Setecentos anos antes dos eventos de reino quebrado. Enya, Azaban, Reinado de Rowan I Ablasak.
Uma pequena multidão se aglomerou ao redor do anúncio. Eram principalmente idosos vestindo roupas gastas, com conhecimento transmitido oralmente, distantes da cultura elitista valorizada pelo reino. O cartaz recém-afixado no mural de madeira, próximo da fonte, em letras douradas e adornado com o selo real, trouxe apreensão, pois os habitantes de Enya estavam acostumados a ser explorados e ver seus filhos serem recrutados ainda crianças para o exército mais temido do continente. Ali, a educação era reservada apenas para os nobres ou para aqueles considerados valiosos para o Estado. Para os demais, restavam os trabalhos nos campos, cultivando leveduras, plantações ou criando animais para abate. Os tributos aumentavam regularmente, cada família pagava uma taxa única que poderia perdurar anos; e caso as dívidas não fossem quitadas, o reino confiscava seus bens e redistribuía as terras para garantir a continuidade da produção.
Enya contava com cerca de seiscentas famílias, mais de cinco mil habitantes, era uma pequena vila comparada às demais. Repousava serenamente no vale de Anelis, cercada pelas esplendorosas Montanhas de Viseu. Pequenas casas de madeira, com telhados de ardósia, alinham-se ordenadamente ao longo das margens de um riacho cristalino que corta o vilarejo em duas metades harmoniosas. As habitações são adornadas com flores silvestres em caixas de janelas, emanando uma fragrância doce que se mistura ao ar puro da montanha. As casas, construídas com madeiras robustas e enfeitadas com entalhes de criaturas místicas, principalmente esculpidas de rostos élficos e animais alados, davam um ar mais nobre ao lugar. O riacho, de águas límpidas e gélidas, serpenteava suavemente enquanto passava sob uma ponte de pedra arqueada, levando consigo o frescor das montanhas para os campos mais baixos e, posteriormente, ao rio Amuriel. Pequenos lampiões de ferro forjado pendem das entradas, projetando uma luz cálida que ilumina as trilhas de pedras brancas cortadas em círculos e os caminhos cobertos por um extenso tapete de musgo, onde joaninas perambulavam e os vaga-lumes dançavam alegres com a chegada da noite.
No centro da vila, uma praça pavimentada com pedras quadriculadas abriga uma antiga fonte esculpida pelos artistas mais promissores daquelas bandas, em mármore branco, onde crianças brincavam e os anciãos reuniam-se quase todas as noites para contar lendas dos tempos antigos. As árvores ao redor da praça, altas e majestosas, lançavam sombras e seus ramos pareciam sussurrar uma tímida melodia que o vento encarregava-se de arrastar para longe. No fundo, a névoa das montanhas desciam lentamente ao cair da tarde e chegada da noite, envolvendo Enya em um véu de misticidade e deixando apenas as luzes das janelas e dos lampiões cintilando como estrelas em meio a escuridão. Enya era um refúgio para os oprimidos e desabrigados, com tranquilidade e beleza, onde qualquer mínimo detalhe parecia ter sido esculpido pela própria ação da natureza, sem mãos humanas por de trás, criando paisagens encantadoras, propícias para a caça.
As sombras da noite já haviam se estendido sobre o vale e Enya quando Calum, um jovem caçador camponês de dezoito anos, atravessou os portões de madeira do vilarejo. O brilho tênue das estrelas e o cintilar dos lampiões nas casas de madeira lançavam um resplendor dourado sobre sua figura massivamente imponente. Com cabelos negros caindo em mechas rebeldes sobre os ombros largos, sua pele bronzeada pelo sol e cicatrizes de batalhas passadas, Calum era a personificação da força e da determinação. Vestido em calças de couro preto, ajustadas perfeitamente ao seu físico esculpido, ele caminhava com um veado morto sobre os ombros, o troféu de sua última caçada. A cada passo, o peso da presa parecia nada para ele, que seguia com passos firmes e silenciosos, quase como uma sombra. Seu olhar, de um azul profundo, refletia a luz da lua, e uma expressão de foco e serenidade marcava seu rosto.
Enquanto Calum avançava pelas ruas de pedra da vila, crianças surgiram das sombras, correndo para acompanhá-lo. Seus olhos brilhavam de admiração e curiosidade, suas vozes sussurravam contos de bravura e lendas sobre o caçador que nunca falhava. Eles corriam ao seu redor, como pequenas estrelas orbitando um sol, suas risadas ecoando na noite serena. As portas das casas se abriam ligeiramente, revelando rostos de aldeões que o observavam com respeito e gratidão, pois tinham Calum como um líder. O cheiro da terra e das folhas secas impregnava o ar, misturando-se com o aroma da madeira queimada das lareiras das casas. A praça central da vila, com sua antiga fonte de mármore branco, estava iluminada pela luz suave dos lampiões. Calum costumava visitar o local de vez em quando, apreciar a paisagem e a vista passou a ser seu hobbie, mas isso mudou com o tempo. Ele passou a ser caçador, como todos os membros de sua família.
Calum finalmente parou diante da taverna local, onde entregaria sua caça. As crianças se dispersaram, voltando para suas famílias, mas não antes de lançar um último olhar de adoração ao jovem caçador. Ele depositou o veado no chão com cuidado, passando a mão pela testa suada, seus músculos tensionados finalmente relaxando. O trabalho do dia estava feito, e ele podia encontrar algum descanso, sabendo que sua vila estava mais uma vez segura e abastecida.
Ele viu quando as sombras movimentaram e da taverna, surgiu Melia. Uma jovem mulher mestiça de beleza surreal, cuja presença parecia fazer a noite ganhar tons mais vívidos. Seus cabelos ruivos, longos e ondulados, emolduravam um rosto de traços delicados, com olhos que brilhavam como estrelas e lábios que carregavam um sorriso enigmático. Sua pele, branca e suave, refletia a luz dos lampiões, destacando ainda mais sua figura. Melia era conhecida na vila de Enya por sua presença cativante e seu papel como moça da vida. Vestia-se sempre com roupas leves e provocantes, que marcavam cada curva de seu corpo esguio, realçando sua silhueta com uma sensualidade natural. Um vestido de tecido fino e transparente, adornado com rendas sutis, deixava pouco à imaginação, enquanto seus movimentos eram fluidos e graciosos, como uma dança silenciosa na penumbra.
Com passos silenciosos e decididos, Melia se aproximou de Calum, que ainda estava junto ao veado morto, exalando força e determinação. Suas palavras, delicadas e impróprias, eram uma mistura de sedução e tentação, sussurradas com uma voz suave que parecia um cântico hipnótico de uma sereia.
- Calum - disse ela, seu tom melífluo acariciando o ar noturno. - Você sempre sabe como capturar mais do que apenas a caça. Esta noite, talvez, eu possa oferecer algo em troca de suas habilidades. Algo que vá além do que já conhece.
