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Legado e Ascensão

Legado e Ascensão

Autor:: LibriAna1998
Gênero: Fantasia
Imagine como seria o mundo daqui a quatro mil e cento e oitenta anos? Pensou em um cenário futurista? Seria essa uma possibilidade, mas não para essa história. Uma sucessão de cataclismos desencadeados pelo uso massivo e indiscriminado de armas químicas, biológicas e nucleares durante diversos conflitos no decorrer dos anos teriam sido capazes de perturbar o frágil equilíbrio do próprio núcleo do planeta. E após um fenômeno global que os cientistas só conseguiram categorizar como "impossível", deu-se origem um Novo Mundo conhecido como "Grande Lizma". Milênios depois, no ano de 6240, uma jovem chamada Lizlee Deskran vive em meio a elite e seus "privilégios". Em seu aniversário de dezessete anos, ela faz uma descoberta que contrapõe toda a história que lhe contaram desde a sua infância. Porém, antes que possa compreender seu passado, sob circunstâncias trágicas e misteriosas se vê obrigada a fugir e recomeçar sua vida em outro lugar onde supostamente terá proteção de um parente desconhecido. Na verdade, sem saber, Lizlee pode estar ingressando em uma jornada perigosa e sem volta, em um mundo inimaginável que se descortina para seus olhos e com um poder que desperta em seu interior. Para descobrir a que lugar pertence e qual o seu propósito naquele Novo Mundo, a jovem deve encarar desafios e se aventurar pelo desconhecido, fazendo aliados e inimigos pelo caminho, desenterrando segredos e antigas rivalidades há muito tempo ocultas e lutando contra seu coração para não se apaixonar por aquele que deveria ser seu inimigo. O poder de decidir o destino da humanidade será disputado e apenas um lado poderá sair vencedor.

Capítulo 1 Prólogo

Eu não pude frequentar uma escola. Eu pertencia a uma época em que instituições coletivas como as de ensino eram algo a ser evitado. Tudo o que aprendi me foi transmitido por professores particulares com os quais eu nem tinha contato direto e por minha tutora.

Claro que, consequentemente, não tive contato com muitas crianças durante a minha infância. Era difícil fazer amizades num cenário em que a questão individual era mais importante do que a coletiva. Era difícil confiar uns nos outros, mas eu me apegava na crença de que era possível – e necessário – confiarmos. Afinal me parecia ter sido exatamente a desconfiança, a ganância e a intolerância os motivos pelos quais o Mundo Antigo ruiu.

Lembro que eu costumava carregar comigo uma espécie de diário que achei esquecido no escritório do meu pai. Na esperança de que aquele objeto tivesse pertencido a minha mãe, eu praticamente decorei aquelas linhas tantas vezes as li.

As palavras escritas naquelas páginas pareciam uma carta de motivação. Elas tinham um forte e impetuoso espírito revolucionário e desejo de mudança que eu não entendia muito bem até precisar vivenciar.

Mesmo assim, não contei à ninguém sobre aquele achado. Até mesmo porque, parte do que aprendi sobre o Mundo Antigo continha furos e inconsistências e que à medida em que eu crescia, comecei a notar e duvidar da veracidade.

Por mais que eu tentasse descobrir e conectar os fatos, não haviam registros precisos a respeito de períodos como os da Terceira e Quarta Guerra Mundial e da Supressão. Eu me questionava se seria realmente possível que ninguém mais houvesse percebido isso, e se descobriram, por que não incluíram as partes faltantes em documentos oficiais e nos planos de ensino?

Haviam sim registros de que no ano de 2032, teve início a Terceira Guerra Mundial. E que em consequência da potência das armas químicas, nucleares e biológicas utilizadas durante os mais de sete anos em que ela durou o planeta ficou extremamente devastado.

Por efeito de tanta exploração, destruição e do uso de radiação contínua e descuidada grande parte de alguns continentes sofreram impactos de constantes terremotos e tsunamis. As massas de terra que não submergiram sofreram uma unificação remetendo ao formato original que conhecíamos como pangeia. A este movimento incomum das placas tectônicas os cientistas denominaram "Grande Lizma".

Dentre outros efeitos já esperados estavam o desequilíbrio das condições climáticas no planeta e a escassez dos recursos minerais que foram se tornando cada vez mais insuficientes para suprir a população. Estudos realizados no solo em várias regiões do recém formado Grande Lizma apontaram que ele estava contaminado inviabilizando a produção de alimentos e, em consequência, ocorriam conflitos em todos os cantos pelo que havia sido estocado.

A situação era tão desesperadora ao ponto das pessoas matarem por comida e água. Para amenizar a situação cada vez mais complicada e tentar conter novos conflitos, nasceu um modelo emergencial de governo que visava mostrar união dos povos remanescentes frente a situação de calamidade mundial: a Cúpula dos Líderes. Tal governo instaurou um conjunto de medidas a serem tomadas, com algumas até mesmo gerando ainda mais insatisfação da população.

E apesar de precisarem de nascituros para garantir o futuro da espécie humana, não haviam recursos suficientes para todos, desse modo, se tornou muito comum que os casais optassem por não ter filhos ou que tivessem apenas um – como o indicado pela Cúpula dos Líderes. A comida, além de racionada, passou a ser produzida em laboratórios com sabores e aromas artificiais – as famílias mais ricas poderiam até adquirir um "sintético-sofisticado", que não tinha um gosto tão ruim.

A água ainda era um bem muito complicado e com um valor superfaturado nas linhas de produção em larga escala, então muita gente acabou morrendo de sede em todos os anos após o fenômeno de remodelação global. O planeta passou por um nível destrutivo tão alto, que especialistas calcularam milênios para que ele se recuperasse ou mesmo que não houvesse mais espécie humana para presenciar sua recuperação.

Em 2044, mesmo após grande parte da população mundial tendo sido dizimada na guerra ou com as consequências dela e com a parte restante sofrendo com a fome e a escassez de água, estourou um novo conflito mundial: A Supressão. Mas, diferente do anterior, esse era motivado por intolerância e incitado justamente pelo governo cupular.

Na época, veiculavam-se progressões que mostravam que a população restante e vindouros poderiam desenvolver anomalias incluindo: deficiências físicas e intelectuais, doenças variadas e baixa imunidade e, o que mais chocou a população foi a informação de que cerca de um terço começaria a apresentar habilidades incomuns.

Mesmo sem saber exatamente do que se tratava, as divisões e a perseguição foram se tornando crescentes. Por apresentarem um risco nunca visto anteriormente, já de início, todos que manifestavam qualquer tipo de anomalias eram detidos por organizações privadas e governamentais, com o "intuito" de se tornarem material de estudo para descobrir o que havia mudado na estrutura genética dos indivíduos e o que poderia ser feito para reverter ou estabilizar. O pânico se instalou e depois o oportunismo.

