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MAGIA NEGRA

MAGIA NEGRA

Autor: Alexandre683
Gênero: Fantasia
No coração de Chimoio, Moçambique, uma morte inexplicável abala o país. Durante uma cerimónia pública, o governador cai diante de jornalistas, policiais e autoridades, vítima de um fenómeno aterrador que ninguém consegue explicar. Enquanto a cidade tenta compreender o que aconteceu, uma mulher observa tudo pela televisão, segurando nas mãos um rato morto marcado por um ritual sombrio. O que ninguém sabe é que aquela morte é apenas o início. Daniel Mucavele, um jovem que sempre acreditou levar uma vida normal, começa a descobrir que sua família guarda um segredo antigo. Os Mucavele fazem parte de um círculo secreto formado por famílias poderosas que, durante gerações, construíram riqueza, influência e autoridade através de pactos sobrenaturais, crimes, roubos e vinganças. Quando Daniel descobre a verdadeira história de sua família, percebe que seus pais esconderam dele uma herança muito mais perigosa do que imaginava. No centro desse segredo está Salvador Mucavele, uma figura misteriosa ligada ao passado da família e ao Círculo. Para alguns, ele é um homem poderoso. Para outros, é algo muito pior. Enquanto Daniel tenta descobrir onde seu pai desapareceu e por que sua mãe passou a vida escondendo a verdade, uma guerra silenciosa começa entre os Mucavele, os Nhamatanda e outras famílias antigas. Assassinatos aparentemente impossíveis começam a surgir. Empresas são roubadas. Documentos desaparecem. Fortunas mudam de mãos. Pessoas que conhecem os segredos do Círculo começam a morrer. E a polícia, liderada por Mateus Nhamatanda, começa a perceber que existe uma ligação entre os crimes que ultrapassa qualquer explicação racional. Daniel, inicialmente dominado pelo medo, descobre pouco a pouco que possui uma ligação sobrenatural com o Círculo. Quanto mais procura respostas, mais próximo fica de um poder que sua própria família tentou esconder. Mas o poder tem um preço. Entre segredos familiares, rituais sombrios, mortes, traições e uma guerra pelo controle da riqueza e da influência, Daniel terá de escolher: destruir o Círculo e acabar com a maldição de sua família... ou aceitar a herança, dominar o poder e tornar-se o mais poderoso membro do Círculo. Porque algumas portas foram fechadas durante gerações. E agora, Daniel Mucavele começou a abri-las. O sangue chamou. O Círculo despertou. E a caça começou.
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Capítulo 1 Prólogo - O Último Discurso

Chimoio, Moçambique.

A tarde estava estranhamente silenciosa.

O céu sobre a cidade de Chimoio permanecia coberto por nuvens pesadas, quase negras. O vento soprava pelas ruas, levantando poeira e folhas secas.

Em frente a um grande edifício governamental, dezenas de viaturas estavam estacionadas.

Carros da polícia.

Viaturas do governo.

Ambulâncias.

Carros de jornalistas.

Havia agentes de segurança espalhados por todos os lados.

Repórteres seguravam microfones e câmeras, tentando descobrir o motivo daquela reunião extraordinária.

- Sabe por que o governador convocou toda essa gente? - perguntou um jornalista.

- Ninguém sabe - respondeu outro. - Só disseram que seria um anúncio importante.

- Será sobre as eleições?

- Talvez.

- Ou sobre a investigação dos contratos públicos.

O segundo jornalista olhou para os policiais próximos à entrada.

- Seja o que for, parece sério.

Do lado de fora, ninguém percebeu que uma mulher idosa observava o prédio de longe.

Ela estava parada junto a uma árvore.

Vestia uma capulana escura e um lenço cobrindo parte da cabeça.

Em sua mão esquerda carregava algo escondido dentro de um saco.

Um rato morto.

O animal tinha o abdômen aberto.

Dentro dele havia pequenas agulhas, fios vermelhos e pedaços de tecido branco.

A mulher sorriu.

Depois virou-se e desapareceu entre as pessoas.

________________________________________

Dentro do edifício, o grande salão estava completamente lotado.

Jornalistas ocupavam as primeiras filas.

Atrás deles estavam policiais, funcionários públicos, agentes do governo e convidados.

As conversas misturavam-se num enorme murmúrio.

- Será que ele vai renunciar?

- Não acredito.

- Talvez tenha descoberto alguma coisa.

- O governador não convocaria uma reunião dessas por causa de uma simples notícia.

Um homem sentado na terceira fila aproximou-se do colega.

- Você está sentindo esse cheiro?

- Que cheiro?

- Não sei.

Ele respirou novamente.

- Parece ferro.

- Ferro?

- Sim.

O colega riu.

- Deve ser o ar-condicionado.

Mas o homem continuou inquieto.

Havia algo naquele lugar.

Algo que ele não conseguia explicar.

De repente, as portas principais se abriram.

Silêncio.

O governador entrou.

Todos se levantaram.

Ele caminhou lentamente até ao palco.

Usava um terno escuro e segurava alguns documentos nas mãos.

Acenou para os jornalistas.

Depois aproximou-se do microfone.

- Boa tarde.

Algumas pessoas responderam:

- Boa tarde, Excelência.

O governador respirou fundo.

- Excelentíssimos membros do governo, agentes de segurança, jornalistas e todos os cidadãos aqui presentes...

Ele olhou para o salão.

- Agradeço por terem vindo.

As câmeras começaram a gravar.

Um jornalista levantou o microfone.

- Excelência, podemos saber qual é o assunto desta reunião?

O governador sorriu discretamente.

- Dentro de alguns minutos, todos saberão.

O salão voltou a ficar silencioso.

O governador colocou os papéis sobre a mesa.

- Durante os últimos meses, o nosso governo tem enfrentado problemas graves.

Alguns agentes trocaram olhares.

- Corrupção.

- Desaparecimento de fundos.

- Ameaças.

- E pessoas que acreditam estar acima da lei.

Um murmúrio percorreu o salão.

O governador continuou:

- Durante muito tempo, permaneci calado.

Fez uma pausa.

- Mas hoje...

Ele olhou diretamente para as câmeras.

- Hoje venho informar que...

Parou.

Levou uma mão ao peito.

Tossiu.

Uma vez.

Depois outra.

- Excelência? - perguntou um dos seguranças.

O governador levantou a mão.

