Acordei sentindo a mão dele
subindo pela
minha coxa. Sorrindo, espreguicei os membros rígidos e toquei os dedos que
percorriam minha pele. Sua mão quente e macia segurou a minha, apertando-a
com força. Um frio aro de metal afundou na minha pele quando ele me
envolveu no seu abraço firme e eu sorri ainda mais, passando o dedo pela
aliança quase idêntica no dedo anular da minha mão esquerda.
Eu tinha me casado na noite anterior... no sentido espiritual do termo, pelo
menos. Por ora, uma promessa sincera de devoção eterna era o bastante para
nós. Uma cerimônia formal e um pedaço de papel não fazem um casamento. O
que sustentava o meu era o sentimento que fazia meu peito explodir – a
sensação poderosa de que eu fora dividida em duas ao nascer e, por milagre,
conseguira reencontrar minha outra metade... que, por um milagre ainda maior,
sentia o mesmo que eu.
Lábios macios roçaram meu ombro, e eu me aconcheguei ainda mais ao corpo
que buscava o conforto do meu. Os lençóis enrolados ao nosso redor eram os
mais caros em que eu já dormira, mas esse luxo não era nada em comparação
com o homem ao meu lado. Com as pernas quentes enroscadas entre as minhas,
o peito largo colado às minhas costas e os braços me envolvendo e
embalando, ele era muito mais confortável do que a cama cara em que nos
deitávamos.
Levando aos lábios os dedos que se entrelaçavam aos meus, beijei sua
aliança. Ele riu baixinho, e então seus lábios sensuais foram subindo pelo meu
pescoço. Quente e satisfeita, minha pele na mesma hora se arrepiou, curtos
choques elétricos percorrendo meu corpo.
Quando ele chegou ao meu ouvido, sussurrou:
– 'dia, Sra. Kyle.
Na mesma hora meu coração começou a palpitar. Eu me virei entre seus
braços para poder vê-lo. Seus olhos da cor do céu poente se fixaram nos meus,
e um leve sorriso curvou sua boca quando ele observou minhas feições. Seu
rosto era perfeito – o ângulo do queixo, a curva do nariz, a textura dos lábios.
No momento, eu não podia me lembrar de nada que fosse tão lindo quanto o
homem que acabara de me dar seu sobrenome.
– Bom dia, Sr. Kyle.
Deixei escapar um risinho incrédulo, e ele sorriu ainda mais. A felicidade em
seus olhos era quase palpável. Era tão bom saber que eu o fazia se sentir
assim. Ele já sofrera muito na vida, e agora merecia um pouco de paz. Eu
ainda estava achando tudo isso meio irreal, da profundidade do seu amor ao
fato de que era eu quem o inspirava. Às vezes, não me sentia digna dele, mas
agradecia por tê-lo todos os dias.
– Mal posso acreditar que fizemos isso, Kellan.
Ele arqueou uma sobrancelha, seu sorriso logo ficando travesso:
– Fizemos o quê? Sexo selvagem? Isso não devia te surpreender. – Seu rosto
adquiriu um ar de adoração. – Cada vez com você é incrível.
Mordendo o lábio, procurei controlar a vergonha que ele me fazia sentir.
– Não foi a isso que me referi... – acariciei seu rosto com o polegar – ... e
sim ao nosso casamento.
Kellan se apoiou sobre o cotovelo, olhando para mim. Seu olhar desceu até
nossas mãos entrelaçadas, fixando-se na aliança que rodeava seu dedo. Sua
expressão de contentamento passou para uma de êxtase. Eu nunca o vira mais
feliz.
– Até que a morte nos separe – sussurrou.
Passando meus dedos pelo seu peito, as montanhas e vales do seu corpo
extremamente definido começando a me excitar, murmurei:
– Você sabe que meus pais não vão te aceitar como meu marido até você me
levar ao altar.
Lembrando a mensagem vaga que deixara para eles na secretária eletrônica da
casa de Kellan, já que eles ainda estavam na cidade por causa da minha
formatura, franzi o cenho. Eles iam ficar furiosos quando acordassem e
soubessem que eu tinha me mandado da festa para me casar sem convidá-los.
Para ser honesta, eu estava meio surpresa com o fato de meu celular ainda não
ter tocado... ou de a porta do nosso quarto no hotel ainda não ter sido
arrombada.
Kellan riu, virando nossos corpos para poder ficar por cima. Sorrindo
tranquila para ele, passei os dedos pelas suas costas. Ele ficou arrepiado.
– E eu vou fazer isso... – Deu um beijo no meu pescoço, e outro mais
embaixo. Meu coração disparou. – Vou dar a eles a cerimônia que querem... –
Olhando para mim, deixou que seus lábios vagassem até o alto de um dos
seios. Fiz um esforço para não me contorcer. – Vou te dar o casamento dos
seus sonhos, Kiera.
Seus lábios se fecharam ao redor do mamilo, e mais uma vez eu me senti
inundar pela paixão da noite anterior. Por mais prazerosa que nossa primeira
transa como marido e mulher tivesse sido, eu queria mais, queria Kellan de
novo. Não achava que jamais pararia de desejá-lo em todos os sentidos da
palavra.
Quando meus dedos já subiam para se emaranhar entre seus cabelos, minha
respiração totalmente alterada, seus lábios abandonaram a zona erógena que
tinham encontrado. Olhei para ele no mesmo instante em que ele me olhou.
Com um sorriso de canto de boca, beijou o espaço entre meus seios, e então
minha barriga. Só a ideia de ele continuar se dirigindo para o sul do meu
corpo na mesma hora me fez desejálo intensamente. Ele sorriu com ar
presunçoso, como se tivesse plena consciência do fato.
– Vou te dar tudo, Kiera, mas, até poder fazer isso direitinho... – Sua língua
mergulhou no meu umbigo antes de começar a descer pela minha barriga.
Gemi, fechando os olhos, na mesma hora alteando os quadris e puxando sua
cabeça para baixo. Ele deixou escapar um riso rouco, enquanto seus lábios
percorriam minha coxa. Seu hálito quente na minha pele, ele finalmente
concluiu a frase:
– ... vamos curtir as vantagens.
Então, sua língua deslizou sobre a parte mais íntima do meu corpo, e eu perdi
totalmente o controle.
Só fomos nos vestir para sair do luxuoso quarto horas depois. Uma rápida
inspeção no meu celular mostrou que Kellan o desligara de madrugada, o que
explicava por que não havíamos tido qualquer interrupção. Sorrindo para ele,
que pegava sua jaqueta em cima do banquinho da penteadeira – um banquinho
que tínhamos batizado –, liguei o celular. O alerta das mensagens de voz
vibrou, e tive certeza de que devia haver várias. Considerando o fato de que
em breve estaríamos com meus pais, não me dei ao trabalho de ouvi-las. Até
porque eu tinha certeza do que diriam. "Onde é que você estava com a cabeça?
Não pode se casar com ele, Kiera! Volte logo para podermos te levar para
casa!", etcétera e tal. Eles iam demorar algum tempo para aceitar nossa união.
E iam demorar ainda mais tempo para aceitar o fato de que em breve eu iria
cair na estrada com meu marido. Até eu ainda estava chocada. Fazer uma turnê
pelo país com Kellan era algo que estivera fora de cogitação enquanto eu
ainda cursava a faculdade, mas agora eu me formara e estava livre. Podia
fazer o que quisesse. E eu queria estar com Kellan, onde quer que fosse.
Meu pai era meio careta, daquele tipo que acha que você deve entrar na
faculdade, se formar e arranjar logo um emprego. Kellan nem fizera faculdade.
Tinha fugido de casa pouco depois de concluir o ensino médio e mergulhado
na cena musical de Los Angeles com Evan, Matt e Griffin. Desde então, os
quatro vinham tocando juntos. As escolhas de vida de Kellan deixavam meu
pai perplexo. E as minhas iriam deixá-lo furioso.
Mas a vida era minha, e eu faria dela o que bem entendesse. E estar com
Kellan era... maravilhoso. Não havia nenhum lugar no mundo onde eu
preferisse estar. Mas eu não estava abrindo mão dos meus sonhos para seguir
meu marido. Não, eu iria lutar para concretizar os meus também, só que, por
acaso, o trabalho dos meus sonhos se encaixava perfeitamente com a vida de
rock star de Kellan.
Eu queria ser escritora, o que me dava certa liberdade, já que poderia
escrever em qualquer lugar, desde que tivesse um mínimo de privacidade. O
que poderia ser complicado num ônibus de turnê cheio de caras agitados, mas
eu tinha certeza de que seria capaz de descolar algumas horinhas todos os dias
para jogar alguma coisa importante no papel. Eu estava no meio do meu
primeiro livro, que, num certo sentido, era autobiográfico, já que se baseava
em fatos reais. Era uma descrição detalhada e íntima de tudo que acontecera
entre mim, Denny e Kellan. O amor, o desejo, a traição – estava tudo lá.
Escrevê-lo estava sendo torturante, mas também terapêutico. Analisando a
situação de uma perspectiva crítica, era fácil perceber meus inúmeros erros.
Em alguns momentos eu tinha sido chata, grudenta, mesquinha, indecisa...
irritante, mesmo. Ver todos os meus defeitos expostos era uma experiência
humilhante. O livro era tão pessoal, que eu ainda nem tinha certeza se
permitiria que outras pessoas o lessem. Principalmente Kellan. Mas ele tinha
pedido, e eu concordara. Não queria voltar atrás, portanto teria que convencêlo, com cada página dolorosa, que eu não era mais aquela mulher fraca,
ridícula. Agora sabia o que queria, e era ele.
Dando uma olhada no quarto para ver se tinha esquecido alguma coisa, meus
olhos passaram pela cama bagunçada. O luxuoso cobertor vermelho estava um
caos, e os lençóis de cetim bege também estavam todos embolados. Kellan e
eu tínhamos aproveitado bem aquele espaço enorme, rolando por cima de cada
centímetro enquanto nos explorávamos. Nossos gemidos e gritos de prazer
ainda ecoavam na minha cabeça e, pela milionésima vez, fiquei feliz por ele
ter concordado com minha ideia de passar nossa lua de mel em um hotel. Não
podia nos imaginar fazendo as coisas que tínhamos feito de madrugada em
casa, com meus pais no quarto ao lado.
Chegando por trás de mim, Kellan passou os braços pela minha cintura.
Respirei fundo, apreciando o cheiro fresco e revigorante que era só dele.
Beijando minha orelha, ele murmurou:
– É melhor a gente ir andando. Prometi ao Gavin que tomaria café da manhã
com ele, e nós já estamos superatrasados... Vai ser mais como um brunch.
Dando uma espiada nele às minhas costas, não pude deixar de sorrir. Gavin
Carter era o pai biológico de Kellan. Ele se recusara a se encontrar com o pai
durante meses; estava morto de medo de conhecê-lo. Mas, na véspera, isso
finalmente acontecera, e agora Kellan iria tentar ter um relacionamento com
ele.
Dando meia-volta entre seus braços, cruzei os meus pelo seu pescoço.
Passando os dedos pelos seus cabelos, dei um beijo leve nele.
– Tenho certeza de que ele vai compreender que a sua noite de núpcias se
esticou um pouco.
Kellan suspirou, me apertando com força. Seu corpo colado ao meu era duro e
rijo. Meus dedos estavam loucos para sentir as curvas do seu físico definido,
mas isso sempre fazia com que ele começasse a explorar o meu, o que
geralmente levava a uma longa e demorada sessão de sexo... e nós tínhamos
mesmo que ir embora. Recorrendo a todo o meu autocontrole, mantive os
dedos emaranhados com firmeza entre seus cabelos.
Kellan deu um beijo na minha testa.
– Ainda não consigo acreditar que você é minha mulher.
Esfregando o rosto no seu peito, eu me sentia como se meu coração fosse
explodir e despencar no chão. Meu Deus, como eu o amava. O desejo por ele
começou a crescer enquanto nos abraçávamos, e mais uma vez tive que
reprimir o impulso de expressar meu amor fisicamente. Me afastei dele,
ficando séria.
– Tem razão, é melhor irmos andando.
Kellan sorriu ao ver minha expressão.
– Você quer transar de novo, não quer?
Ficando vermelha, empurrei seu peito para trás.
– Acho que nós... já quebramos recordes demais de madrugada... e agora de
manhã. – Sentindo o rosto arder, desviei os olhos.
Kellan segurou meu queixo, me fazendo olhar para ele.
– Você quer transar comigo? – perguntou, sem um laivo de provocação na voz.
A pergunta foi tão direta que achei difícil manter os olhos fixos nos seus, e tive
o instinto de abaixar o rosto. Mas não fiz isso, e sim me obriguei a encarar
aquelas profundezas azul-escuras, sussurrando:
– Quero.
Kellan abriu um sorriso orgulhoso.
– Foi tão difícil assim reconhecer? – perguntou, com um brilho nos olhos.
Eu já ia fechar os meus, mas não me permiti fazer isso. Ele não queria que eu
me sentisse envergonhada na sua presença. E não estava tentando me provocar,
e sim me ajudar a amadurecer. Olhando para ele, tornei a assentir.
– Para ser franca, sim, foi meio constrangedor.
Apertando os lábios, Kellan se afastou de mim.
– Eu quero que você me peça para transar com você... agora.
Fiquei boquiaberta.
– Kellan... – Morta de vergonha, cobri o peito com os braços. Como ainda
estava usando o tubinho justo e colante que minha irmã, Anna, me emprestara
para a cerimônia de formatura, tive muito que cobrir. – Eu já te pedi para
transar em outras ocasiões... Por que você está me envergonhando
conscientemente?
Suspirando, ele se abaixou para me olhar nos olhos.
– Você me pediu no calor do momento, quando nós já íamos mesmo transar. Eu
quero que você se sinta totalmente à vontade para me pedir a qualquer hora,
em qualquer lugar.
Arqueei uma sobrancelha para ele.
– Em qualquer lugar?
Kellan me deu um sorriso travesso.
– Em qualquer lugar.
Sabendo que ele não ia desistir, soltei um suspiro aborrecido. Abaixando os
braços, contei até dez. Ora, isso não era tão difícil assim. Eu deveria ser capaz
de pedir a ele para transar comigo; certamente já usara o corpo em várias
ocasiões para fazer isso. Mas falar assim, à queima-roupa, era diferente; eu
me sentia muito mais vulnerável.
