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Marcada pelo prazer

Marcada pelo prazer

Autor:: renata medeirosM
Gênero: História
Está com medo de que eu vá atacar a mulher, Eldridge? Admito a preferência por viúvas em minha cama. Elas são muito mais solícitas e decididamente menos complicadas do que virgens ou esposas de outros homens. Olhos cinzentos e inteligentes se ergueram da pilha de papéis em cima da escrivaninha de mogno.

Capítulo 1 Pequeno sorriso

Londres, abril de 1770

– Está com medo de que eu vá atacar a mulher, Eldridge? Admito a preferência

por viúvas em minha cama. Elas são muito mais solícitas e decididamente menos

complicadas do que virgens ou esposas de outros homens.

Olhos cinzentos e inteligentes se ergueram da pilha de papéis em cima da

escrivaninha de mogno.

– Atacar, Westfield? – a voz grave soava repleta de exasperação. – Aja com

seriedade, homem. Esta missão é muito importante para mim.

Marcus Ashford, o sétimo Conde de Westfield, desfez o sorriso malicioso que

escondia a sobriedade de seus pensamentos e soltou um pro-fundo suspiro:

– E você deve estar ciente de que isto é igualmente importante para mim. Nicholas,

o Lorde Eldridge, recostou-se em sua cadeira, pousou os cotovelos no apoio dos

braços e juntou os longos dedos finos formando uma concha com as mãos. Era um

homem alto e vigoroso, com um rosto marcado por muitas horas passadas no convés

de um navio. Tudo nele era prático, nada era supérfluo, desde o jeito de falar até a

estatura física. Ele exibia uma presença intimidante, com uma movimentada rua

londrina como cenário. O resultado era deliberada e altamente eficaz.

– Para ser franco, até este momento, não, eu não estava ciente. Eu queria explorar

suas habilidades com criptografia. Nunca imaginei que você poderia se voluntariar

para cuidar do caso.

Marcus devolveu o olhar penetrante mostrando sua firme determinação. Eldridge

era o chefe de um grupo de agentes de elite cujo único propósito era o de investigar

e caçar piratas e contrabandistas. Trabalhando sob a proteção da Marinha Real

Britânica, Eldridge era um homem extremamente poderoso. Se Eldridge recusasse

seu pedido para participar da missão, Marcus teria pouco a argumentar.

Mas não seria recusado. Não neste caso.

Com os músculos do maxilar apertados, ele disse:

– Não permitirei que você empregue outra pessoa. Se Lady Hawthorne está em

perigo, eu mesmo cuidarei da segurança dela.

Eldridge o cobriu com um olhar perceptivo:

– Qual a razão desse interesse tão impulsivo? Depois do que se passou entre

vocês, estou surpreso por você querer estar próximo dela. Não compreendo seus

motivos.

– Não possuo nenhum motivo oculto – ao menos, nenhum que estivesse disposto a

compartilhar. – Apesar de nosso passado, não quero que mal algum aconteça a ela.

– As ações dela o arrastaram para um escândalo que durou meses e que até hoje

ainda é discutido. Você sabe fingir muito bem, meu amigo, mas carrega cicatrizes. E,

talvez, algumas feridas abertas?

Permanecendo imóvel como uma estátua, Marcus manteve o rosto impassível e

teve dificuldades para conter o ressentimento que o corroía. Aquela dor era

profundamente pessoal e apenas dele. Não gostava quando tocavam nesse assunto.

– Você me considera incapaz de separar minha vida pessoal de minhas obrigações

profissionais?

Eldridge suspirou e balançou a cabeça:

– Muito bem. Não vou me intrometer.

– E nem me recusar neste trabalho?

– Você é o melhor homem que tenho. Foi apenas essa história que me fez hesitar,

mas, se você está confortável com a situação, então não tenho objeções. Porém,

aceitarei o pedido de substituição, se ela o quiser.

Assentindo, Marcus escondeu seu alívio. Elizabeth nunca solicitaria outro agente;

seu orgulho não iria permitir.

Eldridge começou a bater as pontas dos dedos:

– O diário que Lady Hawthorne recebeu estava endereçado a seu fa-lecido marido

e está escrito em código. Se o diário estiver envolvido em sua morte... – ele fez uma

pausa. – O Visconde Hawthorne investigava Christopher St. John quando conheceu

seu destino.

Marcus ficou estático ao ouvir o nome do famoso pirata. Não havia outro

criminoso que ele quisesse prender mais do que St. John, e essa hostilidade era algo

pessoal. Os ataques de St. John contra a Ashford Shippings foram seu ímpeto para

se juntar à agência.

– Se Lorde Hawthorne manteve um diário de suas atividades, e se St. John quiser

obter essas informações... mas que inferno! – suas entranhas se apertaram com a

ideia do pirata estar perto de Elizabeth.

– Exatamente – Eldridge concordou. – Na verdade, Lady Hawthorne já foi

informada sobre o diário desde que tomei conhecimento da situação, apenas uma

semana atrás. Para segurança dela, e para a nossa, o diário deve ser retirado de suas

mãos imediatamente, mas isso é impossível no momento. Ela foi instruída a entregá-

lo pessoalmente, por isso a necessidade de proteção.

– É claro.

Eldridge deslizou uma pasta pela escrivaninha.

– Aqui está a informação que juntei até o momento. Lady Hawthorne irá inteirá-lo

do resto durante o baile de Moreland.

Coletando os detalhes da missão, Marcus se levantou e deixou o recinto. Assim

que alcançou o corredor, ele permitiu que um sorriso de satisfação se curvasse em

seus lábios.

Marcus esteve a poucos dias de procurar Elizabeth. O fim do luto dela significava

que a espera interminável havia acabado. Embora a questão do diário fosse

perturbadora, a situação estava a seu favor, tornando impossível que ela o evitasse.

Depois da maneira escandalosa como ela o abandonou há quatro anos, Elizabeth não

ficaria nada satisfeita com a nova aparição de Marcus em sua vida. Mas também não

recorreria a Eldridge, disso ele tinha certeza.

Em breve, muito em breve, tudo o que ela um dia prometera e depois negara seria

finalmente dele.

Capítulo 1

Marcus avistou Elizabeth antes mesmo de pisar no salão do Moreland. Preso na

escadaria enquanto colegas e dignitários queriam cumprimentá-lo, ele se perdeu

completamente no breve instante em que a vislumbrou.

Ela estava ainda mais encantadora do que antes. Como isso era possível, Marcus

não sabia. Ela sempre fora exuberante. Talvez a distância tenha tornado seu coração

ainda mais afeiçoado.

Um pequeno sorriso irônico surgiu em seus lábios. Obviamente, Elizabeth não

compartilhava os mesmos sentimentos. Quando seus olhos se encontraram, ele

permitiu que seu prazer em vê-la se mostrasse em seu rosto. Em resposta, ela ergueu

o queixo e desviou o olhar.

Elizabeth o esnobou deliberadamente.

Foi um golpe direto, perfeitamente executado, mas incapaz de tirar sangue. Ela já

havia provocado a laceração mais grave anos atrás, deixando--o imune a novas

agressões. Marcus ignorou seu descaso com facilidade. Nada poderia alterar o

destino deles, por mais que ela desejasse o contrário.

Ele havia servido por anos como agente da Coroa, e nesse tempo levou uma vida

que rivalizaria com qualquer romance melodramático. Enfrentou inúmeros duelos de

espada, foi atingido por dois tiros e se esquivou de mais disparos de canhão do que

poderia contar. No processo, perdera três de seus próprios navios e afundara meia

dúzia de outros antes de ser forçado a permanecer na Inglaterra devido às obrigações

de seu título de nobreza. Ainda assim, a única coisa que lhe fazia sentir uma súbita

explosão de adrenalina era estar na presença de Elizabeth.

Avery James, seu parceiro, chegou ao seu lado quando ficou óbvio que Marcus

estava paralisado no lugar.

– Aquela é a Viscondessa Hawthorne, meu senhor – ele apontou com um leve

movimento do queixo. – Está de pé à direita, na beira da pista de dança, usando um

vestido púrpura de seda. Ela é...

– Sei quem ela é.

Avery o olhou, surpreso:

– Não sabia que vocês se conheciam.

Os lábios de Marcus, conhecidos por habilmente encantar as mulhe-res, curvaram-

se em óbvia antecipação:

– Lady Hawthorne e eu somos... velhos amigos.

– Entendo – Avery murmurou, franzindo a testa e indicando o contrário do que

dissera.

Marcus pousou a mão no ombro do amigo:

– Vá em frente, Avery, enquanto lido com estas pessoas, mas deixe que eu cuido

de Lady Hawthorne.

Avery hesitou por um momento, então, assentiu relutantemente e seguiu para o

salão, desviando da pequena multidão que cercava Marcus.

Acalmando sua irritação com os convidados importunos bloqueando seu caminho,

Marcus laconicamente se engajou nos cumprimentos e perguntas direcionadas a ele.

Esse tipo de tumulto era a razão pela qual não gostava desses eventos. As pessoas

que não tinham a iniciativa de procurá-lo em horário comercial sentiam-se livres

para abordá-lo num ambiente social mais relaxado. Mas ele nunca misturava

negócios com prazer. Ao menos, essa era sua regra até esta noite.