Seus dedos finos e delicados deslizaram levemente pelo braço musculoso de Calum, enviando arrepios de excitação e desejo. Melia era um mistério, uma tentação que atraía e desafiava, sua presença uma prova constante das tentações que a vida pode oferecer, mesmo na serenidade de uma vila como Enya.
Calum, que sempre se mantivera focado e imperturbável, sentiu-se dividido por um momento. Os olhares se encontraram, e ele viu nos olhos de Melia um convite quase que irrecusável.
Calum respirou fundo, sentindo o aroma suave de flores e especiarias que sempre acompanhava Melia. Ele desviou o olhar para o chão por um instante, recolhendo seus pensamentos antes de encarar novamente aqueles olhos penetrantes.
- Melia, você sabe que tenho responsabilidades aqui - disse Calum, sua voz grave e firme, mas com um tom de hesitação. - Não posso me distrair.
Melia inclinou a cabeça, deixando seus cabelos ruivos caírem como uma cascata flamejante.
- Responsabilidades - repetiu ela, quase sussurrando. - Mas e quanto aos seus desejos, Calum? Não merece você um pouco de alegria, uma fuga dos fardos que carrega?
Ela se aproximou mais, quase tocando o peito nu de Calum com seu vestido fino. Seus dedos traçaram o contorno de uma cicatriz em seu ombro, uma lembrança de caçadas passadas.
- Eu posso te oferecer isso - continuou Melia. - Um momento de esquecimento, de prazer. Algo que te lembre que, além de um caçador, você é um homem.
Calum sentiu um turbilhão de emoções. A proximidade de Melia fazia seu coração bater mais rápido, e ele lutava contra a tentação.
- E se alguém nos visse? - perguntou ele, sua voz quase um murmúrio. - O que diriam? Eu, um puro, e você, uma mestiça, uma fusão de duas raças erradas que gerou uma pagão. Sabe que os mais velhos fariam conosco?
Melia riu suavemente, um som melodioso que ecoou na noite.
- Deixe que falem - disse ela. - As palavras são apenas vento. Esta noite merece ser levado pelo desejo, não pelas expectativas dos outros. E quanto a punição caso sejamos pegos, é nada que nossos corpos não consigam suportar - ela deu um passo atrás, os olhos ainda fixos nos dele, como se desafiando-o a resistir. - Eu estarei esperando - disse ela, virando-se lentamente para voltar à escuridão da taverna. - Se decidir que seus desejos são mais importantes do que as palavras sem rumo.
Calum ficou ali, imóvel, o peso do veado ainda em seus ombros, mas o peso das escolhas em seu coração sendo muito maior. Ele observou Melia desaparecer nas sombras, cada passo seu um convite sereno. Finalmente, ele fechou os olhos por um momento, respirou fundo e tomou sua decisão.
- Espere - disse ele, sua voz firme, mas com uma nota de desejo. Melia parou, um sorriso de triunfo se formando em seus lábios antes mesmo de se virar. Calum se aproximou dela, deixando o veado novamente no chão, seus olhos fixos nos dela. - Talvez esta noite - Calum continuou -, eu precise me lembrar de que sou mais do que um caçador. Porém, preciso entregar essa encomenda ao Sr. Delfin, se puder aguardar...
- Sim - Melia disse. - Eu espero na sua casa.
Ele sorriu nervoso.
Calum ergueu o veado com facilidade, posicionando-o sobre os ombros com uma força que parecia natural para ele. Com passos determinados, ele se dirigiu à entrada da taverna, onde a luz quente dos lampiões contrastava com a escuridão da noite. Empurrou a porta pesada de madeira e entrou, sendo recebido pelo ambiente rústico e acolhedor do estabelecimento.
A taverna, O Chifre do Unicórnio, era um local simples, mas carregado de charme. As paredes eram feitas de madeira robusta, com vigas expostas no teto e vários chifres de animais pendurados como troféus de caçadas antigas. Uma lareira crepitava ao fundo, lançando sombras que pareciam dançar pelo salão e aquecendo o ar frio da noite. As mesas de madeira eram desgastadas pelo tempo, com marcas de copos e cortes de facas, cicatrizes de longas conversas e discussões que haviam presenciado.
Os clientes, em sua maioria caçadores e trabalhadores que aravam os campos locais, lançavam olhares de poucos amigos para Calum ao vê-lo entrar. Eram homens rústicos, de rostos endurecidos pelo trabalho árduo e pela vida difícil nas montanhas, planícies e campos. Eles murmuravam entre si, interrompendo seus assuntos apenas para observar o jovem caçador passar, carregando sua presa como um presente.
Calum ignorou os olhares, acostumados à desconfiança e ao respeito velado. Ele se dirigiu ao balcão, onde o senhor Delfin, o dono da taverna, estava limpando copos com um pano velho e úmido. Delfin era um homem corpulento, de barba grisalha e olhar atento, sempre vigilante aos acontecimentos de sua taverna.
- Boa noite, senhor Delfin - disse Calum, colocando a caça no balcão com um movimento firme. - Tenho um veado fresco para negociar.
Delfin levantou os olhos dos copos, avaliando o animal com um olhar experiente. Ele passou a mão pela barba, ponderando:
- É um belo veado - asseverou ele finalmente, com um aceno de aprovação. - Você fez um bom trabalho, Calum. Quanto está pedindo por ele?
Calum cruzou os braços, mantendo uma postura confiante.
- Quinze peças de prata. É carne suficiente para alimentar muitas bocas por alguns dias, e pode pedir algumas moedas a mais.
Delfin levantou uma sobrancelha, refletindo sobre a proposta.
- Quinze, você diz? Sabe que gosto de um bom negócio, rapaz, mas esta é uma quantia considerável. Vou te oferecer doze. E ainda vai ser um bom lucro para você.
Calum sabia que Delfin era um homem justo nos negócios, mas também sabia o valor de seu trabalho. E aquele veado era um dos maiores já caçados.
- Quinze é o preço justo, senhor Delfin - insistiu ele, mantendo o olhar firme. - Considerando a qualidade e a quantidade de carne, não posso aceitar menos.
Delfin analisou por um momento, o barulho de conversas abafadas e risadas rudes enchendo o ambiente ao redor deles. Finalmente, ele assentiu lentamente.
- Feito, então. Quinze peças de prata. Vou mandar alguém levar isso para a cozinha - Calum sorriu, satisfeito com o acordo. Delfin pegou uma pequena bolsa de couro e contou as moedas, entregando-as a Calum. - Bom trabalho, rapaz. Volte sempre que tiver algo assim para negociar.
Calum agradeceu com um aceno de cabeça, guardando as moedas. Enquanto se afastava do balcão, sentiu os olhares dos clientes ainda sobre ele, mas dessa vez com um misto de respeito e curiosidade. Ele sabia que, naquela vila, e naquela noite, ele havia provado mais uma vez seu valor. Após pegar as moedas prateadas, Calum se dirigiu a saída da taverna. O murmúrio dos clientes e o crepitar da lareira eram os sons predominantes, criando uma atmosfera quase reconfortante apesar das tensões que permeiam o local. Ele estava prestes a alcançar a porta quando ouviu a voz grave de Delfin chamando por ele.
