As duas garotas corriam furtivas desesperadamente pelas ruas daquele desconhecido lugar, a fim de uma salvação, sem saber seu paradeiro, desde que foram trazidas. Estavam sendo perseguidas e corriam apressadamente a fim de despistar o homem que vinha logo atrás, ao seu encalço. Depois de anos de tentativas, haviam acabado de fugir do grande cativeiro em que foram mantidas para ser escravizadas e não estavam dispostas a se deixarem ser pegas novamente.
Sua respiração estava ofegante, os pulmões pareciam que a qualquer momento saltariam pela boca, queimavam incessantemente dentro de seu peito, enquanto esticava ao máximo suas pernas para fugir do homem logo atrás. Júlia sabia que se continuasse no mesmo ritmo, o grandalhão as alcançaria, pois nem de longe, seu porte poderia ser superado por duas garotas com o porte muito abaixo, se comparadas ao segurança. Tinha que fazer algo para que o segurança de Enzo não conseguisse colocar suas mãos nas duas novamente, tentaria ao menos salvar a irmã mais nova daquele pesadelo, pelo menos uma teria que escapar. Com a ideia repentina que sobrevoou sua mente, apressou ainda mais o passo, tomando um pouco de distância de Janet, sentia que a qualquer momento seus membros poderiam não mais obedecer aos comandos do cérebro, a exaustão quase a vencia, mas desistir não era uma opção. Nunca imaginaram que um dia iriam conseguir fugir daquele lugar horrendo onde sempre viviam trancadas sem poder ver a luz do sol, apesar de já terem tentado outras vezes, mas sempre ao fracasso. Agora era diferente.
Eles usavam o corpo da irmã mais velha para serviços sexuais obrigatórios, enquanto a mantinha sob o efeito de drogas fortes todas as noites. Elas ficaram mantidas em uma boate clandestina, onde apenas os piores criminosos e mafiosos tinham conhecimento do tráfico humano que acontecia ali e podiam ter acesso ao corpo das meninas enquanto os clientes comuns se divertiam com as dançarinas do salão.
Se sentia desesperadamente no encargo de despistar sua irmã mais nova da atenção do perseguidor e deixar a atenção voltada apenas para ela, aproveitou então a distração de Janet, vendo uma rua adicional à direita e virou agilmente, enquanto a outra prosseguiu em uma rua totalmente deserta e vazia, sozinha. Diminuiu os passos após a curva, esperando ver o tal segurança, olhando para trás com seus olhos que quase saltavam das órbitas. Os pulmões ardiam como se tivesse engolido água e a mesma descesse pelos caminhos errados. Seu plano deu certo, ele veio em sua direção, esquecendo de sua irmã. O careca também diminuiu seus passos, soltando um sorriso vitorioso e sarcástico.
- Não pode escapar, lindinha.- Ele riu.- O chefe disse que você é prioridade e não posso o desapontar.- Respirou fundo.- Não é nada pessoal, mas é você ou eu.
No mesmo instante, Júlia tentou voltar a correr, mas o homem estava perto o suficiente para a impedir de tal ato, dando tempo apenas para dar-lhe suas costas. A agarrou por trás caindo em cima da garota magricela, que sentiu a dor de ter um peso excessivo colidindo contra o seu no chão. Sem pensar muito, ela logo se debatia e tentava o acertar para sair do aperto de seus asquerosos braços. Sempre que um deles a tocava, sentia descontrolado repúdio. Mãos masculinas para Júlia se tornou a coisa mais asquerosa de todas, ela repugnava tudo o que vinha deles, até mesmo suas vozes se tornaram desprezíveis. Ter sua vida e inocência roubadas por mãos como estas causou grande estragos na mente e coração da garota.
Felizmente sua irmã não passou pelo mesmo, pois sua Janet foi mantida virgem, eles a queriam vender em um leilão clandestino de virgens que conseguiram sequestrar, este tal leilão estava perto de acontecer e por este motivo a fuga foi tão bem planejada. Júlia também era virgem quando fora sequestrada, mas Enzo dizia ter se encantado por sua beleza e a forçou a ter sua primeira vez entregue nas mãos do parasita mafioso. Júlia continuou gritando e se debatendo, querendo dificultar o trabalho do homem para a levar de volta ao cativeiro. Era quase impossível fazer com que o homem não a levasse com muita facilidade, devido a grande força que se sobrepunha a ela. Conseguiu a virar para si, dando-lhe seu olhar mais sério e perverso, quase não lhe dando chances de resistência.
Júlia olhou em todas as direções, procurando algo que a pudesse fazer se proteger enquanto tentava lutar contra a imensa força que já conseguia êxito, vendo ao seu lado, quase como uma esperança em sua mente, uma pedra grande e suficientemente pesada para algo que não teria volta. Ela iria o matar para salvar a própria pele e tinha apenas uma fração de segundos para isso, até que fosse arrebatada do chão e levada sem pestanejos. Em um ato rápido e quase impensado, pegou o objeto em sua mão, redirecionando a mira certeira na cabeça do homem que estava próxima ao pescoço da garota, apenas um pouco mais alta. Com o impacto da pedra contra sua testa, o homem a soltou, gemendo alto pela dor que sentia onde fora atingido, levando uma das mãos ali. Antes que pudesse ter qualquer reação, Júlia se ajeitou, de modo que ficasse perto o suficiente e, ainda com o objeto na mão, o golpeou mais uma vez, ainda mais forte do que antes. Todas as vezes que ele a agrediu a mando de Enzo e a dopou para que seu chefe a usasse da pior maneira, tudo isso passou em sua cabeça, ela sentiu seu estômago enrolar-se como cobra dentro de si mesma dando-lhe ainda mais coragem para findar a vida de alguém. Cuspiu na face do homem jogado ao chão, ainda desnorteado pelos golpes, mas não desacordado, sentindo repulsa total e aversão, se lembrando das palavras que ele havia dito pouco antes de se atracarem naquela rua.
- Sinto muito por isso, não é nada pessoal, mas é você ou eu!
Com todas as lembranças em sua mente a garota levantou mais uma vez o objeto, redirecionando desta vez na fonte ao lado do olho esquerdo do homem, golpeando com todas as forças que lhe restaram, por repetidas vezes. Mesmo vendo o rosto deformado e sem vida, não conseguiu parar, era mais forte do que ela, descontava todos os anos de tortura naquele que estava em baixo de seu corpo. Seu corpo esguio não foi desculpa para vencer o tal grandalhão. Com todas as suas forças desferia os golpes, sem senntir pena, nem piedade, ao contrário, ela sentia-se extasiada por tais atos.
Um delinquente a menos no mundo, pensou.
Cada pedrada era por tudo o que sofreu nos anos de cárcere privado, suas roupas e a rua ao redor dos dois estavam completamente banhados de sangue, mas Julia se sentia anestesiada para desesperar-se com o sangue de alguém que agora estava em suas mãos, depositou vários golpes desferidos apenas na cabeça do homem e então, quando ela sentiu sua mão finalmente doer por tantos golpes, parou encarando o corpo já sem vida. Não estava preocupada sequer com os machucados que isso lhe causou nas mãos. Sorriu. Era prazeroso o ver sem vida e saber que não faria mais mal a ninguém. Porém, também sabia que a partir daquele momento iria ter que viver sua vida fugindo da máfia, pois aquele que havia acabado de matar não era o único, haviam muito mais como ele e Enzo não a deixaria em paz nunca mais, aquele italiano imundo a queria de qualquer maneira. Antes de deixar o corpo, ela enfiou as mãos no bolso do cadáver, encontrando sua carteira, abrindo-a e furtando o pouco dinheiro que o idiota carregava.
Se levantou jogando a pedra ao lado do corpo inerte e ensanguentado e saiu caminhando na direção por onde sua irmã seguiu caminho, agora tinha que a encontrar. Aquilo para a máfia era apenas um aviso, ela faria muito mais com quem tentasse chegar perto dela ou de sua irmã, principalmente para o chefe de tudo aquilo, a inocência acabou, os medos foram deixados junto ao cadáver, agora Júlia era capaz de tudo para salvar o que mais amava, sua única família, Janet. Momentaneamente ficou na tarefa de encontrar sua irmã, que seguiu caminho reto pela rua.
...
Janet a abraçou, não se importando com o vestido extremamente curto da irmã e parte de seu corpo estarem cheios de sangue, ela apenas queria se sentir segura como sempre sentia quando a mais velha a abraçava. Júlia garantiria que Janet não passaria pelo que ela passou dentro daquele cruel cativeiro, não deixaria sua irmã ser tocada por mãos que não fossem aprovadas por ela mesma, não merecia a violação de seu corpo e alma. Janet fechou os olhos sentido os braços daquela que sempre amou rodear-lhe o corpo e sorriu. Depois que se separaram, Janet percebeu imediatamente, mas não fora atrás da irma, pois sabia que fazia parte de um plano repentino da mais velha e apenas encarregou-se de se proteger, então se escondeu em um beco qualquer e a esperou, tendo a confiança que sua irmã iria voltar para a encontrar. Júlia nunca desapontou Janet quando o assunto era proteção.
- Está tudo bem, Janet. Ele não vai mais nos fazer mal.
Janet olhou para sua irmã sorrindo enquanto Júlia olhava para todos os lados dentro daquela lanchonete, temendo estar sendo perseguida, Enzo era muito poderoso e Júlia sabia disso. Mal se importava com olhar dos pouquíssimos clientes que estavam sentados ao redor, provavelmente se perguntando o que duas garotas sujas e suadas, enquanto uma delas ensanguentada, estavam fazendo ali, ela mal percebeu quando um dos atendentes ligou para a polícia discretamente.
As duas andaram quilômetros durante a madrugada, se afastando do lugar de onde fugiram, encontrando por acaso a tal lanchonete de beira de estrada pela manhã, usufruindo do pouco dinheiro do cadáver para matarem sua fome com dois hambúrgueres e um refrigerante.
Julia nunca deixou que nada acontecesse a sua irmã mais nova, todo o sofrimento fora ela quem sofreu sozinha sendo usada por Enzo e aproveitando-se da suposta paixão que ele tinha para proteger a mais nova, incitando-o a não deixar tocarem em Janet. Ela implorava para que ele não deixasse sua irmã passar pelo que passava e assim ela "pagava" pelas duas, quando Enzo concordou a sua vida piorou ainda mais, mas era necessário, pois além ser usada várias vezes ao dia, ela também era drogada e agredida pelo mafioso. Seus capangas também ousavam bater em Júlia, mas Enzo havia deixado claro que Júlia só poderia ser usada por ele. Prometeu a sua mãe que cuidaria de sua irmã quando a responsável da família não estivesse mais presente, elas era felizes as três, até o sequestro acontecer. Suspirou afastando aqueles pensamentos de sua mente e se concentrou em olhar para os lados e ver se havia alguém as vigiando. Se sentia vigiada, mas não conseguia achar ninguém suspeito, eram apenas os clientes espantados pela quantidade de sangue em seu corpo. Júlia sequer tocou no sanduíche por tamanha preocupação, seus olhos passavam por todo o local, até que escutou Janet dizer:
- Júlia.- sussurrou, inclinando o corpo para a irmã a sua frente.- Você escutou o que acabei de dizer?
A mais velha percebeu que havia estado tempo demais perdida em seus pensamentos. Colocou-se mais em alerta, atentando-se ao olhar preocupado de sua irmã que, ora a encarava, ora desviava o olhar para o fundo da lanchonete. Os pelos de todo o seu corpo se arrepiaram por perceber o perigo.
- Fale, Janet.
- No fundo da lanchonete, em uma das últimas mesas. Tem um homem que não para de me encarar...- De repente os olhos da menina arregalaram-se.- Ele... Ele se levantou e está vindo.
- Vamos sair daqui, agora!
