmemente atravessando o peito do outro. Ela olhava para Gao Lian Fa como se fosse a primeira vez, mas aquela estava longe de ser a primeira vez.

Yan Fu Zhao ainda podia se lembrar do jovem alegre e sorridente que ela conheceu naquela noite, a noite caótica no Pavilhão do Primeiro Nível do Inferno, na qual ela conheceu o homem que nunca mais deixou o seu coração. Ela sentia o cipreste amargo deixando sua boca seca, mas a realização do luto ainda nem havia a alcançado. A-lian ainda estava ali, tão perto, mas tão distante quanto jamais havia estado.

No final, Yan Fu Zhao notou que sempre esteve olhando para ele, desde o primeiro dia onde ele sorria inocentemente, até este fatídico dia onde o sorriso dava lugar às lágrimas e as palavras "você violou quatro regras do clã Yan", ofertavam lugar às palavras "A-lian, volte".

Quando Gao Lian Fa caiu do penhasco, Yan Fu Zhao ainda olhava para ele. Mas ela sentiu, naquele momento, o cipreste envolvendo todo o seu ser e ela soube que não olharia mais para o homem.

- A-lian! - Meng Shan acordou inopinadamente, com aquele nome tão conhecido em sua boca. Sua cabeça doía e suas cicatrizes passadas ardiam em contato com suas vestes, ela colocou uma mão sobre seu rosto e chorou. Ela chorou pelas lembranças, ela chorou por não ter sido capaz de fazer nada, ela chorou por simplesmente amar aquele mesmo homem antes e agora, e ainda assim não saber onde ele estava. - A-lian, por quê eu continuo sonhando com isso depois de tudo? - Meng Shan tirou a mão de seu rosto e observou as lágrimas que ficaram nela, escorrerem e caírem desoladamente sobre sua coberta. Ela poderia estar triste por ainda chorar por aqueles temíveis acontecimentos, mas ela estava feliz por não ser Gao Lian Fa a chorar aquelas lágrimas.

Meng Shan tinha sonhos misteriosos com um garoto chamado Gao Lian Fa, ao qual ela chamava de A-lian, desde que era criança. Sua primeira palavra foi, coincidentemente, "patético", a palavra que mais aparecia em seus sonhos além do nome Gao Lian Fa. Seus pais, incrédulos com a situação, não sabiam se ficavam felizes com a filha ter dito sua primeira palavra apenas aos quatro meses de idade, ou se ficavam preocupados em descobrir onde ela havia escutado aquela palavra e como ela havia a aprendido tão facilmente. Meng Shan se desenvolveu rapidamente, e apesar de ser uma criança quieta e calma, seu vocabulário aos três anos era mais vasto que o de muitos adultos. No começo, ela tinha sonhos incompreensíveis onde ela apenas ouvia palavras como "Yan Fu Zhao"; "Clã Yan"; "FuFu-jiejie"; "Gao Lian Fa"; "A-lian" e "Artesão de Almas", e até seus quatro anos ela não conseguia entender nada do que acontecia nesses sonhos. Porém, quando Meng Shan completou cinco anos, os sonhos começaram a ter imagens e ela começou a entender um pouco do que os sonhos queriam transmitir.

O problema é que em alguns meses os sonhos começaram a seguir a cronologia correta, e assim ela acabou entendendo que não eram apenas sonhos, eram as lembranças de quando ela viveu muitos anos atrás. Ela começou a reconhecer as pessoas e compreender sua própria história passada, e a trágica história de seu pai e sua mãe. Com isso, por ainda ser muito nova, ela acabava levando as questões do passado para sua vida atual e fazia perguntas aos seus pais e, aconteceu de uma vez ela chorar no colo de sua mãe com medo de perdê-la mais uma vez. Ela também perguntava ao seu pai onde Zhu Liu estava, mas seu pai não se lembrava de ter tido outra filha, a única que se lembrava da irmã era Meng Shan. Poucas semanas antes de completar seis anos, ela sonhou brevemente que estava passeando com seu tio, o céu estava cinza e neve caía por toda parte. Estava tão frio que ela precisava usar vários mantos e roupas externas o máximo possível, mas quando ela olhou para um beco sem saída daquele lugar, havia um pequeno garotinho com o cabelo totalmente bagunçado, brincando com alguns bonecos de palha. Entretanto, não foi o tipo de brinquedo que chamou a atenção dela, mas sim a maneira como o garoto estava vestido: ele usava apenas um manto do tipo externo, nada mais. "Ele não está com frio?", foi a pergunta que passou pela cabeça dela e, antes que seu tio pudesse impedí-la, Yan Fu Zhao correu até o garoto e ofertou-lhe o único brinquedo que ela tinha. Ela não costumava ter muitos brinquedos e pegou aquele depois de muita insistência de sua irmã. Ela queria muito dar roupas ao pequeno garoto, mas tudo que poderia oferecer naquele momento era o brinquedo e, para a sua felicidade, o garotinho estendeu a mão e pegou o brinquedo, depois daquilo o garoto sorriu e foi como se todo o coração dela se enchesse de alegria.

Meng Shan, naquela altura das lembranças que vinham em forma de sonho, já tinha conhecimento que seu nome era Yan Fu Zhao em sua vida passada. Depois do sonho com aquele menino, ela sonhou que havia voltado naquele mesmo beco e não havia mais ninguém lá. Deste modo, ela se virou para ir embora, mas, exatamente quando o vento bateu em seu corpo, ela viu o garoto no colo de Gao Xuan Zhen, o líder do clã Gao e um grande amigo de seu tio. Sem que ele percebesse, o garoto se virou no colo de Gao Xuan Zen e olhou para ela, logo após sorrindo e acenando para Fu Zhao com as mãozinhas pequenas onde a ponta dos dedos estavam mais escuras devido ao frio. Seu sonho terminou com o Senhor Gao dizendo "A-lian, não precisa ficar com medo de voltar para lá, eu vou cuidar de você agora".