- Estou bem.

Tentou continuar.

- Como estava dizendo...

Tossiu novamente.

Desta vez com força.

- Excelência!

Ele curvou-se.

Tosse.

Tosse.

Tosse.

Uma gota de sangue caiu sobre o microfone.

O salão ficou completamente silencioso.

O governador olhou para o sangue.

Seu rosto perdeu a cor.

- O que...

Tossiu novamente.

Mais sangue saiu de sua boca.

- Ajudem-me...

Dois seguranças correram para o palco.

- Excelência!

- Chamem uma ambulância!

- Ele está passando mal!

O governador tentou respirar.

Mas começou a engasgar.

- Não...

Ele levou as duas mãos à garganta.

- Não consigo...

Um dos seguranças segurou-o.

- Calma, Excelência. Respire.

O governador abriu a boca.

E vomitou sangue.

Uma quantidade absurda.

O líquido vermelho caiu sobre o palco.

As pessoas começaram a gritar.

- Meu Deus!

- Chamem um médico!

- Afastem-se!

O governador caiu de joelhos.

Seu corpo começou a tremer violentamente.

- O que está acontecendo com ele? - gritou uma jornalista.

Outro segurança aproximou-se.

- Excelência!

O governador levantou os olhos.

Parecia aterrorizado.

- Está... dentro de mim...

- O quê?

Ele começou a tossir novamente.

Tosse.

Tosse.

Tosse.

Algo metálico caiu de sua boca.

CLANG!

Uma agulha.

Todos ficaram paralisados.

- Que diabos...?

Outra caiu.

Depois outra.

O governador começou a vomitar novamente.

Agulhas.

Pequenas lâminas.

Tesouras enferrujadas.

Pedaços de pano branco.

Os objetos caíam misturados ao sangue.

Uma mulher gritou.

- Tirem isso de dentro dele!

- Isso é impossível!

- Meu Deus!

O governador agarrou o braço de um segurança.

- Eles me mataram...

- Quem?

O governador tentou responder.

- A mulher...

Tossiu.

- Qual mulher? - perguntou o segurança.

O governador arregalou os olhos.

- A mulher do...

Não conseguiu terminar.

Seu abdômen começou a inchar.

Primeiro lentamente.

Depois rapidamente.

A camisa começou a esticar.

- Meu Deus! - gritou alguém.

- Afastem-se!

- O que está acontecendo?!

O corpo do governador continuava a aumentar.

Seu abdômen ficou enorme.

Parecia o ventre de uma mulher grávida de nove meses.

Ele gritava.

- Tirem isso de mim!

- Socorro!

- POR FAVOR!

Um policial tentou segurá-lo.

- Excelência, fique calmo!

- EU ESTOU MORRENDO!

O salão entrou em pânico.

Pessoas corriam para as portas.

Alguns jornalistas continuavam filmando.

Outros deixaram as câmeras cair.

O governador olhou para o teto.

Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

- Por quê?

Ninguém respondeu.

Ele sussurrou:

- Eu devia ter ficado calado...

De repente...

BOOM!

O corpo explodiu.

Sangue espalhou-se pelo palco.

As luzes piscaram.

O microfone caiu no chão.

TUM.

O corpo do governador caiu imóvel.

Durante alguns segundos...

Ninguém se mexeu.

Então o salão explodiu em gritos.

- CORRAM!

- MEU DEUS!

- ELE ESTÁ MORTO!

- CHAMEM UMA AMBULÂNCIA!

- FECHEM AS PORTAS!

- NINGUÉM SAI!

Policiais apontaram armas para todos os lados.

Agentes do governo tentavam controlar a multidão.

Jornalistas gritavam.

Alguns choravam.

Uma câmera permanecia ligada no chão.

Filmando o sangue que escorria pelo palco.

E, no meio daquele caos, ninguém percebeu uma coisa.

No peito do governador havia uma pequena marca.

Um círculo.

Dentro dele, três linhas cruzadas.

________________________________________

Algumas horas depois

Muito longe dali...

Numa pequena casa afastada da cidade, uma televisão permanecia ligada.

A notícia era transmitida ao vivo.

"Governador de Manica morre durante pronunciamento público..."

Uma senhora estava sentada diante da televisão.

Era a mesma mulher que havia sido vista perto do edifício.

Ela tinha cabelos completamente brancos.

O rosto estava marcado pela idade.

Mas seus olhos eram firmes.

Ela segurava um rato morto na mão esquerda.

O abdômen do animal estava aberto.

Dentro dele havia agulhas.

Pequenas lâminas.

Fios vermelhos.

E um pedaço de pano branco.

Ao redor da mulher havia dezenas de velas.

Algumas já estavam apagadas.

No chão havia sangue formando círculos.

Panos brancos estavam espalhados por toda parte.

Agulhas estavam espetadas em pequenas figuras feitas de barro.

Havia ossos.

Garrafas.

Ervas secas.

Lâminas enferrujadas.

E símbolos desenhados no chão.

A casa inteira parecia ter sido preparada para um ritual.

Na televisão, a imagem mostrava o corpo do governador sendo retirado do edifício.

A mulher sorriu.

Passou lentamente o dedo pelo rato morto.

Depois espetou uma agulha no coração do animal.

Na televisão, um jornalista dizia:

- As autoridades ainda não explicaram o que provocou a morte do governador. Testemunhas afirmam que ele começou a vomitar objetos metálicos antes de sofrer uma ruptura abdominal...

A senhora soltou uma pequena gargalhada.

- Testemunhas...

Ela aproximou-se da televisão.

- Vocês não entendem nada.

A jornalista continuou:

- A polícia isolou o local e iniciou uma investigação...

A velha aproximou o rosto da tela.

- Investiguem.

Sorriu.

- Procurem.

Colocou o rato sobre uma pequena tigela.

Depois pegou uma lâmina.

- Mas nunca vão encontrar.

Ela olhou novamente para a televisão.

Seu sorriso desapareceu.

- Eu avisei você, governador.

Silêncio.

Ela inclinou a cabeça.

- Pedi para ficar calado.

Pegou outra agulha.

- Mas você falou demais.

Cravou a agulha no rato.

- Agora pagou.

Uma vela apagou-se sozinha.

Depois outra.

E outra.

A mulher olhou para o corredor escuro atrás dela.

Por um instante, pareceu ouvir passos.

Toc.

