Sara
Levanto do sofá da sala desanimada, olho no relógio do celular que marca 15:10 de um sábado simplesmente tedioso. A hora no passa de jeito nenhum, e eu já já vou enlouquecer se não arrumar alguma coisa pra fazer imediatamente.
Fico zanzando pela cara de um lado pro outro, e no final decido ir na sorveteria toma um açaí, no ruim, no ruim, um açaí melhora tudo. Porém, como não quero ir sozinha, vou ligar pra Isabella fazer o favor de ir comigo. A Isah é a minha amiga aqui do morro.
- Fala sua mandada, bora lá no açaí comigo? Sei que você não está fazendo nada pra ninguém uma hora dessas mesmo._ falo assim que ela atende a ligação.
- Tu que pensa quirida, estou no asfalto resolvendo umas paradas para minha mãe._ ela diz no deboche.
- iiiih, então caiu igual raio._ falo já desistindo dela.
- Cai nada, espera eu..._ desligo na cara dela rindo.
Ela fica muito puta quando eu faço isso, e eu faço só pra irritar.
Já que aquela safada não está em casa, vou ter que ir sozinha mesmo, e eu odeio anda sozinha cara, ainda mais aqui no morro. Todo mundo fica me encarando de rabo de olho, e eu não gosto de falar com ninguém, e se bobear, me faço até de cega pra não ter que cumprimentar esse povo.
Meu irmão diz que eu sou muito metida, mas não é isso, só não acho que sou obrigada, a fica rindo pra quem eu não conheço e pra quem eu sei que não gosta de mim, o pessoal daqui só puxa meu saco, porquê sou irmã do dono do morro.
E eu tenho é preguiça desse povo.
Chego na sorveteria, e percebo de cara uma funcionária nova, muito bonita por sinal. Ela é pretinha, magrinha, cabelo Black enrolado e o rostinho fino. Fico encarando ela de longe, e não demora muito pra ela vim me atender.
- Oi boa tarde._ disse ela vindo até a mim, com um sorriso simpático que me fez rir junto. Já gostei.
- Oi boa tarde, você é nova aqui né? To sempre aqui e nunca te vi._ pergunto curiosa.
- Sim, é o meu primeiro dia, meu nome é Manuelly, mas pode me chamar de Manu._ ela estende a mão com aquele sorriso sincero, muito difícil de se ver nessas meninas aqui do morro.
- Prazer nega, meu nome é Sara._ nos cumprimentamos.
- Sara, a famosa Patroinha._ meu nenêzinho MB chega me dando um susto.
- Então você é a primeira dama?_ pergunta a Manu com a testa franzida.
- Não, não eca._ faço cara de nojo, e ela fica sem entender_ eu sou irmã daquele embuste._ reviro meus olhos e eles riem juntos.
Faço meu pedido pra Manu que não demora muito pra ela trazer. Pedi do maior né, porque eu quero ser feliz, e açaí é vida gente.
Fico lá conversando com MB, que pra quem não sabe, esse vagabundo é meu amor todinho. Ele é um dos braços direito do meu irmão e também é o sub do morro.
Nós dois nunca tivemos nada, nenhum beijinho se quer para toda minha tristeza. Ele também nunca deixou escapar nada se é afim de mim também, mas às vezes eu sinto umas olhadas diferentes, não sei, pode até ser coisa da minha cabeça, mas acho que ele ainda não chegou em mim por causa do meu irmão.
"Mais uma das vantagens de ser irmã do brabo da favela, uhull " :'(
Depois de um bom tempo conversando com o MB, ele se despede de mim e volta pra boca.
Eu aproveito que o movimento está fraco, e procuro saber mais sobre a Manuelly. Não sei por quê, mas eu gostei muito dela, e pior que eu sou muito seletiva com essas coisas.
- Mas me fala mais sobre você, sempre foi daqui?_ a curiosidade é meu ponto fraco.
- Não, eu morava na baixada, mas tive uns problemas de família._ o sorriso dela desaparece e ela fica com o rosto triste, acho que lembrou de algo que a machucou, ou que ela não queria lembrar_ então uma amiga me convidou pra morar na casa dela até eu conseguir um emprego e poder ter um cantinho só meu, ela veio aqui, conversou com o dono dessa loja e hoje foi o meu primeiro dia._ ela sorri meio sem graça_ ainda estou aprendendo, confesso que estou meio enrolada com algumas coisas, mas já já eu pego o jeito._ termina ela.
