Por quatro anos, eu patrocinei um artista da Mooca, Davi Moraes. Paguei as contas médicas da mãe dele, mandei a irmã para um colégio de elite e financiei toda a sua carreira, transformando-o de um ninguém em uma estrela. Fiz tudo isso porque ele era a imagem cuspida e escarrada do meu noivo morto.
Amanhã seria nosso casamento. Mas esta noite, do lado de fora da casa da família dele, ouvi a verdade. Ele estava tramando com sua namorada do colégio, Carla, para me abandonar no altar. Ele nunca me amou; foi tudo pelo dinheiro.
A mãe dele, cuja vida eu salvei, me chamou de arrogante e disse que eu os desprezava.
A irmã dele, cujo futuro eu paguei, disse que sempre quis Carla como cunhada.
Carla exigiu que ele não apenas me deixasse, mas que me humilhasse publicamente na frente de todos.
E Davi, o homem cujo mundo eu construí do nada, concordou.
Eu tentei comprar um substituto para um homem morto, e este foi o preço. Eles achavam que eu era uma tola para ser usada e descartada.
Mas estavam enganados. Na manhã seguinte, gravei um vídeo. "Davi", eu disse para a câmera, "eu sei do seu plano de me abandonar no altar. Estou te poupando o trabalho. Eu estou te deixando primeiro."
Enviei o vídeo para ser exibido na igreja, no momento exato em que a cerimônia deveria começar, e então embarquei em um voo só de ida para Londres.
Capítulo 1
Por quatro anos, Juliana Lacerda pagou por tudo. Ela patrocinou Davi Moraes, um talentoso artista que ela tirou da pobreza na Mooca. Ela o transformou de um ninguém em uma estrela em ascensão no mundo da arte de São Paulo.
A mãe dele, Sônia, não tinha mais dívidas médicas. Juliana pagou tudo.
A irmã dele, Karina, frequentava um colégio de elite. Juliana pagava a mensalidade.
Cada tela, cada pincel, cada exposição era financiada pela conta bancária ilimitada de Juliana. Ela fez tudo por uma única razão: Davi era a imagem cuspida e escarrada do seu noivo morto, Caio Mendes.
Amanhã seria o casamento deles. Os convites foram enviados, o local estava reservado e a imprensa estava pronta para capturar a união de uma herdeira da tecnologia e seu protegido artista.
Juliana estava a caminho da casa da família de Davi, na Mooca, para entregar um vestido feito sob medida para a mãe dele. Ela queria que tudo fosse perfeito. Ao se aproximar da casa pequena, ouviu vozes vindas da janela entreaberta.
Ela parou, reconhecendo o tom agudo e possessivo de Carla Rocha, a namorada de colégio de Davi.
"Você não pode estar pensando em se casar com ela, Davi! E nós?"
Juliana congelou. Ela se aproximou da janela, seu coração começando a bater em um ritmo lento e pesado.
"E as promessas que você me fez?" A voz de Carla era um lamento agudo. "Você disse que me amava. Disse que só estava com ela pelo dinheiro."
"Ele estava", interveio Sônia, a mãe de Davi. Sua voz era áspera. "Aquela mulher, a Juliana, é tão arrogante. Ela nunca foi uma de nós. Ela nos despreza."
"A mamãe está certa", acrescentou Karina. "Carla, nós sempre te vimos como nossa cunhada. Seu lugar é com o Davi."
Juliana sentiu uma dormência fria se espalhar por seus membros. Ela havia pago pela cirurgia que salvou a vida de Sônia. Ela havia dado a Karina uma educação com a qual ela só poderia sonhar.
Então veio o som de um tapa. Um som agudo e cortante.
"Para com isso, Carla!" A voz de Davi estava tensa.
"Agora você está me batendo? Por ela?" Carla gritou. "Se você se casar com ela amanhã, eu me mato! Faço isso bem na frente da igreja, eu juro!"
"Carla, não diga isso!" Sônia parecia em pânico. "Davi, você não pode deixar ela fazer isso! Nossas famílias se conhecem há anos. Não podemos deixar que nada de mal aconteça com ela."
Davi ficou em silêncio por um longo momento. Juliana prendeu a respiração, esperando que ele a defendesse, que dissesse que eles estavam errados.
Em vez disso, quando ele falou, sua voz era baixa e resignada. "Eu não vou me casar com ela."
O mundo pareceu inclinar. Juliana se apoiou no tijolo frio da casa, sua ilusão se despedaçando em um milhão de pedaços.
O choro de Carla parou imediatamente. Sua voz tornou-se afiada e vitoriosa. "Só não se casar com ela não é o suficiente. Você tem que humilhá-la. Deixá-la no altar. Deixar todo mundo ver a riquinha da Srta. Lacerda levar um fora. É o que ela merece por tentar te controlar."