Elizabeth seria a exceção. Como sempre fora.

Girando seu monóculo, Marcus observou enquanto Avery atravessava com

facilidade a multidão e seu olhar logo recaiu novamente para a mulher que deveria

proteger. Tomou um gole diante de sua visão como se fosse um homem sedento.

Elizabeth nunca gostou de perucas e não usava uma nesta noite, como a maioria

das outras mulheres. O efeito das plumas brancas contrastando com seus cabelos

escuros era de tirar o fôlego, atraindo fatalmente todos os olhares em sua direção.

Quase negros, seus cabelos emolduravam olhos tão incrivelmente coloridos que até

lembravam o esplendor de ametistas.

Aqueles olhos encontraram os dele por apenas um momento, mas o choque de seu

magnetismo permanecia, a atração era inegável. Isso o impelia à frente, despertando-

o no mesmo nível primitivo de sempre, como a mariposa e a chama. Apesar do

perigo de se queimar, ele não podia resistir.

Ela tinha um jeito próprio de olhar para os homens com aqueles olhos incríveis.

Marcus quase acreditou que era o único homem no salão, que todos haviam

desaparecido e não havia nada entre onde ele estava preso na escadaria e onde ela

esperava do outro lado do salão.

Imaginou cruzar a distância entre eles, puxá-la em seus braços e levar sua boca à

dela. Sabia que seus lábios, tão eróticos no formato e na espessura, iriam se derreter

em seu beijo. Queria percorrer com a boca sua delicada garganta e lamber entre os

vales de seu peito. Queria mergulhar em seu corpo exuberante e saciar sua fome

infinita, uma fome que se tornara tão poderosa que quase o levara à loucura.

Um dia, ele quisera tudo – seus sorrisos, sua risada, o som de sua voz, a visão do

mundo por meio de seus olhos. Agora, sua necessidade era mais básica. Marcus não

se permitia mais do que isso. Queria sua vida de volta, a vida livre de sofrimento,

raiva e noites em claro. Foi Elizabeth quem roubou essa vida e também seria ela

quem a devolveria.

Seu queixo se apertou. Era chegada a hora de cruzar a distância entre eles.

Apenas um olhar foi suficiente para abalar seu autocontrole. O que

aconteceria quando a tivesse em seus braços?

Elizabeth, Viscondessa de Hawthorne, ficou parada por um longo momento em

estado de choque, sentindo um calor se espalhar por seu rosto.

Seu olhar cruzou com o homem na escadaria por apenas um instante, e, ainda

assim, durante esse breve momento, seu coração acelerou a um ritmo alarmante.

Sentiu-se paralisada com a beleza masculina de seu rosto que, por sua vez, mostrava

claramente o contentamento em vê-la mais uma vez. Surpreendida e assustada com

sua própria reação ao encontrá-lo após tantos anos, Elizabeth forçou-se a cortá-lo e a

desviar o olhar com um desprezo altivo.

Marcus, atual Conde de Westfield, ainda era magnífico. Ele continuava a ser o

homem mais bonito que já encontrara. Quando seus olhares se cruzaram, ela sentiu a

eletricidade passar entre eles como uma força tangível. Uma intensa atração sempre

existiu entre os dois, e Elizabeth ficou profundamente perturbada ao perceber que

ela não diminuíra nem um pouco.

Depois do que ele fizera, Marcus deveria desprezá-la.

Elizabeth sentiu um toque em seu ombro, trazendo-a de volta ao presente. Ela se

virou e encontrou George Stanton ao seu lado, observando--a com preocupação:

– Está se sentindo bem? Parece um pouco corada.

Ela ajeitou a renda na manga do vestido para disfarçar sua inquietude:

– Está calor aqui dentro – abrindo seu leque, ela se abanou rapidamente para

refrescar o rosto.

– Acho que uma bebida é uma boa ideia – George ofereceu e ela retribuiu sua

gentileza com um sorriso.

Assim que ele partiu, Elizabeth voltou sua atenção para o grupo de cavalheiros

que a cercava.

– O que estávamos discutindo mesmo? – ela perguntou a ninguém em particular.

A bem da verdade, ela não havia prestado atenção na conversa pela maior parte da

última hora.

Thomas Fowler respondeu:

– Estávamos discutindo o Conde de Westfield – ele fez um gesto em direção a

Marcus. – Estamos surpresos com sua presença. O Conde é conhecido por sua

aversão a eventos sociais.

– De fato – ela fingiu indiferença enquanto as palmas de suas mãos se emudeciam

dentro das luvas. – Eu esperava que a predileção do Conde se fizesse verdade nesta

noite, mas pelo visto não tive tanta sorte.

Thomas se ajeitou, com o semblante revelando seu desconforto:

– Minhas desculpas, Lady Hawthorne. Tinha me esquecido de sua antiga

associação com o Lorde Westfield.

Ela riu suavemente:

– Não é preciso se desculpar. Sinceramente, eu agradeço. Estou certa de que você

é a única pessoa em Londres que teve a sensibilidade de esquecer esse assunto. Não

dê atenção a ele, senhor Fowler. O Conde tinha pouca importância para mim na

época, e hoje possui menos ainda.

Elizabeth sorriu enquanto George retornava com seu drinque e os olhos dele se

acenderam de prazer quando ela lhe agradeceu.

Enquanto a conversa ao seu redor continuava, Elizabeth lentamente se

reposicionou para assegurar vislumbres furtivos da movimentação de Marcus pela

escadaria lotada. Era óbvio que sua reputação libidinosa não havia afetado seu

poder e influência. Mesmo no meio de uma multidão, sua presença era irresistível.

Vários cavalheiros de alta estima corriam para cumprimenta -lo em vez de esperar

que ele descesse até o térreo do salão. Mulheres, vestidas em ofuscantes arranjos de

cores e rendas excessivas, flutuavam dissimuladamente em direção à escadaria. O

fluxo de admiradores movendo-se até ele mudava o equilíbrio de todo o salão. Em

sua defesa, Marcus parecia indiferente para toda a bajulação que lhe direcionavam.

Descendo para o salão, ele se movia com a arrogância casual de um homem que

sempre conseguia exatamente o que desejava. A multidão ao redor tentava pará-lo

constantemente, porém, Marcus conseguia driblar a todos com facilidade. Ele

cumprimentava alguns com atenção, outros sem cerimônia, e para alguns apenas

erguia a mão imperiosamente. Comandava as pessoas ao seu redor com a pura força

de sua personalidade e elas ficavam felizes em obedecê-lo.

Sentindo o quanto ela própria se inquietava com sua aproximação, seus olhares se

cruzaram novamente. Os cantos da boca generosa dele se ergueram quando

compartilharam a percepção um do outro. O brilho nos olhos dele e o calor de seu

sorriso prometeram o que ele, como um homem, jamais poderia manter.

Havia uma aura de solidão sobre Marcus e uma energia incansável em seus

movimentos que não existiam há quatro anos. Eram sinais de alerta, e Elizabeth tinha

toda a intenção de se prevenir contra eles.

George olhou facilmente sobre ela para analisar a cena:

– Pelo visto, Lorde Westfield está vindo em nossa direção.

– Tem certeza, senhor Stanton?

– Sim, milady. Westfield está me encarando diretamente neste exato momento.

Ela sentiu a tensão se acumular na boca do estômago. Marcus pratica-mente se

congelara quando seus olhos se encontraram pela primeira vez e o segundo olhar

fora ainda mais perturbador. Ele se aproximava rapidamente e ela não tinha tempo

para se preparar. George baixou os olhos para Elizabeth enquanto ela voltava a se

abanar furiosamente.

Maldito Marcus por aparecer justo hoje! Seu primeiro evento social de-pois de

três anos de luto e ele infalivelmente a procura em questão de horas após sua

reaparição, como se tivesse esperado impacientemente nesses últimos anos por este

exato momento. Mas ela sabia muito bem que isso estava longe de ser o caso.

Enquanto permaneceu reclusa devido a seu período de luto, Marcus certamente

esteve cuidando de sua escandalosa reputação frequentando muitos quartos de

senhoras.

Após a maneira dolorosa como ele partiu seu coração, Elizabeth o desprezaria em

qualquer circunstância, principalmente nesta noite. Ela não estava ali para aproveitar

a vida social. Estava esperando por um homem com quem se encontraria

secretamente. Nesta noite, ela se dedicaria à memória de seu marido. Elizabeth faria

justiça para Hawthorne e seria testemunha de sua retaliação.

A multidão no salão se abria relutantemente à frente de Marcus e então se

reagrupava em seu rastro, com os movimentos do mar de pessoas anunciando seu

progresso. E então, lá estava Westfield, diante de Elizabeth. Ele sorriu e o pulso dela

acelerou. A tentação de fugir dali era grande, mas o momento em que ela poderia

fazer isso discretamente havia passado num piscar de olhos.

Endireitando os ombros, Elizabeth respirou fundo. A taça em sua mão começou a

tremer e ela rapidamente tomou o resto da bebida para evitar derramá-la por todo

seu vestido. Passou a taça vazia para George sem nem mesmo olhar o que fazia.

Marcus apanhou sua mão antes que ela pudesse puxá-la de volta.

Curvando-se com um sorriso charmoso, ele não desfez o contato visual em

nenhum momento.

