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Meu querido vizinho

Meu querido vizinho

Autor:: Gabriela.B
Gênero: Jovem Adulto
Ele é arrogante, convencido e intrometido, mas... capaz de alimentar qualquer fantasia! Por vezes, a cura para um coração partido pode estar na porta ao lado... Eu sofri uma das piores traições: o meu namorado trocou-me por outra. Foi avassalador, mas aprendi com os erros e decidi nunca mais confiar em ninguém... até o meu caminho se cruzar com o do Damien. Pouco depois de me mudar para o meu novo apartamento, conheci o meu carrancudo (e delicioso) vizinho do lado, bem como os seus companheiros de casa, dois rottweilers barulhentos. Por partilharmos uma parede, a privacidade é inexistente. Quer isto dizer que ele consegue ouvir todas as minhas conversas privadas... e ainda rir-se delas! Quando lhe bati à porta para pedir satisfações, os cães dele atacaram-me (aparentemente, o meu cheiro inebriante levou-os à loucura). Mas o Damien foi bastante carinhoso, pediu desculpa e pôs fim à nossa quezília. Depois disso, o que começou como uma briga de vizinhos transformou-se em muito mais. A química entre nós é palpável, mas, por alguma razão, o Damien é ainda mais esquivo do que eu no que toca a relações sérias. Sinto que está a esconder-me algo e que quer afastar-me com a conversa de sermos apenas «bons» amigos. Será que ele vai confiar em mim e revelar os seus medos?

Capítulo 1 PRÓLOGO

Quando seu carro parou do lado de fora do nosso apartamento, senti a tensão. Eu sabia. As últimas semanas

haviam sido como se uma tempestade estivesse se formando lentamente. Não me pergunte como, mas, por

algum motivo, meu coração sentia que esta era a noite em que ele se partiria em um milhão de pedaços.

Ele estava se partindo aos poucos, de qualquer jeito.

Elec não era o mesmo desde que voltara do funeral do pai em Boston, algumas semanas atrás. Alguma coisa

o havia modificado. Ele tinha todas as desculpas para não dormir comigo. Isso mesmo. Meu namorado – o

amor da minha vida –, com seu apetite sexual voraz, de repente deixou de me querer. Era como se um

interruptor tivesse sido acionado dentro dele. Essa foi a primeira pista, mas havia outros sinais de que o cara

que eu achava que era minha alma gêmea tinha, de alguma forma, deixado de me amar.

Desde sua volta, ele passava as noites escrevendo como um maníaco em vez de ir para a cama – qualquer

coisa para me evitar. Seus beijos, que costumavam ser cheios de paixão, agora eram só ternos, às vezes castos.

Embora eu soubesse o que estava acontecendo, não tinha ideia de como ou por que acontecia. Acreditava

que ele me amava. Tinha sentido isso por muito tempo. Era autêntico. Como as coisas podiam mudar tão

rápido?

A porta se abriu lentamente. Meu corpo enrijeceu quando me sentei na beira da cama, me preparando para o

pior.

Elec tirou os óculos, deixou-os sobre a mesa. Depois, lentamente e nervoso, enfiou as mãos nos bolsos. Eu

duvidava de que algum dia voltaria a sentir aquelas mãos acariciando meu corpo de novo. Seus olhos estavam

vermelhos. Ele estava chorando no carro? Então, vieram as palavras que começaram a esgarçar toda confiança

que eu tinha em meu julgamento.

- Chelsea, por favor, saiba que tentei de tudo para não te machucar.

O resto foi uma confusão, tudo encoberto pela enormidade da dor e da tristeza que cresciam em meu peito e

entorpeciam meu cérebro.

Eu não sabia como me recuperar dessa dor ou como voltaria a acreditar no amor. Porque eu realmente

acreditei que ele me amava. Acreditei que o amor era indestrutível.

Estava errada.

AUDIÇÃO SUPERSÔNICA

Minha irmã mais nova é a rainha do drama. Literalmente. Jade é atriz na Broadway.

Ela bateu palmas, aplaudindo os estudantes que se apresentaram corajosamente para o teste de Joseph and

the Amazing Technicolor Dreamcoat.