"Sim! É uma ótima ideia", disse Karina, ansiosa. "Mostre a ela que você não pode ser comprado."
Davi não respondeu imediatamente. O silêncio se estendeu, denso de traição.
Finalmente, ele falou, sua voz mal um sussurro. "Tudo bem."
Juliana não sentiu nada. A dor era tão imensa que se tornou um vazio. Ela era uma observadora silenciosa do desmantelamento de sua própria vida.
Ela se afastou da janela, seus movimentos quietos e precisos. O vestido em suas mãos parecia pesado e ridículo. Ela voltou para o carro, de costas retas, sua expressão uma máscara perfeita e sem emoção.
Dentro do carro, ela não chorou. Simplesmente pegou o celular e ligou para a mãe.
"Mãe", disse ela, com a voz firme.
"Juliana, querida! Animada para amanhã?"
"Cancele o casamento."
Houve um silêncio chocado do outro lado. "O quê? O que aconteceu?"
"Eu explico depois. Apenas cancele tudo."
"Juliana", a voz de sua mãe estava carregada de preocupação. "Você soa... exatamente como quando o Caio..."
O nome foi como um golpe físico. Caio. O seu Caio.
Juliana fechou os olhos, e a memória que ela suprimiu por quatro anos voltou com força total.
Ela e Caio Mendes eram inseparáveis desde a infância. Ele era um músico brilhante, gentil e amável, e era sua alma gêmea. Eles deveriam se casar. Mas uma semana antes do casamento, ele foi morto em um acidente de carro causado por um motorista bêbado.
Seu mundo havia acabado. Ela se trancou, perdida em um luto tão profundo que pensou que nunca se recuperaria. Passou meses, anos, procurando por ele em cada rosto na multidão.
E então, em uma exposição de arte estudantil numa pequena galeria, ela o viu.
Era Davi Moraes. Ele tinha o mesmo cabelo escuro, o mesmo maxilar, os mesmos olhos profundos de Caio. A semelhança era impressionante. Ele era um estudante de arte pobre e esforçado. Ela viu sua chance.
Ela o abordou, ofereceu-lhe patrocínio. Era uma transação. Ela daria a ele e à sua família tudo o que sempre quiseram. Em troca, ele seria dela. Ele preencheria o vazio que Caio deixou.
Ela sabia que era uma mentira. Sabia que um substituto nunca poderia substituir o original. Mas por quatro anos, ela se agarrou à ilusão. Disse a si mesma que poderia comprar a felicidade, que poderia controlar seu mundo e manter vivo o fantasma de seu amor.
Agora, ouvindo a traição dele, ela estava finalmente, brutalmente desperta.
A ilusão se foi. Um substituto era apenas um substituto. E uma farsa nunca poderia se tornar real.
"Estou cansada, mãe", a voz de Juliana estava rouca, uma rachadura em sua compostura perfeita. "Estou indo para Londres."
Ela encerrou a chamada, sua decisão tomada. Olhou para a casa no retrovisor uma última vez. Não havia mais nada para ela ali.
Ela dirigiu para longe sem olhar para trás.
De volta à sua cobertura, ela metodicamente começou a desembaraçar sua vida da dele. Ligou para seu corretor e colocou o apartamento à venda. Ligou para seu advogado e o instruiu a cortar todos os laços financeiros com a família Moraes.
Mais tarde naquela noite, Davi chegou. Ele esperava uma briga, ou lágrimas. Encontrou Juliana calmamente saboreando uma taça de vinho, as caixas semi-embaladas ao seu redor o único sinal de qualquer perturbação.
"Juliana? O que está acontecendo?" ele perguntou, um lampejo de confusão em seus olhos. Ele ainda não sabia que ela sabia.
"O casamento está cancelado, Davi", disse ela simplesmente, sua voz desprovida de emoção.
Ele olhou para ela, procurando as palavras certas, o ângulo certo. Ele não sabia que jogo ela estava jogando.
"Você ouviu o que aconteceu na casa da minha mãe, não foi?"
Juliana olhou para Davi, sua expressão indecifrável. Ela sempre fora a que estava no controle, a patrona, a mulher poderosa que construiu a carreira dele do nada. Ele estava acostumado com seus humores, mas essa calma era nova. Era desconcertante.
"Sim", disse ela, com a voz neutra. "Eu ouvi."
Ela tomou um gole lento de seu vinho, seus olhos nunca deixando os dele.
"Foi só conversa, Juliana", disse ele, tirando o casaco e jogando-o em uma cadeira. Era um gesto familiar e casual que ele havia feito mil vezes naquele apartamento. "A Carla fica emotiva. Você sabe como ela é."