A população que parecia ter se acostumado a sobreviver com o mínimo e sofria para se adaptar às novas condições, foi impactada por outra onda de terror. E nem mesmo a fresca lembrança da Guerra foi impedimento para o conflito.

Justamente sobre esse período da história tudo que se podia encontrar era história oral ou transmissões oficiais dos meios de comunicação autorizados pelo Departamento Cupular de Notícias, explicando que o conflito se dera entre grupos extremistas de unidades-nações da fronteira norte que não aceitaram se integrar ao Grande Lizma e aparentemente se valiam de uma arma secreta capaz de depor o poder vigente, se declarando, portanto, contra a Cúpula dos Líderes.

Os extremistas conseguiram, ao longo de sua campanha, conquistar como aliadas até mesmo unidades-nações na época já integradas e acabou causando problemas e dificuldades. Mas a Cúpula saiu vitoriosa e conseguiu completar a integração de todos os territórios em mais de quinze anos de cisão.

Os estudos divulgados tranquilizavam a todos dizendo que a "nova raça" – como os Rebeldes Extremistas a categorizaram – estava totalmente extinta, não oferecendo qualquer tipo de risco para os sobreviventes do Grande Lizma.

Os estudos mais atuais consideraram aqueles acontecimentos uma mera pandemia de mutação genética suprimida através de tratamentos desenvolvidos por pesquisadores do Grande Lizma especialmente para as vítimas da radiação que desenvolveram anomalias mais graves.

E embora eu nunca houvesse conhecido ou tido notícias de alguém com anomalias que não fossem as físicas, intelectuais ou relacionadas à questões de saúde, o diário fazia menções de algo que parecia muito mais extraordinário e que não seria tão facilmente destruído. Algo que eu nunca saberia se não houvesse expandido meu universo e me permitido olhar além.

Capítulo 2 O mundo se apagou

Eu me chamo Lizlee Deskran. Nasci em Leeland, capital do Grande Lizma. E embora nunca tenha sido uma pessoa extraordinária, a minha história é uma pequena parte de uma história maior ainda.

Meu pai era um homem de negócios. Nossa família era proprietária de uma empresa que produzia e distribuía energia eólica. Por esse motivo, quase nunca nos víamos. Nossa convivência se resumia à alguns eventos especiais e, se tivéssemos sorte, quando um de nós adoecesse.

Eu era órfão por parte materna e atribuía a este fato o motivo pelo qual meu pai acabou se distanciando de mim. Durante muito tempo eu realmente acreditava que ele só trabalhava muito para me dar o melhor – já que as atividades econômicas demoraram muito tempo para entrar em um eixo aceitável aos novos padrões pós-reconfiguração mundial e sofriam longas instabilidades de tempos em tempos – mas chegou um ponto em que eu tinha tudo e mesmo assim ele não parava.

Então, eu entendi o que ele estava fazendo. Sua intenção era criar um abismo entre nós. Para conviver com isso, ao invés de procurar ajuda profissional eu criei uma teoria de que meu próprio pai evitava contato porque minha mãe escolhera se sacrificar para que eu nascesse e com isso acabou abrindo mão de estar com ele. Em outras palavras, eu achava que ela havia morrido durante meu parto, mas a verdade era outra.

Enfim, eu inevitavelmente cresci. Foi uma vida solitária. Eu fui uma criança sem amigos e muito dedicada a impressionar quem quer que fosse – em geral, adultos – com minha polidez e educação, na maioria das ocasiões ocultando minha verdadeira posição sobre diversos assuntos. Até que, exatos dezessete anos que eu vim ao mundo, tudo mudou.

Dadas as circunstâncias dos meus progenitores, fui criada por uma espécie de tutora, a figura materna-paterna que me manteve viva. Ela sempre foi meio excêntrica e não havia nada no mundo que a fizesse desistir de me proteger contra tudo.

Moggie me contou que fez uma promessa à minha mãe e que nunca a quebraria, por isso, só me restava aceitar estar sob supervisão vinte e quatro horas por dia. Não posso mentir, sou extremamente grata à Moggie, sem ela eu não estaria aqui. Sem ela eu com certeza não saberia fazer coisas mais básicas. O fato é que, Moggie esteve presente em todas horas que preencheram meus dias, em todos os dias da minha vida até aquele momento.

Mas ter uma tutora não era o mesmo que ter uma mãe. Moggie não era bem uma pessoa estável em questões emocionais e eu nunca soube porquê, mas naquela data ela estava especialmente agitada. Diria até que estava incomodada com algo. Poderia ser pelas empresas de meu pai voltando a crescer após uma grande recessão ou por ter sido incumbida de organizar uma grande festa dada para comemorar este salto positivo.

A casa inteira estava um burburinho que só. Moggie indo de um lado para o outro mandando costureiras me apertarem e me fincarem com suas agulhas habilidosas enquanto, na cozinha, chefe Bernardeau coordenava a equipe que preparava um jantar "espantosamente esplêndido" – palavras dele mesmo. Por todos os lados na casa só se falava disso.

Parecia que todos se esqueceram que dia era aquele. Eu não tinha a pretensão de ser o centro das atenções mas todos os meus aniversários eram assim. Eu os passava lamentando a morte da minha mãe que sequer cheguei a conhecer ou dividindo com outras coisas que meu pai inventava de marcar. Queria pelo menos uma vez ter a oportunidade de comemorar mais um ano de vida. Entretanto, eu aceitava o que me davam e acabava sempre no mesmo lugar.

O jazigo da família ficava dentro da propriedade, mas devido ao jantar ainda não havia tido tempo de visitar. Sentada em frente ao espelho penteando meus longos fios cor de fogo, me encontrei perdida nesses pensamentos. De repente, o ranger da porta me desconcentrou.

- Senhorita.

- Moggie! - Me viro em sua direção, ainda sentada. - Olha, se for me dar um sermão, as costureiras que saíram por conta própria, eu juro que não as espantei dessa vez...

- Não. Eu mandei elas saírem. - Completou a mulher com o cabelo um pouco desgrenhado, o que era estranho pois sempre estava impecável em seus penteados. - Precisava conversar a sós com você.

- O que pode ser tão importante assim para não falar na presença delas?

Dei uma risada descontraída tentando não parecer muito feliz e animada por pensar que alguém teria tirado alguns minutos de seu tempo para vir falar comigo.

- Vim lhe trazer um presente. E também desejar um feliz aniversário.

- Um presente? Para mim? - Tomei em minhas mãos a caixinha que ela me entregava.

- Sim. E era da sua mãe.

Olhei para ela, certamente com expressão de surpresa, não estava acostumada a ter nada que um dia houvesse pertencido à minha mãe.

- Abra. Era para entregar-lhe quando completasse dezoito mas não vou conseguir esperar. Nunca se sabe o dia de amanhã.