Desde aquele dia, Meng Shan repetia e repetia que precisava, com urgência, encontrar Gao Lian Fa, ela dizia aos seus pais que precisava saber se o menino estava bem ou não. Houveram dias de inverno, onde Meng Shan fazia bonequinhos de papel e os nomeava de "Yan Fu Zhao" e "Gao Lian Fa", ela pegava pequenos pedaços de pano e fazia a boneca "Yan Fu Zhao" entregá-los ao boneco "Gao Lian Fa" como se ela mesmo estivesse oferecendo cobertas ao menino de seus sonhos. No final, não importava quantas vezes ela seguisse aquele ritual de dar as cobertas para o boneco, nunca foi o verdadeiro Lian Fa aquele que recebera tal atenção.

Ela começou a ir frequentemente ao hospital depois de completar seis anos, permanecendo internada durante dias e ficando em observação por todo esse tempo. O caso dela começou a ser estudado, porque por mais que procurassem algum Gao Lian Fa, era como se a história tivesse se perdido no tempo. Ela carregava marcas de sua vida passada, mas nenhuma delas a levou até quem ela queria.

Ao findar, ela continuou tendo sonhos sequenciais até compreender toda a história, seus sonhos só foram completados no seu vigésimo segundo aniversário. De fato, ela ainda teve tempo de aproveitar o resto de sua vida ao lado de Lian Fa e, apesar de ambos tomarem aquela derradeira decisão aos seus sessenta e poucos anos, Meng Shan como Yan Fu Zhao em sua outra vida, nunca havia deixado de se sentir culpada pelas outras coisas que a levaram a perder Gao Lian Fa para a queda do penhasco.

Agora, depois de vinte e dois anos sonhando todas as noites com sua vida passada, ela não poderia se sentir mais solitária. Há alguns meses, ela havia chegado ao final de suas lembranças e agora alguns trechos de sua vida passada repetiam todas as noites, como lâminas grossas cortando sua pele. Infelizmente, para seu azar, as únicas cenas que se repetiam eram as vezes em que ele amou, amou e perdeu seu "FaFa".

Não importava quanto tempo passasse, ela sempre amava, amava e perdia Gao Lian Fa.

- Não importa quantas vezes eu diga "me desculpe" ou "obrigada", no final, você não vai voltar... - Meng Shan, naquela manhã, se sentia mais triste e deprimida do que em todos esses vinte e dois anos. Seu coração gritava que ela deveria levantar-se da cama, mas sua cabeça prejudicada pelas lembranças indesejáveis dizia que ela deveria permanecer naquela cama hoje, amanhã e depois de amanhã, continuar lá apenas como um cadáver até que o divino tivesse piedade dela e acabasse com esse sofrimento que parecia ser eterno. Afinal, do que adiantava recordar-se de tantas infinitas coisas, se ela já não tinha mais Gao Lian Fa ao seu lado?

No final, com as cicatrizes que insistiam de lembrar-lhe do que era impossível de esquecer ardendo como brasas em seu corpo, Meng Shan finalmente levantou-se da cama. Faziam dois anos que Meng Shan morava sozinha, ela havia saído da casa de seus pais no momento em que as lembranças começaram a ficar escuras e ela sentia muito que as lembranças alegres, tivessem passado tão rápido como se durassem apenas alguns minutos. Mas, para falar a verdade, ela não tinha certeza de quanto tempo feliz ele viveu com Lian Fa até aquele dia... O dia em que Yan Xian Sun, Yan Qian Hui, Wu Xie Yao e Zhou Lai Gong seguraram as mãos dela e de Gao Lian Fa enquanto eles faziam a travessia. Ela só sabia que o único momento em que ela fora verdadeiramente feliz, foram os momentos em que ela compartilhou com Lian Fa.

Meng Shan era uma música e dançarina, atualmente ela passa a maior parte de seu tempo tocando a guqin branca que possuía. A guqin também era uma herança distante de suas memórias. Ela se lembrava de tocar uma guqin desde que era pequena, ainda como Yan Fu Zhao, e mais do que isso, ela passava dias se lembrando que compôs uma música para ela e Gao Lian Fa. Sem esconder nem um pouco de sua alegria, ela ainda sorria abertamente quando lembrava-se que havia sido essa música que a fez reconhecer o outro quando esse gloriosamente retornou da morte. Nesta vida, Meng Shan ainda não havia sido capaz de esquecer como era a música e, deste modo, o que sua guqin mais tocava era "Lua Vermelha". A verdade era que sempre que ela tocava aquela música, era como se o calor do corpo de Lian Fa voltasse a envolver seu corpo, mas não importava quantas vezes ela tocasse aquela música, era sempre a sensação e nunca o homem.

Agora, Meng Shan não estava tendo nenhum trabalho como dançarina ou artista, a maioria das pessoas da cidade estava de férias assim como ela, se ela não estava enganada, o único lugar onde ainda haviam pessoas trabalhando era na companhia de teatro One & Only, mas ela nunca havia se interessado por atuação, então ela não tinha certeza. Durante os dias de descanso, Meng Shan passeava pela cidade e geralmente parava do lado oposto do lago Linghun, onde havia uma grande árvore de flores rosas. O lago Linghun era famoso por ser composto de flores de lótus, e ter a árvore mestre que era uma das mais bonitas da cidade inteira. Quando ela sentava-se debaixo daquela árvore, ela sempre tocava "Lua Vermelha", e em nenhuma das vezes ela teve uma resposta da flauta de Gao Lian Fa.

Meng Shan contemplou o dia de sua janela por alguns minutos, ela não tinha certeza se queria sair de casa tanto assim. Afinal, o que ela ganharia sabendo que ele jamais encontraria seu amado?

De repente, como o som da brisa suave da manhã, ela ouviu "Lua Vermelha" ser tocada no som de uma flauta. Seu coração tremeu com o som e sua boca ficou seca, mas foi apenas uma fração de segundos e a música desapareceu no ar como se nunca tivesse existido.

Era como se nada além de suas lembranças tristes existissem neste mundo.

