JÉSSICA
São Paulo, Brasil, maio de 2017.
Eu acreditava cegamente ter encontrado o amor da minha vida em Lucas. Estávamos juntos há 10 anos, compartilhando sonhos, segredos e planos para o futuro. No entanto, nos últimos meses, algo parecia diferente. Lucas estava mais distante, menos atencioso e sempre inventava desculpas para não passar tempo comigo. Em uma tarde ensolarada, enquanto eu estava no trabalho, minha amiga, Elena, começou a agir de maneira estranha ao meu redor. Finalmente, com hesitação, Elena acabou revelando que tinha visto o homem que eu amava em um restaurante. Ele estava em um encontro romântico com outra mulher na noite anterior. O choque me atingiu como uma avalanche, deixando-me em estado de choque e com o coração partido. Eu nunca poderia ter imaginado que Lucas seria capaz de me trair dessa maneira. O que começou como uma suspeita vaga agora era uma verdade dolorosa, despedaçando nossa história de amor em pedaços. Enquanto absorvia a traição, lembrei-me de momentos felizes compartilhados com Lucas, o brilho em seus olhos quando me olhava e as promessas sussurradas ao vento.
Cada detalhe da nossa vida juntos parecia agora uma farsa cruel, uma peça de teatro onde eu era a única que não sabia o roteiro. Meu coração doía não apenas pela traição, mas pela perda de confiança e pela incerteza sobre o que mais poderia estar escondido por trás da fachada de amor que construímos juntos. O que parecia ser uma jornada de amor eterno agora se transformava em um labirinto de desilusão e dor. Como poderiam todas essas memórias serem manchadas por uma única traição? Como seguir em frente quando a base da minha vida desmoronou tão repentinamente? Essas perguntas ecoavam em minha mente enquanto eu tentava processar a cruel realidade que agora enfrentava. Eu não conseguia acreditar no que havia descoberto, estava tão chocada e com o coração partido que mal conseguia conter as lágrimas.
Naquele momento, decidi que iria confrontar Lucas quando ele chegasse do trabalho, esperando que tudo não passasse de um grande mal-entendido. Mas além da confrontação, eu sabia que precisava de respostas, precisava entender como algo tão sólido como o nosso amor havia se desintegrado tão rapidamente. A incerteza e a dor eram esmagadoras, mas eu estava determinada a descobrir a verdade, mesmo que isso significasse encarar o fim de uma história que eu acreditava ser eterna. Assim que acabou o expediente, sequer fui à minha casa para o merecido descanso. Já que estava ansiosa demais, resolvi ir direto até a casa dele. Haviam passado cerca de três horas desde que o expediente dele tinha encerrado, mas não havia sinal de vida dele. Então, decidi enviar uma mensagem:
"Oi, já saiu do trabalho?"
"Já sim, estou em casa, acabei de tomar banho, mas tenho que voltar na empresa, hoje teremos uma reunião importante!" - ele respondeu.
Ao ler a mensagem, um turbilhão de emoções tomou conta de mim. A desconfiança cresceu ainda mais. Por que ele mentiria sobre estar em casa? E por que precisaria voltar à empresa tão tarde para uma reunião de última hora? Cada palavra dele agora parecia uma faca cravada em meu coração já dilacerado. A incerteza e a dor se misturavam, deixando-me ainda mais vulnerável à traição que se desenrolava diante dos meus olhos. Com mãos trêmulas, digitei uma resposta, tentando disfarçar a tempestade de emoções que fervilhava dentro de mim:
"Entendi. Espero que a reunião corra bem. Nos falamos depois..."
Meu coração estava afundado sob o peso da desilusão, e a resposta de Lucas só aumentou minha angústia. Suas desculpas pareciam frágeis, como se ele estivesse tentando esconder algo além de uma simples reunião de trabalho. Cada palavra trocada entre nós era como um cabo de guerra entre a verdade e a mentira, e eu me encontrava no meio do campo de batalha, sem saber em quem confiar. O tempo parecia estagnar enquanto eu lutava para entender o que estava acontecendo. Uma voz dentro de mim sussurrava que algo estava errado, que eu precisava cavar mais fundo para descobrir a verdade. No entanto, uma parte de mim ainda resistia, temendo o que poderia descobrir se investigasse mais. Enquanto esperava por sua chegada, senti-me enredada em um labirinto de incertezas, sem saber qual caminho seguir. Mas uma coisa era certa: eu não podia mais ignorar os sinais que indicavam que algo estava terrivelmente errado em nosso relacionamento.
Na minha intuição, eu sabia que nada mais seria como antes. O que eu pensava ser o amor da minha vida agora se revelava como uma cruel mentira, e o futuro que planejamos juntos desmoronava diante dos meus olhos. Ele estava mentindo descaradamente para mim. Apesar de tudo, resolvi permanecer no local. Eu estava exausta, com fome e sede, mas isso não me impediu de ficar firme à espera dele. Trinta minutos haviam passado desde que ele havia mandado a mensagem. Respirei fundo quando vi Lucas se aproximando, mas ele não estava sozinho; estava de mãos dadas com uma mulher extraordinariamente bonita, um fato que não pude ignorar.
Ao se aproximar da calçada, Lucas pareceu assustado ao me ver e hesitou por um momento, mas já era tarde demais para esconder o que estava tão evidente. Ele pediu que a mulher se retirasse, mas eu a impedi:
- Não precisa ir, moça. Minha conversa com ele será breve! - Limpei discretamente os cantos dos olhos, os vestígios de lágrimas ameaçando cair. A mulher, por sua vez, permaneceu calada e de cabeça baixa.
