Jason
O aroma familiar de lavanda e terra molhada da floricultura encheu meus pulmões assim que abri a porta. Fazia cinco anos que eu não pisava aqui. A casa estava quase idêntica ao que eu lembrava – acolhedora, cheia de flores por todos os lados. Mas o ar, aquele que me envolvia agora, era mais denso. Parecia que estava voltando no tempo, parece até... com o dia que Clara chegou para morar conosco.
Minha mãe estava ao telefone no balcão da loja, sem perceber minha presença. Seus cachos loiros balançavam conforme ela gesticulava, provavelmente organizando mais uma das suas festas sociais. Minhas amigas de infância estavam ali, rindo, distraídas com alguma conversa animada. Ninguém sabia que eu voltaria hoje. Afinal, elas sempre vem visitar minha mãe, mas o que me intriga é: por quê?
"Surpresa", pensei, deixando um sorriso discreto se formar nos lábios. Embora não fosse sincero.
Antes que eu pudesse me anunciar, ouvi passos leves vindo do corredor. Quando me virei, meu olhar encontrou Clara.
Por um instante, o tempo pareceu parar ao ver aquela que revirou minha vida sem mesmo saber disso.
Ela não era mais a adolescente que eu deixei para trás. Seu corpo estava mais esguio, os cabelos caíam em ondas naturais sobre os ombros, e havia uma serenidade fria em seu olhar que eu não reconhecia. O que mais me surpreendeu foi como seu olhar encontrou o meu – sem desviar, sem medo. Sem dúvidas, não é a mesma garota que eu deixei para trás.
Ela parou na minha frente, surpresa, mas não exatamente feliz. Seu semblante era de desprezo, como se estivesse vendo um fantasma do seu passado.
- Jason? – Sua voz era baixa, quase um sussurro, mas eu pude ouvir a incredulidade e a hesitação. - Que surpresa!
Cinco anos. Cinco anos longe dela e, agora que a tinha de volta, meu peito apertava com algo que eu não queria admitir. Porque Clara era... perigosa. Não só porque ela era bonita, mas porque havia algo nos olhos dela – algo que dizia que as coisas nunca seriam simples entre nós.
Clara
Eu estava ajudando minha madrinha a arrumar alguns vasos quando o vi. Como um fantasma do passado, Jason estava parado ali, na entrada, com aquele meio sorriso convencido nos lábios.
O ar pareceu evaporar dos meus pulmões. A raiva, a confusão e uma pontada de ansiedade se misturaram no meu peito. Ele estava de volta. Justo hoje, no meu aniversário.
Jason.
Os cinco anos que passaram pareciam não ter feito nada para apagar a arrogância dele. O cabelo um pouco mais curto, mas os mesmos olhos cinzentos que me atravessavam, como se ele conseguisse enxergar tudo que eu tentava esconder. Por um momento, senti como se tivesse voltado a ser a garota boba e ingênua que ele adorava irritar.
Mas eu não era mais aquela Clara. Não a que se deixava ser humilhada por ele, como se ele fosse dono da minha vida.
- Você voltou? – Minha voz saiu seca, cortante, antes que eu pudesse controlar.
Ele não pareceu se importar. Ao contrário, o sorriso em seus lábios se alargou.
- Surpresa, princesa.
Aquele apelido. Ele sabia o quanto eu odiava. Mas não permiti que ele visse qualquer reação minha.
Minha madrinha, Helena, largou o telefone e correu para abraçá-lo, gritando de alegria, e as amigas dele se levantaram em um frenesi de risadas e abraços. Enquanto todos o cercavam, eu permaneci imóvel, tentando processar tudo. Suas amigas me dão nojo, cada uma pior que a outra, como se carregassem um rei em seus ventres.
Eu deveria ter me preparado para este momento, mas não estava pronta. Não para lidar com Jason e muito menos com a avalanche de sentimentos que sua volta trouxe. Me recusava a acreditar, mas a mistura de sentimentos deixava claro que não era mais uma de minhas ilusões.
Enquanto ele se movia pela sala, trocando sorrisos e cumprimentos, seus olhos voltaram para mim, demorando um pouco mais do que o necessário.
E foi nesse instante que eu soube: tudo estava prestes a mudar.