Os olhos de Meng Shan lacrimejaram e dessa vez ela que se sentiu patética, por ainda depois de anos acreditar que o homem retornaria para sua vida. De qualquer forma, ela decidiu que sairia de casa naquele dia, ela queria poder tocar "Lua Vermelha" sob aquela árvore mais uma vez. Ela então preparou os cabos de sustentação da guqin e prendeu-a em suas costas, já trocada de roupa e alimentada. Quando ela estava na porta de casa, ela olhou de relance para uma caixa pequena e marrom, ela não era aberta há anos e já estava até mesmo empoeirada, mas Meng Shan decidiu que era hora de abrir aquele tesouro antigo. Ela abriu a caixa e tirou a longa pulseira branca de tecido, totalmente imaculada e usada apenas uma única vez, quando ela tinha seis anos. Ela passou a mão em sua testa, sentindo a marca daquilo que a havia feito usar a pulseira de uma forma estranha, e passou-a por sua testa e logo após amarrou-a, deixando seus cabelos caírem por cima da mesma. E então, ela deixou sua casa solitária sem sequer olhar para trás.

Enquanto andava em direção ao lago Linghun, Meng Shan não conseguia parar de pensar no motivo de estar há dois anos, sempre que pode, indo ao lago para tocar "Lua Vermelha". Quando ela chegou na cidade, não demorou muito para que ela soubesse da lenda do lago Linghun: para começar, o nome do lago traduz-se literalmente como "alma", e existe um motivo extremamente especial para esse nome. As pessoas da cidade, que estavam ali desde a fundação da cidade-piloto, diziam que o fundador da cidade havia entrado dentro do lago numa noite completamente iluminada pela lua, ele estava com algo feito de tecido nas mãos e cantava uma música de uma maneira completamente esquisita. De repente, uma espada longa surgiu em sua mão e ele a atravessou por seu peito e, exatamente no mesmo momento, um talismã amarelo surgiu em suas costas e ele queimou imediatamente depois de surgir. No final, nem o corpo do fundador e nem o objeto que estava em suas mãos foi encontrado, muito mesmo a espada. Depois daquilo, as pessoas começaram a dizer que o fundador morreu naquele lugar, para que ele encontrasse seu grande amor do passado. Daquele modo, foi criada a lenda que, quando você estivesse naquele lago ou próximo a ele, encontraria o seu amor de outra vida. Aquele incidente ocorreu trinta e cinco anos antes de Meng Shan nascer, ela nunca soube quem era o fundador da cidade por simplesmente não haver nenhum registro de imagem do mesmo. Em contrapartida, algo em Meng Shan dizia que ela deveria dar uma chance ao lago Linghun, mesmo que fosse apenas uma esperança tola que nasceu em seu coração ao ouvir a história insana dos moradores de lá, ela ainda queria tentar de tudo para encontrar aquele por quem ela foi tão apaixonada na outra vida e que, mesmo sem conhecê-lo nesta, ainda permanecia apaixonada por ele do mesmo jeito que antes.

Meng Shan chegou ao lago Linghun em apenas quinze minutos, e ela não era capaz de acreditar que havia chegado tão rapidamente em um lugar que era quarenta minutos distante de sua casa. Em seus pensamentos, ela acreditou que aquela rapidez se deu por conta de seus pensamentos caóticos, que cada vez mais a levavam às profundezas do sofrimento. Mesmo em momentos simples de caminhada, Meng Shan não conseguia esquecer o rosto de Gao Lian Fa e muito mesmo esquecer a dor que ela carregava desde sempre. No fim, ela preferiu não pensar muito sobre questões do passado e decidiu sentar-se embaixo daquela árvore encantadora.

Não importava quanto ela admirasse a árvore, toda vez que ela retornava ela parecia estar mais bonita. Naquele dia, as flores que nela nasciam estavam mais rosas do que de costume e o sol que batia nas pétalas das flores faziam uma luz rosada refletir no rosto de porcelana de Meng Shan, em pouco tempo o vento também começou a bater na árvore e algumas pétalas caíram sobre o corpo dela. Meng Shan não começou a tocar a guqin imediatamente, ela delicadamente retirou-a de suas costas e colocou-a sobre suas pernas, ela colocou as mãos sobre as cordas da guqin e respirou profundamente enquanto olhava para o céu através da árvore. Qualquer um que olhasse para ela naquele momento, poderia ver a dor em seus olhos e o pesar abundante afundando suas costas, se uma foto fosse tirada a beleza e a tristeza que estariam eternizadas na fotografia seriam demais para que alguém a visse sem derramar sequer uma lágrima. Aquela cena, ao olhar de qualquer pessoa, seria o suficiente para explicar a frase "o pesar é o mais bonito dos poemas".

Meng Shan começou a tocar "Lua Vermelha" após dez minutos de contemplação ao céu, ela sentia seu corpo todo tremer conforme as notas saíam da guqin. Ela havia tocado e escutado aquela mesma música tantas vezes, ela temia que apenas de colocar a mão sobre a guqin seus dedos se movessem por conta própria. Meng Shan começou a apreciar as notas graciosas, enquanto lembrava-se de seu antigo amor, distante amor, triste amor e esperançoso amor. Quando mais ela tocava, mais vezes ela se lembrava do sorriso de Lian Fa, mais ela ouvia a voz dele sussurrando "Zhao-jiejie" em seus ouvidos, mais ela lembrava do quanto Gao Lian Fa se importou com ela. Mas, claro, quanto mais ela tocava, mais ela lembrava das lágrimas do homem, mais ela ouvia a voz dele dizendo "Yan Fu Zhao" de uma forma agressiva, mais ela se lembrava de quantas vezes seu amado pediu para ela "dar o fora". Meng Shan já estava à beira das lágrimas quando um estalo em sua espinha a fez parar abruptamente com a música, seu coração acelerou e seu primeiro impulso foi virar-se para trás e olhar para o outro lado do lago Linghun.

Ao fazer isso, ela o viu. Parado na ponta divergente da qual ela estava, Gao Lian Fa estava bem ali do outro lado. Meng Shan fez menção de levantar, mas em uma distorção de imagem, não era mais a silhueta de roupas pretas esvoaçantes que ela via, era apenas um homem comum.