Havia uma tensão palpável no ar, e eu sabia que precisava enfrentar a situação de frente, por mais doloroso que fosse. No entanto, ainda havia mais por vir. Enquanto tentava reunir coragem para confrontar Lucas, a mulher de mãos dadas com ele finalmente ergueu o olhar. Seus olhos encontraram os meus, e algo no fundo deles acendeu uma chama de reconhecimento. Era como se já nos conhecêssemos, como se houvesse uma história não contada entre nós. Aquilo só adicionou mais confusão ao turbilhão de emoções que eu já estava enfrentando.
- Quem é ela, Lucas? - Minha voz saiu firme, embora por dentro eu estivesse em pedaços. O silêncio se estendeu por um momento, antes que ele finalmente soltasse a mão da mulher e desse um passo em minha direção.
- Precisamos conversar, Jéssica. É complicado... - sua voz vacilou, e eu senti uma pontada de raiva se misturar à tristeza em meu peito.
- Não me venha com desculpas esfarrapadas, Lucas. Eu mereço saber a verdade, não importa o quão difícil seja para você dizê-la.
O momento de confronto estava se aproximando, e me preparei para encarar o que quer que viesse a seguir, mesmo que isso significasse o fim daquilo que eu acreditava ser o amor da minha vida.
- Vamos conversar com calma. Eu realmente estou tendo um caso com a Débora, mas tudo isso é sua culpa. Sejamos honestos aqui, estamos juntos há mais de dez anos e até hoje eu sequer toquei em você. Eu sou homem, Jéssica, eu tenho minhas necessidades de homem.
- Há 10 anos atrás, quando a gente começou a namorar, eu te expliquei que só teria uma vida sexual ativa após o casamento e você concordou com isso. Por que concordou se sabia que seria incapaz de esperar? Por que não se casou comigo? Você teve várias oportunidades de me pedir em casamento, mas sempre me enrolou! Deveria simplesmente ter terminado a relação e não se prestar a esse papel ridículo. - Suspirei. - Bom, acho que terminamos aqui, nossa história acaba agora!
Dei um passo à frente e Lucas entrou na frente da mulher que o acompanhava, a protegendo, temendo que eu fizesse algo a ela.
- Estou profundamente arrependido de ter feito isso com você, realmente deveria ter terminado antes. Eu sou culpado por minhas ações, a Débora nem sabia sobre a gente, não tem que brigar com ela! - Ele coçou a cabeça.
- Eu, brigar por você? Está se achando demais, Lucas. Débora, se eu fosse você, não confiaria totalmente nele, dizem que quem trai uma vez sempre será um traidor. Desejo boa sorte pra vocês! - Respirei fundo, com um misto de resignação e desdém.
- Nenhum homem em sã consciência vai aceitar seu conservadorismo. Vê se não dificulta a vida das pessoas daqui por diante. - Lucas gritou, suas palavras ecoando no ambiente, enquanto eu me afastava com determinação, deixando para trás um turbilhão de emoções.
A troca de palavras entre nós era como uma tempestade, cada acusação e justificativa colidindo no ar carregado de tensão. Eu sentia meu coração pesando com a carga da traição e da decepção. Aquelas palavras pareciam punhais cortando ainda mais fundo minha alma ferida. Entre lágrimas e perguntas sem respostas, minha saída foi marcada por um silêncio pesado, rompido apenas pelo som do meu coração partido, mas também sentia uma chama de autoafirmação ardendo dentro de mim. A situação era como um vendaval que arrastava os escombros do nosso relacionamento. Cada palavra lançada era uma gota de chuva, intensificando a tormenta emocional que nos envolvia. O peso da traição e da desilusão era avassalador, quase tangível no ar carregado. Me vi mergulhada em um turbilhão de sentimentos contraditórios, lutando para encontrar o equilíbrio entre a dor e a necessidade de seguir em frente. Enquanto me afastava, percebi que o vento frio da noite soprava minhas lágrimas secas, como se o próprio universo estivesse me encorajando a continuar. Era um momento de despedida, mas também de libertação.
O futuro era incerto, mas pela primeira vez em muito tempo, sentia-me pronta para enfrentá-lo com coragem e determinação. Apesar da dor, encontrei uma força interior que não sabia que possuía. Era hora de deixar para trás não só o homem que eu amava, mas também a ilusão de quem pensava que ele era. Com uma mistura de dor e determinação, dei os primeiros passos rumo à reconstrução de mim mesma. Cada passo parecia uma batalha, mas eu sabia que era necessário seguir em frente. Eu estava despedaçada, mas minha força interior me ajudou a tomar aquela decisão difícil. Naquele instante, percebi que merecia alguém que me valorizasse e me respeitasse por completo. À medida que me afastava daquela casa, deixava para trás não apenas um relacionamento tóxico, mas também todas as expectativas e ilusões que o envolviam. Enquanto seguia meu caminho, prometi a mim mesma que, apesar das cicatrizes emocionais, emergiria dessa provação mais forte, mais sábia e mais resiliente. Sabia que não seria fácil, mas com o passar dos dias, me reconstruiria. Estaria me fortalecendo pela experiência.