Levantando o queixo, perguntei, em tom confiante:
– Kellan, quer transar comigo? – Bem, a intenção foi dizer isso num tom
confiante, mas minha voz saiu aguda e estridente... tudo, menos sexy.
No entanto, pela expressão de Kellan, qualquer um pensaria que eu acabara de
brindá-lo com uma dança erótica. Seu olhar intenso percorreu meu corpo, me
incendiando. Ele se demorou nos meus lábios, nos seios, nos quadris e,
embora não estivesse me tocando, meu corpo reagiu como se estivesse.
Quando esse olhar de puro sexo finalmente voltou ao meu, ele deu um passo à
frente. Seu quadril roçou o meu, e eu soltei uma exclamação. Com o hálito
quente na minha pele, ele sussurrou no meu ouvido:
– Essa foi a coisa mais sensual que já ouvi você dizer.
Meus olhos se fecharam. Eu me sentia como se estivesse vibrando, esperando
que ele me tocasse. Cada ponto sensível do meu corpo vibrava de expectativa.
Ele só precisaria encostar os lábios nos meus, passar o polegar por um seio ou
apertar meu traseiro, e eu explodiria... sem a menor sombra de dúvida.
Seus lábios chuparam o lóbulo de minha orelha, e eu deixei escapar um
gemido baixinho.
– Mas nós temos que ir embora. – Com essas palavras, ele segurou minha mão
e me puxou. Assustada com o movimento súbito, meus olhos se abriram
bruscamente. Ele estava rindo enquanto se aproximava da porta... e não da
cama.
Olhei séria para ele, que ainda ria.
– Desculpe, Kiera, mas você vai ter que ficar insatisfeita por um tempinho. –
Inclinando a cabeça, seu sorriso aumentou. – Digamos que é o seu... carma...
por todas as vezes em que me deixou excitado, e depois tirou o corpo fora.
Comecei a me sentir culpada, mas procurei não pensar nisso. Nosso passado
não era mais relevante.
– Você está sendo mesquinho – murmurei.
Ele deu um beijo no meu rosto.
– Hummm, talvez eu seja. – Avançando para mim, segurou meu traseiro e
puxou meus quadris para os dele. Uma onda de desejo percorreu meu corpo na
mesma hora, e gemi um pouco antes de poder me controlar. Passando o nariz
pelo meu rosto, ele disse, com voz rouca: – Porque estou doido para passar o
dia inteiro te provocando desse jeito.
Furiosa por me sentir tão excitada, eu o empurrei.
– Você é um cretino.
Ele riu, abrindo a porta. Pegando a bolsa, olhei mais uma vez para a cama
desarrumada que gritava Rolou uma transa apaixonada aqui!.
– Espera aí, Kellan. A gente não devia arrumar a cama antes de ir embora?
Kellan franziu o cenho, seu olhar indo do meu rosto para os lençóis
embolados. Balançando a cabeça para mim, murmurou:
– Você é muito fofa. – Seu sorriso carinhoso ficou irônico quando ele voltou a
olhar para a cama. – Não, nós vamos deixar o quarto como está. Quero que o
mundo saiba o que aconteceu aqui... na noite em que consumamos o nosso
casamento – disse, seus olhos voltando aos meus.
Suspirei, comovida com suas palavras. Então, ele acrescentou:
– Além disso... é uma cena sexy.
Revirando os olhos, saí com ele do quarto.
A recepcionista passou o tempo todo encarando Kellan enquanto fazíamos o
check-out. Vi quando ela deu uma espiada na aliança dele no momento em que
lhe entregou o cartão de crédito, mas, pelo brilho de interesse nos seus olhos,
acho que não estava se importando muito com o fato de Kellan ser casado.
Kellan era um homem lindo, e homens lindos chamam a atenção quando
chegam aos lugares. Àquela altura eu já estava acostumada com essa reação, e
já não me incomodava mais. Quer dizer, não me incomodava tanto quanto
antes.
A recepcionista ficou séria ao entregar o recibo a Kellan. Pela decepção no
seu olhar quando ele agradeceu sem sequer olhar para ela, pareceu que estava
esperando que ele fosse convidá-la para um encontro em um dos quartos. Tive
que me controlar para não sorrir quando os olhos dela finalmente passaram
para mim. Talvez estivesse esperando ter uma transa rápida com o cara sexy
que estava prestes a sair da recepção, mas Kellan não era mais homem de
transas rápidas.
Eu me aconcheguei ao corpo dele, agradecendo a ela com toda a educação
pela estada agradável. Dei uma risadinha ao dizer isso, ainda meio empolgada
pela noite de núpcias. Kellan deu um beijo na minha testa, já se dirigindo para
a saída.
– Quando a gente chegar, vou ligar para o Gavin e convidá-lo para ir tomar um
brunch lá em casa. Seria bom se nossas famílias se conhecessem de uma vez,
não é? – perguntou.
O sorriso feliz de Kellan me encheu de alegria. Ele se referira ao pai como
sendo sua "família"... um contraste incrível com o tempo em que não queria
ter nada a ver com ele.
– Claro, é uma ótima ideia. – Estremeci. – Mas meus pais vão me matar. –
Exibi a aliança para ele. – E te matar em seguida.
Kellan apenas deu de ombros ao ouvir meu comentário, me acompanhando até
o carro no estacionamento. Abrindo a porta para mim com todo o
cavalheirismo, ele me deu um rápido beijo no rosto enquanto eu entrava no
Chevelle. Então, caminhou até o lado do motorista com um grande sorriso.
Parecia extremamente feliz por finalmente me ter como sua esposa, por saber
que eu era dele e não iria a parte alguma. Eu sempre tinha esperado que o
homem com quem me casasse fosse me amar acima da razão, mas Kellan... me
amava acima de tudo. A profundidade do seu amor às vezes me espantava, mas
meu amor por ele era igualmente poderoso. Ele era tudo para mim.
Quando entrou no Chevelle, eu me aproximei do seu lado no banco para ficar
o mais perto dele possível. Ele sorriu, passando o braço pelo meu ombro.
– Está com saudades? – perguntou, com voz baixa e sensual.
Assentindo, ergui o rosto para lhe dar um beijo. Kellan retribuiu meu carinho
com avidez, sua mão segurando meu rosto. Rocei sua língua de leve com a
minha e ele gemeu, e então se afastou.
– Ei, sou eu que vou passar o dia te provocando, e não o contrário.
Fez o beicinho mais fofo do mundo, e não pude conter o riso.
– Desculpe, aprendi com o mestre.
Kellan soltou um suspiro dramático e tirou o braço do meu ombro para dar a
partida no carro.
– Acho que é bem feito para mim. – O motor possante despertou com um
ronco, e o ar satisfeito de Kellan voltou.
Minha expressão era uma xerox da sua quando deitei a cabeça no seu ombro.
Embora a recepcionista do hotel tivesse devorado meu marido com os olhos
sem o menor pudor, embora meu pai fosse tentar me botar de castigo quando
eu o visse, e embora o pai recém-descoberto de Kellan fosse aparecer para
visitá-lo agora à tarde, aquele era um dia perfeito; nada estragaria minha
felicidade.
O Chevelle virou na rua cheia de Kellan, e experimentei a sensação de voltar
para casa. Tinha curtido nossa noite fora, mas estava feliz por voltarmos.
Quando Kellan entrou na casinha branca de dois andares, um carro já estava
estacionado na entrada. Ele deu uma olhada no Jetta esporte vermelho e fez
uma expressão intrigada. Curiosa para saber quem chegara, olhei também; o
carro não era de ninguém que eu conhecesse.
Desligando o motor do Chevelle, Kellan murmurou Hummm, e abriu a porta.
Abri a minha também, imaginando se Gavin e os filhos teriam chegado. Como
ele viera de outro estado, talvez tivesse alugado o carro. Só que eu achava
difícil de acreditar que tivesse aparecido sem pedir permissão a Kellan
primeiro. Além disso, teria precisado de instruções para chegar à sua casa. E
eu duvidava muito que o para-choque de um carro alugado exibisse um
adesivo com os dizeres Se vai entrar na minha traseira, pelo menos puxa o
meu cabelo.
Compreendendo que a motorista era mulher e, provavelmente, uma das mil
exsei-lá-o-quês de Kellan, segui-o até a porta, relutante. Meu Deus, se alguma
mulher tivesse resolvido aparecer usando apenas um sobretudo, com meus
pais hospedados lá... eu ia ter um troço.
A porta da rua estava destrancada, e Kellan entrou. Segurando minha mão, ele
me conduziu até o vestíbulo. A casa de Kellan não era das maiores. Passando
pela porta, a pessoa podia virar à direita e subir a escada que levava aos
quartos, virar à esquerda em direção à cozinha, ou seguir em frente para a
sala. Naquele momento, meus pais estavam sentados no sofá encaroçado da
sala, meu pai exibindo uma expressão fechadíssima. Minha mãe tentava se
controlar, mas dava para ver que também não estava nada satisfeita.
Eu não sabia se a decepção dos dois era com a minha fuga inesperada ou se
estavam irritados com a pessoa que se acomodara na confortável poltrona de
Kellan, uma poltrona com enorme valor sentimental para mim, pois me fora
dada por ele quando tínhamos rompido. Significava muito para mim que
Kellan tivesse se importado o bastante a ponto de pensar em mim num
momento em que eu estava longe de merecer sua bondade. Quando vi uma
garota que não conhecia sentada no braço da poltrona, balançando os saltos
altos, senti um aperto violento no estômago.
Ao ouvir nossa chegada, ela inclinou a cabeça para trás, a fim de ver a porta.
Quando Kellan deu uma boa olhada nela, murmurou Merda e olhou para mim
com uma expressão preocupada. O aperto no meu estômago virou gelo quando
me perguntei quem ela seria.
Apertando minha mão, Kellan entrou na sala para que pudéssemos
cumprimentar a recém-chegada. Quando ela nos viu, levantou a cabeça para
Kellan, franzindo os olhos. Tinha cabelos pretos e olhos da mesma cor, que
realçava ainda mais cobrindo as pálpebras com sombra cinza-escura. Seus
lábios estavam pintados de vermelho-cheguei e apertados num beicinho
irritado, mas sexy. Ela era linda, mas isso eu já esperava. A maioria das
conquistas de Kellan era assim.
Com a expressão cheia de desprezo, a voz baixa e rouca, ela disparou:
– E aí, gostoso? – Achando graça do que dissera, sorriu, acrescentando: –
Será que na horizontal continua sendo? – Quando ela voltou a olhar para ele
com desprezo, minha expressão ficou sombria; não estava gostando nada dessa
pessoa.
Ignorando seu comentário, Kellan cumprimentou meus pais primeiro – Martin,
Caroline –, e então se dirigiu à grosseirona que estava empoleirada na minha
poltrona favorita: Joey.
Minhas sobrancelhas quase chegaram ao couro cabeludo enquanto eu olhava
para a garota que fuzilava Kellan com os olhos. Joey? Quer dizer, a exroommate chamada Joey? A garota que tinha morado lá até algumas semanas
antes de Denny e eu chegarmos... mais de dois anos atrás? Nunca achei que
ela voltaria. O que estava fazendo ali?
Com o rosto contraído, Kellan ecoou meus pensamentos:
– O que está fazendo aqui?
Ela ficou de pé. Cruzando os braços sobre o busto farto, empinou o queixo.
Com os olhos em fogo, rosnou:
– Onde é que estão as minhas coisas, Kellan?
A boca de Kellan se abriu um pouco, a expressão deixando transparecer uma
ponta de raiva. Apertando mais minha mão, respondeu:
– Você tomou um chá de sumiço durante dois anos. Eu joguei tudo fora.
Mordi o lábio para me impedir de estremecer. Na verdade, fora eu quem
jogara as coisas dela fora. Joey tinha ido embora às pressas, depois que
Kellan dormira com ela e, logo em seguida, dormira com outra pessoa. Nem
sempre ele fora o amante doce e fiel que era agora. Kellan afirmara que Joey
não dava a mínima para ele, que era apenas possessiva. Ele a ofendera
dividindo sua cama com outra mulher... muito embora ela também estivesse
dividindo sua cama com outros homens.
Denny e eu tínhamos usado os móveis dela ao chegarmos a Seattle. Depois do
nosso rompimento, eu ficara com a sensação de que eles tinham sido
contaminados, como se o astral do meu namoro de algum modo tivesse se
infiltrado na madeira escura. Talvez eu não devesse ter feito o que fizera, já
que não tinha o direito de descartar algo que não me pertencia, mas queria
aqueles móveis fora da casa para que Kellan e eu pudéssemos começar do
zero. Mas já devia saber que minha decisão iria acabar se voltando contra
mim.
Com um ar de indignação teatral, Joey deu um empurrão no ombro de Kellan.
– Você o quê...? Mas não eram suas para fazer isso, seu babaca!
Furioso, Kellan deu um passo à frente.
– Você caiu fora. O problema não é meu se resolveu deixar tudo para trás! –
Com um olhar de desprezo, observou o rosto dela. – Minha casa não é o seu
depósito particular.
Ela deu um riso debochado, fazendo um gesto de desdém.
– Tá legal, Kellan. Me poupe do seu mau gênio. Se não está mais com os meus
móveis, então pode me pagar por eles. – Deu um sorrisinho. – Mil e
quinhentos paus deve cobrir tudo.
Soltei uma exclamação abafada, e Joey virou a cabeça para me fuzilar com os
olhos.
– E quem é você? – Arqueou uma sobrancelha. – A comidinha da vez?
Meu pai se levantou, o rosto vermelho feito um pimentão.
– Não sei quem você é, mocinha, mas não se atreva a falar assim com a minha
filha!
Fiquei com medo de que ele tivesse um infarto, tão furioso parecia estar, mas
sua raiva não era nada comparada com a de Kellan. Soltando minha mão, ele
avançou até Joey, olhando-a de alto a baixo:
– Tome muito cuidado, Josephine. Você está falando com a minha mulher.
Joey pareceu intimidada por um momento, e deu um passo para trás. De
repente, a ficha caiu. Seus olhos pretos se arregalaram, e ela ficou me
encarando, boquiaberta. Então, começou a rir.
– Ah, meu Deus, você está falando sério? Você, o maior galinha que já
conheci, se casou mesmo, no duro? Que piada.
Kellan cruzou os braços e meu pai suspirou, voltando a sentar no sofá. Não
ficara nada satisfeito com essa história de casamento. Tive a impressão de que
minha mãe deu uma fungadinha, mas estava prestando atenção demais em Joey
para olhar. Sentia meu sangue começar a ferver, louca para que essa putinha
sem desconfiômetro desse o fora.