– Lady Hawthorne. Deslumbrante como sempre – sua voz era grave e afetuosa,

lembrando-a de veludo macio. – Seria tolice esperar que me conceda uma dança?

A mente de Elizabeth começou a correr, tentando descobrir um jeito para recusar.

Sua energia viril, potente até mesmo do outro lado do salão, era arrebatadora

estando tão próximos.

– Não pretendo dançar esta noite, Lorde Westfield. Pergunte a qual-quer

cavalheiro ao nosso redor.

– Não tenho intenção alguma de dançar com eles – Marcus disse ironicamente –,

então, a opinião deles sobre o assunto não é importante.

Ela começou a se opor quando percebeu o desafio em seu olhar. Ele sorria com

um divertimento diabólico, visivelmente desafiando Elizabeth a prosseguir, e então

ela fez uma pausa. Não lhe daria a satisfação de pensar que estava com medo de

dançar com ele.

– Bem, se insiste, podemos dançar a próxima música, Lorde Westfield. Ele se curvou

graciosamente com um olhar aprovador, oferecendo o braço a ela e conduzindo-a

para a pista de dança. Quando os músicos começaram a tocar e a música tomou

conta do salão, as belas filas do

minueto se formaram.

Virando-se, Marcus estendeu o braço em sua direção. Ela pousou a mão sobre a

dele, aliviada por usar as luvas que separavam suas peles. O salão se iluminava com

velas, que o cobriram com uma luz dourada e chamavam a atenção de Elizabeth para

a força de seus ombros flexiona-dos. Disfarçando o olhar, ela o analisou em busca

de sinais de mudanças.

Marcus sempre fora um homem com um físico espetacular, praticando uma série

de esportes e atividades. Se fosse possível, parecia que estava ainda mais forte e

mais formidável. Ele era todo poder, e Elizabeth achou graça de sua velha

ingenuidade ao pensar que poderia domá-lo. Graças a Deus, ela não era mais tão

tola.

Seu único atributo suave era seu cabelo voluptuosamente castanho. Brilhava

como um casaco de pele e ficava preso à altura da nuca com um único laço preto.

Até mesmo seu olhar esverdeado era ardente, brilhando com uma inteligência

impetuosa. Ele possuía uma mente sagaz para a qual a dissimulação era apenas um

simples jogo, como ela própria aprendera a um custo muito alto para seu coração e

orgulho.

Elizabeth esperava encontrar sinais de envelhecimento próprios de quem leva uma

vida indulgente, mas seu belo rosto não mostrava nada disso. Pelo contrário, exibia a

aparência bronzeada de um homem que passava a maior parte do tempo ao ar livre.

Seu nariz era fino e aquilino sobre lábios cheios e sensuais. No momento, os lábios

estavam curvados em um dos lados, formando um meio-sorriso que era ao mesmo

tempo juvenil e sedutor. Ele ainda era perfeitamente bonito desde o topo da cabeça

até a sola dos pés. Marcus a observava enquanto ela o analisava, totalmente ciente

de que não podia deixar de admirar sua beleza. Ela baixou os olhos e os grudou

decididamente em seu colarinho.

A fragrância que ele exalava envolveu seus sentidos. Era um aroma

maravilhosamente masculino, numa mistura de sândalo, frutas cítricas e a própria

essência única de Marcus. O calor da pele dela se derramou por dentro de seu

corpo, misturando-se com sua apreensão.

Lendo seus pensamentos, Marcus inclinou a cabeça em sua direção. Quando

soltou a voz, seu tom era grave e rouco:

– Elizabeth. É um prazer imenso e longamente aguardado estar mais uma vez em

sua companhia.

– O prazer é inteiramente seu, Lorde Westfield.

– Você costumava me chamar de Marcus.

– Para mim, já não é mais adequado tratá-lo de maneira tão informal, milorde.

Sua boca mostrou um sorriso pecaminoso:

– Digo que você pode agir inadequadamente comigo sempre que quiser. Na

verdade, sempre adorei seus momentos inadequados.

– Você teve muitas outras mulheres com quem compartilhar tais momentos.

– Nunca, meu amor. Você sempre foi única e distinta de todas as outras mulheres.

Elizabeth já tivera sua cota de canalhas e tratantes, mas a confiança cega e o estilo

forçosamente íntimo deles sempre a deixavam indiferente. Porém, Marcus era tão

habilidoso ao seduzir uma mulher que sempre conseguia emanar uma aura de

completa sinceridade. Ela havia acredita-do no passado em cada declaração de amor

e devoção que saía dos lábios dele. Mesmo agora, o jeito como a olhava com um

desejo represado parecia tão genuíno que ela quase acreditou.

Ele a fez querer esquecer o tipo de homem que era – um sedutor sem coração.

Mas o corpo dela não a deixava esquecer. Sentia-se febril e com uma leve tontura.

– Três anos de luto – ele disse, com um toque de amargura na voz. – Estou

aliviado por ver que a dor da perda não arruinou injustamente sua beleza. Na

verdade, você está ainda mais bela do que a última vez em que estivemos juntos.

Você se lembra da ocasião, não é?

– Vagamente – ela mentiu. – Há muito anos não penso nisso. Imaginando se

suspeitava de sua mentira, ela o estudou quando tro-

caram os parceiros. Marcus irradiava uma aura inata de magnetismo sexual. A

maneira como se movia, a maneira como falava, a maneira como cheirava – tudo

isso alardeava poderosas energias e apetites. Elizabeth sentiu o poder mal represado

que ele escondia debaixo da superfície e precisou relembrar o quanto ele podia ser

perigoso.

Sua voz se derramou sobre ela com um calor líquido quando os passos do

minueto a levaram de volta a seus braços.

– Estou sentido por você não estar contente em me ver, principalmente por eu ter

enfrentado este evento miserável apenas para estar com você.

– Ridículo – ela zombou. – Você não poderia saber que eu estaria aqui hoje. Seja

qual for seu propósito para ter vindo ao baile, por favor, prossiga com isso e me

deixe em paz.

Sua voz soou perigosamente suave:

– Meu propósito é você, Elizabeth.

Ela o encarou por um momento, sentindo o estômago revirar com um desconforto

crescente.

– Se meu irmão nos flagrar juntos, ele ficará furioso.

Marcus fechou o rosto de um modo que a fez estremecer. No passado, ele e

William foram melhores amigos, mas o fim de seu noivado trouxe também o fim da

amizade. De todas as coisas das quais ela se arrependia, essa era a maior delas.

– O que você quer? – ela perguntou, após ele permanecer em silêncio.

– O cumprimento de sua promessa.

– Que promessa?

– Sua pele contra a minha, sem mais nada entre nós.

– Você está louco – ela respirava com dificuldade. Então, Elizabeth estreitou os

olhos. – Não brinque comigo. Pense em todas as mulheres que estiveram em sua

cama desde que nos separamos. Eu fiz um favor ao libertá-lo...

Elizabeth ofegou quando as mãos enluvadas dele apertaram seus de-dos com uma

força imensa.

Com olhos sombrios, ele disse entre os dentes:

– Você me fez muitas coisas quando quebrou sua promessa. E um favor não foi

uma delas.

Chocada com sua veemência, ela tentou se desvencilhar.

– Você sabia como eu me sentia com relação à fidelidade e o quanto eu desejava

isso. Você nunca poderia ter sido o tipo de marido que eu queria.

– Eu era exatamente o que você queria, Elizabeth. Você me queria com tanta força

que acabou se assustando com isso.

– Isso não é verdade! Não tenho medo de você!

– Se tivesse algum juízo, você teria sim medo de mim – ele murmurou. Ela teria

respondido, mas os passos da dança os separaram novamen-

te. Marcus abriu um sorriso brilhante para a mulher com quem trocava passos e

Elizabeth apertou os dentes. Pelo resto da dança, não trocaram mais nenhuma

palavra, mesmo depois de ele ter jogado seu charme para todas as mulheres com

quem dançou.

A mão de Elizabeth queimava por causa do toque de Marcus e a pele corava sob

o calor de seu olhar. Ele nunca escondera a ruidosa sexualidade de sua natureza. Ao

invés disso, ele a encorajava a libertar a sua própria. Ele lhe oferecera o melhor de

dois mundos – a respeitabilidade de sua posição e a paixão de um homem que podia

transformar seu sangue em fogo – e ela acreditou que ele poderia fazê-la feliz.

Como fora ingênua. Considerando sua família, esperava que fosse mais esperta.

No momento em que a dança acabou, Elizabeth deixou a pista com passos

rápidos. Um braço levemente erguido chamou sua atenção e ela sorriu ao ver Avery

James. Sentiu a mente clarear, sabendo imediata-mente que ele era o homem pelo

qual estava esperando. Avery apenas compareceria a um evento como este sob as

ordens de Lorde Eldridge.

Eldridge a assegurou de que, como viúva de um de seus mais confiáveis agentes,

ela poderia sempre contar com ele. Avery foi então selecionado para ser o homem a

quem ela deveria contatar. Apesar de sua aparência cínica que denotava uma pessoa

gasta pela experiência, ele era de fato um homem gentil e atencioso que foi

indispensável a ela nos primeiros meses após a morte de Hawthorne. Avistá-lo a fez

relembrar de sua razão para estar ali.

