Vittorio Castellani
A montanha de responsabilidades e tarefas a serem resolvidas parecia interminável sobre a mesa do meu elegante escritório, localizado na bela Sicília.
Estava atento na leitura de documentos importantes, quando fui surpreendido pelo som de batidas na porta, indicando a chegada de minha secretária, Julieta. Ela entrou com cautela, ciente do peso das obrigações que eu carregava. Senti que ela observou-me por um instante, e eu estava certo de que refletia se deveria ou não interromper-me naquele momento delicado.
Ela suspirou e finalmente tomou coragem para falar:
- Desculpe incomodá-lo, Sr. Castellani - murmurou ela, transmitindo que sua intenção não era banal -, mas há um assunto urgente que precisa de sua atenção.
Meu olhar ergueu-se dos papéis e encontrou o dela, carregado de impaciência e descontentamento. No entanto, compreendi que Julieta não me procuraria sem uma razão válida.
- O que é tão urgente que não pode esperar um momento melhor, Julieta? - questionei, minha voz carregada de seriedade e impaciência.
- Henriqueta acabou de ligar de São Paulo - informou Julieta.
- E o que ela queria dessa vez? - perguntei, manifestando meu aborrecimento.
- Ela queria informar sobre os planos de casamento.
- Casamento? Que casamento? - Perguntei de maneira rude - Vá direto ao ponto, Julieta!
- O casamento de Chiara, senhor.
Poucas coisas conseguem me abalar, porém a notícia de que Chiara tinha planos de casamento me pegou completamente desprevenido. Uma sensação de traição invadiu meu peito. Traição é algo muito grave para nós. Uma mistura de raiva e decepção tomou conta dos meus pensamentos, e eu mal conseguia acreditar que Chiara cogitou a possibilidade de fazer algo sem o meu prévio consentimento.
Sem conseguir me conter, levantei-me de minha poltrona e comecei a caminhar de um lado para o outro, tentando encontrar uma maneira de lidar com essa situação.
Julieta permaneceu em silêncio, compreendendo minha turbulência emocional. Ela sabia que qualquer palavra poderia ser interpretada de forma errada naquele momento.
Logo dispensei Julieta com uma ordem firme e implacável:
- Providencie um voo para São Paulo o quanto antes. Eu irei pessoalmente acabar com esses planos de casamento.
Ela assentiu sabendo que não havia espaço para questionamentos e partiu rapidamente para cumprir a minha ordem, consciente da extrema delicadeza daquele assunto.
Enquanto o avião cruzava os céus em direção a São Paulo, eu revirava em minha mente todas as possibilidades. Ninguém iria se aproveitar da minha afilhada, eu iria garantir isso pessoalmente. Afinal, Don Antonio me deixou com essa responsabilidade e eu não iria falhar com uma pessoa que foi tão importante para mim.
Fui diretamente do aeroporto para a mansão onde Chiara morava desde que eu assumi os cuidados com ela, cinco anos atrás. Hoje com vinte anos, ela ainda está sob a minha responsabilidade e não fará nada sem o meu consentimento. Afinal, eu sou seu tutor e administro todos os bens deixados em seu nome.
- Senhor Castellani! - Henriqueta falou com grande surpresa - O que faz aqui?
Eu encarei a senhora a quem eu deixara responsável diretamente pelos cuidados com Chiara e senti dificuldade em controlar meu temperamento ao falar com a mulher em quem tanto confiei durante anos.
- Como isso aconteceu, Henriqueta? Diga-me como eu só estou sabendo agora que Chiara pretende casar-se?
Meu tom foi duro e cheio de frieza. Eu não pouparia a mulher, uma vez que ela foi ineficiente em suas obrigações para comigo.
- Senhor Castellani, sinto muito. Não imaginei que ela fosse capaz de fazer algo assim - murmurou Henriqueta, com lágrimas nos olhos.
