Alana POV
Estávamos no meio da estrada de terra quando a pequena carruagem da minha tia parou abruptamente em uma floresta conhecida por ser a mais perigosa de todas estas terras; era onde se encontravam as matilhas dos lobos mais sedentos por sangue.
Chovia levemente, e o dia já estava terminando do lado de fora da carruagem. No início, pensei que tínhamos parado por causa de algum problema com os cavalos ou com as rodas da carruagem. A tia Mag até amaldiçoou os pobres cavalos quando eles relincharam e pararam, como se tivessem encontrado um grande obstáculo no caminho, mas bem, nossa cabeça ali era o que nos fazia parar. Quem nos fazia parar, para ser mais exata?
A chuva caía cada vez mais forte, obscurecendo nossa visão e impedindo-nos de ver claramente a figura à nossa frente. Alguns metros à frente da carruagem, estava um homem com uma figura imponente vestido de preto. Ele estava parado bem ali, bloqueando nossa carruagem de continuar, e não parecia ter nenhum plano de sair do caminho.
"Quem é ele, tia Mag?" perguntei com medo à minha tia, que estava sentada ao meu lado com seu inseparável leque na mão. Seu rosto de meia-idade havia se contorcido em uma careta. Eu sabia muito bem que essa expressão significava que ela estava muito irritada.
"Deve ser um humano saqueador. Alguns deles são ousados o suficiente para atacar carruagens de bruxos e bruxas mesmo sabendo que vão morrer. Raça desprezível!" Ela disse com desdém, mas apenas vendo a silhueta do homem à nossa frente, podíamos dizer que ele não era humano e não parecia tão apaixonado por roubar bruxos e bruxas.
"Mas e se ele não for?" perguntei, engolindo em seco. "E se ele for alguém perigoso?"
"Não seja tão boba, menina. Tenho a proteção da Casa Lightsun comigo, nenhum bruxo ou bruxa vai querer me prejudicar. Agora, deixe-me me livrar deste bastardo para que possamos sair desta floresta amaldiçoada antes que os malditos lobos apareçam," disse a mulher, que saiu da carruagem e se aproximou do homem com um olhar tolo.
Estávamos a caminho de Fastfall, que era a capital da população de bruxos; era onde os mais ricos e poderosos do meu povo viviam. A tia Mag não me contou nada sobre isso, mas eu sabia que ela estava planejando me entregar em casamento aos Lightsuns. Algo que eu nunca quis, mas não era como se minha tia me ouvisse ou me deixasse tomar minhas próprias decisões na vida.
Eu era órfã de pai e mãe, então sempre vivi sob os cuidados da minha tia, que era irmã da minha mãe. Mas a tia Mag nunca foi um exemplo de mãe para mim, ela sempre me tratava mal e fazia questão de jogar na minha cara que eu era inútil, ainda mais quando completei quinze anos e minha magia nunca se manifestou, assim como geralmente acontece com todos os feiticeiros nessa idade. A tia Mag me chamava de ferida, sem magia, e humana, como um termo pejorativo. Para ela, eu não tinha utilidade, e ela lamentava ter cuidado de mim porque achava que ganharia algo em troca assim que eu crescesse, mas sem magia, era como se eu fosse uma pessoa com deficiência que sempre precisaria disso.
"Graças ao Grande Feiticeiro que pelo menos você tem essa aparência angelical," ela me disse, "assim posso tentar arranjar um casamento lucrativo para você, ou então você morrerá na sarjeta!"
Mas eu não queria que ela arranjasse um casamento para mim, eu não queria nada disso. Eu queria ser livre dessa mulher.
"Eu sou Magdalena Bernadette Backingale da casa Backingale, do sul," minha tia estava dizendo, seu guarda-chuva cobrindo sua cabeça e impedindo que se molhasse. "Esta é minha carruagem, e estou indo para a Cidade de Ouro. Eu aconselho que você saia do nosso caminho e nos deixe passar, você, estranho errante!"
No início, pensei que fosse um ronco ou um rosnado profundo, e então percebi que o rosnado vinha da figura à nossa frente, era como se ele estivesse rindo. "Vocês bruxas e suas vantagens exageradas. Que bobagem," disse o homem com uma voz grossa e baixa. Foi naquele momento que percebi que ele não era humano. Ele era algo muito mais perigoso do que humanos.
Quando o homem imponente falou, os cavalos se agitaram como se quisessem se libertar das rédeas e fugir. O cocheiro quase foi derrubado quando tentou puxar as rédeas para acalmá-los. Minha tia também notou essa agitação, então agora ela pergunta com mais cautela.
