Hoje é meu aniversário, mas não há bolos nem festas.
Só o eco frio de uma emboscada nas ruínas, o gosto de sangue na boca e a visão turva de Patrícia, minha prima, fugindo com o diário do meu pai e o mapa que me levariam à verdade.
Com minhas últimas forças, liguei para minha mãe, Dona Clara, buscando uma última conexão.
Sua voz, entretanto, cortou-me como um açoite: "O que você quer, Sofia? Estou ocupada comemorando com a Patrícia. Você não podia ter escolhido um dia pior para me perturbar?"
A menção de Patrícia foi um golpe fatal, e quando tentei chamá-la de "Mãe", a resposta gelada veio: "Não me chame de mãe. Você sabe o que este dia significa. É o dia em que você tirou seu pai de mim com essa sua obsessão doentia. A Patrícia, sim, ela é uma filha de verdade, ela me dá alegria, não dor. Francamente, Sofia, eu só tenho um desejo para você neste seu aniversário."
"Espero que você morra."
E de fato, seu desejo se realizou.
Agora, meu corpo jaz desfigurado em uma gaveta fria da morgue, e adivinhe quem é a perita chamada para investigar meu brutal assassinato?
Ela mesma.
Minha mãe, a mulher que me amaldiçoou, agora me examina como um objeto, cega para a verdade bem à sua frente.
Quão irônico é o destino, não é mesmo? Minha própria mãe, a única que pode desvendar meu assassinato, é a que menos deseja me ver. Mas desta vez, a verdade não pode ser evitada.
Hoje é meu aniversário, o mesmo dia em que meu pai desapareceu na Amazônia há dez anos, e também o dia em que minha mãe, sem saber, está a caminho para analisar meu cadáver.
A ironia é tão densa que quase posso tocá-la, mesmo neste estado etéreo em que me encontro.
A dor da emboscada nas ruínas antigas ainda pulsa como uma memória fantasma, o frio da pedra contra minhas costas, o gosto de sangue e terra na boca. Patrícia, minha prima, com seu rosto contorcido de inveja, roubou o diário do meu pai e o mapa, me deixando para morrer.
Com minhas últimas forças, peguei o celular. Entre os tremores e a visão turva, disquei o número da minha mãe, Dona Clara. Eu só queria ouvir sua voz uma última vez, uma busca desesperada por uma conexão que perdemos há muito tempo.
O telefone chamou, cada toque um eco no silêncio da ruína. Finalmente, ela atendeu. Sua voz era como gelo, cortante e impaciente.
"O que você quer, Sofia? Estou ocupada comemorando com a Patrícia. Você não podia ter escolhido um dia pior para me perturbar?"
A menção do nome de Patrícia foi como um golpe físico. Tentei falar, mas apenas um som borbulhante saiu.
"Mãe..."
"Não me chame de mãe," ela cuspiu. "Você sabe o que este dia significa. É o dia em que você tirou seu pai de mim com essa sua obsessão doentia. A Patrícia, sim, ela é uma filha de verdade, ela me dá alegria, não dor. Francamente, Sofia, eu só tenho um desejo para você neste seu aniversário."
Houve uma pausa carregada de ódio.
"Espero que você morra."
A chamada terminou. E, de fato, o desejo dela se realizou.
Agora, o telefone de Dona Clara toca novamente. É do departamento de polícia. A voz do outro lado é profissional e sombria. Um corpo foi encontrado em umas ruínas antigas nos arredores da cidade. Um caso de homicídio brutal. Eles precisam da melhor perita da região para liderar a análise da cena do crime.
Eles precisam dela.
Minha mãe, a mulher que me desejou a morte, agora é a única que pode desvendar a verdade sobre meu assassinato.
Ela chega à morgue improvisada, seu rosto uma máscara de profissionalismo frio. O local fede a produtos químicos e morte. Ela veste seu jaleco branco, a postura rígida, os olhos focados.
E então, eles puxam a gaveta.
Meu corpo está ali, sob a luz fria e estéril. Desfigurado, quebrado, mas ainda eu.
Ela se inclina, com luvas, seus instrumentos em mãos. Ela analisa os ferimentos, a causa da morte, as marcas de tortura com uma distância clínica. Ela anota observações em sua prancheta, a caligrafia firme.
"A vítima sofreu trauma contundente na cabeça, múltiplas fraturas. Sinais de contenção nos pulsos," ela dita para o gravador, sua voz sem emoção.
Ela toca meu rosto, ou o que restou dele, para verificar a rigidez cadavérica. Suas mãos, as mesmas que uma vez me embalaram, agora me tratam como uma peça de evidência. Ela está tão perto, mas tão cega. A mãe que me amaldiçoou agora examina meu corpo sem derramar uma única lágrima, sem um pingo de reconhecimento.