Meng Shan não conseguia entender a peça pregada por sua mente, quando ela olhou era claramente Gao Lian Fa do outro lado: as roupas pretas voando com o vento, o cabelo e a fita vermelha que o prendia flutuando como antes, a mesma altura e o mesmo sorriso que fez Meng Shan se apaixonar da primeira vez. Mas, quando ela piscou os olhos, no lugar de Lian Fa estava um homem com cabelos curtos, roupas pretas da atualidade, nenhuma fita vermelha, mas... O sorriso ainda era o mesmo que o de Lian Fa, e ele fazia o coração de Meng Shan saltar em seu peito. Para completar, o homem parecia estar olhando para ela também.

A única reação de Meng Shan foi fechar o punho e virar-se séria para a frente, sem sequer dar uma última olhada no homem que lembrava tanto seu amor de outra vida. A verdade era que ela nem mesmo tinha certeza se o homem lembrava ele, ambos estavam em extremos totalmente opostos e não havia como ela ter certeza. Mas, Meng Shan sentia suas pernas fraquejarem cada vez que ela pensava em olhar para trás novamente, era como se seu corpo mostrasse-lhe que ela deveria conferir a situação do outro lado do lago.

Entretanto, Meng Shan estava com medo.

Capítulo 2 Flores Rosa que Revelam O Amor do Passado | Part. 2

Ela tinha tanto medo de encontrar Lian Fa novamente, tanto medo de sofrer e ter que correr ao lado oposto ao dele. Tanto medo de ser forçada a deixá-lo, o medo fazia suas pernas travarem mesmo quando ela queria sair correndo dali, e no fim ela sabia que apenas tinha medo de não ser capaz de proteger Gao Lian Fa novamente. Ela pensou durante vários minutos sobre o que deveria fazer, o vento ficou mais forte e agora haviam pétalas das flores caídas até mesmo sobre sua guqin, diante disso ela tomou sua decisão: Meng Shan iria para casa.

Meng Shan levantou-se, guardou sua guqin atrás de suas costas e se preparou para ir, entretanto ela finalmente notou um erro em seu plano, para chegar em sua casa o caminho que ela deveria percorrer passava exatamente no lugar em que o homem estava. Não havia um caminho alternativo para sua casa, se ela pegasse o caminho reto desde a árvore ela acabaria chegando ao centro da cidade. Meng Shan sempre soube disso, ela mesma escolheu morar perto do centro para ficar próximo de onde ela dançava e tocava, o problema é que ela se esqueceu completamente disso no momento em que pensou ter visto seu amado. Aparentemente, poderiam passar-se anos, séculos e até milênios, mas Lian Fa ainda mexeria com a mente dela como da primeira vez. A única coisa que ela implorava, era que da próxima vez fosse o verdadeiro Gao Lian Fa, e não apenas uma ilusão criada por sua mente insana e angustiada.

Meng Shan suspirou e fechou seus olhos por alguns minutos, ela não sabia se estava preparada para andar até o outro lado e ter a realização de que o homem não tinha nada parecido com Gao Lian Fa o alcançando. No final, ela saiu de perto da árvore e começou seu caminho e, pela primeira vez ela notou que todo o lago Linghun até alcançar a árvore era um círculo perfeito, ela notou que a lenda fazia mais sentido se pensando que o círculo representava o ciclo que uma alma leva todas as vezes até reencarnar. Enquanto ela andava, já próximo de onde havia visto o homem, ela pensava se o seu círculo e o de Lian Fa estavam conectados de alguma maneira, ou se apenas sua vida passada foi a única ocasião onde ela poderia ter o amor daquele que ainda era dono de seu coração e alma. Se ela soubesse que seu coração teria tantas dúvidas agora, se ela soubesse que seria tão difícil encontrar o homem novamente, ela não teria tomado aquela decisão e teria impedido o outro de tomá-la também. Mas, ela ainda estava feliz com a maneira que tudo se encerrou.

Quando Meng Shan estava há dez passos de passar exatamente atrás daquele homem, ela parou e ficou analisando-o. O homem, agora, estava parado e abaixado no chão, ele parecia olhar para uma pequena caixa de papelão que emitia alguns ruídos semelhantes a gemidos. Do lugar em que estava, Meng Shan não conseguia ver o rosto do homem ou ver o que havia na caixa, ela só conseguia ver que o homem usava roupas pretas com um cinto vermelho e carregava uma bolsa, mas o rosto que era o que importava para Meng Shan era impossível de ser visto. Ela começava a duvidar do que havia visto de longe, provavelmente ela apenas havia se confundido mais uma vez. Deste modo, ela apenas continuou andando até que tivesse passado completamente por trás do homem.

Mas então seus passos pararam repentinamente no momento em que ela escutou "Lua Vermelha" ser tocada em uma flauta, e o som estava vindo de onde o homem estava.

Meng Shan virou-se tremendo para trás, e olhou para o homem parado agora de pé, mas que ainda olhava para a caixa de papelão. Anteriormente, o homem parecia estar tremendo enquanto mexia com o que estava dentro da caixa, mas agora era ela quem tremia com passos vagarosos que levavam-na para mais perto do homem. Meng Shan fez mais uma pausa, enquanto sentia a melodia de "Lua Vermelha" ser tocada por mais alguém além dela mesma.

Em sua mente, as mesmas palavras "me desculpe" e "obrigada" que apareciam incansavelmente em seus sonhos, rodavam e rodavam por sua mente, e aquilo já estava resultando em uma grande tontura em sua cabeça. Mas, mais do que isso, enquanto ela ouvia a música ser tocada pelo homem, ela sentia como se a melodia mandasse aquelas duas palavras para seu coração, de fato era como se depois de tantos anos, Gao Lian Fa estivesse ali na sua frente repetindo aquelas duas palavras mais uma vez. Naquele momento, Meng Shan lembrou-se que sempre sentiu que sua consciência atual sempre esteve afogada em um mar de incertezas e, de alguma forma, "Lua Vermelja" tocada daquela maneira delicada trouxe o verdadeiro ela para a superfície e a salvou de todos esses anos de culpa. As marcas da vida passada ardiam e queimavam, mas com cada nova melodia seu medo era varrido para longe e uma esperança inexplicável entrava no lugar. Desde sempre, as pessoas diziam que Meng Shan sorria apenas quando perguntavam-lhe quem era Gao Lian Fa, mas que seu sorriso era tão triste que o coração das pessoas doía. Toda vez que ela ouvia isso, Meng Shan se sentia vazia por dentro, era como se o seu coração estivesse quebrado e ela nunca conseguia esquecer a voz do homem de seus sonhos.