Janet e Júlia se levantaram rapidamente, recebendo ainda mais olhares dos demais, tinham a intenção de correr para longe do estranho que as encarava, mas era tarde de mais. Júlia podia sentir as costas queimarem sob o olhar do homem misterioso, mas não iria olhar em sua direção para não deixar mais suspeitas, elas se encaminharam para a saída. Um homem alto, de terno preto as bloqueou de passar pela porta, aparecendo quase que subitamente em sua frente com a expressão séria e os braços cruzados, o homem mais parecia um investigador, ainda assim lhes causava medo.
Júlia sentiu suas pernas tremerem, não queria voltar ao lugar imundo onde era mantida em cárcere. Agarrou a faca ao seu lado, adquirida em um momento de distração do atendente que lhe trouxe seus pedidos. Assim como matou o homem que a perseguiu, mataria também este se tentasse algo contra elas. Júlia então se arriscou a olhar na direção daquele que as observava desde o momento que as viu entrar na lanchonete, era uma coincidência e tanto, pensou o homem.
Ao encará-lo, Júlia não deixou de perceber sua bela feição, mas o sexo oposto a causava horror em toda a sua extensão, por esse motivo passou a desprezá-lo no mesmo instante. Bertiolli Matarazzo, era, nada mais, nada menos que um investigador particular que, coincidentemente fora contratado para investigar sobre o desaparecimento das irmãs Jackson e ainda estava cuidando do caso das duas que foram sequestradas em outro país e vistas pela última vez logo após o sequestro, há três anos na Itália. Quando as viu entrando por aquela porta, não pôde acreditar, seu caso havia caído diretamente em suas mãos tão facilmente e não esperou para imediatamente ligar para seus homens e pedir reforços, pois sabia que haveria relutância para tirar as duas dali e as manter sob sua proteção.
Para a felicidade dele e infelicidade de Júlia, Bertiolli tinha reflexos e antes que ela tentasse o atacar, percebeu a mão da garota na cintura e imaginou que algo nada bom poderia vir dali, segurando seu braço no mesmo instante. Ela se desesperou e tentou se soltar, mas ele era muito forte. Sentindo a repulsa por seu toque, Júlia pensou estar em perigo e faria de tudo para que sua irmã fosse a primeira a estar a salvo. Mirou um soco no rosto do investigador, mas ele tinha bons instintos e segurou seu punho na altura de seu rosto, pensando que a mulher em sua frente era bem habilidosa e poderia dar trabalho para ser convencida de que o lugar mais seguro no momento era estar ao seu lado.
- Janet! Foge!
Júlia bradou para a irmã assim que seus golpes foram impedidos. Se quisessem levar alguém, que fosse apenas ela e que sua irmã finalmente ficasse livre e à salvo das garras de Enzo que a puniria com Janet pela fuga, Júlia sabia que sim.
- Não faça isso, Janet Jackson.
Em um ato rápido, Bertiolli conseguiu a virar e imobilizar por trás, impedindo seus movimentos, ela fazia de tudo para se soltar, mas parecia impossível com a força que ele possuía. Janet se via sem saída, havia um homem parado na porta bloqueando sua passagem, enquanto o outro segurava sua irmã.
- Eu não vou sem você, Júlia.
A garota olhava o esforço da irmã e tentou a ajudar dando alguns passos em sua direção, mas logo foi segurada pelo homem que anteriormente estava na porta, que não precisou de muito esforço para segurar a delicada Janet. Todos na lanchonete olhavam aquela cena espantados, Bertiolli sabia que logo a polícia estaria no local e precisava retirar as duas em segurança antes que os policiais tomassem posse das duas, ele iria mostrar seu distintivo antes que alguém desconfiasse. A garota sob sua posse se mantinha inquieta, na tentativa de se livrar do toque de Bertiolli, impedindo seus planos de não levantar suspeitas.
- Júlia, eu preciso que se acalme.
Neste momento seu coração falhou uma batida, ela estava espantada, pois o homem sabia o nome de ambas as garotas. Nada tirava de sua mente que era enviado de Enzo e isso fez sua espinha se arrepiar grandiosamente. Com muito esforço, se desvencilhou bruscamente de seus braços e se virou para o homem, parecia certo do que estava fazendo.
- Como sabe quem somos? Quem o enviou?
Com a está deixa, tirou seu distintivo para fora, mostrando não só para Júlia, mas para todos que ali se encontravam, rodeando-o aos olhos de todos. Ele era um investigador, era como um policial. Ela por um momento se sentiu aliviada, mas imaginou que aquilo poderia ser uma mentira para levá-las de volta ao lugar onde eram mantidas em cativeiro, afinal, existiam maneiras de falsificar documentos, então por que não falsificar um distintivo?
- Bertiolli Matarazzo, sou investigador.- Encarou-a.- Eu venho investigando seu caso desde que foram sequestradas, não sou um inimigo.
- Não confio em você.
Então ela se virou para sair, mas o homem que acompanhava Bertiolli segurou seu braço, a fazendo lançar-lhe um olhar mortal. Bertiolli apenas acenou com a cabeça para que o homem soltasse as duas, pois queria sair logo daquele alvoroço que se tornou o estabelecimento de beira de estrada, talvez fosse por isso que a polícia ainda não havia chegado. Janet foi logo depois de sua irmã a seguindo, se sentiam confusas, não poderiam confiar em ninguém, Júlia sabia que Enzo tinha homens até dentro da polícia, ele mesmo alegava que se um dia tentasse fugir, até mesmo a lei estaria ao lado do mafioso. Como acreditar em qualquer um que dizia ser policial quando passaram por situações como aquelas?
Júlia saiu da lanchonete buscando por ar e por uma maneira de tentar fugir de Bertiolli. Cruzou os braços ao sentir o frio da manhã em algum lugar na Itália, ela sequer sabia a cidade onde se encontrava, a única coisa que sabia era o país que se encontrava. Respirou fundo olhando de um lado para outro, pessoas falavam em italiano enquanto saiam da lanchonete e entravam em seus carros e outras chegavam. A lanchonete se localizava exatamente em uma estrada bem afastada, mas ainda podia ver ao longe algumas construções, indicando civilização há alguns quilômetros de distância.
- Senhoritas Jackson, vocês vão ter que vir comigo querendo ou não.
Sentiu ódio ao ouvir a voz rouca e masculina ecoar em seus ouvidos falando na língua nativa das irmãs. Ele também saiu da lanchonete. Júlia respirou fundo sentindo seu sangue ferver.
- O que quer comigo?- Indagou se virando para ele.- Como posso saber que não trabalha para Enzo Rafaello?
- Quero apenas proteger vocês!- Cruzou os braços usando o mesmo tom.- Precisam confiar em mim, minha intenção é apenas ajudar.
- Não precisamos da sua ajuda, policial!
- Sabe que precisam. Já lidei com gente como Enzo e acredite, vocês podem estar sendo observadas nesse momento. Ele pode estar mirando uma arma em sua cabeça, prestes a disparar. Não é seguro que fiquem sozinhas em um país dominado por esse mafioso.
Bufou, realmente precisava da ajuda do investigador, ele era o único que falava sua língua nativa e provavelmente conhecia muito bem a cidade. Ainda sem encará-lo, Júlia travava uma luta entre confiar no desconhecido ou arriscar e morrer em menos de dois dias, pois Enzo jamais a deixaria viva e solta por aí, ela sabia demais sobre seus negócios, o mafioso poderia apostar em queima de arquivo ao invés de simplesmente a trazer de volta. Bertiolli a encarou vitorioso, pois sabia que não haveriam argumentos contra os fatos que lhe impôs, era sua única chance de sobrevivência, ela teria que confiar nele, ou morreria.
- Não vou as forçar a vir comigo, mas se não vierem, vão estar novamente nas mãos daquele criminosos ainda hoje.
Seguiu até seu carro que estava bem próximo a eles abrindo a porta de trás e olhando para as duas, sugerindo silenciosamente que entrassem no carro e confiassem em suas palavras, era o único jeito. Júlia, de braços cruzados, finalmente olhou para o homem que agora a fitava pacificamente com desdém, como se estivesse ganhado a Guerra Mundial. Sua vida estava nas mãos do investigador, ela sabia que não chegaria muito longe sozinha e ainda tinha a sua irmã, a quem zelava tanto.
Apenas essa batalha, investigador... Apenas esta batalha.
Caminhou receosa em sua direção, afinal havia sofrido muito nas mãos dos homens, apesar de não estar totalmente consciente, pois se estivesse, ninguém a conseguiria domar assim como nunca conseguiram em sua plena consciência. Júlia sempre era dopada a força e quando se recobrava já haviam feito dela o que queriam, na verdade o chefe havia feito o que queria, afinal, ele era o único que a tocava por considera-la a queridinha, no entanto, mesmo sob os efeitos de muitas drogas, ela ainda se lembrava de cada detalhe que o asqueroso chefe da máfia cometia com ela.
O ato do investigador não fez com que a mulher o excluísse da lista de todos os homens que odiava, pelo contrário, o odiava ainda mais por ter demorado tanto a encontrar as duas, ela teve que lutar sozinha para conseguir sua liberdade e se estava momentaneamente concordando em ir com ele, era porque não queria a perder novamente. Janet a seguiu, segurando no braço da irmã assim que se aproximaram do carro. Júlia encarou-a, percebendo seu medo, o olhar da menina entregava tamanho receio. Ela sorriu para a mais nova, acariciando seu fino rosto e a incentivou com o olhar.
Entrou no carro e em seguida sua irmã, Bertiolli fechou a porta e deu a volta entrando no carro e seu amigo e ajudante se sentou no banco do carona, ligou o veículo, dando partida para fora dali. Sabia que estavam correndo muito perigo, elas estavam sendo procuradas por todos os cantos, a esta hora Enzo Rafaello estava furioso por ter perdido a garota por quem teve algo próximo a um sentimento verdadeiro e sua irmã, a peça mais cara e a mais esperada de seu leilão de virgens.
Bertiolli inicialmente pensou em deixar as duas na delegacia sendo cuidadas pelos policiais, porém sabia que não era a melhor escolha, esse tipo de criminosos tem pessoas infiltradas até no ramo policial. Suspirou pensando no que poderia fazer, não havia "nadado um rio inteiro para morrer na praia".
...
- Estão com fome?
- Muita!- Respondeu Janet.
Ambas mal puderam tocar em seu sanduíche quando o ajudante de Bertiolli anunciou sua chegada para dar reforço em sua ação. Estavam sentadas no sofá gasto na cor âmbar do pequeno muquifo que estavam instaladas. Ele as levou temporariamente para um lugar onde não fosse sua casa, era um pequeno local de um cômodo só alugado por um de seus homens que cedeu para que as duas fossem recebidas. O lugar cheirava a cerveja e azeitonas, as paredes eram velhas e descascadas e mal haviam móveis dispersados pela casinha.
Ligou a televisão, para que elas pudessem não pensar nas coisas que sofreram até e se distrair um pouco, mas foi impossível quando ligou a televisão e estava direto no noticiário. A repórter anunciava algo que chamou a atenção de todos:
"... Parece que um dos homens mais procurados de nosso país foi morto nesta madrugada a pedradas, seu nome era Pascoal Hernovick, um traficante de drogas e armas muito poderoso. A polícia encontrou seu corpo em um beco ao lado da pedra que foi o instrumento que tirou sua vida. No momento, houve uma investigação no local e descobriu-se pelas câmeras instaladas mas ruas que o assassino do criminoso nada mais é que Júlia Jackson (foto ao lado da repórter), a menina que desapareceu junto com sua irmã em Nova Iorque há três anos atrás com suspeita de ter sido trazida para a Itália para ser traficada por traficantes de humanos. Concluiu-se então que ela o assassinou para poder fugir de seu cativeiro, e agora estão sendo procuradas pela polícia por toda a região, inicialmente na intenção de colher informações a respeito do responsável do sequestro e posteriormente elas vão ser reportadas e Júlia Jackson responderá legalmente em seu país pelo assassinato de Pascoal. Quem tiver informações, será muito bem recompensado, pois ambas são consideradas a 'Chave Mestra' para a descoberta de uma máfia especializada em Tráfico Humano..."
