PERLA
Estou tão cansada. Desde que comecei meu curso de direito, não faço
outra coisa que não seja estudar. Estou no final do segundo período, em fase
de prova, as quais tenho praticamente todos os dias. Nesse período, minhas
disciplinas são direito civil, penal, constitucional, do trabalho, administrativo
e econômico. Esse último, em especial, é o que preciso melhorar as notas.
Sou nascida e criada em Nova Iorque, porém, meus pais são italianos,
nasceram em Roma. Eles vieram viver o sonho nova-iorquino a pouco mais
de dezoito anos atrás. Minha mãe estava no seu segundo mês de gestação
quando eles vieram morar na grande maçã.
Meus pais mantêm suas origens. Em nosso cardápio diário, fazem
questão da comida da sua terra natal, e também se comunicam entre si em seu
idioma. Apesar de o meu lar ser praticamente italiano, gosto de ser americana
e de tudo que aprendi nessa cidade que nunca dorme.
Saí da faculdade com intenção de tomar uma ducha, almoçar,
descansar um pouco e estudar, porém, ao entrar em casa, encontro minha mãe
um pouco mais agitada do que o normal. Assim que me vê, ela fica contente.
Que bom que você chegou, tesoro. Tuo padre vai oferecer um
jantar de negócios hoje à noite, você precisa estar apresentável para nossas
visitas.
Acho estranho seu comentário.
Por que eu preciso estar apresentável? Do jeito que a senhora disse,
parece que eu sou o motivo da negociação do meu pai.
Minha mãe não me responde. Caminha em direção ao armário, abre as
portas e fica olhando dentro do armário em silêncio. Parece que está
pensando o que fazer para o jantar.
Madre chamo-a.
O que você acha? De entrada podemos fazer uma bruschetta; de
prato principal, gnocchi.
Nossos convidados são italianos?
Si ela diz.
Alguém da nossa família, ou conhecidos de vocês?
Digamos que é alguém que não vemos há muito tempo. Agora, me
deixe sozinha. Faça o que te pedi, esteja apresentável, nada de jeans e
camiseta.
Quem será essa pessoa? Minha mãe me disse que é um jantar de
negócios, ao mesmo tempo, disse que se trata de alguém que ela conhece,
provavelmente do tempo em que ela e meu pai moravam em Roma.
Sempre que meus pais querem me exibir para alguém, a primeira
coisa que eles vetam é o meu jeans. Desde criança, nunca fiz o estilo
bonequinha. Sempre gostei de short, calça, de correr, jogar bola. Eu podia ser
eu mesma em casa e quando não tínhamos visita. Nos meus aniversários, ou
em eventos em que eles me levavam, eu tinha que ser a filha perfeita, uma
verdadeira Barbie.
Era obrigada a ser amiga da criança que meu pai escolhesse. Com o
tempo, conforme fui crescendo, percebi que eram filhos de homens
poderosos com quais ele queria fechar negócio.
****
Meu pai entra no meu quarto, beija minha testa e me entrega uma
caixa. Abro-a e dentro dela tem um lindo vestido branco. Ele possui uma
renda delicada, me lembra aqueles vestidos das personagens donzelas de
filme à espera de um príncipe encantado. Apesar de lindo, não tem nada a ver
comigo.
Visto-o no jantar. Você tem meia hora para ficar pronta. Não me
desaponte.
Não posso nem argumentar, apesar de saber que seria inútil, mas nem
consigo perguntar de quem se trata. Ele simplesmente termina de falar e sai.
Desapontada, pego o vestido em minhas mãos, virando-o de um lado e do
outro. Levanto-me, vou até o grande espelho que tem no meu quarto e o
coloco na minha frente. Penso em não o usar, mas sei que se não o fizer
haverá consequências. Uns dos motivos por eu ter escolhido direito é poder
advogar a minha própria causa; meu pai queria que eu fizesse contabilidade
para poder trabalhar em sua empresa, mas, se assim eu fizesse, nunca teria
opção de escolha. Sempre são eles que decidem tudo.
Vinte minutos antes do horário marcado para o jantar, minha mãe
entra no meu quarto. Quando me vê só de lingerie, reclama. Ela diz que os
convidados chegaram. Apressada, pega o vestido em minha cama e o joga em
cima de mim. Foram pouquíssimas as vezes que a vi tão nervosa. Peço que
ela se acalme, digo que estou me maquiando para depois pôr o vestido. Ela
não me ouve, apenas diz que tenho dez minutos para me juntar a eles antes de
sair e bater à porta.