- Vocês todos fizeram um ótimo trabalho! Amanhã distribuiremos os papéis e faremos nosso primeiro

ensaio. Vai ser demais!

Jade tinha vindo à Bay Area visitar nossa família durante a semana e se ofereceu como voluntária no Centro

da Juventude onde eu trabalhava. Como não havia tempo suficiente para produzir uma peça inteira, ela decidiu

dirigir as crianças em uma cena-chave do musical que seria apresentado no final da semana.

Eu amava meu trabalho como diretora de artes no Centro da Juventude. Era basicamente a única coisa que ia

bem na minha vida. A única desvantagem era o fato de essas paredes serem assombradas pelas lembranças do

meu ex, Elec, que foi conselheiro dos jovens aqui. Nos conhecemos assim. Ele também amava o trabalho, até

que se demitiu para poder se mudar para Nova York depois que terminamos. Elec se mudou para ficar com ela.

Balancei a cabeça para afastar os pensamentos sobre ele e Greta.

Jade pegou a bolsa.

- Preciso voltar para sua casa para usar o banheiro e comer alguma coisa.

Eu tinha acabado de me mudar para um apartamento novo que ficava a poucos quarteirões do meu trabalho.

O contrato do lugar que eu alugava com Elec do outro lado da cidade finalmente havia vencido. Mesmo que

meu ex tenha mandado metade do aluguel até o fim do contrato depois de ter se mudado, eu mal podia esperar

para sair daquele lugar; cada canto me lembrava dele e dos meses infelizes que se seguiram ao nosso

rompimento.

Meu apartamento ficava na área centro-sul do Mission District. Eu adorava a cultura do meu novo bairro.

Hortifrútis e uma variedade de bares se perfilavam nas ruas. Ali também era uma meca para a cultura latina, o

que era ótimo, exceto pelo fato de me lembrar Elec, que era meio equatoriano. Pequenas lembranças do cara

que partiu meu coração estavam em toda parte.

Jade e eu andamos pela calçada e paramos em uma barraca de frutas para ela comprar algumas papaias para

um smoothie que planejava fazer à tarde em casa. Também acabamos comprando dois cafés para viagem.

Levantei a tampa do meu café enquanto caminhávamos.

- É, maninha, nunca pensei que estaríamos na mesma situação ao mesmo tempo.

O namorado músico de Jade havia terminado com ela recentemente.

- Verdade. Mas a diferença é que sinto que tenho muito mais distrações que você. Não é que eu não pense

em Justin. Não é que eu não fique triste, mas minhas apresentações me deixam tão ocupada que é quase como

se eu não tivesse tempo de me afundar nisso, sabe?

- Eu contei que estou fazendo sessões de terapia por telefone, não contei?

Jade tomou um gole de café e balançou a cabeça.

- Não.

- Então. Encontrei uma psicóloga especializada em términos de relacionamentos, mas ela está no Canadá.

Enfim, fazemos sessões por telefone à noite, uma vez por semana.

- Está ajudando?

- Conversar sobre as coisas sempre ajuda.

- É, mas não me leve a mal, você não parece melhor por isso. De qualquer maneira, você pode conversar

com a Claire ou comigo. Não precisa pagar caro para falar com uma estranha.

- Eu só tenho tempo para falar com alguém à noite. E você está se apresentando à noite e Claire está muito

envolvida com seu momento de recém-casada feliz. Além disso, ela nunca teve uma decepção amorosa. Ela

escuta, mas não entende.

Nossa irmã mais velha, Claire, se casou com o namorado do ensino médio. Sempre fomos próximas durante

nossa vida em Sausalito, mas sempre me senti mais confortável me abrindo com a Jade.

Quando chegamos ao prédio, minha irmã parou para sentar em um dos bancos no canto do pátio limitado

por uma cerca.

- Vamos sentar um pouco, terminar o café. - Ela olhou para o vizinho sem camisa do outro lado do

gramado. - E aí... quem é o gato de touca desfigurando a propriedade?

- Qual é o seu lance com toucas?