Kellan se sentia do mesmo jeito. Indicando a porta, disse a ela:
– Tudo bem. Eu te dou os mil e quinhentos pelos móveis. Agora, cai fora
daqui.
– Ah, não mesmo... – disse ela, balançando a cabeça. – As coisas mudaram,
Kellan.
Ele inclinou a cabeça, sem compreender. Eu também não compreendera. Com
as mãos fechadas em punhos, caminhei feito uma fera até ela.
– Você ouviu o que ele disse! Seu dinheiro vai ser pago! – Fiz um gesto,
despachando-a: – Agora, volte para o buraco de onde saiu.
Joey cravou um olhar fulminante em mim, e o manteve enquanto falava com
Kellan:
– Estou com uma coisa sua que quero devolver... – olhou para ele – ... já que
não me serve para nada. – Kellan franziu o cenho, e Joey riu ao ver sua
expressão confusa. – E, se quiser de volta, querido, vai ter que me pagar
dobrado.
– Você é doida de pedra, garota! – disparei.
Joey me ignorou, seus olhos indo para Kellan. Então se inclinou para pegar a
bolsa que deixara na poltrona, sua minissaia expondo quase totalmente as
coxas. Abrindo a bolsa, tirou um cartão de memória, do tipo que cabe em
câmeras digitais, filmadoras e alguns celulares. Os olhos de Kellan se
arregalaram ao vê-lo e pularam para os dela. Antes que eu pudesse perguntar o
que estava acontecendo, ele se apressou a responder:
– Tudo bem, eu te dou três mil.
Com um sorriso vitorioso para mim, Joey entregou a Kellan o cartão SD. Eu
quebrava a cabeça tentando imaginar o que haveria ali para Kellan se mostrar
disposto a pagar tanto dinheiro. O aperto no meu estômago se transformou em
náusea. Kellan pegou o cartão, e apontou para a porta.
– Eu te pago amanhã.
Joey deu um tapinha no rosto dele:
– Acho bom... porque vou transformar sua vida num verdadeiro inferno se não
fizer isso. – Olhou para mim com um sorrisinho cruel.
Kellan fechou os olhos.
– Sai da minha casa, Joey. – Voltando a abri-los, acrescentou: – E nunca mais
volte aqui.
Dando tchauzinho com os dedos para meus pais, ela foi rebolando até a porta
da rua. Ninguém se moveu ou disse uma palavra enquanto saía. Quando
ouvimos o som de seu carro sendo ligado, Kellan finalmente pareceu relaxar.
Virando-se para meus pais, enfiou o cartão discretamente no bolso.
– Me desculpem por essa cena. Espero que ela não tenha dado muito trabalho
a vocês antes de chegarmos.
Sua postura ficando rígida, meu pai olhou para Kellan. Eu seria capaz de jurar
que seus cabelos grisalhos ficavam mais brancos a cada segundo.
– Estou mais preocupado com o que vocês dois fizeram ontem do que com sua
amiguinha mal-ajambrada. – Com o rosto corado, olhou para meu marido e
para mim.
– Que história é essa de vocês fugirem para se casar? – Fixou os bondosos
olhos castanhos nos meus. – Você perdeu a cabeça, Kiera?
Mamãe fungou de novo, e papai deu um tapinha na sua mão. Queria me sentar
para conversar com eles sobre a noite anterior, mas ainda estava em estado de
choque. Que diabos Kellan guardara no bolso? E por que achara que valia três
mil dólares?
Enquanto papai batia no assento vago, para que eu sentasse, Kellan olhou de
novo para mim. Seu rosto exibia um misto de humor, resignação... e medo.
Não soube se ele estava fazendo isso de propósito, mas ele posicionara os
quadris de um jeito que não dava mais para ver o bolso onde guardara o
cartão. Mas eu sabia que o troço ainda estava lá.
Kellan fez um gesto para que eu sentasse ao lado de meu pai, e então apontou
para a porta.
– Volto logo. Quero dar uma olhada no meu carro, para ver se Joey fez alguma
coisa com ele. – Com um sorriso forçado, acrescentou: – Se ela tiver
arranhado o meu bebê, você vai ter que me segurar, porque sou capaz de matá-
la. – Aos risos, dirigiu-se para a porta.
Minhas palavras fizeram com que interrompesse seus passos bruscamente:
– O que tem naquele cartão SD?
O sorriso bem-humorado de Kellan se desfez na mesma hora. Engolindo em
seco, ele balançou a cabeça.
– Não é nada. Não se preocupe com isso, Kiera.
Ignorando meus pais por um momento, caminhei até ele. Tentei alcançar seu
bolso traseiro, mas ele se afastou depressa. Tentando a custo controlar a raiva
que fazia meu estômago dar voltas, repeti:
– O que tem naquele cartão?
Vendo que eu não ia desistir, Kellan se inclinou para mim, sussurrando:
– Podemos falar sobre isso mais tarde... em particular?
Quis assentir e sentar para explicar o casamento "simbólico" aos meus pais
preocupados, mas não conseguia tirar o sorrisinho de Joey da cabeça.
Consciente de que estava parecendo um disco quebrado, mas sem conseguir
me conter, tornei a perguntar:
– O que tem no cartão?
Agora irritado, Kellan franziu os olhos e disparou:
– O que você acha que é, Kiera? Nós filmamos uma transa! – Pareceu se
arrepender no momento em que se deu conta do que me contara à queimaroupa. Às vezes Kellan perdia a censura quando se aborrecia, e a chantagem
de Joey o deixara uma pilha de nervos. Mas acho que foram minhas perguntas
que o fizeram perder a cabeça.
Meu queixo caiu e senti como se ele tivesse me jogado um balde de água
gelada. Eu sabia o que ele ia dizer. Eu sabia. Mas ouvi-lo confessar doía.
Senti meu corpo quebrar, dividido. Meus olhos cheios de água.
– Você fez um vídeo pornô com ela?
Pigarreando, minha mãe se remexeu no sofá. Foi quando de repente lembrei
que Kellan e eu não estávamos sozinhos. Não, a idiota aqui não fora capaz de
esperar até ficarmos a sós para começar essa conversa. Como queria ter sido
capaz de controlar minha curiosidade! Daria tudo para não saber que meu
marido carregava no bolso um vídeo em que aparecia transando com outra
mulher. E daria tudo para que meus pais também não soubessem disso.
Percebendo minha dor, Kellan se aproximou com os braços estendidos.
– Kiera, eu posso explicar.
Levantei as mãos para ele, as lágrimas escorrendo pelo rosto. Não queria
saber de explicações naquele momento. Só queria ficar sozinha. Dando as
costas a ele e meus pais, subi a escada correndo. Ouvi Kellan me pedindo
para esperar e minha mãe chamando meu nome, mas ignorei-os. Batendo a
porta do quarto, descalcei os sapatos, despenquei na cama e deixei que as
lágrimas escorressem.
Nada poderia estragar minha felicidade, não é? Acho que comemorei cedo
demais!
Depois que as lágrimas se derramaram, eu me senti melhor em relação ao que
acontecera. Sabia que tinha feito uma tempestade em copo d'água; Kellan não
fizera o vídeo recentemente. O choque havia me transtornado, só isso. E o
nojo. Não podia suportar a ideia de outra mulher tocando nele, mesmo tendo
sido anos antes. Só a lembrança de ouvi-lo satisfazendo outras mulheres
enquanto eu estava do outro lado do corredor já era bastante ruim. A ideia de
assistir a isso me dava vontade de vomitar. Até cheguei a pôr a mão na boca,
por via das dúvidas.
Quando os soluços cessaram, ouvi murmúrios no andar de baixo.
Provavelmente, meu pai passando um sermão em Kellan. Sabendo que
precisava superar isso, tentei pensar em outra coisa que não nos saltos
amarelos de Joey rodeando o corpo de Kellan. Mas foi muito difícil tirar essa
imagem da cabeça.
Precisando me concentrar em alguma coisa concreta, tirei a aliança do dedo e
observei os diamantes que cravejavam as laterais. Enquanto estudava cada um
deles, relembrei todas as coisas românticas e comoventes que ele dissera para
mim, e mais ninguém.
Prefiro abraçar uma linda mulher a acordar todo dolorido amanhã. Preciso
ficar perto de você. Cada mulher é você para mim. Você é tudo que vejo... é
tudo que quero. Nós poderíamos dar muito certo juntos. Você me arrasa.
Fica. Fica comigo. Resolve as coisas comigo. Mas não me deixa... por favor.
Tenho certeza de que quero você para sempre na minha vida. Estamos
casados... você é minha mulher. Eu te amo.
Quando, algum tempo depois, ouvi uma batidinha leve à porta, minhas
emoções e meu estômago já tinham se acalmado. Na verdade, estava até me
sentindo meio boba em relação a essa história. Kellan entreabriu a porta, mas
não entrou no quarto.
– Kiera... posso entrar?
Virando-me na cama de frente para a porta, sequei os olhos e puxei o vestido
curto.
– Pode – respondi com a voz rouca.
A porta não se abriu na mesma hora, e franzi o cenho, olhando para ela.
Depois de outra pausa, Kellan perguntou:
– Você não vai... atirar nada em mim, vai?
Deixei escapar um riso e, ao ouvi-lo, Kellan abriu a porta. Sorri ao ver sua
expressão preocupada, balançando a cabeça.
– Não, pode entrar, em confiança.
Kellan fechou a porta sem fazer barulho, e então caminhou até a cama.
Observou a aliança que eu ainda girava entre os dedos. Seus passos
diminuíram e seus olhos se vidraram. Sem conseguir tirá-los da aliança, ele
sussurrou:
– Você vai me deixar?
Enquanto eu observava seu rosto perturbado, refleti sobre a impressão que
meu gesto devia ter causado. Eu ficara transtornada, me afastara dele de um
jeito dramático, e então ele me encontrara manuseando a aliança de casada
como se não quisesse mais usá-la. Na mesma hora, voltei a colocá-la no dedo.
Seus olhos, ainda pesados de lágrimas não derramadas, se ergueram até os
meus. Meu coração se encheu de dor quando abri os braços para ele.
– Não, é claro que não vou te deixar.
Como ele ainda parecia inseguro, sentei sobre os joelhos e o puxei pela
camisa, passando os braços pelo seu pescoço. Na mesma hora ele relaxou e
passou os seus pela minha cintura. Aspirando seu aroma, sussurrei no seu
ouvido:
– Eu estava me lembrando de todas as razões por que te amo tanto. Estava
apreciando tudo que você faz, tudo que você é. Estava me apaixonando por
você de novo.
Kellan se afastou, com uma expressão surpresa.
– Você descobre, menos de vinte e quatro horas depois do nosso casamento,
que eu tenho um vídeo pornô com outra mulher... e isso faz com que você se
apaixone por mim de novo? – Pôs a mão na minha testa, como se tivesse
certeza de que eu estava com febre.
Caí na risada, puxando-o para a cama comigo.
– Não, quer dizer, eu não fiquei lá muito satisfeita com o vídeo, mas... –
encostando a cabeça no seu ombro, observei seus olhos azul-escuros – ... há
tantas coisas em você que me fazem feliz, que eu não vou permitir que um
único fato estrague isso... e o que temos.
Kellan sorriu, dando um beijo na minha testa.
– Eu já te disse hoje o quanto te amo?
Eu me aconcheguei na curva do braço dele, enroscando as pernas entre as suas
e pousando o rosto em cima do ponto onde meu nome estava gravado, no peito
dele.
– Provavelmente sim, mas nunca vou me cansar de ouvir.
Enrolando as mãos na barra da sua camisa, curti o conforto do seu aconchego
por um momento. Sua voz grossa soou no meu ouvido quando ele rompeu o
silêncio:
– Me perdoe, Kiera. Eu jamais quis que você ficasse sabendo disso.
Dei uma olhada no seu quadril, imaginando se ainda estaria com o cartão no
bolso, e então observei seu rosto, que deixava transparecer seu
arrependimento.
– Não quero que você me esconda as coisas por achar que a verdade vai me
fazer infeliz. Nós já criamos problemas demais por causa disso.
Kellan assentiu, seus olhos pensativos.
– Tem razão. De todo modo, acho que, mais cedo ou mais tarde, eu acabaria te
contando... mas nunca na manhã seguinte à nossa noite de núpcias. Para ser
honesto, já tinha até me esquecido do vídeo com a Joey.
– Franziu os lábios, extremamente infeliz com o infortúnio de Joey ter
reaparecido e relembrado a ele.
Observando seu rosto forte e bem barbeado, perguntei:
– Como você pôde se esquecer de ter filmado uma transa com uma roommate?
Seria de se esperar que uma coisa dessas fosse inesquecível.
Senti Kellan ficar tenso debaixo do meu corpo, e prestei atenção nos seus
olhos. Antes de poder formular a pergunta que me enchia de pavor, ele
suspirou, balançando a cabeça.
– Me perdoe, Kiera. Ela pediu... e eu não me importei. Não tinha o hábito de
dizer não para a maioria das mulheres na época, e ela... – Mordeu os lábios
com força, fechando os olhos. Quando os reabriu, sussurrou: – Eu não estava
pensando no futuro, no que estava deixando para trás... me perdoe.
Começando a ter um péssimo pressentimento, eu me sentei.
– Esse não foi o único vídeo que você fez, foi?
Kellan estremeceu, e na mesma hora tive uma resposta.
– Me perdoe, Kiera – tornou a sussurrar.
Cruzando os braços, balancei a cabeça, incrédula.
– Ah, meu Deus... eu me casei com um ator pornô.
Kellan se esforçou por manter a expressão neutra, mas não conseguiu por
muito tempo. Dei um tapa no seu ombro quando ele começou a rir. Segurando
minhas mãos, ele sentou, passou os braços pela minha cintura e me puxou para
o peito, esfregando minhas costas para me tranquilizar. Minha breve raiva se
dissipou enquanto ele me abraçava. Então, fui assaltada por um sentimento de
melancolia.
– Eles não vão ficar escondidos para sempre, Kellan. Não quando as músicas
da sua banda estourarem nas rádios. Não quando o seu nome ficar conhecido.
Quando as pessoas souberem que podem ganhar dinheiro à sua custa... – olhei
para seu rosto
– ... esses vídeos vão começar a aparecer por toda parte.
Com um sorriso triste, ele concordou.
– Eu sei... e peço desculpas de todo coração.
Examinando sua expressão, fiquei morta de pena dele.