- Calum, espere um momento.
Ele se virou, vendo Delfin se aproximar com um papel em mãos. O semblante sério do dono da taverna indicava que o assunto era de extrema importância. Delfin estendeu o pergaminho para Calum, que o pegou, notando o selo real na parte superior.
- Recebi isso hoje pela manhã. Tem outro na praça, mas poucos sabem ler, então não quis causar mais pavor no povo - disse Delfin, sua voz grave ressoando no salão. - É um comunicado do rei.
Calum abriu o pergaminho com dedos trêmulos, sentindo uma sensação de apreensão crescente. Seus olhos rapidamente percorreram as linhas escritas com caligrafia formal dos escribas reais. O comunicado dizia:
"Por ordem de Sua Majestade, o Rei Rowan II Ablasak, todos os jovens entre dezesseis anos ou mais devem comparecer à capital com máxima urgência em duas semanas. Sua presença é requerida para assuntos de grande importância para o reino. Caso algumas aldeias descumpram o envio desses jovens, haverá punição."
Calum ficou atônito, o papel tremendo levemente em suas mãos. Delfin colocou uma mão firme no ombro do rapaz, seu olhar se suavizando um pouco.
- Eu sei que é um choque - disse Delfin, com um tom mais brando. - Porém é uma ordem real, sujeito a punição caso não cumpramos. Não temos escolhas.
Calum sentiu o chão se abrir sob os pés. Parte dele estava ansiosa e curiosa, mas outra parte prosseguia em conflito, preocupada com o que isso significaria para ele e para a vila. Ele olhou para Delfin, buscando alguma orientação.
- O que devo fazer? - perguntou ele, sua voz traindo a incerteza que sentia.
- Você deve ir, Calum - respondeu Delfin com firmeza. - Leve o comunicado ao conselho amanhã de manhã. Eles saberão como proceder. Mas esteja preparado para partir em breve. Não temos tantos jovens homens como no passado, a guerra veio e levou todos.
Calum assentiu lentamente, tentando processar a situação. O peso da responsabilidade recai sobre seus ombros de uma maneira nova e desconhecida. Ele guardou o comunicado cuidadosamente e agradeceu Delfin antes de sair da taverna.
Ao pisar novamente na noite fria, a vila de Enya parecia diferente, como se uma nova e incerta jornada estivesse à espreita. Calum sabia que sua vida estava prestes a mudar de maneiras que ele ainda não compreendia. Com um suspiro profundo, ele começou a caminhar de volta para casa, o comunicado real pesado em seu bolso e em seu coração.
Calum avançava sob o véu da noite, o ar carregado de frio que emanava das montanhas, ou talvez fosse o próprio vento gelado que o envolvia. Folhas secas, resquícios do outono, eram levadas pela brisa, dançando ao seu redor antes de desaparecerem na escuridão. Ele seguia pela trilha de pedras acinzentadas, cada passo o aproximando de sua casa. A morada de Calum, uma das últimas naquela região, aninhava-se ao pé das montanhas, onde águas cristalinas desciam abundantemente.
Não demorou muito para avistá-la: os lampiões pendiam na sacada, um pequeno braseiro lutava contra a extinção, e lá estava ela, Melia, uma ruiva de beleza estonteante, esperando por ele com uma graça etérea. Na infância, Calum sempre se encantara com a beleza de Melia, mesmo sabendo que, para o reino e seu rei, aqueles de sua raça eram considerados insignificantes. Ela correu com dedos pelos fios rubeos como as brasas de uma lareira, e ergueu-se.
- Demorou, caçador! - sua voz era fina e suave, um sussurro do próprio pecado. Ela tocou os peitos nu de Calum antes de deixar um beijo nos lábios dele. - Mas que bom, posso ajudar com os fardos.
Ele engoliu em seco. Calum tinha os lábios levemente avermelhados, o tom de pele era bronzeado, mas não excessivamente, já seus olhos eram um contraste a parte, um azul como os céus do verão.
- Estava conversando com Delfin - ele disse, tentando se desculpar. - Não é obrigada a fazer isso, não precisa me agradar.
Melia sorriu tímidamente.
- Você, Calum - comentou a jovem mulher - é a única pessoa neste lugar que não me julga pelas escolhas mal feitas. É nobre, o homem mais bonito que meus olhos já viram, tão incrível e sereno.
- Obrigado pelos elogios - ele afastou-se educadamente dela, procurando sentar na varanda. Ela o seguiu. - Eu pensei que podia passar uma noite com você e descobrir como é a sensação, mas não posso, Melia. Sou jovem demais, me apego fácil e isso pode ser uma distração. O reino me convocou.
Ela suspirou fundo, encostou as costas numa pilastra, afastando a fenda do vestido lilás, deixando visível suas pernas brancas e lisas.
- Mais um motivo para experimentar - ela insistiu, subindo o vestido um pouco mais. - Oh, Calum, uma noite apenas. O desejo é como uma serpente, traiçoeira, perigosa, mas bonita.
Os olhos dela, de um verde musgo, encontraram os dele. Ela sempre o quisera, não para sempre, mas por uma noite. Todos naquela vila, jovens homens e mulheres, sempre o desejaram, mas Calum Fireblade recusava os convites. Era um rapaz de aparência invejável, apesar da beleza estar estampada no rosto daquele povo. Ele se reservava para uma paixão única, não para o fogo. No entanto, a oscilação de desejo o pegou desprevinido e sentiu a mão de Melia correr sobre suas coxas quando ela agachou no chão e olhou como um gato após ser ofendido pelo dono.
As mãos de dedos longos e grossos se fecharam no maxilar perfeito da ruiva e ele a trouxe para um beijo calmo e preciso, seus dedos como um ponto no mapa a ser explorado, ágil e rápido, trançando rotas até aquele instante encobertas pela incerteza, apertando-a contra sua muralha de músculos. Então afastou-se, a respiração soando ofegante, o vento mais intenso, capaz de carregar mais que folhas do chão, e com a força que tinha, Calum a carregou para dentro da casa, um pequeno chalé herança de sua família e ali dentro tomou Malia, a dominando, fazendo ela deixar gemidos escapar de sua garganta como nem um outro homem jamais haveria de conseguir. Sem fingir orgasmo, sem fingir que estava gostando, simplesmente liberta e fiel a todos os conceitos.
Na manhã seguinte, bem cedo, após certificar-se de que estava sozinho em casa, Calum sorriu. Seu corpo ainda nu tremia após horas de intenso trabalho carnal. Os cabelos grudados na testa, o suor escorrendo pela pele devido à umidade da noite anterior. Ele suspirou profundamente, procurando uma toalha, e dirigiu-se para fora, onde se banhou, deixando a água trazer um pouco de calma aos nervos em frangalhos. Retornou ao interior do casebre, que não possuía móveis em excelente estado, apenas algumas cadeiras de madeira rústica revestidas com couro de animais de pelagem negra. Uma mesa tosca ocupava o salão, com louças de barro sobre ela e estantes com vasos de cerâmica e chifres de criaturas variadas.