Visto-me, calço minhas sandálias, dou uma última olhada no espelho,
saio do quarto e desço as escadas. Ouço uma voz grossa, firme, sem
gentileza, conversando com meus pais. Nos dois últimos degraus, três
homens surgem no meu campo de visão. Um deles, o que falava com meu
pai, me vê. Seus olhos percorrem meu corpo de cima a baixo; me sinto
desconfortável.
Ele se levanta e meus pais, que estão no sofá a sua frente, olham para
trás. Ao me verem, também se levantam.
Figlia, você está linda meu pai diz assim que me vê, sem muito
entusiasmo. Aproximo-me deles. O homem, que está em seu terno elegante e
aparenta ter uns quarentas anos, permanece com seus olhos em mim.
Esse é Salvatore, figlia, um amigo do seu pai que mora na Itália.
Salvatore pega minha mão e a beija. Um estranho arrepio percorre
meu corpo, me deixa temerosa.
Tua figlia è molto bela. Fico satisfeito de você honrar nosso
compromisso, cheguei a pensar que queria me enganar quando se referiu à
beleza dela.
Esse jantar marcado de última hora é estranho, essas pessoas são
estranhas, o clima nesta sala está estranho. Não sou apresentada aos outros
dois homens. Minha mãe até agora não disse uma única palavra. Olho para
ela e vejo medo em seus olhos. Meu pai fala o tempo todo de o quanto sou
perfeita, fala sobre qualidades que nem tenho, como saber bordar. Não sei de
onde ele tirou isso. O homem me analisa, e eu faço o mesmo, mas seus olhos
e sua postura são frios.
Alguns minutos depois, minha mãe pede permissão para pôr a mesa.
Permissão? Isso é muito estranho. Acompanho-a até a cozinha. Estou
morrendo de curiosidade para saber o que está acontecendo, mas sei que se
eu perguntar agora será em vão. Depois da mesa posta, voltamos para sala. O
tal do Salvatore está exaltado, ele grita com meu pai.
A última lembrança que tenho é de correr em direção ao meu pai.
Acordo em um enorme e belíssimo quarto. Sobre meu corpo, uma
camisola que não vesti. Olha tudo em volta, assustada, sem entender como
vim parar neste lugar. Flashes da noite do jantar piscam em minha mente.
Minha mãe chorando. Os dois homens que estavam acompanhando Salvatore
segurando-me, cada um em um braço, enquanto eu me debatia e gritava,
implorando para eles me soltarem.
Onde estou?
De quem é esse quarto?
Cadê meus pais?
Por que aquele homem estava enforcando meu pai?
Uma senhora de uniforme de empregada entra no quarto. Assusto-me
e jogo o lençol sobre mim. Estava tão perdida tentando lembrar sobre aquela
noite que nem vi a porta se abrir.
Ela se refere a mim como signora Bazzoti. Olho para minha mão e
vejo que uso uma aliança de casamento, mas como? Não sei nem como vim
parar aqui, muito menos me casar. Ela me diz bom dia em italiano e diz que o
Don Bazzoti quer me ver em meia hora. Atordoada, não digo nada,
permaneço onde estou. Ela faz uma cara de poucos amigos e diz que ele não
gosta de esperar. Que porra é essa de senhora Bazzoti e Don Bazzoti?
Assim que ela sai do quarto, levanto-me e faço um tour por ele. Vou
até a sacada e vejo que ela é alta, o que dificulta caso eu precise fugir. Olho
para o grande jardim e o que vejo me assusta: vários homens armados. Com
medo, retorno para o quarto. Caminho um pouco e encontro o closet. No seu
lado direito, tem diversas roupas de mulher, todas com etiqueta.
Será que são para mim? Escolho um vestido, sem muito interesse. Ao
lado do closet, tem uma porta. Abro-a e encontro o banheiro. Retorno ao
closet e procuro lingerie; encontro uma gaveta repleta, todas novas.