Depois dos abraços e risos na sala, fiz o que sempre fazia quando Jason estava por perto: fugi. Subi as escadas com passos firmes e me tranquei no quarto. Precisava respirar e, mais do que tudo, me recompor. Ele não mudou nada. Continuava com aquele jeito prepotente e o olhar penetrante que fazia meu coração bater fora de ritmo.
Eu estava em frente ao espelho, tirando o vestido simples que usava, quando ouvi a porta ranger.
- Clara. – Sua voz me atingiu como um soco.
Minha cabeça virou imediatamente, e ali estava ele, encostado na porta como se nada fosse estranho ou inconveniente.
- O que você está fazendo aqui? – segurei o vestido contra o corpo, sentindo o rosto arder. - Estou nua, será que pode se retirar e respeitar meu espaço?
Ele não respondeu de imediato. Em vez disso, deixou o olhar correr pelo quarto, como se estivesse tomando nota de tudo. Quando finalmente seus olhos cinzentos se fixaram em mim, havia um brilho provocador que eu conhecia bem.
- É assim que você recebe um velho amigo? – Ele sorriu, aquele sorriso torto e irritante que me tirava do sério. - E não tem nada aí que eu já não tenha visto antes.
- Quem te deu permissão para entrar no meu quarto? – Falando dessa forma, parece que a garota medrosa nunca me deixou de verdade.
- Ué, eu morava aqui, lembra?
- Cinco anos atrás. Agora é meu espaço, Jason. Além disso, você tem o seu quarto.
Ele deu um passo à frente, como se quisesse me desafiar, e fechei a porta do guarda-roupa com mais força do que o necessário. Era como se ele estivesse se divertindo com a minha irritação.
- Sabe o que eu achei curioso? – Ele cruzou os braços, como se estivesse à vontade demais para o meu gosto. - Ninguém mencionou que hoje é seu aniversário. Ou será que... ninguém lembra?
Meu estômago revirou, mas me obriguei a manter a expressão firme. Então ele sabia, afinal. E escolheu ignorar, como sempre fizeram.
- Você veio aqui só para me irritar? Porque, se for, parabéns. Conseguiu. E não me importo se não lembrarem. Afinal, é um dia igual aos outros.
Jason riu, e o som baixo e rouco deslizou pela minha pele como uma brisa gelada.
- Você não mudou nada. Continua a mesma garota sensível.
- E você continua o mesmo idiota. Os anos na Marinha não te disciplinou?
Por um momento, o ar entre nós pareceu eletrificado, carregado de palavras não ditas e sentimentos enterrados. Ele deu mais um passo, e agora estava perto demais. Perto o suficiente para que eu sentisse o calor do seu corpo, para que meu coração acelerasse contra a minha vontade.
- Você sempre foi boa com palavras afiadas, Clara – ele murmurou, a voz rouca e baixa. - Mas não esqueça: que dita as regras desse jogo sou eu.
Engoli em seco, tentando ignorar o fato de que meu corpo inteiro estava tenso sob o olhar dele. O Jason de cinco anos atrás era insuportável, mas este... este era diferente. Mais perigoso. Mais importuno e mais descarado.
- Saia do meu quarto. Agora. – Disse brava, como se aquilo fosse adiantar de alguma coisa.
Por um segundo, achei que ele fosse se inclinar ainda mais perto. Havia algo nos olhos dele, algo que eu não conseguia decifrar. Mas então ele sorriu novamente – aquele maldito sorriso confiante – e deu um passo para trás.
- Como quiser, princesa. Até outra hora, boa veremos bastante a partir de hoje.
E com isso, ele saiu, deixando a porta entreaberta e meu coração batendo descompassado.
Jason
Descer as escadas depois de sair do quarto de Clara foi mais difícil do que eu imaginava. Cada vez que nossos olhares se encontravam, algo dentro de mim se agitava, como uma tempestade prestes a explodir.
Ela estava diferente. Crescida, segura de si, mas ainda com a mesma língua afiada. A Clara que eu conhecia jamais teria me encarado daquele jeito. Agora, ela era uma mistura perigosa de força e vulnerabilidade, e eu sabia que deveria manter distância. Sei que a machuque mais do que eu deveria. Ela deveria estar namorando... isso acabaria comigo.
Mas não conseguia.