"Quem é você? Você não parece humano, e não tem a cortesia de um bruxo. Que tipo de espécie você é?" ela perguntou.
O homem não respondeu, no meio da chuva, ele se aproximou lentamente de nós. Naquele momento, meu coração começou a bater com medo, e juntei as mãos, com medo do que poderia acontecer.
"Você não vai nem me oferecer uma carona? Você teria a ousadia de me deixar aqui nesta chuva, senhora?" ele perguntou com um sarcasmo elevado.
"Não dou caronas a estranhos." minha tia respondeu, incisivamente.
"Hm, essa não foi a resposta que eu queria ouvir," ele disse e então parou bem na frente da minha janela. "Vejo que há algo precioso nessa sua carruagem, bruxa," disse ele enquanto seus olhos escuros estavam sobre mim, olhando-me como se eu fosse um objeto que havia capturado sua atenção. Eu mal conseguia olhar para ele, estava tão assustada.
"Então você é um ladrão." Tia Mag o acusou.
"Eu não sou um ladrão, mas senti vontade de roubar algo," ele disse, com os olhos ainda fixos em mim. Olhei para ele, seu cabelo escondido atrás de um capuz era preto e longo, sua pele era marrom, e seus olhos tão escuros quanto a noite. Ele até seria bonito se não fosse tão ameaçador. "Está se escondendo, querida?" ele perguntou e sorriu.
"Fique longe dela, ou então...!" Minha tia gritou, já querendo dar suas ordens, mas teve que se convencer de que tudo já estava perdido.
"Quanta força vocês duas têm, bruxas? É força suficiente para superar meu domínio sobre seus cavalos e controlá-los?" O estranho perguntou, dizendo que agora estava controlando os cavalos. Eu respirei fundo de susto, apenas lobos tinham esse domínio sobre animais, então os cavalos haviam parado por causa dele, foi esse estranho homem que os fez parar.
"Você é um lobo?" Tia Magdalena perguntou também chocada, mas agora desafiadora. "Então por que se atreve a se relacionar com pessoas bruxas como nós? O Conselho não declarou que nossas espécies só podem se comunicar uma com a outra perante o tribunal?"
"Você vê seu querido Conselho por aqui, mulher bruxa? Certamente nenhum deles gostaria de brincar na chuva como estamos fazendo," ele disse.
"Isso é uma afronta! Você será punido, lobo!" Tia Mag disse, desdenhosamente.
"Se você quer chegar à sua bela cidade de merda, eu libero os cavalos, mas você deixa a garota comigo," o lobisomem propôs tão calmamente quanto se estivesse falando sobre o tempo.
"O quê? Você deve estar louco!" minha tia disse, começando a gritar.
Mas o homem lobo estava me olhando com seu sorriso cínico e um olhar meio brincalhão, como se estivesse se divertindo muito e disse, "como se você tivesse alguma escolha."
Então ele praticamente arrancou a porta da carruagem e me puxou pela cintura. Ele foi tão rápido que um momento eu estava sendo arrancada da carruagem e no próximo eu estava pendurada nas costas largas de um lobo gigante que corria em estampida, adentrando mais fundo na floresta perigosa.
Alana POV
Isso simplesmente nunca aconteceu, em todos os tempos nunca houve um lobo tão ousado que se atrevia a pôr as mãos em um bruxo e ainda por cima o sequestrar, mas esse lobo estava fazendo enquanto me arrastava pela floresta cada vez mais adentro dos seus domínios.
Minhas mãos agarravam sua farta pelugem enquanto meu cabelo era puxado para trás pelo vento contrário, minha visão estava em um borrão por causa da tanta velocidade com que o lobo corria. A cada passo que ele dava tudo ficava mais sombrio e escuro com as copas das árvores nos cobrindo, a cada passo que ele dava eu ficava mais distante da minha tia e da sua carruagem, já estávamos tão distantes agora que se eu não fizesse nada eu nunca mais conseguiria voltar pra trás, então comecei a bater o lobo com os meus pés e a puxar com mais força sua pelugem.
"Pare! Pare!" Gritei sem parar de bater nele, mas por mais que eu continuasse, o meu raptor não parecia disposto a ceder. Frustrada, olhei para a distância que dava até o chão, eu sabia que naquela velocidade se eu pulasse para fora das costas dele até o chão eu ia me machucar seriamente, mas cada vez mais nós estávamos nos afastando da minha tia e aquilo podia ser perigoso para mim. Então respirei fundo e pulei.