Abri a caixinha e dentro dela havia um colar um tanto quanto rústico com uma pedra arredondada e azul pousado na superfície aveludada. Girei a pedra entre os dedos e sorri largamente.

- É muito lindo. Obrigada Moggie.

- Você merece, minha querida. Não é meu, mas é meu presente de aniversário para você. - Deu um beijo em minha bochecha. - Vamos colocar em você para que use hoje no jantar. Quando seu pai te tirar para dançar e vir esse cordão ele vai morrer...

Levantei os olhos do pingente no cordão e os cravei nela através do espelho: - Morgana Hapstall...

- Ai não. Eu deveria manter segredo. – Levando as mãos à boca, tampou-a. - Perdão senhorita, mil perdões. Você me conhece muito bem, eu falo demais. Apenas finja que ninguém nunca te contou.

- Tudo bem Moggie. Não foi nada.

- Você está tão linda... - Ela me olhou frente a frente, sorriu junto comigo e respirou aliviada. - ... Tão parecida com a sua mãe. - Ela passou os dedos nos meus cabelos, parecia orgulhosa da garota que criara.

- Será que eu poderia ficar um pouco sozinha antes de todo mundo voltar?

- Claro. Me chame caso precise de algo. Estarei lá embaixo supervisionando tudo.

Apenas sorri e assenti. Assim que ela trancou a porta, olhei o colar e depois a janela. Já entardecia e eu não havia visitado o túmulo de minha mãe. Decidi ir naquele instante mesmo.

Desci as escadas à procura de uma saída livre mas parei quando ouvi a voz do meu pai conversando com um amigo e me atentei no conteúdo da conversa.

- Não Otto. Ela não pode nem desconfiar disso. - Ele dizia com a voz já alterada.

- Acredito que você não tenha mais tempo. A garota tem que saber a verdade e é melhor que seja por você.

- Não é tão simples assim. Ela não vai reagir como se não houvesse nada de errado acontecendo.

- Ela não pode mudar o que aconteceu, mas pode lidar com o que está por vir. - O outro homem suspirou e colocou a mão no ombro do meu pai. - Charlie, meu amigo, Lizlee não é mais uma criança.

Meu pai levantou, andou de um lado para o outro visivelmente nervoso e com um copo de whisky na mão. O outro homem estava de pé também, mas agora parado e de cabeça baixa.

- Eu não quero perder minha filha também. Não vou assumir esse risco.

- Já ponderou que ela vai querer saber sobre a origem das habilidades?

Neste momento meus olhos se estreitaram com a confusão que se formava em minha mente. Habilidades? Do que eles estavam falando?

- Acho que ainda não se manifestaram e é melhor assim. Ninguém virá atrás dela e teremos paz.

- Eles rondam a casa, o que significa que uma pequena manifestação deve ter ocorrido. Eles sabem quem ela poderia se tornar, só esperavam uma confirmação. Continuarão vindo uma vez após a outra até conseguirem o que querem...

- Mas eu não deixarei que a levem. Já não me provocaram dor o suficiente pela minha esposa? - Eu já havia me acostumado com a ideia dele sofrer pela morte da minha mãe, mesmo assim o que ele disse a seguir me destruiu. - Por culpa desses desgraçados eu não pude fazer nada enquanto a via queimar bem na minha frente.

Ele se deixou cair estirando o corpo no sofá. Meus olhos se enchiam de lágrimas.

- Você não pode mentir para sempre, Charlie.

- Eu sempre quis contar. Mas quando olho para aquela menina, só consigo enxergar a minha amada Bella. Todas as lembranças daquele incêndio, de todo o sofrimento que me consome até hoje... as imagens dela me implorando para proteger a nossa filha... - A conversa teve uma breve pausa nesse ponto. Meu pai se mostrava muito abalado.

- É pior chegar a um ponto da vida e ela descobrir que você passou todo esse tempo escondendo o que a torna diferente dos demais.

Talvez ele preferisse ignorar os conselhos do amigo a julgar pela forma como levou o bico da garrafa à boca e despejou a bebida.

- Pensando bem, devia ter deixado que levassem aquela criatura. Deveria chamar eles aqui essa noite para levá-la...

- Charlie, você está muito alterado. O risco para Lizlee é... você não tem condições de refletir sobre esse assunto.

O outro homem se aproximou dele e deu dois tapinhas em seu ombro como para dizer "já chega de beber".

- Só estou dizendo que se tivéssemos entregado ela, nada disso teria acontecido. Bella ainda estaria aqui.

Ele abriu outra garrafa e encheu outro copo de whisky, sentando-se novamente. Meus olhos explodiam em lágrimas.

Meu coração me mandava ganhar as ruas de Leeland, sem olhar para trás. Como fugir do inevitável? Como fugir da minha consciência me dizendo que eu fui o motivo da morte da minha mãe? Não entendia como, mas me sentia a culpada.

Acabei de descer as escadas e corri até a porta da entrada. O barulho dos meus passos na escada fez com que os dois voltassem o olhar na minha direção.

- Lizlee, onde você vai? Volte aqui.

Escutei meu pai gritando, mas àquela altura já me parecia estar distante demais. Minha dor e raiva me cegavam, me ensurdeciam. Corri pela grama seca e fria de orvalho em direção ao túmulo da minha mãe. Talvez minha intenção fosse pedir perdão ou talvez as minhas intenções não estivessem claras.

Ao chegar lá, simplesmente me joguei de joelhos ao chão, debrucei-me sobre a lápide e comecei a chorar copiosamente. Repentinamente, me assustei ao ouvir um barulho e virei para olhar mas não era ninguém. Deduzi enfim que fosse apenas o vento.

Retirei o colar do pescoço e fiquei olhando, imaginando estar no colo de minha mãe tentando agarrá-lo com os fortes dedos de um bebê determinado a ter seu objeto de desejo. Eram, claramente, coisas que não vivi ou talvez tenha vivido, mesmo que por breves meses, já que dezessete anos da minha vida foram construídos em cima de uma ideia mentirosa.

Quando outro barulho de alguém se aproximando estalou no ar, me virei para olhar e avistei apenas um vulto escuro se deslocando rapidamente e, pelo lado oposto ao que eu olhava, meu pai chegou me puxando pelo braço e gritando comigo. O solavanco fez o colar cair no chão.

- Me solta! - Gritei com muita raiva.

- Está quase na hora. Vamos embora. Não há tempo para as suas rebeldias de adolescente.

- Não! - Me exaltei e balancei o braço com força para me soltar. - Serei uma adolescente rebelde pelo menos enquanto o senhor não me explicar aquilo que acabei de escutar.

Ele parou e me encarou, sua expressão era de perplexidade talvez por sentir sua autoridade desafiada.

- Não tenho que explicar absolutamente nada.