- Aaah garota, tu já tá indo muito bem, eu gostei muito de você logo de cara, e olha que eu sou chata em, você é muito simpática e isso é muito importante para o comércio, continua assim que está indo muito bem._ ela fica um pouco envergonhada com meu elogio.
- Poxa muito obrigada._ sorri
- Você está morando onde?_ continuo com a minha interrogação.
- Na goma 7._ incrível como ela continua respondendo minhas perguntas sem se incomodar.
- Ata, tenho uma amiga que mora na 8, vamos se ver muito ainda. Seja bem vinda no nosso morro, aqui é um pouco complicado as vezes, mas depois que você se adapta, melhora._ dou um sorriso sincero pra ela que me retribui.
- Obrigada, não conheço ninguém por aqui ainda, então foi muito bom conhecer você._ ela diz em pé com a bandeja na mão.
- Te digo o mesmo. Vou indo nessa, qualquer dia a gente se esbarra por aí, bjunda._ ela dá uma gargalha.
- Beijos._ me despeço e vou pra casa, andando a pé mesmo né, pois não tem um vagabundo disposto a fazer uma caridade, o erro!
Manuelly
Tem mais ou menos duas semanas que vim morar aqui na Rocinha, depois de uma briga feia com meu pai.
Eu e ele nunca se nós demos muito bem, eu não aceitava as coisas que ele fazia comigo e com minhas irmãs.
Tenho duas irmãs que ainda moram na baixada, e eu pretendo visitá-las assim que for possível, porém infelizmente irá demorar um pouco.
É que quando vim embora, as coisas lá não estavam muito boas para mim.
Perdi minha mãe pro câncer quando eu tinha 11 anos de idade. Depois disso, eu e minhas irmãs ficamos a Deus dará, graças a meu pai que assim que ela faleceu, sumiu no mundo durante meses, e meses, sem nem querer saber se tínhamos algo para comer ou vestir.
Somos 3 meninas, na época minha irmã Ingrid a mais velha tinha 14, eu de 11, e a mais nova Mirela, tinha 8 anos.
Tivemos sorte por ter minha tia, irma da minha mãe que sempre foi uma mãe para nós, nos ajudou e cuidou da gente quando a gente mais precisou, hoje ela é a pessoa mais importante nas nossas vidas.
Minha vida nunca foi fácil, tive que me virar desde cedo, e eu sempre tive o temperamento muito forte, e aí quando meu pai voltou da onde estava, ele queria que nos fossemos impregnadas dele, ele nos maltratava e nos tratava como lixo. Minhas irmãs tinham muito medo, então sempre fazia o que ele mandava, mas eu não tinha, e por conta disso, eu e ele começamos a bate muito de frente. Eu não tinha mais por ele a consideração de pai, ainda mas depois dele ter nos abandonado quando mais precisávamos dele, isso me magoou muito, e aparti daí nunca mais deixei ele me influenciar em nada.
Ele nos humilhava, dizia que éramos a pior coisa que minha mãe deixou para ele, que minha mãe era tão boa e não merecia filhas inúteis como nós.
Minhas irmãs não tinham forças para enfrenta-lo, porém eu tinha. E desde então minha vida se tornou um inferno.
Eu apanhava varias vezes ao dia, as humilhações foram voltadas todas para mim. Depois de um tempo a agressões ficaram mais sérias e comecei a temer por minha vida.
E teve um dia em que eu vi que se não fugisse disso tudo, eu não iria sobreviver por muito tempo.
Minha irmã mais nova estava morando com minha tia, a mas velha sabia se defender e tinha arrumado um namorado pra cuidar dela.
Então, conversando com uma amiga minha, ela disse que estava se mudando pra uma casa que a irmã tinha deixado para ela, era no morro da Rocinha onde ela já tinha morado antes, ela conhecia bastante gente e poderia me arrumar um emprego.
Era a minha chance de mudar de vida e escapar de tudo que eu vivia, eu poderia fica morando com ela até arrumar um lugar para mim.
Aceitei na hora, obvio.
Minhas irmãs já tinha seus filhos. Ingrid tem Davi de 2 anos e Mirela tem Miguel de 1 ano.
Eles são meu mundo, por isso foi muito difícil ficar longe deles, porém, foi necessário.