Entro no banheiro e tomo um banho rápido; a mulher me deu apenas
meia hora, meu tempo deve estar terminando. Pelo o que ele fez com meu
pai, tenho medo que, se eu o desobedecer,
possa fazer pior. Em frente ao espelho, limpo minhas lágrimas e digo
a mim mesma: Perla, pare de chorar, chegou a hora de ter respostas. Saio
do banheiro e encontro a empregada aguardando-me. Eu a acompanho, com
medo do que vou encontrar no meu caminho.
Perla
Segredo, mistério, sofrimento. Essa é a minha vida, uma vida que não
escolhi para mim. Sou obrigada a viver uma mentira, uma mentira que me faz
prisioneira dentro da minha própria casa.
Não me reconheço mais, não sei quem sou.
Sorrisos, casamento. A vida que levo a vista dos outros é perfeita, mas
mal sabem que é pura falsidade. Que sou falsa, que tudo em mim é falso.
Fiquei muito boa nisso, são muitos anos fingindo ser quem não sou, se é que
ainda tenha algo em mim daquela garota de dezoito anos que foi retirada de
sua casa, da sua família, que acordou casada com um desconhecido em outro
país. Que, com esse homem, formou uma "família". Depois
desses cinco anos, ainda não sei o verdadeiro motivo e o que há por
trás disso tudo.
Não posso fazer perguntas, não posso chorar, não posso sequer abrir a
boca sem que meu marido permita. Levei apenas um dia para entender isso.
A primeira e única vez que o questionei, fiquei uma semana trancada em um
quarto escuro onde me era servido apenas pão e água. Meu rosto e minha
boca ficaram ensanguentados, inchados e doloridos, resultado de dois socos
que ele havia me dado.
O quarto escuro faz parte da minha vida. Se Salvatore não gostar do
jantar, é para lá que vou. Se eu apenas respirar na hora errada, o quarto escuro
é o meu castigo. A quantidade de tempo depende do meu juiz. Já fiquei
trancada por horas, dias. Muitas vezes, não sei dizer com precisão, pois
quando estou dentro daquele quarto perco a noção do tempo.
Na frente dos seus comandados e suas famílias, meu captor é um
excelente marido, porém, quando estamos apenas nós dois, não tenho
permissão para ficar próxima a ele sem ser solicitada. E, quando isso
acontece, são raros os momentos em que ele não me agride com suas duras
palavras, ou algumas vezes
fisicamente. Os únicos momentos que essa distância não existe é
quando, sem uma prévia permissão, ele quer usar meu corpo. É nojento, eu
odeio suas mãos sobre mim. Não se trata de sexo, muito menos de fazer
amor.
Salvatore me estupra, me bate, sente prazer com a minha dor, com
meu sofrimento.
Sorrio sem atuar somente quando estou com minha filha, quando
Salvatore viaja, principalmente quando ele se ausenta por muitos dias, ou
quando ele não me usa sexualmente. Por diversas vezes, ele trouxe prostitutas
para nossa casa. Nessas ocasiões, ele se deita com elas em nossa cama. No
intuito de me humilhar. Depois de usar e abusar dessas mulheres, ele as
esfrega na minha cara, faz questão de dizer que elas o dão mais prazer do que
eu. Se ele soubesse que fico feliz quando ele dorme com essas mulheres ...
Elas escolheram essa vida, já eu não tive opção. Sou obrigada a me
deitar com um homem que não escolhi, que não sei a origem. Que, antes
daquele maldito jantar, nunca tinha visto. Até hoje não sei como vim parar
nessa casa, nessa vida, nem se meus pais ainda estão vivos.
Quando Salvatore está acompanhado, o quarto da Donna é o meu
refúgio, o único lugar desta casa em que me sinto bem. Minha filha é o meu
sopro de vida. Às vezes reflito sobre minha gestação e o nascimento da
minha pequena. Lembro o quanto fui rejeitada e humilhada. Meu coração dói,
porque Donna não é fruto do amor, mas de uma violência. Salvatore a
rejeitou quando ela nasceu, por ser menina. Quando completou um ano de
idade, Donna conseguiu "conquistar" o coração do monstro, pois a sua
primeira palavra foi papai.
Nossa enorme casa é uma fortaleza. Homens armados por todos os
lados, não vou a nenhum lugar sem os soldados do Salvatore no meu encalço,
sem ser monitorada. Foi difícil aceitar que minha vida não seria mais a
mesma. Antes de ser capturada, estava finalizando o segundo período no
curso de direito, tinha amigos, família, uma vida como qualquer jovem na
minha idade. De repente, um jantar e tudo mudou.