Calum apanhou uma de suas roupas mais formais: uma calça de couro folgada nas pernas, botas de material nobre que chegavam próximos aos joelhos, uma camisa de mangas compridas de cânhamo e uma jaqueta de lã. Ele colocou o coldre, onde repousavam algumas armas, principalmente facas. Seu pai, Loras, havia lhe presenteado ainda na adolescência com um arco élfico, forjado na própria Cidadela do Norte pelos maiores ferreiros do reino. Era longo, bem feito, com crinas de unicórnio. A aljava com flechas também era especial; ele sempre recuperava as que lançava, pois nunca errava o alvo.
Calum deixou sua casa quando o sol começava a surgir e caminhou pelas ruas de pedras até a Casa Comunal, a maior construção de Enya, onde os anciões do Conselho se reuniam diariamente para estudar os livros, as novas leis do reino e deliberar sobre investimentos em construções que beneficiariam a todos. A Casa Comunal ficava no centro, próxima à praça principal, uma habitação de três andares em madeira nobre, construída pelos maiores construtores da região.
Ele não demorou a alcançar seu destino. Abriu a porta lentamente, já vendo os homens e mulheres reunidos de joelhos em torno da estátua de Eslandril, a Deusa da Lua, a divindade mais cultuada do Sul. Os sulistas amavam as estrelas e a luz da lua, diziam que Eslandril era uma boa mãe, sempre os abençoando com noites de paz e iluminação. Ele fez uma lenta reverência para a estátua de argila tingida com cal e tinta branca, com detalhes promissores nos olhos e cabelos.
Calum sentou-se numa cadeira e aguardou que a prece dos anciões fosse concluída. Quando todos já ocupavam seus assentos, Mavin, o líder daquele conselho, um homem do Oeste de cabelos crespos e pele negra como um lago iluminado pela luz das estrelas, falou:
- Jovem caçador Calum - disse Mavin, sua voz denunciando a velhice. - Acordou cedo.
- Creio que todos aqui, meu senhor.
- Sim, é verdade - Mavin suspirou fundo. - Acredito que já esteja ciente do último comunicado do Alto Rei.
- Estou - começou Calum suavemente. - Azaban tem sete legiões com duzentos mil soldados em cada uma. Além desses sete exércitos, o Rei possui a Legião Negra e, na cidade, a Guarda Vermelha. Homens suficientes para travar e vencer guerras. Mas vivemos em tempos de paz, seiscentos anos de tranquilidade, e minha única pergunta é: por que o Alto Rei precisa de mais recrutas?
- É como perguntar ao vento o motivo dele precisar soprar todos os dias, sem descanso - Mavin gesticulou. - Rowan é um rei jovem, sábio e poderoso, sabe das coisas. Compreendo seu posicionamento, jovem caçador, mas estamos sujeitos à lei do reino.
Houve um suspiro calmo e agoniante.
- Quantos ao todo? Quantas vidas o Alto Rei pediu?
Mavin encontrou um ponto negro na parede e sorriu nervoso.
- Apenas a sua, Calum Fireblade. O próprio rei ordenou que você fosse sozinho à capital. Segundo boatos, ele precisa de mais influência no Continente, e isso tem algo a ver com você.
- Comigo? O que um simples caçador camponês do Vale de Anelis, morador das montanhas de Viseu, tem a oferecer a Rowan, Senhor de Azaban, Alto Rei dos Homens, o portador da Magia Profunda?
- Não sei da sua utilidade para o nosso rei, mas você é útil aqui para nós. No entanto, como líder deste conselho e vilarejo, peço que não recuse a oferta generosa de sua majestade, o rei.
- Está me liberando?
- Um mal antigo está acordando, Calum, o mesmo mal que devorou outrora, agora tenta retornar a este mundo. A sombra que desceu sobre Nänheim se espalha no Sul. Os ventos uivam seu nome, o fogo aquece o gelo, um presságio sombrio do destino tece nossas vidas. Baros Ablasak, primo de Rowan, está morto. E acredito que Lencel, seu tio, também. Isso aconteceu há duas luas. O que quer que o rei saiba, ele quer você por dentro.
O coração de Calum disparou, lágrimas ousaram descer de seus olhos, encharcando a pele de seu rosto, junto com arrepios ao ouvir o nome de seu tio, Lencel, o último recruta de Enya a ser levado. Mas, em meio a tantos conflitos, ele tomou uma decisão.
- Eu vou a Azaban e ao rei.
Calum Fireblade entrou na taverna, o ambiente repleto de vozes murmurantes e o som de canecas tilintando. O cheiro de madeira velha e álcool misturava-se com o aroma sutil de comida assada. Ele caminhou até o balcão, suas botas pesadas ecoando pelo chão de madeira.
- Um copo de rum, senhor Delfin - ordenou, a voz firme, olhando diretamente para o taverneiro.
Delfin, o homem atrás do balcão, de cabelos grisalhos e olhos astutos, assentiu e pegou uma garrafa escura de uma prateleira alta. Derramou o líquido âmbar em um copo robusto e deslizou-o pelo balcão até Calum. Calum pegou o copo, observando a cor rica do rum. Levou-o ao nariz, inalando os aromas complexos de caramelo, baunilha e uma pitada de especiarias. O cheiro evocava memórias de noites passadas ao redor de fogueiras e aventuras em terras distantes, ou até mesmo nas caçadas. Levou o copo aos lábios e tomou um gole. O rum desceu quente e suave, aquecendo-o por dentro. Sentiu as notas de caramelo e baunilha se misturarem com uma leve ardência de especiarias. Cada gole trazia uma nova camada de sabor, e ele permitiu-se relaxar, sentindo a tensão dos últimos dias se dissipar lentamente, e da posição acerca de voltar a cidade dourada. Sentado em um canto da taverna, Calum observava as chamas dançantes na lareira, os reflexos dourados brincando em seus olhos. Enquanto saboreava o rum, sua mente vagava para os desafios à frente e as sombras do passado. O rum era mais do que uma simples bebida; era um breve alívio, uma pausa nas batalhas constantes que marcavam sua vida de caçador. A taverna, com suas paredes de madeira e teto baixo, parecia um refúgio temporário, sentiria falta daquele lugar e, principalmente, de Delfin quando fosse. Calum deixou-se envolver pelo ambiente acolhedor, os sons e cheiros familiares proporcionando um raro momento de paz. Ele sabia que logo estaria de volta à estrada, enfrentando novos perigos e desafios, mas por enquanto, cada gole de rum era uma pequena vitória, um momento de conforto em um mundo incerto.