A traição de Lucas foi um capítulo difícil em minha vida, mas aprendi que o amor-próprio tinha que estar em primeiro lugar e que merecia um parceiro que compartilhasse seus valores de confiança e respeito mútuo. Com lágrimas nos olhos, fui embora da casa dele e comecei um processo de cura e auto-descoberta. Enquanto as memórias dolorosas ecoavam em minha mente, também surgia uma determinação renovada. Sabia que estava embarcando em uma jornada árdua, mas também sabia que valeria a pena. Pois, ao atravessar esse período de escuridão, eu emergiria mais forte e mais autêntica do que nunca. E assim, com cada passo firme em direção à minha própria cura, eu me comprometi a honrar a mulher que eu era, e a abraçar o futuro com a esperança renovada de dias mais luminosos e relacionamentos mais genuínos. Era o momento de redescobrir minha identidade, longe das sombras do passado, e de abraçar o futuro com esperança e coragem.
Quatro meses depois, setembro de 2017.
Era uma noite de terça-feira, e eu estava exausta após um longo dia na empresa. Infelizmente, esse cansaço só aumentou quando percebi que havia perdido três preciosas horas esperando por um rapaz com quem tinha um encontro marcado. No entanto, o encontro revelou-se frustrante; não tínhamos absolutamente nada em comum. Decidi que precisava dar um jeito de me livrar dele. Levantei-me da mesa e dirigi-me ao banheiro do restaurante, andando de um lado para o outro enquanto tentava contato com minha amiga, Elena. Por infelicidade, minhas inúmeras ligações foram todas direcionadas para a caixa de mensagens.
Mesmo frustrada, deixei um recado para ela: "Você tem cinco minutos para me tirar dessa enrascada em que me colocou. Eu nem sei por que insiste em me obrigar a sair com alguém. Estou muito bem sozinha. Ele e eu não temos nada em comum." Ao terminar de falar e olhar para trás, percebi que o rapaz com quem estava acompanhada estava imóvel atrás de mim. Ele não disse nada, apenas deixou o dinheiro para pagar seu consumo e saiu. Um sorriso irônico se formou entre meus lábios. "Pelo amor de Deus, ele ouviu tudo que eu disse!", ponderava, enquanto esfregava as têmporas. Eu me sentia péssima pelo que acabara de acontecer, mas talvez tenha sido melhor assim.
Para distrair a mente, decidi passar em um barzinho próximo e tomei algumas doses de destilados, com o intuito de me livrar da tensão que estava sentindo. Eu não tinha o costume de beber com muita frequência, mas era meu primeiro encontro depois do rompimento com Lucas e, por mais inacreditável que parecesse, aquele rapaz não era compatível comigo. A química entre nós não aconteceu e a conversa não fluiu de forma alguma. "Talvez eu esteja sendo exigente demais", refleti, enquanto a bebida forte descia ardendo pela minha garganta. Eu havia acabado de completar meus 25 anos e concluído a faculdade, uma conquista alcançada com muito esforço e dedicação.
No entanto, antes disso, enfrentei uma grande decisão ao abandonar o curso de medicina, o que resultou em uma tremenda discussão com meu pai. Ele, uma figura proeminente no hospital mais conceituado da cidade, tinha altas expectativas de que eu seguiria seus passos. No entanto, optei por trilhar meu próprio caminho, seguindo minha paixão e buscando realização pessoal. Apesar de ser brasileira de nascimento, eu frequentava bastante a casa de uma tia casada com um homem de um país islâmico. A convivência diária com seus costumes proporcionou-me uma perspectiva diferente entre seu mundo e o meu. Para visitá-los, precisava me vestir de forma semelhante a eles para entrar na casa, uma exigência do meu então tio, à qual jamais ousei questionar.
Por precaução, evitava sempre usar roupas muito ousadas e mantinha um véu na bolsa para cobrir o rosto no caso de decidir visitá-los de forma repentina. Essas pequenas adaptações tornaram-se parte da minha rotina e uma demonstração de respeito pela cultura e tradições da família de minha tia. Essa convivência teve um profundo impacto em minha vida. Minha tia sempre enfatizava que a mulher deveria ser virgem para se casar e que era um grande pecado realizar o ato sexual fora do casamento. Essas palavras se tornaram uma regra rígida que eu seguia rigorosamente, tanto que acabaram sendo o motivo da traição do meu ex-namorado e do término do nosso relacionamento. Essa divergência de valores e expectativas causou um conflito interno que me fez questionar minhas crenças e as influências culturais que moldaram minha visão sobre relacionamentos e sexualidade.
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"Será que realmente sou culpada por ter sido traída? De jeito nenhum, ele é quem não tem caráter! Céus, ainda estou com meu ego ferido!", pensei.
- Talvez eu deva cometer a loucura de sair com o primeiro homem que aparecer na minha frente! - Murmurei, buscando uma explicação sensata para a traição que sofri.
A mistura de raiva, decepção e vulnerabilidade era compreensível diante da dor causada pela traição e pelo rompimento do relacionamento. Enquanto refletia sobre esses acontecimentos, percebia como as crenças e valores que absorvi da convivência com minha tia e seu marido islâmico influenciaram minhas escolhas e perspectivas. A ideia de pureza e fidelidade antes do casamento era algo profundamente enraizado em mim, mas agora, eu me via confrontando essas ideias em meio à realidade de um mundo mais complexo e diverso. A traição que experimentei foi um choque de realidade, uma ruptura dolorosa com as expectativas que eu havia internalizado.
Este momento de questionamento e auto descoberta estava me levando a repensar não apenas meu relacionamento passado, mas também as normas e valores que regiam minha vida e minhas escolhas. Era um processo doloroso, mas também transformador, que me empurrava para uma jornada de autoconhecimento e redefinição de minhas próprias convicções e desejos.
- Posso te pagar uma bebida? - Perguntou um senhor, com uma idade bastante avançada. Em sua boca faltavam alguns dentes, e sua expressão era marcada por rugas profundas. Uma careta imensa se formou no meu rosto ao me lembrar do que havia acabado de falar.