- Parece que não sou mais apenas eu a saber de sua fuga.- Debochou Bertiolli.- Deveria ter escondido as provas de seu crime, querida.
- Vá para o inferno!- Disse Júlia olhando em seus olhos.- Eu estou morta. Eles tem homens infiltrados na polícia, não posso ser achada ou me tornarei um arquivo morto.
- Não se preocupe.- Caminhou até a cozinha que era separada da sala por finas pilastras de gesso.- Enquanto eu estiver com vocês, estarão seguras.
- Ah, é mesmo?- Debochou.- Por acaso sabe com quem está lidando, ou pensa que Enzo é um traficante de meia tigela?
- Ninguém é invencível, senhorita Jackson!- Rebateu, pensando estar lidando com a mulher mais difícil que já conhecera.- Sei quem é Enzo e lhes asseguro mais uma vez sobre estarem seguras comigo.- Suspirou.- Não sou o homem mais inexperiente e também tenho meus homens, acha que estaria vivo se não recorresse a uma forma de me proteger?
Eles se olharam através da pilastra, mas logo ela desviou seu olhar, encarando o homem a sua frente. Não confiava no amigo do investigador, ele tinha um jeito de ser corrupto assim como vários outros policiais que já viu na máfia ao longo de três anos, seu olhar denunciava isso. O homem logo percebeu estar sendo observado e lançou-lhe um olhar intimidador, mas não causou efeito sobre Júlia que continuou a encará-lo. Ele bufou se levantando e caminhou até a saída, batendo a porta com força. Logo Bertiolli chegou com uma bandeja em mãos e a colocou na mesinha de centro. Eram três pratos com comidas e três copos com Coca-Cola. Cada um pegou seu prato e começou a comer em silêncio. Finalmente estava resolvendo o caso pelo qual tanto batalhou para ter ao menos uma pista e por obra do destino as principais personagens desta história caíram bem em suas mãos. Sorriu consigo mesmo, decidido a deixar esse caso apenas quando as duas estivessem em plena segurança, mas ele sabia que talvez elas nunca mais ficariam totalmente seguras.
- Estaria disposta a me contar tudo pelo que você passou, Júlia?
- E por que eu contaria, investigador?
- Me chame de Bertiolli. Bom, porque só assim eu conseguiria te ajudar a sair deste inferno.
- Meu inferno nunca terá fim, mas eu te contarei como tudo começou.- Ela se inclinou sobre seus joelhos.- Mas antes, quero saber quem te contratou para me procurar.
Matarazzo havia passado mais uma noite sob os efeitos do álcool, o homem havia bebido muito dentro de sua própria casa, suportando a solidão e a amargura da tristeza. Desde que rompeu seu namoro quando ainda morava com sua mãe e se mudou para uma cidade fria e longínqua de onde sua progenitora morava, Bertiolli nunca voltou a ser o mesmo. Não suportava a realidade de ter sido traído por Antonella bem embaixo de seu nariz, também não entendia o que havia feito para merecer uma traição vinda de duas pessoas que amou e confiou tanto.
Sim, sua namorada o traiu com alguém muito próximo na época e era isso o que mais doía no homem. Abriu seus olhos, sem se mexer na cama, apenas encarava o nada, jogado de bruços nós lençóis de seda com a mente vazia e ao mesmo tempo transbordando. A dor latejante não era mais forte que seus pensamentos infames de querer romper sua vida imediatamente, Matarazzo havia acostumado com a dor de ter seus sonhos não realizados, mas não conseguia parar a dor da frustração. Ter uma família ao lado de seu primeiro amor, filhos, uma casinha de campo e um cachorro, ele seria capaz de tudo para que isso fosse realidade, mas tudo acabou quando entrou na biblioteca daquela casa, pegando Antonella aos beijos com seu primo mais próximo. Como o imaginado, houve uma briga muito feia, onde Bertiolli espancou seu primo e escurraçou os dois de dentro de sua casa. Sua mãe tentava o acalmar a todo momento, mas não era possível, pois o homem presenciou uma das piores cenas de sua vida, uma que não estava sendo fácil superar, mesmo depois de três anos. Quando se mudou da casa da mãe, imaginou que seria mais fácil superar a cena que marcou seus sentimentos ao nunca mais cruzar com Antonella que, insistia em invadir sua casa várias vezes, mas não foi bem assim. Ainda depois de três anos, ele bebia para afogar as mágoas e esquecer o rosto daquela maldita loura e magricela.
O aparelho ao seu lado o assustou com o som estridente de uma chamada que estava recebendo. Poderia ser mais um cliente, afinal, esses anos morando sozinho serviram para Bertiolli se dedicar ainda mais na carreira de investigador particular e se tornar conhecido não só em seu país, mas em muitos lugares do mundo. Ainda sentindo a cabeça pesar pelo efeito do álcool, o homem se inclinou até o criado mudo e pegou o aparelho, vendo no visor um número internacional. Respirou fundo, quem poderia ser? Neste tempo como investigador, não adquiriu nenhum inimigo pelo caminho, mas todo o cuidado que tomaria ainda era pouco. Seu trabalho era extremamente sério e sigiloso, ele apenas investigava casos de forma particular e algumas vezes fazia perguntas a testemunhas colaboradoras, mas nunca se envolveu a fundo com a criminalidade ou com os envolvidos em questão. Entrava e saía de seus casos sem que fosse percebido pelos investigados, a maioria eram criminosos. Depois de haver desistido de ser delegado, essa era a sua profissão que vinha levando já há alguns anos.
A chamada de findou sem ser atendida, Bertiolli estava se sentindo muito lento para atender alguém naquele momento e mesmo um cliente teria de esperar. Colocou o aparelho ao seu lado na cama e voltou a fechar seus olhos, a fim de dormir por mais algumas horas e então estaria novo como um bambu à beira do rio. No entanto, seu celular voltou a tocar, o importunando. Apertou ainda mais seus olhos e se virou na direção contrária do aparelho, não queria escutar a voz de ninguém, não queria ser importunado, apenas dormir até que se sentisse bem novamente. Deixou que tocasse até cair na caixa de mensagens, dessa vez não voltando a tocar, se sentiu satisfeito. Ele permaneceu deitado por mais algumas horas do dia, não se importando com as horas, ressonando e voltando à consciência por algumas vezes, até que decidiu se levantar. Pegou o aparelho em suas mãos e saiu de seu quarto, em busca de sua máquina de café, era isso que o mantinha acordado durante o dia.
Preguiçoso, era o que lhe descrevia depois que havia saído da casa de Donatela, sua mãe. Bertiolli passava a maior parte do tempo dormindo quando não estava trabalhando, não fazia vínculos mais fortes além dos homens que trabalhavam para ele em alguns casos e nunca se relacionava com mulheres, principalmente as loiras, pois apenas uma havia deixado uma marca que se lembraria pelo resto de sua vida. Já na cozinha, colocou a cápsula dentro da máquina e esperou o café cair em sua xícara lentamente, enquanto pegava uma torrada dentro de seu armário. Se encaminhou em direção à sala e se jogou lá mesmo, ligando a televisão e colocando em um programa infantil. Desenhos eram os seus favoritos, talvez a alma ainda fosse a de uma criança que nunca cresceria dentro dele. Sorriu, enquanto tomava seu café e assistia a programação.
Bem, parecia que quem quer que fosse, não o deixaria em paz até conseguir falar com ele, pois seu celular voltou a tocar quando estava na parte mais importante do desenho. Bertiolli bufou, pegando o aparelho em mãos e encarando o mesmo número no visor. Atendeu imediatamente, esperando a primeira palavra vir da pessoa que estivesse do outro lado da linha.
- Olá, senhor Matarazzo.- A voz grave ecoou em seus ouvidos em um idioma diferente do seu.
- Boa tarde.- Respondeu em inglês ao estranho.
- Sou Lucke Walker, é um prazer finalmente falar com o senhor, espero não estar atrapalhando.- Bertiolli não o respondeu.- Bem, liguei para o senhor a fim de contratar seus serviços, recebi muito boas referências a seu respeito. Espero que esteja disponível.
Bertiolli relaxou um pouco, por saber que se tratava apenas de um cliente. Ele sabia que em qualquer momento algum criminoso poderia se dar conta de que fora investigado pelo Matarazzo e querer se vingar. Levou a xícara a sua boca, ingerindo um grande gole de café, antes de responder:
- Estou disponível, senhor Walker. O que deseja?
- Estou a procura de duas pessoas muito importantes para mim, investigador. Elas desapareceram perto do lugar onde moravam, aqui em Nova Iorque, no Bronx.
- Certo.
Ele estava acostumado a lidar com casos de desaparecimento, na maioria deles as pessoas foram encontradas, ou apenas seus corpos, deva ser por este motivo que o homem havia ligado, afinal, Bertiolli era muito bom no que fazia. Esse era mais um caso de desaparecimento, dessa vez, nos Estados Unidos.
- Elas são apenas duas adolescentes imaturas e cheias de sonho.- Suspirou.- Acredito que possam ter sido enganadas.
- Não me leve à mal, senhor Walker.- Ironizou.- Mas são duas adolescentes, podem ter fugido com os namorados!
Ele sentia que já tinha experiência suficiente para fazer esse tipo de comentário. No mais, eram casos quase fúteis que vinham a sua mão, os mais importantes sempre eram mais raros, por este motivo o homem sentia que por mais uma vez encontraria adolescentes rebeldes pensando ser adultos.
- Não, investigador.- O homem riu nervoso do outro lado da linha.- Minhas filhas foram sequestradas pela máfia Italiana, sei disso. Antes de o contatar, a polícia local fez algumas investigações sobre o caso e não conseguiram muito, mas as câmeras mostraram um rosto familiar ao lado delas. Enzo Rafaello.
O nome fez Bertiolli parar por um instante, se dando conta de que o caso era muito mais sério do que imaginava. Então estava lidando com um caso relacionado à máfia Italiana e isso era muito perigoso. Ninguém que se metia com Enzo Rafaello, líder dessa organização criminosa, saía impune. O homem tinha não só sangue italiano em suas mãos, mas também era filho da "princesa" da máfia russa e fazia jus à fama. Bertiolli sentiu sua espinha se arrepiar, da última vez que chegou perto desta tal máfia foi descoberto e esteve a um passo da morte, mas não iria desistir de exercer seu trabalho, mesmo que isso lhe custasse a vida.
- Então pensa que se trata de...
- Tráfico humano.- Walker o cortou.- Elas vão ser escravas sexuais.- Concluiu com pesar.- Preciso que salve minhas filhas, investigador.- Suplicou.- Venha para Manhattan amanhã, pagarei sua estadia aqui e falaremos mais a fundo sobre o caso, aceita?
- Eu não nego serviço, senhor Walker. Claro que aceito.
Eles acertaram mais algumas coisas, como sua estadia que seria paga por Lucke e o local onde deveriam se encontrar. Matarazzo encerrou a chamada feliz por seus serviços ainda ser um dos mais requisitados, mas ao mesmo tempo a preocupação de ter que investigar a máfia mais uma vez o tomou e todo o seu corpo tremeu, sentindo um calafrio. Refutou aqueles devaneios e se levantou, levando sua xícara até a máquina de lavar louças e depois se dirigiu ao quarto, a fim de tomar um belo banho. Iria encontrar as bambinas mesmo que isso lhe custasse a vida, era um compromisso sério que tinha com o seu trabalho todas as vezes que assumia algum caso, dando sua total dedicação e até sua vida, se fosse necessário. Desistir não era uma opção. Bertiolli estava na tal profissão por amor. Rafaello não seria o primeiro que o faria parar.
