- Giulia, pelo amor de Deus, como assim? - Anne perguntou, sem acreditar no que tinha ouvido.
- Isso mesmo o que você ouviu. Eu não quero você nesta casa. Pode preparar as suas malas e sair da minha casa!
Giulia estava olhando para as próprias unhas recém manicuradas enquanto falava.
- Mas essa casa era do meu pai, era da minha mãe! - Anne se alterou, recebendo como resposta um tapa estalado no rosto.
Giulia a olhava com fúria.
- Você tem uma hora pra pegar as suas tralhas e sair daqui, sua fedelha nojenta! Essa casa é minha, tudo aqui é meu! - ela olhou para Anne com desprezo. - Sinta-se feliz por eu deixar você sair daqui com mais do que a sua roupa do corpo.
- Pra onde eu vou? - Anne perguntou, as lágrimas escorrendo pelo rosto, enquanto o segurava. Apesar de Anne não ser do tipo que abaixava a cabeça para tudo, ela havia acabado de perder o pai e ainda estava sem conseguir reagir a tudo ao redor dela.
- Isso não é problema meu. Uma hora, é o que eu te dou - Giulia a olhou com desdém e um sorriso brincava em seus lábios. - Ou os seguranças te tiram daqui à força!
A mulher de cabelos longos bem cuidados virou as costas, pegou a bolsa dela e saiu, não sem antes dar instruções para que as malas de Anne fossem revistadas antes que a mesma fosse embora, a fim de que a menina não "roubasse" nada.
Anne caiu de joelhos no chão. Ela tinha perdido o pai e toda a fortuna dela. Não ficou nada e ela sabia que tinha algo de errado! Mas ela era apenas uma menina de 18 anos, que não entendia bem de certas coisas.
- Vem, querida. Eu te ajudo a fazer as malas - Dona Joana, a empregada da casa, sorriu gentilmente para Anne. - Eu tenho um lugar pra você ir, minha filha.
Anne concordou com a cabeça, ainda sem acreditar muito, e seguiu Dona Joana escada acima.
***** ***** ***** *****
- Ah, qual é, princesinha! Eu tenho certeza de que você vai se divertir! - Gabriela, uma morena muito bonita e com um sorriso mais do que simpático, disse para Anne.
- Gabi, eu não sou de festas, você sabe disso - Anne nunca foi festeira, e desde que tinha ido morar na comunidade, ela evitava ainda mais as festas. Ela tinha medo de se envolver com as pessoas erradas. - Olha, eu vou pensar, ok? Eu tenho que estudar e esse fim de semana eu trabalho.
- Tá bem, tá legal - Gabriela jogou as tranças para trás.- Mas faz um esforcinho, vai? É o meu aniversário, pô!
Anne sorri. Ela sabia que acabaria cedendo. Era o primeiro aniversário que ela passaria como amiga de Gabriela, e seria muita ingratidão não ir. Aquela moça foi a primeira desconhecida a lhe estender a mão.
Gabriela deu um beijo no rosto de Anne.
- Vou te esperar, viu? - Ela disse e jogou um beijo por sobre o ombro, antes de sair.
Anne já estava vivendo ali na comunidade há alguns meses e ela ainda não havia ido a nenhuma festa sequer. Na verdade, as pessoas meio que a achavam estranha. Era bem claro que ela não era dali, não só pela aparência de "gringa", mas também pela forma como ela falava e como ela se vestia. Eles a chamavam de "Princesinha".
A moça achava aquilo cômico. A princesinha que morava num kitnet dentro da comunidade. Antes ela morava praticamente num palacete, agora, tudo o que ela possuía cabia dentro daquele espaço diminuto de menos de trinta metros quadrados.
No fim, Anne acabou concordando em ir para a festa de Gabriela. Seria ali mesmo, na comunidade, mas não seria exatamente um baile, já que era para poucas pessoas.
- Eu sabia!! - Gabriela quase gritou, levantando o copo de cerveja, enquanto abria os braços para receber Anne. Assim que agarrou a loira, ela a encheu de beijos.
- Eu não iria te desapontar desse jeito, né?
- Sério, Princesinha, você é demais! Vem, deixa eu te apresentar pra galera!
Gabriela era uma moça que conhecia muita gente, andava em vários círculos e, apesar de não ser usuária e nem vendedora de qualquer tipo de entorpecente, ela conhecia quem trabalhava "na boca". Anne não queria conhecer aquelas pessoas, no entanto, ela não poderia se negar.