- Creio que tomou uma decisão - sibilou Delfin, secando os copos. - Vai até à capital?
- A capital veio até mim, velho amigo - a amargura estava visível em sua voz. - Rowan ordenou que eu fosse a Azaban. Apenas eu.
Delfin ergueu uma sobrancelha falha.
- Algum trabalho em especial?
Calum sacudiu a cabeça em negação.
- Não sei ao certo. Estamos vivendo uma era de paz, mas o Conselho insisti em dizer que o mal acordou.
- E vai jogar sua vida fora porque velhos com um pé na cova falaram que o inimigo voltou? - Delfin riu com sarcasmo. - Você é inteligente, Calum, é um rapaz esperto, mas prezo a dogmas e lendas de supertisçiosos.
- Tio Lencel morreu.
- O quê?
- Tio Lencel, o único familiar meu, ainda vivo, morreu.
- Como? Quando?
- Há duas luas, mas não sei onde. Eu preciso descobrir, Delfin. A minha ida a cidade será exclusivamente para investigar.
Delfin espreitou os olhos, depositou mais rum no copo de Calum e analisou a expressão do garoto.
- Eu sinto muito, muito mesmo, Calum. Seu tio foi um homem importante para Enya, assim como você, e temo ficar desprotegido na sua ausência.
Calum riu nervoso.
- Nada vai acontecer com Enya ou com você, velho amigo. Voltarei breve, prometo.
- Pretende partir quando?
- Amanhã, por isso vim até aqui.
Delfin voltou a erguer uma sobrancelha.
- Creio que busca por um transporte.
- Acertou.
Delfin era um homem na casa dos sessenta anos, conheceu os pais de Calum, eram amigos próximos, fizeram tantas coisas juntas e quando o velho pai de Calum faleceu, não deixou de cuidar dele. Sempre comprava as caças a um preço justo quando podia. Nunca o deixou na mão.
- Venha comigo, garoto.
Delfin abriu a pequena porta do balcão e passou por ela, caminhou para fora, seguindo até a parte de trás da casa onde havia um estábulo com cavalos e alguns outros compartimentos para outros animais. Calum o seguiu de perto, Delfin explicara sobre como conseguiu aqueles belos garanhões, mais um, em especial, de pelagem negra, chamou a atenção do rapaz.
- Pago quinze peças de prata por este.
- Aendor é o nome dele.
- Dar nome élfico para cavalos?
- Ele é élfico, jovem caçador. Foi um presente do próprio Senhor de Emeriony, para mim. O arco - ele comentou - também foi dado a seu pai por alguns trabalhos realizados para Cirlard.
- Você já viu os elfos?
Delfin assentiu.
- Há muitas décadas... lutamos juntos em Iléria. Seu pai salvou a vida do rei dos elfos, então o presenteou com este arco.
- Meu pai?
- Seu pai era um homem Duäle, cabelos brancos naturais, beleza invejável e possuía algumas habilidades. Deve ter herdado mais que o carisma dele. Descobrirá no momento certo.
Calum fitou o chão.
- Pago quinze peças de prata no Aendor.
- Aendor não é um cavalo para ser vendido, Calum. Ele é um presente inestimável, que esteve comigo durante muitas caçadas, mas que agora vive aqui, em bom estado, é claro - Delfin afagou as crinas negras do belo garanhão. Fechou os olhos como se cenas de aventuras passassem em sua mente, sorriu. - Agora eu dou ele a você, como um presente, assim como Cirlard me deu.
Calum arregalou os olhos.
- É sério? Eu não posso aceitar.
- Deve, caro amigo. Ele me serviu bem por anos, servirá a você também. Só me promete uma coisa.
- Eu cuidarei dele.
- Isso também, Calum - Delfin tocou o rosto jovial do rapaz. - Prometa para mim que vai voltar com vida para nós.
Era uma promessa que Calum poderia não cumprir, mas para satisfazer e acalmar o coração de Delfin, ele assentiu.
- Eu prometo.
- Que bom! - Delfin secou as lágrimas. - Venha comigo, vamos almoçar. Minhas cozinheiras prepararam um assado e quisado de carne de boi. Está divino.
A floresta de Averion deveria ser evitada ao máximo. Diziam que uma antiga magia sombria havia sido lançada sobre suas raízes. Era apenas uma criança órfã da Primeira Era quando os Elfos do Norte desceram o rio e fixaram morada entre os ermos de Costa-Parda. Ensinaram aos animais a falar, a pensar e comunicar uns com os outros, deixando de ser selvagens para se tornarem civilizados. Fizeram o mesmo com as árvores, tecendo suas folhas e ensinando-as a sentir dor. Quando os homens vieram de Berônia e fizeram do Sul a sua morada, os poucos elfos que resolveram lutar pela estabilidade de sua comunidade foram mortos, e os corpos deixados para as feras, que, em nenhum momento, quiseram saborear o gosto da carne élfica. A terra então os acolheu, fazendo-os descansar. Assim nasceu Averion, uma floresta extensa que se estendia desde o Rio Anuliel até as falésias de Azaban. Os animais domesticados pelos elfos desapareceram, e os selvagens predominaram.
Naquele dia, Calum Fireblade, com sua aljava cheia de flechas e o arco élfico nas costas, atravessava o limiar proibido da floresta. Seus passos eram cuidadosos, seus sentidos aguçados a cada som e movimento ao redor. O sol mal conseguia penetrar a densa copa das árvores, criando um ambiente sombrio e nefasto.
Calum sabia das histórias, das lendas que cercavam Averion, mas precisava encontrar algo para caçar e levar na viagem. Havia rumores de que algo maligno estava despertando, e apenas alguém com a habilidade e coragem de Calum poderia descobrir a verdade, porém ele era apenas um mero caçador. A cada passo, sentia a floresta viva ao seu redor. As árvores sussurravam segredos antigos, suas folhas vibrando com uma consciência que poucos podiam compreender. Animais o observavam de longe, seus olhos brilhando nas sombras. Calum mantinha a mão perto do cabo da adaga, pronto para qualquer eventualidade.
No coração de Averion, encontrou um claro, onde um velho carvalho se erguia majestoso. Suas raízes entrelaçavam-se como serpentes, e uma luz espectral emanava de seu tronco. Calum aproximou-se com cautela, sentindo a magia antiga fluir ao seu redor. De repente, ruídos ecoaram na floresta, rompendo o silêncio ancestral. Calum Fireblade, com a destreza de um caçador nato, retirou o arco das costas. Rapidamente colocou uma flecha na corda, feita de crina de unicórnio, seus olhos espreitando cada movimento ao redor. O crepúsculo caía lentamente, e o canto dos pássaros noturnos começava a preencher o ar. Escondido atrás de uma árvore, ele aguardava, de costas, tentando pegar a caça desprevenida.