– Não é o meu corpo que vai ser vendido, Kellan. Você não precisa se
desculpar por uma coisa que fez anos atrás. Eu só... me sinto mal por saber
que sua vida íntima vai ser tão... devassada.
Kellan deu de ombros.
– Não me importo com isso. – Segurou meu rosto. – Só não quero que você
seja magoada.
Aninhando o rosto em sua mão, soltei um longo suspiro.
– Bem, pelo menos vou estar preparada.
– Sorri para ele. – De todo modo, jamais vou assistir a esses vídeos. – Kellan
riu, e eu balancei a cabeça, fechando os olhos. Doía um pouco saber que mais
cedo ou mais tarde o mundo inteiro veria meu marido como veio ao mundo,
mas, no fundo, não importava. Ele não era mais aquele homem. Ele era meu
homem.
Abrindo os olhos, observei sua expressão preocupada. Querendo acalmar seu
medo de que eu o rejeitasse, murmurei, brincalhona:
– Você é um tremendo galinha.
Balançando a cabeça para mim, ele voltou a me puxar para a cama. Depois de
um momento, lembrei que ambos tínhamos coisas a fazer, pessoas à nossa
espera. Quando começava a me mover, para lembrar a Kellan que precisava
ligar para Gavin, bateram à porta do quarto. A voz preocupada de minha mãe
perguntou:
– Kiera, querida, está tudo bem?
Kellan se remexeu embaixo de mim, me afastando para o lado, a fim de se
levantar. Desejando poder puxá-lo de volta para os meus braços, sentei,
ajustando o vestido apertado.
– Está... pode entrar.
Quando ela fez isso, deu uma olhada em Kellan com uma expressão dividida.
Pude perceber que não ficara satisfeita com o que ouvira na sala. Minha mãe
gostava muito de Kellan, mas era tão superprotetora quanto meu pai, e Kellan
a deixava nervosa. Beleza, fama, juventude e monogamia não costumavam
andar juntas. Embora ela se esforçasse ao máximo para confiar no meu amor,
estava convicta de que ele acabaria me abandonando.
Mas ela não conhecia Kellan tão bem quanto eu. E eu tinha certeza de que ele
não faria isso. Já tinha levado esse tipo de vida, e agora queria algo mais.
Agora, queria uma vida inteira... ao meu lado.
Abri um sorriso radiante quando ela se aproximou. Kellan olhou para uma e
para outra, e então deu um beijo no meu rosto.
– Vou ligar para o Gavin... e dar uma olhada no meu carro. Volto em um
minuto.
– Assenti, beijando sua mão antes de ele sair.
Mamãe ficou olhando enquanto ele se afastava, e então sentou na cama ao meu
lado. Não me perguntou nada, mas a pergunta que fizera antes ainda estava
clara nos seus olhos verdes. Pondo a mão no seu joelho, repeti a resposta que
já dera:
– Estou ótima, mãe, sinceramente.
Ela pareceu perplexa com essa resposta.
– Como você pode estar ótima sabendo que ele e aquela menina...?
Não concluiu a pergunta, e eu dei de ombros.
– Aquilo foi há séculos, muito antes de ele me conhecer. Aquele vídeo não tem
nada a ver comigo, e agora que o choque passou... estou ótima.
Mamãe exibia uma expressão confusa, e eu ri um pouco, encostando a cabeça
no seu ombro.
– Ele não é mais aquele homem, e... – Fiz uma pausa, a consciência dos meus
próprios erros subitamente me atingindo. – Não posso jogar o passado de
Kellan na cara dele.
Ao ouvir meu tom, mamãe se afastou para me forçar a olhá-la.
– E o seu passado? – Estudou meu rosto.
– Quer me contar o que realmente aconteceu entre você e Denny, querida?
Pisquei os olhos, atônita. Tanto ela quanto meu pai tinham acreditado quando
eu lhes dissera que Denny me deixara para poder aceitar um emprego na
Austrália. No entanto, minha mãe era observadora, estava preocupada e se
sentia curiosa, o que sem dúvida deve ter feito com que juntasse várias peças
soltas, como olhares culpados e comentários abafados, para formar o
quebracabeça do meu triângulo amoroso, que era muito maior do que a peça
minúscula que eu lhe dera. Eu tinha certeza de que ela suspeitava da verdade.
Sentindo meus olhos se encherem de lágrimas, comecei a balançar a cabeça.
Não, não queria lhe contar que eu era um ser humano horrível, que ela criara
esse tipo de mulher, que eu tinha ainda mais defeitos do que o homem que
filmara uma transa com a ex-roommate. Preferia que ela continuasse pensando
em mim como sua doce e inocente filhinha. Mas, por outro lado... eu seria
uma mentirosa se a deixasse continuar pensando assim.
Abaixando a cabeça, sussurrei:
– Eu tive um caso com Kellan. Denny descobriu e... me deixou. – Lágrimas de
culpa me escorreram pelo rosto. Olhando para ela, disse, com voz embargada:
– Me perdoe, mãe.
Seus olhos ficaram úmidos ao ver minha dor. Esperei por suas palavras
ríspidas de condenação, mas não vieram. Em vez disso, ela apenas me deu um
abraço apertado. O que só fez com que eu chorasse mais ainda. Encostando o
rosto no seu ombro, abri as comportas que represavam meu remorso. Solucei
nos seus braços, enquanto ela tentava me acalmar, sussurrando palavras
carinhosas no meu ouvido e esfregando minhas costas.
Quando as lágrimas cessaram, levantei a cabeça.
– Está furiosa comigo? – Minha garganta se fechou com as palavras.
Ela secou minhas lágrimas com o polegar. Com um sorriso tranquilo, balançou
a cabeça.
– Não, é claro que não estou furiosa com você.
– Você não vai gritar comigo? Dizer que sou horrível?
Eu já ia abaixar a cabeça, mas ela segurou meu queixo. Manteve os olhos fixos
nos meus por longos segundos antes de responder:
– Não há nada que eu poderia lhe dizer que a punisse mais do que você mesma
já se puniu. – Balançou a cabeça, suas longas mechas castanhas se agitando
nos ombros. – Agora, se você não demonstrasse um pingo de arrependimento,
seu pai e eu te daríamos uma coça daquelas. – Sorriu mais ainda, segurando
meu rosto. – Mas, obviamente, foi uma coisa que te deixou arrasada, e não
posso imaginá-la se infligindo esse tipo de sofrimento novamente.
Neguei com a cabeça, veemente. Não, não queria jamais passar por aquela
tortura outra vez. Ela sorriu para mim, abaixando a mão.
– Na verdade, estou muito mais chateada por você ter se casado escondido de
mim. – Cruzando os braços, franziu os lábios, arqueando uma sobrancelha. –
Quer explicar isso?
Suspirei, sabendo que não me safaria dessa tão fácil.
Demorou um pouco, mas finalmente consegui convencê-la de que só tinha
mesmo ficado noiva na noite anterior. Kellan e eu consideramos nosso
momento no bar como um casamento, mas eu sabia que as pessoas não o
veriam desse jeito e, de todo modo, fora uma cerimônia sem qualquer valor
legal. A mensagem que eu deixara na secretária eletrônica para meus pais fora
muito curta, sem qualquer explicação. Basicamente, eu só dissera que Kellan e
eu tínhamos nos casado e não voltaríamos para casa até a manhã seguinte. Era
um verdadeiro milagre que meu pai não tivesse posto a SWAT atrás de mim.
Quando mamãe compreendeu o que tínhamos feito, riu de alívio.
– Ah, antes assim, eu estava com medo de que você tivesse tomado um avião
de madrugada para Las Vegas e se casado com algum sósia de Elvis Presley! –
Balançou a cabeça, segurando minha mão para examinar o anel de
compromisso que se elevara ao status de aliança de casamento. – Essa não é a
maneira certa de se começar uma vida a dois... se é que você tem mesmo
certeza de que quer passar o resto da vida com ele.
Assenti enfaticamente. Isso era algo de que eu tinha a mais absoluta convicção.
Uma profunda determinação se estampou no rosto de minha mãe, e ela sorriu.
– Nesse caso, acho que é melhor começarmos a planejar o casamento, não? –
Seus olhos se iluminando ainda mais, ela apertou as mãos. – Podemos marcar
a cerimônia para dezembro, depois que Anna tiver o bebê... ou então na
primavera, quando as árvores estiverem em flor, que tal?
Minha cabeça dava voltas enquanto ela ia enumerando as coisas que
precisaríamos fazer até a data do casamento. Na certa se incumbiria de
escolher meu vestido, os trajes das damas de honra, os ternos de meu pai e de
Kellan, as flores, a música, a igreja, o bufê, o bolo de casamento, e até faria a
lista de convidados...
Quando a lista já ameaçava se tornar infindável, cobri as mãos dela com as
minhas para interromper seu falatório.
– Mãe, eu não preciso de nada luxuoso. – Sorri com ar apaixonado. – Kellan e
eu já estamos casados, e agora só precisamos oficializar a união.
Minha mãe me olhou com uma expressão perplexa, e então perguntou:
– Você vai querer que seja aqui em Seattle ou em Athens? Porque nossa
família inteira está lá, e obrigá-los a tomar um avião para cá não seria nada
simpático.
Suspirei. Ela não ia mesmo largar o osso. Eu ia ter que me produzir toda e
desfilar por um corredor enfeitado de rosas, quisesse ou não. Só de pensar
nisso meu estômago deu mil nós de ansiedade.
Tentando mudar de assunto, murmurei:
– É melhor eu ir falar com papai, para acalmá-lo. – Provavelmente ele ainda
estava meio baqueado com o episódio do vídeo, e também com a história do
casamento. Pobre papai. Aquele não era mesmo o seu dia.
Decidi vestir alguma coisa mais confortável antes de enfrentar a fera. O
tubinho emprestado por Anna ficava se enrolando na altura das coxas, e eu não
queria ter que ficar puxando-o para baixo toda vez que meu pai me chamasse a
atenção. Além disso, o decote quadrado cavadíssimo não permitia que eu
usasse um sutiã, o que até viera a calhar na noite de núpcias, mas não cairia
nada bem num têteà-tête com meu velho.
Minha mãe ficou olhando enquanto eu vestia um jeans qualquer e uma
camiseta; ainda estava animadíssima, planejando os detalhes do casamento,
falando pelos cotovelos sobre o arranjo de flores ideal. Já vestida, fui para a
sala. A descrição que ela fazia da cerimônia de casamento não acabava mais,
suas palavras me bombardeando a cada passo que dava. Enquanto descia a
escada, me imaginei avançando pela nave da igreja em direção ao meu
marido. Quando cheguei ao último degrau, Kellan estava parado perto das
janelas, fazendo que sim com a cabeça para meu pai com uma expressão
compenetrada. Imaginei Kellan de terno, e eu com um vestido de cetim. Na
minha cabeça, ele estava lindo, como sempre, e eu também, pela primeira vez.
A ideia de uma igreja cheia de gente me deixou meio nauseada, por isso tive
que imaginar que ele e eu estávamos sozinhos. Comecei a sentir um sobe e
desce no estômago, a marcha nupcial tocando na minha cabeça.
Kellan olhou para mim e abriu um sorriso. Eu tinha certeza de que ele não
estava tendo a mesma visão que eu, mas a expressão no seu lindo rosto era tão
cheia de amor e encanto quanto a minha. Corando de expectativa ao pensar em
como nossa cerimônia de casamento poderia ser maravilhosa, caminhei até ele
e passei os braços pela sua cintura. Sorrindo para mim, ele me abraçou e deu
um beijo na minha testa. Estávamos olhando um para o outro com ar bobo
quando meu pai pigarreou.
Despertei bruscamente da visão romântica e olhei para ele. Com as
sobrancelhas franzidas numa expressão confusa, ele perguntou:
– Está tudo... bem?
Sorri, assentindo, e ele suspirou, obviamente não entendendo como eu podia
ter passado de um extremo ao outro num espaço de vinte minutos. Dei um
risinho ao soltar Kellan para ir abraçar meu pai. Essas alterações de humor
eram corriqueiras no meu convívio com Kellan. Ele podia me pôr nas alturas,
ou me estilhaçar no chão. Embora às vezes eu até curtisse essa montanharussa, encontrar um ponto de equilíbrio entre os extremos era algo que eu
queria muito. Nós precisaríamos dessa serenidade, se pretendíamos ter uma
relação a longo prazo. E o casamento era uma relação a longuíssimo prazo.
Pelo menos, para mim.
Quando meu pai e eu terminamos de nos abraçar, ele olhou para Kellan, às
minhas costas. Pude perceber claramente como seus sentimentos estavam
divididos. Meu pai queria que eu fosse feliz, mas não aprovava o fato de eu
estar com um roqueiro. E um roqueiro que carregava o vídeo de uma transa no
bolso, ainda por cima. Inclinandose para mim, ele disse:
– Kellan me contou sobre o... casamento de vocês dois... no bar. – Franziu o
cenho, dando uma olhada em Kellan. – Tem certeza de que é o que você quer,
Kiera?
Com um sorriso radiante, dei um beijo no seu rosto.
– Absoluta, pai.
Mas a resposta não fez com que sua expressão se animasse. Na verdade, ele
pareceu envelhecer diante dos meus olhos. Vendo a sisudez nos vincos de sua
testa, segurei seus braços.
– Kellan te contou que o pai dele vai vir tomar um brunch com a gente? –
Olhando para Kellan, perguntei: – Você conseguiu falar com o Gavin?
– Acabei de falar. – Kellan exibiu o celular. – Ele vai estar aqui em meia hora.
– Seus olhos azul-escuros brilhavam de alegria. Sentimentos positivos por um
parente eram uma novidade para ele, que relutara muito em se permitir sentilos. Acho que em parte ainda hesitava, como se estivesse se preparando para a
inevitável implosão emocional que se aproximava. Mas, por ora, estava sendo
otimista.
Ainda sorrindo de orelha a orelha, Kellan apontou para a porta:
– E o meu carro está OK. – Sorri ao ver sua expressão de alívio.
Provavelmente ele sairia no encalço de Joey se ela tivesse causado algum
dano ao seu bebê.