Quando me vi nessa casa, só tive duas opções. Continuar lutando, não
aceitar a triste realidade de estar casada com um
homem bem mais velho do que eu, nos seus quarenta anos, e
continuar sendo castigada por isso. Ou me render à minha nova vida. Em
qualquer outro cenário, eu teria lutado por meus direitos, mas o que fazer
quando seu marido é o chefe da máfia? Como escapar de algo assim?
Numa tentativa fugaz da minha mente, influenciada pelos tolos
romances que li, cheguei a me iludir que Salvatore poderia se apaixonar por
mim, e eu por ele, já que estamos casados. Meu tolo e romântico coração se
encheu de esperança. Como protagonista da minha própria história, imaginei
que aqueles homens armados estavam aqui para me proteger, que o amor do
meu marido era tão grande que ele tinha medo de me perder.
Tolice.
Controle.
Salvatore controla a tudo e a todos. Controla nossas vidas como peças
de xadrez.
Faze exatamente cinco anos que deixei de existir, sou apenas uma
sombra de uma vida que não pedi, de uma vida que mais parece morte.
Minha morte.
Estou cansada de ser a dona de casa perfeita, a mulher impecável que
oferece jantares para homens poderosos e mafiosos como ele. A mulher que
tem que sorrir para as outras mulheres enquanto tudo o que mais quer é
chorar, se descabelar, gritar, pedir ajuda.
Tenho quase certeza que essas mulheres têm em seus rostos um
sorriso tão falso quanto o meu. Vejo, através do olhar de cada uma, medo,
insegurança e tristeza. Mas nenhuma se atreve a dizer uma sequer palavra, ou
demostrar com algum gesto, o menor que seja, que entendemos nossas dores.
Ao mesmo tempo, penso que é somente no que quero acreditar, pois
não pode ser possível que todos esses homens sejam como Salvatore.
Frio.
Salvatore manda e desmanda, ele é o Don dos Bazzoti. O poderoso chefão.
Parece até nome de filme, mas é a mais pura realidade. Sou casada com o
chefe da máfia, o que me resta é obedecer, por minha vida e por amor a
Donna.
Todos o obedecem. Nunca o questionam. Os que já tentaram não
estão mais entre nós.
PERLA
Salvatore, permite-me falar?
Dimmi. "Diga-me", ele fala com seu jeito duro de ser.
Eu quero sua permissão para voltar a estudar.
Falo pausadamente e me preparo para uma retaliação por minha
ousadia em pedir algo. Desde que fui obrigada a viver com ele, nunca pedi
nada com medo da sua reação, mas estou farta de ser apenas expectadora da
minha própria vida. Preciso respirar, viver. Sei que não será nada fácil, o
cenário ao meu redor é completamente desfavorável a mim.
Salvatore termina de amarrar o cadarço do seu sapato. De pé, próxima à
cama, aguardo sua reação. Tento não demostrar medo nas minhas feições,
mesmo que por dentro meu corpo esteja tremendo. Não me permito mais
desabar na sua frente, muito menos agir como uma pobre coitada. Cinco anos
já foram o suficiente.
Ele se levanta e veste seu terno com os olhos fixos em mim.
Permaneço imparcial. Salvatore me analisa. Seus olhos não demostram
crueldade, e sim curiosidade. Ele deve estar estranhando eu ter sido corajosa
e lhe dirigido a palavra sem que ele ordenasse, ainda mais desafiando sua
autoridade em pedir algo que provavelmente ele nunca cogitou. Depois de
alguns longos minutos analisando-me, meu captor se aproxima de mim.
Preparo-me internamente para ser agredida; externamente, mantenho-me
compenetrada para não demostrar medo. Salvatore passa seus dedos
calejados em meu rosto.
Qual é o curso que você fazia antes de nos casarmos, Perla mia?
Direito respondo, fazendo o máximo para que minha voz não
saia trêmula. Ele se afasta alguns centímetros e continua observando-me.
Consentito.
Ouço sua permissão e custo a acreditar. Minha vontade é de sair
pulando de felicidade por minha primeira conquista pessoal desde que
cheguei nesta casa, nesta vida, mas sei que essa permissão não será de graça.