Ela tentou se desculpar, seus olhos marejados denunciavam sua angústia. Explicou que Chiara estava sempre mentindo para ela, escondendo seus encontros clandestinos com a desculpa de estar estudando, e que apenas no dia anterior ela tomou conhecimento sobre o fato.
Eu, embora ainda indignado, entendi que a jovem encontrou formas de enganar a todos e seguir com seus planos sem que eu ou Henriqueta suspeitássemos.
Suspirei, sentindo-me desgastado pelas emoções conflitantes. Sabia que agora não era o momento de buscar culpados, mas de resolver a situação com a minha tutelada.
- Onde está Chiara? - questionei, decidido a enfrentá-la pessoalmente.
Henriqueta informou que Chiara havia saído com a desculpa de que iria resolver alguns assuntos da faculdade. Em meu escritório na mansão, analisei a situação com cautela.
Quando Chiara finalmente retornou à mansão, Henriqueta foi imediatamente ao meu encontro para me informar sobre o fato. Pedi a ela que dissesse que não havia a mínima possibilidade de Chiara fugir de mim desta vez.
O tempo parecia se arrastar, e mais de vinte minutos se passaram. Eu estava prestes a levantar de minha cadeira e procurar Chiara por toda a casa para finalmente confrontá-la.
Lembrei-me de todas as vezes em que Chiara agiu de forma evasiva, sempre se esquivando de falar comigo e apresentando desculpas para evitar me encontrar. Mas dessa vez, as coisas seriam diferentes das tentativas anteriores em São Paulo. Hoje estou decidido a encarar Chiara cara a cara, não importa o que aconteça.
Finalmente, ouvi passos se aproximando e uma leve batida em minha porta.
- Posso entrar? - indagou Chiara ainda do lado exterior.
-Sim! - Eu autorizo sem conseguir conter a irritação em minha voz.
Fiquei genuinamente surpreso com a garota à minha frente. Eu não fazia a menor ideia do quanto Chiara era bela e o quanto ela havia mudado nos últimos anos. Na verdade, ela era espetacularmente linda e me afetou de maneira inesperada. Eu não esperava reagir dessa forma diante daquele fato. Respirei fundo, buscando recuperar o controle das minhas emoções antes de falar.
- Henriqueta avisou que desejava falar comigo.
-Sente-se- A minha voz soou firme e séria e Chiara logo atendeu ao comando - Eu vim até aqui para falar sobre a sua ideia de casamento, Chiara.
Chiara pareceu vacilar por um momento, mas logo seu olhar se tornou desafiador.
- Não entendo o que há para discutir, Vittorio Castellani. É a minha vida, e eu decido o que fazer.
Não me deixei abalar pelas palavras, mesmo que estivesse me sentindo estranhamente desconcertado naquele momento.
- Você é minha tutelada, Chiara, e ainda tem muito a aprender sobre a vida e sobre as consequências de suas escolhas. Esse casamento pode ter implicações que você nem imagina - disse com firmeza.
Chiara revirou os olhos, parecendo irritada com a insistência.
- Eu não preciso do seu consentimento para me casar, Vittorio. Eu tenho idade suficiente para tomar minhas próprias decisões.
Olhei nos olhos de Chiara e respondi com determinação:
- Eu não posso impedi-la de se casar, mas quero que saiba que estou aqui para orientá-la e protegê-la. Se você precisa se casar para ser feliz, eu espero que seja realmente o melhor para você. Mas, saiba que a partir do momento em que concretizar essa decisão, não mais terá direito a nada do que vem usufruindo desde que nasceu.
Os olhos de Chiara se arregalaram diante do que ouviu e ela pareceu demorar alguns segundos para processar a informação.
- Isso é algum tipo de brincadeira, Vittorio? Você está inventando tudo isso para me impedir de casar? - Chiara retrucou com uma mistura de incredulidade e raiva.