Quando passei pela cozinha, ouvi minha mãe e as amigas ainda falando sobre mim, como se eu fosse uma celebridade que acabou de chegar na cidade. Fingi que não escutei nada e peguei uma cerveja da geladeira. Minhas amigas... Mulheres insuportáveis, que cresceram, mas ainda continuam as mesmas garotas mimadas de sempre.
- Jason, querido, vamos fazer um jantar para comemorar sua volta! – minha mãe chamou da sala. - Achei que fosse chegar amanhã.
- Claro, mãe. Faz o que quiser. Mas não precisa se preocupar comigo. Não sou nenhuma celebridade.
A verdade era que eu estava pouco me importando com jantares e festas. Só uma coisa me interessava agora.
Clara.
E a expressão dela quando eu entrei em seu quarto. Confusa, zangada, mas com algo a mais. Algo que me fez querer testar limites que eu sabia que não deveria. Limites que eu quase ultrapassei no passado e que foram meus motivos para ir embora. Servir a Marinha.
Clara
Depois que ele saiu do meu quarto, precisei me sentar por alguns minutos para recuperar o fôlego. Meu corpo ainda estava quente, como se a presença dele tivesse deixado uma marca invisível em mim. Como se ele fosse feito de chamas inviáveis que queimam meu corpo sem aviso, mas sempre que chega perto.
- Idiota. – Murmurei para mim mesma, apertando os punhos.
Jason sempre soube exatamente como me desestabilizar. Mas agora era diferente. Ele não era mais o garoto irritante que eu odiava – era um homem perigoso e irresistível, e meu coração estúpido ainda não tinha aprendido a esquecê-lo. Afinal, como se faz para esquecer o primeiro amor não correspondido?
Olhei pela janela e vi que o sol começava a se pôr. Precisava sair de casa, espairecer. Talvez patinar um pouco no rinque antes que ele me enlouquecesse de vez.
Mas, enquanto eu calçava os tênis, a verdade me atingiu: por mais que tentasse fugir, agora que ele estava de volta, não havia como escapar do que eu sempre senti. E pior... Jason sabia disso.
No rinque, o gelo me trazia de volta a realidade, fazendo-me enxergar o perigo que me rodeia.
Jason
Eu deveria estar em casa agora, ouvindo as risadas falsas das minhas antigas amigas e assistindo minha mãe se desdobrar para fazer o jantar perfeito. Era o mínimo que ela podia fazer depois de cinco anos sem saber se eu voltaria vivo. Mas, claro, havia um problema: Clara. Ela não tinha voltado para casa, e minha mãe insistiu para que eu fosse atrás dela no rinque.
"Hoje é o aniversário dela, Jason", minha mãe disse com um suspiro pesado. "Só você e eu lembramos, e eu queria que ela estivesse aqui. Aquela menina já passou por muita coisa sozinha. Não merece passar seu aniversário na solidão mais uma vez". Mais uma vez? Então, quer dizer que os anos que eu passei longe, ela também passou sozinha?
Era difícil dizer não para minha mãe, principalmente quando se tratava de Clara. Suspirei e peguei as chaves. As amigas dela nunca foram muitas, e as minhas - as que estavam em casa agora - eram justamente a razão de Clara preferir fugir em vez de comemorar. Eu sabia disso. Sempre soube. Além disso, nenhuma de suas amigas se fizeram presentes hoje, como sempre!
No rinque, encontrei Clara no meio do gelo, deslizava como se quisesse deixar o mundo para trás. Esperei alguns minutos, observando-a, antes de me aproximar do alambrado.
Seus patins cortam o gelo como ela corta qualquer vestígios de sentimento que ainda tenha por mim. Seus olhos vermelhos eram sinais de choro e dor.
- Clara. - Minha voz cortou o silêncio do lugar.
Ela parou abruptamente e me encarou. Seus olhos verdes estavam mais frios do que eu me lembrava. Rapidamente, ela secou as lágrimas com as costas das mãos e seguiu me ignorando, mas desta vez, parada.
- O que você quer, Jason? Não deveria estar em casa, no aconchego das suas vadias?
- Vim te buscar. Tá tarde. – Respondi bruscamente, sem rodeio e nem mais conversa.
Ela riu, mas não havia diversão na risada.