...
Alguns dias antes:
Bronx, às 09:00h.
O sinal tocou, liberando os alunos para fora da sala, era a hora de se dirigirem ao refeitório para comer algo e descansar, pois ainda haviam algumas aulas após este intervalo. Júlia Jackson tinha dezesseis anos e era estudante do décimo ano, estava no ensino médio da escola que ficava há algumas quadras de sua casa, a menina e sua irmã estudavam em tempo integral. Ela amava quando o sinal tocava, era o momento que ficaria com sua única e melhor amiga antes de uma tortura de muitas aulas pela frente. As irmãs tinham apenas uma a outra e mesmo que Janet fosse três anos mais nova que a irmã, as duas se entendiam muito bem. Ambas não tinham amigas na escola, afinal, eram as mais pobres e nunca tinham dinheiro para fazer o que os outros adolescentes faziam, como ir ao shopping comprar um lanche, ou ir a uma festa na casa dos amigos. Elas dependiam unicamente de sua mãe, que trabalhava como faxineira na casa de uma senhora rica e ganhava uma mixaria por isso, ela mal conseguia sustentar as filhas. Juntou suas coisas e estava prestes a sair da sala, acompanhando o aglomerado de pessoas, quando o professor Peter parou bem em sua frente, fazendo-a estancar.
- Senhorita Jackson, bom dia.
A garota o encarou confusa, não entendia o que o professor queria, já que só tirava notas altas em sua matéria, estava morrendo de fome, pois em sua casa na noite passada, não puderam nem desfrutar de um jantar decente, aliás, não teve jantar em sua casa e muito menos o café da manhã. Sua mãe estava atolada em dividas e descobriu um câncer na cabeça em estado avançado, precisando comprar remédios caros e quimioterapias para a sua sobrevivência, mas mentiu para as filhas, dizendo ser apenas um tumor leve e benigno que logo seria sanado.
- Bom dia, professor Peter.- Sorriu.- Algo errado?
- Comigo, não.- Ajeitou seus óculos fundos de garrafa no rosto.- O diretor Wilker me mandou entregar este documento, você deverá entregar a sua mãe imediatamente, é o segundo mês que ela não paga a mensalidade da escola.
O professor esticou a mão em sua direção, contendo um envelope com o remetente da escola. Júlia juntou as sobrancelhas, sua mãe não havia comentado sobre a falta de pagamento das mensalidades da escola. A garota até se ofereceu para ajudar a mãe nas horas vagas, arrumando um serviço em uma loja de conveniência qualquer, mas a mãe da garota negou, disse que seu único dever no momento era se dedicar aos estudos e nada mais. No fundo, ela apenas queria que as filhas não tivessem o mesmo fim que ela.
- O que?- Pegou o papel.- Minha mãe não comentou nada sobre isso comigo.
- Diga a sua mãe que se ela não pagar as duas mensalidades em uma semana, teremos que barrar Janet e você na entrada da escola.
- Uma semana é muito pouco, professor.
- Sinto muito, podem recorrer a uma assistência social para pedir apoio.
A garota tinha seus olhos cheios de lágrimas. A única coisa que gostava tanto fazer poderia ser tirada dela em apenas uma semana, ela poderia ser barrada de entrar na escola e se dedicar aos estudos, como fazer sua família sair da miséria se não poderia estudar? Comprimiu os lábios. A fome já não era mais tão importante para a garota.
- Júlia, se não houver uma ação de sua mãe, teremos que processá-la pela falta de pagamento e por colocar vocês duas em uma situação como esta e aí pode ser pior.- Colocou a mão no ombro da garota.- Se o juiz a achar incapaz de criá-las, vocês serão levadas para orfanatos.
- Por favor, professor. Dê-nos mais uns dias.
- Sinto muito, não sou eu quem decide isso.
As lágrimas quase transbordaram dos olhos dela, que apenas assentiu e saiu corredor adentro até a sala do diretor. Estava decidido, Júlia iria começar a estudar apenas meio período e arrumar um emprego para ajudar com as contas dentro de casa, já que sua mãe fazia questão de as criar sozinha e nunca lhes contara quem é seu pai. Ela sequer recebe ajuda financeira do homem, levando a filha mais velha a crer que seu pai nem sabe da existência das duas. Um dia ela tiraria essa história a limpo, mas no momento certo, agora era a hora de tentar pedir mais alguns dias ao diretor Wilker. Ela sabia que o superior era um cara durão, mas tentaria mesmo assim.
- Bom dia, senhorita.
A secretária a atendeu assim que chegou na recepção. Encarou a mulher sentada na mesa próxima a porta que dá acesso a sala do diretor. Trajava um vestido azul e emanava um sorriso curto em seus lábios pequenos. Era loura, a pele bem clara e olhos azuis. Mesmo com seu sorriso, a garota pôde perceber o olhar que a secretária lhe lançou disfarçadamente através dos óculos quadrados em seu rosto. A garota se perguntava naquele momento o que diferenciava-a da que estava sentada naquela mesa, se eram as roupas velhas e desgastadas, os tênis All Star com a sola começando a descolar, a falta de dinheiro ou se era a cor de sua pele ser mais escura. Qual era o motivo para tal olhar de reprovação e até mesmo nojo?
- Bom dia, o diretor Swan está?
- Sim, espere um minuto.
Ela pegou o telefone e o colocou ao ouvido, desviando seu olhar para um lado qualquer.
- Senhor Swan, há uma aluna que deseja falar com o senhor.
A voz do homem ecoou do outro lado da linha, perguntando algo que Júlia não conseguiu entender.
- Sim.- Respondeu apenas.- O nome dela é...- Colocou a mão tampando a entrada de voz do aparelho e se virou para a aluna.- Qual o seu nome, querida?
- Júlia Jackson.
- Júlia Jackson!- Repetiu.- Certo... Ok, senhor.
Ela desligou o telefone, devolvendo um olhar ainda pior para a adolescente, dessa vez sem sorrisos e se levantando em seguida para falar-lhe diretamente. O disfarce não era mais vivido em seu rosto, agora emitia um certo desprezo, Júlia se sentiu constrangida, mas continuou ali, esperando pela resposta.
- O diretor Swan disse que não tem nada a tratar com a senhorita e que se quiser resolver a questão da falta de pagamento das mensalidades escolares, que traga a sua mãe e ele falará diretamente com ela. Tenha um bom dia, senhorita Jackson.
A secretária não deixou nenhuma brecha para que a menina pudesse insistir e suas palavras foram cortantes como facas pontiagudas em seu peito. As lágrimas que antes foram seguradas, agora venceram as forças de Júlia, saindo para fora imediatamente e banhando seu rosto pela água salgada. Ela apenas assentiu a contragosto, se virou e foi embora, inconformada por não poder resolver sequer um assunto sobre seus estudos. O que iriam fazer? Caminhando por entre os corredores, em busca do refeitório, Júlia sentia que nada poderia piorar em sua vida. Se ao menos conseguisse convencer sua mãe de contar onde estaria seu pai, talvez a menina conseguisse o convencer de as ajudar financeiramente, ou o colocar na justiça para sequer conseguir fazê-lo pagar as mensalidades da escola para as filhas. Era um homem tão ruim ao ponto de ter rejeitado a mulher com duas filhas?
A menina chegou ao refeitório, vendo sua irmã acenar para ela alegremente enquanto estava sentada sozinha em uma mesa, com duas bandejas de comida. Janet selecionou exatamente o que a irmã mais gostava enquanto estava ausente e esperou pacientemente por ela, sem se importar com os olhares dos outros adolescentes, Janet era muito inocente para entender que seus olhares se dava porque as duas eram as únicas negras e as mais pobres da escola. A mais velha disfarçou, limpando as lágrimas e reprimindo o choro enquanto se aproximava da mesa, se sentou ao lado de sua única amiga, que parecia muito entusiasmada nessa manhã.
- Onde estava? Demorou! Ah, veja, serviram pudim hoje.
- Tive que ajudar o professor Peter até a sala dos professores, ele estava com muitos livros e não conseguiria levar sozinho.- Mentiu.
- Oh, coitado. Que bom que tenho uma irmã boa como você.
Ela se virou levemente, pegando um papel no bolso de sua jaqueta estendida na cadeira e o entregou à Júlia.
- O que é isso?- Pegou o papel em suas mãos.
- É uma inscrição para modelos! Peguei do mural da escola.- Esse era o motivo de seu entusiasmo.- Sabe quem vai estar lá? Jack Williams, o maior estilista do país! Foi ele quem impulsionou a carreira de dezena de modelos. O que acha?
Julia havia entendido a animação da irmã naquele momento. Era seu sonho ser modelos, mas era uma carreira muito cara, precisaria de muitos investimentos e ainda assim poderia correr o risco de ir ao fracasso, para piorar, as duas não tinham dinheiro para investir no sonho de sua irmã mais nova. Ela sorriu fracamente para a mais nova, tentando contornar a situação, não queria decepcionar Janet, mas um evento como este seria impossível levando em consideração a situação que levavam.
- Jan, isso é muito caro. Provavelmente para se apresentar nessa passarela, não vai custar menos de mil dólares.
- Você não leu? É gratuito!
- Mas e se você ganhar? Quem vai pagar seu book, quem vai bancar sua carreira?
Janet revirou os olhos, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia no mundo. Ela havia lido o panfleto mais cedo e sabia todas as informações contidas. Estava decidida a ir até o local onde seria o evento, mesmo que tivesse que ir sozinha.
- Jack Williams!- Ela sorriu.- Está escrito bem aí, ele vai ajudar os três melhores a alavancar a carreira, será como um empréstimo, se ficarmos famosos, então devolveremos o investimento. Vamos comigo, por favor?
- Não sei...- Júlia abriu o papel, analisando-o.- Parece suspeito, tem certeza de que é real?
- Você acha que a escola colocaria um anúncio falso no mural? Se está aqui, é confiável, vamos, por favor.
A mais velha voltou a encarar o rosto da irmã, pensando não fazer sentido. O que um famoso iria fazer no Bronx, numa das áreas mais perigosas? No entanto, ver a animação da irmã a fez ceder, afinal Júlia tinha medo de que se não fosse com Janet, ela iria sozinha e não teria como se proteger.
- Tudo bem.
...
Manhattan
21:00h.
Bertiolli encarava o homem em sua frente, sentado, vestindo um terno. Havia descoberto que o pai das duas garotas pobres era um banqueiro milionário. Não entendia como alguém como ele poderia deixar duas filhas viverem no Bronx, em um dos bairros mais ralés, enquanto ele desfrutava de uma vida milionária, cheia de regalias. Lucke Walker havia contado tudo o que a polícia havia descoberto sobre as filhas, também mencionou a mãe com câncer que mal conseguia pagar as mensalidades da escola de ambas. Seu sangue estava fervendo, não aceitava que alguém tão bem de vida tivesse deixado as filhas à própria sorte. Teve que perguntar:
- E onde estava o senhor todo este tempo?- Viu o homem o encarar com uma expressão tranquila.- O senhor abandonou suas filhas, Lucke?
Um sorriso fraco apareceu nos lábios do homem já velho, desviando seus olhos para a janela grande que o fazia ver o céu. As memórias lhe atingiram.
- Eu já era casado quando conheci Lindsay Jackson. Ela começou a trabalhar em minha casa quando a profissional que limpava o apartamento infelizmente faleceu. Foi paixão a primeira vista. Não demorou muito e nós começamos a ter um caso extraconjugal, eu não amava a minha mulher, me casei por conveniência. Iria me divorciar e assumir o amor que senti por minha empregada quando minha esposa anunciou que teríamos o primeiro filho.
O velho se levantou, caminhando calmamente até a janela, acendendo um cigarro. O investigador também se levantou para o encarar, estava curioso para saber o que o levou a abandonar duas filhas.