Ele pegou novamente em meu braço e me arrastou. Finquei meus pés no chão e puxei o braço outra vez que já estavam ficando marcados pela força com que ele me puxava.

- Você mentiu pra mim. Por dezessete anos. Como achou que eu encararia?

- Eu precisei fazer isso. Você acha que foi fácil para mim?

- E para mim? Em nenhum momento você se importou comigo. Você não viu o quanto eu sofri e decidiu que não sou digna de saber a verdade sobre minha própria vida, sobre a minha mãe. - Esbravejei contra ele, começando a chorar de novo. A sensação naquele momento era estranha, nunca imaginei que poderia existir uma dor tão grande.

- Eu sugiro que o senhor comece a explicar...

- Filha, este jantar representa uma nova fase nos negócios da nossa família e você não vai estragar isso. - Ele me interrompeu.

- É tudo sobre isso. Negócios, negócios, negócios. O senhor ao menos se lembrou que dia é hoje?

Ele parou por um instante. Sua expressão era de puro cinismo.

- Então é disso que se trata? Você quer me punir por não lhe ter desejado "um feliz aniversário"?

Gargalhei com a pergunta, sendo tomada pelo tom de sarcasmo. Ele, por sua vez, tentou contornar a situação.

- Você tem que entender que isso é muito importante.

- Eu também deveria ser importante. E se o senhor não quiser perder sua única filha, tratará de me dizer tudo.

- Liz! Liz!

Dei-lhe as costas e me distanciei, indo em direção à casa.

- E não me chame de Liz. - Dei-lhe as costas e me distanciei, indo em direção à casa. Em pouco tempo estava subindo a escada de entrada. Mal coloquei os pés ali e Moggie veio até mim.

- Senhorita, onde se meteu?

Pelo menos alguém demonstrava preocupação comigo. Sequei as lágrimas e subi as escadas depressa.

- Perdão. Estava resolvendo algumas pendências.

- Daqui a pouco os convidados começam a chegar. - A tutora me seguiu até o quarto. - Que botas sujas são essas? Por onde andou?

Ela as retirou e olhou com desprezo. Eu não a respondi, resolvi guardar para mim. Após fazer sinal para que as pessoas entrassem, ela me deixou em suas mãos.

Mal chegaram e logo já começaram a me despir do meu vestidinho sujo de lama e me colocaram no banho com um monte de coisas – segundo eles um novo ritual para purificar das más energias.

Depois me perfumaram, pentearam, prenderam o espartilho, colocaram-me o vestido, calçaram-me os sapatos, me preencheram de pó e fui adereçada de joias. Foi quando me dei conta de que deixei o colar de minha mãe cair lá no jazigo. Quis voltar lá, mas Moggie apareceu na porta do quarto.

- Oh, eu quase acabei me esquecendo...

Ao se deparar comigo, ela ficou boquiaberta. Moggie era muito dramática, acho que fez curso de artes cênicas quando jovem ou algo relacionado à arte. Levou as mãos a boca com expressão de surpresa, embora acreditasse que não era encenação a julgar pelo tipo de roupa que eu usava normalmente.

- Você está uma verdadeira dama.

- Obrigada, eu acho.

Fiz uma reverência torta zombando um pouco da situação, em seguida rodei um pouco a pesada saia do lindo vestido azul bordado com aqueles detalhes dourados.

- Lembre de se portar como lhe ensinei nas aulas de etiqueta.

- Sim. - Balancei a cabeça. - Digo, sim senhora. Serei o oposto de mim mesma e não darei dor de cabeça aos convidados do meu pai como fiz na última vez.

Moggie torceu o rosto, mas sabia que eu estava sendo apenas implicante.

- Então me refresque a memória. O que deve fazer?

- Tocar com muita delicadeza, não comer com a boca aberta ou fazer comentários rudes ou muito inteligentes, sagazes e controversos. Devo tratar a todos os convidados e amigos do meu pai com muita cortesia e simpatia. Esqueci de algo? Sempre parece ter mais um protocolo sem graça. Regras costumam inibir minha criatividade.

Era isso o que ela havia me ensinado para o evento e para a vida, mas eu fazia questão de expressar o meu desprazer. Afinal de contas era apenas um baile com o tema de "Realeza" ou alguma coisa assim, mas a mulher estava tão obcecada que esperava que eu encarnasse um verdadeiro membro da realeza do século XVIII ou sei lá qual. Era um tema muito importante para ela e tudo que envolvesse tradição e etiqueta antiquada.

- Senhorita Deskran, às vezes são essas regras e protocolos que nos mantêm seguros. Nem sempre ser e pensar diferente é visto como algo bom, entende?

- Moggie, sabe que não precisamos ir tão longe com essa encenação. É uma festa e não uma reunião de negócios.

Sorri de canto, mas minha tutora tinha a expressão carregada e diferente. Ela não me diria o motivo daquilo assim como não me dizia muito sobre si mesma, apenas, é claro, se me fizesse aprender alguma lição com sua experiência própria. De repente, drasticamente ela mudou de expressão e soltou uma risada estridente voltando a ser a mesma Moggie que entrara no quarto.

- Moggie, está tudo bem?

- Não é você, sou eu. Pode ficar tranquila. Eu só esqueci de dar uma última olhada nos arranjos de flores. Você sabe que tudo depende de mim para funcionar nessa casa.

Respirei aliviada. Ela saiu pela porta bastante apressada. A equipe foi atrás, como um esquadrão segue seu general. Mais uma vez fui à janela, mas meu sossego não durou muito. Ouvi o som de batidas na porta, mas não fiz tanta questão de me virar para ver quem era.

- Entre.

Bem, era o meu pai, reconheci pelas passadas hesitantes. Ele entrou cabisbaixo e pigarreou numa tentativa de se fazer notado no local.

- Você está maravilhosa.

- Moggie me disse isso. Mesmo assim, obrigada por notar. - Virei o rosto e fechei a expressão.

- Eu só vim dizer que...

Interrompo antes que ele pudesse se explicar.

- Não ouvirei nada que não seja a verdade.

Ele suspirou como que para expulsar um peso de dentro de si. Parecia estar muito cansado.

- É exatamente sobre isso que eu vim falar.

Ele não gostava de dar o braço a torcer e voltar atrás em suas decisões, – somos bastante parecidos nesse aspecto – por isso admirei a sua atitude. Sentando-se na beirada da cama, ele começou.

- Ela amava você e não tinha como ser diferente.

- Quantos anos eu tinha quando tudo aconteceu? - Cruzei os braços e fui direto ao assunto.

- Pouco mais de um ano de vida.

Me sentei na cama ao lado dele. As oscilações em sua voz denunciavam o que ele estava sentindo naquele momento.