Ouviu passos, o som de gravetos e folhas secas sendo esmagados. Calum engoliu em seco quando um lampejo de luz brilhou em sua visão periférica. Pensou estar ficando louco, piscou os olhos algumas vezes e franziu o cenho. Saiu de trás da árvore, o arco mirado em qualquer movimento abrupto na mata densa. Calum era um caçador experiente, capaz de discernir entre passos de criaturas, caças e humanos. Contudo, aqueles sons não pertenciam a nenhum desses. Havia algo mais, algo estranho e inquietante. E tudo começou com sibilos em uma língua desconhecida que cortaram o ar, e uma dor lancinante tomou conta de sua cabeça. Caiu de joelhos nas folhas secas, os gritos de dor abafados pela densa folhagem. Levou as mãos à cabeça, tentando inutilmente aliviar o sofrimento. Seus olhos se fecharam, mas ele ainda podia perceber os passos suaves se aproximando, um brilho vaporoso iluminando a escuridão crescente, trazendo um silêncio opressivo e perturbador. Calum sentiu o ambiente mudar ao seu redor, a presença de uma magia antiga e poderosa. O brilho aumentava, preenchendo a clareira com uma luz sobrenatural. Seus sentidos estavam entorpecidos pela dor, mas sua determinação permanecia intacta.
- Um forasteiro, em Averion? - era uma voz calma, quase humana, mas mais suave, como um sussurro do vento. - Há muitos anos, no tempo da guerra, aqui foi o berço da luz e de toda a criação. Todos os animais viviam em harmonia.
Calum abriu os olhos e encontrou pés prateados, com dedos que brilhavam como diamantes intensos. Levantou o olhar, fixando suas safiras naquele ser radiante, uma figura que parecia um feérico brincando com a magia da luz. Havia, porém, algo estranhamente distinto. A boca da figura não se movia. Seus cabelos eram brancos, assim como suas vestes sutis. Calum voltou a fechar os olhos, tentando recuperar a clareza de seus pensamentos.
- Você não é real - murmurou ele, a dor ainda latejando em sua cabeça.
- Sou tão real quanto a magia que moldou esta terra - respondeu a voz, agora parecendo ecoar dentro da mente de Calum ainda mais intenso. - Eu sou a guardiã de Averion, um vestígio dos antigos elfos que aqui habitaram.
Calum forçou-se a abrir os olhos novamente, tentando se levantar. A figura prateada permaneceu imóvel, observando-o com olhos que pareciam pedras de giz.
- Por que estou aqui? - perguntou Calum, finalmente conseguindo ficar de pé, embora com dificuldade. - Por que está aqui?
- Você veio buscar respostas, jovem caçador. As sombras estão se movendo novamente, e o equilíbrio de Averion está ameaçado. Você tem um papel a desempenhar nesta história, um destino que ainda não compreende. E eu, bom, eu posso desenhar o destino como eu quero.
Calum sentiu um calafrio percorrer sua espinha. As palavras da guardiã eram enigmáticas, mas carregavam um peso que ele não podia ignorar. Ele sabia que sua jornada estava apenas começando, e que as respostas que procurava estavam ligadas àquela floresta misteriosa e à magia antiga que a permeava. Ele lembrou que seu tio, Lencel, passou por alí.
- Eu não vim atrás de resposta alguma. Vim caçar.
- Todos com cicatrizes no coração dizem a mesma coisa - ela agachou. - O mal dobrou o tempo, caçador. Sua família roubou algo do Velho Rei e ele descobriu e agora quer você para extrair.
- Eu não roubei nada. Não sei de nada.
- Ele quer você, então vai extrair até a sua vida. Você precisa aceitar o destino... precisa encontrar o coração de Averion.
- O que preciso fazer? - perguntou, sua voz firme apesar da incerteza.
- Dobre-o.
A figura foi desvanecendo aos poucos, restando apenas um brilho residual na clareira, trazendo consigo o terror da noite. Calum engoliu em seco, olhando envolta à procura de algum sinal, mas não havia nada que já não tivesse visto. Nem mesmo conseguia discenir realidade de fantasia.
- Não foi real - ele disse a si mesmo, erguendo-se. - Nada disso é real. É o ar dessa maldita floresta.
Ele sacudiu a cabeça, olhando para a trilha e caminhando para ela, regressando de volta a Enya com uma confusão predominando sua mente.
Roupas brancas e leves dançavam no ar como plumas de ganso, movendo-se suavemente ao ritmo da brisa. Este não era um evento comum ou de pouca importância. Era uma celebração que remontava a eras passadas, desde que os Primeiros Homens iniciaram a tradição. A cerimônia exigia que todos se vestissem de branco, usando trajes suaves de cetim, um dos tecidos mais finos e nobres, para homenagear os mortos recentes. Antes da paz, havia a guerra, e a guerra é a mãe de todos os problemas, a causadora do desequilíbrio e a proprietária da dor.
Muito antes dos homens chegarem em seus navios pelo Grande Mar de Safira, Azaban era um domínio dos Elfos. E antes ainda dos Elfos, os Ashers reinavam sobre o extremo sul. Esta era uma raça amaldiçoada, marcada por sangue e ódio, sob o domínio de seu líder mais poderoso: Eolon.
Os Elfos da Floresta, liderados por sua sabedoria milenar, iniciaram uma resistência feroz contra o mal que emergia de Nänheim. Este mal trouxe consigo criaturas monstruosas que invadiram as terras élficas, demoliram vilas e cidades, e reduziram as majestosas florestas a cinzas. As hordas malignas não pouparam nada em seu caminho, exterminando os Elfos Verdes e espalhando a destruição por onde passavam.
Durante centenas de anos, essas guerras continuaram, deixando um rastro de devastação. Então, duzentos anos após o início das hostilidades, os homens de Berônia organizaram um contra-ataque decisivo. Seus exércitos, movidos pela determinação e pelo desejo de vingança, fizeram os Ashers recuar. Em um movimento estratégico e unificador, os homens comuns se aliaram aos Elfos do Norte e aos Anões, formando uma coalizão poderosa.
Juntos, sob um mesmo estandarte, eles marcharam contra a fortaleza de Iléria. A batalha que se seguiu foi longa e árdua, mas, finalmente, o elfo Gundar conseguiu derrotar Eolon. Com sua vitória, Gundar lançou uma maldição sobre Eolon, condenando-o a vagar sem sossego pelo mundo.
Apesar da vitória, as cicatrizes deixadas por anos de conflito eram profundas. A Batalha de Iléria, que durou anos, ceifou inúmeras vidas, e os mortos dessa guerra tornaram-se lendas, acima de todas as outras lembranças. A Festa dos Mortos foi instituída como um meio de honrar esses heróis caídos e de garantir que os erros do passado nunca fossem repetidos. Essa cerimônia solene lembrava a todos os participantes da fragilidade da paz e da importância de se manter vigilantes contra as sombras que poderiam novamente ameaçar seu mundo.