Toc.

Toc.

Ela ficou imóvel.

- Já chegou?

Ninguém respondeu.

Os passos pararam.

A velha sorriu.

- Então começou.

Na televisão, a imagem do governador desapareceu.

A tela ficou preta.

E, por um breve instante, uma palavra apareceu no ecrã:

MUCAVELE.

A mulher arregalou os olhos.

O sorriso desapareceu.

- Não...

A palavra sumiu.

Ela aproximou-se da televisão.

- Não pode ser.

Olhou para o ritual.

Depois para a escuridão.

- O sangue voltou.

A chama de todas as velas se apagou ao mesmo tempo.

A casa mergulhou na escuridão.

E uma voz masculina, profunda e quase sussurrada, veio de algum lugar dentro da casa:

- O herdeiro despertou.

A velha ficou imóvel.

Então sorriu.

- Finalmente.

Lá fora, um trovão rasgou o céu.

E, naquela mesma noite, sem que ninguém soubesse, uma guerra antiga voltou a respirar.

Uma guerra que havia começado muito antes do nascimento de Daniel.

Uma guerra que agora chegaria até ele.

E desta vez, o sangue seria apenas o começo.

Capítulo 2 O PRIMEIRO SANGUE

Chimoio, Província de Manica

A chuva começou depois da meia-noite.

Não era uma chuva forte.

Era fina, persistente, quase silenciosa.

Caía sobre Chimoio como se o céu estivesse tentando lavar alguma coisa que não podia ser limpa.

As ruas estavam quase vazias.

As luzes dos postes refletiam-se no asfalto molhado, enquanto alguns carros passavam lentamente pelas avenidas. Ao longe, ouvia-se o som abafado de uma sirene.

Uma.

Depois outra.

E outra.

Naquela noite, ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo dentro do edifício governamental.

Mas todos sabiam que alguma coisa terrível havia acontecido.

O governador estava morto.

E a notícia já começava a espalhar-se pela cidade.

Nos bairros, pessoas permaneciam acordadas diante das televisões.

Nas pequenas barracas, homens discutiam em voz baixa.

- Dizem que ele vomitou sangue.

- Sangue?

- Sangue e coisas estranhas.

- Que coisas?

O homem aproximou-se.

- Agulhas.

Outro fez o sinal da cruz.

- Isso não é doença.

- Então o que é?

Ninguém respondeu.

Uma senhora que estava sentada perto da porta da barraca murmurou:

- É dívida.

Todos olharam para ela.

- Que dívida?

Ela não respondeu.

Apenas continuou olhando para a televisão.

Naquele momento, uma fotografia do governador apareceu na tela.

A mulher baixou a cabeça.

- Ele devia ter ficado calado.

________________________________________

A quase cinco quilômetros dali, Daniel Mucavele ainda estava acordado.

Estava sentado sozinho na sala.

A televisão iluminava seu rosto.

Tinha vinte e dois anos.

O cabelo estava desarrumado e havia um livro aberto sobre a mesa que ele já não lia havia quase meia hora.

Seus olhos estavam presos à televisão.

- As autoridades ainda não divulgaram oficialmente a causa da morte do governador...

Daniel aumentou o volume.

A jornalista continuou:

- Segundo testemunhas presentes no local, o governador começou a apresentar sinais de forte mal-estar durante uma cerimônia oficial. Minutos depois, sofreu uma hemorragia severa e morreu diante de dezenas de pessoas.

Daniel franziu a testa.

A imagem mudou.

Apareceram viaturas policiais.

Depois ambulâncias.

Depois jornalistas.

Depois imagens do edifício governamental.

A jornalista voltou a aparecer.

- Fontes não oficiais afirmam que objetos metálicos teriam sido encontrados no corpo da vítima. As autoridades não confirmaram essa informação.

Daniel sentiu um arrepio.

- Objetos metálicos?

A televisão mostrou novamente a imagem do governador.

Daniel aproximou-se.

Foi então que percebeu a mãe parada atrás dele.

Amélia estava imóvel.

- Mãe?

Ela não respondeu.

- Você está bem?

Amélia continuou olhando para a televisão.

Seu rosto havia perdido a cor.

Daniel levantou-se.

- Mãe?

Ela finalmente respondeu:

- Desliga.

- O quê?

- A televisão.

- Por quê?

- Daniel, desliga.

Ele olhou para ela.

- Você conhece o governador?

Amélia desviou o olhar.

- Não.

- Então por que está assustada?

- Não estou.

- Está.

Amélia aproximou-se do aparelho.

- Desliga.

Daniel pegou o controle, mas não apertou o botão.

- O que está acontecendo?

- Nada.

- Mãe...

- Eu disse que não é nada.

Daniel olhou novamente para a televisão.

A jornalista estava dizendo:

- A polícia isolou o local e iniciou uma investigação. Algumas testemunhas afirmam que o comportamento do governador antes da morte foi extremamente incomum...

Amélia arrancou o controle da mão do filho.

Desligou a televisão.

A sala ficou escura.

Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Então Daniel perguntou:

- Quem era ele para você?

Amélia virou-se.

- Ninguém.

- Você está mentindo.

Ela abriu a boca para responder.

Mas não conseguiu.

Foi nesse momento que a porta da frente abriu.

Joaquim Mucavele entrou.

O pai de Daniel trazia o casaco molhado pela chuva.

Parou ao ver a esposa e o filho.

- Vocês viram?

Amélia respondeu:

- Sim.

Joaquim fechou a porta.

Trancou-a.

Depois verificou as janelas.

Daniel percebeu.

- Pai, o que está acontecendo?

Joaquim não respondeu.

- Pai?

- Vai dormir.

- Não.

Joaquim olhou para ele.

- Daniel.

- Eu quero saber.

- Não há nada para saber.

Daniel riu sem humor.

- Vocês dois estão assustados.

Silêncio.

- E querem que eu acredite que não aconteceu nada?

Joaquim aproximou-se.

- Escuta o que vou dizer.

Sua voz estava baixa.

- A partir desta noite, você não sai sozinho.

Daniel ficou surpreso.

- Por quê?

- Não faça perguntas.

- É por causa do governador?

Joaquim permaneceu calado.

- É?

- Daniel...

- É por causa dele?

O pai finalmente respondeu:

- Sim.

Daniel sentiu o estômago apertar.

- Vocês conheciam o governador?