"Ah, que azar. De jeito nenhum irei sair com esse velho!" Pensei. A ironia do momento não passou despercebida enquanto refletia sobre as próprias palavras e as circunstâncias que me levaram a tais pensamentos.
- Ah não, obrigada. Já bebi o suficiente hoje! - Arqueei a sobrancelha, tentando disfarçar o desconforto. O idoso me analisou dos pés à cabeça e, após um período significativo, resolveu se afastar, desistindo de sua abordagem.
Um toque meloso e irritante havia iniciado no meu celular. Encarei a tela, forçando os olhos para enxergar melhor, e notei o nome da minha amiga, Elena, escrito nela.
- Jéssy, onde você está? - Ela perguntou assim que atendi a ligação.
- Estou no barzinho perto de onde trabalhamos! - Suspirei, sentindo-me exausta da situação.
- Eu não acredito que você estragou o encontro que consegui pra você. O rapaz é de uma ótima família! - Elena vociferou, e sua expressão desapontada era palpável através da ligação. Sua frustração era compreensível, considerando o esforço que ela havia feito para arranjar o encontro.
- Eu não tenho culpa. Não dá para ficar com alguém que nem sabe conversar direito. Na verdade, a culpa disso é toda sua, não ouse inventar de arranjar outro encontro pra mim! - Minhas pálpebras começaram a se mexer sozinhas, indicando que meu nível de estresse estava altíssimo. - Parece que ficar sozinha já virou parte do meu cotidiano, e eu prefiro continuar assim. Nem sei se consigo confiar em algum homem de novo. Estou indo para casa, assim que chegar eu te ligo! - Encerrei a chamada, levantei-me da banqueta onde estava sentada, peguei minha bolsa e bebi o restante do líquido caramelo que havia no fundo do copo. A sensação de desilusão e desamparo era avassaladora, mas eu precisava lidar com ela antes de tomar qualquer decisão precipitada.
Então, me deparei com a tela do celular, onde uma mensagem automática alertava: "Seu aluguel vencerá amanhã." - Um longo suspiro escapou dos meus lábios enquanto revirava os olhos ao término da leitura. Era apenas mais uma cobrança para se juntar à minha crescente coleção. Havia deixado a casa dos meus pais há cerca de quatro anos, após uma terrível discussão com meu pai. Nos últimos dias, estava enfrentando consideráveis dificuldades para quitar minhas dívidas. Embora pudesse pedir ajuda aos meus pais, meu orgulho me impedia de me humilhar diante deles, especialmente sabendo que também enfrentavam suas próprias dificuldades diárias.
Eu caminhava em direção à saída, com os olhos praticamente grudados na mensagem que havia recebido, quando, de forma repentina, acabei trombando com algo ou alguém. Fui arremessada com força, voando uma longa distância. O celular que segurava voou para longe e pude ouvir o estrondo que ele fez ao se chocar contra o solo.
Um líquido gelado molhou minha roupa, deixando-a grudada ao corpo. Uma dor latejante surgiu em minha testa, onde a bati na quina da mesa.
- Será que tem como ficar pior? - Resmunguei, enquanto massageava a área dolorida da testa.
Olhei ao redor, tentando entender o que tinha acontecido. Minha visão estava turva por um momento, mas logo percebi que havia colidido com uma pessoa. Aproveitei que já estava caída e estiquei minhas costas sobre o piso gelado. Fechei meus olhos por um instante e contei mentalmente de um a dez, em uma tentativa frustrante de conseguir me recompor. Eu estava consideravelmente embriagada, contudo, já não sabia se era por conta da bebida ou da pancada que havia acabado de receber. Para toda direção que olhava, tudo parecia estar girando. Meus olhos encontraram um rosto, parado acima de mim. Era um homem. Um homem muito bonito, por sinal. O corte dos seus cabelos estava em dia. Ele me encarava e gesticulava algo com a mão, tentando fazer com que eu olhasse para ele.
Virei meu rosto para o lado, queria apenas encontrar meu celular que havia perdido e sequer tinha terminado de pagar as prestações. O homem, por sua vez, permaneceu imóvel, com sua face atrativa bem acima da minha. Ele estendeu sua mão, sinalizando ajuda para me levantar. Depois de ponderar por alguns segundos, acabei aceitando sua oferta. Ele me puxou junto ao seu peito, e pude sentir a fragrância de uma colônia magnífica invadindo minhas narinas. Seus cabelos e olhos negros eram extremamente marcantes, fazendo com que eu me perdesse na intensidade do seu olhar. Sua barba acrescentava um charme incomum. Vestindo um suéter preto que contrastava com seus olhos negros, ele estava fatalmente atraente. Seu hálito fresco de menta parecia chamar pelos meus lábios, e naquele momento, eu só queria poder beijá-lo.
Em pouco tempo, pude notar seus traços distintos com mais detalhes, desde seus olhos expressivos até a mandíbula marcante e o sorriso carismático que adornava seus lábios. Sua presença atlética e postura confiante contribuíam ainda mais para o charme que o envolvia. Era como se ele irradiasse um magnetismo irresistível, deixando-me hipnotizada por sua aura sedutora. Naquele instante, algo dentro de mim alertava para a possibilidade de que aquele encontro não era mera coincidência. Uma sensação estranha de familiaridade começava a emergir, como se houvesse algo mais profundo ligando-nos além do acaso de nos encontrarmos naquele momento e lugar. Era como se nossos destinos estivessem entrelaçados de alguma forma, ainda que eu não conseguisse compreender completamente o que isso significava naquele momento de surpresa e encanto.