- Contei a Lindsay e mesmo com o filho que iria ter, me separaria, a pensão alimentícia não é um carma para mim e minha esposa também tem seu dinheiro, mas ela não quis. Se demitiu imediatamente e desapareceu, secretamente levando Júlia em seu ventre. Alguns meses se passaram até eu descobrir sobre a criança e seu paradeiro com minha primogênita, Júlia é mais velha que meu filho Brad por dois meses, ele ainda estava na barriga de minha esposa quando ela nasceu. Foi mágico ver aquele bebê tão pequeno e tão parecido comigo.- Sorriu.- Era meu sangue correndo em suas veias. Bom, tivemos uma recaída depois disso, que durou mais alguns anos.
- E depois você as abandonou?
Bertiolli recebeu o olhar do velho Lucke, ele entendia a revolta emanada dos olhos do investigador, nenhum homem que abandona o próprio sangue merece viver, mas não foi bem assim que aconteceu.
- Lindsay decidiu ir visitar a mãe, aquela foi a última vez que a vi. Não sei onde sua mãe morava, só sabia que era em outro país. Depois disso ela me ligou desesperada, anunciando a falsa morte de Júlia. Eu pedi que ela viesse, implorei para ver pela última vez o corpo de minha filha, mas não foi possível a convencer. E eu tentei de várias maneiras a encontrar, fui em vários países, fiz contatos com investigadores, mas nenhum foi capaz de descobrir o paradeiro de minha ex amante. Com minha filha Janet foi diferente. Ela cresceu longe de mim, nunca pude a pegar em meus braços, beijar sua face, eu sequer sabia da existência da garota até alguns dias atrás.
- E como você ficou sabendo?
- Eu vi o noticiário, vi a foto das duas, liguei os pontos e tive a certeza de que eram minhas.- Suas lágrimas apareciam nos olhos, mas Walker era durão, não se deixava chorar.- Para confirmar, Lindsay me procurou no banco no outro dia de manhã e me contou tudo e que o que a levou a esconder as filhas de mim, foram meu casamento e meu filho Brad. Eu a odeio agora. Amor está muito distinto, pois fui enganado por diversas vezes por essa mulher. Ela deixou minhas filhas passarem fome e necessidade por orgulho, só soube delas por causa do desaparecimento.
As notícias na cabeça de Matarazzo fizeram uma mudança de opinião. Se foi assim mesmo que aconteceu, então o homem não tinha culpa de nada, mas a mãe das duas. Sentiu seu peito doer, não conseguia sequer imaginar ter crescido longe de seu falecido pai. Ele era tudo para Bertiolli. Quando morreu, o homem sentiu por algum tempo que a vida não fazia mais sentido, ele tentou suicídio por duas vezes, mas desistiu e decidiu ser forte por Donatela.
- Quando as encontrar, senhor Matarazzo,- Interrompeu seus pensamentos.- peço que tenha sigilo. Não fale nada sobre mim, ainda. Não quero que saibam de mim nessa situação, quero me aproximar, ganhar sua confiança. Elas não vão me aceitar de imediato se me conhecerem antes de Lindsay dizer toda a verdade e a fiz prometer isso. Espero que entenda.
- Assinei um contrato de sigilo, Júlia.- Desabafou.- Você saberá na hora certa toda a verdade. No entanto, ainda preciso saber como tudo começou, quero saber com quem estou lidando, só assim poderei te ajudar.
...
Lembrança:
Dia do sequestro.
Bronx, cinco e quarenta e cinco da tarde.
Elas haviam acabado de chegar no prédio onde seria o tal desfile que iria selecionar garotas profissionalmente para se tornar famosas. Logo na entrada já haviam muitas garotas de diferentes características, o que deixou Janet um pouco desanimada, ela não sabia se poderia ser selecionada, já que haviam tantas meninas lindas, mas não iria se deixar abater por isso. Agarrou a mão da irmã e saiu puxando, passando pelo aglomerado de adolescentes presentes para o evento. Ela queria ver Jack Williams, era sua fã e só de saber que ele poderia fazer parte de sua carreira como modelo a deixou muito eufórica e ansiosa.
Havia um segurança barrando a entrada das garotas, acalmando-as, informando que só iria entrar, quem fosse selecionada pelos organizadores do evento que estavam prestes a chegar. Janet esperava ansiosamente, na esperança de que sua espera seria muito bem recompensada, enquanto Júlia se preocupava, pois se a irmã fosse selecionada, a garota teria que entrar sozinha. Aquilo estava muito suspeito para a mais velha, que rezava para que a irmã mais nova nem fosse notada, ela se preocupava demasiadamente, pois Janet era muito inocente, não conhecendo as maldades do mundo. Nenhuma das duas conhecia, mas estavam prestes a conhecer.
Júlia estava prestes a chamar a irmã para voltarem o caminho, pois sequer sua mãe tinha conhecimento de onde estavam, quando o aglomerado de garotas se abriu ao meio e todas se viraram para ver o automóvel que havia parado bem em frente. Era uma limusine preta, não muito longa, mas o suficiente para hospedar três pessoas que haviam acabado de descer. Uma mulher muito elegante, de cabelos soltos e dois homens vestidos com o terno mais fino que haviam encontrado. Um deles havia acabado de tirar o óculos de sol de seu rosto, dando uma visão perfeita. Várias garotas encaravam-no, algumas sonhando em se casar com alguém tão bonito quanto Enzo Rafaello.
Júlia por sua vez, analisava os três. Nada tirava de sua cabeça que havia algo suspeito e ela esperava saber a tempo e tirar sua irmã dali imediatamente. A mulher era alta e elegante, uma expressão jovem no rosto, mas sua idade a entregava pelo pescoço levemente flácido e com algumas pontas, resultado de alguma plástica rejuvenescedora. Em suas mãos segurava uma maleta, parecia ser uma espécie de assessora particular ou secretária, ainda assim muito elegante e linda como qualquer modelo. O segundo homem tinha cabelos cacheados e bigode, seus cabelos faziam uma espécie de proteção ao redor da cabeça, rebeldes como fios de eletricidade. Um sorriso fraco sem mostrar os dentes, mãos a frente do corpo, óculos de sol e postura despojada. Já o que estava no meio, já sem seus óculos de sol, fizeram a espinha da garota dar pontadas de alerta. Sentiu um arrepio ao encarar seu rosto pálido e quadrado, o maxilar firme, músculos saltando da roupa, relógio caro no pulso esquerdo, pele alva lábios rosados e carnudos e olhos azuis como o céu do meio dia. Aquele homem, apesar de ser o mais lindo que havia visto, era algo de misterioso e medonho, alguém a quem ninguém tem coragem de enfrentar. E ela sentiu um certo pavor quando seus olhos azuis e gélidos a encontraram no meio da multidão, não se desviando dela.
Eles se aproximavam caminhando ativamente, mas seus olhos não saiam da garota de cabelos e pele negros. Júlia olhou para o lado, desviando os olhos, mas ainda sentindo o olhar frio sobre ela. Janet cochichou ao seu lado:
- Ai, meu Deus, Júlia!- Sacudiu seu braço de leve.- Jack realmente veio!
- E quem é ele?
- O que tem o cabelo cacheado. Não acredito que não o conhece.
- Quem quer ser modelo aqui é você, irmã, não eu!
Nesse momento, algumas meninas tentaram ir para cima do trio, a fim de dar um abraço em seu ídolo, ou tirar uma foto, elas queriam a todo custo pelo menos tocar em Jack, mas alguns seguranças que vagavam pelo local rapidamente impediu o ato. Eles passaram por todos com exito, alcançando a porta e parando ali, enquanto os homens fortes faziam uma barreira naquele aglomerado para que não conseguissem passar, apenas quem fosse selecionada.
- Olá, Pessoal.- Jack começou, chamando a atenção de todos.- Que bom que estão animados para hoje. Sinto informar que iremos selecionar apenas quinze de vocês, mas não fiquem chateadas, eu posso voltar a realizar esse evento...
Enzo internamente revirava-se para o discurso intediante do homem o qual ele pagou para ser sua marionete naquele dia. Jack era apenas a ferramenta que ele usaria para capturar as mais belas dentre tantas jovens desesperadas por fama, mas uma em específico lhe chamou a atenção, uma beleza imensurável aos seus olhos. Ele não conseguia deixar de olhar para a garota de pele escura ao lado de alguém que parecia sua irmã, Enzo tinha ótimos planos para as duas de olhares inocentes. Surpreendentemente a que estava a seu interesse não parecia estar gostando de estar ali, como se estivesse sendo obrigada e a qualquer momento pudesse sair correndo arrastando a irmã junto. Ele sorriu, não se importava com a diferença crucial de idade entre os dois, em sua mente já imaginava coisas sexualmente absurdas para uma adolescente imatura. Enquanto Jack fazia o discurso, Enzo sussurrou em seu ouvido:
- Deixe duas em aberto, eu já as escolhi.
- Ah, ok.
Alguns minutos se passaram e o estilista finalmente anunciou que escolheria algumas dentre as garotas, começando imediatamente pelas mais altas, magras e as que julgava mais aparentes ao seu ver profissional, mas logo chegou a vez de Enzo, então, ele voltou a encarar as irmãs.
- Vocês duas.- Apontou com o queixo e logo os seguranças abriram caminho para que elas pudessem passar.
- Eu só estou aqui para acompanhar minha irmã, não estou neste concurso.
Anunciou a garota o surpreendendo e dando uma pontada de esperança para as outras garotas ao redor, ainda restará uma vaga, elas pensaram.
- Então entre junto com ela e a veja desfilar.
A sugestão de Enzo era suspeita, já que o segurança havia anunciado há alguns minutos que acompanhantes não entrariam. Júlia engoliu seco, sentindo as mãos suar e as pernas tremer, algo dizia para ela sair dali imediatamente, levando a irmã, antes que fosse tarde de mais. No entanto, a euforia de Janet por ter sido escolhida a venceu mais uma vez quando recebeu um abraço da irmã, e logo depois foi arrastada pela mesma para dentro, passando pelo homem. Enzo inalou o cheiro da bela menina que havia acabado de passar não muito distante dele, fechando os olhos por breves segundos. Havia conseguido. A partir do minuto que as garotas entraram no prédio, elas jamais sairiam livres. Assim que Jack fez um último discurso, eles entraram, o show iria começar.
O estilista sabia desde o começo em que estava se metendo, sabia que as garotas, na verdade se tornariam escravas sexuais, mas havia entrado nesse jogo, pois o dinheiro que Enzo lhe ofereceu era muito alto. Fora uma jogada de mestre o envolver nisto.
Já dentro do prédio, havia um grande salão de entrada, era ali que deveria acontecer o tal desfile, mas não era bem assim. Enzo deu ordem ao seguranças para tirar toda aquela aglomeração de meninas da frente de seu prédio o mais rápido possível, não queria correr o risco de ter testemunhas contra ele, para elas teria de ser mais um dia comum, onde perderam a seletiva do concurso para quinze garotas. Enquanto isso, lá dentro já estavam todas enfileiradas, uma ao lado da outra, ele observou as quinze garotas com uma certa emoção, com a beleza de cada uma, ele tinha certeza de que mais um ramo de seus "negócios" iria bombar ainda mais, tornando-o cada vez mais poderoso e temido. Eram garotas jovens demais, mas que iriam ser obrigadas a ver seus sonhos interrompidos por um psicopata criminoso que só pensava em sua maldita máfia. Caminhou por entre as garotas, observando-as de cima abaixo, fazendo uma lista de onde cada uma iria, haviam muitos locais no mundo onde ele tinha seus negócios ilícitos, em parceria com outras máfias, era assim que se mantinha de pé. Parou, especificamente de frente para uma certa garota de beleza extravagante que se destacava entre todas presentes, de cabelos negros e longos, olhos castanhos claros, boca carnuda e pele escura, ela era dona de um corpo escultural e mesmo já imaginando sua idade abaixo da maioridade, ele já imaginava-a em sua cama, imagens ilícitas. Olhava no fundo de seus olhos, sabendo que aquela era uma garota muito esperta, pelos sinais que dava, parecia já saber que não sairia de dentro do local da forma que entrou, pois ela segurava o braço da outra que Enzo julgou ser sua irmã com certa força enquanto o encarava desconfiada. Pegou uma mexa de seus longos cabelos, levando às narinas e sugando cada partícula de seu cheiro, ele poderia jurar que a garota tremeu de medo no mesmo segundo.