Ele foi até o bar, seus movimentos relaxados. Ele pensou que este era mais um de seus testes, um momento de drama antes do casamento. Ele pensou que ela estava fazendo joguinhos, fazendo beicinho. Ele se serviu de um uísque, o gelo tilintando contra o copo.
"Eu acalmei as coisas. Está tudo bem", disse ele, virando-se para ela. "Nós ainda vamos nos casar amanhã."
"Não, não vamos", respondeu ela.
Ele finalmente pareceu registrar a seriedade em seu tom. Ele se aproximou dela, a testa franzida. "O que você quer dizer? Não seja assim, Juliana. É a noite antes do nosso casamento."
Ele estendeu a mão para ela, um movimento que geralmente a acalmava. Ela se encolheu ao seu toque. Foi um movimento pequeno, mas foi tão definitivo quanto uma porta batendo.
Ele parou, a mão pairando no ar. "O que há de errado com você?"
"Não quero que você durma aqui esta noite", disse ela, levantando-se. "Você pode usar o quarto de hóspedes."
Ele a encarou, completamente perplexo. Em seus quatro anos juntos, ela nunca lhe negara sua cama. Ela era possessiva, exigindo sua presença todas as noites. Era parte do acordo deles.
"O quarto de hóspedes?" ele repetiu, um toque de incredulidade em sua voz. "Você está falando sério?"
"Você não disse à sua família que se sentia controlado?" ela perguntou, sua voz tingida com uma ironia fina e afiada. "Que estar comigo era como estar em uma gaiola dourada? Considere isso um momento de liberdade."
Seu rosto endureceu. Ele sentiu uma onda familiar de ressentimento. Ele odiava quando ela jogava suas próprias palavras de volta para ele. Odiava que ela sempre parecesse saber o que ele estava pensando.
"Tudo bem", disse ele, com a voz fria. Ele se virou e caminhou em direção ao quarto de hóspedes sem outra palavra. Ele ainda acreditava que esta era uma tempestade temporária, que pela manhã, ela voltaria ao seu eu habitual e apegado.
Juliana o observou ir. Pela primeira vez, sentiu uma sensação de libertação.
Na manhã seguinte, Juliana estava de pé antes do sol. Ela se vestiu com um tailleur simples e elegante, um contraste gritante com o elaborado vestido de noiva pendurado em seu armário.
O mordomo a informou que Davi havia saído há uma hora.
"Ele disse para onde ia, Roberto?" ela perguntou.
"Não, Srta. Lacerda. Ele apenas saiu."
"Ótimo", disse ela. "Não vamos esperar por ele."
Ela passou a manhã no cartório, finalizando a mudança de seu nome de volta para Lacerda em todos os documentos oficiais e atualizando seu passaporte. Era uma tarefa pequena e administrativa, mas parecia monumental. Era o primeiro passo para recuperar sua vida.
Depois, ela foi a um pequeno café na Vila Madalena, um lugar que Caio amava. Sentou-se perto da janela, saboreando seu café, observando a cidade acordar. Sentiu uma estranha sensação de paz.
E então ela o viu.
Davi estava andando pela rua, e não estava sozinho. Carla estava com ele, o braço entrelaçado no dele. Eles estavam rindo, suas cabeças próximas.
Ele parou em uma barraca de feira e comprou um pastel, partindo-o ao meio e dando um pedaço para Carla. Ele sabia que ela gostava com bastante recheio. Ele então limpou uma mancha de vinagrete do canto da boca dela com o polegar, um gesto tão natural e terno que fez o peito de Juliana doer.
Eles olharam vitrines, apontando para coisas nas lojas, parecendo qualquer outro casal apaixonado em uma manhã de sábado. Ele não era o artista ressentido e conflituoso que era com ela. Ele estava relaxado, feliz e completamente ele mesmo.
Com ela, ele estava sempre atuando, sempre fazendo o papel do protegido grato. Ele era um eco belo e oco do homem que ela havia perdido. Mas com Carla, ele era real.
Juliana os observou, uma profunda compreensão se instalando dentro dela. Ela viu o abismo entre ser amada e ser tolerada. Era uma lacuna que todo o dinheiro do mundo não poderia preencher.
Ela finalmente entendeu. Ele nunca tinha sido dela. Ele apenas estava pegando emprestada uma vida que ela havia pago, e agora o contrato de aluguel havia acabado.
Juliana saiu do café, uma nova determinação endurecendo dentro dela. Ela foi para o Shopping Iguatemi. Terapia de compras era um clichê, mas hoje, ela precisava da distração.
Ela estava olhando a seção de bolsas de grife quando uma voz familiar cortou a elegância silenciosa da loja.
"Eu quero aquela."
Era Carla. Ela estava apontando para uma bolsa Chanel de edição limitada, a mesma que Juliana estava examinando. Davi estava ao lado dela, parecendo desconfortável.