Mantive a tranquilidade, mesmo diante do tom acusatório de Chiara.
- Não é uma brincadeira, Chiara. E não estou tentando proibi-la de se casar. Porém, até que complete vinte e um ano, não poderá se casar ou perderá todos os benefícios que desfrutou até agora - respondi com seriedade.
Ela estava visivelmente abalada, mas sua obstinação não diminuiu. Chiara se levantou e me encarou de forma desafiadora.
- Então, o que você está tentando fazer, afinal? Quer me manipular para desistir do casamento? O dinheiro é meu! Minha mãe deixou para mim, e você não pode me tirar isso! - Chiara retrucou, apontando o dedo para mim.
Suspirei e tentei conter-me com grande dificuldade. Qualquer outra pessoa que estivesse agindo como Chiara estava, não iria receber a mesma cortesia da minha parte. Poucos teriam essa coragem, também.
- Está enganada, Chiara. Débora não tinha um centavo. Era uma pobre coitada até você nascer.
- Está mentindo! - Ela gritou de maneira desafiadora.
- Acredite no que quiser, mas saiba que a verdade está à sua frente. Sua mãe não tinha fortuna para deixar para você. Todo esse conforto com o qual está acostumada será perdido no momento em que discordar de mim - declarei com firmeza, olhando fixamente nos olhos dela.
Chiara parecia chocada com as palavras que acabara de ouvir. Seus olhos oscilavam entre raiva e incredulidade, como se estivesse lutando para assimilar a realidade que estava se desdobrando diante dela.
- Isso não pode ser verdade. Minha mãe sempre disse que tínhamos dinheiro guardado, que eu seria bem cuidada, que... - Chiara começou a dizer, mas eu a interrompi.
- Sua mãe disse muitas coisas para te proteger e te dar uma sensação de segurança. O dinheiro que existe nunca pertenceu a Débora. Está sob o meu controle, e é assim que vai permanecer até que você demonstre maturidade o suficiente para lidar com ele de forma responsável - afirmei com calma, mas sem recuar.
Chiara estava visivelmente abalada. Sua postura desafiadora começou a ceder, e ela afundou na cadeira, parecendo desamparada e perdida.
- Não entendo por que está me tirando tudo agora. Por que está agindo assim comigo? - Chiara murmurou, quase em um sussurro - Se o dinheiro que me cerca não pertence a minha mãe, a quem mais?
Respirei fundo. Aquela era uma pergunta que ainda não poderia ser respondida.
- Não quero controlar sua vida, mas você é jovem, impulsiva e inexperiente. Eu só estou tentando protegê-la, mesmo que você não compreenda isso agora - expliquei com sinceridade.
Ela pareceu refletir sobre as palavras que eu havia dito. A tensão no ambiente era palpável.
- Então, o que espera que eu faça? - Chiara perguntou finalmente, sua voz um misto de resignação e confusão.
Eu a encarei diretamente com uma expressão séria.
- Se você está determinada a seguir com o casamento, tudo bem, é uma escolha sua. Mas eu não vou aceitar que você tome decisões impulsivas e se arrependa no futuro.
As minhas palavras pareceram atingir Chiara como um soco emocional. A sua expressão era de choque e extremo desgosto.
- Essa é sua última palavra?
- Sem dúvida alguma.
Chiara
Deixei o escritório de Vittorio Castellani com um misto de confusão e frustração. A revelação de que eu não era uma herdeira me atingiu como um soco no estômago. Subi as escadas apressadamente, mal cumprimentando Henriqueta, que parecia esperar por mim.
Estava zangada com ela, acreditando que foi ela quem correu para contar ao arrogante Vittorio sobre meus planos de casamento com Rafael. A traição dela era algo que eu não estava pronta para perdoar tão facilmente.