"Dizer 'oi' não mata ninguém!", ela disse para si mesma, enquanto seguia Gabriela.
Anne falou com algumas pessoas, umas mais "normais", como ela as classificava, e outras que ela notava serem um pouco mais "barra pesada". Ela tentava se desconstruir do que sempre tinha ouvido a respeito das pessoas de comunidade e ela já tinha aprendido e entendido muita coisa. No entanto, traficantes ainda eram algo que ela não conseguia aceitar.
Anne percebeu que a um canto, tinha uma mesa com umas pessoas estranhas. Gabriela percebeu que Anne viu os homens ali, rodeados de umas mulheres mais arrumadas ou, como falavam ali, "montadas". O status daqueles homens era claramente diferente dos demais.
- Aqueles ali são os caras, Anne.
Anne franziu a testa.
- Os caras? Como assim?
- Eles são os grandões daqui - Gabriela disse baixinho e deu um olhar significativo a Anne, que então compreendeu.
- Por que você chamou esse povo? - Anne perguntou, confusa.
Gabriela a olhou como se ela estivesse fazendo uma pergunta boçal.
- Amada, se eu não chamar, é como dizer abertamente que eu não gosto deles. Aqui você tem que entender que, se você os conhece de alguma forma, não convidá-los para as paradas é uma ofensa muito grave.
Anne mordeu o lábio, mas entendeu. Certas coisas eram do jeito que eram, ela gostando ou não.
O cheiro de maconha ali estava deixando Anne meio zonza. Ela detestava aquilo.
Normalmente, Anne não bebia. Ela não era chegada, por isso, estava só bebendo água e refrigerante na festa. As músicas começaram a ficar mais "atrevidas" conforme a hora foi avançando e ela sabia que ela tinha que ir embora. Anne tentou esperar pelo parabéns, mas ela sabia que não podia mais aguentar.
De repente, uma latinha de cerveja foi oferecida a ela. Anne nem sequer olhou quem estava oferecendo, mas ela sabia que era homem, pela mão máscula e cheia de tatuagens.
-Não, obrigada! - ela recusou, educadamente.
- Bebe - a voz era grossa, profunda e fez ela sentir um frio na espinha. Aquela pessoa não estava oferecendo nada a ela. Ele estava dando uma ordem. Ela, então, se virou para ver quem era.
O ambiente estava escuro, então ela não conseguia ver o rosto do homem perfeitamente, mas as luzes estilo boate, quando iluminavam o rosto dele, o faziam parecer misterioso, sexy. Ele tinha olhos claros e isso Anne conseguia ver. Bem como era cheio de tatuagens, inclusive no rosto, com uma lágrima abaixo do olho esquerdo. Os lábios eram cheios. Ele era, na opinião de Anne, muito bonito e extremamente charmoso, bem como perigoso.
Ela também reconheceu como uma das pessoas na mesa dos "grandões" por conta do boné que ele estava usando e que tinha chamado a atenção dela, mas ela não tinha se dado ao trabalho de olhar no rosto do dono do acessório. Anne não costumava olhar para as pessoas, por vergonha.
- Obrigada, mas eu não bebo, moço - Ela falou pausadamente e ofereceu um sorriso educado. O homem a encarou e deu um passo à frente.
- Vai desobedecer? - Ele perguntou e Anne engoliu em seco. Ela abriu a boca algumas vezes para responder, mas ela não sabia o quê, porque ele a estava intimidando.
- Ah, Fortão! Essa é a Anne - Gabriela disse, andando até eles. Ela viu Fortão se aproximando da moça e ficou preocupada. Fortão dificilmente chegava em uma mulher, era o contrário que acontecia. Então, ele devia estar ou interessado ou intrigado com Anne.
- Anne... - ele repetiu o nome dela. - Vem sentar na mesa, Anne.
- Sabe o que é? E-eu já tava de saída. Eu trabalho amanhã - ela falou com um leve tremor na voz e olhou de relance para Gabriela, claramente pedindo ajuda. - Mas muito obrigada pelo convite.
- Ela trab... - Gabriela se calou, pois Fortão levantou a mão, impedindo-a de falar.
- Eu não perguntei nada. Eu te disse pra sentar comigo, porra!