- Essa música é tão pesada, Lian Fa, é tão pesada quanto as vezes que eu tenho que segurar as lágrimas durante as madrugadas por sonhar com você, mas de alguma forma essa melodia suprime o vazio que eu sinto. - Meng Shan sussurrou, enquanto olhava para o homem em sua frente. Ela estava olhando a nuca do homem quando disse aquilo, e só notou que a música parou quando o homem que estava de costas para ela, de repente virou-se para ela e começou a olhá-la.

Era ele. Era Gao Lian Fa.

Meng Shan já tinha certeza que era Gao Lian Fa apenas ao escutar a música, ela sabia que o único que poderia saber sobre "Lua Vermelha" além dela, só poderia ser aquele homem. Seus olhos daquela vez não encheram-se de lágrimas, mas seu coração transbordou amor ao lembrar-se que da última vez, ela também havia reconhecido Lian Fa graças à "Lua Vermelha". Aquela música era a ponte que ligava sua alma a dele, ela não se importava se o seu círculo e o dele estavam ligados ou não, ela apenas agradecia por ter feito aquela música quando teve a oportunidade e não se arrependia de tê-la apresentado para Lian Fa. Em contrapartida, o homem em sua frente que agora ela sabia ser quem ela buscava, não teve nem tempo de reagir antes que Meng Shan tomasse uma atitude drástica: ela andou apressadamente os passos que restavam para chegar até ele, e segurou o pulso da mão onde jazia a flauta.

- Achei você, Gao Lian Fa. - Foram as únicas palavras que Meng Shan falou, enquanto ainda segurava o pulso do outro com uma força duvidosa. Mesmo que a vontade de Meng Shan fosse poder sentir cada vez mais a pele do outro, ela simplesmente não se sentia capaz de segurar mais forte o pulso dele, de fato ela realmente tinha um medo tremendo que fazendo isso o homem desaparecesse. O homem, por outro lado, sorriu para ela.

- Hehe, pequena lótus, não existe essa fala na peça. Se deseja ser uma grande atriz no futuro, você deveria memorizar melhor as falas. - Meng Shan não entendia o que raios o outro queria dizer com isso, ela não sabia de peça nenhuma e muito menos queria ser uma atriz! Sem contar, qual era o motivo dele estar chamando-a de "pequena lótus"? Meng Shan simplesmente não conseguia conciliar as palavras do outro, então ela colocou a cabeça de lado com uma expressão de dúvida.

- O que... Você quer dizer? - Foi a única coisa que saiu da boca de Meng Shan, ela estava mais surpresa com a forma de tratamento do que com qualquer outra coisa, talvez o outro se lembrasse de sua vida passada também? Quando ela pensou nisso, ela notou que ainda não havia soltado o pulso dele. Mas, ela não era a única que pensava naquele contato, o outro também estava questionando o motivo de sentir-se tão bem enquanto a mão de Meng Shan envolvia seu pulso, porém para a infelicidade dele Meng Shan soltou vagarosamente seu pulso.

- Eh? Bem, a pequena lótus me chamou de "Gao Lian Fa", está carregando uma guqin nas costas e também está usando uma faixa de testa. Na verdade, a pequena lótus poderia estar fazendo cosplay de qualquer personagem da seita Yan, mas algo me diz que a pequena lótus tem algo muito parecido com Yan Fu Zhao aqui. - Quando ele disse "aqui", ele tocou delicadamente sobre o coração de Meng Shan. O toque foi o suficiente para algo se acender em Meng Shan, sua pele ardeu e queimou mesmo com uma camada de roupa separando as duas peles, ela não poderia ter mais certeza que aquele era Gao Lian Fa. - Mas, a pequena lótus não está mesmo fazendo cosplay de Yan Fu Zhao? Nem mesmo quer treinar falas para ser uma atriz?

- Hm, isso está certo. - Mesmo que Meng Shan sentisse seus olhos coçando para olhar para a mão do outro que ainda não havia deixado seu coração, ela era completamente incapaz de desviar seus olhos dos dele.

- Pequena lótus, qual é o seu nome? - Por fim, o outro perguntou a Meng Shan e também cessou o contato de sua mão com o coração dela. Depois de fazer a pergunta, o homem se virou para trás e começou a mexer na caixa de papelão mais uma vez enquanto aguardava a resposta.

- Meng Shan. - Meng Shan falou sem em nenhum momento deixar de olhar para o outro, que apenas balançou a cabeça ao ouvir a resposta dela. Então, sem que Meng Shan esperasse, o homem levantou-se e olhou para ela mais uma vez.

- Pequena lótus, meu nome é Zhang Qian. - Zhang Qian estava de frente para Meng Shan, ele girava sua flauta nos dedos e sorria para a mulher. O mundo todo havia parado para Meng Shan, que via Zhang Qian mas também via a grande árvore onde ela estivera antes atrás de Zhang Qian, o vento fez os cabelos do outro voarem e era possível ver os galhos da árvore se mexendo e as pétalas caindo, era como se toda a beleza da árvore fizesse uma saudação para a beleza de Zhang Qian. Meng Shan estava deslumbrada, e então ela desviou o olhar para baixo e viu refletido na água da margem do lago Linghun a imagem perfeita de Gao Lian Fa de costas.

Antes que ela notasse qualquer aproximação, Zhang Qian estava do lado do ombro esquerdo de Meng Shan. Sutilmente, Zhang Qian assoprou uma pétala rosa que jazia solitária no ombro de Meng Shan. Neste mesmo ritmo, Meng Shan virou o rosto e olhou para o outro. Zhang Qian continuou com o rosto próximo ao ombro dela, mas seus olhos moveram-se para o canto e encararam Meng Shan com um olhar um tanto quanto sensual.

- Mantenha seus olhos em mim, Shan-jiejie. - Zhang Qian disse sem, em absolutamente momento algum, interromper o contato de seus olhos e de Meng Shan.