- Justin costumava usar uma. É por isso que gosto. Não é triste?

- É triste.

- Disse a garota que ainda dorme com a camiseta do ex.

- É confortável. Não tem nada a ver com o Elec - menti. Foi a única coisa que me permiti guardar dele. A

camiseta me deixava triste, mas eu a usava mesmo assim.

- E aí... quem é o cara?

Eu não sabia o nome do vizinho, mas o via de vez em quando desenhando com tinta spray na parede de

concreto que cercava a propriedade. Era uma tela imensa. Sua pintura em spray era arte de verdade, não o que

se poderia chamar de grafite comum. Era uma mistura elaborada de imagens celestes e geográficas. Esse cara

continuava gradualmente adicionando diferentes obras de arte à parede. Era um trabalho em andamento. Eu só

podia presumir que ele planejava pintar toda a circunferência da propriedade, tanto quanto o espaço da parede

permitisse.

- Ele mora no prédio ao lado do meu, na verdade.

- O que ele está fazendo? Isso é permitido?

- Não sei. A primeira vez que o vi por aqui, achei que estava vandalizando a propriedade. Mas ninguém

parece se importar ou impedir. Todos os dias ele adiciona alguma coisa ao mural. É realmente muito bonito,

mas isso não combina com a personalidade dele.

Jade soprou o café.

- Como assim?

- Ele não é muito legal.

- Você já falou com ele?

- Não. Ele não é simpático. Tentei fazer contato visual, mas ele passou direto. Ele sai para passear todas as

manhãs com dois cachorros bem bravos que latem o tempo todo.

- Talvez ele seja tipo um savant. Sabe, alguém muito bom com arte. Ou um gênio, mas com habilidades

sociais limitadas. Como é o nome disso... síndrome de Asperger?

- Não, ele se comunica muito bem. Eu o vi gritando com algumas pessoas. Tenho certeza de que ele não

tem isso. O cara só não é simpático. Ele não tem Asperger. É só um idiota.

Jade riu.

- Acho que você devia aparecer na casa dele com uma cesta de muffins quentinhos. É uma coisa que

vizinhos fazem. Talvez ele relaxe... ou te faça relaxar.

- Muffins, é? Isso é um código para quê?

- Uns amassos... uns muffins. Tanto faz. Se eu morasse aqui, já teria me jogado nessa. Mas não moro aqui.

Você mora. E precisa de uma distração. E acho... que ele é a distração.

Eu admirei os ombros largos do cara e suas costas musculosas e bronzeadas enquanto seu braço movia a lata

de spray para cima e para baixo.

- Mas ele não parece o Elec? Tatuagem no braço... cabelo escuro. Artista. Basicamente, o último tipo de

cara que me interessa neste momento.

- Então, se alguém parece o Elec, é automaticamente desclassificado? Está destinado a fazer a mesma coisa

que Elec fez? É isso que você pensa? Que lógica mais estúpida.

- Talvez seja maluco, mas a última coisa que quero é estar com alguém que me lembre dele.

- Bom, que pena, porque o Elec era uma delícia, e esse cara... é ainda mais gostoso.

- Por que estamos falando disso mesmo? O cara nem me dá oi e não vai se inscrever para essa versão

delirante de The Bachelorette. Ele não está interessado.

O querido vizinho enxugou o suor da testa, tirou a máscara com que cobria o nariz e a boca e jogou as latas

de spray em um saco preto com uma corda. Pendurou o saco no ombro e, quando eu pensei que ele ia se afastar

e sair do pátio, começou a andar em nossa direção. Jade se endireitou no banco, e eu odiei sentir minha

pulsação acelerando um pouco.

Os olhos dele estavam cravados em mim. Eu não diria que era um olhar irritado, mas ele não estava

sorrindo. A luz do sol iluminava diretamente seus olhos azuis, que brilhavam e realmente se destacavam contra

a pele bronzeada. Jade estava certa: o cara era lindo.

- Blueberry é o meu favorito.

- O quê?

- Muffins.

- Ah.

Jade sufocou o riso, mas ficou em silêncio, me deixando carregar sozinha o peso dessa humilhação.