Anne sentiu o sangue lhe subir pela cabeça. Ela apertou os lábios e inspirou fundo.
- Você... Tá me dando uma ordem, então? - Anne perguntou, estreitando os olhos para o homem alto na frente dela. Ela tinha 1,70, o que não era pouco, mas mesmo assim, ela não passava do ombro dele. E ela entendia o motivo do apelido. Ele era imenso. Não só para cima. O homem era musculoso.
- Tú é burra mesmo ou tá se fazendo? - ele perguntou e aquilo fez Anne apertar os pulsos, com raiva.
- Olha só... Eu não sou burra! Mas as pessoas não chegam dando ordens em estranhos, dessa forma!
- Anne... - Gabriela segurou no braço de Anne, para impedi-la de continuar. Anne nem tinha notado que a música tinha parado de tocar.
- Não, Gabi! - ela olhou para Gabriela e, então, para o tal Fortão. - Quem você pensa que é pra falar assim comigo? Nem o meu pai falava comigo desse jeito!
Fortão deu mais um passo na direção dela, agora, quase encostando no peito dela. Ele abaixou de leve a cabeça e Anne precisou focar no que estava acontecendo, em vez de se deixar perder nos olhos sedutores de Fortão.
- Eu sou o DONO dessa porra!
Anne ficou petrificada. Dono?
- Como assim? - ela perguntou, com o cenho franzido. - Dono desse salão?
Ele, então, deu um sorriso de deboche, mas ao mesmo tempo, safado.
- Você e eu vamo trocar umas ideia.
Ele segurou o braço de Anne e começou a levá-la para um canto. Anne olhou para Gabriela, pedindo socorro, mas Gabriela parecia estar sentindo dor por não poder fazer nada, e não fez. Ela não podia.
Então, Anne se mancou de que ela estava em uma comunidade, e as coisas eram diferentes. Ela tinha se esquecido completamente de que as pessoas e as regras sociais não se pareciam com as do lugar de onde ela tinha crescido.
Fortão a encostou na parede, longe dos olhos dos outros, e colocou uma mão de cada lado da cabeça dela.
- Tú não é daqui, não é?
Anne balançou a cabeça de um lado pro outro, negativamente.
- O-olha, me desculpa. Eu não... Eu não estou acostumada.
- Tú me desafiou, na frente dos outro! - ele se aproximou mais dela, o rosto dele bem próximo ao de Anne. - Eu devia te dar uns tapas.
- Por favor, não faça isso - ela pediu e engoliu em seco. - E... Não me obrigue a beber, também. Por favor.
- Ah, tú vai bebê, sim. Nem que seja um gole, pra todo mundo ver - ele encheu o peito. - Não vou ser desautorizado assim na frente da galera, não!
- Você só quer mostrar o seu poder! Isso... Olha, eu sei que as coisas aqui são diferentes, mas você não precisa fazer isso.
- Preciso, sim! Mulé ninhuma vai me desafiar assim, não! Agora, vai lá, pega a porra da latinha e bebe. Toda.
- Toda? - ela perguntou, com os olhos chorosos. Ela detestava cerveja.
- Toda. Ou tú quer beber outra coisa? - Fortão sorriu de lado.
- Sim, por favor - ela perguntou, sem entender o significado daquilo.
Por um momento, houve silêncio. Fortão sabia que ela não tinha entendido, mas ele não conseguia acreditar naquilo.
- Tú sabe do que eu to falando? - ele perguntou. Normalmente, ele não precisava, qualquer idiota sabia sobre o que ele estava falando. Mas aquela loirinha na frente dele parecia de outro mundo.
Ele tinha visto ela assim que ela colocou os pés no salão. Um dos camaradas dele só disse que ela era amiga de Gabriela e que as pessoas a chamavam de Princesinha. Ele a ficou observando e viu que ela não dançava, não falava. Parecia perdida. Por isso ele foi até ela e quando ela recusou a bebida, foi o mesmo que rejeitá-lo. Ele nunca tinha sido rejeitado.
- Você... Está me oferecendo outra coisa para beber. Algo que não é cerveja - Anne disse, olhando para ele como se estivesse tentando ler a mente dele. - É que eu não gosto de cerveja, sabe?
Ele soltou um ar de zombaria, apertou os lábios, e balançou a cabeça de um lado pro outro.