Calum estava distante, sua mente ainda lutando para discernir se estava desperto ou perdido em um sonho naquela tarde. Será que o ar da velha floresta de Averion o havia feito alucinar? Ao redor das fogueiras, os anciões contavam histórias, enquanto as moças dançavam ao som dos bardos e os velhos se embriagavam após a cerimônia. Calum encontrava-se sentado sobre a relva verde, suas lembranças da noite anterior misturadas à fragilidade dos pensamentos daquela tarde. Ele segurava uma taça de vinho nas mãos enquanto encarava o fogo. Um suspiro escapou de seus lábios ao sentir o vento gélido tocar seu corpo, eriçando seus pelos e fazendo seus cabelos dançarem lentamente. Seus lábios estavam ainda mais avermelhados devido à uva e ao álcool.
Ele viu uma imagem entre as chamas, balançando de forma hipnótica. Era um rapaz com cabelos loiros como fios de ouro, olhos azuis profundos e intensos, e pele bronzeada com músculos salientes destacados pela roupa fina. Uma fenda na camisa branca entre seus peitos largos e fartos revelava pelos lisos e dourados. O rapaz estava descalço sobre a relva verde, segurando uma jarra cheia de vinho, com um sorriso costurando-se em seus lábios. Calum reconheceu Griffin, filho de um comerciante local, seu amigo de infância e talvez um dos poucos que compreendiam sua necessidade de mudança. Griffin ergueu uma sobrancelha ao sentar-se ao seu lado. A expressão de Calum não era das melhores comparadas às que normalmente exibia. Ele também não estava alegre, mas parecia mais pensativo do que o habitual, o que era desconcertante.
- Deixa eu adivinhar - começou o loiro, enchendo novamente a taça de Calum, ao sentar. - Está arrependido de ter aceitado a oferta do Rei.
Calum suspirou profundamente outra vez. Levou a borda da taça dourada aos lábios e tomou um gole exagerado do vinho do Norte. Depois, voltou a encarar a fogueira.
- Não havia muita opção. Se eu recusasse, seria considerado traidor da coroa. Aceitando, como fiz, deixo a vila desprotegida.
- Sabemos nos defender.
- Sei disso - Calum prosseguiu. - O rei diz que o mal acordou. Estamos mais próximos da Fortaleza do inimigo do que da capital. Um ataque aqui, que a Deusa nos livre, seria inevitável.
Griffin odiava o pessimismo de seu amigo.
- Os Ashers nunca vieram tão longe de seus domínios. Nosso povo já os derrotou uma vez, e não será diferente desta vez - asseverou o loiro, tomando um gole do vinho. - Enya está aqui há séculos, nada conseguiu destruí-la. Viveremos mais uma geração, se for o caso. Os guardiões vão protegê-la.
Calum torceu o nariz.
- Meu tio está morto.
- Eu fiquei sabendo. Papai me contou. Eu sinto muito - disse Griffin, afagando os ombros de Calum e esboçando um sorriso de bondade. - Vai dar tudo certo, manteremos Enya de pé.
Um silêncio incômodo se instalou entre eles. Calum olhou para o rapaz com quem havia compartilhado tantos problemas e caçadas, e algo no fundo do seu coração insistia em lhe dizer que aquela seria a última vez que se falariam. Um medo rompeu suas bases, uma corrente grossa com esporas prendeu seu coração, fazendo-o sangrar. Ele fechou os olhos, sentindo-se consumido pela impotência, sua mente e coração amplamente divididos.
- Griffin? - chamou suavemente, seus olhos encarando o amigo com complacência. - Eu acho que, quando eu sair daqui, nunca mais voltarei. Algo me diz isso.
- Não é seu coração falando, é sua cabeça. Pense positivo. O rei te chamou por um motivo, ele sabe que você tem qualidades e é por isso que te quer no exército dele.
- E se não for isso? E se for uma armadilha? Meus pais eram procurados pelo reino por traição. E se eles roubaram algo e o rei pensa que está sob minha posse?
- Acalme esses nervos. Se algo tivesse sido roubado, já saberíamos. Seu tio, Lencel, teria dito alguma coisa.
Calum levantou-se, sentindo-se tonto, e caminhou para longe do alvoroço. Griffin o seguiu até uma ponte de pedra suspensa sobre um riacho. A lua estava alta, sua luz iluminando a floresta.
Ele percebeu a sombra de Griffin surgir nas pedras brancas.
- Me perdoe, amigo, eu...
- Não é culpa sua, Griffin. É apenas meu coração querendo pregar uma peça.
- Amanhã você começará a descobrir se isso é verdade. Seu destino será traçado.
Calum suspirou, sentindo o peso da incerteza em cada palavra que dizia. Ele olhou para o brilho da lua refletido na água abaixo da ponte, buscando uma paz que parecia tão distante. Griffin se aproximou e colocou a mão em seu ombro, oferecendo um conforto.
- Você sempre foi forte, Calum. Mais do que qualquer um de nós. - Griffin falou com firmeza, tentando transmitir confiança. - Não deixe que o medo te domine agora.
Calum assentiu, mas o medo continuava a corroer sua determinação. Ele sabia que estava à beira de um precipício, prestes a enfrentar algo que poderia mudar sua vida para sempre.
- E se eu falhar, Griffin? E se eu não for capaz de proteger aqueles que amo? - A voz de Calum tremia com a vulnerabilidade que raramente permitia se mostrar.
Griffin apertou seu ombro com mais força, obrigando-o a olhar para ele.
- Você não está sozinho. Nós estaremos aqui, lutando ao seu lado. E lembre-se, não é errado ter medo. O que importa é o que você faz apesar dele.
Calum respirou fundo, tentando absorver a força que Griffin lhe oferecia. Ele sabia que seu amigo tinha razão, mas as dúvidas ainda sussurravam em sua mente. Ele virou-se para encarar Griffin diretamente, seus olhos cheios de uma mistura de determinação e apreensão.
- Obrigado, Griffin. - Ele disse, com sinceridade. - Seja o que for que nos espera, enfrentaremos juntos.
Griffin sorriu e assentiu, seus olhos brilhando com a mesma determinação.
- Sempre juntos.
Os dois amigos permaneceram ali por mais alguns momentos, em silêncio, enquanto a lua continuava sua vigília sobre eles. Finalmente, Calum se afastou da beira da ponte, sentindo-se um pouco mais preparado para o que estava por vir.
- É melhor descansarmos. Amanhã será um dia longo. - Disse Calum, começando a caminhar de volta a celebração.
- Concordo. - Griffin respondeu, seguindo-o de perto. - E lembre-se, não importa o que aconteça, você tem o coração de um guerreiro na alma de um caçador.
A lua cheia pairava no céu, enorme e luminosa, lançando sua luz pálida sobre o cenário abaixo. As nuvens esparsas ao redor pareciam fitas de seda, dançando suavemente em torno do astro, criando um véu etéreo que apenas realçava o seu esplendor. A noite estava repleta de um silêncio quase tangível, quebrado apenas pelo ocasional farfalhar das folhas nas árvores altas e escuras que se alinhavam ao longo da margem do rio.