- E desde quando você se importa comigo? Eu sempre volto sozinha para casa, isso não vai mudar porque você voltou.
- Não me importo. Minha mãe pediu. E, pra sua informação, ela lembrou do seu aniversário.
Os olhos dela brilharam por um instante, mas logo a expressão fechada voltou. Como se nada fizesse mais sentido.
- Que bom. Mais alguém além dela?
- Eu também lembrei - falei, sem emoção. Mas, com um fio de esperança que ela percebesse que não me perdeu.
Clara me lançou um olhar cético e voltou a tirar os patins, como se eu não estivesse ali. Esperei, com paciência. Aprendi a ter paciência para com ele lidar.
Quando ela terminou, jogou os patins na bolsa e se aproximou.
- Não vou voltar com você, Jason. Não quero ver suas amigas. Já basta ter que vê-las quase todos os dias, contra minha vontade.
Suspirei.
- Não vou te pedir duas vezes, Clara.
- Ótimo, porque eu não vou mesmo.
Ela passou por mim, mas lá fora a chuva começava a cair, pesada e gelada. Percebi a hesitação em seus passos lentos e silenciosos.
- Vai mesmo andar na chuva até em casa? - perguntei, a voz baixa e firme. Encostado no corrimão.
- Vou, sim. Prefiro a chuva do que aquele circo na sua casa. Quem sabe, até eu chegar lá, aquelas vadias já tenham ido embora.
O olhar dela me desafiava, como sempre. Mas eu não tinha saído da Marinha para perder batalhas com Clara. Não agora, no meio de uma tempestade.
- Entra no carro, Clara. - Minha voz soou como uma ordem.
- Não recebo ordens de você - ela rebateu, encarando a chuva.
Ela deu dois passos em direção à rua, mas a chuva se intensificou, e eu soube que a vitória era minha. Sem dizer nada, peguei o guarda-chuva no banco de trás e abri.
- Anda logo - falei. - Ou você quer pegar uma pneumonia e morrer?
Clara hesitou, mas por fim soltou um suspiro frustrado e se aproximou. Entrei no carro, e ela fez o mesmo, jogando a bolsa com os patins no banco de trás. Onde iria sentar também.
- Eu ainda não mordo. – Ela hesitou, mas finalmente sentou ao meu lado.
Clara
Eu deveria ter recusado a carona. Deveria ter andado na chuva e ignorado Jason. Mas a verdade é que, por mais que o odiasse, ele era uma solução mais prática do que andar molhada até em casa.
O silêncio entre nós era pesado, e eu tentei me distrair olhando pela janela. O cheiro dele - um misto de chuva e couro - invadiu meus sentidos, e, apesar de mim mesma, meu coração começou a bater mais rápido.
- Minhas amigas estão em casa - ele disse de novamente o que já sabíamos.
Revirei os olhos.
- As mesmas que me fizeram a vida um inferno na escola? Que delícia. Mas vai ser uma pena, não.posso ficar. Não estão esperando por mim.
Ele não respondeu. Jason nunca pedia desculpas. Nunca admitia nada. Era sempre esse bloco de gelo inquebrável.
- Minha mãe preparou um jantar pra você - ele disse depois de um tempo calado. - Ela fez tudo junto, você sabe como ela é.
- Não quero. Não quero nada que envolva ter que suporta pessoas insuportáveis.
Ele soltou um suspiro curto.
- Eu sei que não gosta delas. Nem eu gostava muito, mas faz isso pela sua madrinha. Vê se abandona um pouco dessa ingratidão, Clara.
Aquela frase me pegou de surpresa. Olhei para ele, mas Jason manteve os olhos na estrada, o rosto inexpressivo.
- Se não se importa, então por que estão lá? E para sua informação, não estou sendo ingrata, de forma alguma. Eu só não vou ficar em um ambiente que não me cabe.
- Minha mãe queria que fosse uma comemoração. E você sabe como ela é. Ela só quer te ver feliz também.
Havia um cansaço na voz dele que eu não esperava. Jason parecia... diferente. Não melhor, mas como alguém que havia aprendido a engolir o mundo. E isso.lhe da traços mais frios e arrogante.
O carro parou em frente à floricultura. Como eu pedi ao entrar. A chuva caía forte, batendo contra o para-brisa.