Enquanto esperávamos que a família de Kellan chegasse, minha mãe me
perguntou sobre esquemas de cores para o casamento, o olhar fulminante de
meu pai se tornando ainda mais fulminante a cada pergunta. Kellan ficou
segurando minha mão com um sorriso bem-humorado enquanto ouvia minha
mãe. Tinha certeza de que ele concordaria com qualquer cerimônia
extravagante que ela propusesse. Não se importava de ser o centro das
atenções de uma multidão, e nem que eu fosse centro também. Estava sempre
me incentivando a ser mais confiante e extrovertida. Embora isso me deixasse
envergonhada, eu adorava que Kellan me amasse o bastante para me encorajar
sutilmente a amadurecer.
Gavin tocou a campainha bem na hora. Soltando um longo suspiro, Kellan se
levantou e secou as palmas das mãos no jeans. Não vi o volume no seu bolso
quando sua mão passou por ele, e achei que talvez tivesse jogado o vídeo fora.
Pelo menos, foi o que esperei. Não queria vê-lo com outra mulher, mas sabia,
se topasse com o vídeo, que ficaria morta de curiosidade. E era possível que
essa curiosidade me enlouquecesse a ponto de me fazer assistir. E há coisas
que você não pode fingir que não viu. Kellan fazendo a ex-amante gemer não
era uma cena que eu queria gravada no meu cérebro. Só imaginá-la já era
bastante ruim.
Kellan estava visivelmente nervoso ao se dirigir para a porta. Achei isso
superfofo; ele raramente ficava nervoso. Mas esse encontro com o pai era
muito importante para ele. Eu não sabia exatamente como estava se sentindo,
mas, se fosse eu, seria uma mistura de entusiasmo, apreensão e terror. Muita
coisa pode dar errado quando a gente expõe a alma para outra pessoa, ainda
mais quando se trata de um parente. Kellan estava sendo extremamente
corajoso, e eu não podia me sentir mais orgulhosa dele.
Como se estivesse reunindo forças mentalmente, Kellan soltou um suspiro
curto antes de chegar à porta. Abrindo um de seus sorrisos espontâneos, abriu
a pesada porta de madeira. Levantei do sofá ao avistar seu pai. Gavin era tão
parecido com o filho que o parentesco dos dois era inegável. O mesmo porte,
a mesma altura, o mesmo tom castanho-claro dos cabelos, os mesmos olhos de
um azul-escuro profundo, o mesmo contorno do queixo forte e anguloso. Olhar
para os dois lado a lado era como ter um vislumbre do futuro de Kellan. E, por
tudo que eu podia ver... Kellan ia envelhecer muitíssimo bem: Gavin era
podre de atraente.
Ao meu lado, ouvi minha mãe murmurar Ai... Minha nossa!.
Eu e ela nos entreolhamos com ar cúmplice, enquanto Kellan e o pai trocavam
um aperto de mão. Com uma expressão eufórica, Kellan indicou o interior da
casa.
– Que bom que vocês vieram. Vamos entrar.
Gavin assentiu, acompanhando-o. Atrás dele estavam seus dois filhos, os
meiosirmãos de Kellan. Acenei para a irmã, Hailey. Sorrindo, ela retribuiu
meu aceno. Hailey era mais ou menos da minha idade, talvez um ou dois anos
mais nova. Também herdara os olhos azul-escuros do pai, mas, agora, à luz do
dia, dava para ver que seu cabelo castanho era um pouquinho mais claro que o
dos homens da família. Logo atrás dela estava o irmão caçula de Kellan,
Riley. Bonitinho como ele só, parecia ter uns dez anos de idade, apenas dois
anos mais novo do que Kellan era quando tivera sua primeira experiência
sexual. Eu esperava sinceramente que Riley ainda não tivesse se iniciado; ele
era jovem demais. Com seus olhos da cor de um céu de primavera, Riley
olhava para Kellan com uma expressão de deslumbramento. Obviamente, já
idolatrava o irmão rock star.
Kellan fez uma festinha nos cabelos do caçula quando ele entrou. Quando o
trio já estava no vestíbulo, Kellan indicou a pequena sala.
– Por favor, vamos sentar.
Eu me afastei do sofá para que o pai de Kellan pudesse sentar. Meus pais
fizeram o mesmo, para cumprimentar Gavin. Meu pai lhe deu um firme e
caloroso aperto de mão. Minha mãe tremeu nas bases, mas tentou disfarçar
com um pigarro. Papai franziu o cenho ao ver a mulher trocar um aperto de
mão com a versão mais velha de Kellan. Muito esperto, sentou no lugar dela,
ficando ao lado de Gavin no sofá.
Riley sentou no chão, esticando as pernas enquanto dava uma olhada na casa
de Kellan. Não muito tempo antes, eu pedira ajuda a Jenny, minha melhor
amiga, para pintar as paredes da sala. Eram de um branco sujo, sem graça,
desde que eu fora morar lá. Ela me ajudou a pintá-las de um tom quente de
bege, menos uma, que pintamos de vermelho-escuro. Nos cantos dessa última,
Jenny usara sua habilidade artística para desenhar várias notas musicais.
Também pintara a letra de uma música de Kellan. Em grandes letras de fôrma
acima da porta de vidro de correr, estavam os dizeres A cada dia vou levar
você comigo, não importa quão longe esteja. Kellan achou que era meio
pretensioso exibir uma letra escrita por ele na parede da sua própria sala, mas
achei que tinha ficado lindo, e não deixei que a apagasse. Afinal, agora a casa
também era minha.
Hailey veio me dar um abraço. Pela alegria no seu rosto, era óbvio que já me
adorava só pelos elogios que Kellan fizera. Agora eu achava quase cômico
que um dia já tivesse chegado a suspeitar que Kellan estivesse me traindo com
ela. Mas ele tratara a descoberta do pai biológico com o maior sigilo e a
escondera de todos, até mesmo de mim. Acho que a maioria das mulheres no
meu lugar teria pensado o mesmo que eu pensei.
Achei que o rosto de Kellan poderia até se rasgar, tão largo era o seu sorriso.
Quando seus olhos se fixaram em Gavin, que conversava com meus pais, ele
bateu as mãos com força.
– Bom, vou começar a preparar o brunch, já que está quase na hora do almoço.
– Rindo um pouco, levantou as mãos para o pai: – Me desculpe por ter te
ligado mais tarde do que o combinado.
Os olhos azul-escuros de Gavin observaram o filho, e então se voltaram para
mim. Sentindo meu rosto queimar sob seu olhar, foi fácil imaginar como esse
homem seduzira uma mulher casada. Claro, era uma situação terrível, tão
terrível quanto a situação em que eu me encontrara dois anos antes, mas era
fácil ver por que tinha acontecido. O rosto de Gavin era daquele tipo a que
poucas mulheres conseguem resistir. Na mesma hora me senti aliviada pelo
fato de papai estar agindo como uma barreira entre Gavin e mamãe. Não que
Gavin fosse dar em cima dela na casa de Kellan, e não que ela fosse cair, mas,
enfim...
Um sorriso afetuoso curvou os lábios de Gavin, que balançou a cabeça para
mim.
Meu rosto ficou ainda mais vermelho quando Hailey me deu um apertãozinho
no ombro, exclamando:
– Você agora é parte da família, Kiera, goste ou não!
Meu pai suspirou.
Vindo até mim, Kellan me afastou da irmã e me deu um beijo leve. Seus olhos
me bebiam como se ele jamais me tivesse visto. O jeito como olhava para mim
fez com que meus joelhos ficassem bambos, meu coração disparasse e minha
respiração acelerasse. Ele era incrível.
– Goste ou não – murmurou, antes de me beijar novamente.
Toda derretida e romântica, respondi, com um suspiro:
– Eu gosto.
Meu pai suspirou outra vez.
Passando o braço pelos meus ombros, Kellan olhou para nossas famílias.
– Vamos estar na cozinha. Vocês precisam de alguma coisa?
Sorrindo ao olhar para Gavin, minha mãe murmurou:
– Não, não precisamos de nada. – Meu pai deu uma olhada nela e se inclinou
um pouquinho para a frente, tentando bloquear a visão do pai de Kellan.
Sem notar, Gavin balançou a cabeça.
– Não, obrigado, filho.
Kellan estava rindo baixinho quando contornamos a parede e entramos na
cozinha.
– Ele me chamou de "filho".
Sorri para ele, eufórica pelo vínculo que se aprofundava entre ele e o pai.
Kellan parou diante da geladeira, seu sorriso se desfazendo. Seus lábios
carnudos se curvaram numa expressão preocupada.
– Que é que eu preparo para eles? – Olhou para mim, seu rosto em pânico. –
Eu não sou o melhor cozinheiro do mundo.
Abriu a geladeira, procurando alguma coisa no seu interior. Tentando me
lembrar de alguma refeição decente que tivesse preparado, sugeri, impulsiva:
– Eu posso fazer uns ovos mexidos, que tal?
O sorriso radiante de Kellan reapareceu ao encontrar uma caixa de ovos na
geladeira.
– Tá, tudo bem... pode ser. – Passando a caixa para mim, fechou os olhos por
um segundo. – Por favor, me diga que tem bacon em casa. – Eu já ia responder
que comprara um pacote poucos dias antes, quando ele abriu a porta do freezer
e o encontrou. Com uma expressão de grande alívio, suspirou. – Graças a
Deus.
Achando graça do seu nervosismo, coloquei os ovos na bancada e segurei seu
rosto entre as mãos.
– Calma. Eles estão aqui por você, não pela comida.
Kellan soltou um longo suspiro para se acalmar.
– É, eu sei. É que... não quero estragar tudo. – Balançando a cabeça, olhou
para o chão. – Porque eu sempre estrago tudo, Kiera.
Sentindo um aperto no estômago ao ver sua expressão sofrida, passei os
braços pelo seu pescoço e puxei seu corpo para o meu.
– Não, não estraga. – Com uma expressão séria, observei seus olhos. – Você
não estragou a nossa relação.
Seus lábios se curvaram, irônicos, como se ele tivesse certeza de que isso não
era verdade. Mas era, sim. Nosso lado sombrio não podia ser atribuído
exclusivamente a ele. Não, nossos problemas tinham sido criados por nós
dois.
Apontando para o armário embaixo da pia, ele disse, em voz baixa:
– Ah, não? Eu acabei de jogar fora um vídeo pornô, Kiera.
A sensação que experimentei ao ouvir isso foi estranha. Por um lado fiquei
eufórica por não estar mais no seu bolso, por outro fiquei horrorizada por
saber exatamente onde estava. Mas me obriguei a sorrir do jeito mais natural
possível, e me afastei de Kellan. Pegando uma frigideira para os ovos,
respondi:
– Exatamente. Você jogou fora. – Tirando um garfo da gaveta, dei uma
espetadinha brincalhona no seu peito. – Agora, se tivesse guardado numa
gaveta para assistir mais tarde, aí sim, você seria um babaca.
Kellan riu baixinho, batendo no meu traseiro com o pacote gelado de bacon.
Quando me afastei dele, com a bunda gelada, sua irmã entrou na cozinha.
– Quem é babaca?
Esfregando o traseiro, apontei automaticamente para Kellan. Ele ficou sério, e
então deu de ombros.
– Eu... pelo visto.
Hailey abriu um largo sorriso para o irmão, puxando uma cadeira. Sentando
com os braços sobre o encosto, ficou assistindo enquanto tentávamos preparar
um brunch decente. Kellan degelou o bacon no microondas, enquanto eu
preparava uma jarra de café. O borbulhar do café fervendo se misturou com os
estalos e chiados da gordura quando as fatias de bacon foram jogadas na
frigideira. Comecei a fritar os ovos, quebrando vários em outra frigideira, e
então esperei alguns minutos até que a clara começasse a endurecer. Quando
achei que estavam prontos, tentei soltá-los. Kellan deu uma olhada na
frigideira quando me viu quebrar a gema de mais um ovo.
– Hum, acho que eles têm que ficar mais tempo... – murmurou.
Dando uma olhada na sua frigideira de bacon chiando, notei que uma
desagradável fumaça preta começava a encher a cozinha. Apontando para sua
frigideira, respondi:
– E eu acho que você está deixando o bacon queimar.
Na mesma hora ele voltou a prestar atenção à frigideira, e Hailey caiu na
risada.
– Santo Deus, como vocês dois sobreviveram esse tempo todo?
Levantando, veio até onde Kellan e eu assassinávamos o brunch.
– Podem deixar que eu termino. Vão descansar em outro lugar.
Kellan deu um sorriso para ela, como se se desculpasse.
– Obrigado... irmã.
Ela sorriu para ele, depois de soltar um ovo frito da frigideira com a maior
facilidade.
– Não há de que, irmão mais velho.
Não pude deixar de notar as semelhanças entre seus sorrisos quando os dois se
entreolharam. Fiquei feliz por ver que o sorriso de Kellan parecia ser
genético. Quem sabe ele não podia passar aquele sorriso incrível para os
nossos filhos? Quer dizer, quando tivéssemos filhos. Dali a muitos anos.
Kellan passou os braços pelos meus ombros, com um suspiro satisfeito.
Olhando para mim, balançou a cabeça.
– Há anos que eu cozinho para mim mesmo. Não sei por que eu não estou
conseguindo hoje.
Com um largo sorriso, dei um tapinha no seu estômago.
– Bem-vindo ao maravilhoso efeito colateral de uma crise de nervos, Kellan
Kyle.
Ele franziu o cenho ao ouvir minha opinião.
– Eu não estou nervoso.
Hailey parou de cozinhar por um segundo e se virou para ele:
– Você só pode estar brincando. Quase dá para sentir o cheiro do medo saindo
de você.
– Deu uma risadinha.
Kellan franziu ainda mais o cenho.
– Como estou feliz por ter irmãos...
Adorando o papo brincalhão entre irmão e irmã, passei os braços com mais
força ao redor do seu pescoço. Hailey estava certa sobre o seu nervosismo, e
errada sobre o seu cheiro. Ele estava com o mesmo aroma fantástico que
sempre tinha. Aquele aroma maravilhoso que era só seu e enchia os meus
sentidos enquanto eu me aconchegava a ele. Seu cheiro era melhor do que o do
café e o do bacon.
Riley entrou na cozinha alguns minutos depois, com uma expressão
entusiasmada.
– Kellan, me mostra a sua guitarra?
Kellan sorriu para ele.
– Claro. – Deu um tapinha no ombro de Riley, e um beijo na minha testa. – Já
volto.
Fiquei olhando seu traseiro quando saiu da cozinha, me sentindo totalmente
feliz. Em seguida Hailey disse algo que balançou um pouco essa felicidade.
Dando uma olhada no irmão, perguntou:
– Kellan fez mesmo... um vídeo? – Ergueu as sobrancelhas, maliciosa.