O rio, uma fita prateada que serpenteava através da floresta, refletia o brilho lunar em sua superfície calma. Pequenas ondulações, causadas pela brisa noturna, faziam a luz da lua cintilar como um milhão de estrelas sobre as águas. A profundidade das sombras nas margens criava um contraste intenso, onde a luz e a escuridão se encontravam em um abraço silencioso.
As árvores, esguias e majestosas, erguiam-se como guardiãs antigas da floresta, seus troncos escurecidos pelo tempo e pela umidade. Galhos retorcidos formavam uma teia intricada contra o céu estrelado, projetando sombras fantasmagóricas no chão coberto de musgo. O ar estava frio e úmido, carregando o cheiro terroso da vegetação e o sutil perfume das flores noturnas.
Mais adiante, na curva do rio, um leve nevoeiro começava a se formar, suas franjas se estendendo preguiçosamente sobre a água, como um manto fantasmagórico que escondia segredos antigos e esquecidos. O ambiente todo parecia suspenso no tempo, uma pintura viva de um mundo que parecia tanto real quanto pertencente a um sonho.
Naquela noite, sob o olhar vigilante da lua, a floresta e o rio contavam histórias de eras passadas, de segredos sussurrados pelas árvores e de mistérios guardados nas profundezas das águas. Era um lugar onde a magia da natureza se revelava em toda a sua glória, esperando pacientemente por aqueles que ousassem explorar seus recessos sombrios e luminosos.
As primeiras luzes do amanhecer começavam a tocar a paisagem com dedos de ouro suave, anunciando a chegada de um novo dia. O céu, ainda tingido pelos resquícios da noite, gradualmente se iluminava com tons de laranja, rosa e dourado, enquanto o sol se erguia timidamente no horizonte. A árvore majestosa, com seus galhos espalhados como uma coroa de renda, parecia despertar sob o toque gentil da aurora, suas folhas sussurrando segredos ao vento fresco da madrugada.
O rio, sereno e espelhado, refletia a beleza etérea do céu nascente. O brilho do sol nascente dançava na superfície da água, criando uma ilusão de ouro líquido que se espalhava pelo cenário. A neblina matinal, ainda preguiçosa sobre a terra, começava a se dissipar, revelando a vegetação exuberante ao redor. Os arbustos e gramíneas, banhados pelo orvalho da noite, cintilavam como joias sob a luz crescente.
O silêncio da madrugada era preenchido pelo som distante de pássaros despertando, seus cantos melodiosos ecoando pela floresta. A brisa leve e fria carregava o perfume fresco da terra e das flores, criando uma atmosfera de serenidade e renovação. A sombra da árvore projetava-se longa e fina, enquanto seus ramos mais altos começavam a ser iluminados pelos primeiros raios de sol.
Ao longe, as colinas e vales ainda estavam envoltos em um manto de escuridão, mas pouco a pouco, a luz do amanhecer se espalhava, empurrando as sombras para longe. O ambiente inteiro parecia suspenso em um momento de tranquilidade absoluta, onde a natureza, em toda sua glória, se preparava para o novo dia.
Cada detalhe, desde a grama úmida até o reflexo da árvore no rio, parecia em perfeita harmonia, como uma pintura divina que capturava a essência pura do amanhecer. O sol, ainda meio escondido, prometia trazer calor e luz, dissipando a fria névoa da noite e preenchendo o mundo com cores vivas e vibrantes.
Em poucos momentos, o dia romperia totalmente, mas naquela fração de tempo, a magia do nascer do sol era absoluta, um testemunho silencioso da beleza e da paz que a natureza poderia oferecer. A cena, tocada pela primeira luz do dia, parecia sussurrar uma promessa de novas esperanças e possibilidades, como se cada raio de sol contivesse um segredo esperando para ser revelado.
O cavalo de pelagem negra era cavalgado pelo jovem caçador. O comprido arco élfico estava firmemente preso em suas costas, ao lado de uma aljava de flechas e uma adaga curva de pouco mais de trinta centímetros, recém-amolada. Calum desceu a encosta da montanha, passando pelas ruas de pedra branca e cinza, rumando para fora da vila. O dia estava quase plenamente iluminado, com o sol já mostrando toda a sua força. As pessoas abriam suas janelas para observá-lo passar, desejando sorte em uma jornada que poderia ter muitos desfechos. No entanto, antes de chegar ao portão de madeira recém-erguido, um vento forte o atingiu. Seus cabelos se agitaram suavemente, e um suspiro longo escapou de seus pulmões, quente e doloroso pelas narinas.
Mais adiante estava Griffin, vestido com roupas de seda, cabelos loiros longos recém-penteado, seus lábios vermelhos sustentando um sorriso tristemente alegre de despedida, segurando uma longa e afiada espada. Era a Curadora, uma arma forjada na Cidadela do Norte pelo próprio rei Cirlard e presenteada à família de Griffin por sua longa amizade. O cavalo parou, e o caçador tentou conter as lágrimas ao deixá-lo, observando Melia à distância, envolta em uma longa manta vermelha que combinava com seus tufos alaranjados.
- Leve-a consigo, e que você não precise usá-la. - disse Griffin.
Calum segurou a bela espada, admirando o puro aço élfico ao desembainhá-la. O metal refletia sua imagem, com detalhes entalhados brilhando ao toque suave da luz.
- Obrigado, meu amigo. Que a Deusa os proteja e os livre do mal. Voltarei em breve. - respondeu Calum.
Eles apertaram as mãos, despedindo-se rapidamente. Calum acariciou a crina negra do belo garanhão, que avançou para fora de Enya. Algo dentro do coração de Calum mudou. Um medo o envolveu, e ele olhou para trás uma última vez, quando já havia adentrado a trilha da Floresta Sufocante, vendo Enya, o sol já brilhando para todos.
A caminhada pela Floresta Sufocante era uma experiência única. As árvores erguiam troncos robustos e folhas densas que filtravam a luz do sol, criando um ambiente sombrio e misterioso. Por baixo, as relvas eram baixas, permitindo vislumbres do chão rico em vida. Pássaros coloridos voavam entre os galhos, animais de diferentes tamanhos cruzavam o caminho e criaturas desconhecidas se esgueiravam pela vegetação.
Enquanto Calum avançava pela trilha de pedras larga, fadas brincavam ao redor, suas formas luminosas dançando entre os galhos. Eram como bolas de luz, rápidas e ágeis, deixando um rastro de cintilação no ar. Algumas delas se aproximavam dele, lançando beijos brilhantes antes de desaparecerem entre os ramos.
A atmosfera da floresta era carregada de magia e mistério, cada passo revelando mais segredos e maravilhas ocultas sob a densa vegetação. Azaban, à capital, ficava a três dias a cavalo de Enya, já na Costa-de-Ferro. No caminho haviam muitos vilarejos com pensões, então queria chegar a um desses ainda com a luz do sol, algo não muito difícil.