- Não, princesinha. Não é isso... - ele praticamente colou a boca no ouvido dela, fazendo Anne segurar a respiração e o gemido que quis sair. - Eu to falando de você usar essa boquinha linda.
- Boquinha? Você poderia ser mais claro, por favor? - Anne suspirou. - Para beber algo eu tenho que usar a boca.
Ele afastou o rosto, com os olhos arregalados. Ela não sabia mesmo do que ele estava falando. Se aproximando novamente do ouvido de Anne, ele falou com todas as letras que se tratava de fazer sexo oral nele.
Anne arregalou os olhos e usou as duas mãos para empurrar o peito de Fortão.
- Você... Ficou louco? - ela perguntou, claramente horrorizada, as bochechas vermelhas. Anne olhou em volta, mortificada.
Naquele momento, Fortão sabia que ela era uma daquelas boas meninas, virgens. Ele olhou para a boca dela e não resistiu, passando o dedão pelos lábios de Anne.
- Bonita pra cacete.
Ele se aproximou e Anne achou que o coração dela ia sair pela boca. Ele era bonito, cheirava super bem, mas era perigoso. Era alguém de quem ela tinha que manter distância. Usando toda a coragem dela, Anne finalmente falou.
- Eu bebo a cerveja! - ela disse e quando ele a olhou, assustado, ela aproveitou para passar por debaixo dos braços dele. - Eu to indo beber aquela cerveja. E desculpe!
Ela andou correndo pelo salão, para onde Fortão havia deixado a latinha da bebida, onde as pessoas estavam esperando para saber o que houve. Ela pegou a latinha, a abriu e bebeu todo o seu conteúdo.
O gosto amargo a fez querer vomitar, mas ela continuou até que a lata estivesse vazia. Quando ela colocou a garrafa para baixo, tudo girou. Gabriela a segurou.
- Caramba, Anne!
- Ai, minha nossa... - ela disse, sentindo-se tonta. - Eu to indo.
- Você tá bêbada!
- Tô ótima! Até amanhã.
Anne deu um beijo no rosto de Gabriela, lhe desejou feliz aniversário e caminhou com a dignidade que ainda lhe restava.
Fortão viu como ela estava trôpega. Ele olhou pros comparsas dele e fez sinal de que iria sair.
Assim que saiu do salão, ele viu Anne andando para longe. As pessoas em volta que o avistaram se afastaram, fazendo um aceno com a cabeça.
"Toda essa gente me trata que nem Rei, já essa loira...", ele bufou e foi atrás dela.
- Deixa eu te ajudar.
Anne olhou para ele e soltou um gritinho.
- Ai, eu bebi. Eu bebi! Me deixa em paz!
Ela foi ríspida com ele e atrevida, mas ele conseguia ver que ela estava bêbada e quis segurar um riso.
Fortão se inclinou para baixo, a puxou para ele pela cintura, pegou um dos braços dela e passou pelo ombro dele e a levou para a casa dela, seguindo as instruções de Anne. Ela estava confusa.
Pela manhã, Anne sentia a cabeça latejar. Ela olhou em volta e viu que estava em casa e nada parecia fora do lugar, exceto por Gabriela, que a olhava da porta.
- Credo! - Anne disse, levando a mão ao peito e fechando os olhos.
- Eu vim ver como tú tá, ingrata!
Gabriela entrou no quarto e sentou na beirada da cama.
- Como eu estou? - Anne então teve lampejos da noite anterior e os olhos do moreno da noite anterior apareceram por trás dos olhos dela. - Gabi, o que aconteceu, ontem?
- É o que eu quero saber! O Fortão te trouxe em casa - Gabriela deu uma olhadinha nas roupas de cama de Anne e então, franziu a testa.
- O que foi?
- Ele não te comeu, pelo visto - Gabriela disse e olhou para Anne, que a olhava de boca aberta. - Sim, também estou de queixo no chão, amiga!
- É óbvio que ele não... Ai meu Deus, o que eu fiz? - Anne levou as mãos à cabeça.
- Pelo visto, nada.
Anne se deitou na cama de novo e colocou o travesseiro no rosto.
Infelizmente, ela não tinha como ficar ali, pensando e se lamentando. Ela se levantou, tomou banho e foi para o trabalho. No caminho para o ponto que ela pegava ou o ônibus ou a van, ela viu um grupo de mulheres. Elas estavam olhando para Anne de maneira estranha.
Quando Anne passou por elas, uma delas se levantou e se colocou na frente da moça.