Quando cheguei no morro, achei a coisa mais linda, era tudo muito diferente, as pessoas são muito educada, claro que tem algumas que te olham com cara de nojo, mas, todas se conhecem e se comunicam, muito diferente do que nós ouvimos por aí.
Minha amiga falou com um conhecido dela que tem uma loja de sorvete, ele disse que estava mesmo precisando de uma funcionária.
O salário não é as mil maravilhas, mas dá para mim ajudar na casa e guarda um dinheirinho e conseguir finalmente alugar o meu sonhado cantinho.
No meu primeiro dia de trabalho, fiquei um pouco nervosa. Nunca tinha trabalhado com sorvete antes, mas já trabalhei em vários outros comércios, e eu pegava as coisas rápido, isso era bom.
Meu patrão me ensinou tudo que eu deveria saber e fui pegando o ritmo aos poucos.
Hoje aqui na loja, entrou uma pretinha do cabelo enrolado clarinho muito simpática, Sara o nome dela, e logo de cara nos demos bem. Eu gosto de conhece pessoas novas, ainda mas aqui que eu acabei de chegar e ainda estou me familiarizando com o pessoal.
Logo em seguida entrou um moreno lindo com uma pistola na cintura e um fuzil atravessado nas costas.
Com certeza ele era um dos muitos bandidos que tem por aqui no morro.
Me pareceu que eles são namorados ou algo do tipo, pela maneira que eles se olhavam, eles pareciam se gostar muito.
Deixo eles lá conversando e vou fazer as minhas coisa, a loja não está muito cheia, porém vez ou outra aparece um cliente, eu ainda estou sozinha na loja, o Senhor Miltinho disse que se tiver um dinheiro a mais, ele irar colocar alguém aqui para me ajudar.
Um tempo depois, o rapaz que estava com a Sara vai embora, e eu e ela ficamos conversando um pouco quando o movimento diminui.
Ela me contou que é irmã do dono do morro, me conta algumas coisas sobre a favela e diz que gostou de me conhecer, digo o mesmo e um tempo depois ela também vai embora.
...
18h da noite acaba meu expediente.
Estou exausta.
Vou descendo o morro me arrastando para casa.
Espero que a maluca da Rayssa esteja em casa hoje, ela some por esse morro a fora e eu fico sem saber para onde ela foi.
Nem me atrevo ir atrás dela, não conheço nada aqui ainda, e provavelmente iria me perder entre esses becos que aparecem no meu caminho. Só gravei as ruas entre a minha casa e meus trabalho, e é isso que importa por enquanto.
Quando viro uma rua antes da minha casa, bato de frente com uma carreata de motos e me assusto.
Me encosto na parede para da espaço para eles passarem e quando reparo melhor, percebo que na frente tem um menino guiando todas as outras motos.
Todos os outros que vem atrás estão armados, e seguem fielmente o primeiro da fileira.
Isso não é uma carreata. É o dono do morro e seus seguranças.
Eu fico nervosa, eu não sei me comportar direito com várias armas assim ao meu redor.
Na baixada, ouvimos histórias de bandido que pega qualquer mulher que ele ache bonita e a leva a força, as obrigam a ser mulheres deles e elas não tem como recusar. Eu sempre morri de medo de ir para baile de favela por causa disso.
Fico o tempo todo de cabeça baixa, porém, assim que a primeira moto cruza o meu pampo de visão, por um um impulso eu levanto a cabeça.
Meus olhos bate de frente pelo cara que vem logo a frente de todas as motos e eu fico hipnotizada. Ele é um puta gostoso, fico fascinada. Ele é um homem de uns 25 ou 26 anos, negro tatuado, corpo atlético, tanquinho perfeitamente definido, e eu não consigo para de encara-lo.
Ele me encara com um sorrisinho de canto de boca percebendo minha cara de retardada babando no corpo dele e eu fico toda sem graça. Desgraçado!
...
Chego em casa tomo um banho assisto um pouco de televisão e vou deitar.
Rayssa não está em casa, já é até normal essa maluca sumir por aí sem dizer nada. Eu queria muito conversar, não consegui tirar o sorriso daquele homem da minha cabeça.
Foi de mela a calcinha.
Deus me livre, eu só posso está ficando maluca, ele provavelmente é o dono desse morro, olha só a encrenca que eu iria arrumar.
Balanço minha cabeça tentando me livra desses pensamentos e vou dormir.