- Vai comemorar seu aniversário aqui? - ele perguntou, o olhar finalmente encontrando o meu.
- Vou. Algum problema?
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, como se ponderasse algo.
- Não, sem problema algum. Feliz aniversário, Clara.
Aquelas palavras, ditas com uma frieza quase mecânica, me atingiram de uma forma que eu não esperava. Por que ele ainda mexe tanto comigo? Por que ainda tem o poder de me deixar nervosa com suas palavras rudes e sem carinho?
- Obrigada, eu acho - respondi, saindo do carro antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.
Por um breve momento, pensei que ele.pidessw me oferecer um guarda-chuva, mas nada saiu e era apenas eu contra o.resto da noite agora.
Jason
Observei-a correr para dentro da floricultura, e algo em mim se apertou. A Clara que eu conheci na infância não estava mais ali. Em seu lugar havia uma mulher que não precisava de ninguém, muito menos de mim.
Girei as chaves no contato, mas não liguei o carro. Em vez disso, fiquei ali por alguns segundos, observando a chuva escorrer pelo para-brisa. Hoje era o aniversário dela, e eu sabia que aquela comemoração na minha casa seria uma piada cruel para Clara. Além disso, eu não quero ter que forçar ela a ficar perto de mim.
Mas, se ela não queria estar lá, por que eu me importava?
Porque, por mais que tentasse negar, Clara sempre foi mais do que a menina da minha infância. Ela era a única coisa constante nos meus pensamentos, a obsessão silenciosa que eu nunca tive coragem de admitir.
E agora, ela estava mais distante do que nunca.
Liguei o carro e acelerei, deixando a floricultura para trás. Mas, no fundo, sabia que essa batalha entre nós estava longe de terminar.
Algo nela parece estar quebrado e ela tenta se esconder, como sempre fez.
Voltei para casa e minha mãe ainda estava lá, com a mão na massa, preparando tudo.
- Onde ela está? - Minha mãe buscou por ela, mas não a viu em lugar algum, então sua feição endureceu e ela cruzou os braços. - Jason, ela ainda é a mesma, só fez crescer. Não vai me dizer que ela não estava no rinque?
- Ela está na floricultura, mãe. Ela disse que quer ficar sozinha, eu não iria impedi-la. Sabe que ela não suporta essas garotas. Afinal, por que estão aqui?
Não havia nada para comemorar, minha volta não era nada de importante, era só mais uma batalha vencida.
- Não sei. Achei que você tinha as convidado. Pensei em fazer alguma coisa por causa da Calar, pensei que pudesse ser apenas nós três. – Seus sussurros são baixos, para que ninguém escutasse, além de mim.
- Não precisa se preocupar com muita coisa. Eu não vou suportar isso por muito tempo. Estou cansado e quero conversa um pouco com a minha querida mãe.
- Jason... Sempre tão carinhoso. Sabia que eu tenho sorte por ter você como.mwi filho? Tenho sorte também pela vida ter me dado a Clara, vocês são tudo para mim.
Clara
O vinho descia quente pela minha garganta, e com ele, cada lembrança dolorosa parecia vir à tona. Como o beijo em que Jason me deu quando eu tinha 16 anos. Meu primeiro e inesquecível beijos, depois daquele dias, aquilo só se repetiu mais duas vezes e até então, são só lembranças.
Estava sentada no chão da floricultura, após tomar um banho quente, na parte onde minha madrinha reconstruiu, - para que eu pudesse passar o dia com ela sem ter que ir para - casa cercada pelas rosas que tanto amava e que, naquele momento, não eram capazes de me trazer conforto algum. Minhas pernas estavam esticadas, e a garrafa de vinho descansava entre elas. A barra do meu vestido subiu, revelando cicatrizes que eu nunca quis que ninguém visse. Marcas que carregavam mais dor do que qualquer palavra que eu fosse capaz de dizer em voz alta. Naquele dia eu estava sozinha, como sempre estive. Desde então, tudo parece uma monótona rotina tediosa, que se prolonga dia pós dia.