- O que está acontecendo?
Enzo sorriu para sua pergunta que quase saiu como um fio de sussurrou da garganta fina da menina. Encarou seus olhos temerosos, deixando a mexa cair de seus dedos. Ele inclinou um pouco a cabeça para a encarar, ignorando completamente a pergunta:
- Como se chama?
- J-Júlia...- Sua voz estava tão baixa que quase sussurrou, mas foi o suficiente para o homem escutar.
- Júlia.- Repetiu seu nome como se fosse a última coisa que diria em sua vida.- Lindo nome.- Encarou a mais nova ao lado.- Sua irmã, certo?
A mais velha apenas balançou a cabeça positivamente, afirmando sua questão. Ele se afastou, ainda sem tirar seus olhos de Júlia, indo até Leila, a mulher que o acompanhara até o local, juntamente de Jack. Ela era a responsável por enviar as meninas escolhidas para os locais de preferência de seu chefe, na maioria das vezes ele a deixava escolher, por julgar que ela tinha mais experiência no ramo como sua gerente. Desta vez, duas delas o acompanharia até a Itália, seu lugar de origem e onde o homem estava morando já há alguns anos, depois que se cansou da Rússia, país natal de sua mãe.
- As irmãs irão comigo.
Informou a Leila em um tom de ordem, a mulher apenas confirmou com a cabeça e em seguida escolheu o local de cada uma das garotas em sua mente. Ela não concordava com alguns fetiches de seu patrão, já havia presenciado uma cena como essa outras vezes e em cada uma delas, as garotas terminavam mortas, pois ele havia se cansado de "brincar" de obsessão, mas nada poderia fazer, questionar Enzo seria como pedir para ser morta. Vencida, ela apenas encarou o rostinho de felicidade de cada uma das meninas, olhando para o palco que fora montado falsamente para não levantar suspeitas e elas tentassem fugir antes da hora.
- Boa tarde garotas.- Elas responderam em uníssono.- Bom, sei que esperavam um concurso espetacular, mas vou ter que pedir para que todas se acalmem e tirem suas roupas!- Fez uma falsa expressão de tristeza.- Infelizmente vocês foram enganadas e não passam de nossos produtos.
Ver a expressão de confusão nós rostos das garotas lhe causou uma sensação de tédio, era sempre assim, elas não obedeciam e acabavam sendo forçadas pelos seguranças e foi exatamente o que aconteceu no minuto a seguir, quando ficaram alvoroçadas pelo medo e pela vontade de fugir. Algumas medidas extremas precisaram ser tomadas e algumas até apanharam, criando hematomas em seus rostos. No final, todas tiveram suas roupas rasgadas pelos homens muito mais fortes e tomaram sentimentos de pavor em seus rostos, não sabiam o que aconteceria com elas, provavelmente pediam a alguma força sobrenatural para serem salvas e voltar para casa em segurança, ou pelo menos que aquilo fosse apenas um sonho ruim. Leila entendia cada sensação emitida por cada uma delas, ela havia passado por aquilo quando adolescente também, mas no seu caso era um pouco diferente. Quando tinha doze anos, seu pobre e miserável pai a vendeu por dinheiro para o pai de Enzo, que prometeu cuidar dela como uma filha, mas quando chegou na Itália, tudo o que recebeu foram belas surras e depois fora jogada em um bordel qualquer, onde fora estuprada por diversos homens. O tempo passou e Leila nunca tentou fugir, pois apesar de ter uma vida terrível, ela pelo menos não mais passava fome e pouco a pouco conquistava a confiança do velho. Quando finalmente pôde sair, pediu vingança e lhe fora cedida, assim, voltando para a Venezuela com alguns homens a escoltando e matando seu pai com suas próprias mãos. Depois, ela jurou fidelidade à máfia e ao seu chefe, nunca mais se desprendendo deste ramo, o qual a tornou cada vez mais fria com o tempo.
Com tudo preparado, as garotas foram todas desacordadas e treze foram colocadas dentro de um caminhão, onde foram levadas para o porto, era assim que eles exportação as garotas. Com excessão das duas irmãs, Enzo exigiu que elas fossem levadas com ele em sua limusine e Leila não questionou, mas sabia exatamente onde isso iria parar, ela imaginava uma morte cruel para as duas pobrezinhas.
...
Momento atual, Itália:
Júlia não questionou o investigador por dois motivos: um, ela ainda desconfiava de que ele não estaria a ajudando realmente e não queria provocá-lo e acabar colocando sua irmã em perigo e dois, se ele a estivesse ajudando realmente, ela saberia em algum momento quem o enviou e por mais que demorasse, um dia tudo iria se encaixar. Respirou fundo, antes de lhe dar alguns detalhes do que se lembrava do dia em que fora sequestrada, ela tinha flashes de lembranças de quando ficava ressonando e acordando ao ser dopada e não eram as melhores. Afastou aquilo da mente, tentando focar apenas no que poderia ajudar o investigador, ele precisava saber quem estava o ajudando e o quão forte era a máfia de Enzo Rafaello.
- Eu me lembro de que no dia em que fui sequestrada havia uma mulher que mais tarde descobri ser Leila, a gerente do tráfico humano. Não sei ao certo seu sobrenome, pois só escutei uma vez em anos, mas tem a ver com Vianello, Barrichello, algo assim. Não é alguém conhecida publicamente, mas ela está ligada diretamente nesse ramo. Também havia... Um estilista, Jack...- Tentava se lembrar.
- Jack Williams, eu o idolatrava.- Completou Janet.
- Sim, esse era o nome. Ele faz alguns serviços por fora para Enzo, mas não é diretamente ligado a máfia, só pensa em dinheiro. Com os anos que fiquei presa lá dentro descobri que Enzo tem muito mais que apenas Jack, ele controla e manipula muitos famosos para conseguir cada vez mais garotas inocentes, eu mesma as via chegar. Eles não tem dó de ninguém.- Sua mente viajava por algumas lembranças, dolorosas.- As garotas eram obrigadas a dar conta de no mínimo cinco homens por noite, era a meta delas. E quando pegavam alguma doença, ou quando deixavam de tomar seus remédios e engravidavam, eram espancadas até a morte.
Bertiolli sentiu seu peito estranhamente doer ao imaginar Júlia em uma situação parecida como a que descrevia. Quantos homens passavam pelas boates de Enzo, para que as garotas pudessem dar conta? Suspirou, pois o tipo de pessoas nas quais ele iria lidar eram as piores. A pior máfia da Itália por mais uma vez estava nas mãos de Matarazzo, mas desta vez ele tinha mais experiência, não iria se deixar ser descoberto, mesmo que precisasse se infiltrar lá dentro.
- Eu digo que tive sorte, ou azar.
- Muito azar.
Completou Janet e elas riram amarga e silenciosamente, tinhas uma piada entre si a respeito da obsessão do chefe da máfia por Júlia. Bertiolli a encarou confuso e ela logo tratou de lhe esclarecer:
- Ele ficou obcecado por mim desde o primeiro dia que me viu naquele falso concurso. Não deixava ninguém me tocar, eu era "propriedade" do chefe.- Fez aspas com as mãos.- Todas lá me chamavam de princesinha por isso.- Encarou suas mãos.- Pelo menos isso me trouxe algum benefício.
- Júlia usou essa obsessão como arma para que ele não deixasse ninguém me tocar e me mantive assim, até que Leila apareceu com uma ideia para Enzo, uma que lhe traria muito dinheiro.- Completou Janet.- Ela mencionou o leilão anual de garotas virgens que eles faziam, parece que neste leilão, garotas são vendidas por milhões de dólares e ela sugeriu que ele me incluísse este ano.
As lembranças não fazia nada bem para ambas as garotas. Júlia sequer conseguia encarar o investigador, sentia vergonha e nojo de seus corpo, por ter sido tocada por diversas vezes, sem seu consentimento.
- Tentei de todas as maneiras tirar essa ideia da mente daquele monstro, mas não foi possível, ele estava decidido a ganhar milhões em cima da virgindade de minha irmã.- Encarou-o timidamente.- Foi quando decidi que a melhor opção seria a fuga. Pensei muito bem antes de fazê-lo, ainda tinha alguns meses, fiz isso para que dessa vez desse certo, pois já fomos pegas assim por diversas vezes, mas desta vez teria que ser diferente. Agora estamos aqui, investigador, sob sua proteção. Não sei quem o contratou para nos encontrar, só sei que devo minha vida a esta pessoa e peço que nos ajude. Eu não quero e não posso cair nas mãos de Enzo de novo.
- Irei ajudá-las, só peço um pouco mais de confiança.
Júlia não percebeu o brilho diferente em seu olhar ao encarar Bertiolli exibindo um sorriso triunfal, aquele sorriso mexeu com o interior da garota, em uma parte que havia desligado para sempre, mas sentiu uma batida de esperança. Afastou seus olhos. Ele se levantou e levou seu prato para a pia percebendo que no apartamento cedido para ficarem aquela noite não havia uma máquina de lavar louças, não iria lavar pratos naquele momento, sentia frio. Caminhou até o quarto e pegou um casaco cinza e um cachecol, pois ele morava na parte mais fria da Itália e o tempo de inverno não ajudava muito, além do mais, o aquecedor da casa era o mais vagabundo possível, fazendo questão de ser inútil. Saiu do quarto logo em seguida, avisando que precisaria sair por algumas horas, mas o quarto ficaria livre para as garotas, cedendo a cama para que ambas pudessem se sentir confortáveis. Fechou a porta e se certificou de que estava trancada, tinha dois medos em sua mente: de quem estava dentro tentasse sair e quem estava fora quisesse entrar. Elas não poderiam ficar muito tempo sozinhas, logo voltaria, ele só precisava espairecer um pouco, depois do dia cansativo e cheio de surpresas. O homem intermediava entre a aparição das garotas ser boa ou ruim.
Bertiolli se sentiu atraído desde a primeira vez que olhou para a mulher com um corpo esbelto e coxas fartas, Júlia mexeu com seus sentidos e pensamentos no mesmo instante que a encarou naquela lanchonete, mas infelizmente aquela garota estava proibida para ele pelos muitos motivos óbvios. Colocou as mãos nos bolsos do casaco, se certificando que trouxera seu celular consigo, nenhum tipo de comunicação com o lado de fora era bom para as duas ali dentro, tinha certeza de que o telefone residencial estava desconectado.
Em minutos já estava fora daquele lugar podendo respirar com liberdade sem ter os malditos olhos castanhos sobre si, entrou no carro saindo imediatamente de perto da casa. Precisava pensar em como resolveria aquele caso, era estranho como as coisas estavam quietas de mais, tudo estava calmo e parecia que a máfia nem queria mais ir atrás da "queridinha" do chefe e da virgem que iria ser vendida em um leilão em poucos dias. Fora um único canal que anunciou o recente assassinato de Júlia e uma única vez, ele procurou em seu celular enquanto dirigia notícias como a que viu na televisão, não as encontrando. Júlia tinha razão, Enzo poderia controlar o que quisesse, regendo até mesmo a mídia, todo o país estava na palma de suas mãos. Como alguém como ele poderia ter tanto poder? Uma pessoa assim deveria estar em um presídio, com segurança máxima. Jogou o aparelho no banco do carona, dedicando sua atenção somente na direção.