No final, Meng Shan notou que sempre estivera olhando para Zhang Qian, desde que ele era Gao Lian Fa até ele tornar-se Zhang Qian. E ela definitivamente, sabia que desde aquele momento jamais seria capaz de mover seus olhos para outro lugar.

Capítulo 3 Para Me Redimir | Part. 1

Zhang Qian permanecia ali, parado perigosamente ao lado de Meng Shan. O rosto do primeiro estava audaciosamente circunvizinho ao rosto da mulher e, se por alguma obra maldita - ou talvez não tão maldita na opinião de Meng Shan -, aquele ser de face-grossa tivesse a brilhante ideia de virar minimamente seu rosto para o lado, sua respiração quente e até mesmo um pouco acelerada iria atingir com grande força o pescoço exposto dela.

O coração de Meng Shan começava a tornar-se pesaroso somente em pensar no que ela sentiria caso tal situação viesse a acontecer, mas talvez ela estivesse relativamente mais cautelosa com o que aconteceria com determinadas partes de seu corpo naquela situação supositória. Na realidade, Meng Shan estava controlando-se excepcionalmente forte para não sair correndo o mais veloz possível, e daquela vez ela nem estava se segurando por saber que correr seria uma extrema falta de educação. Ah, não, definitivamente aquele não era o motivo de Meng Shan estar sendo tão radical em sua escolha de permanecer ao lado de Zhang Qian. Havia algo em seu ser, algo que retumbava e estremecia as paredes que protegiam sua mente e coração, algo que gritava em sua alma e faziam-na ser uma floresta de ciprestes solitário à deriva, esperando que alguém viesse apreciar a beleza de suas folhas verdes de esperança e amor, e suas raízes de lealdade. Mas seus ciprestes eram especiais, eles davam flores.

As flores eram pura saudade.

Saudade dele.

Saudade do toque.

As flores cor púrpura, que demonstravam ternura. Mas, que ainda assim, resultavam em amargura.

O tão aguardado toque, e o tão esperado Lian Fa, apenas um deles havia chegado até Meng Shan. Talvez, era apenas um talvez, ela estivesse sendo muito gananciosa em esperar que Zhang Qian tocasse nela no mesmo dia em que eles se conheceram. Não era o outro que passara vinte e dois longos anos à procura de alguém que poderia nem sequer existir, portanto Meng Shan não poderia ser aquela que cobraria o mínimo de toque da outra parte. Ela sabia, ela sentia como seria complicado estar perto do homem parado ao seu lado, e ter que entender que o envolvimento deles não pertencia mais a este mundo. De fato, todos os encontros carnais, todos os momentos de carinho e todos os momentos de raiva e amor, não pertenciam a nenhum outro lugar senão às tristes lembranças de Meng Shan. Ela teria que engolir seus sentimentos mais uma vez, como na época em que ambos eram adolescentes, pois as lembranças eram dela e Zhang Qian não carregava mais suas culpas. Entretanto, por que raios era tão doloroso vê-lo e não ter a opção de tocá-lo como antes? Mesmo que Meng Shan se fizesse aquela pergunta, ela já sabia muito bem qual era a resposta certa para ela. Ela sabia e poderia dizer, ela poderia gritar, ela poderia segurar nas mãos do outro e falar aquelas seis palavras, mas ela também sabia que Zhang Qian não voltaria a tocá-la como antes.

Bem, talvez ela estivesse terrivelmente enganado.

No momento em que Meng Shan ponderava silenciosamente em seus pensamentos sobre as poucas probabilidades de Zhang Qian tocá-la de uma maneira mais íntima, comparada a quando ele tocou o peito dela, Zhang Qian colocou seu queixo sobre o ombro onde, anteriormente, jazia a pétala.

- Aigoo, jiejie, você é confortavelmente calada. - Zhang Qian suspirou lentamente ao dizer aquelas palavras e, graças a qualquer coisa que prezasse pela saúde mental de Meng Shan, ela não pensou em suspirar na direção do pescoço do outro. Pelo contrário, ao suspirar ela sentiu um leve gracejo de sândalo no ar, demorou alguns segundos para que Zhang Qian fosse capaz de associar o cheiro inebriante de sândalo à mulher. Por alguns instantes, Zhang Qian foi levado há sentimentos que ele parecia já conhecer, além disso ele também sentiu sensações que arrepiavam seu corpo dos pés à cabeça... Era como se ele sentisse uma mão menor que a sua a segurando, entrelaçando os dedos e depois ele ainda sentiu um beijo na palma de sua mão! Quão pervertido seria, se ele dissesse que teve a sensação de um corpo quente por cima do seu?

Antes que Zhang Qian tivesse qualquer ação sobre aquele cheiro, antes que ele pudesse tentar sentir aquele cheiro um pouco mais de perto, mais uma vez um grande vento acertou seu corpo. Mas, desta vez, Meng Shan foi aquela que recebeu toda a carga pesada da ventania e as sobras da fita que ela trazia na testa foram parar na frente de seu rosto, no lado em que Zhang Qian olhava para ela.

Nenhum dos dois haviam rompido o olhar inicial, o rosto de Meng Shan permanecia virado para o do outro e os olhos de Zhang Qian continuavam olhando para os dela, sem absolutamente nenhum dos dois sequer cogitar a possibilidade de desviar o olhar. Zhang Qian havia sentido e dito aquelas coisas, mas ele sentia como se o contato de seu queixo e o ombro da mulher formassem uma ponte que prendiam seus olhares um ao outro. Na verdade, não havia muito a ser dito, mas Zhang Qian sentia um ímpeto de falar com o outro, observar suas reações depois que ele tomava esse tipo de atitude. Zhang Qian sempre foi de pensamentos reflexivos e falas elaboradas, mesmo agora quando ela queria falar coisas bobas ao homem que ela acabara de conhecer, ela sentia que suas palavras tinham mais impacto do que deveriam ter. Se era assim, e se aquele toque era realmente uma ponte que havia deixado ambos naquela atmosfera intrigante, o que poderia acontecer se as peles se encostassem? Zhang Qian não pensou muito sobre isso.

Na verdade, ele foi diretamente para a prática.