Desabei em minha cama como uma tempestade, uma demonstração da garota mimada que, admito, sempre fui. Minha vida tinha sido repleta de privilégios, frequentando as melhores escolas de São Paulo e morando em uma luxuosa mansão no Jardim Pinheiros. Era difícil negar que minha vida tinha sido envolta em conforto. Mas agora, a lembrança de minha mãe apertava meu coração.
Minha mãe, uma figura estranha em minha vida, nunca mencionou nada sobre meu pai, afirmando que foi um encontro casual, algo sem compromisso. Essa história me fez acreditar que ela era a responsável por todas as despesas. Nunca questionei o fato de ela não trabalhar. Por que nunca parei para pensar sobre a fonte de renda de nossa família? Éramos só nós duas, já que minha mãe era filha única e meus avós faleceram quando eu era criança.
Quando Vittorio veio até nossa casa após o funeral de minha mãe, eu estava emocionalmente devastada para realmente entender suas palavras. Tudo o que eu conseguia captar era que ele se tornaria meu responsável legal a partir desse dia. Uma decisão tomada com o consentimento da minha mãe. Eu presumi que minha ela confiava naquele homem.
Hoje, percebo o quanto fui ingênua e negligente durante todos esses anos, desfrutando das benesses sem sequer considerar de onde vinham ou por quê. Agora, as respostas que eu nunca busquei estão sendo jogadas na minha cara, e eu me sinto completamente perdida.
Meu celular tocou, exibindo o número de Rafael. Se fosse em qualquer outra circunstância, eu teria atendido a ligação ansiosamente. Porém, agora, eu apenas assisti a chamada se transformar em caixa postal. Eu não sabia o que dizer a ele.
Seguir em frente com meu desejo de me casar com Rafael significaria abrir mão de minha estabilidade financeira. Poderia fazer isso, mas tínhamos planos de construir um negócio juntos. Apenas pensar nisso apertava meu peito, uma dor profunda.
Rafael, meu amor. Ele era lindo, gentil e carinhoso, tudo o que eu sempre sonhei. Após anos de solidão, apenas com Henriqueta ao meu lado, ele preencheu os vazios em minha vida.
A raiva tomou conta de mim novamente. Vittorio Castellani, o homem que eu desprezava, estava mais uma vez desfazendo meus sonhos e planos. Recordar que, quando o conheci aos quinze anos, achei-o fascinante e imponente, deixou-me com um gosto amargo.
Eu aguardei ansiosamente por seu retorno, mas ele não apareceu nos três anos que se seguiram. Ele foi designado para cuidar de mim, mas não se importou em verificar pessoalmente como eu estava. Acompanhei-o pela mídia, sempre cercado por mulheres bonitas. Vittorio era um mulherengo, e eu não passo de um estorvo para ele.
A frustração e a raiva dentro de mim atingiram um ponto de ebulição. Sem pensar duas vezes, levantei-me da cama e entrei em meu closet com uma determinação furiosa. As roupas penduradas e arrumadas cuidadosamente em cabides pareciam zombar de mim. Com um movimento de desafio, arranquei as peças uma a uma, lançando-as desordenadamente no chão.
Fui implacável, agarrando cada peça de roupa, cada lembrança de minha vida privilegiada, e jogando tudo no chão com uma mistura de desespero e rebeldia. Camisetas, vestidos, calças caras e sapatos elegantes formaram uma confusão caótica em torno de mim.
Mas, no meio desse caos, uma ideia começou a se formar em minha mente. A raiva e a determinação se transformaram em um plano ousado. Peguei uma mala do canto do closet e comecei a selecionar algumas peças de roupa. Cada peça escolhida representava minha independência e minha vontade de tomar minhas próprias decisões.
Eu não iria me submeter às ordens de Vittorio Castellani, um homem que não tinha nenhuma relação real comigo, exceto pelo fato de ser o responsável legal que apareceu do nada. Ele não tinha o direito de governar minha vida e minhas escolhas.