Suspirou sentindo sua cabeça latejar, esse assunto o deixava muito irritado, não sabia como existiam pessoas capazes de sequestrar mulheres e vender seus corpos para homens, não sabia também como homens eram capazes de "alugar" clandestinamente mulheres para fazer-lhe suas por uma noite contra suas vontades.
Ele dirigiu para bem longe do local onde eles estavam escondidas, precisava se comunicar e não sabia ao certo se seu celular poderia estar grampeado, alguém poderia saber de seu envolvimento na investigação do caso. Ele sabia exatamente onde ir. Desceu do carro em um certo ponto, parecia um simples bar, mas Bertiolli tinha contatos ali, eram pessoas que conseguiam dados clandestinamente e era isso o que precisava, não queria e não podia envolver a polícia no meio disso, mas precisaria ser muito cauteloso, a mesma estava atrás destas meninas. Bertiolli apenas precisou ligar pontos óbvios para saber que se o Rafaello conseguia reger a mídia, então ele também conseguia comandar a polícia, ou pelo menos infiltrar os seus nela. Adentrou o pequeno bar já vendo alguns rostos familiares atrás do balcão. O local era cheio de homens nojentos e beberrões, ele passou por todos sem nem olhar para as dançarinas seminuas, rodeadas por bêbados safados nos pequenos palcos de Polly dance e logo chegou no balcão, cumprimentando o homem em sua frente com um breve aceno de cabeça. O homem sabia quais eram as intenções do investigador em seu estabelecimento e se virou entrando em uma porta, Bertiolli o seguiu, encontrando o velho corredor e em seguida a porta de um pequeno escritório fora aberta para ele, que entrou, desconfiado, ultimamente vinha duvidando de tudo e todos. O homem se sentou unindo as duas mãos, excluindo totalmente a postura de dono de um simples bar e adotando uma outra postura. Olhou para Bertiolli de pé, fez gesto para que se sentasse, mas se recusou.
- E então, do que precisa, velho amigo?
Ele já havia procurado o velho dono do bar por algumas vezes, mas não se considerava nesse nível de afinidade com o mesmo. Ignorou as duas últimas palavras que saíram da boca do homem, talvez já estivesse delirando pela tamanha idade.
- Preciso que encontre os dados completos de algumas pessoas para mim, você sabe, a parte suja.
- Quais os nomes?
[...]
- Investigador Matarazzo? Estávamos mesmo esperando por sua ligação.
A voz inocente e alegre do filho de Walker fez Bertiolli voltar no tempo por alguns segundos e se lembrar do quanto era feliz quando tinha seus pais por perto, o quanto sua vida fora agradavelmente inocente ao lado do velho falecido pai. Ele sorriu de volta, animando-se. Tinha boas notícias para a família Walker, especialmente para Lucke e posteriormente para Brad, que se interessou imediatamente pelo caso ao saber que tinha duas irmãs, uma delas mais velha. Ele queria muito as conhecer, desejava imensamente que fossem encontradas, pois mesmo as conhecendo apenas por uma foto que Lindsay deu a Lucke, já as amava como suas irmãs. Quando pequeno, Brad sentiu falta de alguém que pudesse chamar de irmão, uma figura que pudesse lhe ajudar em suas presepadas. Já a mãe do garoto sequer deu importância e tratou aquilo como fútil, já que nunca aceitou a traição do marido. Ela desejava imensamente que as garotas estivessem mortas e que não houvesse mais nenhuma ligação entre Lucke e Lindsay.
- Deixei a ligação no viva-voz, você pode falar agora.
- Senhor Walker, trago boas notícias.
- Então diga logo, senhor Matarazzo.- Lucke o respondeu com sua velha e alegre voz.
- Eu as encontrei.
- Oh, meu Deus, pai!- Brad quase gritou.- Você ouviu?
Do outro lado da linha o filho abraçou fortemente o pai ambos sentiam imensa alegria por finalmente receber boas notícias, haviam alguns anos que vinham pagando Matarazzo para as encontrar, era uma luta sem fim contra a tristeza de cada dia ser monótono, Catarina, a esposa de Lucke tentava os desanimar, dizendo que as garotas nunca iriam ser encontradas, mas incansavelmente os dois homens da casa continuar sua luta eles confiaram no investigador e finalmente tiveram um bom resultado.
- Que maravilha, Bertiolli!- O velho continuava abraçado ao filho.- Quando poderemos ver minhas filhas? Eu tenho tanto para tratar com elas, me desculpar, refazer o que foi perdido.
- Muito em breve, Lucke. Antes, preciso colocá-las em segurança e então os trarei para perto.
- Claro, claro! A segurança em primeiro lugar!
Depois que ficou algum tempo conversando com Lucke e Brad Walker, Bertiolli finalmente voltou para casa, estava mentalmente exausto. Suspirou e abriu a porta, antes olhando para os lados e se certificando de que ninguém o seguiu. Eles poderiam já estar sabendo que ele estava com as garotas, a ligação havia sido arriscada, ele sabia disso, mas não poderia esperar mais tempo para notificar ao pai de Brad a notícia que ele aguardava durante tantos anos, de qualquer forma, estava disposto a protegê-las, dando a vida pelas duas, se fosse necessário. Entrou trancando a porta e deixando a chave em cima de um móvel bem ao lado da porta, virando totalmente seu corpo em direção à sala. Júlia estava deitada no sofá dormindo profundamente, com a boca entreaberta, deixando sair alguns gotejos de sua saliva, Bertiolli sorriu involuntariamente com a cena engraçada, mas ao mesmo tempo tranquilizadora. Imaginou quantas noites a garota havia passado em claro, com medo de que sua vida ou a de sua irmã pudesse ser interrompida há qualquer momento, temendo pelo que viria no dia seguinte. Deu um passo a frente, pensando se aproximava-se e a levava em seus braços para o quarto ou ficava com a única opção de passar a noite na poltrona velha e dura ao lado do sofá onde dormia a garota que até parecia um anjo dormindo, apesar da boca entreaberta. Bertiolli se viu em uma luta interna, mas a observar dormir durante uma noite inteira poderia acabar com suas regras profissionais, não seria ético de sua parte e também não queria ultrapassar as barreiras da garota fazendo-a pensar que não passava de mais um maníaco tarado, Júlia poderia acordar de madrugada e se dar conta de sua presença e se afastar de vez por causa de seus traumas.
Por fim se aproximou e a pegou em seus braços com muito cuidado para não a acordar, se direcionando ao quarto e abrindo a porta, vendo Janet já na velha cama de casal, também dormindo. A colocou ao lado de sua irmã e as cobriu com o edredom, logo acariciando o rosto de Julia e se virou na direção contrária, saindo dali e fechando a porta. Estranhamente um vazio no peito o invadiu, mas o rapaz tratou de ignorar completamente esse sentimento novo e estranho. Voltou para a sala, ligando a televisão em um canal qualquer e pegou uma cerveja na geladeira, se deitando no sofá. Sabia que o dia seguinte poderia ser bem longo.
[...]
Batidas na porta, foi o que acordou Júlia após mais um pesadelo. Abriu seus olhos escutando pessoas baterem insistentemente na porta de entrada da casa, estava de pé em um pulo sentindo seu coração bater forte pelo medo e a adrenalina, ela também conseguia ouvir as vozes dos homens avisando que sabiam que Matarazzo estava lá dentro, afinal, o quarto não era muito distante da pequena sala. Suas mãos começaram a suar frio junto de seu corpo que ficou completamente trêmulo, ela temia ser capturada novamente por Enzo. Ela sabia que o mafioso não desistiria tão cedo de a encontrar, pois a garota tinha conhecimento de muitas coisas que as outras não sabiam, por passar maior parte dos dias que Enzo estava lá, em seu escritório.
Seus olhos foram parar imediatamente em Janet que dormia tranquilamente, ela se sentia aliviada por ter conseguido proteger sua irmã o suficiente a ponto de a garota não passar por traumas como os seus e ainda ter o sono como o de uma criança. Saiu do quarto em passos lentos escutando os homens atrás da porta discutindo entre si para saber o que fazer a seguir: ir embora ou esperar a porta ser aberta. Não fosse o medo que sentia no momento, a garota se daria conta de que não passavam de trapalhões que não sabiam ao certo o que estavam fazendo. Adentrou a sala com os olhos e ouvidos atentos, vendo o investigador dormindo com a mão para fora do sofá e uma lata vazia de cerveja caída no chão, o controle da televisão estava sobre seu corpo forte, ela pode perceber seus músculos expostos agora fora do casaco. Então foi ele quem me levou até o quarto!, Pensou. Se aproximou e começou sacudir de leve o braço de Bertiolli, arrependendo-se de ter tocado no momento que sentiu uma quentura nas bochechas, mas o homem havia acordado. Seus olhos claros encaravam-na. Os pêlos de seu corpo se arrepiaram quando o olhar intenso do homem a atravessou.
- Há homens lá fora.
Disse apenas, mas foi o suficiente para que o investigador tbem entrasse em estado de alerta. Se sentou ignorando seu corpo pesado pelo sono e dolorido por ter dormido em um sofá duro e velho, as madeiras que sustentavam o móvel não eram mais escondidas pela espuma, isso causou lhe causou certa dor. Direcionou seu olhar para a mulher a sua frente que parecia espantada com a insistência dos homens na porta, seu olhar denunciava seu espanto. Ela não confiava completamente nele, aprendeu a não confiar em ninguém. Bertiolli logo se levantou, preparando-se para abrir a porta que insistentemente era ocupada por homens que queriam entrar. Quem quer que fosse não desistiria fácil. Além do mais, não poderia deixar suspeitas serem levantadas a seu respeito, precisava mostrar que não estava com as garotas. Um plano B havia se formado em seu mente, caso os homens atrás da porta escolhessem usar a violência.
- Vá com a sua irmã para o banheiro.- Sussurrou.- Aguardem o meu comando!
Júlia apenas balançou a cabeça positivamente e correu para o quarto, acordando sua irmã e fazendo o que ele lhe pediu. Não lhe restavam alternativas a não ser confiar nele e esperar que não fossem descobertas, ou que Bertiolli estivesse do lado de seu atual pior inimigo: Enzo Rafaello. Enquanto isso na sala, Bertiolli pegou a chave em cima da mesinha e abriu a a porta, dando de cara com homens fardados, aparentemente policiais. Sorriu naturalmente, expressando estar confuso, enquanto deixava a porta estreita, preparado para tudo. Um dos homens tentava inutilmente ver algo atrás da parede de músculos do investigador.
- Bom dia, policiais. Algum problema?- Perguntou Matarazzo após ver os distintivos.
- Não sei, nos diga o senhor, Investigador.
Um dos homens tentava passar uma imagem de durão, mas não passavam de três bobalhões, marionetes que estava atrás das duas por dinheiro. Recentemente Enzo havia oferecido muito disso para quem encontrasse seus dois tesouros e é claro, um cargo de honra e poder na máfia.
- Comigo está tudo bem!
- E o que está fazendo em uma casa que não é a sua? Um muquifo como este, digamos que não seja do seu nível.
Ele riu internamente com a tentativa invasiva do tal policial de tentar o intimidar. Havia fracassado.
- Eu gostei, estou pensando em comprar! É pequena, boa para um homem solitário como eu.- Tirou proveito da situação com sua piada.
- Ora, não se faça de inocente, senhor.- O policial se alterou.- Deve saber o porquê estamos aqui. Sei que deve ter visto o noticiário.
- Vi sim, é sobre as duas garotas?
Fingiu se lembrar vagamente do caso das garotas. Eles não poderia afirmar que o caso reagente estava nas mãos do investigador, apenas deduziram, pois um investigador do nível dele só poderia receber casos de altíssimo nível.
- Ainda bem que sabe o porquê estamos aqui, senhor Matarazzo.- Anunciou um dos homens, empurrando a porta e entrando sem ser convidado, seus homens logo atrás dele. Bertiolli fechou a porta.- Queremos saber como vai a investigação.