Irritada por ela ter ouvido nossa conversa, estremeci. Vendo minha reação, os
olhos de Hailey na mesma hora se arregalaram e ela voltou a se concentrar na
refeição que preparava.
– Desculpe, não devia ter perguntado. Tenho certeza de que você prefere não
falar sobre o... assunto. – Pareceu um pouco constrangida.
Sem compreender a que ela se referia, Riley pareceu confuso:
– Ele fez um monte de vídeos, Hail. – Olhou para mim, seus olhos o retrato da
mais pura inocência. – Tem vídeo dos D-Bags que não acaba mais na Internet.
Corei, mordendo o lábio.
– É, exatamente... um monte de vídeos na Internet. – Suspirei, sabendo o
quanto essa afirmação era verdadeira.
Hailey fez uma careta, pedindo desculpas por mímica labial.
Assenti. Não fazia sentido me preocupar com todos os vídeos de Kellan que
poderiam vir à tona algum dia. Não importava. Eu podia enfrentá-los. O preço
valia a pena. Provavelmente seria capaz de enfrentar coisas até piores para
ficar com Kellan. Não que quisesse isso, mas, se acontecesse, aceitaria
qualquer limão que a vida jogasse em mim, se era esse o preço de ser sua
mulher.
Kellan voltou à cozinha alguns minutos depois, segurando a guitarra pelo
braço. Estava num intervalo da gravação do álbum da banda em Los Angeles
e, como sempre, trouxera o instrumento favorito para casa. Era quase como um
cobertor de segurança para ele, um objeto do qual parecia não ser capaz de se
afastar por muito tempo.
Sorri para Kellan, que convidou Riley a sentar, e então lhe entregou a amada
guitarra. Achei que o menino seria capaz de desmaiar, tal foi sua empolgação
ao segurála. Os olhos de Kellan brilhavam ao observar a euforia do irmão,
como se lembrasse de si próprio. Deixei os dois se entrosarem e tentei ajudar
Hailey com o brunch. Peguei um melão pingo de mel fresquinho na geladeira e
comecei a cortá-lo em finas fatias, um riff desafinado encheu o ar.
Kellan ajudou Riley a melhorar sua técnica e, enquanto eu ouvia suas
instruções, relembrei a primeira vez que Kellan tentara me ensinar a tocar
guitarra. A lembrança de suas mãos sobre as minhas e sua respiração no meu
ouvido me fez sorrir. Na época, eu me sentira extremamente culpada por gostar
tanto daqueles momentos. Na verdade, ainda me sentia culpada. Eu tentara
fingir que nossa paquera não passava de carícias inocentes, mas de inocente
ela nunca tivera nada. Eu o desejava, e ele a mim. Eu o amava, e ele a mim.
Nada do que havíamos feito estava certo. Mas a lembrança ainda me fazia
sorrir.
Longe dos acordes de Riley e dos chiados do bacon na gordura, ouvi Gavin e
meus pais conversando. Para minha surpresa, meu pai soltou uma gargalhada
homérica. Gavin devia ser tão simpático quanto o filho – mais uma
característica que estava nos genes de Kellan. Que Deus ajude as mulheres do
mundo se Kellan e eu tivermos um filho algum dia, pensei.
Quando a comida estava quase pronta, Gavin apareceu diante da porta em arco
que separava a sala de jantar da sala de estar, e sorriu de felicidade ao ver os
três filhos. Quando seus olhos encontraram os meus, abri um sorriso radiante
para ele, feliz por ver Kellan lhe dar mais uma chance, como ele pedira. Eu
sabia muito bem o que é a bênção de ter mais uma chance, já que Kellan
também me dera uma. Balancei a cabeça para Gavin, que sentou numa cadeira
ao lado de Riley.
– Ouviu isso, pai? Finalmente consegui acertar aquela parte!
O sorriso orgulhoso de Gavin se voltou para o filho caçula.
– Maravilha! Você já está no caminho para o estrelato. – Seus olhos passaram
para Kellan. – Como o seu irmão mais velho.
Riley voltou a tocar, mas Gavin manteve os olhos fixos em Kellan. Abaixando
a voz, ouvi-o perguntar:
– Posso dar uma palavra com você?
Na mesma hora a expressão de Kellan se tornou defensiva, mas ele assentiu,
indicando o corredor. Dando um beijo no meu rosto ao passar por mim,
contornou a parede em companhia do pai. Voltei a olhar para Hailey, mas ela
apenas deu de ombros; também ignorava o que Gavin queria.
Terminando de fatiar o melão, coloquei depressa os pedaços em uma tigela, e
então limpei o sumo das mãos com uma tolha. Curiosa, saí da cozinha, à
procura dos dois.
Kellan e o pai estavam parados pouco depois da aresta da parede, perto da
entrada da área de serviço e do banheiro. Ao lado de Kellan, ouvi Gavin
dizer:
– Não quero discutir isso na frente de Hailey e Riley, mas... – Parou de falar
ao me ver. Kellan ergueu os olhos e me deu um breve sorriso, por isso vi que
podia me aproximar. Gavin pareceu não saber se devia falar na minha
presença, mas Kellan meneou a cabeça para que ele continuasse. – Hum,
enfim, Martin e Caroline me falaram daquela visita que você recebeu horas
atrás. Disseram que a moça... chantageou você...
Kellan suspirou, e meu rosto começou a arder. Gavin olhou para o filho, e
então para mim.
– Está tudo bem?
Kellan retesou o queixo e apertou tanto os punhos que os nós dos dedos
empalideceram.
– Claro, está tudo bem. Isso... não é nada. Vou cuidar do assunto amanhã
mesmo, antes de voltar para Los Angeles.
Senti uma tristeza enorme ao lembrar que Kellan iria embora tão cedo. Mas
ainda não podia ir ao seu encontro. Meus pais iriam passar mais alguns dias na
cidade, e eu tinha um emprego do qual precisava me demitir primeiro. Pete
fora ótimo comigo, por isso eu queria agir da maneira certa dessa vez e lhe dar
o aviso prévio com duas semanas de antecedência. Também prometera à minha
volúvel irmã que a acompanharia na sua próxima consulta com a obstetra. Por
isso, infelizmente, Kellan teria que voltar para Los Angeles sem mim. Mas,
antes, ele teria que se encontrar com aquela... mulher. Cachorra.
Gavin e os filhos passaram horas na nossa casa, jogando conosco durante
quase toda a tarde ensolarada. Hailey nos deu uma surra no Banco Imobiliário,
meu pai desbancou todo mundo no Scrabble, e Kellan e eu arrasamos no
Pictionary, o que me surpreendeu um pouco, já que eu não tinha o menor
talento para o desenho. Mas a intuição de Kellan era fora de série; ele
adivinhava tudo.
Quando a noite chegou, Kellan já parecia se sentir totalmente à vontade no
meio da recém-encontrada família, e ninguém mais pensava no incidente de
horas antes com Joey. Foi quando minha irmã, que estava grávida, apareceu,
com o pai do bebê a tiracolo.
Sem o menor aviso, a porta da sala se escancarou cento e oitenta graus,
batendo na parede. Cheguei a saltar da cadeira, meu coração aos pulos. Todos
os presentes olharam para o vestíbulo. Tive certeza de que estávamos sendo
atacados, e que uma legião de policiais devia estar prestes a irromper pela
sala adentro, revólveres em punho.
Levantando-se, Kellan ficou na minha frente, para me proteger. Foi quando o
baixista louro da banda, que era um perfeito idiota, entrou com seus passos
gingados. Relaxando ao ver quem chegara, Kellan fuzilou o companheiro de
banda com os olhos.
– Griffin, será que você já ouviu falar numa coisa chamada "tocar a
campainha"?
Fungando, Griffin afastou para trás das orelhas os cabelos que lhe vinham até
o queixo.
– Nós somos parentes, cara, eu não preciso tocar.
Suspirei, sem saber se Kellan podia questionar esse argumento ou não; afinal,
Griffin engravidara minha irmã, ou seja, ele agora fazia mesmo parte da
família. Que Deus me ajudasse.
Kellan abriu a boca para tentar discutir, mas Anna entrou depois de Griffin e
lhe deu um pescotapa.
– Neandertal – murmurou.
Meus pais se levantaram do sofá para receber Anna. A expressão de papai
ficou sombria ao examinar o pai do seu neto. Pelo jeito como olhou para
Griffin, tive certeza de que, de repente, Kellan se tornara perfeito em
comparação, o "genro de ouro", para ninguém botar defeito.
Quando me recuperei do choque causado pela entrada surpresa de Griffin, fui
receber Anna com meus pais. Ela era uma das mulheres mais lindas que eu
conhecia. Seu rosto deixava os homens de joelhos; seu corpo fazia com que a
seguissem como cachorros no cio. Mesmo grávida, sua figura curvilínea ainda
atraía os olhares masculinos. Seus cabelos eram incrivelmente sedosos, com
um brilho que ondulava a cada passo, e uns olhos tão verdes que era quase
impossível deixar de encará-los. Sua beleza era estonteante, e crescer à
sombra dessa perfeição nem sempre fora fácil. Mas eu estava começando a me
sentir mais confortável na minha própria pele e, pela primeira vez, não senti
um arrepiozinho de inveja diante da sua beleza absurda. Pelo contrário, tudo
que senti ao lhe dar um abraço apertado foi alegria por vê-la. Mesmo que ela
tivesse trazido o Neandertal a tiracolo.
– Oi, mana. – Quando me afastei, meus olhos percorreram o vestido de
grávida que ela usava. Eu não sabia como minha irmã conseguia encontrar uns
modelitos tão provocantes, mas quase tudo que ela tinha fora desenhado para
exibir o amplo busto. Griffin devia estar no sétimo céu. Putz, eu detestava ter
esse tipo de pensamento.
Anna estava num estágio superfofo da gravidez, prestes a entrar no quarto mês.
Já não estava mais vomitando tanto, e seu nível de energia começava a voltar.
Não que desse para perceber isso pelo jeito pesado como ela andava. Anna
exagerava ao máximo seu estado sempre que tinha uma oportunidade. Mas eu
sabia que ela era mais ativa do que deixava transparecer. Tinha certeza de que
sua noite com Griffin fora extremamente... atlética.
Anna olhou para Gavin e os filhos, que esperavam, educados. Ela franziu o
cenho de um jeito que só realçou sua beleza.
– Ah, desculpe. Não sabia que vocês estavam com visitas.
– Não tem problema – disse Kellan. – Entra aí.
Papai acompanhou Anna até a sala, segurando-a pelo braço como se ela fosse
cair se não fosse amparada. Kellan lhe deu um breve abraço, e então a
apresentou à família.
– Oi, Anna, não tive chance de apresentar você ontem à noite. Esse é Gavin,
meu... pai biológico. – Coçando a cabeça, deu de ombros.
Senti o maior orgulho por ver Kellan admitindo uma coisa profundamente
pessoal com tanta facilidade. Ele estava realmente começando a se sentir à
vontade com a ideia de ter um pai.
Os olhos de Anna se arregalaram um pouco diante da confissão de Kellan.
Não conhecia seu passado sórdido. Enquanto Anna trocava um aperto de mão
com Gavin, Kellan lhe apresentou os dois meios-irmãos. Os olhos dela se
arregalavam mais com cada acréscimo à família. Gavin abriu espaço para
Anna no sofá, e papai a ajudou a sentar.
Com um braço sobre o ombro de Hailey, Kellan explicou a Anna:
– Gavin, Riley e Hails vieram da Pennsylvania para me visitar. – Virou-se
para Gavin. – Você tem mais parentes por lá?
Gavin abriu um sorriso tão parecido com o de Kellan que chegava a assustar.
– Meu irmão e a família dele vivem lá, e meus pais também.
– Você vai adorar a vovó, Kellan. – Hailey deu uma cotovelada na costela de
Kellan. – Ela é tão cheia de vida.
Com uma expressão encantada, Kellan olhou para mim.
– Eu tenho avós, Kiera. – Voltou a olhar para Hailey. – Nunca tive avós vivos,
ou um tio vivo. – Riu baixinho, encantado com a informação. Minha felicidade
era enorme por ver que a família de Kellan não parava de crescer.
Griffin, que assistia à conversa sem entender uma palavra, olhou para os
presentes na sala.
– Espera aí, cara. Eu achei que o seu pai tinha morrido. Quem são essas
pessoas, afinal?
Todo mundo o ignorou.
O olhar de Anna se manteve em Gavin tanto tempo quanto o de mamãe. Alheio
ou indiferente, Griffin nem notou. No entanto, ainda quebrava a cabeça,
tentando decifrar quem era Gavin. Com um sorriso simpático, Anna perguntou:
– E aí, Gavin, sua esposa também veio?
Gavin olhou para os filhos sentados no chão, terminando de jogar uma partida.
– Não, não sou... casado. – Voltou a olhar para Anna, com um sorriso triste. –
Enviuvei... quando Riley tinha dois anos. – Hailey deu uma olhada no pai,
com uma expressão igualmente pesarosa.
– Ah, sinto muito – disse Anna, seu sorriso se desfazendo.
Fez-se um momento de silêncio enquanto todos refletiam sobre a declaração
de Gavin. Mas Griffin logo tratou de rompê-lo, indo até Kellan e cochichando:
– Cara, na boa, quem são essas pessoas?
Rindo baixinho, Kellan deu um soco no ombro de Griffin.
– Vem, vou te dar uma cerveja e desenhar um diagrama para você. – Os risos
aliviaram a tensão na sala enquanto Kellan acompanhava o baixista até a
cozinha, a fim de lhe contar a verdade sobre as suas origens. Griffin seria o
primeiro membro da banda a oficialmente saber que o falecido pai de Kellan
não era seu pai verdadeiro. Só esperava que o imbecil conseguisse assimilar a
informação.
Quando todos finalmente foram embora, já era quase de manhã. Anna foi para
casa com Griffin, a fim de aproveitar ao máximo o limitado tempo dele. Gavin
e os filhos voltaram para o hotel; iriam pegar um avião pela manhã. Exaustos,
meus pais se dirigiram ao quarto de hóspedes para passar mais uma noite no
meu velho e encaroçado futon. Papai suspirou quando Kellan e eu lhe demos
boa-noite da porta do nosso quarto.