- Você está bem? Se machucou? - O homem perguntou ao me ajudar a levantar.
- Acho que sim! - Passei a mão sobre um galo enorme que tinha surgido na minha testa. - Ai! - Dei um pequeno grito de dor.
- Sente-se aqui, vou buscar gelo para colocar nisso! - Ele puxou uma cadeira e me sentei.
O homem se afastou e meus olhos percorreram cada centímetro do piso, procurando pelo celular que havia escapado da minha mão. Minha mente só conseguia pensar nas malditas parcelas que ainda faltavam para pagar.
- Está procurando por isso? - Ele retornou e balançou o celular na minha frente, e um enorme alívio me dominou.
- Ufa, pensei que alguém tivesse pego ele! - Suspirei aliviada. - Ainda nem terminei de pagar! - Peguei o aparelho e percebi que a tela estava danificada, não conseguindo ver mais nada além de uma imagem branca misturada com algumas cores. - Ah, não! - Lamentei desanimada.
- Quebrou? - Ele entregou-me um saquinho com gelo e retirou o aparelho da minha mão para verificar. - Pressione o gelo contra a testa! - Ordenou, enquanto observava atentamente o celular.
- Parece que sim. Vou ter que comprar outro. - Peguei o aparelho de volta.
- O que faz aqui sozinha? É tarde para uma moça andar por aí sem companhia! - Ele arqueou a sobrancelha.
- Bom, eu estava em um encontro, mas acabei afastando o rapaz. Então, já pode imaginar o motivo de eu estar sozinha! - Estreitei os olhos.
- Essa pessoa é bastante insensata pelo visto! Eu não deixaria uma moça tão bonita quanto você na mão, nem que você me obrigasse! - Sorriu de canto e sentou-se ao meu lado.
- Não precisa exagerar para me fazer sentir melhor! - Sorri discretamente, estava bastante acanhada. - A culpa foi toda minha. Eu queria me livrar dele. De qualquer forma, a parte chata é que ele acabou escutando o recado que deixei para minha amiga, pedindo para ela me tirar da enrascada que me colocou, pois, foi ela quem arrumou toda essa dor de cabeça para mim! Sabe o que é mais engraçado? Eu estava tomando uma dose de uísque com os últimos trocados que tinha na minha bolsa e falei pra mim mesma que cometeria a loucura de sair com o primeiro homem que conversasse comigo. Consegue imaginar quem foi esse homem? - Perguntei e ele engoliu em seco.
- Fui eu? - Balbuciou, com os olhos arregalados.
- Se fosse você, eu sairia no lucro. Foi aquele senhor sem dentes, bem ali! - Apontei na direção do homem que havia oferecido bebida antes.
- Huh, até que ele é bonitinho! - Segurou-se para não rir.
- Eu fui traída, mantive um relacionamento de dez anos com um homem que eu jurava que era o amor da minha vida. Hoje completaríamos onze anos juntos. Ele foi meu primeiro amor, nunca imaginei que ele teria coragem de me trair! - Limpei as lágrimas que caíram dos meus olhos com o dorso da mão.
- Sinto muito por isso. Já passei por algo parecido, posso dizer que a dor parece incurável, no entanto, vai chegar o momento em que você vai se curar. O processo é lento, mas acredite que você vai conseguir! E você sabe dizer por qual motivo ele fez isso? - Notava-se que ele era bastante empático.
- Por não ter cedido a ele momentos íntimos. Ele disse que sou conservadora demais! - Suspirei, sentindo um misto de frustração e indignação.
- Vocês estavam juntos há quantos anos? - Arregalou os olhos, demonstrando surpresa diante da revelação.
- Dez anos. - grunhi, com um peso evidente na voz, consciente do tempo investido na relação.
- Caramba, estou tentando processar essa informação! - Coçou a cabeça, mostrando perplexidade diante da situação inusitada.
- Sei que é espantoso, mas sempre deixei claro para ele que só desfrutaríamos momentos assim depois do casamento. O cretino sequer me pediu para casar com ele. Talvez eu possa vender a minha virgindade e ganhar uma grana com isso, já que ouvi falar que isso é muito valorizado. Meu Deus, que loucura! Estou falando sobre a minha intimidade com um homem que eu nem conheço! - Revirei os olhos, refletindo sobre as possibilidades absurdas que passavam pela minha mente.
- É culpa do álcool, sabia? Mas sugiro que não faça algo que possa se arrepender depois. Você parece prezar bastante pela sua integridade, não jogue isso fora, poucas mulheres têm essa áurea! - Ele me encarou, sua expressão era séria e ponderada.
Eu refleti sobre suas palavras, percebendo a sabedoria por trás delas. Aquela conversa franca com um estranho, ainda que regada a álcool, estava me proporcionando uma nova perspectiva sobre a situação. Agradeci silenciosamente por sua compreensão e apoio, mesmo que ele fosse apenas um breve encontro em meio ao caos da minha vida.
- Pode ser culpa da pancada que levei na testa também! - Arqueei a sobrancelha e ele acabou rindo. - Fico agradecida pelo conselho, você tem toda razão. Você é de onde? Seu jeito de falar é um pouco diferente! - Comentei, buscando uma distração leve da situação.
- Eu morava nos Estados Unidos. Me mudei pra cá há cerca de cinco meses. - Sorriu de canto, revelando um traço de nostalgia em seu olhar.
- O que te fez vir pra cá? Mulheres ou negócios? - Acabei perguntando sem pensar, deixando escapar uma curiosidade indiscreta.