Zhang Qian aproveitou a deixa que a ventania deu para ele e, delicadamente, ele passou a mão pela sobra da fita de testa de Meng Shan, mas ele ainda fez questão que seu dedo encostasse vagarosa e suavemente na pele dela. Oh, que péssima ideia diria Lian Fa se aquela a ser tocado depois de tantos anos de procura fosse Yan Fu Zhao, e ele também não esperaria dois segundos para pegá-la em seus braços. Mas aquela a ser tocada não era Yan Fu Zhao, e aquele a testá-la não era Lian Fa.

Aqueles eram Meng Shan e Zhang Qian, reencarnados e prontos para amar outra vez.

Mas ninguém é capaz de apagar as lembranças de duas almas culpadas e sedentas pelo toque.

O contato da pele de Zhang Qian contra a da mulher causou um choque tremendo e arrepios nos corpos de ambos, e a pior parte ainda estava por vir. Zhang Qian, no momento em que a tocou, recordou-se que sempre teve a sensação que alguém queria tocá-lo, queria comunicar-se com ele, queria estar ao seu lado e ser o anjo que iria protegê-lo e amá-lo pelo resto de sua vida. Ele sempre pensou que aquela sensação era algum tipo de devaneio dele, mas depois de algum tempo ele teve certeza que ele deveria procurar pela pessoa. Mas o seu anjo protetor e amável, nunca chegou em sua vida, ele apenas deixava a sensação do toque e seu cheiro no ar. Agora, pensava ele, por que caralhos sua pele se sentia como se fosse tocada pelo anjo, quando ela na verdade estava em contato com a de Meng Shan? E não era só isso, o cheiro da mulher era estranhamente - e confortavelmente - familiar para ele. Havia um milhão de perguntas que ele desejava fazer para Meng Shan, e ele sabia que aquelas perguntas valiam tanto quanto uma reencarnação para sanar os pecados de alguém.

Em contrapartida, o coração de Meng Shan; antes calmo, parecia ter sido jogado de uma altura de cento e cinquenta metros até cair certeiramente dentro de um vulcão em erupção. A altura, representava o choque, a surpresa, o pavor e a melancolia dos momentos que antecederam o toque de Zhang Qian, momentos aqueles que ela havia observado com olhos arregalados e parecia que tudo havia acontecido em câmera lenta. Já, o vulcão não queimava necessariamente seu coração, mas o fogo purificava um pouco de sua culpa aterradora. Para ela, que esperava com tanta urgência por aquilo, o toque de Zhang Qian era sua salvação. Mas parecia que Zhang Qian, que possivelmente não mantinha recordações de sua vida passada, teve reações não tanto moderadas assim.

Os joelhos de Zhang Qian cederam, e seu corpo todo tombou para a frente.

Sua mão, que havia acabado de retirar a fita de testa do rosto de Meng Shan, ainda segurava a fita e, com a queda repentina, ele se agarrou à fita e ela lentamente se desprendeu do cabelo de Meng Shan.

O queixo dele ainda estava apoiado no ombro de Meng Shan e, deste modo, seu corpo caiu totalmente por cima do dela. Inicialmente, Meng Shan travou. Era uma grande verdade que ela ansiava pelo toque, mas de alguma maneira era muito para ela que o corpo todo de Zhang Qian estivesse em contato com o seu. Mas, em questão de instantes ela conseguiu se recompor e, mesmo que levemente sem jeito, ela abraçou o corpo de Zhang Qian e sentou-se no chão lentamente enquanto ainda segurava o corpo de Zhang Qian daquela maneira, e apenas quando estava totalmente no chão ela colocou o corpo do outro de lado por cima de uma de suas pernas. O corpo do outro vacilava e seu pescoço parecia estranho, a respiração estava ofegante e ele parecia delirar. Na verdade, ele estava definitivamente recordando de algumas coisas.

- Zhang Qian, o tempo vai acabar em breve... - O homem parado na frente de Zhang Qian o fazia parecer tão pequeno. - Você poderá respirar livremente.

- Huang-shi, mas e o meu anjo? - Zhang Qian, mesmo que não conseguisse compreender de onde ele acreditava ter um anjo o protegendo, ainda queria saber quem ele era.

O homem, por outro lado, mantinha preocupações sobre Zhang Qian, e nunca havia entendido como o "anjo" citado pelo garoto havia deixado aquilo acontecer para o pobre Zhang Qian, que tinha apenas uma tenra idade e já estava sofrendo com aquele tipo de coisa.

Mas, o homem sabia que deveria incentivar a pureza do garoto, e dar pequenos empurrões para que ele sempre carregasse aquele tipo de sentimento gracioso dentro de si, afinal, logo Zhang Qian poderia respirar livremente.

- Bem, o seu anjo - Ele olhou para Zhang Qian, sentado com as perninhas juntas e o encarando, e logo sorriu na direção do pequeno menino e afagou seus fios macios de cabelo. - Tenho certeza que você ainda irá conhecê-lo e, além disso, ele irá te dar a proteção que você precisa, Zhang Qian.

Qualquer pensamento engraçado não levaria a tensão embora agora, ela ainda permanecia preocupada ao extremo com o homem em seu colo. Zhang Qian parecia sofrer com algum conflito interno, com lembranças passadas que ele gostaria de não possuir e de sentimentos que ainda eram uma incógnita para ele, era realmente possível que mesmo depois de uma reencarnação a alma dele estivesse fadada ao sofrimento? Enquanto ele segurava na roupa de Meng Shan, ele sussurrava o nome daquela que o segurava firmemente, e isso fazia Meng Shan sentir-se sufocada de preocupação. Ela não tinha certeza se Zhang Qian estava desmaiado, mas seus sintomas não indicavam que ele estivesse na mais perfeita condição.

- Isso... - Antes de continuar sua fala, Meng Shan sentiu sua boca coçar e ela pensou que, alguma vez que havia fugido de sua memória, ela já tivesse dito aquela frase. Ainda assim, pensando que seria melhor dar um apoio ao homem em seu colo, ela segurou na mão de Zhang Qian. - Dói? - Por fim ela concluiu sua fala. "Ah, sim, Lian Fa, parece que nem mesmo minhas falas mudaram de lá para cá", foi o que ela pensou logo após dizer. Entretanto, logo ela fez uma correção mental: ela não deveria mais chamar aquela pessoa de Lian Fa, deveria respeitar o novo "eu" de seu amor e deveria chamá-lo de Zhang Qian. Meng Shan não iria errar novamente com ele, ela jamais poderia fazer isso novamente.