- E eu não sou antissocial nem savant. Sou só um idiota à moda antiga... com audição supersônica.

Ele sorriu e se afastou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.

Quando teve certeza de que não poderia nos ouvir – dessa vez de verdade –, Jade suspirou.

- Os nervosinhos são os melhores na cama.

- Você não se controla, não é? Já não causou um estrago suficiente? Eu sempre disse que você acha que

está sussurrando, mas está falando alto. Está aí a prova... às minhas custas.

- Vai me agradecer mais tarde, quando estiver gritando e tendo um orgasmo enquanto o artista nervosinho

estiver Van Gozando em cima de você.

- Você é maluca.

- E é por isso que você me ama.

- É.

Capítulo 2 LATIDOS E ORGASMO

Uma semana se passou e Jade tinha voltado para Nova York. Eu já sentia muita falta dela. A única razão pela

qual eu não tinha ido visitá-la era que agora Elec morava lá com Greta. Embora fosse extremamente

improvável que eu o encontrasse, ainda não estava preparada para visitar o território deles.

O Artista Nervosinho e eu não nos encontramos desde o incidente quando Jade estava aqui. Apesar de não o

ter visto por ali, seus cachorros me acordavam quase todas as manhãs latindo como se fossem explodir. Como

eu trabalhava no programa vespertino no Centro da Juventude, minhas manhãs eram livres. Era comum eu ter

dificuldade para dormir à noite e precisar das manhãs para recuperar as horas de sono.

Estava pensando seriamente em quando chegaria o momento em que eu não aguentaria mais os latidos. Se

um cachorro não estava latindo, o outro estava. Na maioria das vezes, era um coro de latidos em uníssono. Eu

não me importava com o quanto ele era intimidador e lindo. Precisava falar com o vizinho.

Terça-feira de manhã, me arrastei para fora da cama e vesti um moletom. Passei um pouco de corretivo nas

olheiras antes de ir bater à porta dele.

Ele a abriu vestindo uma camiseta branca e justa. O cabelo estava desgrenhado.

- Posso ajudar?

- Preciso falar com você sobre os cachorros.

- Quê? Sem cestinha de muffins?

- Não rolou. Desculpa. Não tenho energia para cozinhar, já que não consigo dormir por causa dos latidos

incessantes dos seus animais.

- Não tem nada que eu possa fazer. Já tentei de tudo. Eles não calam a boca.

- E aí, o que os outros devem fazer, então?

- Não sei. Descolar protetores de ouvido?

- Sério. Deve ter alguma coisa que você possa fazer.

- Além de pôr uma focinheira neles, o que não vou fazer, não, não tem. De qualquer forma, está ouvindo

os latidos agora?

Por algum motivo, eles tinham parado.

- Não. Mas é raro eles ficarem quietos assim de manhã, e você sabe disso.

- Olha, se quiser reclamar com o síndico, fica à vontade. Eu não posso impedir. Mas não tem nada que eu

já não tenha tentado para fazer os cachorros pararem de latir. Eles têm vontade própria.

- Bom, então é isso que vou ter que fazer. Obrigada por me obrigar a recorrer a isso. Muito obrigada por

nada.

Eu me afastei e ouvi a batida da porta pouco depois.

Quase no mesmo instante em que entrei no meu apartamento, os latidos recomeçaram.

Deitada na cama, eu sabia que só havia uma coisa que poderia fazer para relaxar o suficiente e dormir,

mesmo com os latidos. Apesar de não querer recorrer a eles, peguei meus fones de ouvido com redução de

ruído e os coloquei nas orelhas para diminuir um pouco o barulho. Mesmo sem música, eles ajudavam. Mas eu

dormia de lado. Os fones só resolviam quando eu estava deitada de costas. E eu só deitava nessa posição

quando me masturbava. E por que de repente eu estava pensando no Artista Nervosinho? Infelizmente, pensar

em me tocar trouxe imediatamente imagens indesejadas dele. Eu não queria pensar nele desse jeito. Ele era um

idiota e não merecia ser objeto da minha vontade. Mas ele cheirava muito bem, uma mistura de especiarias,

almíscar e homem. Não dá para controlar o que fantasiamos. O fato de ele ser grosso e inacessível o tornava

ainda mais elegível como objeto dos meus pensamentos proibidos. Aprendi na aula de psicologia na faculdade:

a supressão geralmente leva à obsessão. Se você disser a si mesmo para não pensar em alguma coisa, vai

pensar nela ainda mais.