- Sem dúvidas vim a negócios, em breve irei inaugurar uma filial da minha empresa, e também pelo fato de ser o país onde nasci! - Explicou, enquanto bebericava a bebida que segurava, revelando um misto de orgulho e determinação em suas palavras.
- Nossa, isso é incrível, desejo boa sorte com a sua nova jornada! Bom, a conversa está boa, mas preciso ir embora! Amanhã tenho que trabalhar! - Coloquei o saquinho com gelo sobre o balcão, preparando-me para me despedir.
- Fique mais um pouco, te pago um refrigerante ou um suco! - Ele piscou, tentando prolongar nosso encontro.
- A sua oferta é tentadora, mas eu realmente tenho que ir. Não posso nem sonhar em faltar ao trabalho, estou atolada, praticamente me afogando nas dívidas! - Suspirei, sentindo o peso da responsabilidade financeira sobre meus ombros.
- Isso parece ser ruim! - Ele murmurou, expressando empatia diante da minha situação.
- Na verdade é péssimo! - Grunhi, resignada com a realidade difícil que enfrentava.
- Posso imaginar. Mas olha, isso no seu rosto, achei bastante charmoso e atrativo! - Ele colocou seus dois dedos indicadores nas covinhas que possuíam nas minhas bochechas, com um sorriso sincero nos lábios.
- Esse sem dúvidas foi o elogio mais estranho que já me falaram! - Coloquei a bolsa sobre o ombro, ainda processando o comentário inusitado. - Foi bom falar com você, a gente se vê por aí! - Levantei-me e passei pela porta de saída, pronta para seguir em frente.
Após caminhar alguns passos pela rua, aproximadamente meio quarteirão, uma voz conhecida rompeu o ar, chamando-me por: "Moça!" Os chamados se repetiram algumas vezes, ecoando suavemente, até que finalmente parei e me virei para trás, deparando-me com o dono daquela voz conhecida. Seus olhos atentos estavam fixos em mim, transmitindo uma mistura de curiosidade e reconhecimento.
- Isso aqui pertence a você? - ele ergueu um pequeno estojo de maquiagem, e imediatamente reconheci o objeto.
- Sim, é meu. Muito obrigada! Essa coisinha me custou uma fortuna, e ainda estou pagando por ela! Deve ter caído da minha bolsa durante aquele momento da colisão! - Peguei o estojo com gratidão, apreciando sua gentileza em devolver o objeto perdido.
- Que bom que encontrei, não é? - Ele liberou um sorriso reconfortante. - Posso saber seu nome? - Passou os dedos entre os cabelos, demonstrando interesse genuíno.
- É Jéssica! - Murmurei, sentindo-me um pouco envergonhada com a atenção repentina.
- Muito prazer, eu sou o Henry! - Ele pegou minha mão delicadamente, levou-a até seus lábios e depositou um leve beijo que me causou arrepios. - Fique com isso, vamos manter contato! - Henry entregou um cartão de visitas com elegância, dando uma breve piscada antes de se dirigir de volta ao bar onde estava.
Assim que ele desapareceu na entrada do bar, segurei o cartão de visitas entre os dedos, observando os detalhes impressos nele. O nome "Henry Morales" em fonte elegante e um número de telefone abaixo, acompanhado por uma breve descrição de sua profissão e empresa. Por um momento, me peguei sorrindo, agradecida pelo encontro inesperado. Talvez não fosse apenas mais uma noite comum após tudo. Talvez houvesse algo de especial no ar, algo que poderia mudar o curso das coisas para melhor.
Com o coração um pouco mais leve, guardei o cartão na bolsa e continuei meu caminho pelas ruas silenciosas da cidade, sentindo uma nova esperança florescendo dentro de mim. Talvez, apenas talvez, aquele encontro fosse o começo de algo significativo em minha vida. A caminhada para casa foi longa e exaustiva, já que não havia mais metrô rodando pela cidade.
JÉSSICA
Ao chegar, abri a porta e apertei o interruptor, com a intenção de acender a lâmpada, mas a mesma não acendeu. Caminhei no escuro, tentando encontrar outro interruptor, e o resultado foi o mesmo de antes: não havia energia em nenhum dos cômodos. Percebi que estava prestes a enfrentar uma noite longa e desconfortável. De imediato, procurei por uma vela na gaveta do armário da cozinha e, por sorte, encontrei uma que já estava pela metade. Acendi a pequena chama e rapidamente ela deu uma leve clareada no local. Após constatar que a chama não se apagaria, voltei até a porta para fechá-la, já que havia deixado aberta, e deparei-me com um bilhete que tinha sido colocado por baixo dela.
Segurei firme no papel e notei que era um aviso da companhia de energia. Um grande suspiro de derrota escapou por minha boca. Eu estava em maus lençóis; não conseguia mais manter o apartamento, restando apenas duas opções: voltar para a casa dos meus pais ou pedir moedas no semáforo. "Por incrível que pareça, a segunda opção seria bem mais viável pra mim. Meu Deus, vou acabar morrendo de fome!" Ponderava, sentindo o peso das circunstâncias em meus ombros. As preocupações com o futuro imediato pareciam esmagadoras, deixando-me sem rumo diante das dificuldades.