Juliana não se virou. Ela falou com a vendedora, sua voz calma e clara. "Vou levar esta, por favor."
"Com licença", disse Carla, dando um passo à frente. "Eu vi primeiro."
Juliana finalmente se virou para encará-la. Ela deu a Carla um olhar lento e deliberado, seus olhos percorrendo as roupas de marca barata de Carla. "Esta bolsa custa mais que seu guarda-roupa inteiro. Duvido que você possa pagar."
A vendedora, reconhecendo Juliana, interveio suavemente. "A Srta. Lacerda é uma cliente valiosa. A bolsa é dela."
O rosto de Carla corou de humilhação e fúria. Ela sentiu os olhos de outros compradores sobre ela. "Eu posso pagar sim!" ela sibilou, cavando em sua bolsa e tirando um cartão de crédito. Não era dela; era um cartão suplementar de Davi, financiado, é claro, por Juliana.
Juliana apenas observou, sua expressão de um divertimento entediado.
Davi, vendo a angústia de Carla, finalmente interveio. Ele se colocou entre as duas mulheres, seu corpo angulado protetoramente em direção a Carla.
"Juliana, já chega", disse ele, sua voz baixa e zangada. "Qual é o seu problema?"
Carla imediatamente começou a chorar, seus ombros tremendo. "Davi, ela está me intimidando. Ela sempre me desprezou."
"É só uma bolsa", disse Davi, virando sua raiva para Juliana. "Deixe ela ficar com ela. Por que você sempre tem que fazer uma cena?"
Ele então se virou para Carla, sua voz suavizando. "Não chore. Você pode ter a bolsa que quiser. Compre todas se quiser."
Os outros compradores murmuraram entre si, seus olhares mudando de pena por Carla para desaprovação por Juliana. Eles viram um homem generoso e sua namorada doce sendo atormentados por uma mulher rica e fria.
"Que cretina", sussurrou uma mulher. "Ele é tão bom para ela."
"Aquela ricaça provavelmente é a ex dele", comentou outra. "Não é à toa que ele a deixou."
Juliana sentiu uma onda de nojo. Ela não tinha mais interesse na bolsa. Não tinha interesse nesse drama patético.
"Fique com ela", disse ela, sua voz pingando desdém. "Vai combinar com o resto dos seus acessórios baratos."
Ela se virou para sair, mas assim que o fez, um alarme de incêndio estridente soou pela loja.
O pânico explodiu. As pessoas começaram a gritar, correndo para as saídas. A multidão avançou, criando uma debandada caótica.
Na confusão, alguém empurrou Juliana com força por trás. Ela perdeu o equilíbrio e caiu, seu tornozelo torcendo dolorosamente sob ela. Uma dor aguda subiu por sua perna. Ela gritou, mas sua voz se perdeu no barulho.
Ela olhou para cima, seus olhos procurando desesperadamente por Davi. Ela o viu através da multidão em pânico. Ele tinha Carla envolta em seus braços, protegendo-a dos empurrões. Ele estava se movendo em direção à saída.
"Davi!" ela gritou, sua voz rouca de desespero e dor. "Me ajude!"
Ele a ouviu. Ele parou e olhou para trás, seus olhos encontrando os dela por um segundo fugaz. Ela viu um lampejo de hesitação, um vislumbre de conflito em seu olhar.
Carla soluçou contra seu peito: "Davi, estou com medo! Vamos sair daqui!"
Ele olhou para Juliana no chão, depois para a mulher chorando em seus braços. Ele fez sua escolha.
Ele se virou e carregou Carla para fora da loja, deixando Juliana para trás no caos.
A última de suas esperanças se despedaçou. Ele a havia abandonado.
A dor lancinava em seu tornozelo, mas uma dor mais profunda irradiava de seu peito. Ela cerrou os dentes, ignorando as pessoas que passavam correndo por ela. Ela se levantou, usando um balcão de exposição como apoio, e mancando em direção à saída, cada passo uma agonia.
Quando finalmente chegou do lado de fora, na relativa segurança da rua, sua perna cedeu. Ela desabou na calçada, ofegante, o mundo girando ao seu redor.
Ela viu Davi a uma curta distância, procurando ansiosamente por Carla, que aparentemente havia se separado dele no empurrão final para as portas. Ele andava de um lado para o outro, o rosto marcado pela preocupação.
Então ele viu Juliana no chão. Ele correu, sua expressão indecifrável.
"Juliana, você está bem?"
Ela olhou para ele, seus olhos vazios. A mulher que ele conhecera por quatro anos - a mulher equilibrada, controladora, exigente - havia desaparecido. Em seu lugar havia uma estranha, alguém que olhava para ele sem um traço de emoção, como se ele fosse um móvel. A conexão entre eles estava finalmente, irrevogavelmente, rompida.