Porém assim que o lobo percebeu o que eu ia fazer, ele tentou um jeito de me impedir, mas era tarde demais, eu já tinha rolado para fora das costas dele e caí por cima da relva e areia fofa. O baque com o chão me fez perder o ar nos pulmões e gemi de dor, mas eu não estava tão machucada.
O lobo girou na minha direção e rugiu furiosamente bem diante de mim. Seu focinho estava dilatado e seus caninos perigosos estavam rangidos um no outro, o olhar assassino nos seus olhos, claramente ele não tinha gostado de eu ter pulado para fora do colo dele.
"Me deixe ir!" Exigi e ele grunhiu de novo em fúria, dando a sua resposta negativa. E pelo amor do Grande Mago, este lobo era simplesmente majestoso: grande, preto, como se estivesse se tratando de um Alfa da sua matilha. Mas por que um Alfa ia querer desafiar as leis e se meter com povo bruxo dessa maneira?
"Você vai se meter em problemas se não me deixar ir," eu disse com minha cabeça levantada. Ele bufou como se risse das minhas advertências e girou em seus próprios pés num gingado deixando claro que ele estava pouco de lixando para aquilo.
Ele realmente é um lobisomem inconsequente.
Na verdade eu estava me borrando de medo, claramente eu não ia conseguir lutar com um Alfa ainda mais quando eu era uma bruxa sem poder algum, mas este meu sequestrador não precisa ficar sabendo que eu sou uma bruxa inútil. A chuva era tanta que gotas grossas de água caíam das cópias das árvores fazendo o chão ficar escorregadio e húmido. Eu tinha que agir logo, senão esse lobo me teria como refém. Sem ele perceber, peguei uma quantidade de areia em minha mão e joguei nos olhos dele o fazendo se retrair e chiar.
Aproveitei aquele pequeno momento precioso para sair correndo como se minha vida dependesse disso, e dependia. Eu não conhecia a floresta, provavelmente estava perdida, mas eu não ia deixar que o lobo me pegasse, eu estava determinada a ficar o mais longe dele. Mas tudo deu errado quando escorreguei por causa da maldita chuva e bati a cabeça numa rocha embaixo, então tudo ficou escuro, assim como minhas esperanças.
***
Quando acordei, o dia estava claro e nada chuvoso. Eu estava deitada numa cama que pelo menos era confortável.
"Céus, minha cabeça..." murmurei passando a mão na minha cabeça que latejava. Havia um cheiro de comida sendo preparada pairando no ar, varri meus olhos por todo local e percebi que era um espaço arrojado e apresentável. Havia um homem mexendo na comida e o homem estava sem camisa.
Ele se virou pra mim e veio até mim. Seu corpo era escultural e bem definido, sem o capuz o seu cabelo longo caía livremente até a altura do ombro dele, seu sorriso maroto, seu olhar cínico e esperto, certamente este era o homem mais intrigante que eu já tinha conhecido na minha vida. Ele estava se aproximando com uma caneca que continha bebida quente. "Bom dia, bela adormecida fujona," ele disse me saudando com o mesmo ar sarcástico de ontem, me ofereceu a bebida quente, "tome, vai aliviar a dor."
"Por acaso você está tentando me envenenar?" Perguntei sentindo o quanto minha garganta estava seca e desidratada.
Ele rolou os olhos antes de responder, "por que eu ia envenenar você? Se eu te quisesse morta já teria te matado faz tempo." Ele tinha um leve ar de tédio enquanto falava. Mordi meus lábios pensando se ia aceitar a comida dele, mas a fome e sede foram mais altos que a minha razão, então peguei na caneca e bebi o conteúdo doce e delicioso, ficando satisfeita ao ver quão bem o meu corpo se recompunha.
"É aqui onde você mora?" Perguntei olhando pelo espaço, "então é mesmo verdade que lobisomens moram em cavernas como primitivos." Quis ofendê-lo.
Ele deu uma risada sarcástica e respondeu, "você tem uma língua afiada para uma bruxa. Aprendeu com a arrogante da tua mãe?" Ele claramente devia ter pensado que Mag fosse minha mãe.
"Ela não é minha mãe, é minha tia. E ela virá me buscar," disse eu com certeza. Afinal, por que tia Mag me perderia de vista logo agora que ela ia ganhar um bom dinheiro ao me vender para os Lightsun?
O meu sequestrador estava rindo sarcástico. "Você acha realmente que os bruxos teriam essa coragem de entrar no território dos lobos mesmo que fosse para resgatar um de vocês?
