O ar no escritório do advogado era abafado, pesado, e eu, como uma espectadora invisível, flutuava, enquanto o testamento de Pedro, o homem com quem passei dez anos da minha vida, era lido.
"Eu, Pedro Almeida, deixo todos os meus bens, incluindo a empresa \'Construções Futuro\', para a minha amada, Juliana Bastos."
Um silêncio chocado. Eu lembrava da dor aguda, mas agora era apenas um frio entorpecente.
O advogado continuou, sua voz monótona e cruel: "Minha ex-parceira, Sofia, com quem não tenho mais nenhuma ligação emocional, deverá organizar meu funeral e cuidar de Juliana em seu luto."
Cada palavra era um tapa. Ele me legava tarefas e dor, enquanto entregava a ela a fortuna que eu ajudei a construir. A fortuna erguida sobre minhas ideias, meus projetos, minhas noites em claro.
Lembrei-me do nosso pequeno apartamento, do cheiro de macarrão instantâneo, de mim curvada sobre a prancheta até as três da manhã, enquanto ele dormia. Ele prometia o mundo.
Ele me deu o mundo, sim. O mundo da humilhação e da servidão.
Percebi com clareza terrível: eu nunca fui uma parceira. Eu era uma ferramenta. Uma arquiteta talentosa e barata, uma empregada doméstica sem salário, uma cuidadora para usar e descartar.
Ele usou minhas ideias para a empresa, meu talento para prêmios, e quando a herdeira rica apareceu, ele me descartou como lixo. E agora, morto, me queria servindo a mulher que tomou meu lugar.
Uma raiva fria e profunda borbulhou, diferente da primeira vez, quando a dor e o choque me cegavam. Todo meu sacrifício, amor, dedicação... para quê? Para ele viver no luxo e depois me deixar limpar sua sujeira final?
A injustiça me sufocava. Eu via o rosto satisfeito de Juliana, as lágrimas de crocodilo, e a arrogância dos pais dele. Todos sabiam. Todos concordavam.
Naquele momento, revivendo minha tragédia, um pensamento tomou forma: se eu tivesse outra chance. Ah, se eu tivesse apenas mais uma chance, as coisas seriam muito, muito diferentes.
O telefone tocou, me puxando para fora do torpor. Era Juliana.
"Sofia? É a Juliana."
A voz dela era falsamente doce, mas carregada de triunfo.
"Eu só queria dizer que sinto muito por tudo. Sei que deve ser um choque para você. Mas o Pedro me amava de verdade. Ele só estava esperando o momento certo para te contar. A fortuna... bem, foi a maneira dele de garantir que eu ficasse bem."
Cada palavra era uma provocação. Ela não sentia muito. Ela estava se deliciando com a minha dor.
Antes que eu pudesse responder, a campainha tocou insistentemente. Abri a porta e dei de cara com a mãe de Pedro.
"Sua descarada!", ela gritou, tentando me empurrar. "Você achou que ia conseguir alguma coisa, não é? Meu filho nunca te amou! Ele só te usou porque você era útil! Agora saia desta casa! Isso tudo pertence à Juliana!"
Ela avançou. Eu recuei, chocada. Mas a raiva do testamento voltou. Eu não seria mais um saco de pancadas.
Quando ela tentou me agarrar, segurei seus pulsos com força.
"Saia da minha casa," eu disse, com uma voz fria que eu mesma não reconheci.
Ela recuou, lançando-me um olhar de puro ódio antes de ir embora, gritando ameaças.
Fechei a porta, tremendo. Não de medo. De raiva. Eu não os deixaria me destruir.
Naquela mesma semana, contratei um advogado. Eu tinha provas. E-mails, rascunhos, testemunhas. Provas de que a 'Construções Futuro' foi construída sobre meu trabalho. Eu lutaria pelo que era meu.
O processo foi longo e desgastante. A família de Pedro e Juliana usaram todo o dinheiro e influência para me difamar. Pintaram-me como aproveitadora, ex-namorada amarga e gananciosa. Mas eu persisti.
No dia do veredito, o juiz bateu o martelo.
"A corte decide em favor da senhorita Sofia. Fica provado que ela é cofundadora intelectual da empresa \'Construções Futuro\' e tem direito a cinquenta por cento de seus ativos."
Uma onda de alívio me inundou. Eu tinha conseguido. Justiça. Por um breve momento, eu senti que podia respirar de novo.