A tragédia não é apenas a minha morte. É a dela também, só que ela ainda não sabe disso.
Dona Clara entrou na cena do crime nas ruínas como se estivesse entrando em seu laboratório, com uma autoridade que silenciava os murmúrios dos policiais mais jovens. O ar estava pesado com o cheiro de terra úmida e algo metálico, o cheiro do meu sangue.
Sua jaqueta de couro preta estava impecável, mas um olhar mais atento revelaria uma minúscula migalha de glacê de bolo presa perto da lapela. Um resquício da celebração de Patrícia que ela teve de interromper. Uma pequena prova de onde estavam suas prioridades.
O detetive-chefe, um homem grisalho chamado Mendes, aproximou-se dela com respeito.
"Clara, obrigado por vir. Sei que hoje é um dia complicado para você. Ouvi dizer que era a festa da sua sobrinha."
"O dever chama, Mendes. O que temos aqui?" ela respondeu, os olhos já varrendo a área, ignorando a menção à sua vida pessoal.
"É um dos piores que já vi," disse Mendes, o rosto sombrio. "Quem fez isso era um animal. A violência é... extrema. Deixaram o corpo aqui para ser encontrado. É uma declaração."
Enquanto eles conversavam, um oficial mais jovem se aproximou, hesitante.
"Detetive, recebemos um relatório de pessoa desaparecida que pode estar relacionado. Uma estudante universitária. O nome dela é Sofia."
A reação de Dona Clara foi imediata e visceral. Seu rosto se fechou, a mandíbula travou.
"Não pronuncie esse nome na minha frente," ela disse, a voz baixa e perigosa. "Essa pessoa não tem nada a ver comigo e certamente não tem nada a ver com este caso. Foque no que importa."
O jovem policial recuou, intimidado. Mendes lançou a Clara um olhar de desaprovação, mas não discutiu. Ele sabia do seu histórico familiar.
Ela se ajoelhou ao lado da marca de giz onde meu corpo foi encontrado, seus olhos de especialista captando detalhes que outros perderiam.
"A julgar pela rigidez e livor mortis, a hora da morte foi há aproximadamente doze a quinze horas," ela murmurou, mais para si mesma. "Os ferimentos indicam uma luta. Ela resistiu. As fraturas nos antebraços são defensivas."
Ela se levantou e caminhou pela área, sua mente trabalhando, reconstruindo meus últimos momentos com uma precisão assustadora.
Eu assisti, um espectro invisível, enquanto minha mãe descrevia a brutalidade que sofri. Lembrei-me do pânico, da dor lancinante quando Patrícia me atingiu com uma pedra, de novo e de novo. Lembrei-me de implorar, não pela minha vida, mas para que ela parasse.
"Mãe," eu sussurrei no vento, enquanto ela tocava o chão manchado de sangue. "Sou eu. Por favor, me veja."
Mas ela não via. Ela via apenas um quebra-cabeça a ser resolvido.
Sua atenção foi atraída por algo brilhando na terra. Ela o pegou com uma pinça. Era um pequeno fragmento de metal, parte de um fecho.
"Isso parece ser de uma corrente ou pulseira," disse ela a Mendes. "Barato, provavelmente bijuteria. Nosso assassino pode ter arrancado durante a luta. Vamos mandar para análise."
Meu coração fantasma se apertou. Era parte da bússola antiga do meu pai, que eu usava em uma corrente no pescoço. A mesma bússola que ela me deu de presente em meu último aniversário antes do desaparecimento dele. Um detalhe tão íntimo, tão pessoal, e para ela era apenas uma pista anônima.
Mendes balançou a cabeça, perturbado. "A crueldade disso... me lembra de alguns casos antigos. Lembra daquele caso de dez anos atrás, Clara? O explorador que desapareceu na Amazônia? A família ficou devastada. Você foi tão solidária com eles na época."
O rosto de Dona Clara endureceu ainda mais, uma parede de gelo se formando sobre suas feições.
"Não vamos misturar os casos, Mendes. Isso é diferente," ela disse bruscamente.
Ela se virou para a equipe forense. "Quero uma varredura completa. Coletem todas as fibras, amostras de solo, qualquer coisa. E mandem as amostras de sangue e tecido do corpo para um teste de DNA urgente. Quero uma identificação até amanhã."
Ela deu as ordens com uma eficiência fria, cada palavra um passo que a levaria, inevitavelmente, à verdade que ela se recusava a ver. A perita estava no caminho certo, mas a mãe estava completamente perdida.