- Quando você nasceu, foi um motivo de festa nesta casa. Mesmo com todo o resto indo tão mal. Sua mãe passou a se dividir entre seus cuidados e a empresa para ainda contribuir de alguma forma. Nós dois começamos a nos dedicar muito para reerguer tudo, deixar um legado para você. Um dia ficamos até muito tarde no escritório, e por uma infeliz ironia do destino, desta vez havíamos levado você. Apesar do cansaço, nós estávamos felizes. Tínhamos um ao outro e era só o que importava. Repentina e inexplicavelmente, teve início um incêndio dentro da empresa. E depois eu só me recordo que tentava acalmar sua mãe, mas ela estava desorientada pedindo para que eu protegesse você. Ela parecia sentir que não saíria dali viva.

Ele parou nesse ponto porque as lágrimas já o impediam de continuar. Nunca vi meu pai chorar e naquele momento só queria que ele soubesse o quanto eu lamentava tudo pelo que ele passou.

- Ela não conseguiu suportar e morreu. Os bombeiros me retiraram de lá desacordado pela inalação de fumaça. Não vi quando salvaram você. Só sei o que Otto me contou.

- Otto?

- Aquele com quem eu estava conversando quando você ouviu tudo. Ele foi quem retirou você de lá. - Peguei uma de suas mãos e acariciei.

- Eles disseram que foi um milagre você sair viva e não souberam explicar como. Mas eu sempre soube.

Os olhos dele estavam parados e olhando para o nada. Eu poderia jurar que estava reconstituindo os piores fatos de nossas vidas bem ali no meu quarto. A partir daí, ele não conseguiu seguir.

- Pai, como eu sobrevivi? Pai?

- Eu não sei se já é seguro lhe contar essa parte. Quanto menos souber sobre isso, melhor.

Ele se levantou rapidamente como o diabo foge da cruz. Fiquei observando como aquilo o deixava desestruturado.

- Pai...

Salvo pela Moggie, que entrou pela porta neste instante, ele endireitou a postura.

- Não queria atrapalhar, mas os convidados estão enchendo o salão.

Ela anunciou e deu um passo para trás, se retirando.

- Lizlee, vamos?

Respirei fundo e me levantei. Ele se recompôs como pôde e eu também. Dei o braço a ele e fomos em direção ao topo da escada. Sob os olhares de todos começamos a descer os degraus.

Como já era de se esperar, haviam modelitos muito espalhafatosos e outros que eram somente bregas mesmo. Uma atmosfera de fofoca também, é claro. Houve uma salva de palmas em nossa recepção - não via a hora da encenação acabar. Ao fim, ele anunciou.

- Estou felicíssimo em compartilhar com todos vocês o marco do início de uma nova fase das Indústrias Deskran.

E mais uma salva de palmas. Formalidades. Desnecessárias formalidades.

- E estou mais feliz ainda em comemorar o décimo sétimo aniversário da minha amada filha e herdeira deste império, Lizlee Deskran.

E novamente, palmas. Meu pai – que se encontrava alguns degraus abaixo de mim – me estendeu a mão à qual peguei e acabamos de descer as escadas, juntos.

A música e cochichos, assim como os comprimentos, começaram a preencher o espaço. Logo tive que começar a por em prática aquilo que fui ensinada. "Sorria". "Encante". "Aja como uma dama da sociedade". "Se porte bem na frente dos convidados".

Era tanta coisa para lembrar e aquela história da minha mãe que não saía da minha cabeça. Não era o momento mais apropriado para demonstrações e "showzinhos" como papai dizia, mas a minha única vontade era chorar.

Quando olhei para ele, nem parecia que menos de dez minutos atrás estivera em prantos. Se sua família tem um grande papel na sociedade, é melhor nem pensar em sair da linha. Neste caso, até os nossos menores deslizes poderiam ser motivos de desgraça total.

A elite de Leeland poderia ser cruel e conservadora demais. Para não manchar a imagem de nossa família, fiz como fui orientada.

Sorri tanto que meus lábios doíam e me portei como a mais elegante dama da realeza para não ter que suportar os olhares tortos de umas moças hipócritas que estavam presentes.

Toquei com uma calma que eu nem tinha, mas que tive que buscar no fundo da minha alma e todos ficaram encantados com a boneca superficial e altamente controlável que me tornei para aquele evento.

Por fim, faltava um último item: "dançar". Nunca fui uma dançarina muito boa, mas também só iria dançar com meu pai. O que poderia dar errado?

Me apresentei como era esperado, fazendo uma reverência. Dei a mão a ele, que me guiou pelo salão. Uma vez próximos insisti na continuação da história.

- É uma ótima oportunidade para continuar nosso assunto, não acha?

- Eu já disse que não podemos falar sobre isso. Se nunca contei é porque você corria perigo.

- Corria? E agora não estou correndo?

Ele sabia que eu estava certa em querer saber, era um direito do qual eu não abria mão.

- Talvez.

- E como posso me proteger se nem sei do quê ou de quem? Não entendo como não ter dimensão dos riscos me deixa mais segura.

Ele me girou duas vezes e voltei para ele que cochichou ao meu ouvido.

- Tentaram assassinar você, por isso incendiaram a empresa.

- Por que alguém faria isso?

- Agora não, depois do evento...

- Pai, eu preciso disso.

- Estou de pés e mãos atados, você não entenderia.

Ele estava sussurrando, como se tivesse medo de que os outros pudessem ouvir.

- E vou fazer qualquer coisa para que não te tirem de mim, até aceitaria entregar o que habita dentro de você...

- Tudo bem! - Me espantei. - Acho que o senhor bebeu um pouco além da conta antes da festa.

- Não é isso. Eu só... eu sei que, sozinho, sou incapaz de salvar você. Como fui incapaz de salvar a sua mãe.

- É sério, do que o senhor está falando? Eu não entendo.

Ele estava muito abalado e eu, completamente perdida. Neste momento um homem encapuzado, vestido de preto e com uma arma em mãos, invadiu a festa, gritou algo incompreensível e abriu fogo diretamente em nossa direção atingindo em cheio o meu pai. Foi tudo tão rápido que não houve tempo de esboçar qualquer reação.

- Pai! Pai, por favor... não pode me deixar.

Também não houve tempo de ver quem era o assassino. Meu pai estava sangrando bastante e tudo se tornou um grande borrão vermelho diante dos meus olhos. Segurei-o em meus braços, desesperada e inútil perante a situação que se desenrolava. Meu coração e minha cabeça estavam à mil.

- Filha, não se preocupe comigo. Você tem que partir antes que te peguem. Há muito cuidei de tudo para que estivesse segura quando esse momento chegasse. É só o que me importa... você pode ter uma vida melhor do que essa.

- Os médicos vão chegar e vai ficar tudo bem. Confie em mim.

- Não, minha Flor de Liz.

- Não insista nisso. Fique quieto, não gaste energias. Eles vão chegar logo... o senhor vai ficar bem.