Eu estava decidida a agir. Peguei meu celular e disquei o número do Rafael. Ele atendeu após alguns toques, sua voz me acalmando instantaneamente.
-Meu amor, estava com saudades de ouvir a sua voz - Rafael disse em tom carinhoso
- Precisamos conversar. Agora - declarei, minha voz soando firme e decidida.
-Claro, onde você está? Eu vou até aí - ele respondeu prontamente.
- Não, Rafael. Eu vou até você. Estarei aí em breve.
Desliguei o telefone e fechei a mala com um estrondo. Peguei a mala e saí do quarto, descendo as escadas com uma determinação que eu nunca havia sentido antes.
Henriqueta me olhou com surpresa quando passei por ela em direção à porta da frente.
- Onde você está indo, Chiara? - ela perguntou, preocupada.
- Vou sair por um tempo, Henriqueta. Não se preocupe, eu estarei bem - respondi, tentando acalmar sua preocupação.
Eu não tinha certeza de como tudo isso iria se desenrolar, mas uma coisa era certa: eu não iria mais ficar à mercê das decisões de Vittorio. Eu estava determinada a reivindicar minha independência e a lutar pelo meu próprio destino.
- Essa não é uma boa ideia - Henriqueta parecia realmente acreditar que não - Não pode desafiar o senhor Castellani dessa forma, menina.
- Se você tem medo dele, eu não tenho nenhum pouco. Até mais.
Fui até a garagem e escolhi um dos carros que estavam disponíveis. A minha mãe colecionava carros e tínhamos seis deles em nossa garagem, algo que sempre me chamou atenção. Sem falar no fato de ela sempre estar trocando de modelo. As cores também, sempre eram bastante variadas. Eu até mesmo cheguei a comentar que ela parecia estar tentando enganar algum investigador, mas ela apenas riu e eu não pensei mais sobre esse assunto. Agora aquele detalhe novamente estava em minha mente.
Pensava sobre isso quando cheguei ao enorme portão da propriedade e aguardei que um dos guardas liberasse a minha saída, algo que não aconteceu. Esperei cinco minutos contados. Abri a janela, mas nenhum deles parecia notar a minha presença.
- Qual o problema? - Perguntei em voz alta, me fazendo ouvir mesmo a distância - Por que ainda não abriram o portão?
- Ordens do senhor Castellani.
Não é possível! Vittorio não tem palavra? Ele disse que eu poderia tomar as minhas próprias decisões e agora pretende me prender dentro da propriedade?
- Ele não pode me prender aqui! - Gritei com descontrole - Isso é cárcere privado!
Além do guarda que expôs as ordens do seu patrão, também estavam mais dois homens; Um deles se aproximou mais do veiculo e me encarando com uma expressão de seriedade extrema, ele explicou:
- Na verdade, o senhor Castellani não proibiu a sua saída, senhorita. Pode sair quando desejar. Mas...
- Então abram o portão! - Gritei, o interrompendo.
O homem mostrou o seu desagrado com a interrupção, me encarndo com um olhar visivelmente contrariado. Somente neste momento me dei conta do quanto os seguranças da casa parecem... ameaçadores.
- A senhorita pode sair. Os carros, não.
Encarei o guarda com incredulidade. Então, eu não posso usar nem mesmo um dos carros? Haha! Se Vittorio pensa que isso me fará mudar de ideia, ele está muito enganado.
- Não tem problema - falei para os homens, já descendo do carro e pegando a mala no banco de trás - Eu vou chamar um táxi.
Chiara
Pressionei a campainha do apartamento de Rafael, sentindo um nervosismo inquietante. Embora estivéssemos noivos, nunca compartilhamos a mesma cama. O fato de eu estar ali com uma mala indicava que esse cenário estava prestes a mudar, e a simples ideia me deixava com um frio na barriga.
- Meu amor! - Rafael exclamou com entusiasmo enquanto abria a porta e me envolvia num abraço forte - Entra!