Deslizei as mãos para dentro da calcinha e comecei a massagear meu clitóris. Deus, eu nem sabia o nome

dele. Isso era doentio, mas nesse momento não tinha importância. Pensei nele em cima de mim, entrando em

mim, me fodendo com raiva. O tempo todo, a sugestão dos latidos continuava ao fundo enquanto eu balançava

para a frente e para trás, me levando a um dos clímax mais arrasadores que eu já tinha experimentado.

Depois consegui dormir por uma hora.

O sol do meio da manhã entrava pela janela. Abri os olhos meio atordoada e notei que o latido havia parado.

Os animais deviam ter saído para passear.

Faltavam algumas horas para eu ir trabalhar, então decidi procurar o número de telefone do proprietário do

prédio. Havia um escritório da administração no edifício, mas a mulher que trabalhava lá era bem relapsa.

Desconfiei de que ela não levaria a sério minha queixa sobre os latidos e achei melhor ir procurar diretamente

quem tinha o poder de resolução. Eu só tinha mantido contato com a mulher da imobiliária que cuidava do

aluguel e nunca tinha falado com o síndico.

Uma busca na internet me deu o nome D.H. Hennessey, LLC. Havia um número de telefone para contato,

mas a ligação caiu em uma caixa de correio de voz com uma saudação automática. Eu queria falar com

alguém, então desliguei sem deixar recado. Percebi que o endereço listado ficava no primeiro andar desse

prédio. Decidida a ir até lá, coloquei um vestido, calcei os sapatos e escovei o cabelo.

Bati à porta, respirei fundo e esperei. Quando a porta se abriu, quase caí ao vê-lo.

O Artista Nervosinho estava ali parado, sem camisa e com aquela maldita touca de novo. Meu coração

disparou. Seu peito esculpido estava coberto de suor e juro que fiquei com a boca cheia d'água.

- Posso ajudar?

A mesma pergunta que ele havia feito ao abrir a porta do apartamento. Isso parecia um déjà-vu, um episódio

de Além da imaginação, ou um pesadelo em que, independentemente de que porta eu abrisse, ele estaria lá.

- O que está fazendo aqui?

- Isto aqui é meu.

- Não. Seu apartamento é vizinho ao meu.

- Isso. Aquele é o meu apartamento. Aqui é o meu estúdio e academia.

- Este endereço é do síndico.

Um sorriso irônico surgiu no rosto dele. De repente, eu me senti a pessoa mais burra do mundo quando

entendi tudo: ele era o síndico. Foi por isso que o idiota me incentivou a fazer uma reclamação formal.

- Você é D.H. Hennessey...

- Isso. E você é Chelsea Jameson. Excelente histórico de crédito, ótimas referências... reclama de tudo o

tempo todo.

- Bom, isso explica muita coisa... por exemplo, não encarar as consequências por descaracterizar a

propriedade e ser um babaca com os vizinhos.

- Eu dificilmente compararia minha arte criativa com uma descaracterização de propriedade. Você não deu

uma olhada no bairro? É uma meca da arte. Meu mural não é o único, longe disso. E você está exagerando com

relação aos cachorros. E aí, quem é babaca nessa situação? Discutível.

Atrás dele, dava para ver várias telas pintadas com spray, um banco de supino e outros aparelhos de

musculação.

- Onde os cachorros estão agora?

- Cochilando.

- Cães cochilam?

- Sim, eles cochilam. Estão recuperando o sono perdido porque sua chatice os manteve acordados hoje de

manhã. - Ele abriu um sorriso. Isso me fez perceber quanto estava se divertindo com essa conversa.

- Esse D é de desprezível?

Ele não respondeu imediatamente e nos encaramos por alguns instantes antes de ele dizer: - O D é de

Damien.