Joaquim olhou para Amélia.

Ela abaixou os olhos.

- Não - disse ele.

Daniel percebeu imediatamente que também era mentira.

Antes que pudesse insistir...

Toc.

A batida veio da porta.

Os três congelaram.

Toc. Toc.

Joaquim levantou a mão.

- Fiquem aqui.

Ele caminhou lentamente até a entrada.

Daniel aproximou-se alguns passos.

- Quem é?

Ninguém respondeu.

Joaquim olhou pelo pequeno visor.

Depois recuou.

- Não há ninguém.

Toc. Toc. Toc.

Dessa vez a batida foi mais forte.

Daniel sentiu um arrepio percorrer a coluna.

- Quem está aí? - perguntou Joaquim.

Uma voz masculina respondeu:

- Tenho uma mensagem para os Mucavele.

Joaquim ficou imóvel.

Amélia levou a mão à boca.

- Vá embora - disse Joaquim.

- Não posso.

- Vá embora!

A voz respondeu:

- O sangue já começou a cobrar a dívida.

Daniel olhou para a mãe.

- Que dívida?

Amélia sussurrou:

- Daniel, não.

A voz do outro lado continuou:

- O primeiro já caiu.

Joaquim abriu a porta violentamente.

Não havia ninguém.

A chuva caía sobre o jardim.

O portão estava fechado.

A rua estava vazia.

Joaquim saiu.

Olhou para um lado.

Depois para o outro.

Nada.

Quando voltou, havia alguma coisa no chão.

Um envelope preto.

Joaquim abaixou-se.

Pegou-o.

Daniel aproximou-se.

- O que é?

- Nada.

- Deixa eu ver.

- Não.

Joaquim apertou o envelope.

Daniel percebeu que havia alguma coisa escrita.

- Pai...

Joaquim virou o envelope.

Na frente estava escrito:

PARA O HERDEIRO.

Daniel sentiu um frio no peito.

- Quem é o herdeiro?

Joaquim respondeu imediatamente:

- Ninguém.

- Então por que está escrito isso?

Joaquim não respondeu.

Amélia aproximou-se.

- Joaquim...

Ele olhou para ela.

Os dois compreenderam alguma coisa sem precisar falar.

Joaquim caminhou até a cozinha.

Acendeu o fogão.

Colocou o envelope sobre a chama.

O papel começou a queimar.

Daniel observou.

Mas, antes que desaparecesse completamente, conseguiu ler uma frase no interior:

O GOVERNADOR FOI APENAS O PRIMEIRO.

O papel virou cinza.

Daniel ficou olhando.

- Pai.

- Vai dormir.

- Quero saber a verdade.

- Ainda não.

- Quando?

Joaquim respondeu:

- Quando for tarde demais.

________________________________________

Daniel não dormiu.

Ficou deitado no escuro, olhando para o teto.

A chuva continuava.

O relógio marcava 02h17.

02h18.

02h19.

Ele fechou os olhos.

Tentou dormir.

Então ouviu:

- Daniel...

Abriu os olhos.

Silêncio.

Sentou-se.

- Mãe?

Nada.

Olhou para a porta.

Estava aberta.

Daniel levantou-se.

Saiu do quarto.

A casa estava escura.

Caminhou até a sala.

Nada.

Passou pela cozinha.

Nada.

Então ouviu novamente:

- Daniel...

A voz vinha do quintal.

Ele aproximou-se da janela.

Afastou lentamente a cortina.

E viu uma mulher.

Estava parada no meio da chuva.

Era velha.

Vestia uma capulana escura e um pano cobrindo parte dos cabelos.

Na mão esquerda segurava alguma coisa.

Daniel aproximou o rosto do vidro.

Era um rato morto.

O animal tinha um pequeno buraco no abdómen.

Daniel recuou.

A velha levantou a cabeça.

Olhou diretamente para ele.

Mesmo separados pelo vidro e pela distância, Daniel teve a certeza de que ela estava olhando para os olhos dele.

A mulher sorriu.

Depois levou o dedo aos lábios.

Silêncio.

Daniel piscou.

Ela desapareceu.

Correu até a porta.

Abriu-a.

Saiu para o quintal.

- Ei!

Nada.

A chuva molhava sua roupa.

Olhou para o portão.

Fechado.

Correu até lá.

Abriu.

A rua estava vazia.

Nenhuma pessoa.

Nenhum carro.

Nenhuma sombra.

Daniel voltou para dentro.

Quando fechou a porta, percebeu alguma coisa no chão.

Um pequeno objeto.

Aproximou-se.

Era uma moeda antiga.

Havia um símbolo gravado nela.

Um círculo.

Dentro dele, três linhas.

Daniel tocou.

Sentiu uma dor aguda na mão.

- Ah!

Soltou a moeda.

Uma pequena marca apareceu na palma da sua mão.

O mesmo símbolo.

Daniel ficou imóvel.

Então ouviu passos atrás dele.

Virou-se.

Joaquim estava parado no corredor.

O rosto do pai mudou quando viu a marca.

- Onde conseguiu isso?

- Apareceu.

Joaquim aproximou-se.

Segurou a mão do filho.

- Você viu alguém?

Daniel hesitou.

- Vi.

- Quem?

- Uma mulher.

Joaquim fechou os olhos.

- Como ela era?

Daniel descreveu.

A reação do pai foi imediata.

- Madalena.

- Quem?

Joaquim soltou sua mão.

- Vá para o quarto.

- Pai, quem é Madalena?

- Daniel!

- Eu quero saber!

- Essa mulher não deveria ter vindo atrás de você.

- Então você conhece ela.

Joaquim não respondeu.

Daniel aproximou-se.

- Quem é Madalena?

O pai finalmente olhou para ele.

- Uma mulher que trabalhou para seu avô.

Daniel ficou confuso.

- Meu avô?

Joaquim percebeu que havia falado demais.

- Esqueça.

- Não.

- Daniel...

- Quem era meu avô?

Joaquim virou-se.

- Seu avô está morto.

- Qual era o nome dele?

Joaquim parou.

Durante alguns segundos, apenas a chuva podia ser ouvida.

Então respondeu:

- Salvador.

Daniel sentiu um estranho desconforto.

- Por que nunca falou dele?

- Porque algumas histórias devem permanecer enterradas.

- O que ele fazia?

Joaquim respondeu:

- Coisas que não quero que você conheça.