- Tá indo pra onde, vadia?
Anne levantou as sobrancelhas e olhou em volta.
- Você... Tá falando comigo?
A mulher, de cabelos trançados, sobrancelhas bem marcadas e com extensão de cílios, a olhou de cima a baixo.
- E quem mais? A putinha que foi pra casa com o meu homem!
- Eu não sei do... - Anne tentou se defender.
- Cala a boca, puta! - ela esbravejou. - Vamos ver se ele vai te querer sem cabelo!
Anne arregalou os olhos.
"Elas vão... Raspar meu cabelo?"
Antes que Anne pudesse perguntar ou reagir, duas das mulheres a seguraram e arrastaram-na para um dos becos e logo, pra dentro de uma das casas.
- Não! Eu não estou com o seu namorado nem nada! - Anne disse, chorosa. Ela não conseguia nem lembrar o que exatamente a mulher havia dito antes.
- Ah, não? Tú foi para casa com ele, caralho! Não banca a inocente não , ô, Princesinha!
- Você tá falando daquele tal... como é... Fortão? - Anne perguntou.
A mulher segurou o cabelo de Anne pela nuca, bem perto do escalpo, arrancando um grito da moça.
- Eu vou arrancá esses teus cabelo e rasgá tua cara, piranha!
Anne ouviu o som da máquina e se desesperou. Ela não era lá muito apegada ao cabelo dela, no entanto, ela sabia que ali na comunidade a mulher que aparecia com a cabeça raspada daquele jeito, ficava marcada como "ladra de homem".
- Por favor, não! Eu... Eu não fiz nada com ele! Eu tava bêbada e eu acordei de roupa e tudo!
- Num interessa! Ele tá de olho em tú. Então, vô acabá com as tuas fuça! - a mulher cuspiu no chão, perto de Anne. - Quero vê ele fodê com uma puta estropiada!
A porta do barraco abriu com tudo, fazendo um barulho tremendo.
- Que caralho é esse aqui? - um homem perguntou esbravejando e as mulheres soltaram um grito, menos a que segurava os cabelos de Anne.
- Se mete aqui não, ô Morcegão! Essa quenga tá de sacanagem ca minha cara e eu vô dá uma lição nela!
- Késia, tú solta ela ou o Fortão te come na porrada - o tal Morcegão disse. - Ordi dele. Solta ela ou ele te arrasa!
Anne foi jogada longe.
- Pega essa piranha e mantém ela longe das minhas vista! - Anne olhou pra mulher e esta apontou o dedo na direção da loira. - Se eu te vê de novo perto do meu homem, eu te quebro!
As mulheres saíram e Anne estava no chão, chorando, com o couro cabeludo doendo horrores.
- O-obrigada - ela falou, se levantando e limpando a roupa.
- Tem nada não. Eu tô aqui seguindo ordi.
Anne olhou para o homem, que era magro, mas malhado. O cabelo bem cortado, sem camisa, uma arma na cintura.
- De todo jeito, obrigada - Anne passou pela porta e foi para o ponto de ônibus.
Ao chegar no trabalho, o chefe dela levou um susto.
- Que que é isso, ô Anne? Foi atropelada?
- Quase - ela choramingou. - Umas mulheres ficaram com raiva de mim porque o namorado de uma ficou interessado em mim e aí ela ia me machucar.
O chefe, o Senhor Pereira, balançou a cabeça de um lado pro outro.
- Caramba! Essa vida na comunidade é difícil. Eu já morei em uma, sei como é.
- Eu nem sei como eu vou ter coragem de voltar pra lá! - Anne disse, cobrindo o rosto com as mãos.
- Seguinte, Anne, toma uma água, respira fundo e se prepara pro trabalho. Mas se você precisar dar um tempo de vez em quando, só avisar, tudo bem?
- Obrigada, Sr. Pereira!
- Nada, nada.
O Sr. Pereira era um homem baixo, de cabelos escuros e um pouco cheinho. Ele era sempre muito educado e tentava compreender os funcionários. Anne gostava muito dele.
Ela bebeu água, se acalmou e respirou fundo.
"Vamos à luta, porque as lágrimas não pagam as contas!"
Ao final do expediente, ela foi para casa, se tremendo de medo de encontrar com a tal Késia. Para a sorte dela, a mulher não estava em nenhum lugar onde pudesse ser vista. Anne andou rápido até em casa e trancou a porta ao entrar.