Ele apertou minha mão segurando junto ao seu peito.

- Eu não posso partir sem te dizer...

- O quê? Não. - Eu mal conseguia raciocinar, tudo estava confuso demais.

- Isso não vai acontecer. O senhor não vai morrer.

Olhei em volta e nada dos médicos chegarem. Os tiros pegaram em locais que não matavam imediatamente, apenas deixavam a morte lenta e mais dolorosa. Comecei a gritar por socorro e gesticular para a multidão que corria em ritmo desordenado desesperada por suas próprias vidas.

- Eu não vou sobreviver a isto. Mas você vai e irá para onde eles não poderão te fazer mal.

Ele parecia engasgado e suas palavras pareciam delírios. Seus olhos estavam perdendo o brilho da vida. Ele estava partindo.

- Eles quem? Por favor pai, não me deixe aqui sozinha. Eu não vou conseguir assim...

- Você não estará sozinha e nunca duvide de si mesma. Eu faria qualquer coisa por você, sei que é difícil acreditar depois de tudo que fiz... que deixei de fazer.

- Eu acredito nisso. Eu acredito em você, mas não me abandone.

Em meio aos prantos e soluços, ele se despedia de mim. Seu pulso foi ficando cada vez mais fraco e seus olhos, frios olhando fixamente para mim.

- Você é capaz de viver com ou sem mim, mas não será capaz de viver sem acreditar em si mesma. Eu te amo, minha filha.

Ele pegou minhas mãos dentro das suas, depois que as beijou suas lágrimas escorreram por seu rosto e ele se foi. Bem ali em meus braços. Enquanto isso, o mundo ficou lento e mudo.

Moggie me encontrou no meio da multidão mas quando finalmente conseguiu chegar era tarde demais. Só restou a visão do meu desespero e dor, rodeada de uma poça de sangue e com o corpo de meu pai em meus braços.

Cuidadosamente, ela me afastou dali mesmo com minha relutância em nos separarmos. Os médicos vieram em seguida. Os policiais também. Minha visão se escureceu e o mundo se apagou.

Capítulo 3 Vento Gélido

Acordei desnorteada e com muita dor de cabeça. O relógio marcava dez da manhã. Estava vestida com um vestido pouco acima do joelho, bem como com uma meia calça, luvas – e até sapatos – tudo na cor preta.

Só então retomei a consciência de que nada daquilo fora um pesadelo. Era real. Meu pai havia falecido. Como reagir a isso? Haveria um plano traçado para quem acabara de assistir o assassinato de seu próprio pai ou eu estaria jogada à própria sorte? Sinceramente, eu não sabia o que pensar, o que fazer e nem para onde ir.

Sem forças para me erguer da cama, permaneci deitada. Fui me encolhendo cada vez mais, sentindo o mundo desabar na minha cabeça.

Moggie adentrou o quarto sem fazer alarde, pois sabia que eu não me encontraria em um bom estado, e veio se deitar junto comigo na cama acariciando os meus cabelos numa forma silenciosa de consolo.

A abracei e me derramei em prantos. Já que talvez ela tenha sido a única pessoa que me restou, não tinha receio de chorar em sua frente. Passamos um bom tempo ali, até que, ela finalmente conseguiu me fazer descer para o enterro.

Quando chegamos lá embaixo os empregados da casa e alguns da empresa formavam duas fileiras, uma de cada lado, de forma que nós duas pudéssemos passar no meio. Tentei não reparar muito em seus rostos, pois sabia que choraria mais, mas o silêncio dizia tudo.

No enterro estavam presentes vários amigos, outros empresários, sócios e funcionários da empresa prestando suas últimas homenagens e eu, que nunca fui muito boa em despedidas, fiquei totalmente calada diante da situação.

O vento soprava frio naquela manhã cinzenta. Parecia que a natureza compartilhava da minha dor. E mais uma vez, fui tomada daquela estranha sensação de estar só em meio a uma multidão.

Enquanto fingia que escutava as palavras do padre, caminhei até o caixão e depositei rosas sobre a superfície de madeira escura. Mais uma vez um vento gélido passou causando arrepios por todo meu corpo. Apertei o sobretudo e enfiei as mãos no bolso.

Desviei o olhar do caixão por um breve instante e me deparei com a estranha visão de uma pessoa, trajando roupas alvas como neve, nos observando. Gradativamente esta figura foi desaparecendo como uma fumaça.

Amedrontada, voltei os olhos para Moggie que fez um sinal para que eu fosse até ela. Mas, por algum motivo inconsciente, não conseguia evitar a vontade de olhar mais uma vez – mesmo que somente para ter certeza de que era coisa da minha cabeça. Quando enfim venci o medo, a pessoa havia desaparecido completamente e então fui me juntar à Moggie.

Após o enterro e o fim das homenagens, fui avisada de que o senhor Bolton, advogado da família, me esperava para discutir meu futuro. A notícia me deixou um pouco irritada. Era como se não houvesse outra hora para tratar de assuntos financeiros. Mesmo assim, fui recebê-lo na sala de visitas.

Tentei assumir uma postura um pouco mais madura e menos abalada. O cumprimentei com um aceno de cabeça e estendi minha mão para um aperto, ao que ele hesitou num primeiro instante mas logo o fez.

- E então?

Perguntei ao me sentar na poltrona que era de meu pai, a sensação era a de estar invadindo o espaço dele.

- Senhorita Deskran, em primeiro lugar queria demonstrar meus sentimentos pela morte de um homem tão justo e honrado quanto o seu pai.

Indiquei um assento e ele se sentou, colocando a maleta sobre a mesinha de centro.

- Por favor, vamos direto ao assunto.

- Sim, como quiser. – Concordou, meio desconcertado. - O seu pai deixou uma quantia muito alta em seu nome.

Senhor Bolton começou a retirar da maleta todos os documentos e os segurou em minha frente. Peguei os papéis e analisei, enquanto ele continuava a explicar a situação.

- Todos os seus bens e o comando das Indústrias Deskran são sua herança por direito e legitimidade. Porém...

Peguei uma pasta e comecei a folhear sem me atentar ao conteúdo por conta daquele porém. Sempre haveria um porém. Porque sou mulher e também não havia atingido a maioridade estipulada no Grande Lizma, entretanto, sabia que era perfeitamente capaz.

- Continue.

- Porém, é de nosso conhecimento que acaba de completar dezessete anos, o que não configura idade suficiente para ter autonomia sobre os bens dispostos em seu nome.

Neste momento ele retirou um documento e o colocou na minha frente. Parecia importante, do contrário teria deixado bem na minha cara o tempo inteiro.

- E o que isso quer dizer realmente?