E saiu.

Daniel permaneceu sozinho.

Olhou para a marca na mão.

Ela parecia pulsar.

________________________________________

Na manhã seguinte, Chimoio acordou diferente.

A notícia do governador dominava as ruas.

Na rádio, especialistas discutiam a possibilidade de envenenamento.

Nas redes sociais, circulavam vídeos e fotografias.

Algumas pessoas falavam de assassinato.

Outras de feitiçaria.

E havia uma fotografia que se espalhava rapidamente.

Era a imagem de um objeto encontrado próximo ao palco.

Um círculo negro.

Com três linhas no interior.

Daniel viu a fotografia no telefone.

Seu coração acelerou.

Era o mesmo símbolo.

O telefone tocou.

Era seu amigo Mateus.

- Daniel.

- Sim?

- Você viu as notícias?

- Sim.

- Tenho uma coisa para te contar.

- O quê?

Mateus hesitou.

- Meu tio está investigando o caso.

- Seu tio?

- Mateus Nhamatanda.

Daniel conhecia o nome.

O investigador era conhecido na cidade.

- O que ele descobriu?

- Não sei.

- Então por que ligou?

- Porque ele encontrou uma coisa que me assustou.

- O quê?

Mateus baixou a voz.

- O governador tinha um símbolo desenhado no corpo.

Daniel ficou em silêncio.

- Que símbolo?

- Um círculo.

Daniel sentiu a mão arder.

- Com três linhas?

Mateus ficou calado.

- Como você sabe?

Daniel desligou.

________________________________________

Naquela tarde, Daniel voltou à antiga casa dos Mucavele.

Ficava numa zona mais afastada de Chimoio.

Era uma construção antiga, cercada por árvores e muros altos.

A casa estava fechada havia anos.

Ou pelo menos era o que a família dizia.

Daniel encontrou uma janela quebrada.

Entrou.

O interior cheirava a madeira velha e humidade.

Havia móveis cobertos por lençóis.

Fotografias antigas nas paredes.

Daniel caminhou lentamente.

Encontrou uma fotografia de Joaquim ainda jovem.

Ao lado dele havia um homem.

Daniel aproximou-se.

Era Salvador.

Seu avô.

Mas havia algo estranho.

Salvador não parecia velho.

Na fotografia, Joaquim aparentava ter cerca de vinte anos.

Salvador parecia ter aproximadamente quarenta.

Daniel encontrou outra fotografia.

E outra.

Salvador continuava praticamente igual.

Uma terceira fotografia.

Mesma aparência.

Décadas separavam as imagens.

Daniel sentiu um arrepio.

- Quem é você?

Uma voz respondeu atrás dele:

- Seu avô.

Daniel virou-se.

Ninguém.

A voz desapareceu.

Ele continuou procurando.

Encontrou uma porta de madeira.

Estava trancada.

Tentou abrir.

Nada.

Ao lado havia uma parede com um símbolo.

O mesmo círculo.

Daniel tocou.

A porta abriu sozinha.

Atrás dela havia uma escada.

Descia para o subterrâneo.

Daniel ligou a lanterna do telefone.

Desceu.

Um degrau.

Dois.

Três.

O ar ficou mais frio.

No fim havia uma sala.

Velas antigas estavam espalhadas pelo chão.

Panos brancos.

Fotografias.

Documentos.

E sete cadeiras.

No centro havia uma mesa.

Sobre ela estava um livro.

Daniel aproximou-se.

Na capa estava escrito:

O CÍRCULO

Ele abriu.

A primeira página dizia:

Sete famílias.

Um pacto.

Uma dívida.

Um herdeiro.

Daniel virou a página.

Havia nomes.

Mucavele.

Nhamatanda.

Chivambo.

Matsinhe.

Sitoe.

Mabote.

E um nome parcialmente queimado.

Daniel tentou ler.

Não conseguiu.

Então ouviu um barulho.

Toc.

Virou-se.

Uma cadeira havia se movido.

Toc.

Outra cadeira.

Daniel recuou.

- Quem está aí?

Uma voz respondeu:

- Você não deveria ter vindo.

Daniel congelou.

- Quem é você?

A voz aproximou-se.

- A pergunta certa é...

Silêncio.

- ...quem deixou você entrar?

As velas acenderam-se sozinhas.

Uma por uma.

Daniel ficou cercado pela luz.

Na parede surgiu uma sombra.

Era a silhueta de um homem.

Alto.

Magro.

Parado atrás dele.

Daniel virou-se.

Não havia ninguém.

Quando olhou novamente para a parede, a sombra havia desaparecido.

Mas havia uma frase escrita:

SALVADOR ESTÁ VIVO.

Daniel deixou o livro cair.

________________________________________

Naquela mesma noite, a polícia encontrou outro cadáver.

Um empresário chamado Ernesto Mabote.

A loja dele ficava numa das zonas comerciais mais movimentadas de Chimoio.

Quando os funcionários chegaram pela manhã, encontraram a porta aberta.

Não havia sinais de arrombamento.

Ernesto estava sentado atrás da mesa.

Morto.

Os cofres estavam abertos.

Dinheiro desaparecido.

Joias desaparecidas.

Documentos desaparecidos.

Mas ninguém havia ouvido qualquer barulho durante a noite.

O investigador Mateus Nhamatanda entrou na sala.

Parou diante do corpo.

Um policial perguntou:

- Assalto?

Mateus observou o cadáver.

- Não.

- Por quê?

Mateus apontou para os cofres.

- Quem roubou sabia exatamente o que procurava.

Depois olhou para o espelho.

Havia uma palavra escrita.

MUCAVELE.

O policial ficou pálido.

- Isso tem relação com o governador?

Mateus não respondeu.

Aproximou-se do espelho.

Debaixo da palavra havia o símbolo.

Círculo.

Três linhas.

Mateus tirou o telefone.

Ligou para alguém.

- Precisamos conversar.

- Sobre o quê?

- Sobre o Círculo.

Do outro lado houve silêncio.

Mateus continuou:

- Acho que eles voltaram.

________________________________________

Na casa dos Mucavele, Daniel estava sentado sozinho.

O livro estava diante dele.

Não conseguia parar de pensar na frase.

SALVADOR ESTÁ VIVO.

Amélia entrou.

Parou quando viu o livro.

- Onde encontrou isso?

Daniel levantou os olhos.