Vou escolher um soldado de confiança para te acompanhar, daqui a
dois dias você estará matriculada.
Assim que termina de falar, ele sai do quarto. Vou correndo para o
banheiro, tranco a porta. Pego minha toalha e abafo a boca nela para gritar.
Pulo de tanta felicidade pela minha primeira conquista. Apesar do receio que
possa dar errado, uma coisa tenho absoluta certeza: Salvatore Bazzoti não é
homem de voltar atrás em suas decisões.
Vou para a faculdade.
Hoje é meu primeiro dia de aula. Não dormi direito à noite, de tanta
ansiedade. Desde que pedi ao Salvatore para
estudar, ele está diferente comigo. São dois dias sem agressão de espécie
nenhuma, dois dias que ele não me violenta sexualmente. Continuo com a
minha rotina, cuido da casa e da minha filha, mas as coisas estão diferentes.
Ele está diferente comigo.
Salvatore designou Giovanni, o soldado que cuidava da Donna, para
ser minha sombra enquanto eu estiver na faculdade. Matriculou-me no turno
da tarde para que eu pudesse cuidar do almoço antes de me ausentar. Donna
chega em casa depois das cinco, mais ou menos o mesmo horário em que irei
sair da faculdade.
Entrar em uma sala de aula depois de tantos anos enche meu coração
de alegria. Sem armas, sem homens mal-encarados, sem tensão. Os únicos
momentos em que me sinto assim são quando estou com Donna. A inocência
da minha filha e sua alegria são as únicas coisas que conseguem me alegrar.
Buon pomeriggio. Uma morena linda me deseja boa tarde com as
mãos estendidas para mim. Mi chiamo Nina ela se apresenta.
Muito prazer, meu nome é Perla.
Americana? Balanço a cabeça confirmando. Morei três anos
na Califórnia, agora tenho uma amiga para praticar meu inglês ela diz e
sorri.
Fico nervosa quando ela diz "amiga", não sei se Salvatore permite
que eu tenha amizade com outra mulher que não seja as esposas dos seus
aliados. Faz tempo que não sei o que é conversar com alguém sem que sejam
palavras previamente ensaiadas.
Os dias vão passando. Faço dos prédios da faculdade um lugar só
meu, como se lá fosse um outro mundo, um mundo onde não existe
Salvatore, nem máfia. Um mundo somente meu, onde eu posso finalmente
respirar, sorrir sem medo e conversar como uma pessoa normal. Nina passou
a fazer parte deste mundo. Nos seus vinte e dois anos, um ano mais nova do
que eu, Nina irradia alegria. Em sua companhia, esqueço o que me aguarda
todos os dias quando atravesso os portões para fora da faculdade.
Meu comportamento diante do Salvatore mudou. Não sou mais uma
garota assustada, com medo do castigo. Se disser que não tenho mais medo
dele, estarei mentindo, apenas não demostro mais como fazia antes.
Todos os dias quando chego da faculdade, vou direto preparar o jantar.
Depois, tomo banho e fico um pouco com minha filha, até Salvatore chegar.
Jantamos juntos, arrumo a cozinha e peço permissão para, depois de colocar
Donna para dormir, ir para biblioteca que temos em casa, estudar. Tem sido
assim todos os dias.
Faz uma semana que iniciei as aulas e ontem, pela primeira vez,
Salvatore disse que colocaria Donna para dormir.
Vou para a biblioteca estudar, como de costume. Quarenta minutos,
depois ele surge na minha frente de banho tomado, apenas de short. Apesar
da idade, meu captor tem um corpo muito bonito. Fico tensa, mas não
demonstro. Esta é a primeira vez que ele age assim.
Um pensamento rápido vem à minha mente. Nunca me entreguei a ele
de boa vontade, Salvatore sempre foi agressivo e me forçava todas as vezes,
machucando-me. Mesmo o odiando, vou ser, pela primeira vez, sua mulher
de verdade. Vou me entregar ao seu toque, às suas investidas, como gratidão
por ele permitir que eu estude. Se para continuar indo às aulas eu precisar
fingir que gosto do seu corpo sobre o meu, assim será, nem que eu vomite
após ao ato.
Terminou, Perla mia?
Sim, meu marido. Posso ir para nosso quarto tomar banho?
Cheguei da faculdade fui direto fazer o jantar, e depois vim estudar.