"Se alguns forem tão tolos como você quando me sequestrou, sim," respondi acusadoramente e vi o semblante dele se fechar. "O que você pretende fazer, lobisomem? Por que você me tomou? O que você acha que irá conseguir com isso?" Eu precisava saber quais eram as intenções dele.
Ele se levantou da cama, "por agora o que eu mais quero é que você pare de me encher de perguntas," disse ele sem olhar pra mim.
"Você acha mesmo que vai me impedir?" Eu estava começando a ridicularizá-lo, mas ele me parou com um olhar gélido e com uma voz dominante.
"Ainda mais quando você está em meu cativeiro e eu posso me livrar de você quando bem entender!" As palavras dele eram afiadas e ásperas, seus olhos até se iluminavam com um vermelho perigoso por um momento, eu percebi que aquele homem era mesmo perigoso e não hesitaria em se livrar de mim quando quisesse.
Alana POV
Não troquei mais palavras com ele depois que ele foi tão duro comigo. Esse lobisomem era um bastardo arrogante que pensava que era dono de tudo, mas se ele achava que eu iria parar de lutar, estava muito enganado.
Meu sequestrador saiu de seu quarto à tarde; talvez fosse caçar ou algo assim, mas era a abertura de que eu precisava. Ele havia trancado a porta, e eu consegui arrombá-la usando um dos utensílios da cozinha dele. Eu não ia ficar parada assistindo ele fazer o que quisesse comigo. Eu ia lutar.
Assim que a porta se abriu, eu saí furtivamente daquela caverna, tomando cuidado para verificar se ele estava por perto, mas ele não estava, para meu deleite. Minhas costas ainda doíam do golpe de ontem ao pular das costas do lobo, e minha cabeça ainda latejava de quando bati em uma rocha ao escorregar tentando escapar. Estava fraca e com dor, mas mesmo assim, não ia falhar em sobreviver. Então comecei a correr pela floresta como se minha vida dependesse disso.
Mas para onde eu estava correndo? Eu estava no meio do nada, e não sabia como sair daquela floresta, mas precisava voltar para casa e para a segurança da minha tia. Mas a que custo? De repente, me vi pensando que a tia Mag, caçadora de ouro, iria me vender para um velho rico em Fastfall, um lugar que nunca foi meu lar, e mesmo se conseguisse escapar para Belmont, minha cidade natal, quem me acolheria?
Eu, sendo uma bruxa inútil sem poder, não servia para nenhum propósito, e ninguém iria querer me abrigar por medo de pegar minha maldição e também perder a magia como eu havia perdido a minha. Os bruxos e suas leis eram duros e implacáveis, sem misericórdia para com os outros. Eu não tinha lugar em Belmont, nem pertencia a Fastfall, onde seria forçada a me casar com alguém que eu não queria. Então, por que estava correndo tanto?
Minha visão começou a ficar borrada ao perceber que não tinha escolha, não tinha para onde ir, e era muito improvável que a tia Mag viesse me procurar. Lágrimas pesadas caíam dos meus olhos, mas eu continuava correndo mesmo assim.
"Pare!" Ouvi a voz do lobisomem me fazendo parar, e quando olhei, ele estava a poucos metros de mim, me seguindo. Foi então que percebi que minha missão era sem esperança. Eu nunca conseguiria sair dessa floresta se esse homem não quisesse.
"Me deixe em paz!" Gritei, querendo que ele ficasse longe.
"Simplesmente pare; confie em mim. Não dê mais um passo," ele disse em advertência, como se soubesse de algo. Mas eu não acreditei nele; não ia jogar o jogo dele. Então, corri de novo, mas assim que saí do lugar onde estava, o chão aos meus pés cedeu, e eu gritei ao cair na grande fenda abaixo. Mas antes de bater fatalmente no chão, vi o grande lobo pular na cova e cobrir meu corpo com o dele, e quando batemos no chão, seu corpo amorteceu a queda de uma maneira brutal.
Era um buraco cerca de dez metros abaixo da superfície, e havia estacas afiadas na boca do buraco apontando para baixo, indicando que não era natural, era uma armadilha, e tínhamos caído diretamente nela.
"Merda. Eu disse para você parar, bruxa petulante," disse o lobisomem agora que havia voltado à sua forma humana. Ele tinha uma expressão de dor no rosto, indicando que havia sofrido com a queda; afinal, eram dez metros malditos, e se ele não tivesse amortecido a queda com o corpo dele, eu estaria morta e espalhada agora.