Damien.

Claro que ele também tinha que ter nome de gostoso.

- Damien... como daquele filme A profecia? Combina. - Olhei em volta. - Por que fornece esse

endereço para os inquilinos?

- Ah, não sei. Talvez eu não queira gente maluca que me compara ao anticristo aparecendo na minha casa

a qualquer hora.

Não consegui segurar o riso. Essa causa era perdida.

- Tudo bem. Bom, é óbvio que essa conversa não vai servir para nada, então curta seu treino.

***

Naquela tarde, membros da Sinfônica de São Francisco fizeram uma visita ao Centro da Juventude. Eles

fizeram um pequeno espetáculo só para nós. Ver o sorriso no rosto das crianças enquanto brincavam com os

instrumentos sofisticados serviu para me lembrar de quanto eu amava o meu trabalho.

Enquanto todos estavam atentos aos convidados, notei uma das adolescentes, Ariel Sandoval, escondida em

um canto com um celular. Os dispositivos eram contra as regras do Centro, já que este deveria ser um local de

aprendizado. Os adolescentes que tinham celular precisavam deixar o aparelho em um recipiente na recepção,

onde os pegavam de volta na saída.

- Ariel, tudo bem? Você deveria estar com todo mundo.

Ela balançou a cabeça de um lado para o outro.

- Desculpa. Sei que não devia estar com o celular, mas preciso dele. E não, não estou bem.

Eu me sentei no chão ao lado dela. O chão estava frio.

- O que aconteceu?

- É o Kai. Estou olhando o Facebook para ver se alguém o marcou em alguma foto.

O namorado dela, Kai, também era frequentador regular e jogava no time de basquete do Centro. Várias

meninas gostavam dele. Quando eu descobri que Ariel e Kai estavam namorando, isso me preocupou, não só

por causa da idade – eles tinham quinze anos – mas por causa da popularidade de Kai.

Então, não foi nenhuma surpresa quando ela disse: - Acho que ele está saindo com outra pessoa.

- Como você sabe?

- Ele não veio para cá depois da escola na semana passada e meu irmão disse que viu o Kai no shopping

com uma garota.

Meu coração ficou apertado. Eu queria dizer que ela provavelmente estava certa, mas não sabia se ela estava

emocionalmente preparada para ouvir isso.

- Bom, não tire conclusões precipitadas até falar com ele, mas vocês precisam conversar. É melhor saber

logo do que ser surpreendida depois. Não vai querer perder tempo com alguém que não é honesto.

Eu sei bem disso.

Mesmo que tecnicamente Elec não tenha me traído fisicamente, ele foi emocionalmente desonesto.

Ariel enxugou os olhos e se virou para mim.

- Posso te perguntar uma coisa?

- É claro.

- O que aconteceu entre você e Elec?

Senti uma pontada no estômago. Não estava esperando que ela tocasse no assunto e essa era uma história

muito longa para ser reescrita.

Elec era o conselheiro favorito de todos. Quando ele saiu do Centro, as crianças ficaram arrasadas. Todos

por aqui sabiam que éramos namorados; todo mundo torcia muito por nós e acompanhava nossa história.

- Quer saber por que terminamos?

- Sim.

Se eu fosse resumir tudo em uma única frase, só havia uma resposta.

- Ele se apaixonou por outra pessoa.

Ariel parecia confusa.

- Como é possível estar apaixonado por uma pessoa e simplesmente se apaixonar por outra?

Ah, a pergunta do ano.

- Também estou tentando entender, Ariel.

- Eu lembro como ele era com você. Pareciam apaixonados.

- Eu achei que estivéssemos - sussurrei.

- Acha que ele não te amava mesmo... ou só amava mais a outra garota?

Era como se essa garota de quinze anos tivesse vasculhado minha alma e escolhido exatamente a pergunta

que eu mais fazia a mim mesma. Queria ser honesta com ela.

- Não sei se existem níveis diferentes de amor, ou se ter me deixado significa que ele nunca me amou. Não

entendo se é possível simplesmente deixar de amar alguém. Estou tentando esclarecer essas mesmas dúvidas.