- Na antiga casa.

Amélia aproximou-se.

Pegou o livro.

Suas mãos tremiam.

- Você não deveria ter aberto.

- Quem é Salvador?

- Seu avô.

- Ele está vivo?

Amélia não respondeu.

- Mãe.

Silêncio.

- Ele está vivo?

Amélia sentou-se.

Pela primeira vez, Daniel viu medo verdadeiro nos olhos dela.

- Eu pensei que tivesse acabado.

- O quê?

- Tudo.

- O que é o Círculo?

Amélia começou a chorar.

- Uma coisa que sua família criou.

- Para quê?

- Para ter poder.

- E conseguiu?

Ela olhou para ele.

- Conseguimos tudo o que queríamos.

Daniel sentiu um aperto no peito.

- Dinheiro?

- Dinheiro.

- Empresas?

- Empresas.

- Terras?

- Terras.

- E inimigos mortos?

Amélia ficou em silêncio.

Daniel entendeu.

- Quantos?

- Não sei.

- Quantos, mãe?

Ela começou a chorar.

- Eu não queria fazer parte disso.

- Mas fez.

- Eu era jovem.

- E meu pai?

- Também.

Daniel levantou-se.

- Então vocês mentiram para mim a vida inteira.

Amélia respondeu:

- Eu menti para manter você vivo.

Nesse momento, todas as luzes da casa apagaram-se.

Amélia levantou-se.

- Não.

Daniel perguntou:

- O que foi?

Ela olhou para a janela.

- Eles encontraram você.

Do lado de fora, uma voz feminina chamou:

- Daniel...

Amélia segurou o braço do filho.

- Não responda.

A voz voltou.

- Daniel...

Era a voz da velha.

Madalena.

E então veio a frase:

- Seu avô quer falar com você.

Daniel olhou para a mãe.

- Onde?

Amélia começou a tremer.

- Não vá.

- Onde ele está?

Madalena respondeu do lado de fora:

- No lugar onde tudo começou.

Daniel perguntou:

- Onde?

Silêncio.

Depois:

- Na casa dos sete.

A voz desapareceu.

Daniel olhou para a marca em sua mão.

Pela primeira vez, não sentiu apenas medo.

Sentiu curiosidade.

E, escondido dentro dessa curiosidade, havia algo ainda mais perigoso.

Desejo.

Desejo de descobrir o que aquele poder poderia fazer.

Capítulo 3 A CASA DOS SETE

A chuva havia parado, mas Chimoio continuava mergulhada numa escuridão pesada.

Eram quase onze da noite quando Daniel percebeu que sua mãe havia adormecido no sofá.

Ou pelo menos parecia.

Ele permaneceu alguns minutos parado no corredor, observando-a.

Amélia tinha os braços cruzados sobre o peito. O rosto estava cansado. Depois da conversa daquela noite, parecia ter envelhecido vários anos.

Daniel sabia que deveria ficar em casa.

Sabia que o pai havia proibido qualquer saída.

Sabia também que a voz de Madalena não era algo que deveria seguir.

Mas havia uma pergunta que não o deixava respirar:

Quem era Salvador Mucavele?

E por que todos tinham tanto medo dele?

Daniel pegou o casaco.

Abriu a porta devagar.

Antes de sair, olhou novamente para a mãe.

- Desculpa, mãe.

Fechou a porta.

Do outro lado da rua, um carro estava estacionado.

Os faróis estavam apagados.

Daniel parou.

Observou.

O carro não se mexeu.

Continuou caminhando.

Quando chegou ao fim da rua, ouviu um motor ligar atrás dele.

Virou-se.

O carro começou a segui-lo.

Daniel acelerou o passo.

O carro também.

Ele entrou numa rua estreita.

O carro passou lentamente.

Por um instante, Daniel conseguiu ver o motorista.

Um homem.

Olhos fixos nele.

Daniel correu.

Dobrou uma esquina.

Quando olhou para trás, o carro havia desaparecido.

Seu coração batia violentamente.

Então ouviu uma voz:

- Você está atrasado.

Daniel virou-se.

Madalena estava parada debaixo de uma árvore.

A mesma mulher do quintal.

A mesma mulher que segurava o rato morto.

Dessa vez, porém, não havia rato em suas mãos.

- Como sabia que eu viria?

Madalena sorriu.

- Eu não sabia.

- Então?

- Estava esperando.

Daniel ficou desconfiado.

- Para onde vamos?

- Para a Casa dos Sete.

- Onde fica?

- Longe daqui.

- Quanto?

- O suficiente para que aqueles que estão procurando você não nos encontrem.

Daniel olhou para a estrada.

- Quem está me procurando?

Madalena começou a caminhar.

- Todos aqueles que têm medo do sangue Mucavele.

Daniel foi atrás dela.

- E por que querem a mim?

Ela não respondeu.

- Madalena.

A velha continuou andando.

- Porque você é o último.

Daniel parou.

- Último o quê?

Ela olhou para trás.

- Herdeiro.

________________________________________

A estrada

A viagem durou horas.

Madalena não explicou para onde estavam indo.

Daniel também não perguntou muito.

A estrada estava quase vazia.

As árvores passavam como sombras diante dos faróis.

De vez em quando, apareciam pequenas casas iluminadas por candeeiros.

Depois desapareciam novamente.

Daniel olhava pela janela.

Pensava na mãe.

No pai.

No livro.

No governador.

E na marca em sua mão.

A marca continuava ali.

Uma pequena cicatriz circular.

Às vezes ardia.

Às vezes parecia desaparecer.

Mas quando Daniel fechava os olhos, conseguia vê-la claramente.

- Você está com medo - disse Madalena.

Daniel olhou para ela.

- Não.

- Está.

- Como sabe?

- Porque todos os homens que entram no Círculo sentem medo.

Daniel ficou sério.

- Eu não entrei em nenhum Círculo.

- Ainda não.

- E se eu não quiser entrar?

Madalena demorou alguns segundos para responder.

- Então alguém entrará por você.

Daniel não entendeu.

- O que significa isso?

- Significa que o Círculo não precisa da sua permissão.

A estrada ficou silenciosa.

Depois de algum tempo, Daniel perguntou:

- Meu pai fazia parte?

- Sim.

- Minha mãe?

- Sim.

- E meu avô?

Madalena sorriu.

- Seu avô não fazia parte do Círculo.