Elizabeth apertou os passos quando, atrás dela, Marcus chamou por seu nome.

– A dança que você pediu já terminou, Westfield – ela disse sobre os ombros. –

Você está livre para aproveitar sua merecida reputação e buscar a atenção de suas

admiradoras.

Ela esperava que ele entendesse o óbvio. Ela não iria mais encontrá-lo, qualquer

que fosse o preço.

Marcus observou Elizabeth andar graciosamente em direção a Avery. Pelas costas,

ele não precisava mais esconder seu sorriso. Ela o acertou diretamente. Mais uma

vez.

Porém, sua doce Elizabeth logo descobriria que não seria tão fácil livrar-se dele.

Capítulo 2 Obsessão

Senhor James – Elizabeth o cumprimentou com uma afeição genuína.

– É um prazer revê-lo – ela estendeu as mãos, que foram prontamente envoltas pelas

mãos muito maiores de Avery, cujo rosto se acendeu num raro sorriso. De braços

dados, ele a conduziu pelas portas francesas até um átrio interior.

Ela apertou seu braço:

– Pensei que talvez eu tivesse chegado tarde demais para meu compromisso.

– Não diga isso, Lady Hawthorne – ele respondeu com uma bondade áspera. – Eu

teria esperado a noite toda.

Inclinando a cabeça para trás, Elizabeth respirou fundo o ar exuberantemente

perfumado. A inebriante fragrância dentro do vasto espaço aberto era um alívio

prazeroso e muito bem-vindo depois dos cheiros de fumaça e cera queimada, talcos

e perfumes fortes que tomavam conta do salão.

Enquanto eles andavam casualmente pelos caminhos, Elizabeth se virou para

Avery e perguntou:

– Imagino que você seja o agente designado a me ajudar, estou correta? Ele sorriu:

– Sim, serei o parceiro de outro agente nesta missão.

– É claro – sua boca se curvou num lamento. – Vocês sempre trabalham em pares,

não é? Igual a Hawthorne e meu irmão.

– Essa maneira funciona bem, milady, e já salvou vidas. Seus passos se tornaram

hesitantes. Salvou algumas vidas.

– Lamento a existência da agência, senhor James. O casamento de William e a

subsequente renúncia é uma bênção pela qual eu agradeço. Ele quase morreu na

noite em que perdi meu marido. Aguardo ansiosa-mente o dia em que a agência não

fará mais parte da minha vida.

– Faremos o possível para resolver isso com a maior rapidez – ele a assegurou.

– Sei que farão – ela suspirou. – Estou contente por você ser um dos agentes que

Lorde Eldridge escolheu.

Avery apertou sua mão.

– Estou grato pela oportunidade de encontrá-la novamente. Já faz vários meses

desde nosso último encontro.

– Já se passou tanto tempo? – ela perguntou, franzindo a testa. – Estou perdendo a

noção do tempo.

– Gostaria de poder dizer o mesmo... – uma voz familiar vinda de trás os

interrompeu. – Infelizmente, os últimos quatro anos foram uma eternidade para mim.

Elizabeth ficou tensa, seu coração parou por um momento antes de as batidas

começarem a acelerar.

Avery virou os dois para encararem o visitante:

– Ah, aqui está meu parceiro. Soube que você e Lorde Westfield são velhos

conhecidos. Espero que tal circunstância fortuita possa apressar as coisas.

– Marcus – ela sussurrou, arregalando os olhos quando a razão de sua presença a

atingiu como um golpe físico.

Ele fez uma reverência:

– Aos seus serviços, madame.

Os joelhos de Elizabeth fraquejaram e Avery apertou a mão para estabilizá-la.

– Lady Hawthorne?

Marcus a alcançou com duas passadas:

– Não desmaie, meu amor. Respire fundo.

Parecia uma tarefa impossível enquanto ofegava como um peixe fora d'água,

repentinamente sentindo todo o aperto do espartilho. Ela fez um gesto para que ele

se afastasse, pois sua mera aproximação e o aroma de sua pele dificultavam ainda

mais o trabalho de seus pulmões.

Elizabeth observou quando Marcus lançou um olhar sério para Avery, que por sua

vez se virou e foi embora, fingindo interesse nas folhas de uma distante samambaia.

Sentindo um pouco de tontura, mas já se recuperando, Elizabeth balançou a

cabeça rapidamente:

– Marcus, você realmente perdeu o juízo.

– Ah, já está se sentindo melhor – ele disse pausadamente, com um tom de ironia

na voz.

– Vá se divertir com outra pessoa. Recuse esta missão. Deixe a agência.

– Sua preocupação é comovente, porém, confusa, considerando seu desprezo pelo

meu bem-estar no passado.

– Guarde seu sarcasmo para outro dia – ela respondeu irritada. – Não tem noção

de onde está se metendo? É perigoso trabalhar para Lorde Eldridge. Você pode se

machucar. Ou ser morto.

Marcus soltou um longo suspiro:

– Elizabeth, você está nervosa demais.

Ela o olhou com olhos cerrados e depois vislumbrou Avery, que permanecia

estudando a samambaia. Então, baixou a voz:

– Desde quando você é um agente? O queixo de Marcus se apertou:

– Quatro anos.

– Quatro anos? – Ela tropeçou para trás. – Você já era um agente quando

começou a me cortejar?

– Sim.

– Maldito seja – sua voz não era mais do que um sussurro aflito. – Quando

esperava relevar isso a mim? Ou eu nunca deveria saber até que você voltasse para

casa num caixão?

Marcus fechou o rosto e cruzou os braços.

– Não vejo a importância disso agora.

Ela endureceu o corpo diante do tom gélido de sua voz.

– Todos esses anos eu temia abrir o jornal e encontrar o anúncio de seu

casamento. Mas agora entendo que o que eu deveria temer era encontrar seu

obituário. – virando-se, Elizabeth levou a mão ao coração acelerado: – Como

gostaria que você tivesse permanecido longe, muito longe de mim – tomando a saia

com as mãos, ela começou a correr: – Juro por Deus que gostaria de nunca tê-lo

conhecido.

As batidas do sapato dele no chão de mármore foram o único alerta antes de seu

cotovelo ser agarrado e seu corpo, virado.

– O sentimento é mútuo – ele grunhiu.

Marcus se agigantou sobre ela, sua boca sensual tensa de raiva, seu olhar

brilhando com algo que a fazia tremer.

– Como Lorde Eldridge pôde escolher você para mim? – ela lamentou. – E por

que você aceitou?

– Fui eu quem insistiu para ser o escolhido nesta missão.

Ao ver sua surpresa, os lábios dele se apertaram ainda mais:

– Não se engane. Você fugiu de mim uma vez. Não permitirei que aconteça de

novo – ele a puxou mais para perto e o ar entre eles quase sumiu. Sua voz se tornou

séria: – Não me importo se você se casar com o próprio rei desta vez. Você será

minha.

Ela tentou se desvencilhar, mas ele segurava firme.

– Meu Deus, Marcus. Já não causamos tristeza suficiente um ao outro?

– Ainda não – ele a empurrou, como se a proximidade dela fosse desagradável. –

Agora, vamos tratar desse assunto a respeito de seu falecido marido para que Avery

possa se retirar.

Tremendo, Elizabeth dirigiu-se rapidamente em direção a Avery. Marcus a seguiu

com a graça predatória de um felino selvagem.

Não havia dúvida de que era ela quem estava sendo caçada. Elizabeth parou ao

lado de Avery e respirou fundo antes de se virar. Marcus a observava com uma

expressão indecifrável.

– Soube que recebeu um livro escrito por seu falecido marido – ele esperou pela

confirmação silenciosa dela. – Sabe quem foi o remetente?

– A caligrafia no pacote era de Hawthorne. Obviamente foi endereça-do algum

tempo atrás, o papel do embrulho estava amarelado e a tinta, desbotada – ela havia

passado dias tentando entender aquele pacote, incapaz de determinar sua origem ou

propósito.

– Seu marido endereçou um pacote para si mesmo que chegou três dias após seu

assassinato – Marcus estreitou os olhos. – Por acaso ele deixou algum grille1, algum

cartão com furos estranhos, qualquer coisa escrita que pareceu incomum?

– Não, nada – ela retirou da bolsa um fino diário e a carta que recebera apenas

alguns dias atrás. Entregou os dois a Marcus.

Após uma breve análise, ele guardou o diário dentro do casaco e passou os olhos

pela carta, juntando as sobrancelhas conforme prosseguia com a leitura.

– Na história da agência, apenas o assassinato de Lorde Hawthorne permanece um

mistério. Eu tinha esperança de te envolver o mínimo possível neste caso.

– Farei o que for necessário – ela ofereceu rapidamente. – Hawthorne merece

justiça, e se meu envolvimento for requisitado, então que seja – ela faria qualquer

coisa para acabar com isso.

Marcus dobrou a missiva cuidadosamente:

– Não gosto de expô-la ao perigo.

Com as emoções à flor da pele, Elizabeth retrucou:

– Então você quer me proteger expondo a si mesmo? Tenho muito mais interesse

no resultado desta missão do que você ou a sua preciosa agência.

Marcus rugiu o nome dela como alerta.

Avery limpou a garganta fazendo um som alto:

– Parece que vocês dois não trabalharão bem juntos. Sugiro levar essa dificuldade

para Lorde Eldridge. Estou certo de que existem outros agentes que...