Hoje deveria ser um dia de celebração. Vinte e três anos. Mas eu estava sozinha, novamente. Mesmo assim, pedi pizza e vinho, achando que isso seria o suficiente para anestesiar a dor. Mas não era, porque ainda não vendem a cura para dores na alma. Nunca era dor física. Jason tinha voltado, e, por mais que eu tentasse negar, isso mexia comigo. Ele ainda era o dono dos meus pensamentos e de tudo que a mim pertence. A pessoa por quem eu me apaixonei e que nunca retribuiu nada além de arrogância e desprezo. E agora ele estava de volta, frio como uma nevasca, como se nada entre nós tivesse existido. Aliás, qual nós?
Fechei os olhos, deixando as lágrimas escorrerem silenciosamente. A pizza já havia chegado, e a garrafa de vinho estava quase vazia novamente. Só restava a solidão, a mesma que sempre me abraçou em momentos como este. Em momentos que estou sozinha, triste e com vontade de sumir sem aviso. Mas penso em Helena, ela não suportaria me perder, não depois de tudo que vivenciou e eu não quero causar nenhum mal a mulher que me acolheu como minha mãe me acolheria em todos os momentos.
Jason
A chuva caía pesada lá fora enquanto eu dirigia em silêncio. Minha mãe insistira para que eu viesse atrás de Clara. "Está tarde, Jason. Ela não deve voltar sozinha." Eu sabia que ela não gostava das minhas amigas, e que elas eram parte da razão pela qual Clara preferia estar longe. Mas não era apenas isso. Clara sempre foi diferente. Sempre foi... Clara. E eu nunca soube como lidar com isso. Quanto as minhas colegas, fingem ser amigas da minha mãe, enquanto a mesma tenta fugir dos assuntos sempre que tem uma oportunidade.
Parei em uma cafeteria que por sorte ainda estava aberta e comprei um chá de maçã, o preferido dela. Um cupcake com uma vela de 23 anos.
Quando parei em frente à floricultura, uma parte de mim queria ir embora. Eu era péssimo em lidar com sentimentos. Mas outra parte sabia que não podia deixá-la sozinha. Não hoje. Levei o cupcake comigo, um gesto que parecia estúpido, mas era tudo que eu tinha. Uma vela de 23 anos espetada no topo – pequena e solitária, assim como Clara devia estar se sentindo.
Empurrei a porta de vidro com cuidado e entrei, o cheiro doce das flores inundando meus sentidos. E então a vi.
Ela estava sentada no chão, os olhos vermelhos e o rosto molhado de lágrimas. A garrafa de vinho entre suas pernas denunciava o quanto estava embriagada. Mas foi o que vi em suas coxas que me fez congelar: cicatrizes. Longas e profundas, marcas que não cicatrizam com facilidade. O motivo responsável por aquilo é o que agora vai me atormentar. Algo dentro de mim se partiu naquele momento, mas minha expressão permaneceu inabalável.
- Clara. – Tentei não reparar demais, mas tudo nela me atrai.
Ela ergueu a cabeça devagar, piscando como se estivesse tentando entender se eu era real ou fruto da sua mente turva.
- Jason? O que você está fazendo aqui?
A voz dela saiu arrastada, como se o álcool tivesse embotado seus pensamentos. Abaixei-me ao seu lado, deixando o cupcake sobre uma mesa próxima.
- Não podia deixar você passar o aniversário sozinha. Eu sei que sou um idiota, mas as vezes queria me redimir com você. Podemos ser amigos e deixar toda aquelas brigas para trás. – Eu queria muito mais que amizade, mas não a posso fazer isso com ela. Não posso trair ela mais uma vez.
Ela soltou uma risada amarga, e o som me atingiu como um soco.
- Como se você se importasse. - Clara pegou a garrafa e tomou mais um gole, sem me olhar. - Você nunca se importou, Jason. Nunca. Quantas vezes você quis ser meu amigo? Acho que todas as vezes que tentei ser legal com você, você me zoava de alguma forma. Lembra das vezes que me humilhou na frente daquelas suas amigas, para se sentir melhor que eu? As mesmas que estão esperando você agora.
- Não é verdade - falei, a voz baixa, mas firme. - Eu nunca te humilhei na frente de alguém. Você que sempre foi sensível demais. Mas agora eu quero mudar as coisas. Não somos mais aqueles dois adolescentes. Somos adultos agora, Clara. Somos quase irmãos, precisamos nos acertar.