Me afastei dos seus braços e apontei para a mala ao meu lado.
- Você pode pegar isso para mim? - pedi, seguindo em direção ao interior do pequeno apartamento - Estou exausta. Tive que carregar essa mala até aqui.
Escolhi uma mala grande, pois, honestamente, não tenho ideia do que o futuro me reserva. A única certeza que eu tenho é de que não podia mais ficar em um lugar onde estavam tentando controlar meus desejos. Sou adulta e tenho o direito de fazer minhas próprias escolhas. Vittorio está muito enganado se pensa que pode ditar minha vida.
- O que está acontecendo? - Rafael indagou, deixando a mala no meio da apertada sala - Porque trouxe uma mala?
Me joguei nos braços de Rafael, sentindo um alívio ao estar no calor reconfortante dele. Contei tudo sobre a discussão acalorada que tive com Vittorio a respeito das minhas escolhas e da nossa decisão de nos casar.
Rafael me envolveu com ternura, acariciando meus cabelos enquanto ouvia atentamente minha história. Sua expressão se fechou quando mencionei que Vittorio havia ameaçado cortar todos os meus benefícios financeiros, deixando-me em uma situação difícil.
- Não posso acreditar que ele faria algo assim - disse, com uma mistura de preocupação e indignação. - Isso é injusto, Chiara. Você tem o direito de tomar suas próprias decisões e viver a sua vida da maneira que escolher.
Era reconfortante ouvir suas palavras de apoio. Rafael era meu porto seguro, alguém em quem eu podia confiar plenamente.
- Rafael, eu não sei de onde vem o dinheiro que mantém todas as contas e despesas em dia - eu admiti, franzindo a testa. - Nunca questionei, pois sempre foi assim desde que me lembro.
Ele franziu o cenho, pensativo.
- Isso é estranho. Você precisa saber de onde vem esse dinheiro, Chiara.
Rafael segurou meu rosto com carinho, seus olhos fixos nos meus.
- Vamos investigar isso melhor. Talvez seja hora de contratar um advogado e descobrir o que está acontecendo. Você merece ter controle sobre a sua vida e o seu futuro.
Balancei a cabeça, ainda tentando assimilar todas as informações e opções. Era um passo ousado, mas senti que era a hora de tomar as rédeas da minha própria história.
- Você tem razão, Rafael. Não vou permitir que Vittorio ou qualquer outra pessoa me impeça.
Rafael sorriu, orgulhoso, e segurou minha mão com firmeza.
- Conte comigo, meu amor. Vamos descobrir a verdade e fazer o que for necessário para garantir que você tenha o controle que merece.
Naquele momento, senti uma determinação renovada crescer dentro de mim. Nós permanecemos abraçados, sentindo o calor reconfortante um do outro enquanto o sol começava a se pôr, pintando o céu com tons alaranjados e dourados.
Rafael olhou nos meus olhos e sorriu.
- Que tal irmos ao cinema esta noite? - ele sugeriu, com um brilho travesso nos olhos.
Eu retribuí o sorriso e assenti.
- Claro, adoraria.
A noite no cinema foi maravilhosa. Rimos, nos envolvemos na trama do filme e compartilhamos um balde gigante de pipoca. O tempo voou e logo estávamos voltando para casa, mãos dadas e corações leves.
Ao chegarmos ao apartamento, Rafael me abraçou pela cintura, puxando-me para perto. Nossos lábios se encontraram em um beijo doce e apaixonado, enchendo o ambiente com eletricidade.
No entanto, enquanto o beijo se aprofundava, Rafael começou a ousar nas carícias, suas mãos explorando áreas mais íntimas do meu corpo. Senti um leve desconforto e me afastei delicadamente.
- Rafael, eu... - comecei, buscando as palavras certas.
Ele me olhou, um tanto surpreso com minha reação.
- O que houve, Chiara?