Com pena de desperdiçar o pouco tempo que tínhamos dormindo, Kellan e eu
continuamos acordados pelo resto da noite. Ainda vestidos, ficamos
aconchegados na cama, conversando, até a luz acinzentada do amanhecer
entrar pela janela. Kellan afagava meus cabelos enquanto eu deitava a cabeça
no seu peito, ouvindo as batidas do seu coração e sua voz calmante. O
conforto que sentia em seus braços era palpável. Seu abraço me envolvia em
um calor que manteria do lado de fora a mais mortal tempestade de gelo.
Lamentando que ele tivesse que me deixar em algumas horas, eu segurava sua
camisa, abraçando-o com força. Ele parou de falar e deu um beijo nos meus
cabelos. Depois de um momento de silêncio, sussurrou:
– Kiera?
Dei uma olhada no seu rosto. Seus olhos estavam escuros na luz fraca, mas
brilhavam de felicidade. Com um sorriso, perguntou:
– Quer casar comigo?
Meu coração disparou quando me apoiei sobre os cotovelos.
– Como é?
– Quer casar comigo?
Dei uma olhada na aliança que rodeava meu anular esquerdo, e então na
aliança dele.
– Mas nós já não casamos?
Senti o peito de Kellan começar a tremer sob os meus braços, seu humor
borbulhando em uma profunda gargalhada.
– Já, mas acabei de me dar conta de que não cheguei a te fazer um pedido. –
Suspirando, afastou com o dedo uma mecha de meus cabelos para trás da
orelha. Quando terminou, acariciou meu rosto. – E você merece um pedido
tradicional.
Depois de dizer isso, seu rosto adquiriu uma expressão pensativa. Antes que
eu pudesse responder à pergunta, ele afastou meu corpo com delicadeza.
Tentei puxá-lo de volta, dizer que sim avidamente, mas ele se levantou.
Contornando a cama até o meu lado, ficou me olhando durante longos
segundos. Quando eu já estava prestes a lhe perguntar o que estava fazendo,
ele soltou um profundo suspiro, e se abaixou lentamente, ajoelhando-se sobre
uma das pernas.
Não sei por que razão, mas apenas vê-lo se ajoelhar fez com que um suspiro
me subisse pela garganta. Minha visão ficou embaçada, e passei os dedos nos
olhos para secar as lágrimas. Eu não queria perder nada.
Com os olhos úmidos em meio à luminosidade fraca, Kellan perguntou:
– Kiera Michelle Allen, a senhorita me concederia a grande honra de ser
minha esposa? Quer casar comigo?
Eu já estava assentindo antes de ele terminar de falar. Segurei seu rosto.
– Quero, é claro que quero. – E o beijei várias vezes, puxando-o de volta para
os meus braços.
Ele estendeu o corpo sobre o meu e nos beijamos, rimos e até choramos um
pouco até a pálida luz da manhã se transformar em brilhantes raios de sol
inundando nosso quarto. Ouvi meu pai sair do quarto de hóspedes, que um dia
eu dividira com Denny. Kellan e eu paramos de nos beijar e ficamos olhando
para a porta fechada.
Papai demorou muito mais tempo do que o normal, mas, por fim, desceu as
escadas em passos arrastados a fim de preparar seu café. Com um sorriso de
êxtase, Kellan olhou novamente para mim. Entrelaçando nossos dedos,
sussurrou:
– Por que estou com essa sensação de que deveria me esconder no armário?
Esfregou os quadris nos meus e se abaixou para beijar meu pescoço. Fechei os
olhos e virei a cabeça, extremamente feliz. As atenções de Kellan começaram
a despertar meu corpo. Passei as pernas em volta dele, imaginando até que
ponto conseguiríamos manter a discrição. Sexo em silêncio com ele era difícil,
mas não impossível. Quando seus lábios começaram a se afastar do meu
pescoço, murmurei:
– Hummm... porque você é um canalha que só está me usando para satisfazer
os seus instintos sexuais.
Kellan parou de me beijar, levantando o rosto.
– É isso mesmo que o seu pai pensa de mim?
Pega de surpresa pela súbita mudança de rumo, pisquei, gaguejando:
– Hum, não sei... não... acho que não.
Kellan se deitou ao meu lado, e eu me virei de lado para olhá-lo.
– É, sim. Ele pensa que a única coisa que quero de você é sexo, e que tenho
uma versão diferente de você em cada cidade que visito.
Franzi os lábios, tentando pensar em algum errinho na análise de Kellan.
Infelizmente, tinha certeza absoluta de que essa era mesmo a restrição
fundamental que papai lhe fazia: ele não confiava no meu marido por causa do
seu estilo de vida. Dando de ombros, observei:
– Tenho certeza de que ele não pensa que é em cada cidade.
Kellan franziu o cenho, e então voltou a se levantar da cama. Sentando, soltei
um resmungo exasperado.
– O que você resolveu fazer agora?
Kellan foi até a cômoda e começou a se despir. Parei de protestar no instante
em que a cueca samba-canção de seda caiu no chão. Kellan ficou me vendo
observá-lo com um sorrisinho. Vestindo uma cueca limpa e uma calça jeans,
procurou uma camisa nas gavetas, enquanto eu o encarava sem a menor
cerimônia. Por mais atraente que seu corpo fosse ao natural, havia algo do
mais extremo erotismo em sua figura de pé, com a calça aberta. Ainda mais
com as intrigantes linhas que definiam seu abdômen perfeitamente esculpido se
distendendo e flexionando enquanto ele se movia. Queria tanto sentir aquele
corpo em cima de mim novamente.
Achando graça da minha intensa inspeção, Kellan encontrou uma camiseta de
que gostava e a vestiu. Sorri ao ver aquele corpo maravilhoso sendo coberto
pela malha vermelho-escura. Mesmo vestido, ele era lindo. Puxando o zíper
da calça, Kellan balançou a cabeça, aproximando-se.
– Você sabe que se eu ficasse te secando do mesmo jeito que você me seca,
ouviria gritos.
Dei um beijo leve nele quando se abaixou em minha direção.
– Eu nunca gritaria com você... mas sei disso, sim. – Seu rosto misturava
humor e irritação quando ele se afastou. Aos risos, comentei: – A vida é cheia
de injustiças. – Franzi o cenho. – Como você ter que me deixar agora. Aonde
vai?
Kellan sorriu, passando os dedos pelos cabelos, ajeitando as camadas mais
longas até ficarem naquela bagunça irresistível de quem acabou de acordar.
– Vou mostrar ao seu pai que há mais em mim do que ele pensa. Dormir com a
filha dele não é o meu único interesse. – Piscou um olho, e então se virou para
sair. Já com a mão na maçaneta, olhou novamente para mim. – Embora seja o
que eu realmente gostaria de estar fazendo neste momento. – Seus olhos
percorreram meu corpo, despertando meu desejo. Kellan suspirou, enquanto eu
me contorcia sob o seu olhar. Fixando os olhos nos meus, acrescentou: – Está
vendo os sacrifícios que faço por você?
Deu um risinho e saiu do quarto antes que eu pudesse fazer qualquer
comentário.
Pensei em ir ao encontro dos dois, mas decidi não fazer isso. Meu pai
precisava ficar a sós com Kellan para poder se entrosar com ele. Além disso,
eu não queria distrair Kellan com meu sex appeal. É, é isso aí. Sorrindo da
minha vaidade ridícula, levantei da cama. Kellan era a metade sexy do casal, o
que era uma vantagem para mim. Eu era... a metade de sorte.
Esbarrei em mamãe no corredor quando me dirigia ao banheiro. A casa de
Kellan era pequena. O segundo andar consistia apenas em dois quartos
modestos e um banheiro entre eles. Esbarrar nas pessoas no corredor era
quase inevitável. Fora assim que eu conhecera Kellan oficialmente.
Mamãe sorriu, prestando atenção à conversa civilizada que seu marido estava
tendo com o meu. Dei um breve abraço nela, também prestando atenção. Papai
perguntava a Kellan se era mesmo possível ter lucro com esse "negócio de
banda". Enquanto Kellan tentava explicar que provavelmente daria para
ganhar "direitinho", minha mãe voltou sua atenção para mim.
– Nós devíamos dar uma olhada em algumas lojas de noivas enquanto estou
em Seattle. Achar um vestido para você antes de voltar para casa.
A ideia me fez estremecer.
– Mãe, eu não preciso de uma superprodução. Quero uma coisa bem simples.
– Simples ou não, você vai precisar de um vestido – disse ela, gesticulando.
Contive um suspiro derrotado. Esse argumento era irrespondível.
– Tá, tudo bem.
Antes que ela pudesse fazer qualquer comentário, entrei no banheiro e fui logo
trancando a porta. Sabia que noventa por cento do meu casamento já estariam
planejados antes de minha mãe ir embora. Quem teria imaginado que ela era
tão obcecada por casamentos? Nunca tínhamos conversado sobre o assunto.
Jamais fora mencionado enquanto eu estava com Denny.
Talvez ela tivesse percebido meu vínculo com Kellan e soubesse, como eu,
que eu encontrara o homem da minha vida. Minha alma gêmea. A metade da
laranja. Minha razão de existir. Nada nesta vida jamais me daria tanta alegria
e paz quanto Kellan. Não sabia o que faria sem ele.
Quando saí do banheiro depois de tomar um banho longo demais, Kellan já
tinha voltado ao quarto, mas agora estava vestindo uma calça de moletom e
terminando de amarrar os tênis de corrida. Devo ter feito uma expressão
cômica, porque ele ficou me encarando ao notar minha presença. Claro que
podia ser pelo fato de eu só estar usando uma fina toalha branca que mal
cobria meu corpo. Eu estava mesmo precisando lavar as roupas.
Com um sorriso brincalhão, ele terminou de amarrar os tênis.
– Que foi? – perguntei, fechando a porta.
Kellan balançou a cabeça, seu sorriso aumentando.
– Nada. – Eu já ia perguntar de novo do que estava achando tanta graça, mas
ele terminou de amarrar os tênis e se levantou. – Vou dar uma corridinha
rápida.
– Tudo bem. – Imaginando se meu pai fora duro demais com ele na minha
ausência, perguntei: – Está tudo bem?
Seus olhos azul-escuros percorreram meu corpo seminu. Na mesma hora tive
consciência de não estar usando lingerie. Quando seus olhos voltaram aos
meus, havia um claro toque de sensualidade neles.
– Claro. Só preciso fazer um pouco de exercício para manter a forma. – Sua
expressão dando lugar a um sorriso natural, enfiou a mão sob a camiseta,
dando um tapa nos abdominais rijos. Mão de sorte. Vindo até mim, retirou a
mão e deu um beliscão no meu traseiro. – Não quero ficar flácido logo agora
que me casei.
Caí na risada, empurrando sua mão, que já começava a subir pela toalha.
Passando os braços pelo seu pescoço, eu me permiti contemplar sua perfeição
física, com ar sonhador.
– Prefiro te ver flácido a longe de mim.
Kellan me apertou com força contra o corpo; seu ar também pareceu sonhador
ao me olhar.
– Preciso... – Hesitou por um segundo, e então concluiu: – ... de um pouco de
ar fresco. – Me deu um beijo rápido, parecendo totalmente à vontade, mas tive
certeza de que mudara o que ia dizer. Ou talvez eu estivesse sendo paranoica.
Nem sempre a nossa relação primara pela honestidade. Mas nós tínhamos
jurado que não iríamos mais esconder nada um do outro, e eu confiava nele.
Assentindo, eu o soltei. Seu sorriso em nenhum momento oscilou, mas achei
que o brilho em seus olhos diminuiu um pouco quando me deu as costas. Puxei
uma gaveta da cômoda, observando Kellan, que já ia abrir a porta. Mas parou
antes de fazer isso. Encostando a cabeça no batente, murmurou:
– Droga, não posso fazer isso.
Deixando minhas roupas de lado, eu me virei para ele.
– Kellan? – Será que eu acabara de acertar na mosca? Será que ele tinha
mentido para mim?
Respirando fundo, Kellan me olhou em silêncio por longos momentos. A
tensão no quarto parecia triplicar a cada segundo. O ar frio envolvia minha
pele úmida, me enregelando, e cada gota d'água que pingava do meu cabelo
era como uma lança de gelo perfurando meu corpo. Comecei a tremer, meus
nervos intensificando a sensação.
Percebendo meu medo, Kellan deu um passo na minha direção.
– Você disse total e irrestrita honestidade, não disse?
Assenti, ainda sem me sentir capaz de falar. Kellan desviou os olhos. Era
óbvio que sua cabeça dava voltas em torno de algum problema. Eu só não
sabia qual era. Engolindo o nó na garganta, consegui perguntar:
– O que é?
Ele voltou a me olhar.
– Desculpe. Eu menti para você. Não vou sair de casa porque quero me
exercitar, ou porque preciso de ar fresco. Tenho que fazer uma coisa... e tenho
que estar sozinho.
O gelo que recobria minha pele na mesma hora irrompeu em chamas; cheguei a
ter a impressão de ouvir minha carne chiando.
– Você... mentiu para mim? Em relação a quê? O que exatamente você tem que
fazer sozinho?
Kellan estremeceu, levantando as mãos.
– Está vendo? Era essa a reação que eu queria evitar, e foi por isso que menti.
Mas, como nós estamos tentando ser honestos, mudei de ideia e decidi te dizer
a verdade. Por isso, não fique zangada.
Fumegando de raiva a ponto de ter a sensação de que meu cabelo ia secar nos
próximos cinco segundos, rebati, ríspida:
– Mas você não me disse a verdade. Você não me disse nada. Está sendo vago
e misterioso... e eu não gosto disso.
Kellan fechou os olhos.
– Teria sido tão mais fácil se eu apenas tivesse ido em frente... – Comecei a
bater com o pé no chão, e Kellan reabriu os olhos devagar. – Joey me ligou
enquanto você estava no banho. Vou me encontrar com ela, e quero que você
fique aqui com os seus pais.
Meu queixo despencou.
– Não! Não quero que você vá se encontrar com ela sem mim. Vou com você!
– Não quero que você chegue nem perto dela. Quero que fique aqui. – Seu tom
era firme, autoritário. O que me deixou uma fera.
– Você não manda em mim. Se eu quiser ir... – Suspirando, Kellan me deu as
costas. Segurei-o pelo braço, fazendo com que se virasse para mim. – Eu
ainda não acabei de falar com você!
Com os lábios apertados numa linha fina, Kellan respondeu:
– Eu sei que não mando em você, Kiera. Entendi isso muito bem quando Denny
voltou para a sua vida e você não disse uma palavra. Mas você também não
manda em mim e, se eu quiser fazer isso sozinho, vou fazer!