Eu poderia tentar fazer algumas horas extras no trabalho, entretanto, não seria suficiente para acabar com todas as dívidas e o fato de ser apenas uma estagiária também se tornava um grande empecilho. Livrei-me dos sapatos que estavam em meus pés e me joguei sobre o sofá. Eu estava exausta e preocupada, então resolvi ligar o notebook que ainda restava um pouco de bateria para acessar meu e-mail; por sorte, a vizinha que morava no apartamento da frente emprestava o wi-fi dela. Logo deparei-me com a fatura do cartão de crédito:
- Mil e trezentos reais? - Gritei, chocada com o valor astronômico. - Eu não me lembro de ter gasto tudo isso! - Depositei um soco contra a almofada que estava sobre o sofá, frustrada com a situação. - Pagamento mínimo de setecentos reais? Ah, eu quero morrer! - Choraminguei, sentindo o desespero se apoderar de mim. - Meu Deus, me dê uma luz, meu salário não vai dar para pagar tudo isso. Talvez eu deva vender um rim! - Acabei cogitando a ideia, em um momento de desespero extremo.
Naquela noite, enquanto a chama da vela ainda iluminava o pequeno espaço ao meu redor, fiz um balanço mental de todas as possibilidades que se estendiam diante de mim. Estava diante de uma situação delicada, e era crucial encontrar uma solução rápida e eficaz antes que as consequências se tornassem ainda mais graves. Após alguns segundos de hesitação, respirei fundo e peguei o maldito cartão que guardava na bolsa há dias. Corri até a gaveta do armário da cozinha e peguei uma tesoura, decidida a cortá-lo em pedaços. No entanto, ao encarar o cartão por uma eternidade, uma ideia repentina surgiu em minha mente. Antes de destruí-lo, decidi que precisava de um consolo imediato e, por algum motivo, a imagem de um pote de sorvete preencheu meus pensamentos.
Calcei um par de chinelos e saí determinada em busca de um pote de sorvete. Felizmente, havia um posto de combustível aberto 24 horas bem na esquina da rua onde morava. Com uma expressão abatida, adentrei a conveniência e peguei um pote de dois litros, no sabor de chocolate, enquanto tentava afastar os problemas que me assombravam temporariamente. Ao retornar para casa, deparei-me com uma cena inesperada. Havia movimento no apartamento ao lado do meu, indicando que alguém estava se mudando. Mesmo achando estranho o horário escolhido para a mudança, decidi não me preocupar com isso naquele momento, focando minha atenção apenas no sorvete que prometia ser um alívio para minhas aflições.
- Nossa, a dona Yunna se mudou e eu nem fiquei sabendo? Que estranho! - Murmurei para mim mesma, surpresa com a mudança inesperada da vizinha. Antes de entrar em meu apartamento, porém, senti um toque em meu braço.
- Você é Jéssica Torres? - Perguntou um senhor engravatado de origem asiática, segurando uma caixa grande de papelão. Um nó se formou em minha garganta, temendo que fosse o momento do meu despejo.
- Sim, sou eu. - respondi, num murmúrio.
- Sou Yosuke, filho mais velho da Yunna que morava aqui ao lado. Ela faleceu recentemente e deixou um item para você. Minha mãe estava muito doente e parecia saber que iria morrer. Ela deixou um bilhete colado em cada item, com os nomes das pessoas que ela desejava presentear!
- Eu não acredito, quando ela faleceu? Eu nem fiquei sabendo de nada! - Proferi as palavras chocada com a informação, sentindo-me desconectada dos acontecimentos ao meu redor.
- Faz cerca de uma semana. Vim ao seu apartamento algumas vezes, mas não te encontrei. Por sorte, te encontrei agora. Vim pegar o restante das coisas enquanto o novo morador está se mudando, e trouxe o objeto que ela deixou pra você! - Disse ele, retirando da caixa um pequeno saco de tecido ornamentado, feito de seda, com um cordão colorido. O saco estava revestido com um plástico e continha um pequeno pedaço de papel escrito: "Jéssica, vizinha do apartamento 202".
- O que seria isso? - Franzi o cenho, curiosa com o objeto misterioso.
- Um amuleto japonês. Dizem que é para proteção e sorte, conhecido como "Omamori". - Ele explicou, enquanto eu tomava o objeto leve como uma pena em minhas mãos, examinando-o com cautela.
- Obrigada, mas não entendo porque ela deixaria algo para mim. A gente apenas se cumprimentava! - Expressei minha perplexidade com o gesto inesperado da falecida vizinha.
- Ela sempre dizia que você era uma jovem muito educada, que sempre a ajudava com as sacolas de compras! - Yosuke sorriu, compartilhando uma lembrança reconfortante da interação entre nós.
- Eu agradeço mais uma vez. Espero que a família possa superar a grande perda que tiveram! - Murmurei, desejando conforto para a família enlutada, enquanto observava o rapaz se afastando com a caixa nos braços.
Passei a chave na tranca da porta, coloquei o objeto misterioso sobre o sofá e corri até a cozinha em busca de uma colher. Cada colherada que dava no pote de sorvete trazia consigo uma sensação mista de conforto e melancolia. Enquanto o sabor do sorvete se espalhava pela minha boca, as lágrimas teimavam em escorrer pelos meus olhos, fruto da pressão das dívidas que pareciam se acumular como uma tempestade prestes a desabar sobre mim.
- Bom, pelo menos consegui comer um pote de sorvete sozinha! - Tentei encontrar um pouco de humor na situação, mesmo que fosse uma risada forçada para afastar momentaneamente a tensão que me cercava.
No entanto, por mais que tentasse me distrair com o sorvete, as preocupações continuavam a martelar minha mente sem trégua. Pensava em mil e uma maneiras malucas de resolver meus problemas financeiros, desde buscar oportunidades de trabalho extra até realizar cortes drásticos nos gastos do dia a dia. Cada colherada era uma tentativa de afogar não apenas o sabor doce e gelado do sorvete, mas também as amarguras que me assolavam.