– Não! – a voz de Marcus estalou como um chicote.

– Sim! – Elizabeth quase desabou de alívio. – Uma excelente sugestão – seu

sorriso era sincero. – Certamente Lorde Eldridge entenderá a razão desse pedido.

– Fugindo novamente? – Marcus provocou.

Ela o encarou:

1 O método grille foi desenvolvido pelo cardeal francês Richelieu, no século XVI.

Seu propósito era criar mensagens secretas que poderiam ser decifradas somente

com um cartão especial cheio de furos em lugares estratégicos. (N. T.)

– Estou sendo prática. Você e eu obviamente não podemos nos associar um ao

outro.

– Prática – ele deu uma risada irônica. – Você quis dizer que está sendo covarde.

– Lorde Westfield! – Avery franziu as sobrancelhas.

Elizabeth ergueu a mão.

– Deixe-nos por um momento, senhor James. Por favor – seus olhos

permaneceram grudados no rosto de Marcus enquanto Avery hesitava.

– Ouça a mulher – Marcus murmurou, encarando-a de volta.

Avery resmungou, então girou o corpo e se afastou contrariado. Elizabeth foi

direto ao assunto:

– Se eu for forçada a trabalhar com você, Westfield, eu simplesmente me

recusarei a compartilhar qualquer informação com a agência. Resolverei a situação

sozinha.

– De jeito nenhum! – os músculos do maxilar de Marcus começaram a se apertar.

– Não permitirei que você se exponha ao perigo. Tente algo tolo e verá o que

acontece. Eu lhe asseguro de que não gostará do resultado.

– É mesmo? – ela zombou, recusando-se a se acovardar diante de uma fronte que

assustava a maioria dos homens. – E como você acha que irá me impedir?

Marcus se aproximou ameaçadoramente:

– Sou um agente da Coroa...

– Você já disse isso.

– ... em uma missão especial. Se apenas pensar em prejudicar a missão, irei

considerar suas ações como traição e as tratarei como tal.

– Você não se atreveria! Lorde Eldridge não permitiria.

– Oh, mas eu faria, e ele não me impediria – Marcus parou bem em frente a ela. –

É provável que este livro seja um diário das atividades de Hawthorne e pode estar

relacionado à sua morte. Se for o caso, você está em perigo. Eldridge não irá tolerar

isso mais do que eu.

– E por que não? – ela o desafiou. – Seus sentimentos em relação a mim estão

óbvios.

Ele chegou ainda mais perto, até que a ponta de seus sapatos desaparecesse

debaixo da saia dela:

– Aparentemente não é verdade. Porém, se quiser mesmo, apresente seu caso para

Eldridge. Diga a ele o quanto você fica abalada na minha presença e o quanto ainda

me deseja. Conte a ele todo nosso sórdido passado e como nem mesmo a memória

de seu querido esposo falecido é capaz de fazê-la superar seu desejo.

Ela o observou, e então sua boca se abriu quando uma risada seca escapou.

– Sua arrogância é impressionante – Elizabeth se virou, escondendo a tremedeira

em suas mãos. Ele que ficasse com o maldito diário. Ela procuraria Eldridge logo

pela manhã.

A risada zombeteira de Marcus a seguiu:

– Minha arrogância? É você quem pensa que é tudo por causa disso. Elizabeth parou

e olhou para trás:

– Você fez disso uma questão pessoal com suas ameaças.

– Você e eu nos tornando amantes não é uma ameaça. É uma conclusão que

possui antecedentes e que nada tem a ver com o diário de seu marido – ele ergueu a

mão quando ela tentou argumentar. – Poupe seu fôlego. Esta missão é importante

para Eldridge. Insisti em participar só por causa disso. Levá-la para minha cama não

requer que eu trabalhe com você.

– Mas... – ela fez uma pausa, lembrando-se do ele falara anteriormente. Marcus

não havia dito que sua insistência tinha a ver com ela. Seu rosto enrubesceu.

Ele passou casualmente ao seu lado em direção ao salão.

– Então, sinta-se livre para revelar a Eldridge a razão de você não poder trabalhar

comigo. Apenas certifique-se de que ele entenda que eu não tenho problemas em

trabalhar com você.

Apertando os dentes, Elizabeth segurou sua vontade de praguejar tudo o que

pudesse pensar. Tola, ela não era. Entendia muito bem o jogo dele. Também entendia

que ele não a deixaria em paz até decidir que já tivera o bastante, com ou sem

missão. A única parte desse desastre que estava ao alcance de suas mãos era se

sobreviveria a isso com seu orgulho intacto.

Seu estômago se apertou. Agora que havia retornado à sociedade, teria de assistir

às seduções dele. Seria forçada a conviver com as mulheres que ele perseguia. Veria

os sorrisos que ele trocaria com outras, mas não com ela.

Maldição. Sua respiração disparou. Contra todo seu instinto de dignidade e

inteligência, ela deu o primeiro passo para segui-lo.

O leve toque em seu cotovelo a lembrou da presença de Avery:

– Lady Hawthorne. Está tudo bem?

Ela assentiu sem muito entusiasmo. Avery continuou:

– Falarei com Lorde Eldridge assim que possível e...

– Isso não será necessário, senhor James.

Elizabeth esperou até Marcus dobrar a esquina e desaparecer de vista antes de

encarar Avery.

– Meu papel é apenas entregar o diário. Feito isso, o resto depende de você e

Lorde Westfield. Não vejo necessidade para mudar os agentes.

– Tem certeza disso?

Ela assentiu novamente, ansiosa para terminar a conversa e retornar ao salão.

Avery estava claramente cético, mas mesmo assim disse:

– Muito bem. Vou atribuir dois homens para escoltá-la. Leve-os consigo a

qualquer lugar e me avise assim que receber detalhes sobre o encontro.

– É claro.

– Já que terminamos aqui, irei partir – o sorriso dele mostrava um toque de alívio.

– Nunca gostei muito desses eventos.

Ele tomou a mão dela e a beijou.

– Elizabeth? – a voz profunda de William retumbou pelo vasto espaço. Com olhos

arregalados, ela apertou os dedos de Avery:

– Meu irmão não pode vê-lo. Ele suspeitará imediatamente que algo está errado.

Avery, agradecido com sua preocupação e treinado para reagir rápido, assentiu e

se escondeu atrás de um arbusto.

Virando-se, ela vislumbrou William se aproximando. Igual a Marcus, ele não

media seus passos. Andou até ela com uma graça casual, sem mostrar qualquer sinal

do ferimento em sua perna que quase o matou.

Embora fossem irmãos, não poderiam ser mais diferentes. Ela possuía os cabelos

negros e os olhos de ametista de sua mãe. William tinha os cabelos claros e olhos

azuis de seu pai. Alto e de ombros largos, ele tinha a aparência de um viking, forte e

perigoso, mas com um toque de jovialidade, notável pelas linhas que marcavam seus

olhos, feitas obviamente por risadas.

– O que está fazendo aqui? – ele perguntou, lançando um olhar curioso ao redor

do átrio.

Elizabeth enganchou seu braço no dele e o conduziu até o salão.

– Estava apenas admirando a vista. Onde está Margaret?

– Está com algumas amigas – William diminuiu os passos e então parou,

forçando-a a parar também. – Soube que você dançou com Westfield há pouco.

– Você já quer antecipar as fofocas?

– Fique longe dele, Elizabeth – ele alertou suavemente.

– Não havia jeito educado de dispensá-lo.

– Não seja educada. Não confio nele. Acho estranha a presença dele aqui hoje.

Ela suspirou tristemente pensando no rompimento que causara. Marcus não daria

um bom marido, mas sempre fora um bom amigo para William.

– A reputação que ele estabeleceu nos últimos anos justificaram minhas ações do

passado. Não há perigo algum de eu cair em seus encantos novamente, isso eu

garanto.

Puxando William pelo salão, Elizabeth sentiu-se aliviada quando seu irmão não

ofereceu mais resistência. Se andassem depressa, ela poderia ver para onde Marcus

havia se dirigido.

Marcus saiu de seu esconderijo atrás de uma árvore e tirou uma folha solta em

seu ombro. Batendo a terra dos sapatos, seus olhos permaneceram grudados em

Elizabeth até ela desaparecer de vista. Ficou imaginando se o desejo enlouquecedor

que sentia por ela se mostrava óbvio de-mais. Seu coração acelerava e suas pernas

doíam pelo esforço de impedir a si mesmo de correr atrás dela.

Elizabeth era irritantemente teimosa e obstinada, e era justamente por causa disso

que ele sabia que era perfeita para ele. Nenhuma outra mulher conseguia despertar

sua paixão daquela forma. Furioso ou consumido pela luxúria, apenas Elizabeth

fazia seu sangue ferver com a necessidade de possuí-la.

Rezava a Deus que esse sentimento fosse amor. Pois o amor eventual-mente se

esvanece, apagando assim que o combustível se acaba. A fome apenas piora com o

tempo, corroendo e implorando até que seja saciada.

Avery apareceu ao seu lado.

– Se isso é o que você chama de "velha amiga", milorde, eu odiaria saber como

são seus inimigos.

Seu sorriso não guardava nenhum humor.