Eles começaram a observar cada detalhe do cubículo onde estava hospedado. Bertiolli suspirou cruzando os braços e olhando para o careca que o questionou. Esforçava-se para parecer o mais sincero possível.
- Investigação?- Arqueou a sobrancelha.- Não há uma investigação aqui, policial, não sei se sabem, mas aquelas garotas eram pobres, qualquer um que assista a televisão sabe que elas sequer tinham dinheiro e sua mãe não conseguiria pagar nem metade do que eu cobro para investigar.
Eles se encararam por um breve momento, o haviam acabado de escutar parecia ter sentido, no entanto, não poderiam o descartar de sua lista até que tivessem certeza de sua não-participação no caso. Matarazzo sabia que a partir do momento que fora procurado por aqueles bobalhões, ele poderia ser observado pelos homens de Enzo. Um passo em falso e tudo escorria pelo ralo.
Pelo canto de seus olhos viu quando um deles colocou uma microcâmera no velho sofá tentando disfarçar, se afastando logo em seguida e voltando sua atenção para ele. Sorriu de lado e focou seus olhos no careca, não imaginando quem seria o mais burro dos três. Ele sabia que em algum momento lidaria com gente realmente perigosa, mas agradeceu mentalmente por não ter sido está a hora.
- Bom, espero que esteja falando a verdade. Sabe o quanto a polícia se importa com o caso delas, é muito bom que elas sejam encontradas e possam colaborar conosco, nos contando quem está por trás daquela máfia.
- É claro que sei.- Piscou maldoso.- Vocês são muito bonzinhos.- Afiou-se.
- Não seja modesto.- Deu passos a frente ficando bem próximo a Matarazzo que era mais alto que o mesmo e mais forte também.- Vamos homens.
Passou por ele batendo em seu ombro e logo já estavam todos fora do apartamento, Matarazzo não sabia o que iria fazer, mas tinha que ser ágil. Suspirou sentindo seu peito apertar. Não poderia ficar sequer um minuto naquele lugar e arriscar que elas fossem vistas, só tinha uma saída para os três. Pelas garotas teria de reabrir um portal para o passado de sua vida, voltando para a casa de sua mãe, a reencontrando depois de tantos anos. Não lhe parecia uma boa ideia, mas sabia que mais cedo ou mais tarde, teria de fazer isso e não poderia mais adiar, colocando a vida das duas em perigo novamente. Fechou a porta que os homens deixaram aberta ao sair e caminhou até o sofá, pegando a minúscula câmera em sua mão, procurou por mais em outros lugares, haviam três homens e apenas um ficou conversando com ele, tentando o distrair. Conseguiu encontrar a segunda não muito distante do sofá. Agarrou-as com força e colocou dentro de um vaso vazio. Caminhou até o quarto e entrou no banheiro onde viu Janet sentada no chão assustada e ofegante, Júlia tentava a acalmar. Os olhares foram direcionados a ele assim que entrou. O que iria fazer era loucura e talvez poderia colocar mais gente em perigo, mas era necessário. Donatela não hesitaria em ajudar seu filho.
Júlia veio até ele parando em sua frente com os braços cruzados e com o olhar triste.
- Eles já saíram.- Anunciou.
- O que vamos fazer?- Perguntou sem esperanças.
- Nós vamos sair daqui imediatamente.- Respondeu o óbvio.- De onde vieram estes, poderão vir mais.
- Ok, mas para onde vamos?
Ele sorriu fracamente. Sua mão quase que instantaneamente levantou-se para tocar o rosto da garota, mas o homem hesitou, abstendo-se na metade do caminho.
- Logo vão saber.- Encarou Janet por um instante, ela estava mais calma.- Tomem um banho, comprei roupas para vocês quando saí ontem. Vou deixar na cama.
Júlia assentiu, voltando-se para sua irmã e a ajudando a se levantar, Janet estava levemente traumatizada pelo que viu as mulheres sofrerem naquele lugar e tinha medo de ser novamente capturada, pois sabia que dessa vez, não só veria mulheres passando pela pior situação, mas seria uma delas, nada mais a faria ficar livre. Seria como um castigo de Enzo para sua irmã.
Júlia a levou até a cama e a sentou ali, logo Matarazzo voltou da sala com algumas sacolas. Dentro haviam dois vestidos, roupas íntimas, toalhas e tudo o que precisavam para tomar um bom banho. Júlia olhou tudo aquilo se lembrando da última vez em que colocou uma roupa nova em seu corpo. Uma vez a cada dois anos, pois sua mãe alternava entre os aniversários se suas duas filhas. Depois que foram capturadas, ela passou a usar roupas curtas e extremamente sensuais. Quando não era abusada sexualmente pelo chefe, vestia uma calça rasgada e uma camiseta desgastada que provavelmente devia ter sido de alguém que já havia morrido nas mãos daqueles homens cruéis. Banho era apenas quando eles estavam de bom humor, ou quando Enzo estava presente. As outras garotas poderiam tomar seus banhos antes das noites de terror começarem.
Um sentimento bom a invadiu quando abriu as sacolas e viu os vestidos, shampoo e tantas outras coisas para se sentirem realmente limpas. Júlia se sentia grata. Uma pontada de confiança no homem involuntariamente apareceu em seu coração, ela sorriu. Bertiolli tentou não encarar seus dentes expostos, desviou o olhar para as roupas nas mãos dela.
- Vistam isso.
- Está bem.- Ele se virou para sair do quarto.- Ei.- chamou-o.- Esses vestidos agora... São nossos?
Ele soltou o ar pesadamente. Por quantas coisas ruins aquela menina passou? Será que não haviam sequer roupas para a vestir? Bertiolli tentou não pensar na origem de sua pergunta e apenas sorriu para a confortar.
- É claro, de qualquer maneira, eles não caberiam em mim!
As irmãs sorriram com a piada que Bertiolli soltou para descontrair e uma imagem dele com um vestido como aquele passou pela cabeça da mais velha.
- Obrigada.
Júlia se virou para a irmã e a ajudou a se direcionar até o banheiro. Janet ainda estava um pouco abalada e precisava de um momento para se acalmar. Enquanto a irmã tomava banho, Júlia olhava pela janela as ruas paradas de algum lugar da Itália. Suspirou sentindo seu peito arder, ela não estava nem um pouco perto de sua mãe, não sabia nem se a mesma estava sob segurança ou perigo. Pensou na hipótese de o câncer ter a levado deste mundo. Bufou, depois de algum tempo pensando, Janet saiu do banheiro e então foi sua vez de tomar um banho, finalmente. Despiu-se e entrou debaixo do chuveiro, sentindo a água morna descer sobre seu corpo, ela finalmente estava tomando um banho de verdade, não era como os três anos em que ficou no cativeiro, era como em sua casa. Nem quando cortaram a energia por duas vezes, ela foi capaz de não desfrutar de um bom banho, Júlia amava a água.
Depois de algum tempo, saiu do chuveiro e procurou por sua roupa, se lembrando que ela não estava no banheiro, pois não havia a trazido. Suspirou se olhando no espelho e vendo uma menina abatida e mais magra do que costumava ser, com seus cabelos molhados e a pele lisa. As olheiras mostravam que já não dormia muito bem a algum tempo. Afastou aqueles pensamentos e caminhou em direção a porta, abrindo no mesmo instante em que a porta do quarto foi aberta, revelando um Bertiolli apressado.
Assim que seu olhar bateu na menina encolhida e com um olhar de pavor, enrolada em uma toalha, ele virou seu rosto e saiu dali imediatamente, sem dizer uma só palavra. Júlia suspirou aliviada e caminhou até a cama, onde sua roupa estava. Não estava acostumada com o respeito e portanto não o esperava de Bertiolli, mas se sentiu grata quando o recebeu. Se vestiu e penteou seus cabelos, deixando-os soltos para secar naturalmente, em seguida se direcionou até a porta abrindo e andando até a sala, onde Janet estava sentada conversando com Bertiolli.
Assim que a mais nova a viu sorriu, fazendo também a atenção do homem se voltar para ela. Ele a analisou de cima a baixo surpreso com a mudança, antes estava suja de sangue e sujeira e com os cabelos desgrenhados por haver fugido do cativeiro, mas agora, estava espetacularmente mais linda. Júlia abraçou a si mesma se retesando pelo olhar do homem sobre ela, repudiava qualquer olhar masculino sobre si. Caminhou até sua irmã e se sentou ao lado dela. Ele percebeu a negativa da garota em relação ao seu olhar involuntário e conteve-se.
- Iremos à casa de minha mãe.- Revelou.- Ela mora em outra cidade, lá é mais quente que aqui, provavelmente vocês vão se familiarizar e eu... Me acostumar.- Sorriu.- Nunca gostei muito do calor.
- E por que não podemos ficar aqui?- Perguntou Janet.
- Aqui é muito perigoso para vocês duas. Provavelmente policiais de dois países estão atrás de vocês.
- Isso é bom!- Janet afirmou.- Policiais não fazem mal.
Bertiolli se manteve em silêncio por alguns segundos, percebendo então que Júlia decidiu deixar a menina alheia ao que sabia, como se a protegesse de sua maneira, mantendo sua inocência. A mais velha tratou de explicar para a irmã:
- Janet, pessoas da máfia podem estar infiltradas na polícia. Se formos encontradas poderemos morrer ou até pior, que é voltar para aquele lugar.
- Não, isso eu não quero!
- Isso não vai acontecer, mas as duas tem que confiar em mim.- Se levantou.- Temos que sair o mais rápido possível daqui.
Elas se levantaram em seguida e Matarazzo lhes deu casacos com capuz para cada uma vestir e sairam da casa de cabeças baixas. Bertiolli colocou seu óculos escuros enquanto caminhavam em direção ao carro, ele as orientou a ficar sempre de cabeça abaixada para não serem filmadas pelas câmeras de segurança da rua e assim o fizeram. Logo entraram no carro e Bertiolli deu partida, antes de tomar uma atitude tinha que falar com as meninass sobre um assunto que elas provavelmente tinham opiniões válidas.
- Estou pensando em chamar aquele meu amigo para me ajudar.
- Aquele da lanchonete?- Perguntou Júlia.
- Eu não confio nele.- Janet fez uma expressão de medo
- Nem eu.
Encarou parte de seus rostos pelo retrovisor brevemente. Elas provavelmente não confiavam em seu amigo por ele ter uma expressão extremamente seria, mas tinha que perguntar antes de o chamar, afinal era a segurança delas. Ele também queria ter sua confiança, por isso deixou-as decidir. Se elas não confiavam nele então não iria o chamar para o ajudar neste caso onde teria que as proteger até o fim. Parou em um sinal vermelho, olhando para os lados e atrás, se certificando de que não estava sendo seguido, viu um carro preto, mas assim que o sinal abriu e Bertiolli acelerou, eles tomaram rumos diferentes.
- Então vamos ser apenas nos três e minha mãe.- concluiu.
- O que disse?- Júlia perguntou.
- Não vou chamá-lo para me ajudar. Ficaremos apenas minha mãe, vocês e eu nesta história.
- Não quero colocar sua mãe em perigo.
Olharam-se brevemente pelo retrovisor do carro e Bertiolli sorriu mostrando suas encantadoras covinhas.
- Não te contei algumas coisas sobre minha mãe.- Fez uma pequena pausa.- Ela é ex policial e investigadora, agora está aposentada, mas sempre faz serviços extras para as autoridades italianas. Acredite, Júlia. Lá vocês estarão em total segurança.
Júlia olhou pela janela enquanto sua irmã já estava quase pegando no sono e se sentiu segura, pela primeira vez em sua vida depois de anos estava se sentindo assim. Voltou a encará-lo através do retrovisor recebendo seu olhar, sorriu para ele e voltou sua atenção a janela do carro.