MB
Dá a minha hora, eu vou fazer minha ronda diária pela quebrada.
Passo por um grupinho de piranha e elas logo meche comigo e com os cria quem está caminhando comigo.
Isso já é de lei por aqui, sabe como é né? Nós tem vários bifes pela favela, aqui as minas joga na cara mesmo sem vergonha, e é claro que os cachorrão gosta né, nos não perdoa ninguém mermo não.
Mas papo reto mermo, sou amarradão pela Sarinha, a irmã do meu parceiro.
Só que eu tô ligado que aquela mina ali é responsa, pra fica com ela tem que colar mermo, criar família e os caralho. E pra mim, se for pra colar com ela eu topo, namoralzinha mermo po, me amarro naquele sorriso, naquele cabelo encaracolado dela, me amarro no jeito dela descolado, ela é toda doidinha aquela mina, porra, eu viajo na dela.
Mas meu medo é ela não sentir a merma coisa por mim pô, ou o VT achar que é mancada pega irma dele por nos ser putão, achar que quero bagunçar a mina saco? Mas quem sabe um dia nós não se embola por aí.
...
Vou passando em frente o açaí do Miltinho e vejo ela lá sentada conversando com a mina que trabalha lá.
A mina é gata também, nunca vi por aqui antes.
Aproveito pra ir lá dá um salve.
- Prazer nega, meu nome é Sara._ ela fala e solta aquele sorriso lindo que eu me amarro.
- Sara, a famosa patroinha._ do um susto nela chegando perto e rindo da reação dela.
- Então você é a patroa?_ a mina pergunta.
- Não, não eca, sou irmã daquele embuste._ ela faz cara de nojo e nos começa a ri.
Logo depois chega um pessoal e a novinha vai saindo de perto de nós e vai atender eles.
- Qual foi dessa novinha ai? nunca vi ela por aqui antes._ pergunto curioso encarando a Sara.
- Ela é nova aqui no morro, por que? se interessou foi?_ pergunta ela estreitando os olhos pra mim fazendo carinha de misteriosa. Toda mandadinha ela Alá.
- Não pô, meu tipo de mulher é outro._ jogo pra ela debochado.
- Hum... É mesmo? Então me fala, qual é o seu tipo de mulher?_ ela apoia o cotovelo na mesa e segurando o rosto pra Pesta atenção no que eu vou responder.
- Meu tipo de mulher é mais ou menos tipo tu assim._ foda-se. Sou mó otário, toma no cu.
- Tipo eu nada meu querido, até porque igual a mim não existe, eu sou única bebê._ ela joga os cabelo bonito pro lado de deboche com a minha cara e eu começo a rir. Essa mina é foda mermo.
- Claro que tu é pô._ concordo com ela, ela é a única que mexe comigo, mas eu não falo nada, só fico olhando pra cara dela.
Do nada meu radinho toda e eu pego ele pra ouvir.
- Aí, tem umas mina brigando lá na 12, tem alguém por perto?_ mano Menor diz e eu passo a mal pelo cabelo nervoso.
Começou a putaria de brigar por causa de macho que nem e delas, feião, dá até pena dessas minas sem futuro, papo reto.
- Falo patroinha, vou marca dali._ falo levantando da cadeira_ nos se esbarra por aí jaé?._ faço um jeito pra ela.
- Tranquilo, aparece lá em casa cara, minha mãe tava reclamando que você não vai mais lá ver ela, sabe que ela é toda sentimental né._ papo reto tenho que ir lá ver minha tia po, minha mãe de criação, boto mó fé.
- Hoje tem bailão, mas amanhã apareço lá sem falta._ dou o papo.
- Vou dá um rolê lá hoje de cantinho._ ela fala toda animadinha e eu cruzo os braços encarando ela.
- Não arruma encrenca Sara._ repreendo ela logo. Ela sabe que o irmão dela não gosta que ela vai pro baile sem avisar ele, chega lá, ele fica queimando e quem escuta sou eu.
- Relaxa._ Faz sinal de deixa baixo com as mãos pra mim. Essa mina é foda, deixa o irmão dela de cabelo em pé.
- Tu que sabe, só toma cuidado namoralzinha mermo, qualquer coisa aciona que eu broto._ falo já saindo.
- Ta bom nenê._ manda beijinho e eu dou um sorrisinho pra ela e eu meto o pé.