– Ela deveria ter sido minha esposa – um silêncio mortal foi sua resposta: – Por

acaso eu o deixei sem palavras?

– Maldição.

– Essa é uma descrição apropriada – baixando a voz, Marcus perguntou: – Ela

planeja falar com Eldridge?

– Não – Avery lançou um olhar de soslaio. – Tem certeza de que seu

envolvimento é sensato?

– Não – admitiu, aliviado por seu esquema ter funcionado e agradeci-do por,

apesar da passagem do tempo, ainda a conhecer tão bem. – Mas estou certo de que

não tenho alternativa.

– Eldridge está determinado a encontrar o assassino de Hawthorne. No decorrer de

nossa missão, talvez sejamos forçados a deliberadamente colocar Lady Hawthorne

em perigo para alcançarmos nosso objetivo.

– Não. Hawthorne está morto. Arriscar a vida de Elizabeth não o tra-rá de volta.

Encontraremos outras maneiras de prosseguir com a missão.

Avery sacudiu a cabeça numa estupefação silenciosa:

– Espero que saiba o que está fazendo, já que eu não sei. Agora, se me permite,

sairei pelo jardim, antes que mais alguma inconveniência ocorra.

– Eu o acompanharei.

Começando a andar ao lado de seu parceiro, Marcus riu diante da sobrancelha

erguida de Avery:

– Durante uma longa batalha, um homem deve estar preparado para recuar para

que possa retornar revigorado para aproveitar o dia.

– Santo Deus. Batalhas, irmãos, noivados rompidos. Sua história pessoal com

Lady Hawthorne irá apenas trazer problemas.

Capítulo 3 Não confie

Estou sitiada! – Elizabeth reclamou quando outro grande arranjo de flores foi

colocado na sala de estar.

– Existem coisas piores para uma mulher do que ser cortejada por um homem

diabolicamente bonito – Margaret disse secamente, enquanto ajeitava a saia e

sentava-se no sofá.

– Você é uma romântica incurável, sabia? – Levantando-se, Elizabeth pegou uma

pequena almofada rendada e a colocou atrás das costas de sua cunhada. Ela manteve

seu olhar afastado do obviamente caro arranjo de flores. Marcus havia insinuado que

seu interesse era tão profissional quanto carnal, e ela sempre estivera o mais

preparada possível para tal combate. Mas este galante ataque a suas sensibilidades

femininas foi uma total surpresa.

– Estou grávida – Margaret protestou enquanto Elizabeth cuidava de seu conforto.

– Não sou uma inválida.

– Permita-me paparicá-la um pouco. Isso me deixa tão feliz.

– Tenho certeza de que serei agradecida no futuro, mas, por enquanto, sou bem

capaz de cuidar de mim mesma.

Apesar da reclamação, Margaret se ajeitou na almofada com um suspiro de prazer,

o leve brilho de sua pele combinando perfeitamente com os cachos de seu cabelo

escuro.

– Permita-me discordar. Você parece mais magra aos cinco meses do que antes.

– Quase cinco meses – Margaret corrigiu. – E é difícil comer quando você se

sente miserável o tempo todo.

Apertando os lábios, Elizabeth pegou um bolinho, colocou-o sobre um prato,

e ofereceu a Margaret.

– Aqui, coma – ela ordenou.

Margaret aceitou com um olhar zombeteiro, e então disse:

– William diz que todos estão apostando sobre as intenções matrimoniais de

Lorde Westfield.

Enquanto preparava o chá, Elizabeth ofegou:

– Santo Deus.

– Você se tornou uma lenda quando o dispensou. Um Conde tão bonito e desejado

que todas as mulheres o querem para si. Exceto você.

É simplesmente uma história boa demais para ignorar. A história de um amor

libertino frustrado.

Elizabeth bufou com desdém.

– Você nunca me contou o que Lorde Westfield fez para você romper o

noivado – disse Margaret.

As mãos de Elizabeth tremeram enquanto ela mexia as folhas na água

fervente.

– Isso foi há muito tempo, Margaret, e como já disse muitas vezes antes, não vejo

razão para discutir isso.

– Sim, sim, eu sei. Porém, ele claramente deseja sua companhia, como vimos

depois das muitas tentativas de contatá-la. Admiro a serenidade de Westfield. Ele

nem mesmo pisca quando é dispensado. Apenas sorri, diz algo charmoso e vai-se

embora.

– O homem tem muito charme, isso eu reconheço. As mulheres correm atrás dele

em bandos, fazendo papel de tolas.

– Você parece estar com ciúmes.

– Não estou – ela afirmou. – Um ou dois torrões de açúcar? Bem, na verdade,

você precisa de dois.

– Não mude de assunto. Conte-me sobre essa ciumeira. As mulheres também

achavam Hawthorne atraente, mas isso nunca pareceu incomodá-la.

– Hawthorne era fiel.

Margaret aceitou a xícara de chá com um sorriso gracioso:

– E você disse que Westfield não era.

– Não – Elizabeth respondeu com um suspiro.

– Tem certeza?

– Não poderia ter mais certeza nem se o flagrasse no ato. Os olhos verdes de

Margaret se estreitaram.

– Você tomou a palavra de terceiros sobre a do seu próprio noivo? Sacudindo a

cabeça, Elizabeth tomou um gole encorajador antes de

responder.

– Eu tinha um assunto importante para tratar com Lorde Westfield, tão importante

que fui pessoalmente à sua casa numa certa noite...

– Sozinha? O que em nome de Deus poderia incitá-la a agir assim tão

precipitadamente?

– Margaret, você quer ou não ouvir a história? Já é difícil o bastante falar disso

sem suas interrupções.

– Desculpe – ela respondeu quase em silêncio. – Por favor, continue.

– Esperei durante alguns minutos até que ele viesse me receber. Quando apareceu,

seu cabelo estava úmido, a pele corada, e vestia um roupão.

Elizabeth encarou o conteúdo de sua xícara e sentiu-se mal.

– Continue – Margaret insistiu quando ela permaneceu quieta.

– Então, a porta por onde ele surgiu se abriu e uma mulher apareceu. Vestida do

mesmo jeito, com o cabelo tão úmido quanto.

– Meu Deus! Isso deve ter sido bem difícil de explicar. Como ele tentou fazer

isso?

– Não tentou – Elizabeth soltou uma risada seca e sem humor. – Disse que não

tinha a liberdade de discutir o assunto comigo.

Franzindo as sobrancelhas, Margaret baixou sua xícara e a colocou sobre a mesa.

– Ele tentou explicar em outra ocasião?

– Não. Eu fugi com Hawthorne, e Westfield deixou o país até o fale-cimento de

seu pai. Até o baile no Moreland, na semana passada, nunca havíamos cruzado

nossos caminhos.

– Nunca? Talvez Westfield tenha aceitado seus erros e agora queira consertar as

coisas – Margaret sugeriu. – Deve haver alguma razão para ele a perseguir com tanta

obstinação.

Elizabeth tremeu ao ouvir a palavra "perseguir".

– Confie em meu julgamento. O objetivo dele não é tão nobre quanto consertar os

erros do passado.

– Flores, visitas diárias...

– Vamos conversar sobre algo menos desagradável, Margaret – ela alertou. – Ou

irei tomar chá em outro lugar.

– Oh, certo. Você e seu irmão são mesmo teimosos.

Mas Margaret nunca fora uma pessoa que desistia fácil, e por ser as-sim

conseguiu convencer William a deixar a agência e casar-se com ela. Portanto,

Elizabeth previu que Margaret voltaria ao assunto, e não ficou surpresa quando isso

aconteceu mais tarde naquela noite.

– Ele é um homem tão bonito.

Elizabeth seguiu o olhar de Margaret pela multidão de convidados durante o jantar

na casa dos Dempsey. Encontrou Marcus de pé ao lado de Lady Cramshaw e de sua

adorável filha, Clara. Elizabeth fingiu ignorá-lo mesmo quando analisava cada passo

dele.

– Após ouvir sobre nosso passado, como você pode se encantar com o rosto do

Conde?

Ela havia deliberadamente evitado os eventos sociais da última se-mana, mas no

fim aceitara o convite dos Dempsey, certa de que o baile dos Faulkner ao final da

rua provavelmente seria mais atrativo para Marcus. Mas o impertinente homem a

encontrou mesmo assim, e sua aparência era impecável. Seu casaco vermelho-escuro

chegava até as coxas e era ricamente decorado com fios dourados. A pesada seda

brilhava debaixo das luzes das velas, assim como os rubis que adornavam seus

dedos e gravata.

– Perdão? – Margaret virou a cabeça, com olhos arregalados de estupefação.

Elizabeth apontou seu leque para o outro lado do salão. Foi então que ela viu

William e sentiu o rosto corar furiosamente por causa de seu erro.

Margaret riu.

– Eles formam um casal incrível, seu Westfield e Lady Clara.

– Ele não é meu e tenho pena da pobre garota se ela despertou o desejo dele –

Elizabeth ergueu o queixo e desviou os olhos.

O farfalhar de sedas pesadas de uma saia anunciou uma nova participante na

conversa.

– Concordo – murmurou a velha Duquesa de Ravensend. – Ela é apenas uma

criança e nunca poderia fazer justiça àquele homem.

– Minha senhora – Elizabeth fez uma breve reverência diante de sua sogra.