- Quer dizer que o seu novo responsável legal é quem cuidará dos seus bens até que possa fazê-lo você mesma. Quanto às Indústrias Deskran, as ações do seu pai podem ser vendidas ou podem permanecer sob o domínio da família Deskran... mas isso veremos outra hora. Não quero sobrecarregá-la. Compreende isto?

Relevei o fato de que ele falava como se do outro lado houvesse uma criança. Já não bastava ser inconveniente em um momento de luto. Aquela era basicamente uma insinuação de que queriam desocupar a casa e se livrarem de mim no processo.

- E quem ficará com minha guarda? Eu não tenho mais família até onde sei.

- Aparentemente, você tem. Ele se chama James Deskran, é irmão mais velho de seu pai.

O homem sacou uma caneta do bolso do paletó e segurou virada para mim.

- Qual a finalidade disso?

- Preciso que assine esses termos atestando que está ciente de que daqui para frente seu tutor legal é quem administrará os bens, em seu nome, até que complete a maioridade ou se emancipe, é claro.

- Ele pode fazer o que quiser com o meu dinheiro?

- Não "o que quiser", mas ele pode usar o dinheiro para suprir as suas necessidades. – Senhor Bolton balançou a caneta e me encarou como incentivo.

- Para onde estou indo? Eu tenho que me mudar, não é?

- Não se preocupe. Está no testamento e a leitura ocorrerá assim que estiver instalada em sua nova casa e familiarizada com seu tio. Seu pai tinha pensado em tudo e estava certo de que lá você estará bem protegida.

Protegida. Meu pai disse que queria me manter protegida e por isso não me contou sobre minha mãe. Mas, protegida em que sentido? Protegida de que ou de quem?

- Então, senhorita...

Ele balançava freneticamente o objeto, o peguei de sua mão ainda hesitante e assinei os documentos.

- Por que meu pai nunca comentou sobre esse homem?

- Seu pai nunca foi de manter contato com a família.

- Eu sei, mas...

Apressado como sempre estava acostumada a vê-lo, o homem acrescentou atropelando minha fala.

- Com certeza ele tinha seus motivos. Quem sou eu para questioná-los? – Ele puxou um paninho do bolso do paletó e limpou as lentes dos óculos. - Bem senhorita, a viagem será amanhã. Tenho certeza de que será bem recebida na nova casa.

E agora estava claro que o meu pai mantinha mais segredos escondidos de mim do que eu podia imaginar.

- Obrigada pelas notícias. Está dispensado.

- Passe bem, senhorita. E minhas mais sinceras condolências.

Não tinha certeza da parte do "sinceras". Se houvesse em suas intenções qualquer resquício de sinceridade, ele nem estaria ali. Já era estranho estar sendo praticamente empurrada para fora de casa quando meu pai havia acabado de ser enterrado, ainda acabara de descobrir que meu pai tinha um plano de me enviar para a casa de um completo desconhecido caso algo acontecesse. Isso significava que ele sabia que o perigo era iminente.

Seu amigo havia dito algo a respeito de alguém nos rondando e sobre "continuarem vindo", mas quem eram e o que pretendiam? Por isso ele planejou tudo? Será que ele mesmo teria dado ordens de me mandarem para longe imediatamente após partir? Será que ele sabia que isso estava prestes a acontecer? O que significava tudo isso? Nada fazia sentido.

Ao ouvir a porta bater e notar a presença da minha alta, curiosa e nada discreta tutora, pedi que me desse um momento sozinha no escritório antes de ir descansar para a viagem. Não seria nada fácil enfrentar o luto. Da mesma forma que não seria fácil me despedir da casa em que vivi dezessete anos, não seria menos pesaroso suportar permanecer com tantas lembranças dolorosas.

O tempo passou mais devagar do que nunca. Apesar de a mobília permanecer intocada, as salas estavam vazias e silenciosas. Eu sequer conseguia reconhecer o meu próprio quarto. Estava sem vida, sem luz. Me tranquei e despenquei na cama num pranto inconsolável e solitário. Nem vi o sono chegar.

Na manhã seguinte, estranhei ninguém ter vindo me importunar logo cedo, mas deixei para lá. Os empregados já haviam arrumado as malas e a condução. Olhei para aquilo e lamentei os meios de transportes terem se tornado quase primitivos quando os veículos poluentes foram proibidos no Lizma, por outro lado, achei bizarro e até mesmo um pouco engraçado que até eu já estava pronta. Refleti como nunca havia agradecido por tudo que os empregados sempre fizeram por mim. "Nada se valoriza tanto quanto aquilo que se perde", meu pai disse uma vez e era verdade.

Na companhia daquelas pessoas com as quais convivia diariamente, eu aprendi muitas coisas. Retborn me ensinou a observar as constelações – algo que eu nunca realmente tive oportunidade de fazer devido ao céu sempre cinzento do Lizma.

Madjen me ensinou a tocar piano e violino quando fiz birra com todos os professores de música e não os aceitava por seus rígidos métodos. Gaerth e Abdala me ensinaram a costurar e bordar – sendo que a segunda foi minha maior encorajadora a assumir meu estilo próprio, embora Moggie desaprovasse com veemência.

Enfim, não importava qual a função exercida, todos sempre foram bons comigo e me ensinaram algo. Naquela manhã, quando cheguei na cozinha para o café, pedi que todos se reunissem e eles o fizeram.

- Eu não tenho um discurso enorme e nem nada elaborado, mas senti que precisava me despedir e agradecer principalmente. – Comecei, engolindo o choro que estava por vir. - Vocês sempre serviram a esta casa e à minha família com toda sua dedicação. Me ensinaram tantas coisas das quais nunca vou me esquecer. Por isso eu não poderia simplesmente ir embora sem dizer algo. Eu reconheço que parte da história dessa família, parte da minha história, só foi possível pelo trabalho que cada um de vocês desempenhou ao longo desses anos e também reconheço que ir embora é uma tarefa que se torna mais difícil quando se deixa amigos para trás, e é isso o que vocês são para mim: amigos. Eu só espero não ter sido muito exigente e que me perdoem caso eu tenha sido. Então, apenas... muito obrigada.

- Lamentamos sua perda, senhorita. – Se pronunciou a senhora Laverna Brisdon, a assistente do meu pai. - E esperamos que de alguma forma encontre conforto.

- Senhora Brisdon, eu deixo isto em suas mãos. – Entreguei a ela um envelope que havia encontrado no escritório do meu pai naquela manhã. - Com essa procuração a senhora tem autorização para acertar os pagamentos dos funcionários da casa, inclusive o seu. Meu pai confiava muito em seu caráter e profissionalismo, eu também devo confiar.

- Sinto muito, ma chéri. – Puxou a fila o chefe Bernardeau e depois dele outros funcionários também prestaram condolências.

- Não se esqueça de nos visitar algum dia. – Gaerth me abraçou e me entregou uma pequena bonequinha de pano que ela havia costurado para mim quando eu tinha mais ou menos uns sete anos. - Sentiremos imensamente sua falta, pequena flor de liz.