Daniel franziu a testa.

- Então o que ele era?

A velha olhou pela janela.

- O homem que comandava o Círculo.

Daniel ficou em silêncio.

- Ele matou pessoas?

- Muitas.

- Quantas?

- O suficiente para que ninguém ousasse contar.

- Por dinheiro?

- Dinheiro era apenas uma parte.

- Então por quê?

Madalena olhou diretamente para ele.

- Salvador queria controlar tudo aquilo que pudesse.

Daniel sentiu um arrepio.

- Ele era um homem poderoso?

- Era.

- Rico?

- Muito.

- Político?

- Não precisava ser.

- Então como controlava as pessoas?

Madalena respondeu:

- Conhecia os segredos delas.

Daniel ficou pensando.

- Segredos?

- Todo homem tem alguma coisa que teme perder.

- E Salvador descobria essas coisas?

- Salvador fazia questão de descobrir.

Ela fez uma pausa.

- Alguns compravam a liberdade.

- E os outros?

Madalena não respondeu.

Daniel entendeu.

________________________________________

A Casa dos Sete

Quando chegaram, o céu começava a clarear.

A casa ficava isolada.

Era enorme.

Construída em pedra escura, cercada por árvores antigas.

Não havia outras casas próximas.

O portão de ferro estava enferrujado.

Acima dele havia sete círculos entrelaçados.

Daniel saiu do carro.

Olhou para a construção.

- É aqui?

- Sim.

- Quem mora aqui?

- Ninguém.

- Então por que viemos?

Madalena caminhou até o portão.

Colocou a mão sobre o símbolo.

O portão abriu.

Daniel ficou parado.

- Como fez isso?

- A casa reconhece o sangue.

Daniel sentiu a mão arder.

- Meu sangue?

Madalena olhou para ele.

- O sangue Mucavele.

Eles entraram.

O interior da casa era ainda mais estranho.

Não havia móveis modernos.

As paredes estavam cobertas por retratos antigos.

Daniel caminhou lentamente.

Reconheceu alguns sobrenomes.

Mucavele.

Nhamatanda.

Chivambo.

Sitoe.

Mabote.

Matsinhe.

E outro que não conhecia.

- Quem são essas pessoas?

- As sete famílias.

Daniel aproximou-se de um retrato.

Era uma mulher.

Muito jovem.

Mas o nome embaixo da pintura dizia:

Helena Mucavele - 1891.

Daniel ficou olhando.

- Ela morreu quando?

- Em 1964.

Daniel arregalou os olhos.

- Essa mulher viveu mais de setenta anos.

- Sim.

Ele olhou para outro retrato.

Um homem.

Salvador Mucavele - 1978.

Daniel aproximou-se.

Seu coração acelerou.

Era o avô.

Mas havia alguma coisa errada.

A pintura parecia recente.

- Por que ele parece tão jovem?

Madalena respondeu:

- Porque talvez tenha sido pintada ontem.

Daniel virou-se.

- O quê?

Madalena continuou andando.

- Venha.

Daniel ficou alguns segundos olhando para o retrato.

Depois a seguiu.

________________________________________

O salão subterrâneo

Desceram uma escada.

Depois outra.

Depois outra.

O ar ficou frio.

Finalmente chegaram a uma grande sala subterrânea.

Daniel parou.

No chão havia um enorme círculo desenhado em pedra.

Ao redor dele estavam sete cadeiras.

Seis estavam vazias.

Uma estava ocupada.

Daniel aproximou-se lentamente.

Um homem estava sentado.

Terno preto.

Cabelos grisalhos.

Olhar tranquilo.

Daniel parou.

O homem levantou a cabeça.

- Daniel.

A voz.

Daniel conhecia aquela voz.

Tinha ouvido em sonhos.

Deu um passo para trás.

- Quem é você?

O homem sorriu.

- Você sabe.

Daniel olhou para Madalena.

Ela permaneceu imóvel.

O homem levantou-se.

- Faz muito tempo.

Daniel não conseguia falar.

- Você cresceu.

- Salvador?

O homem abriu os braços.

- Seu avô.

Daniel sentiu as pernas enfraquecerem.

- Você está morto.

Salvador riu.

- É isso que sua família contou.

- Você não envelheceu.

- Algumas dívidas têm preços curiosos.

Daniel recuou.

- O que você quer de mim?

Salvador aproximou-se.

- Nada que você não queira dar.

- Não vou fazer parte disso.

- Parte de quê?

- Do Círculo.

Salvador olhou para as sete cadeiras.

- O Círculo existia antes de você nascer.

- E matou pessoas.

- Sim.

Daniel sentiu raiva.

- Você matou o governador?

Salvador ficou em silêncio.

Depois respondeu:

- Não.

Daniel ficou surpreso.

- Então quem matou?

Salvador sorriu.

- Você ainda pensa como uma pessoa comum.

- E você?

- Eu penso como alguém que conhece o preço do poder.

Daniel aproximou-se.

- O que aconteceu com o governador?

Salvador respondeu:

- Ele tentou revelar coisas que deveriam permanecer escondidas.

- Então alguém o matou.

- Sim.

- Quem?

Salvador olhou para Madalena.

- Pergunte a ela.

Daniel virou-se para a velha.

- Foi você?

Madalena não respondeu.

Salvador voltou a sentar-se.

- O governador era apenas uma peça.

- Peça de quê?

- De uma guerra que começou muito antes de você nascer.

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O livro dos mortos

Salvador apontou para uma mesa.

Havia um livro enorme sobre ela.

Daniel aproximou-se.

- Abra.

- O que é?

- A memória da nossa família.

Daniel abriu.

A primeira página tinha apenas uma frase:

"Todo poder exige uma dívida."

Ele virou a página.

Havia nomes.

Muitos nomes.

Centenas.

Alguns estavam riscados.

Outros tinham uma palavra ao lado:

PAGO.

Daniel começou a folhear.

Empresários.

Políticos.

Comerciantes.

Policiais.

Funcionários públicos.

Pessoas comuns.

- Por que existem tantos nomes?

Salvador respondeu:

- Porque todos eles deviam alguma coisa.

- Dinheiro?

- Alguns.

- O quê então?

- Silêncio.

Daniel parou.

- Silêncio?

Salvador assentiu.

- O Círculo comprava pessoas.

- E quando alguém recusava?