Saí do tribunal e entrei no carro, exausta e triunfante. Liguei para minha mãe para dar a boa notícia. Enquanto o telefone chamava, dirigi para casa, sonhando com o futuro. Um futuro onde eu finalmente estaria livre de Pedro e sua sombra.
Foi quando eu vi os faróis.
Um caminhão vindo na contramão, em alta velocidade. Não tive tempo de reagir. O impacto foi brutal. Metal se contorcendo, vidro quebrando. E então, uma dor lancinante e a escuridão.
Minha última visão consciente foi a de dois rostos na janela do meu carro destruído.
Pedro e Juliana.
Eles não pareciam preocupados ou chocados. Eles sorriam.
"Que pena", disse Juliana, com a voz gotejando sarcasmo. "Parece que você não vai poder aproveitar seu dinheiro, Sofia."
Pedro se inclinou, seu rosto uma máscara de desprezo.
"Eu te avisei para não mexer comigo. Você nunca aprendeu, não é? Você sempre foi tão ingênua. Agora, tudo é meu. E da Juliana. Como deveria ter sido desde o começo."
A escuridão me engoliu. A última coisa que senti foi a raiva queimando, a injustiça me consumindo. Eles tinham me tirado tudo. Minhas ideias, minha carreira, meu amor, e finalmente, minha vida. E eles saíram impunes.
O cheiro de gasolina e pneu queimado invadiu minhas narinas. Abri os olhos, piscando contra a luz forte de um poste. Eu estava no meu carro. O airbag acionado. O para-brisa trincado.
Meu coração disparou. O caminhão. O acidente.
Mas... algo estava errado. Eu me toquei. Eu estava viva. Inteira.
Olhei pela janela. Reconheci o lugar. Era a rotatória perto do centro de convenções. E a data no painel do carro. Era o dia. O dia em que Pedro me humilhou publicamente, anunciando o noivado com Juliana em um evento da empresa, após apresentar um projeto meu como se fosse dele.
Eu tinha sofrido um pequeno acidente a caminho do evento. Na vida passada, ajudei uma senhora que havia caído e cheguei atrasada, a tempo de ver meu mundo desmoronar.
Gritos me tiraram dos pensamentos. A senhora. Ela havia caído, sua bolsa espalhada pela calçada. Na vida passada, corri para ajudá-la, a "boa samaritana" de sempre.
Desta vez, pisei no acelerador.
O carro cantou pneu. Eu não olhei para trás. A senhora seria ajudada por outra pessoa. Não por mim. Não mais.
Minha mente estava a mil por hora. Renascimento. Eu voltei no tempo. Voltei para o dia em que tudo começou a dar errado.
Uma risada borbulhou no meu peito, meio louca, meio aliviada. Eu não estava morta. E tinha uma segunda chance. Uma chance de fazer tudo diferente.
Na vida passada, minha bondade só me trouxe dor. Ajudei a senhora e torci o tornozelo, uma lesão que me assombrou por anos. Fui a "justiceira" no trabalho e acabei isolada. Fui a parceira leal e fui traída e morta.
Chega.
Nesta vida, eu só cuidaria de mim e da minha família. Minha mãe, Lúcia. Meu irmão, Miguel. O resto do mundo que se dane.
Dirigi direto para casa, ignorando as dezenas de chamadas de Pedro. Cheguei, liguei o computador e, com as mãos tremendo de adrenalina, fiz algo que mudaria tudo. Vendi as poucas ações que minha avó tinha me deixado. Eram de uma empresa de tecnologia que, eu sabia, iria à falência em seis meses. Com o dinheiro, comprei ações de uma pequena startup de energia renovável que ninguém conhecia, mas que, eu sabia, se tornaria um gigante em dois anos.
Era meu primeiro passo. Minha primeira vingança.
Meu telefone tocou de novo. Era Pedro. Desta vez, atendi.
"Sofia! Onde você está? Eu preciso da versão final da apresentação! O evento começa em uma hora!" A voz dele era arrogante, exigente.
Eu respirei fundo, sentindo um poder que nunca tive antes.
"Pedro", eu disse, com a voz calma e fria.
"O quê? Anda logo, me manda o arquivo!"
"Eu não vou mandar nada. E, a propósito, terminamos. Pegue suas coisas do meu apartamento até o final do dia."