A duquesa tinha um brilho malicioso nos suaves olhos marrons.

– A sua viuvez é uma infelicidade, minha querida, mas apresenta uma

oportunidade renovada para você e o Conde.

Elizabeth fechou os olhos e implorou por paciência. Desde o princípio, sua sogra

defendia as qualidades de Marcus.

– Westfield é um tratante. Eu me considero uma felizarda por ter descoberto esse

fato antes de dizer os meus votos.

– Ele possivelmente é o homem mais bonito que já vi – Margaret observou. –

Depois de William, é claro.

– E muito bem educado – a duquesa acrescentou observando Marcus através de

seu binóculo. – Material de primeira para um marido.

Suspirando, Elizabeth ajeitou a saia e tentou não revirar os olhos.

– Gostaria que vocês duas esquecessem a ideia de que eu me casarei novamente.

Pois não irei.

– Hawthorne era pouco mais do que um garoto – notou a duquesa.

– Westfield é um homem. Você descobrirá que é uma experiência muito diferente se

o escolher para compartilhar a cama. Ninguém aqui disse nada sobre casamento.

– Não tenho desejo algum de ser acrescentada à lista de conquistas desse

libertino. Ele é um conquistador. Você não pode negar isso, minha senhora.

– Há vantagens nos homens com experiência – Margaret sugeriu. – Casada com

seu irmão, eu posso atestar – ela sacudiu a sobrancelha de modo sugestivo.

Elizabeth estremeceu.

– Margaret, por favor.

– Lady Hawthorne.

Virando-se rapidamente, ela encarou George Stanton com um sorriso agradecido.

Ele fez uma reverência, com o bonito rosto exibindo um sorriso amigável.

– Será um prazer dançar com você – ela disse, antes mesmo que ele pedisse.

Ansiosa para fugir da conversa, Elizabeth ofereceu a mão e permitiu que ele a

conduzisse para longe.

– Obrigada – ela sussurrou.

– Achei que você precisava ser resgatada.

Ela sorriu quando tomaram seu lugar na fila.

– Você é muito perspicaz, meu querido amigo.

Olhando de soslaio, ela observou Marcus oferecer-se para levar a jovem Clara

para a pista de dança. Enquanto ele se aproximava dela, Elizabeth não pôde deixar

de admirar seu andar sedutor. Um homem que se movia daquela maneira com

certeza seria um especialista na arte do amor. Outras mulheres também o

observavam, cobiçando-o da mesma forma que ela o fazia, desejando-o...

Quando ele ergueu o olhar em sua direção, Elizabeth desviou os olhos

rapidamente de seu sorriso mordaz. O homem sabia como irritá-la e não se furtava a

usar esse conhecimento para sua vantagem.

Quando os passos da contra-dança aproximaram os dançarinos para depois

separá-los, ela continuou seguindo o progresso dele com o canto do olho. O próximo

passo os colocaria frente a frente. Uma forte expectativa correu por suas veias.

Ela se afastou de George e virou-se graciosamente para encarar Mar-cus. Sabendo

que o encontro seria breve, ela se permitiu aproveitar a visão e o perfume dele. O

desejo se acendeu instantaneamente. Ela o via nos olhos dele, sentia-o em seu

próprio sangue. Então, se afastou com um suspiro de alívio.

Quando a música terminou, Elizabeth se ergueu de sua curta reverência. Ela não

resistiu a um sorriso. Fazia tanto tempo desde a última vez que dançara que quase se

esquecera do quanto gostava disso.

George retribuiu o sorriso e habilmente os recolocou em posição para a próxima

dança.

Alguém parou em frente aos dois, bloqueando o caminho. Antes que pudesse

olhar, ela sabia quem era. Seu coração acelerou as batidas.

Obviamente, ela subestimou até onde Marcus chegaria para conquistar seus

objetivos.

Ele os cumprimentou assentindo brevemente.

– Senhor Stanton.

– Lorde Westfield – George olhou para Elizabeth franzindo as sobrancelhas.

– Lady Clara, permita-me apresentar-lhe o senhor George Stanton – Marcus disse.

– Stanton, esta é a adorável Lady Clara.

George tomou a mão de Clara e reverenciou-se.

– É um prazer.

Antes que Elizabeth pudesse adivinhar suas intenções, Marcus lhe estendeu a

mão.

– Um excelente par – ele disse. – E já que Lady Hawthorne e eu sobramos, então

deixaremos vocês terminarem a dança.

Enlaçando o braço dela firmemente, ele a puxou em direção às portas abertas que

davam para o jardim.

Elizabeth ofereceu um sorriso de desculpas por cima do ombro, enquanto seu

coração martelava por dentro diante do comportamento primitivo de Marcus.

– O que você está fazendo?

– Achei que era óbvio. Estou causando uma cena. Você me obrigou a isso ao me

evitar durante toda essa semana.

– Não estive evitando você – ela protestou. – Ainda não recebi outra parte do

diário, portanto, não havia razão para encontrá-lo.

Saindo até a varanda, eles encontraram vários outros convidados aproveitando o

ar fresco da noite. Mantida tão perto ao seu lado, a pura força da presença de

Marcus mais uma vez a surpreendeu.

– Seu comportamento é atroz – ela murmurou.

– Você pode me insultar o quanto quiser quando estivermos a sós. A sós. Uma onda

de consciência escoou através de sua pele.

O olhar dele percorreu o rosto de Elizabeth até chegar aos olhos.

Os olhos dela cerraram-se e, embora ela tenha tentado discernir seus pensamentos, a

bela expressão dele parecia esculpida em pedra. Quando tomaram a escadaria até o

jardim, os passos dele aceleraram. Ela seguia quase sem fôlego, imaginando o que

ele pretendia fazer, o que pretendia dizer, surpresa por descobrir em si mesma um

resquício perdido de romantismo juvenil que se animava diante de sua determinação.

Jogando-a em uma pequena alcova na base da escadaria, Marcus checou os

arredores cuidadosamente. Certificando-se de que estavam sozinhos, ele se moveu

rapidamente. Com a ponta do dedo, ergueu gentil-mente o queixo dela.

Um beijo, ela pensou tarde demais quando suas bocas se encontraram. E então,

ela não mais conseguiu pensar.

Seus lábios eram incrivelmente gentis enquanto se fundiam aos dela, mas as

sensações que despertavam eram brutais em sua intensidade. Elizabeth não podia se

mexer, presa pela poderosa resposta de seu corpo tão próximo ao dele. Apenas seus

lábios se tocavam. Um simples passo para trás quebraria o contato, mas ela não foi

capaz nem mesmo disso. Permaneceu congelada, vacilando ao sentir seu perfume e

seu sabor, cada terminação nervosa disparando diante de seu avanço atrevido.

– Beije-me de volta – ele rosnou, circulando os dedos em seus pulsos.

– Não... – ela tentou desviar o rosto.

Praguejando, ele tomou novamente sua boca. Mas não beijou tão suavemente

quanto havia feito um momento antes. Agora era um ataque impelido por uma

amargura tão forte que ela até podia senti-la. A cabeça dele se inclinou levemente,

aprofundando o beijo, e então sua língua invadiu forçosamente entre seus lábios

abertos. A intensidade de seu ardor a assustou, e então, o medo evoluiu para algo

muito mais poderoso.

Hawthorne nunca a tinha beijado daquela maneira. Era muito mais do que uma

mera junção de lábios. Era uma declaração de posse, uma vontade desenfreada, uma

necessidade que Marcus instaurou dentro dela até Elizabeth não poder mais negar

sua existência. Com um gemido, ela se rendeu, timidamente retribuindo o toque de

sua língua, desesperada para sentir o sabor inebriante dele.

Marcus grunhiu sua aprovação, com o som carregado de erotismo, fazendo-a

balançar instável sobre seus pés. Liberando seu pulso, ele segurou a cintura dela

enquanto a outra mão quente agarrava sua nuca, mantendo-a no lugar para continuar

seu ataque. Sua boca se movia habilmente, retribuindo a resposta dela com carícias

mais fortes de sua língua. Ela agarrava o casaco dele, puxando e empurrando,

tentando ganhar algum controle, mas não sendo capaz de fazer nada, exceto aceitar o

que ele oferecia.

Finalmente, ele afastou a boca com um rosnado torturado e enterrou o rosto nos

cabelos perfumados dela.

– Elizabeth – sua voz rouca parecia falhar. – Precisamos encontrar uma cama.

Agora.

Ela riu com nervosismo.

– Isso é loucura.

– Sempre foi uma loucura.

– Você deve se afastar.

– Já fiz isso. Por quatro malditos anos. Já paguei o preço de meus pecados

imaginários – ele deu um passo para trás e a encarou com olhos tão ardentes que até

pareciam queimar sua pele. – Esperei tempo o bastante para tê-la. Eu me recuso a

esperar mais.

A lembrança do passado trouxe os dois de volta para a situação presente.

– Existe muita história entre nós para que um dia possamos nos unir novamente.

– Mas saiba que pretendo me unir a você com ou sem história. Tremendo, ela se

afastou e, para sua surpresa, foi libertada imediata-

mente. Elizabeth pressionou os dedos em seus lábios inchados pelo beijo.

– Não quero a dor que você traz. Não quero você.