Mas o importante é que, se alguém está te traindo, essa pessoa não te ama.

Ela olhou para o nada.

- Sim.

Bati de leve meu ombro no dela e sorri.

- Mas quer a boa notícia? Você ainda é muito jovem e tem tempo de sobra para encontrar o cara certo, se

não for o Kai. Você está em uma idade muito difícil agora, provavelmente a fase mais difícil da sua vida. Você

e ele são puro hormônio e estão começando a descobrir quem são.

- E você?

- Eu o quê?

- Encontrou outra pessoa?

- Não. - Fiz uma pausa e olhei para os meus sapatos. - Não sei se vou.

- Por que não?

Como eu poderia acabar com as esperanças dessa menina? Como poderia admitir em voz alta que não seria

capaz de confiar em outro homem de novo? Esse problema era meu e não queria contagiá-la com a minha

nuvem sombria de dúvida.

- Sabe de uma coisa? Tudo é possível, Ariel. - Sorri.

Que bom seria se eu acreditasse no que dizia.

Capítulo 3 BURACO NA PAREDE

- Eu só tenho alguns minutos antes de me maquiar para o espetáculo, mas me conta o que está acontecendo

- disse Jade.

Eu tinha mandado uma mensagem para minha irmã mais cedo: Você não vai acreditar nisso. Me liga.

Foi logo depois de descobrir a identidade do síndico e dono do prédio.

- Então, lembra do Artista Nervosinho?

- Você transou com ele?

- Não!

- O que é, então?

- Acontece que... ele é proprietário do prédio.

- Mentira!

- Isso não é nada bom.

- Por que não? Eu acho ótimo!

- Como? Agora eu nunca vou conseguir fazer esses cachorros calarem a boca.

- Não, tipo, quando vocês começarem a dormir juntos, não vai ter que gastar com aluguel.

- Não vamos dormir juntos. Ele é um idiota. E mesmo que em algum universo bizarro isso acontecesse...

eu nunca deixaria de pagar meu aluguel. Seria como me prostituir.

Ela riu.

- Hummm.

- Quê?

- Sexo com raiva é o melhor sexo, sabe?

- Sim, você já disse isso antes. Não posso dizer que já experimentei.

- Bom, quando rolar com o... qual é o nome dele?

- Damien. Esse é o nome dele. E não vou fazer sexo raivoso com Damien.

- Damien? Como em A profecia?

- Foi o que eu disse! Falei a mesma coisa quando ele me disse o nome dele. Ele não ficou muito feliz.

- Quando é que ele fica feliz com alguma coisa?

Respondi, rindo:

- Verdade.

- Mas vai rolar. Merda... estão me chamando. Eu tenho que ir.

- Boa sorte!

- Pega o síndico!

- Você é maluca.

- Amo você.

- Também amo você.

Conversar com minha irmã sempre me deixava de bom humor.

Faltava uma hora para a minha sessão de terapia por telefone e eu decidi ir buscar alguma coisa para comer.

Quando estava descendo, encontrei Murray, o zelador. Ele estava varrendo as escadas e assobiando, enquanto

as dezenas de chaves que carregava presas ao cinto tilintavam.

- Oi, Murray!

- Ei, oi, moça bonita.

- Você não costuma trabalhar na terça-feira.

- Estou passando por uma fase difícil. O chefe me deixou fazer umas horas extras.

- O chefe... é D.H. Hennessey?

- Isso... Damien.

- Acabei de conhecê-lo. Não fazia ideia de que o meu vizinho antissocial e dono dos cachorros que vivem

latindo era o dono do prédio.

Murray riu.

- É, ele realmente não anuncia isso por aí.

- O que ele faz?

- Está pensando em como alguém tão jovem é dono deste prédio?

- Sim, mais ou menos isso, mas também queria saber por que ele é tão grosseiro.

- Ele late mais do que morde.

- Isso é um trocadilho?

- Não. - Ele riu. - No fundo, Damien é uma boa pessoa. Autoriza hora extra sempre que preciso delas e

é muito generoso na época do Natal... mesmo que pareça ter um pau enfiado na bunda de vez em quando.