Houve um silêncio chocado do outro lado da linha.
"O que... O que você disse? Você ficou louca? Sofia, não brinque com isso agora! Minha carreira depende dessa apresentação!"
Sua carreira. Não a nossa. A dele. A carreira que ele estava construindo nas minhas costas.
"Esse é o seu problema, não o meu", eu disse, e desliguei.
Imediatamente, bloqueei o número dele. E o de Juliana. E o dos pais dele.
Sentei-me no sofá, o mesmo sofá onde chorei por dias na minha vida passada. Mas desta vez, eu não estava chorando. Eu estava sorrindo. O jogo tinha virado. E eu estava pronta para jogar.
O ar no escritório do advogado era abafado, pesado com o cheiro de papel velho e de uma hipocrisia que eu podia sentir até na alma, mesmo que eu não tivesse mais um corpo para sentir. Eu flutuava, uma espectadora invisível da leitura do testamento do homem com quem passei dez anos da minha vida, Pedro.
O advogado, um homem de terno caro e expressão neutra, limpou a garganta.
"Eu, Pedro Almeida, em pleno uso de minhas faculdades mentais, deixo todos os meus bens, incluindo a empresa de arquitetura 'Construções Futuro', a minha participação em outras empresas, imóveis e todos os saldos em contas bancárias, para a minha amada, Juliana Bastos."
Um silêncio chocado encheu a sala. Minha mãe, Dona Lúcia, e meu irmão, Miguel, que estavam sentados em cadeiras desconfortáveis, olhavam incrédulos. Eu me lembrava daquele momento, da dor aguda que me atravessou o peito. Mas agora, revendo a cena, era apenas um frio entorpecente.
O advogado continuou, sua voz monótona e cruel.
"Além disso, expresso meu último desejo. Minha ex-parceira, Sofia, com quem não tenho mais nenhuma ligação emocional, mas que me conhece bem, deverá organizar meu funeral. Ela deverá garantir que tudo seja do agrado de Juliana. Peço também que Sofia, como um último gesto de nossa história passada, cuide de Juliana em seu luto, pois ela está devastada com a minha partida."
Cada palavra era um tapa na minha cara. Mesmo morto, Pedro conseguia me humilhar. Ele me legava as tarefas, a dor e a responsabilidade, enquanto entregava a Juliana a fortuna que eu ajudei a construir. A fortuna que foi construída sobre as minhas ideias, os meus projetos, as minhas noites em claro.
Minha mente voltou no tempo, para o nosso pequeno apartamento alugado. O cheiro de macarrão instantâneo, o único jantar que podíamos pagar muitas noites. Eu, debruçada sobre a prancheta de desenho até as três da manhã, enquanto Pedro dormia. Meus dedos doíam, meus olhos ardiam, mas eu continuava, porque ele dizia que estávamos construindo nosso futuro.
"Só mais um pouco, meu amor," ele sussurrava, beijando minha testa. "Logo você não vai mais precisar trabalhar tanto. Eu vou te dar o mundo."
Ele me deu o mundo, sim. O mundo da humilhação e da servidão.
Eu via agora, com uma clareza terrível. Para ele, eu nunca fui uma parceira. Eu era uma ferramenta. Uma arquiteta talentosa e barata, uma empregada doméstica que não precisava de salário, uma cuidadora que ele podia usar e descartar.
Ele usou minhas ideias para fundar a empresa, usou meu talento para ganhar prêmios e reconhecimento, e quando a herdeira rica Juliana apareceu, ele me descartou como lixo. E agora, até na morte, ele queria que eu continuasse a servi-lo, servindo à mulher que tomou o meu lugar.
Uma raiva fria e profunda começou a borbulhar dentro de mim. Uma raiva que eu não senti da primeira vez, quando estava cega pela dor e pelo choque.
Todo o meu sacrifício, todo o meu amor, toda a minha dedicação... para quê? Para que ele pudesse viver uma vida de luxo com outra mulher e depois me deixar com a responsabilidade de limpar sua bagunça final?
A injustiça da situação era tão grande, tão avassaladora, que me sufocava.
Eu olhava para o rosto satisfeito de Juliana, que derramava lágrimas de crocodilo ao lado de sua mãe, e para a expressão arrogante dos pais de Pedro. Eles sabiam. Eles todos sabiam e concordavam com aquilo.