- Então por que agora? - Ela virou-se para mim, e seus olhos estavam cheios de dor e ressentimento. - Por que justo hoje? Porque sua mãe mandou? Pois saiba que não vou. Eu não sou sensível, só acho que qualquer pessoa choraria ao ouvir que é uma órfã inútil, bipolar e rejeitada por todos. Elas riam disso, Jason. E para de fingir que se importa comigo.
Houve um momento de silêncio pesado entre nós. Queria dizer algo, mas tudo parecia insuficiente. Pois ela tem razão em tudo que está dizendo agora. Mas, eu era adolescente, assim como ela também era. Agia por ciúmes e por medo dela se interessar por alguém.
- Eu me importo - repeti, sabendo o quão fraca essa frase soava. - Me importo com você. Por isso estou aqui.
Clara riu de novo, um som quebrado que não combinava com ela.
- Você nunca ligou para mim. Nem quando morávamos juntos, nem quando suas amigas faziam da minha vida um inferno. Você sempre foi frio, distante. E agora volta como se nada tivesse mudado? Acha mesmo que eu vou acreditar que você mudou?
- Talvez porque nada tenha mudado - rebati, cruzando os braços. Minha voz saiu mais dura do que eu pretendia. - Os anos na Marinha me fizeram repensar toda minha vida, credite.
Ela arregalou os olhos, e por um instante, parecia que eu havia atravessado uma barreira que não deveria.
- Você ainda é a mesma garota - continuei, com frieza. - A mesma que acha que todo mundo vai deixá-la sozinha. - Mas eu voltei.
- E você ainda é o mesmo idiota arrogante que acha que pode pisar nas pessoas. - Os olhos dela ardiam de raiva. - Eu te amei, Jason. Eu te amei mais do que qualquer coisa. E sabe o que eu ganhei com isso? Nada.
As palavras dela me atingiram com força, mas eu não deixei transparecer. Estava treinado para isso. Confesso que estou surpreso com tudo que acabei de ouvir, não imaginei que ela me amasse dessa forma. Com tanta intensidade.
- Você acha que foi fácil para mim? - murmurei, apertando a mandíbula. - Acha que eu não senti nada esses anos longe de você?
- Sim, eu acho - ela sussurrou. - Porque você nunca deixou transparecer.
Olhei para Clara por um longo momento, tentando encontrar as palavras certas. Mas como eu poderia explicar algo que nem eu entendia completamente? Como dizer que, mesmo distante, ela sempre esteve presente? Que foi o pensamento nela que me manteve firme em alguns dos momentos mais difíceis da minha vida?
- Eu não sou bom com isso, Clara - admiti por fim. - Mas eu voltei. Não vou te deixar sozinha outra vez.
Ela balançou a cabeça, as lágrimas voltando a escorrer por seu rosto.
- Não quero ouvir suas desculpas. Por favor.
- Não são desculpas. São fatos.
Clara desviou o olhar, como se não pudesse mais suportar a minha presença.
- Por que você está aqui, Jason? - A voz dela era apenas um sussurro.
Eu me inclinei para mais perto, ignorando a distância que ela tentava colocar entre nós.
- Porque, mesmo que você não acredite, eu me importo. Sempre me importei.
- Vai embora. - Ela tentou se afastar, mas eu a segurei pelo braço, firme mas sem machucar.
- Não. Não vou te deixar assim. Não vou te deixar sozinha novamente.
Ela me encarou, seus olhos brilhando de dor e raiva.
- Você não tem esse direito.
- Eu tenho todo o direito - respondi, a voz fria como aço. - Porque, goste você ou não, eu estou aqui. E não vou a lugar nenhum.
Por um momento, tudo que pude ouvir foi o som da chuva lá fora e o ritmo acelerado da nossa respiração. Ela estava quebrada, e eu também, mas de formas diferentes.
Então, algo dentro dela pareceu ceder. Clara se soltou, permitindo-se desmoronar pela primeira vez em muito tempo.
Segurei-a firme, deixando-a chorar no meu peito. A abracei firme, permitindo que ela colocasse para fora, toda sua dor.
Enquanto a chuva continuava a cair lá fora, soube que, pela primeira vez, estava onde deveria estar. E dessa vez, eu não iria a lugar algum.