- Um pau? Um poste! - Bufei.

- É, de vez em quando é assim. Mas, ei, ele põe a comida na minha mesa, então eu nunca falei nada disso.

- Murray piscou.

- Ele é muito talentoso - eu disse. - Tenho que reconhecer.

- Inteligente também. Pode acreditar. Ouvi boatos de que ele se formou no MIT.

- MIT? Está brincando?

- Não. Não se pode julgar um livro pela capa. Ele inventou alguma coisa. Vendeu os direitos de patente,

aparentemente, e usou o dinheiro para investir em imóveis. Agora ele só recebe os aluguéis e vive como quer,

da arte.

- Uau. Isso é... muito impressionante.

- Mas eu não falei nada disso.

- Já entendi, Murray.

- Planos para hoje à noite?

- Não. Vou só comprar comida e trazer para jantar no apartamento.

- Bom proveito.

- Obrigada.

Vinte minutos depois, voltei ao meu apartamento com tostones e arroz blanco con gandules do meu

restaurante favorito, Casa del Sol.

Depois de comer, sentei em meu quarto e meditei um pouco para me preparar para a minha sessão de terapia

por telefone com a dra. Veronica Little: especialista em traumas de relacionamento.

A duzentos dólares por sessão de uma hora, a doutora Little não era barata. Foi a minha mãe quem sugeriu

que eu procurasse alguém para falar sobre meus sentimentos. Eu não sabia se estava funcionando, mas

continuava com as sessões toda terça-feira às oito e meia da noite.

Talvez eu devesse mandar a conta para o Elec.

***

Eu falava com a terapeuta pelo viva-voz enquanto dobrava roupas no quarto.

- Você repete muito essa pergunta, Chelsea. Se Elec realmente amava você ou não. Acho que parte do

motivo pelo qual não conseguimos ir além disso tem a ver com o conceito do unicórnio.

- Do unicórnio? O que é isso?

- Um unicórnio tem uma beleza mítica e é inatingível, certo?

- Sim...

- Era isso que Greta representava para o Elec. Ele havia descartado a possibilidade de um relacionamento

amoroso porque ela era proibida. Enquanto isso, se apaixonou por você. Esse amor foi bem autêntico. No

entanto, quando o unicórnio de repente se torna atingível, tudo muda. O poder do unicórnio é extremamente

forte.

- O que você está dizendo é que o Elec realmente me amava, mas só quando pensava que estar com Greta

era impossível? Ela era o unicórnio dele e eu não era um unicórnio.

- Exatamente isso... Você não era o unicórnio dele.

- Eu não era o unicórnio dele - repeti em voz baixa. - Será que posso...

- Lamento, Chelsea. Nosso tempo acabou por hoje. Vamos explorar esse assunto um pouco mais na

próxima terça-feira.

- Ok. Obrigada, dra. Little.

Soltei um longo suspiro, me joguei na cama e tentei entender o que ela havia acabado de dizer.

Unicórnio. Hum.

Meu corpo enrijeceu quando ouvi risadas.

No começo pensei que estava imaginando.

Vinha de trás da cabeceira da minha cama.

Levantei com um pulo.

- Unicórnio. Que porra! - ele disse com sua voz profunda antes de gargalhar de novo.

Damien.

Ele estava ouvindo a minha sessão de terapia!

Meu estômago revirou.

Como ele tinha conseguido ouvir tudo pela parede?

- Você estava escutando a minha conversa? - perguntei.

- Não. Você estava interrompendo meu trabalho.

- Não entendi.

- Tem um buraco na parede. Não dá para não ouvir suas conversas malucas por telefone quando estou

trabalhando.

- Um... buraco na parede? Você sabia sobre esse buraco?

- Sim, ainda não consegui consertar. Já devia existir quando comprei o prédio. Provavelmente, era um

buraco da glória, ou alguma merda desse tipo.

- Você tem escutado as minhas conversas... por um buraco da glória?

- Não, você tem me submetido a conversas cretinas com pessoas que estão roubando seu dinheiro... por um

buraco da glória.

- Você é um...

- Babaca?

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