Naquele momento, revivendo minha própria tragédia, um pensamento tomou forma. Se eu tivesse outra chance. Ah, se eu tivesse apenas mais uma chance, as coisas seriam muito, muito diferentes.
O telefone tocou, me puxando para fora daquele torpor de memórias. Na minha vida passada, eu estava sentada no sofá do meu antigo apartamento, o mesmo que eu dividi com Pedro, agora vazio e frio. Atendi a ligação.
"Sofia? É a Juliana."
A voz dela era falsamente doce, mas carregada de triunfo.
"Eu só queria dizer que sinto muito por tudo. Sei que deve ser um choque para você. Mas o Pedro me amava de verdade. Ele só estava esperando o momento certo para te contar. A fortuna... bem, foi a maneira dele de garantir que eu ficasse bem."
Cada palavra era uma provocação. Ela não sentia muito. Ela estava se deliciando com a minha dor.
Antes que eu pudesse responder, a campainha tocou insistentemente. Abri a porta e dei de cara com a mãe de Pedro, uma mulher que eu um dia chamei de sogra. Seus olhos me fuzilaram.
"Sua descarada!", ela gritou, tentando me empurrar para dentro. "Você achou que ia conseguir alguma coisa, não é? Meu filho nunca te amou! Ele só te usou porque você era útil! Agora saia desta casa! Isso tudo pertence à Juliana!"
Ela avançou sobre mim, as unhas prontas para arranhar meu rosto. Eu recuei, o choque me paralisando por um segundo. Mas então, a raiva que eu senti na leitura do testamento voltou. Eu não ia mais ser um saco de pancadas.
Quando ela tentou me agarrar, eu segurei seus pulsos com força.
"Saia da minha casa," eu disse, com uma voz fria que eu mesma não reconheci.
Ela ficou chocada com a minha resistência. Ela sempre me viu como a garota dócil e submissa. Ela recuou, me lançando um olhar de puro ódio antes de ir embora, gritando ameaças.
Fechei a porta e me encostei nela, tremendo. Mas não era de medo. Era de raiva. Eu não ia deixar que eles me destruíssem.
Naquela mesma semana, contratei um advogado. Eu tinha provas. E-mails, rascunhos de projetos, testemunhas. Provas de que a 'Construções Futuro' foi construída sobre o meu trabalho intelectual. Eu ia lutar pelo que era meu por direito.
O processo foi longo e desgastante. A família de Pedro e Juliana usaram todo o seu dinheiro e influência para me difamar. Pintaram-me como uma aproveitadora, uma ex-namorada amarga e gananciosa. Mas eu persisti.
No dia do veredito, o juiz bateu o martelo.
"A corte decide em favor da senhorita Sofia. Fica provado que ela é cofundadora intelectual da empresa 'Construções Futuro' e tem direito a cinquenta por cento de seus ativos."
Uma onda de alívio me inundou. Eu tinha conseguido. Justiça. Por um breve momento, eu senti que podia respirar de novo.
Eu saí do tribunal e entrei no meu carro, sentindo um misto de exaustão e triunfo. Liguei para minha mãe para dar a boa notícia. Enquanto o telefone chamava, eu dirigi para casa, sonhando com o futuro. Um futuro onde eu finalmente estaria livre de Pedro e sua sombra.
Foi quando eu vi os faróis.
Um caminhão vindo na contramão, em alta velocidade. Não tive tempo de reagir. O impacto foi brutal. O som de metal se contorcendo, vidro quebrando. E depois, uma dor lancinante e a escuridão.
Minha última visão consciente foi a de dois rostos na janela do meu carro destruído.
Pedro e Juliana.
Eles não pareciam preocupados ou chocados. Eles sorriam.
"Que pena," disse Juliana, com a voz gotejando sarcasmo. "Parece que você não vai poder aproveitar seu dinheiro, Sofia."
Pedro se inclinou, seu rosto uma máscara de desprezo.
"Eu te avisei para não mexer comigo. Você nunca aprendeu, não é? Você sempre foi tão ingênua. Agora, tudo é meu. E da Juliana. Como deveria ter sido desde o começo."
A escuridão me engoliu. A última coisa que senti foi a raiva queimando, a injustiça me consumindo. Eles tinham me tirado tudo. Minhas ideias, minha carreira, meu amor, e finalmente, minha vida. E eles saíram impunes.