Enquanto o aroma envolvente do sorvete preenchia o ambiente, meus olhos vagaram pelo cômodo até se fixarem no violoncelo encostado no canto de um armário no corredor entre o quarto e a sala. Havia anos desde a última vez que eu o toquei, e as lembranças de melodias apaixonadas e notas ressonantes ecoaram em minha mente, despertando uma mistura avassaladora de nostalgia e intento. Deixei o pote de sorvete sobre o sofá, já que estava com preguiça de voltar à cozinha, e me levantei com um misto de nostalgia e empolgação. Ao deitar na cama, o peso das preocupações ainda era palpável.
As sombras dançavam nas paredes, refletindo meus pensamentos inquietos. A insônia me atingiu, fazendo-me revirar de um lado para o outro em busca de conforto. Decidi então me levantar e ir até a cozinha em busca de um copo d'água para acalmar minha agitação interior.
Peguei a pequena vela que estava acesa sobre um prato, sua luz fraca e suave iluminando o ambiente. Ao passar pela sala, me deparei com o amuleto delicado sobre o sofá, emanando uma energia serena e misteriosa que me intrigava profundamente. Aquela peça, deixada por minha falecida vizinha, parecia ter um significado especial e despertava em mim uma curiosidade crescente.
"Bom, pelo menos tem uma aparência agradável, a dona Yunna tinha bom gosto. Pobre dona Yunna, ainda não acredito que ela se foi!" Ponderava, deixando-me levar por um breve momento de contemplação sobre a história por trás daquele objeto. Após beber água e sentir um leve alívio, peguei o objeto e o levei para o quarto. Decidi pendurá-lo na cabeceira da cama, como uma espécie de guardião silencioso para afastar os pensamentos perturbadores que teimavam em assombrar minha mente durante a noite.
- Amuleto da sorte! - Sussurrei, encarando a peça com uma mistura de descrença e esperança. - Juro que eu só queria poder dormir como se não tivesse qualquer preocupação, como se não tivesse nenhuma dívida pendente! - Desabafei em voz alta, deixando escapar um suspiro pesado enquanto me deitava, a mente ainda agitada e inquieta.
Revirando-me de um lado para o outro na cama, as palavras ecoavam em minha mente, uma constante lembrança das obrigações não cumpridas e dos problemas que pareciam não ter solução. "Isso não vai funcionar! Talvez eu devesse subir no prédio mais alto dessa cidade e me jogar lá de cima, isso com certeza resolveria todos os meus problemas!", pensei, deixando-me levar por um momento de desespero e desesperança diante das dificuldades que pareciam insuperáveis. Me levantei e fiquei em pé diante da cômoda do quarto, a pequena chama da vela ainda lançando sombras dançantes ao redor. Encarei o anel de compromisso que estava sobre uma fotografia minha com o Lucas. Ainda guardava aquelas lembranças, não estava preparada para me livrar daquilo, mesmo sem compreender completamente o motivo de ainda manter aquele objeto entre meus pertences. A imagem na fotografia mostrava-nos sorridentes, capturando um momento de felicidade que agora parecia distante e irreal. O brilho do anel parecia mais opaco naquela noite sombria, refletindo a tristeza que se instalara em meu coração.
Cada vez que olhava para aquela foto, uma mistura de saudade e amargura preenchia meu peito, lembrando-me dos sonhos que tínhamos planejado juntos e que agora pareciam destroçados. Com um suspiro profundo, caminhei até a cozinha e coloquei o anel na lixeira, me livrei também da foto, e decidi voltar para a cama. A luz da vela continuava a dançar, como se tentasse me transmitir alguma mensagem de esperança, mas meus pensamentos estavam tão tumultuados que mal conseguia concentrar-me em algo positivo. A noite parecia se estender infinitamente, enquanto eu lutava contra a escuridão que ameaçava engolir minha esperança.
Respirei fundo, ciente de que estava enfrentando mais uma noite de ansiedade, uma companheira indesejada que parecia sempre à espreita quando as preocupações me assaltavam. Coloquei um casaco fino para me proteger do leve frio noturno e vesti uma calça de moletom para garantir conforto. Nos pés, deslizei um par de meias e calcei os chinelos, preparando-me para sair em busca de um alívio para minha mente agitada. Ao passar pela portaria do edifício onde morava, dei início a uma caminhada solitária pelas ruas adormecidas da cidade. Durante cerca de vinte minutos, deixei meus passos me guiarem, absorvendo a serenidade da noite e a quietude das ruas vazias. Os sons distantes dos carros e dos pássaros noturnos pareciam abafados, criando uma sensação de isolamento reconfortante.
Fechei os olhos por um breve instante, permitindo-me sentir a brisa gelada acariciar meu rosto antes de retomar meu caminho. A cada passo, sentia-me mais leve, como se as preocupações fossem lentamente se dissipando no ar noturno. Era como se a cidade adormecida sussurrasse palavras de conforto, envolvendo-me em sua calma reconfortante. O brilho das estrelas no céu sem nuvens também contribuía para a atmosfera tranquila, criando uma pintura celestial que contrastava com a agitação interna que eu enfrentava. A caminhada solitária sob a luz da lua trouxe uma sensação de clareza mental que eu não experimentava há tempos. Cada respiração profunda era como um mantra, acalmando minha mente e acalentando meu espírito cansado. A serenidade da noite era como um bálsamo para a alma, renovando minhas forças para enfrentar os desafios que o amanhecer traria. Assim que abri os olhos, percebi que era hora de voltar para casa, já que a sonolência começava a se fazer presente.