– Você está mentindo – ele disse asperamente. Seus dedos tracejaram as curvas

do corpo dela. – Você me quis desde o momento em que nos conhecemos. E ainda

me quer, posso sentir isso em seu beijo.

Elizabeth praguejou contra a traição de seu próprio corpo, ainda tão enamorado

dele que se recusava a escutar as ordens do cérebro. Excitada e desejosa em todas

as partes, ela não era melhor do que qualquer uma das tolas mulheres que caíam tão

facilmente em sua cama. Voltou a se afastar, mas parou ao chegar ao frio corrimão

de mármore. Levando as mãos até as costas, ela agarrou o corrimão com tanta força

que suas mãos ficaram embranquecidas.

– Se gostasse mesmo de mim, você me deixaria em paz.

Mostrando um sorriso que fez seu coração parar, Marcus deu um passo em sua

direção.

– Irei mostrar o mesmo carinho que um dia você mostrou a mim – seu olhar ardia

com um desafio sedutor. – Entregue-se ao seu desejo por mim, minha querida.

Prometo que não irá se arrepender.

– Como pode dizer isso? Já não me magoou o suficiente? Sabendo como eu me

sentia sobre meu pai, ainda assim você agiu daquela maneira. Eu detesto homens da

sua laia. É algo desprezível prometer amor e devoção para conseguir levar uma

mulher para a cama, para depois descartá-la quando você se cansa.

Marcus parou abruptamente.

– Fui eu quem foi descartado.

Elizabeth recuou ainda mais contra o corrimão.

– Por uma boa razão.

Os lábios dele se curvaram num sorriso cínico.

– Você irá atender meus chamados, Elizabeth. Você irá sair comigo e me

acompanhar a eventos como este. Não serei rejeitado novamente.

O mármore frio congelou as mãos dela através das luvas e enviou calafrios pelos

braços. Apesar do arrepio, ela se sentia quente e corada.

– Você não está satisfeito com a quantidade de mulheres que corre atrás de você?

– Não – ele respondeu com sua habitual arrogância. – Ficarei satisfeito quando

você queimar por mim, quando eu invadir cada pensamento e cada sonho seu. Um

dia, sua paixão será tão arrebatadora que cada respiração longe de mim irá rasgar

seus pulmões. Você me dará qualquer coisa que eu desejar, quando e como eu

desejar.

– Não darei nada!

– Você me dará tudo – ele acabou com a pequena distância entre os dois. – Você

entregará tudo a mim.

– Você não tem vergonha? – lágrimas surgiram e se acumularam em seus cílios.

Ele permaneceu impecável, e o horror de sua situação a atingiu com um efeito cruel.

– Depois do que você fez comigo, ainda precisa me seduzir? Será que a minha

completa destruição é a única coisa que vai satisfazê-lo?

– Maldita seja – ele encostou a testa na dela, passando a boca em cima de seus

lábios num leve beijo. – Nunca pensei que a teria – ele sussurrou. – Nunca esperei

que um dia ficasse livre de seu casamento, mas aqui está você. E eu terei aquilo que

me foi prometido há tanto tempo.

Soltando o corrimão, Elizabeth encostou a mão na cintura dele para afastá-lo. Os

firmes músculos de sua barriga fizeram o corpo dela responder com uma doce e

selvagem agonia:

– Eu lutarei contra você com todas as minhas forças. Eu lhe imploro que desista.

– Não até eu ter aquilo que quero.

– Deixa-a em paz, Westfield.

Relaxando de alívio ao ouvir a voz familiar, Elizabeth ergueu os olhos e viu

William descendo as escadas.

Marcus se afastou praguejando. Endireitando-se, lançou um olhar fulminante para

seu velho amigo. Elizabeth aproveitou a distração para fugir. Correndo para o

jardim, ela desapareceu entre as folhagens. Ele fez menção de correr atrás dela.

– Se eu fosse você, não faria isso – William disse com um leve tom de ameaça.

– Você chegou na hora errada, Barclay – Marcus engoliu sua frustração, sabendo

que seu antigo amigo adoraria qualquer oportunidade para lutar com ele. A situação

piorou quando espectadores chegaram, alertados pelo tom de voz ameaçador e a

rigidez do corpo de William, e se alinharam na varanda antecipando notáveis

fofocas.

– Quando quiser a companhia de Lady Hawthorne no futuro, Westfield, saiba que

ela está fora do seu alcance indefinidamente.

Uma ruiva alta abriu caminho entre os curiosos e desceu as escadas em direção a

eles.

– Lorde Westfield. Barclay. Por favor! – ela agarrou o braço de William. – Aqui

não é lugar para esse tipo de conversa privada.

William quebrou o contato visual com Marcus e olhou para sua adorável esposa

com um sorriso sombrio.

– Não precisa se preocupar. Está tudo bem – erguendo os olhos, ele fez um gesto

para George Stanton, que desceu da varanda e se aproximou deles rapidamente. –

Por favor, encontre Lady Hawthorne e a acompanhe de volta para casa.

– Eu ficaria honrado – Stanton passou cuidadosamente entre os dois homens antes

de acelerar os passos e desaparecer no jardim.

Marcus suspirou e esfregou a nuca.

– Você nos interrompe baseado em falsas premissas, Barclay.

– Não discutirei o assunto com você – William retrucou, dispensando qualquer

sinal de civilidade. – Elizabeth se recusou a encontrá-lo e você respeitará o desejo

dela – ele gentilmente removeu a mão de Margaret da manga de seu casaco e deu

um passo à frente, com seus ombros tensos de raiva represada. – Este será seu único

aviso. Mantenha distância de minha irmã ou enfrentará as consequências – a

multidão acima eclodiu numa série de murmúrios abafados.

Marcus teve dificuldades para acalmar sua respiração. Ter a cabeça fria já o tirara

de muitas situações voláteis, mas desta vez ele não fez esforço para neutralizar a

tensão. Ele tinha uma missão, além de suas questões pessoais. As duas coisas

necessitariam de muito tempo junto de Elizabeth. Nada poderia bloquear seu

caminho.

Encarando o desafio de William de frente, ele tomou os últimos passos até

ficarem a centímetros um do outro. Sua voz guardava um tom de ameaça.

– Interferir em meus assuntos com Elizabeth não seria inteligente. Ainda há muito

para ser resolvido entre nós e não permitirei que se intrometa. Eu nunca a

machucaria deliberadamente. Se duvida de minha palavra, diga isso agora. Minha

posição é firme e não mudará, seja qual for sua ameaça.

– Arriscaria sua vida por isso?

– Sem dúvida.

Uma pausa pesada recaiu entre eles enquanto se analisavam cuidadosamente.

Marcus deixou sua determinação muito clara. Nada o impedi-ria, nem mesmo

ameaças de morte.

Em resposta, o olhar de William era capaz de penetrar de tanta intensidade.

Durante os anos, eles conseguiram manter uma gelada associação pública. Com o

casamento de William contrastando com a vida solteira de Marcus, eles raramente

tinham oportunidades para trocarem alguma palavra. Marcus lamentava isso.

Frequentemente sentia falta da companhia de seu amigo, que era um bom homem.

Mas William decretou seu julgamento rápido demais, e Marcus não feriria seu

orgulho apelando a ouvidos surdos.

– Devemos voltar às festividades, Lady Barclay? – William finalmente disse,

relaxando levemente os ombros.

– A noite está esfriando – Marcus murmurou.

– Sim, milorde – Lady Barclay concordou. – Eu estava prestes a dizer o mesmo.

Escondendo seu arrependimento, Marcus assentiu, e então se virou e partiu.

Elizabeth cruzou o saguão do Chesterfield Hall soltando um suspiro silencioso.

Seus lábios ainda pulsavam e sentiam o sabor de Marcus, um sabor inebriante que

era perigoso para a sanidade de uma mulher. Embora seu ritmo cardíaco tivesse

abrandado, ela ainda sentia como se houvesse participado de uma longa corrida.

Ficou grata quando seu mordomo removeu seu casaco pesado e, tirando as luvas, foi

direto para as escadas. Havia tanta coisa a se considerar, coisas demais. Ela não

esperava que Marcus estivesse tão determinado a conseguir o que queria. Seria

necessário um planejamento cuidadoso para lidar com um homem como ele.

– Milady?

– Sim? – ela fez uma pausa e se virou para encarar o mordomo.

Ele segurava uma bandeja de prata com um envelope cor creme. Por mais inócuo

que parecesse, Elizabeth estremeceu diante da missiva. A caligrafia e o papel eram

iguais as da carta que exigia a entrega do diário de Hawthorne.

Ela sacudiu a cabeça e soltou um longo suspiro. Marcus a chama-ria amanhã,

disso ela tinha certeza. Seja qual fosse a demanda da carta, poderia esperar até o dia

seguinte. Ler sozinha não era algo que estava disposta a fazer. Ela sabia o quão

perigosas eram as missões da agência e não subestimava seu novo envolvimento

nelas. Portanto, se Marcus estava tão determinado a persegui-la, ao menos ela

poderia tirar alguma pequena vantagem disso.

Dispensando o mordomo com um gesto, Elizabeth segurou as saias e subiu as

escadas.

Que triste golpe do destino que o homem designado a protegê-la era o mesmo em

quem ela não poderia confiar.

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