Ele maneia a cabeça. Fecho meus cadernos e saio da biblioteca,
seguida por ele.
Alguma vez te dei banho, moglie?
Meu coração gela com essa pergunta. Nesses cinco anos de
casamento, é raro ele se referir a mim como "esposa", mais raro ainda me
fazer pergunta de uma forma que não seja agressiva. Fico nervosa ao
imaginá-lo me dando banho. Mesmo que ele já tenha usado e abusado do
meu corpo, me sinto exposta.
Não digo, sem demostrar meu nervosismo.
Então hoje será a nossa primeira vez diz com firmeza.
Salvatore me conduz até ao banheiro e enche a banheira. Fico em pé,
sem saber o que fazer. Apenas espero. Ele se aproxima de mim e me despe.
Sua respiração está forte; ele não
cheira a uísque e nem a charuto, o que é raro. Todas as vezes que ele
me tomou, seu hálito e seu corpo só cheiravam à bebida e fumo.
Caldo.
Ele me chama de gostosa assim que me vê nua, como se estivesse me
vendo pela primeira vez. O que não deixa de ser verdade, nossas transas
sempre foram à base da força, com pouca luz e, depois do ato, ele adormece.
Salvatore me ajuda a entrar na banheira, em seguida lava meu corpo
com uma delicadeza que eu não sabia que ele tinha. É inevitável tremer. Cada
parte do meu corpo reage onde suas mãos percorrem. Minha mente sempre
está preparada para o pior, mesmo quando parece que tudo está bem. Meu
captor me tira da banheira; sinto vergonha dos seus olhos sobre mim
enquanto ele me seca. Salvatore faz sinal para que eu vá para o quarto.
Observo seu volume empurrando o short. Ele está excitado. Eu me entregarei
sem resistência, meu objetivo é não ser mais estuprada.
Em silêncio, ordena que eu me deite sobre a cama. Obedeço-o
prontamente. Ele pega quatro algemas, prende meus braços e minhas pernas
na cama, que contém quatro pilastras de madeira. Fico desanimada, meu
plano de não ser estuprada está indo por água abaixo.
Molto caldo.
"Muito gostosa", diz, e se deita sobre mim. Pela primeira vez, enfia
sua língua na minha boca, beijando-me como eu acho que um homem deveria
beijar uma mulher. As únicas vezes que beijei foi na adolescência. Salvatore
nunca me beijou de verdade, de língua, esta é a primeira vez. Meu sentimento
é de asco por esse homem, mas tenho que ser forte e prosseguir. Minha
língua se envolve com a dele, imitando seus movimentos.
Tu sei mia moglie. Mia moglie.
"Você é minha esposa", ele repete. "Minha esposa". Salvatore está
longe de ser aquele homem que convivi durante todos esses anos.
Sua boca vai descendo por todo meu corpo. Age com sutileza, mas
não consigo sentir prazer. Gemo, finjo sentir prazer, quando o que eu mais
queria era que ele terminasse logo. São tantos anos representando que me
tornei uma bela atriz. Beija-me outra vez e me penetra. Não sinto dor,
aproveito seus cinco minutos de bondade e peço, sussurrando em seu ouvido,
que ele me solte. Vendo que estou entregue, ele pega as chaves no criadomudo e solta meus braços. Sai de dentro de mim e solta meus pés.
Quando ele volta a me penetrar, cruzo minhas pernas em suas costas,
seguro seus cabelos. Salvatore grunhe e aumenta a velocidade de suas
estocadas.
Caldo.
Finjo estar gozando, gemo alto e fico mole. Ele estoca fundo, urra e
goza, desabando sobre mim. Fica assim por alguns minutos, depois se deita
ao meu lado, sem me tocar. Não esperava nada diferente. De repente, ele se
levanta, vai até ao banheiro e bate a porta. Permanece lá por uns quinze
minutos. Quando sai, finjo estar dormindo. Sinto sua respiração sobre mim,
ele tira meus cabelos do meu rosto e depois se deita.
Quando ele se entrega ao sono, vou ao banheiro me lavar. Esfrego-me na
intenção de eliminar tudo que Salvatore deixou sobre meu corpo.
Em frente ao espelho, me pego sorrindo. Ainda vou dominar esse
homem, e, quando isso acontecer, vai ser a sua ruína.