- Bem, - Zhang Qian abriu seus olhos lentamente. - Doeria mais se você não estivesse aqui... Jiejie. - Ele sorriu ao dizer aquelas palavras e, sem mais e nem menos, ele levantou-se do colo de Meng Shan e caminhou até sua mochila. Ele pegou uma garrafa d'água e um pequeno remédio, que Meng Shan logo reconheceu como sendo um remédio específico para tonturas. Quando era pequena, ela mesma sofria muito com tonturas, passava dias sentada reta para que suas cabeça não girasse e ela não sofresse nenhum tipo de acidente, e também passava noites dormindo sentada para que quando acordasse sentisse menos tonturas. Em seu caso, aquilo era a culpa que Meng Shan carregava e a avalanche de lembranças que a acertavam dia e noite, mas pelos outros sintomas de Zhang Qian aquilo só poderia ser tontura causada por grandes períodos de estresse. Era muito provável que, além das tonturas, ele sofresse com dores pelo corpo frequentemente e muito mais dores na cabeça, como as temidas enxaquecas, mas apenas um pouco mais dolorosas.

- Você tem muitos picos de estresse, Zhang-shi? - Meng Shan decidiu, por fim, fazer a pergunta, ela não queria ser taxada como "sem assunto" e ela também queria ouvir mais sobre como Zhang Qian era nesta vida.

- Aiya, por que está usando "shi" comigo, jiejie?

- Por que está usando "jiejie" comigo? - Meng Shan rebateu no mesmo segundo.

- Vejamos, talvez seja igual eu saber que você tem algo de Yan Fu Zhao dentro de você, eu apenas sinto que você é mais velha que eu. E, além disso, eu sinto que você quer que eu a chame assim... Mas eu ainda gosto mais de "pequena lótus" - Zhang Qian fechou a garrafa d'água e a colocou novamente em sua mochila. - Afinal, quantos anos a jiejie tem? - Ele não olhava para Meng Shan, mas ela não havia movido seus olhos dele.

- Vinte e dois. - Ela queria acrescentar com "procurando por você, Zhang Qian", mas ela sabia que não adiantaria iniciar aquele assunto quando o outro não compartilhava de suas memórias.

- Bem, você é ainda um ano mais velha que eu, no final posso te chamar de jiejie livremente, pequena lótus. - Ele sorriu enquanto brincava com a fita que ainda estava em sua mão, ela estava agora totalmente enrolada sobre seus dedos e o tecido dela fazia cócegas boas na pele de Zhang Qian. Meng Shan notou que, pela primeira vez depois de tanto tempo, ela não se importava com o outro mexendo em algo que, em sua vida passada, fora tão precioso. Na verdade, a cena de Zhang Qian brincando com sua fita, aquecia o seu coração congelado pelo tempo e faziam-na se recordar de memórias muito mais distante, cada uma delas com um sentimento diferente.

- Zhang-shi, por que você estava tocando flauta para aquela caixa? - Mais uma vez, Meng Shan havia usado o "shi" para se referir ao outro, mas ela não escaparia dessa tão facilmente quanto antes. Ela já havia notado que Zhang Qian não queria ser tratado com honoríficos como "shi", que eram utilizados quando não se tinha intimidade com as pessoas, mas de alguma maneira Meng Shan ainda queria saber o que ele faria se fosse tratado daquela maneira. Bem, foi Zhang Qian quem o chamou de "pequema lótus" primeiro.

- Aigoo, jiejie, você realmente é... - Zhang Qian não terminou sua fala, ele acabou olhando para os olhos de Meng Shan e, por um momento, imaginou uma coloração mais dourada naqueles penetrantes olhos pretos e aquilo fez seu coração vacilar. Por sorte, sua tontura não veio, mas uma ideia surgiu em sua mente. Ele desenrolou a fita de seus dedos e de seu pulso, depois de analisar que se a prendesse com o botão que existia no final do tecido, formava-se o desenho de uma guqin azul. Era um desenho simples bordado, mas era magicamente bonito. Ele caminhou até Meng Shan, que ainda o olhava esperando que ele terminasse sua frase, com as mãos esticando o tecido da fita. A diferença de altura dos dois não era tanta, mas Zhang Qian ainda precisou ficar levemente na ponta dos pés enquanto passava suas mãos e a fita pelos ombros da mulher, erguendo um pouco os braços para colocar a fita do jeito correto na testa de Meng Shan. Ele deu dois nós, e deixou suas mãos caminharem por todo o tecido que sobrava até a ponta, no final cruzando os braços e os repousando cada um em um ombro da mulher. - Agora sim, você está do jeito que eu te conheci, apesar de ter me visto tocar flauta para uma caixa de papelão, hehe. Aliás, jiejie... - Zhang Qian chegou lentamente perto do ouvido de Meng Shan, e sussurrou: - ... Me chame de Zhang-didi.

Meng Shan estava totalmente estática, aquilo era realmente verdade?! Zhang Qian estava tão, tão, tão próximo de si e de seu rosto, era possível sentir o ar quente saindo de suas narinas e era possível sentir seu hálito! Talvez Meng Shan estivesse num surto interno, e mais uma vez ela estava a agradecer algo: que o corpo de Zhang Qian não estava grudado ao seu, pois se estivesse seria impossível o outro não sentir as batidas de seu coração retumbando feito louco. Mas infelizmente para ela, não era só o coração que revelava as coisas que ela escondia em si, haviam coisas em seu ser que não haviam mudado nem mesmo depois de uma reencarnação e deste modo suas orelhas estavam ficando vermelhas como um pimentão! Agora ela tinha que torcer muito para que o mais alto não notasse aquele pequeno detalhe, ela tinha certeza que mesmo Zhang Qian não tendo recordações do passado, ele entenderia o que raios estava acontecendo ali.

Tarde demais para ela, Zhang Qian já tinha visto.

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