Depois de tomar banho, ela resolveu assistir à Netflix. Ela dividia a senha com Gabriela. Quando encontrou qual filme iria assistir, alguém bateu na porta dela. Anne estava de pijamas e pegou o roupão e o colocou por cima.
A porta obviamente não tinha olho-mágico.
- Quem é?
Ela tinha medo que a mulher de mais cedo tivesse seguido ela.
- É o Morcegão! - o homem que a salvou de Késia. Anne abriu a porta, incerta e olhou em volta. - O patrão qué falá com tú.
- O patrão?
- Fortão, Princesinha. Ele disse pra tú 'i lá falá com ele. Vem cumigo que eu ti levo.
- Hmmm, certo - Anne mordeu o lábio. - Deixa só eu colocar uma roupa, ok? Eu já venho.
Ele fez sinal positivo com a cabeça com o dedo e ela fechou a porta.
"O que raios esse homem quer comigo? Ele já me causou muitos problemas!"
Anne optou por uma calça jeans e uma blusa de manga 3/4 . O cabelo preso em um rabo-de-cavalo. Ela se olhou no espelho. A roupa era simples, mas limpa e, o mais importante, "comportada".
- Prontinho - ela falou para o tal Morcegão que nem a olhava direito. Quando o Fortão resolvia que queria uma mulher, ninguém podia olhar pra ela.
Anne caminhou logo atrás de Morcegão, olhando em volta, com medo.
- Relaxa, Princesinha. A Késia num vai te encher mais, não!
- Obrigada! - ela agradeceu, mas o homem soltou uma bufada de riso.
- Eu num tenho nada a vê com isso, não. Agradece o pai.
O "pai", ela compreendeu, devia se tratar do próprio Fortão.
Assim que chegaram ao "barraco" dele, Anne ficou de queixo caído. Ali, no meio da comunidade, tinha uma casa que podia ser considerada de luxo. Claro, não era nada perto das mansões que ela estava acostumada a ver, mas ainda assim, para os padrões do local...
Ela entrou pela porta que Morcegão abriu para ela e foi caminhando atrás do mesmo, até chegar na sala. Fortão estava sentado atrás de uma mesa, jogando cartas com uns outros homens. As armas estavam em um canto e ela estremeceu. Anne tinha pavor daquilo.
Fortão se levantou, com um sorriso no rosto. Ele estava sem camisa e Anne pode perceber que ele tinha tatuagens por todo o torso, porém, ela não manteve o olhar no homem a fim de vê-las melhor. Pelo contrário, Anne desviou o olhar para baixo.
- A minha Princesinha chegou! - ele disse, abrindo os braços. Ele chegou perto de Anne e a abraçou. Ela levou um susto, e também, estremeceu ante o toque dele. Não de medo, mas de algo que ela não compreendia.
- Você... Você pediu que eu viesse. Em que eu posso ajudar? - ela perguntou, séria.
Fortão olhou pra ela sem entender e riu. Os outros riram junto, mas ele olhou para eles, mandando que se calassem.
- Eu só queria vê a minha gata! Num posso?
Anne olhou em volta e depois, para ele.
- Ah, você se importa se conversarmos bem ali? - ela indicou um canto, visível aos outros, porém, mais afastado. Os outros homens se levantaram, a fim de dar privacidade aos dois. - Não, não pre...
- Deixa eles ir - Fortão se despediu dos homens com batidas nas mãos e tapas nas costas, dizendo coisas como, "valeu!", "já é, irmão!". - Pronto, gata.
Ele segurou Anne pela cintura e ela seria uma mentirosa se dissesse que não se sentiu balançada, porém, ela tinha que se concentrar.
- Eu não estou entendendo o que está havendo?
- Eu adoro que tú fala tudo certinho - ele brincou e aproximou o rosto do dela. - É bonito pra caramba.
- Olha só ... - ela colocou a mão no peito dele e logo se arrependeu. Ele estava desnudo, ali e o calor do corpo dele a fazia querer mais! Por isso, ela retirou as mãos rapidamente. - Eu não estou com você... Tipo um casal. Eu realmente não sei o que está acontecendo.
Ele passou a língua pelos lábios e sorriu pra ela, com jeito safado.
- Deixa eu te mostrá o que tá rolando.
Ele puxou Anne mais para ele e a beijou.