Respirei fundo, tentando expressar meus sentimentos da melhor maneira possível.
- Rafael, eu te amo. E sei que estamos noivos, pensando em nos casar. Mas, essa é uma etapa importante, e eu ainda não me sinto pronta para dar esse passo. Precisamos respeitar o meu tempo.
Rafael pareceu frustrado e soltou um suspiro.
- Chiara, nós já estamos noivos, e isso significa que estamos comprometidos em todos os sentidos. Eu pensei que você estivesse pronta para isso.
Balancei a cabeça, com a compreensão de que ele estava desapontado.
- Eu entendo, Rafael, mas é uma decisão que eu preciso tomar quando me sentir confortável. Não podemos apressar as coisas.
Ele se afastou um pouco, cruzando os braços.
- Parece que você ainda tem medo de confiar em mim completamente.
Minha expressão suavizou enquanto eu segurava suas mãos.
- Não é uma questão de confiança, é uma questão de respeito pelo meu próprio ritmo. Eu te amo, Rafael, mas preciso que você entenda isso.
Ele olhou para mim por um momento, seu olhar oscilando entre frustração e compreensão.
- Tudo bem, Chiara. Vamos fazer do jeito que você achar melhor.
Eu sorri, aliviada por sua compreensão.
- Obrigada, Rafael. Isso significa muito para mim.
Embora um clima de tensão pairava no ar por um momento, eu sorri e o beijei levemente, tentando manter as coisas mais leves.
- Vamos dormir? - O convidei, pois agora estava realmente cansada.
Foram tantos os acontecimentos daquele dia, que era como se o meu confronto com Vittorio já fizesse bastante tempo e não apenas algumas horas.
- Melhor eu dormir no sofá - Rafael me surpreendeu ao dizer - Não acho uma boa ideia dormir na mesma cama que você. Ao menos, não por enquanto.
O restante da frase ficou subentendido e confesso que isso me deixou um tanto quanto desapontada com Rafael. Sorri, fingindo compreensão.
- Está bem. Até amanhã, Rafael.
Eu fiquei ali por um momento, observando Rafael se afastar e se acomodar no sofá. Uma sensação de desânimo tomou conta de mim, mas eu sabia que precisava respeitar o espaço dele também. Ainda assim, não pude deixar de me sentir um pouco magoada com a decisão que ele tinha acabado de tomar.
Caminhei até o quarto e me deitei sobre a cama larga, encarando o teto por um tempo. Meus pensamentos estavam confusos e tumultuados. Eu realmente amava Rafael, mas esta noite tinha mostrado que temos diferentes perspectivas sobre a intimidade e a velocidade em que nossa relação estava evoluindo.
A situação toda voltou a minha mente e a imagem de Vittorio se sobrepõe a todo o restante. Eu o odeio, mas a atração que sinto por ele ainda está aqui. Toquei os meus lábios com as pontas dos dedos, recordando a forma como ele falava e o quanto a sua boca despertava em mim emoções e desejos proibidos.
"Eu só estou tentando protegê-la, mesmo que você não compreenda isso agora" Essas palavras despertaram a minha atenção. Ele quer me proteger? Ele está tentando me privar da felicidade que posso encontrar ao lado do homem que amo e isso não é proteção.
"você é jovem, impulsiva e inexperiente..."
Se as minhas fantasias fossem levadas em consideração, eu não seria tão inexperiente assim, pensei com malícia e logo me repreendi. Vittorio é meu inimigo e não posso pensar nele dessa forma.
Lentamente, fechei os olhos e tentei acalmar minha mente. Uma garota como eu jamais iria despertar o interesse de um homem como Vittorio e a maior prova disso é que mesmo sendo o meu tutor, ele me abandonou sozinha em São Paulo durante anos e isso eu jamais vou perdoar.
Eventualmente, a exaustão da noite emocionalmente intensa começou a me dominar, e eu me vi caindo no sono.