E com essa, deu meia-volta e saiu. E eu deixei.
Sentindo as lágrimas brotarem nos olhos, sentei na cama. A total honestidade
não está com essa bola toda, como dizem.
Fiquei fumegando durante muito tempo depois que ele saiu. Meu pai tentou me
animar dizendo que talvez Kellan não fosse a pessoa certa para mim, mas
calou a boca quando meu olhar já frio se tornou glacial. Minha mãe ficou
suspeitamente quieta, folheando uma revista de noivas; eu não fazia a menor
ideia de onde a encontrara, mas, pelo encanto em seu rosto ao virar as páginas
e o silêncio diante de meu óbvio desagrado, ficou claro que esperava que
Kellan e eu fizéssemos as pazes em breve. E era o que eu queria. Não gostava
de ficar zangada com ele. Não gostava quando trocávamos palavras ríspidas.
Mesmo assim, sabia que os desentendimentos são inevitáveis. É encontrar uma
saída em meio a eles que faz uma relação dar certo, ou a destrói
completamente. Kellan e eu já tínhamos brigado muitas vezes, mas a maior
parte dessas brigas havia sido por motivos sérios. Não havíamos tido
briguinhas por coisas insignificantes. Não mesmo. Era uma novidade para nós,
e eu não fazia a menor ideia de como lidar com isso.
A única coisa em que não conseguia parar de pensar enquanto ele estava na
rua era o que poderia dizer para Joey, ou fazer com ela. Quer dizer, não que eu
achasse que ele faria qualquer coisa com ela. Ele me amava, e nos
considerava casados. Não destruiria isso por causa de uma vadiazinha com
quem transara anos antes.
Então, será que eu estava com medo do que ele diria? Bem, não, porque já
fazia uma boa ideia do que diria. Ele a encheria de desaforos, diria que ela
fora um enorme erro e atiraria um maço de notas na sua cara, esperando que
ela ficasse quieta. Sorri ao imaginá-lo tão furioso. Ele ficava extremamente
atraente quando estava zangado.
O sorrisinho que se esboçou nos meus lábios dissipou meu nervosismo. Não,
eu não estava preocupada com Kellan nisso tudo. Era o fator surpresa que me
preocupava. Era Joey. Não sabia o que ela faria ou diria, e isso me deixava
ansiosa. E essa fora a exata razão por que Kellan não quisera que eu o
acompanhasse. Ele a conhecia muito bem, convivera com ela. Sabia que a
garota tinha um gênio ruim. Estava tentando me proteger indo sozinho, e eu
soltara os cachorros em cima dele por causa disso.
Minha raiva passou quando refleti sobre a situação do ângulo de Kellan. Ele
devia estar constrangido. Não pelo vídeo, mas pela maneira como fora
exposto – diante de mim e de meus pais. Ele queria acalmar Joey, para poder
seguir em frente. Devia saber que minha presença só prolongaria o processo,
ou talvez até mesmo impossibilitasse qualquer chance de acordo entre os dois.
É claro que Joey diria ou faria algo que me ofenderia, e eu acabaria partindo
para cima dela. Provavelmente Kellan agira bem ao insistir para que eu
ficasse em casa. Se eu fosse ele, acho que teria feito o mesmo.
Quando Kellan finalmente voltou, uma hora e meia depois, minha raiva já tinha
passado. Meus pais e eu olhamos para ele quando entrou na sala. Ele respirou
fundo, fechando a porta. Lançando olhares nervosos para mim, nem mesmo se
virou totalmente na minha direção. Seu cabelo pingava, e seus braços reluziam
de suor. Imaginei que acabara decidindo ir dar uma corrida pesada. Talvez
tivesse sentido necessidade disso, depois de enfrentar a vagabunda.
Consciente de que lhe devia um pedido de desculpas, coloquei na mesa o
caderno onde estava escrevendo e, cautelosa, me aproximei. Ele desviou os
olhos e murmurou que precisava tomar banho antes de ir para o aeroporto.
Senti uma pontada de dor ao lembrar que ele iria embora, mas, no momento,
seu jeito arredio estava me preocupando mais. Quando cheguei ao vestíbulo,
ele se virou e subiu a escada correndo.
– Kellan...?
Ele contornou a parede, limitando-se a dizer:
– Já volto... só preciso me lavar.
Tentei não interpretar essas palavras como sendo mais do que uma constatação
objetiva; ele estava suado e queria ficar limpo antes de viajar. Dando uma
olhada rápida em meus pais, subi a escada atrás dele. Estava se examinando
no espelho do banheiro quando cheguei.
– Kellan...? – tornei a perguntar.
Quando ele olhou para mim, soltei uma exclamação. No espelho, pude ver uma
feia linha vermelha na sua pele, estendendo-se da face até o queixo. Fora por
isso que ele não quisera olhar para mim na sala – aquela cachorra o agredira!
– Ela bateu em você? – Meu coração disparou, e corri até ele.
Kellan observou o ferimento no espelho, e então suspirou ao perceber que eu
também podia ver o reflexo.
– Eu estou bem, Kiera.
Segurando seu rosto, virei-o com cuidado, para poder examinar o corte mais
de perto.
– Ela tirou sangue. Aquela cachorra tirou sangue!
– Está tudo bem. – Ele esboçou um sorriso. – Não é a primeira vez que uma
mulher me arranha.
Ignorei sua provocante referência ao nosso tórrido encontro no quiosque de
espresso, meus olhos úmidos. Seu sorriso se desfez quando ele examinou meu
rosto com a mesma atenção com que eu examinava o dele.
– As coisas não foram muito bem. Talvez você devesse mesmo ter vindo
comigo.
Segurei seu rosto ferido.
– Talvez tenha sido melhor eu não ir. Provavelmente teria sido presa por
agressão.
Um tênue sorriso curvou os lábios de Kellan, mas logo se desfez.
– Me desculpe por ter sido grosseiro com você. Não queria que você se
envolvesse com as baixarias dela.
Acariciei sua pele molhada com o polegar.
– Eu não estou envolvida com ela, e só queria estar lá para te dar uma força.
Kellan abaixou os olhos, seu rosto um misto de gratidão e preocupação.
– Eu sei. É que... eu a conheço, e sabia como se comportaria. – Levantou os
olhos. – Ainda mais agora que ela sabe o que você significa para mim. Eu
queria te proteger.
Dei um beijo no seu queixo; sua pele estava ligeiramente salgada.
– Eu não sou fraca. Sei me defender.
Com um sorriso tranquilo, Kellan sentou na bancada da pia.
– Eu sei que você não é fraca. Acho que o fraco sou eu. Precisava ter certeza
de que você estaria segura, protegida. Não queria que tivesse que ouvir... –
Calou-se, deixando a frase inacabada. – Esse problema é todo meu, Kiera... e
peço desculpas.
Eu podia facilmente imaginar o que Joey teria me dito – cada intimidade que
teria descrito, cada mau comportamento de Kellan que testemunhara. Teria
tentado semear a discórdia entre nós, só porque não conseguira transformar
Kellan em um dos seus brinquedinhos, como fizera com os outros namorados.
O que confirmou para mim o quanto o ciúme pode ser uma coisa perigosa.
Endireitando os ombros, passei os braços pelo pescoço de Kellan.
– Você sabe que não precisa mais pedir desculpas. Eu já te perdoei faz tempo.
Com um largo sorriso, Kellan passou os braços pela minha cintura. O arranhão
no seu rosto já não parecia tão feio agora que seus olhos brilhavam de
felicidade.
– Ah, é?
Aproximando-me ainda mais, dei de ombros.
– É claro. Nem sempre nós vamos concordar, nem sempre vamos nos entender.
– Tendo o cuidado de evitar seu corte, segurei suas faces quentes entre as
mãos. – E também... estou muito orgulhosa por você ter me dito a verdade
quando preferia ter mentido. Isso significa mais para mim do que... enfim,
significa tudo. – Minha garganta se fechou, e tive que engolir em seco para
aliviar a pressão.
Os olhos de Kellan se fixaram nos meus, e ele assentiu, seu rosto ainda entre
minhas mãos. Senti os olhos úmidos ao pensar nas muitas mentiras que haviam
marcado nossa relação. A honestidade, embora às vezes fosse dolorosa, era o
maior presente que podíamos dar um ao outro.
Antes que a emoção do momento tomasse conta de mim, levantei o astral e
perguntei a ele:
– Quer me contar o que aconteceu?
Em resposta, Kellan deu um longo suspiro, o que me fez lembrar que nenhum
de nós dormira na noite anterior. Na mesma hora, contive um bocejo.
– Ela queria se encontrar comigo aqui em casa, mas eu disse que a encontraria
na esquina. Queria chegar antes dela para que não aparecesse por aqui, por
isso não tive tempo de ir ao banco. Não tinha a quantia integral em dinheiro, e
ela deu um piti quando fiz um cheque para cobrir o que faltava. Até me ofereci
para levá-la de carro até o banco, mas ela me deu um tapa, e eu a mandei à
merda. Depois, fui dar uma corrida para descarregar a tensão. – Cachorra.
Ele revirou os olhos, e eu franzi os meus. – Ela é meio doida. Não sei como
posso ter vivido com ela.
O que eu me perguntava era como ele fora capaz de dormir com ela. Mas ele
já estava irritado, de modo que não falei nada. Dando um beijo na minha testa,
ele murmurou:
– Só quero tomar um banho e me vestir para ir viajar.
Dei um passo atrás para que Kellan pudesse se afastar da pia. Não suportava
pensar que ele iria embora sem mim. Queria que pudesse ficar. Ou que eu
pudesse ir com ele. Mas querer não é poder, e teríamos que ser pacientes.
Kellan abriu a torneira, e fechei a porta do banheiro. Sentei no lugar que ele
desocupara na bancada da pia e fiquei vendo-o ajustar a temperatura do
chuveiro. Torci para que a caixa-d'água já tivesse voltado a encher, depois do
banho de imperatriz que eu tomara horas atrás.
Quando a água estava perfeita, Kellan tirou os sapatos, as meias e a camiseta
úmida, que grudou um pouco na pele no momento em que a despiu. Quando
ficou visível, meus olhos se fixaram na tatuagem sobre o coração. Graças a
Deus Joey não tinha visto meu nome gravado na pele do examante; Kellan
poderia ter levado mais do que um arranhão. Mas ele raramente mostrava a
tatuagem aos outros. Era só nossa, uma coisa íntima. Eu ia sentir muita falta de
ver as letras caligráficas quando ele viajasse. Era só uma das mil coisas de
que sentiria falta.
Os dedos de Kellan se detiveram na calça de moletom. Deixando de lado meus
pensamentos melancólicos, dei uma olhada no seu rosto.
– Será que estou cometendo um erro? – sussurrou ele, acima do som do
chuveiro.
Sem nenhuma referência, não soube a que se referira. Notando meu ar de
incompreensão, Kellan esclareceu:
– Fazer um álbum, sair em turnê... será que estou cometendo um erro? –
Enquanto o banheiro se enchia de vapor, desci da bancada. Kellan segurou
minha mão quando me aproximei. – Só quero levar uma vida sossegada com
você – prosseguiu. – E o compromisso que assumi... não é exatamente com
uma vida desse tipo.
Imaginando como confortá-lo – quando eu vivia me perguntando a mesma
coisa –, passei o polegar sobre o corte que cicatrizava.
– Kellan, sua vida nunca vai ser sossegada, não importa o que você faça. – Ele
riu da minha referência, compreendendo. Pousei a mão no seu peito e o olhei
nos olhos. – Seu lugar é no palco. É isso que você nasceu para fazer.
Embora fosse conflitar com a paz e a serenidade que ambos queríamos, eu
sabia, sem a menor sombra de dúvida, que o que dissera era verdade. Kellan
estava fazendo o que devia. Estava cumprindo o seu destino. Mas isso não
significava que precisaria abrir mão de uma tranquila vida a dois comigo, e
sim que ambos teríamos que ser flexíveis. Dando um beijo leve nele,
murmurei:
– Vamos ter que encontrar momentos de sossego em meio ao caos, e nós somos
muito bons nisso.
Kellan retribuiu meu beijo.
– É... somos mesmo.
Meneando a cabeça em direção ao chuveiro, arqueou uma sobrancelha. Eu
sabia o que estava perguntando: Quer entrar comigo? Uma grande parte de
mim queria dizer sim, mas tínhamos coisas importantes para fazer; além disso,
meus pais, sempre vigilantes, estavam na sala, e estávamos tentando
impressioná-los com nossa compostura. E eu tinha certeza de que não sobrara
muita água quente na caixa-d'água.
Balançando a cabeça, dei um último beijo nele, e então recolhi suas roupas
sujas. Ele franziu o cenho para mim, mas então tirou as que ainda faltavam e as
depositou na pilha que eu carregava nos braços.
– Obrigado pelas sábias palavras – disse, dando um beijo no meu rosto.
Fiquei vermelha ao vê-lo entrar no chuveiro. Ele puxou a cortina e começou a
cantarolar uma música. Fiquei parada com a mão na maçaneta, ouvindo;
poderia passar o dia inteiro fazendo isso. De repente, ele aspirou pela boca,
soltando um palavrão. Dei uma olhada na sua sombra por trás da cortina clara.
– Você está bem?
Ele enfiou a cabeça para fora; seus cabelos bagunçados, totalmente escorridos
para trás, pareciam mais escuros, quase do mesmo tom que os de Denny.
– Estou... é que a porcaria do arranhão ardeu.
Quase voltei a me irritar ao lembrar a dor que aquela ordinária lhe causara,
mas a expressão petulante dele foi tão fofa que acabei rindo. Ele não achou
graça e voltou a entrar no chuveiro.
– Posso deixar um rolo de gaze em cima da pia, se quiser – ofereci, com um
toque de humor na voz.
Kellan soltou um suspiro sonoro.
– Não precisa, obrigado.
– Bebezão – murmurei, abrindo a porta.
Minha mãe já vinha subindo a escada quando saí no corredor. Seu rosto se
animou ao me ver. Seu dedo longo apontou para uma seção da revista
sofisticada que tinha em mãos.
– Acabei de encontrar o buquê mais lindo do mundo! Você precisa dar uma
olhada!
Com os braços cheios de roupas suadas de Kellan, abri um sorriso.
– Claro, mãe... sem problemas. Me deixa só colocar estas roupas na máquina
primeiro.
Ela assentiu, entusiasmada, indo me esperar no quarto.
Quando será que ela e meu pai iriam embora?