Engoli em seco. Por que ele tinha me ajudado? Por que ele tinha salvado minha vida? Ele até se jogou na cova enquanto estava em segurança lá em cima. "Você pode sair de cima de mim agora?" Ele perguntou sarcasticamente, e eu arregalei os olhos ao perceber que ainda estava em cima dele, pulei do colo dele e me recuperei. Ele se levantou com dificuldade e se sentou. Está bem que ele não era humano e podia suportar grandes quedas como aquelas, mas ainda assim tinha se machucado muito.
"Algumas de suas costelas devem estar quebradas; você precisa de um curandeiro," eu disse, e ele sorriu sarcasticamente.
"Agora você está preocupada comigo? Não estava fugindo de mim há poucos minutos, bruxa fugitiva?" Ele disse, sendo arrogante como sempre, mesmo sentindo dor. Não respondi, que ele morresse de dor!
Olhei para a boca do buraco, o dia já estava terminando e tudo começava a escurecer. "Como vamos sair daqui?" Perguntei com medo.
"Esta é uma armadilha de orcs, ninguém escapa de uma armadilha de orcs a menos que eles queiram," ele disse, encostando as costas na parede do buraco. Olhei para cima novamente com apreensão e depois olhei para ele.
"Nem mesmo um lobo consegue escapar dessa armadilha?" Desafiei-o.
"Nem mesmo um lobo!" Ele respondeu, afiado. Baixei os olhos, envergonhada de mim mesma, ele tinha se sacrificado para salvar minha vida e agora eu estava pedindo para ele fazer o impossível. Suspirei e me sentei no canto do buraco, completamente sem esperança agora.
"Não se preocupe tanto, vamos sair daqui. Todas as manhãs, os orcs passam para verificar suas armadilhas de caça para ver se capturaram algo, então quando eles chegarem, vão nos tirar daqui, conversaremos com eles e depois sairemos," ele disse com os olhos fechados, "Eu até queria preparar um jantar agradável porque achei que você ainda estava fraca, fui caçar um veado, mas quando cheguei na caverna vi que você tinha escapado." Ele riu, mas parecia sem humor. "Você não é boa em seguir ordens, não é?"
"Você me mantinha presa lá, obviamente eu ia tentar escapar!" Respondi com a cabeça erguida.
"Então agora estamos presos aqui e sem jantar por cima disso, espero que você esteja feliz com as escolhas que fez, bruxa!" Ele também era implacável, chamando-me de bruxa como se fosse um termo depreciativo. Não respondi, deveria ouvi-lo algumas vezes. "Agora não temos escolha, tente se acomodar e dormir até que os orcs apareçam."
"E suas feridas? Não vão piorar?" Perguntei. Ele grunhiu sarcasticamente, mas sem muita força.
"Você forçando empatia é tão tocante."
"Não estou forçando empatia!"
"Uma bruxa preocupada com o bem-estar de um lobo!? Essa é outra história," ele disse, ridicularizando-me.
Era verdade que nossas espécies nunca foram amigas, estava no nosso DNA sermos inimigos, mas isso não significava que eu não quisesse retribuir o favor que ele fez por mim, eu estaria morta agora se ele não tivesse sacrificado suas costelas para me salvar.
"O que posso fazer para pelo menos diminuir sua dor?" Perguntei sem desistir, ele me olhou um pouco surpreso, podia ver que eu estava realmente preocupada com ele.
"Você está pensando em colocar sua magia em mim para me curar? Não sou tão estúpido quanto você pensa. Você não conseguirá usar sua magia negra em mim para me matar, garota bruxa!" Ele disse.
"Meu nome é Alana, chame-me assim," eu disse a ele meu nome, mesmo sem saber o nome dele. Ele permaneceu em silêncio por um tempo, ainda desconfiado, mas refletindo. E mesmo que eu quisesse usar a magia de bruxa para prejudicá-lo, ele podia ficar tranquilo que não havia um grama de magia em mim, pensei com amargura.
"Já disse para você não se preocupar tanto com isso, meu metabolismo se regenera sozinho, e em algumas horas estarei tão bom quanto novo. A única coisa sensata que podemos fazer agora, senhorita, é dormir," ele disse, fechando os olhos novamente e apoiando a cabeça na parede do buraco.
Ainda sentindo o peso na minha consciência, rasguei uma boa parte do tecido do meu vestido longo, juntei tudo e lentamente me aproximei dele, que estava dormindo. Peguei os trapos do meu vestido e coloquei debaixo da cabeça dele para lhe dar um pouco de conforto, só então pude me sentir um pouco menos culpada.