Salvador olhou para ele.

- Você já conhece a resposta.

Daniel fechou o livro.

- Eu não quero isso.

Salvador levantou-se.

- Ainda não.

- O que significa?

- Significa que você ainda acredita que poder é uma escolha.

Daniel encarou o avô.

- E não é?

Salvador aproximou-se.

- Poder é uma oportunidade.

- Para fazer o quê?

- Para nunca mais ser impotente.

Daniel ficou em silêncio.

A frase atingiu alguma coisa dentro dele.

Salvador percebeu.

- Você já sentiu isso.

- O quê?

- Impotência.

Daniel lembrou dos homens que o perseguiam.

Da mãe escondendo segredos.

Do pai mentindo.

Do governador morto.

- Você não sabe nada sobre mim.

Salvador sorriu.

- Sei mais do que imagina.

________________________________________

A investigação

Enquanto Daniel conhecia a Casa dos Sete, em Chimoio a polícia trabalhava durante toda a madrugada.

Mateus Nhamatanda estava diante das fotografias do governador e de Ernesto Mabote.

Sobre a mesa havia dois relatórios.

Duas mortes.

Duas cenas diferentes.

Mas o mesmo símbolo.

Mateus entrou na sala do investigador.

- Senhor, encontramos outra coisa.

- O quê?

O policial entregou um saco de evidências.

Dentro havia um pequeno pedaço de tecido branco.

- Encontramos isso na loja de Mabote.

Mateus examinou.

Havia três linhas negras bordadas.

- Onde exatamente?

- Debaixo do corpo.

Mateus ficou pensativo.

- E o dinheiro?

- Desapareceu.

- Documentos?

- Também.

- Família?

- Diz que não sabe de nada.

Mateus respirou fundo.

- Procurem todos os documentos antigos relacionados aos Mucavele.

O policial hesitou.

- Mucavele?

- Sim.

- Tem certeza?

Mateus olhou para ele.

- Você conhece esse nome?

- Meu avô falava deles.

- O que dizia?

O policial ficou pálido.

- Dizia para nunca mexermos com aquela família.

Mateus voltou a olhar para as fotografias.

- Então talvez seja exatamente isso que devemos fazer.

________________________________________

A mulher de branco

Na Casa dos Sete, Daniel ouviu um grito.

- O que foi isso?

Madalena não respondeu.

Outro grito.

Dessa vez mais distante.

Daniel correu pelo corredor.

- Espera!

Madalena foi atrás dele.

Chegaram a uma sala.

A porta estava aberta.

Dentro havia uma mulher.

Vestia branco.

Estava de costas.

Daniel perguntou:

- Quem é ela?

Madalena ficou séria.

- Não se aproxime.

A mulher começou a falar.

- O sangue voltou.

Daniel congelou.

- Quem é você?

A mulher virou-se.

Seu rosto estava coberto por um véu.

- O filho voltou.

- Filho de quem?

Ela respondeu:

- De Salvador.

Daniel olhou para o avô.

Salvador estava parado no corredor.

Pela primeira vez, seu rosto demonstrou preocupação.

- Saia daqui - ordenou.

A mulher riu.

- Você não pode escondê-lo para sempre.

- Saia!

As velas da sala apagaram-se.

Quando voltaram a acender...

A mulher havia desaparecido.

Daniel olhou para Salvador.

- Quem era ela?

Salvador respondeu:

- Um aviso.

- De quem?

Salvador não respondeu.

Madalena aproximou-se.

- O Círculo descobriu que você está aqui.

Daniel perguntou:

- E o que vão fazer?

Madalena olhou para Salvador.

- Vão tentar matar você.

Daniel ficou em silêncio.

Salvador aproximou-se.

- Agora entende por que precisa aprender?

Daniel sentiu medo.

Mas dessa vez havia outra sensação.

Uma sensação estranha.

Ele queria saber.

Queria entender.

Queria descobrir o que havia dentro dele.

- Se eu aprender... - disse Daniel.

Salvador sorriu.

- Sim?

Daniel olhou para a própria mão.

- Posso proteger minha família?

Salvador respondeu:

- Pode.

- Posso proteger a mim mesmo?

- Pode.

- Posso destruir quem tentar me matar?

Salvador demorou alguns segundos.

Então respondeu:

- Pode fazer muito mais do que isso.

Daniel levantou os olhos.

E naquele instante percebeu que estava diante da primeira grande escolha de sua vida.

Ele ainda tinha medo.

Mas o medo começava a transformar-se em curiosidade.

E a curiosidade começava a transformar-se em desejo.

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A mensagem

Antes de partir, Daniel voltou ao salão principal.

Olhou novamente para os sete retratos.

Agora percebia que havia algo estranho.

Todos os retratos tinham os olhos voltados para ele.

Madalena apareceu atrás dele.

- Está pronto?

Daniel não respondeu.

- Daniel?

Ele aproximou-se do retrato de Salvador.

Passou a mão sobre a pintura.

Atrás dela havia alguma coisa.

Um pequeno papel.

Daniel retirou.

Leu.

Seu rosto mudou.

"Não confie em Salvador."

Ele virou-se.

Madalena estava olhando para ele.

- Quem escreveu isso?

Ela respondeu:

- Seu pai.

Daniel ficou imóvel.

- Quando?

Madalena aproximou-se.

- Antes de tentar fugir do Círculo.

- Meu pai tentou fugir?

- Sim.

- E o que aconteceu?

Madalena olhou para o retrato de Salvador.

- Ele descobriu que fugir não era suficiente.

Daniel apertou o papel.

- Então por que ele nunca me contou?

Madalena respondeu:

- Porque alguém da sua família estava sempre observando.

Daniel sentiu um arrepio.

- Quem?

Madalena sorriu tristemente.

- Descubra sozinho.

Do andar de cima veio um barulho.

CRASH!

Todos olharam para o teto.

Depois outro.

CRASH!

Salvador gritou:

- Eles chegaram.

Daniel olhou para Madalena.

- Quem?

Salvador respondeu:

- Os Nhamatanda.

As portas da Casa dos Sete começaram a bater violentamente.

Daniel ouviu homens do lado de fora.

Depois ouviu um grito:

- SALVADOR!

Salvador sorriu.

- Finalmente.

As luzes apagaram-se.

E, no escuro, Daniel ouviu uma última frase:

- Bem-vindo à guerra, neto.

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