Sinceramente, aquelas despedidas me deixaram mais triste. Não sabia que todos tivessem tanto carinho por mim quanto demonstraram, exceto os que estimava profundamente. Por um breve momento, senti acolhimento e desejei ter me dedicado a enxergar as coisas mais simples que eles fizeram por mim quando eu ainda tinha tempo para retribuir.

Após o café da manhã, me despedi adequadamente deles e me dirigi à nossa "carruagem". Não era como a gente ouvia escutar nos antigos contos de fadas, mas era basicamente isso que o veículo era: uma carruagem. Olhei pela janela e avistei a casa uma última vez.

E foi assim que eu me despedi da minha antiga vida para ingressar numa jornada incerta. Uma viagem rumo à um lugar totalmente desconhecido. E foi como se o mundo, o meu mundo, se perdesse numa manhã triste e cinzenta.

¤¤¤¤¤

Moggie falava o tempo inteiro. Reclamava que a viagem seria longa, do tempo seco, da velocidade em que nos deslocávamos, de como os buracos no caminho causavam-lhe náuseas. De vez em quando ela até bocejava, achando a viagem monótona. Mas o que esperava? Estávamos indo pro interior.

Não que as metrópoles do Lizma fossem grande coisa. Um dia talvez tenham sido, mas hoje eram deprimentes e mórbidas. Já eu ficava olhando os campos secos, as pessoas com caras fechadas, as pontes ou antigas ruínas, os animais magros demais por causa da seca, os riachos de águas turvas e as montanhas. Tudo isso denunciava que já estávamos muito longe de casa.

À certa altura o sono me alcançou. Já estávamos viajando há horas e a noite não tardaria chegar. Pelo andar da carruagem – literalmente – só chegaríamos depois da hora do jantar, lá pelas nove da noite.

O veículo passava por uma ponte estreita quando começou a tombar para um lado. O cocheiro nos gritou e acordei no susto. Moggie e eu conseguimos saltar, mas não pudemos fazer muito para impedir que o veículo tombasse quase completamente.

- E agora o que faremos?

- Acho que teremos que ir a pé. – Respondi para ela.

- Não podemos andar tanto com essa quantidade de malas.

- Alguém vai na frente e pede ajuda. A casa não é tão longe daqui. O caminho é seguro.

O cocheiro interveio dando uma sugestão. Nos entreolhamos, ela e eu.

- Eu vou! – Me voluntariei.

- Tem certeza?

- Ele disse que é aqui perto. Só esperem aqui.

Ela fez que sim e eu segui o caminho. Não haviam casas por ali e depois de uns três quilômetros à frente a paisagem começou a mudar drasticamente. Era como estar em outro lugar.

Comecei a achar estranho, no entanto, olhei para trás e paisagem era a continuidade da que via à minha frente e não o total oposto como eu tinha certeza de ter passado.

De repente, vindo logo à frente avistei quatro pessoas com roupas pretas. Minha primeira reação foi correr. Só não contava com a velocidade com que eles chegariam até mim – acho que ninguém contaria – e me vi cercada. Um deles veio e me segurou por trás, suas mãos pareciam brasas contra minha pele de tão quentes. Gritei por causa da queimadura.

Tentei me soltar mas outros vieram e, com movimentos rápidos e precisos, me amordaçaram e amarraram. Senti o medo e a adrenalina correndo em minhas veias. Meu coração acelerado, o sangue bombeando depressa, parecia que ia explodir.

Porém não foi ele que explodiu e sim as minhas mãos. Foi surreal. Minhas mãos se transmutaram em fogo e transformaram em pó a corda nos meus pulsos. Mesmo assim, um deles insistia em me segurar, como se sua vida dependesse daquilo. O calor das mãos deles me dava a impressão de que eu estava derretendo.

Outra vez, inexplicavelmente a minha pele se transmutou, agora tornando-se água. O vapor pelo contato dos elementos opostos fez com que ele se afastasse, mas não por muito tempo.

Ele voltou manipulando grossas correntes de metal – que não vi de onde surgiram porque estava ocupada tentando fugir – e de algum modo as ordenou para que se envolvessem em meus pulsos.

Em seguida, com força impressionante ele puxou meus braços para trás. Não pude evitar a queda. O garoto que parecia ser o líder do bando, puxou as correntes e me fez levantar.

Mas desistir não era do meu feitio. Como se fosse a coisa mais natural do mundo para mim, invoquei uma corrente de ar que o empurrou para trás. Ele revidou usando a mesma corrente que eu lancei.

Fui arremessada pela força do vento alguns metros para trás e saí rolando pela estrada de terra. Para finalizar minha humilhação, ele puxou as correntes e me trouxe de volta rolando até seus pés.

Quando se aproximou e agachou em minha frente, pensei que fosse me dar um belo soco na cara. Ao invés disso, ele segurou firme em meu queixo e deslizou sua mão – fria e vagarosamente – até o meu pescoço traçando a linha da minha jugular com o dedão. Eu teria morrido ali mesmo não fosse um dos outros três ter intervido.

Uma vez distantes eles se comunicaram em uma linguagem que eu não compreendia. Lembro quando Moggie contou que antes do Grande Lizma haviam diversos idiomas pelo mundo. Provavelmente aquelas pessoas tinham acesso ao que eu não tive e estudaram idiomas antigos na escola.

Aproveitei o momento para desferir um chute no ar que lançou uma labareda no grupo. O fogo acabou atingindo um deles no braço e o outro se defendeu habilmente levantando um escudo de água que acabou se tornando vapor antes de atingi-lo.

Furioso por ter sido ferido, o rapaz quis retornar até mim mas o outro o puxou pelo colarinho e gritou com ele. Depois disso, eles partiram. Desaparecendo tão repentinamente quanto surgiram. Uma vez sozinha, derreti as correntes. Demorou um certo tempo, porque eu estava muito nervosa com tudo que fiz e presenciei.

Até que em um estalo, me lembrei de toda história desconexa sobre o Grande Lizma que conheci através do diário e de teorias conspiratórias que os funcionários da mansão comentavam entre si sem que soubessem que eu escutava.

Uma nova raça que podia manipular os elementos e os metais e também sobre a extinção deles. Mas não. Eles não estavam extintos. Eu acabara de ver a manifestação do poder deles. Pior, eu acabara de manifestar os poderes deles.

Atônita, passei longos minutos andando e buscando respostas dentro de mim, até que uma carroça de metal enferrujado parou ao meu lado e Moggie gritou lá de cima para que eu subisse.

Nosso ponto de chegada se encontrava a ridículos dois quilômetros e era uma casa enorme. Chegando lá, fiquei receosa de revelar qualquer coisa à Moggie e afastar a única família que eu tinha por ser uma "aberração".

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